pegue, helena, vamos dessacralizar a militância: pessoas e interesses e planilhas orçamentárias de partidos projetadas em assembleias precisam de dinheiro, helena, armas são caras, impulsionamentos em redes sociais são caros, subornos são caros, campanhas de conscientização são caras, licitações são caras, brindes, cartazes, faixas, helena, colchões, cobertores, botas, tickets: caros, e a origem dos depósitos que darão fôlego à luta?, não se inquiete, é por uma ótima causa, helena, eu juro, apesar da corrupção, é a lida, fundamental é a abundância: o ativismo, o partido, a entidade, os desvalidos reconhecem: um dia o município ficará abarrotado de estátuas de bronze em minha homenagem e, helena, elas não são nada baratas.
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cuidado com o embrulho na calçada
o policial ergue os braços para cumprimentar os colegas na viatura subindo a avenida: os mendigos revoam, alarmados (pessoas em situação de rua, corrigirão os militantes de coletes laranjas, que aportam, com faixas, depois de removido o corpo): depois retornam, passos miúdos, ariscos, abaixam os pesares até o contorno do amigo sob a manta térmica, a assepsia metálica blindando a indigência, ele não brindará mais a afeição que nunca lhe negou um gole nem o amor picando a veia num enlace jungido e ninguém se atreve a perguntar quem velará o companheiro, quando o levarem.
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estratégia de dissolução
o medo atocaia os passos noturnos, que esmiúçam a fuga: os postes na rua balbuciam a claridade impetuosa: inútil clareira a realçar o breu, lá dentro, nas mansões assistindo, às vezes, a vida na rua, não aceitam a existência do medo, mas lacram as portas, os dedos sapateiam ferozmente sobre a tela do celular, propagando mentiras (esses ladrões, esses drogados, vão acabar com o bairro): o terror entra, liga a tv, senta no sofá e bebe uma cerveja, eles compreendem o preço do pânico: convencem os amigos que a desordem prevalecerá, arrancam o medo dos outros e o substituem por uma arma: em nome da justiça, dos costumes, da moral, dos bons costumes, da fé, imploram a mediação da bala: de onde virá o disparo?
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o apetite imaculado
eles têm vontades, mas a rua não é lugar para isso, é uma indecência: quantas opiniões no whatsapp do condomínio: melhor chamar a polícia, melhor o corpo de bombeiros, melhor o padre, melhor a assistência social, outro dia ele tirou aquilo para fora e mijou em plena calçada, eu vi coisa pior, eles têm vontades, também levaram a barraca!, onde fornicarão?, cristo disse: vá e não peques, a discussão avança no grupo do edifício himalaia: outro dia o vaivém debaixo do edredom, um horror, será que usam proteção?, anticoncepcional?, a mulher sofre de convulsões, deve ser epiléptica, ela parece mais barriguda, será que engravidou?, ele fez vasectomia, ele me contou quando fui deixar uma sopa, tem uns meses, ufa, ainda bem, seria uma tragédia, como conseguiriam cuidar de uma criança?, essa pouca-vergonha em frente ao prédio, não pode, será que a prefeitura não leva os dois pra outro lugar?, em época de eleição eles costumam agir, alguém liga lá?
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a palavra alimenta
o dorso acobertado pelo piso, as cabeças lado a lado se revezam num tremor controlado, os olhos cerrados contra o esplendor do dia, até que um homem se aproxima, pede licença, está com alguns pães com mortadela enrolados em um saco transparente, em nome de deus faz a doação, se desculpa porque é só o que pode doar hoje, mas jesus há de prover, aquele que vem a mim nunca terá fome, você certamente foi até ele e eu estou aqui para saciar sua privação, os homens se endireitam, é bom ganhar comida logo cedo, o almoço garantido, graças a um desconhecido, que pede um abraço a ambos e eles aceitam, os três se juntam neste gesto, enquanto, não longe dali, alguém grava tudo.
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planejamento
complicado obter o documento: a identidade faz par com o título de eleitor, basta se encaminhar para a seção, a diferença é o deslocamento gratuito no domingo, o colégio a dezenove paradas, é apertar o número do candidato, o botão verde, a música confirma o voto, torce pela indicação do deputado: que cumpra o pacto de aprovar um programa e tirá-lo da mendicância!, conquistar uma suíte de hotel, a nova política possibilitaria a estabilidade, a locação de um quarto-e-sala: fantasiar uma noiva e, talvez, apresentá-la à sociedade que, finalmente, o acolherá.
Whisner Fraga nasceu em Ituiutaba, MG (1971) e atualmente reside em São Paulo, é professor universitário e autor de mais de uma dezena de livros de ficção, tendo contos traduzidos para o inglês, alemão e árabe, escreve para o coletivo “crônica do dia” e mantém o canal “acontece nos livros”, no youtube, em que resenha obras de escritores contemporâneos, é editor na sinete.
Urucutuques é um remanso. Não há turistas com camisas floridas e protetores solar, tampouco hipsters com tatuagens coloridas e barbas bem cultivadas, muito menos DJ’s ou headbangers. Acho que nunca vi um policial fardado, em patrulha. Na verdade, lembro de um que frequentava a praça principal, mas ele não usava arma ou colete e sua ronda se limitava a uma partida após a outra de dominó.
