Aperitivo da Palavra

Mais que invisível

Por Clarissa Macedo

Francisco Carvalho / Foto: divulgação

A poesia é uma instância muito contraditória. Contraditório, e curioso, é também o mercado que a promove. Contradições à parte, há na literatura mundial verdadeiras preciosidades escondidas ou pouquíssimo reveladas, seja por se encontrarem fora do circuito econômico central do país, seja por não estarem inseridas na mídia. O Brasil guarda muitas dessas pedras lapidares. Prova disso é o chamado “homem invisível”, o poeta Francisco Carvalho.

Autor de mais de 20 livros, quase todos de poesia, sendo um ainda inédito, o cearense de Russas, Francisco Carvalho, deixou, no mês de março deste ano, estas planuras como um desconhecido para a parcela maior do povo brasileiro. Injustiça sem tamanho, haja vista o autor de Quadrante Solar ser “Dono de uma obra poética de qualidades inquestionáveis”, além de volumosa.

O cantor Fagner musicou alguns dos textos de Carvalho no álbum Donos do Brasil, que rendeu ao poeta mais leitores. Sem nos debruçarmos aqui sobre a belíssima leitura que Fagner fez de alguns poemas do homem “invisível”, o que podemos afirmar, sem temor, é que a poética de Francisco Carvalho é forte, sem engasgos e fórmulas universitárias de laboratório – as quais são aderidas por muitos escritores contemporâneos nacionais. Além disso, contrariando, ao que parece, uma de suas maiores características, a timidez, seus poemas são exibidos. Exibidos como aqueles que, escondidos sob a capa do livro, arrebatam o leitor ao primeiro contato. Basta um poema, para que fiquemos destinados a ler, incansavelmente, os demais.

Adepto da inspiração como caminho para alcançar a verdadeira arte, é o próprio, em uma das poucas entrevistas que concedeu, que aponta: “Tem-se vontade de escrever um poema da mesma forma que se tem vontade de fazer amor. Tem de existir certo clima de sedução e de cumplicidade para que o poema comece a existir. Têm de existir motivações, de ordem interior ou exterior, uma espécie de senha para que o poema comece a acontecer. O poeta constrói o poema, a emoção desenha o ritmo.”. E é este “clima”, talvez, um dos maiores motivos para sua obra ser tão expressiva e marcante – aspectos que podem ser verificados nestes versos:

Poema da Embriaguez

Bebem uns por desprazer,
astros, flor, vinho, absinto.
Bebem Deus para o esquecer.
Eu só bebo o que não sinto.

Outros bebem por desvelo,
solidões, o amor que dói.
Bebem Deus para esquecê-lo.
Eu só bebo o que não foi.

Outros bebem sal do mar,
azuis de ontem e hoje.
Bebem Deus para o matar.
Eu só bebo o que me foge.

Alguns bebem céus e ventos,
som, memória, espera e gesso.
Bebem Deus e anjos imensos.
Eu só bebo o que me esqueço.

A morte, o inevitável encontro, revela-se como um caminho para a sagração e um maior reconhecimento, quase sempre arbitrário, daqueles que são levados por ela. Para a obra de Francisco Carvalho, cuja matéria poética merece muitos estudos, tal reconhecimento, se vier, será justo e apropriado.

(Clarissa Macedo é baiana. Trabalha como revisora, escritora e produtora. Está concluindo o Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Está presente nas coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011), Verso e Prosa – Oficina de Criação Literária III  e  IV Feira do Livro (2011 e 2012),  e no livro teórico Sem comparação: Torga, Rosa e cia. limitada (2013). Publicou na Verbo21, no site Musa Rara, no Barcaças, em A Poesia do Brasil, nesta Diversos Afins, na 7Faces, na Blecaute. Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia. É colunista do site Viva Feira)

 

 

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7 Comentários

  1. Muito bom. E há tantos bons poetas desconhecidos, esperando a morte, quem sabe ela…Adorei o artigo e o poema.

  2. Clarissa é uma mulher muito atenta, uma estudante aberta ao mundo, à poesia. O seu texto sacode o meu desejo de conhecer, aprofundar e um dia saber mais sobre o Poeta Francisco Carvalho, e sobre tantos outros que desconheço. Enquanto houver escritoras e escritores assim, teremos mais espaços. A poesia terá mais visibilidade. Beijos, Clarissa! Parabéns, Fabrício e Leila pela sensibilidade.

  3. Justo e apropriado, sem dúvida. Belo texto, Clari. Parabéns.

  4. A poesia de Francisco Carvalho foi uma descoberta recente para mim. Desde então garimpo poemas seus com os quais preencho meus dias de Nordestino ausente da terra nata.
    O Nordeste, o Ceará, o Serão estão ali.

    um abraço

    Chico Pascoal
    Escritor

  5. Terminei “Poema da embriaguez” e saí sedento procurando outros versos de Francisco Carvalho.

    Clarissa, obrigado por me apresentar!

    Um abraço

  6. Surpreendente nesses tempos, devia ser habitual, estudantes, jovens poetas se debruçarem neste exercício do enigma da Poesia lendo e mensurando pontas do seu tempo, esquecido, poetas brasileiros.

  7. Muito bom seu texto, Clarisse. Gostei de Francisco de Carvalho.

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