Gustavo Petter
Disse lâmina,
mas querias
ouvir morfina.
Não lhe dei esperanças:
provavelmente vais morrer
e não sei o que há além.
A ideia de paraíso muda
de cultura para cultura.
O que esboçou-me alguma fé
foi ler Dostoiévski:
Se Deus não existe tudo é permitido.
Mostrei-lhe as unhas
roídas até a carne.
Ardem.
Impedem-me penetrar o ânus azul
do futuro.
Acaso sobrevivamos
prometo
acariciar teus cabelos
com dedos
e alma
intactos.
***
ver o cadáver
emoldurado por corolas.
o cão enterra os ossos
para roê-los outrora.
quereria em chamas
às margens do ganges
ou mumificado sob a neve,
a caminho,
cume
no ar rarefeito.
o cão desenterra os ossos
o homem relembra
na solitude
olhos fixos num lume:
navio
astro
ou
ponta de cigarro.
***
Na órbita de veludo
naufragam
locomotivas insones.
Em voz noturna
sussurra-se o nome:
cu
astro obscuro.
Leito desfeito,
rascunhos,
livros e copo vazio
no criado mudo.
Sanatório dos arcanjos,
café da manhã até as nove,
após as onze
cobra-se outra diária.
Quem decretará imóvel
o poema?
Gema lapidada?
Não há término:
ininterrupta
temporada no inferno.
***
Os olhos de outra
não capitu
contemplam
a ressaca.
Dentro do crânio
ritmo
tão convulso
quanto.
Os olhos de outra
quiçá capitu
capturam
cores e curvas
em busca
de alguma
cura.
Os olhos de outra
também capitu
decapitam o mar.
Movimento
de guilhotina.
Recapitulando:
A face
desfaz-se
em branca
espuma
(disfarce?)
***
I
Não movo um músculo
Só outra pedra na praia
Pousa-me o crepúsculo.
II
Súbito ilumino-me
São moluscos os sapatos
Calço-os e parto.
Sou Gustavo Petter, nasci em 1984. Moro em Araçatuba/SP. Para mim signos eróticos e obscenos, anti-religiosos, meta-poéticos e associações livres coabitam com a materialidade da palavra e uma contemplação oriental no corpo do poema. O poema não admite policiamentos morais, estéticos. A liberdade possível é a linguagem.