Era como se a cidade tivesse estacado em algum dia da década de 70 e uma parte de sua alma continuasse lá, preservada em um tipo de inocência que não serve para muita coisa, a não ser que o sujeito tenha desistido ou se esquive de grandes emoções. E era justamente desse jeito que eu andava, um bocado esquivo, e continuaria assim “ad infinitum”, não fosse uma inesperada ventura que me veio através do que lá fora chamam de wake up cool ever – acho que é isso -, que significa, basicamente, uma chamada de consciência absoluta. Um dia, de frente para o espelho, do nada dei de procurar o indivíduo que achava que era. Meia hora ali, em uma extenuante busca. Não o encontrei. Em seu lugar, um quase estranho, aquele tipo com quem cruzamos na rua e vasculhamos na memória de onde conhecemos. Sentia que passava por algum tipo de despertar e que havia algo de espiritual naquilo.
De toda maneira, lá estava eu, distraído, a caminhar pelas ruas de Urucutuques com sacolas de compras nas mãos, quando escutei a sua voz:
– Que tal uma cerveja?
Devia ter uns trinta e poucos anos, cabelos alisados e pintados num tom acaju, a alça do vestido caindo até o meio do braço. Seu rosto era bonito, mas desgastado. Estava em uma das mesas de um bar que, na fachada, tinha escrito “Supermercado Iguatemi”.
– Estou resolvendo umas coisas.
– Resolve depois.
– Não posso.
– Tá com medo?
– De quê?
– De mim.
– Ainda não deu tempo.
Ela sorriu. Não tinha um canino e um pré-molar.
– Gostei de você. Vou ficar aqui, te esperando. A vida foi feita pra se viver.
Não encontrei Lucky Strike na banquinha e acabei comprando uma carteira de Broadway, que me causava um pigarro enorme. Fui até o carro e arrumei as sacolas no banco do passageiro. Bastava ligar o motor. Meia hora de ramal. Colocaria uma música e a viagem seria rápida e agradável. Antes de girar a chave, no entanto, pensei nela. Havia qualquer coisa diferente nos seus olhos – esperança ou fé -, embora também tenha enxergado um tanto de desespero e loucura. A vida tem que ser como um rio em dia de temporal, imaginei-a dizer para alguém, ajeitando o cabelo sobre os olhos. Fechei o carro e caminhei até o bar.
Estava na mesma mesa, agora acompanhada de uma larga morena. Sentei em uma das cadeiras, tirei um Broadway da carteira e o acendi.
– Daiane, pega uma cerveja – ela disse para a morena. – O moço tá com sede.
Daiane me olhou e, em seguida, se levantou e seguiu, balançando sua enorme bunda de um lado para o outro, rumo ao balcão onde havia um velhote mal encarado usando boné.
– Isso aqui era um mercado?
– Acho que sim. Agora é bar e puteiro.
– Não imaginei.
– Ficou decepcionado?
– Não tenho problemas com bares ou puteiros.
– Que bom. Tenho um quartinho limpo lá atrás. Quer conhecer?
– Agora, não.
Daiane retornou e serviu a cerveja; primeiro, no copo delas e, depois, no meu. Dei grandes goles, a escutar aquela mulher falar. Dizia se chamar Marisa, crescera em uma área rural longe dali e tinha uma filha de oito anos que vivia com a avó. Chegara a Urucutuques há três meses. Achava a cidade parada, a não ser nos dias de sábado, quando os trabalhadores das fazendas vinham fazer compras e beber. Uma leve brisa cortava a rua da feira, bem à nossa frente, e trazia até nós o cheiro de verdura apodrecida, que se misturava ao da cerveja que secara sobre o piso. Algumas moscas graúdas revoavam à nossa volta.
– Nunca te vi por aqui.
– Venho pouco à cidade. Passo no mercado, na padaria e volto pra casa.
– Deve ser casado.
– Não.
– Algum motivo essa pressa tem.
– Sou só um sujeito que gosta de solidão.
– Eu não ligo se você for casado.
Além de despachar as cervejas, o velhote colocava discos pra tocar. Naquele instante, em duas velhas caixas de som penduradas na parede, Silvano Sales se esgoelava, a rimar castigo com abrigo. Eu conhecia aquela música e, como havia bebido alguns copos, cantei o refrão.
– Ih, tá apaixonado – Daiane falou.
– Parece?
– Muito.
– Daiane, você é uma garota esperta, que deve conhecer os segredos da vida, mas errou nisso. O que acontece comigo na realidade é algo bem diferente de paixão.
– Tá desiludido – Marisa disse.
– Também não. O que tá rolando, como os gringos dizem, é um negócio chamado Wake up cool ever.
– Que porcaria é isso?
– É como se, de repente, num susto, eu tivesse começado a entender o que é que vim fazer aqui.
– E o que você veio fazer aqui? – Marisa quis saber.
– Ainda não descobri.
– Me conta, quando souber.
– Pode deixar.
Daiane se levantou.
– Vou pegar outra.
Bebemos mais duas ou três. Minha língua começava a enrolar, quando fiz um brinde a todas as coisas boas que ainda nos aconteceriam. Os copos estalaram no ar.
– Que tal ir lá no quarto agora?
– Hoje, não, Marisa. Mas volto qualquer dia desses.
Ela fez um muxoxo.
De onde estava, vi dois cachorros muito magros cruzando, uma senhora varrendo a calçada em frente a sua casa e outra senhora a caminhar com uma Bíblia na mão. O sol começava a se pôr – o sol laranja de Urucutuques, uma panela de ouro a reluzir o seu brilho sobre o teto de velhas casas. Em alguns minutos, ele começou a se esconder atrás do horizonte e o céu mudou de cor: do azul claro se transformou em amarelo, depois ficou lilás, azul marinho, até que, subitamente, a noite chegou. Eu poderia estar em casa, tentando escrever alguma coisa, a escutar o barulho dos sapos e dos grilos, mas estava ali, num puteiro com o letreiro “Supermercado Iguatemi”, a imaginar que existia algum significado naquilo e que a única coisa que precisava fazer era ficar mais um pouco. Como se aquilo tornasse a vida algo ainda mais cômodo e confortável. Ou, também pensei, como se, de algum modo, eu tivesse feito uma jornada no tempo e regressado a um dia qualquer de 1976.
Rodrigo Melo escreve prosa e poesia e tem quatro livros publicados. Vive em Ilhéus, Sul da Bahia.
A cabeça ainda doía pela insônia. Na madrugada, lutei com aqueles pensamentos borbulhantes que fermentavam alternativas de respostas para nossa discussão.
Sovei bem essa massa de opções e a cozinhei no lado esquerdo do cérebro. Transformei tudo em produtividade e encarei meu primeiro banho do dia tentando sentir a energia da cromoterapia, efeito da lâmpada recém instalada no box. Última moda de relaxamento inconsciente do mercado.
Na noite anterior brigamos feio. O pior é que ele me deixou falando sozinha, mal respondia meus argumentos. Deve ter achado que agir assim resolveria. Até agora no café, pelo jeito, pretende ficar sentado à mesa sem me dirigir uma palavra.
Ainda não parei hoje, até esse momento do barulho ensurdecedor do liquidificador. — Quando compramos dizia ser o mais silencioso! Sigo na tentativa simulada. — O quê? O que você falou?Não escuto fazendo a vitamina!
Nada, indiferente. Ele bem sabe, que nada me irrita mais.
Ignorarei também. Afinal são 7h e eu já fiz minha meditação, exercícios faciais e os de “barriga negativa”. Check na primeira hora do dia. Pronta, não preciso da aprovação dele.
Os gêmeos, na correria matinal para a escola, não reparam na nossa falta de diálogo. Mal sentam à mesa, já levantam com a comida na mão falando combinações que só entre eles são compreensíveis. A caçula, no fone, nem que quisesse participaria da conversa, se houvesse alguma.
As crianças mandam um tchau de longe e ele nem olha. Isso já é absurdo. Nosso combinado sempre foi não misturar nossas discussões e o relacionamento pais-filhos. Meu nervoso só aumenta e desconto batendo em tudo enquanto procuro aquela lixa de unha que nunca está onde a deixei.
Agora vai se levantar e sair da mesa, no mínimo, para se fingir de incomodado com minha loucura.
Permanece quieto.
Então é guerra. O que era um conflito por temas banais, totalmente passível de resolução rápida e com bom senso, tornou-se daqueles que durarão o fim de semana. Incluindo sogra, cachorro, periquito e papagaio.
— Oi Alice! Sim, já estou descendo. Claro, faço questão. Mas na volta do happy hour hoje, você dirige porque é meu turno, lembra? Desligo o celular que fiz questão de atender ainda no apartamento.
Não, as vizinhas-colegas de trabalho-amigas de vale night ainda não estão na cota para serem afetadas pela briga conjugal.
Calço meu salto, bato a porta, chamo o elevador.
— Ai, esse salto não! Lembro que tirei o sapato de dirigir do carro, para limpar.
Escancaro a porta, reparo aquela nuca impassível, concentrada permanentemente no vídeo do celular. Toc toc toc toc, meus saltos pisoteiam o flutuante a ponto de quase se partirem, mas a tal série repetida deve ser mesmo mais interessante que resolver de vez a confusão.
Nessa altura, um olhar bastaria. Um — Mirela, me exaltei ontem, estou quieto repensando. Não. Só meu salto raspando na cabeça dele enquanto calço a Crocs.
Dessa vez não bato a porta. Cumprimento o vizinho de andar que segurava o elevador. — Obrigada! Bom dia! Quase terminando a semana, não?
No trabalho debatem o assunto noticiado pela manhã: um feminicídio ocorrido ali perto. Em plena luz-do-dia, o ex-marido com arma branca. — Em que mundo vivemos. — As mulheres não têm mais lugar. — Em casa está ainda mais perigoso. São os comentários dos que anseiam por uma justiça urgente. Fico sem saber o que falar. Compartilho do sentimento póstumo, mas me aterroriza o antes, em como relações chegam a esse ponto.
Após o almoço e com a fome ainda presente resultante da marmita fitness, olho constantemente o celular para checar o status online. Nada. E isso me surpreendeu. Só pode ter decidido fazer home-office, se afundou na vergonha de alhear-se a família e intensificou o trabalho.
— “Mãe, tem q autorizar nossa participação no campeonato do futs! E tem q ir junto”. É a mensagem que encontro no grupo da família. E continua… — “Viu, mãe? Pode ser? Vc marca lá no app da escola”. — Meninos, vocês sabem que assunto de futebol é com o pai de vocês! Minha chance. Joguei a isca, agora é aguardar.
— Ele não responde. Faz aí mãe. No dia ele vai. — Faço só isso então. Não posso perder minha trilha do sábado, já que domingo cozinho a comida da semana.
— “E antes tem q me deixar no coral, mãe!” — Sim filha. Feito meninos, agora peçam pro pai e me avisem.
Não fisguei ainda, mas coloquei gente para me ajudar. E não, eles ainda não perceberam nada.
A noite seguiu como esperada. Dois Mojitos para alegrar a conversa previsível das amigas sem intimidade e a cabeça na mesa do café. Por isso, o efeito do terceiro foi no #tbt da nossa última viagem de casal, com a legenda “amor pra vida toda”. Cansada dessa briga arrastada, da qual já nem me lembro o motivo.
Agora ele foi marcado, vai ver e abrandar aquele coração que só eu sei como é mole. Estou até agora sem entender qual das nossas falas rompantes o fizeram se chatear tanto, a ponto de desaparecer das nossas vidas.
Só quero logo que a motorista da vez se canse; libertar meus pés; tomar meu segundo banho e rir dessa confusão toda. E que as pazes não se prolonguem porque tenho minha leitura diária antes de dormir.
— Tchau querida, adorei! Sempre bom! Mês que vem deixa comigo.
Ao final de um suspiro, no espelho do elevador, reparo meu rosto. Quando foi que envelheci assim? Passo alguns segundos tentando entender o que faço ali, naquele lugar. Olho para os botões e não sei qual apertar. Apenas alguns segundos, de branco total, um frio no estômago como em uma queda livre. Por fim enxergo o 17. Isso, é ali.
Tudo quase volta ao normal, não fosse a indignação e decepção. A rotina cronometrada deveria estar mais eficiente, acho que falta incluir algo. Quem sabe nos 15 minutos restantes do almoço — Google, encontre um app para estimular memória após os 50. Talvez dormir seja uma boa opção. Um abraço apertado com autorização para choro sem porquê, também. Mas não, esses não aparecem na lista de trends.
Abro a porta com cuidado. Escuto o videogame dos gêmeos e as tentativas de afinação da caçula. Olho para a mesa e não seguro a risada.
É sempre assim que ele me ganha. Resolvendo tudo com bom humor. Como conseguiu voltar para a mesma posição da manhã?
— Oi Marcelo! Também senti sua falta. O salto enfim não resiste e se quebra com meus braços ainda em movimento para o abraço estalado pelas costas e um cheiro no cangote, quando tropeço e seguro no ombro dele com tudo.
Ele tomba devagar, para o lado, e bate a cabeça na parede. Um pedaço da orelha cai no chão.
Solto um grito atordoante.
As crianças aparecem esbugalhadas no corredor.
Me agacho trêmula e pego o pedaço da orelha. Do lado de dentro um papel, algo escrito em um tipo de etiqueta.
Com a vista turva pelo medo e assombro leio:
Modelo Cyborgue Yi1723. Para atualização de sistema e recarga de bateria abra o QR CODE.
Cecília Vieira é brasiliense, mãe de dois meninos e mestre em RH pela Universidade de Salamanca, Espanha. Estreou na literatura infantil com o “Marina a girafa que queria ser estrela”, na Bienal SP/22. É contista em coletâneas e revistas literárias. O conto “Perfeitamente equilibrado” foi um dos vencedores do 19º Prêmio Mário Quintana de Literatura. Lançou em 2023 o ebook “Guadalupe sobre um tapete de mangas” e o livro “Se tudo der errado não volto”, pela Caravana. Siga a autora em @cecivieira_eu.
Uma pequena falha de caráter? Um desvio grosseiro, pecaminoso? Retomei uma crença que havia se perdido no tempo, no meio de tantos ensaios à sabedoria, quando achava que o homem era o único ser supremo: a fé cristã. Nunca, no entanto, consegui me desvencilhar de uma culpa católica. Nas orgias que preparava em casa, sempre no dia seguinte me batia uma depressão, uma tremenda culpa me pesava, como se eu fosse o pior dos homens; deixei de visitar minha mãe, porque não conseguia lhe encarar; “O que ela iria dizer de um filho pervertido?”, refletia. Sim, passados dois ou três dias, quando os colhões estavam latejando de luxúria, eu me enfiava, de novo, entre as pernas do Naldo, no trabuco da Jeniffer ou na bunda da Sofia, um(a) de cada gênero ou espécie, como queira. Houve o dia em que reuni os meus três fantoches preferidos numa sauna alugada só para a gente. Foi uma fortuna. Apliquei praticamente toda a minha poupança nessa experiência, que julgava ser a última; havia sido diagnosticado com câncer de pele. Sobre o câncer, digo que foi um blefe do destino, porque o médico, muito competente, tirou a área afetada e não foram precisos maiores cuidados. Já estou em fase de remissão; considero-me curado. Luto para juntar algum trocado para pagar contas antigas, inclusive de débito com a sauna. Os ou as três mosqueteiros ou mosqueteiras me abandonaram. Eu também os(as) abandonei. Na primeira semana em que fiz a cirurgia – que foi um sucesso, segundo o médico –, voltei à igrejinha do Menino Deus. Fazia, pelo menos, uns dez anos que não pisava ali. Ajoelhei-me e chorei, pedindo perdão a Deus, por meu egoísmo, por um vício meu, só meu, que eu não sabia controlar. A promessa que fiz resultou em um sacrifício e uma obrigação, que entregava a Deus, de não me entregar mais à perversão. Lembrava-me de quando era menino e puro, e não pensava em sexo ou coisas do tipo. A minha luta diária é para pensar e sentir a beleza das flores, o silvo dos ventos do sul e a magnitude do rei Sol. Amargo uma dívida pior, que não serei capaz de saldar em vida. Minha mãezinha está com Alzheimer. Justamente na minha conversão, minha mãe perdeu os sentidos para acompanhar a dádiva. O que resta de memória para ela – se é que resta –, é para brigar comigo, me chamar de “menino maligno”, algo que, mesmo sabendo que ela fala por falar, me dói profundamente. Essas são a minha adaga e o meu pendor. Entendi que devo suportar tudo isso, para a minha verdadeira redenção. Noutro dia encontrei Sofia, no centro, e ela me recomendou uma boa trepada para eu mudar o meu humor. Disse a ela que o meu coração é novo – ainda que tentado por aquele rabo espetacular.
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Só por hoje
Noite clara. Tempo manso e veloz. Uma rasga-mortalha mandou o seu canto fúnebre. Minha mãe dizia que o canto indicava casamento ou morte. Como se fossem os opostos: felicidade e tristeza. Eu estava na linha dos acontecimentos. E brutalmente acometido de melancolia. Guinha, meu amigo de infância, disse que isso tinha a ver com o abuso no consumo de drogas; que ele também estava assim, ferido, abatido. Namorava com Érica, que, cravada de obsessão, sempre que brigávamos dizia que ia se matar. Ela, sim, era doente em alto grau – e, à época, eu não achava que uma palavra do que dizia fosse verdade. Era, além de tudo, dramática. Numa queda, em que ralou o joelho, quis ir ao hospital para fazer exames, porque jurava ter fraturado a rótula. O drama foi dissipado com um tranquilizante, que os médicos deram, alegando que ela estaria, possivelmente, com síndrome do pânico; que era algo muito corriqueiro, dada a urgência dos nossos dias. Saía com Guinha e Bengala para as noitadas regadas a uísque vagabundo e cocaína. O dinheiro vinha do meu pai, dono de uma pequena mercearia de bairro, porque eu, quando podia, lhe ajudava. Já tinha desencanado dos estudos. Meu pai decretou: ou trabalha, ou estuda. Preferi fingir que trabalhava. Arrumava uma coisa aqui, outra ali, para mostrar que fazia algo. A minha obrigação principal era a entrega das águas. Rodava o bairro, na fissura, entregava o que dava e, para os insistentes, dizia que a água da marca tal estava faltando. Meu pai reclamava da diminuição das entregas. Eu queria mandar tudo para o espaço. Às 17h, saía do emprego e ia para a casa da Érica ou dava uns botes com os comparsas. Numa noite em que sumi com Guinha, quando cheiramos todas as carreiras possíveis que o nosso dinheiro dava conta, ao chegar em casa, meu pai disse que tinha ligado para todos os hospitais atrás de mim, e falou o pior: Érica estava no hospital por overdose de remédios; teve uma parada cardíaca e estava com insuficiência renal. Dois dias depois, Érica veio a óbito. Eu quis me matar, por minha razoável culpa. Mas a verdade é que não tive coragem. Ao mesmo tempo, estava com ódio de Érica, que mudou o meu destino. Por conta dela, pedi ao meu pai para me internar numa clínica. Não aguentava mais lidar com a minha vida, mundana, absurda. Poxa, eu já estava pronto para acabar o relacionamento. Não tive forças, a covardia é minha amiga. Foram anos dizendo: “Estou limpo, só por hoje”. Estou limpo, mas brabo, doente. Joana é uma santa que encontrei pelo caminho. Ela me ajuda, no que pode, e não sei até quando. Ainda tenho pesadelos com Érica gritando. Na última vez em que encontrei Guinha, ele estava acabado, voltou a consumir drogas e morava na rua. Foi a dor mais doída. Que não me pegue a desgraça, só por hoje; só por hoje.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando; e em 2024 o livro de contos “Amparo secreto”, pela editora Urutau. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. É advogado civilista-humanista. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Todas as coisas indicavam para a conclusão óbvia: o mordomo era o culpado!
Como eu sei disso?
Olha, vou lhe contar, caro leitor, como surgiram em mim as primeiras suspeitas e como essa conclusão pareceu-me tão óbvia que não precisei agenciar grandes esforços para chegar até ela. E pensar que o safado tentou colocar a culpa em mim, por conta da minha condição… vocês sabem, não é mesmo?, essa corja de pernudos sempre tenta colocar a culpa em quem tem pernas curtas.
O mordomo atende por nome Jerônimo e trabalhava na nossa casa desde que me entendo… enfim, há muito tempo ele trabalhava na casa, mesmo antes da minha chegada, e vocês sabem como esse tipo de coisa, me refiro a questão temporal e de convivência com os donos da casa etc., é levada em consideração quando de repente aparece um vaso quebrado e o safado aponta logo para quem é supostamente mais frágil e não tem condições de arguir em sua própria defesa.
Jerônimo era afobado, percebi logo. Mesmo ele sendo mais velho do que eu na casa, ele se sentia menos à vontade, pois estava em posição de subserviência, enquanto eu… eu já cheguei em uma posição que só era inferior a dos donos da casa, o doutor Omar e a sua senhora, a dona Matilda. Os dois, já velhinhos e sem filhos naturais, ambos aposentados e morando numa mansão enorme no Corredor da Vitória, decidiram-se por adotar-me. Foram, numa terça-feira de julho, até o… e assim que me viram não aguentaram. Disseram que eu olhava para eles feito quem pedia colo, como quem, abandonado pelo destino, encontrou a sorte nos braços de dois velhinhos. E me levaram, mesmo eu não podendo falar, sabiam bem disso, mesmo eu tendo pernas curtas… talvez eles até gostassem desse fato, posso supor porque não tiveram filhos… não queriam crianças correndo pela casa. Eu era do formato e do tamanho que eles queriam. A criatura ideal para preencher o vazio de dois velhinhos desfilhados. Sim, fiquei sabendo depois que já haviam tentado ter filhos, mas a dona Matilda perdera três bebês e resolveram não tentar uma quarta vez, seria uma grande dor, mesmo que previsível. Jerônimo passou por tudo isso com eles. O mordomo, quase tão velho quanto os dois aposentados, estava naquela casa há pelo menos três décadas. Eu só tinha doze anos na época, um menino na beira dele… perto dos meus: já quase um idoso. Segundo pensavam: minha memória já não era das melhores, talvez também minha atenção, por isso a conclusão precipitada de que o mordomo realmente estava certo e que, muito provavelmente, num vacilo, eu tenha derrubado o vaso. Cheguei a crer também nisso. Duvidei das minhas próprias faculdades, duvidei das coisas que eu via, mesmo minha visão estando em condições perfeitas.
Que covarde! Estou me eximindo das minhas responsabilidades por um simples orgulho felino. Martirizei-me por todos os cantos da casa e, na falta de ter com quem conversar, decidi investigar o caso. Falta talvez dizer a você, desocupado leitor, que se investiguei não foi só pela dor de talvez ser o culpado do crime… talvez você esteja pensando: ora, mas tudo isso por um simples vaso? No entanto, não era qualquer vaso, nele estavam contidos os resquícios de muitas vidas. Seu Omar e dona Matilda poderiam até inferir juízos sobre o assunto, mas a única coisa que faziam era lamentar. Poderiam muito bem, numa hipótese até justificada pelas ocasiões, dizer que o pobre do gato sentia ciúmes, que, sabendo haver dentro do vaso chinês de porcelana azul as cinzas dos fetos abortados, cogitava os mundos possíveis em que ele, desgraçado felino, não fazia parte dessa família. Pobre gato caduco, diziam ambos.
Passei a vigiar a rotina de Jerônimo, eu sabia que ele escondia algo. Seus olhos sempre baixos, como quem tentava se desviar dos próprios pés. Sua gola desajeitada… sorte dele que não era eu o patrão. Meus tutores não se importavam mais com essas coisas de aparências dos empregados. Bem lembrado! Eu não havia situado o leitor de que na casa, além do seu Omar, dona Matilda, Jerônimo e eu (que me reservo ao direito de anonimato, já que eu, cá de onde falo, também não posso saber as graças de quem me lê), também estava na casa e, noutra ocasião, talvez pudesse ser uma suspeita, a cozinheira Cida. Lá fora ainda tinha, na garagem, o motorista Dirceu e, no jardim, o jardineiro Alfredo. Todos os nomes são falsos, é claro, dado que não quero expor os dois velhinhos que me acolheram em todas as minhas necessidades. E por que não coloco também um nome falso para a minha persona?, você pode se questionar. Eu poderia deixar o meu impaciente leitor gastar suas unhas… mas isso é um pormenor que talvez valha mencionar. É simples, o meu anonimato é por pura força do drama, senão este que narra não seria eu, mas outro.
Jerônimo, como eu ia dizendo, andava sarrabieiro. Ele suava de nervoso perto de mim, e isso me deu ainda mais fortes indícios de que de fato ele teria sido o culpado. Eu, como não sou bobo, provocava-o. A todo canto que ele ia, eu seguia atrás como um gato sorrateiro, com o perdão da ironia… Calculei que estava próximo de encontrar uma brecha nas evasivas do sujeito, pois, com todo aquele nervosismo, ele vacilaria.
Ainda restava buscar por uma prova e, talvez a coisa mais importante, saber se o crime fora fruto de puro descuido ou se ele havia premeditado. Se premeditado, restava saber as motivações que moviam o mordomo ao ato nefasto.
Era já fim de tarde quando, diante do pôr do sol, ou das poucas frestas visíveis em meio a tantos prédios que surgiram ao redor de nossa casa nos últimos dez anos, quando fui atingido por um relampejar de sensatez detetivesca. As roupas!
Eu tinha noção de que o mordomo não lavava suas roupas de serviço, era Cida quem fazia isso no sábado. Ainda era sexta e resolvi investigar mais de perto. Assim que Cida descuidou-se, distraindo-se com um café que estava no fogo, avancei por detrás dela em sentido da lavanderia, supunha encontrar lá as roupas do malandro. Para minha fortuna, ele havia deixado na lavanderia as roupas do dia do crime. Logo me pus a investigar mais de perto. Dito e feito! Encontrei um caco na lapela do safado e tratei de planejar como faria para levar as roupas até meus tutores.
Depois de falhar ao tentar enganchar com minhas garras, abocanhei a lapela, que tinha gosto de suor, e arrastei até a sala. Antes tive que passar por Cida novamente, que, para minha felicidade, estava concentrada nas xícaras… Quando cheguei na sala e arranjei a cena para que fosse de fácil constatação que o culpado era na verdade Jerônimo, me senti um verdadeiro Dupin.
Os velhos ficaram chocados com a situação e, após alguns elogios acerca da minha esperteza na arte de desvelar as injustiças, me pediram os mais grandiosos perdões que eu já tinha ouvido em toda minha vida de gato. Não se enganem, tenho só uma vida e ainda dura em média só a idade de um reles adolescente. Por isso não posso gastar minha beleza explicando pormenores. Mas, indo direto ao ponto, eu tinha certeza que o canalha confessaria tudo e diria os motivos assim que chegasse, no outro dia de manhã.
Passou-se a noite. E quando Jerônimo chegou a arapuca já estava armada.
Primeiro ele chorou, de praxe. Essa gente chora por tudo, afinal. Depois, tratou de pedir desculpas por ter colocado a culpa no “gato”. Canalha duas vezes! Podia me tratar diretamente, mas preferiu ser indireto e ainda me chamou pela espécie. Eu não fico chamando os outros pela espécie…
Porém, até eu me senti um pouco mal quando o sujeito passou a narrar os ocorridos.
Ele disse que naquela noite o seu netinho de dois anos morrera de febre amarela, doença que estava atingindo muitos miúdos da região. Acabou que não dormiu bem, mas, como nunca em trinta anos tinha jamais faltado um único dia sequer, resolveu trabalhar assim mesmo. No vaivém pela sala, depois de algumas xícaras de café, vacilou e esbarrou no vaso. Como a primeira criatura que passou pela sua mente foi eu, ele resolveu me acusar do mal feito. Entretanto, andava se remoendo desde então e estava decidido a se desculpar e revelar os pormenores, disse isso passando a mão pelo meu corpo, em sentido de desculpa.
Depois disso, ele suspirou e disse que estava tudo bem se quisessem despedi-lo. Os velhinhos se entreolharam e não disseram nada por um bom tempo. A situação estava estranha. Senti que talvez realmente cogitassem despedir o sujeito. Resolvi também agir.
Pulei no colo de Jerônimo, que agora estava sentado aos prantos e eu, mesmo sem ter mãos e com minhas pernas curtas, rocei em seu corpo buscando acalentar a sua dor, ser para ele, por um momento, o que eu havia sido toda a minha vida para aqueles dois velhinhos. Depois olhei para meus tutores diante de nós e dei um miado, como que dizendo: vejam este homem chorando a morte do neto e o peso da responsabilidade de ter derrubado o objeto mais importante da vida de dois velhinhos.
Dona Matilda foi a primeira a sorrir, depois o seu Omar.
Eu, ainda no colo do mordomo, dizia a mim mesmo: não pode ser mal sujeito este homem tão emocionado.
* Publicado originalmente no livro “Linha tênue” (Margem, 2022).
Paulo Zan é o nome artístico de Paulo Alexandre Trindade Freire, (Rio de Contas-BA, 1999), graduado em Filosofia e mestrando em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia. Já publicou os livros de contos Linha tênue (Margem, 2022) e Trapaças (Caravana, 2023). Participou das antologias “Pacote de Textos” (Org. Rafael Caneca, 2021) e “Acaso literário Vol. 1” (Org. Simone Campos, 2021). É apresentador do podcast Orgulhoso Cast.
Acordou bem, mas de repente se perguntou: hoje eu vou sofrer pelo quê? – O dia me trará a resposta. No trabalho desfilavam pessoas em busca de soluções para os problemas com o fisco. Aproveitavam e contavam suas desditas. Na cabeça do moço uma luz sombreada se acendia. Eis um sofrimento para me agarrar a ele. Em seguida, a moça confusa passava mensagem exigindo atenção e cobrando promessas acumuladas. Se colava ao coração mais um sofrer. Ia para o banheiro e vertia água desde os olhos no vaso branco que recebe todas as águas e mais. O moço sofria num gozo estranho as dores que vinham de fora. Não era bom, mas sofria neste prazer. Mais um atendimento e ouvia a mais um derrame de infelicidades que aderiam ao seu peito, muro de lamentações diárias. O moço mal dava conta do próprio muro e desabava em mais sofrimentos. O que mais tenho hoje para sofrer? Mal acabou de pensar, veio um telefonema sobre uma separação matrimonial na família. Culpas pra lá e pra cá vindas das partes envolvidas. Um nó na garganta crescia como na dos condenados no minuto cadafalso. Que pena deles e de mim que somos seres imerecidos de tanta dor!
Em casa, já se pensando longe dos sofreres alheios, um pássaro preso na gaiola vizinha lhe canta a canção de ninar dos viciados em dor.
***
CEGO POR QUERER
Numa aldeia qualquer na beira de um rio qualquer neste mundão de meu Deus uma criança nasceu cega e assim permaneceu até que, já na adultidade, um médico se compadeu e com mãos hábeis e instrumentos adiantados deu-lhe a visão. Que alegria! Pela primeira vez viu a cor do caqui, os ranhos transparentes na sua polpa. Antes só lhe sabia a maciez e a doçura do mel quando em sua boca deslizavam pela língua e descia para o destino. Viu o matizado de cada flor. Viu como eram as patinhas do seu gato que arranhavam carinhosamente as pernas quando pedia o ninho do colo. Os passarinhos… Ah!… Esses eram a delícia no novo paraíso de ver. Explorava-o com prazer.
A sua aldeia se banhava noite e dia no rio que, como um sino de bronze, anunciava as horas da vida o tempo inteiro. Um dia, se distanciando a poucos metros do seu chão, viu um passante chutar um cachorro que salivava por um pedaço de carne. No mesmo dia viu um homem com a brutalidade dos monstros subjugando uma quase mulher, em seguida matando-a para silenciar seus gritos denunciantes. No mesmo dia, já assombrado com o que via, um homem incendiou o outro que dormia numa calçada. Antes do cair da noite, viu barracos caindo em barrancos, rios envenenados, matas gritando em quedas, bocas de gente babando fomes, almas alienadas, zumbis nas cracolândias, dores-choros-rangendo dentes…
Voltou, apanhou trapos grossos e pretíssimos e fez tufos para ou ouvidos e vendas para os olhos serventes. Num tamborete sentou-se em silêncio com uma bengala ao lado, caso precisasse se defender do que os olhos cansados pudessem ver, sentir e sofrer.
O sol deu uma risada ardente e cínica. A lua derramou duas lágrimas conformadas.
***
O LUGAR DAS MÁSCARAS
Olhe, moça, eu já estive neste lugar. Olhe, eu sei o que você sente. Não sei dos seus motivos, mas sei dos caminhos que você trilhou para chegar onde está agora.
Sabe, quando eu conseguia acordar, abria o armário e escolhia a máscara do dia. Colava-a na minha cara e ficava protegido. Às vezes, no meio do dia, eu tinha que voltar correndo para casa porque a máscara que estava usando não mais servia: começava a se derreter com o suor das emoções e tinha que ser substituída mais urgentemente do que todas as urgências do mundo. Se a máscara se despregasse de mim, eu seria visto. O que faria, então? Ficar nu dentro da vida, na vista dos outros, seria o inferno pegando mais fogo ainda.
Sei onde você está, moça. Creia!
Como eu não podia levar o armário das máscaras nas costas comprei um baú preto, bem chaveado, e o carregava no lombo, rua acima, rua abaixo.
Diziam: – lá vai ele! -. Sim, lá vou eu com o baú nos ombros. E todos completavam: – Oh! – e eu me doía mais e dizia ai… Aonde eu ia levava meu companheiro indesgrudável. Já estava acostumado e parece até que me dava certo prazer. Pesava menos. A gente se acostuma com tudo. De bom e de ruim. Até com a dor que enfeia a gente acha bom.
Olhe, moça, ouça bem o que não me canso de repetir: já estive neste lugar e resolvi desmatar o mundo para encontrar um caminho de volta para um outro onde já estive também.
Encontrei uns anjos pela estrada e, no início do retorno, chutei-os. Eu precisava dessa companhia, mas lutei contra. Não sei explicar. Eles, teimosos, ficaram grudados. Me ensinaram que a vida é sempre o aprendizado pela estrada de volta… Reaprender a função das asas não é lá coisa muito fácil. Não é não. Mas a gente é novo e sempre pode ter tempo de escolher.
Há muito chão para caminhar. Há muito espaço para voar. Há muito tempo ainda… Talvez.
Não sei, moça, se você entende o que falo e digo.
***
O SOLDADO, O POETA, OUTROS E EU
Todo vestido em roupa macia passava o soldado e me olhava de longe. Todos os dias fazia o mesmo percurso entre o quartel e o meu portão. Demorou pra eu saber que falava. Que voz de trovão virou pontual os meus ouvidos, quando entardecia. Forte, mas não amedrontava. Durante três dias, como reza de promessa, parou diante de minhas ânsias e lábios duros tocaram nos meus. Até hoje não sei se gostei, mas de uma forma que não sei explicar, senti segurança. Num destes amanheceres ele abriu meu portão, pediu emprestados meus pequenos pés e os pôs sobre seus coturnos lustrosos e andou uns dez passos sem me deixar pisar no chão. Gostei daquele novo chão sobre o qual nunca havia caminhado antes. Numa noite, chegou vestido de guerra, tocou meu corpo vestido de alma, trançou meus cabelos com estranha habilidade de força e me fez prometer que aguardaria a sua volta para o destrançamento. Eu quis dizer sim com um beijo na sua testa sempre guardada por um capacete. Nossas alturas eram incompatíveis. Ele alto como um poste de luz. Eu pequena como… O fato é que ele não se curvou para receber meu respeitoso beijo. Meu coração travou naquele momento. Muitas guerras ele travaria, porém sem mim. Decisão aprontada e apontada para o futuro.
Aí apareceu o poeta, suave como um passarinho. Cantava no galho junto ao meu portão. Às seis da manhã começava o ritual de encantamento, incluindo o destrançamento dos meus cabelos, fio por fio, salpicando pequenas pétalas de flores sobre a minha sagrada cabeça – como costumava dizer. Na verdade, a sua pontualidade era feita de acordo com o seu pensar, pois 6 horas da manhã, na cabeça dele, era qualquer hora do dia. Em todas as horas o dia estava sempre nascendo somente para a minha alegria, por isso o seu descontrole não me incomodava. Já me derramava de amores e ânsias. Seus presentes inusitados eram a minha glória. Sua ausência era a minha incompletude. Ele dizia que meus olhos eram o mar transparente onde ele nadava despido; dizia que o fio do meu cabelo era o raio mais brilhante do centro da lua e, como se fosse real o que dizia, depositava esse fio na palma da própria mão e admirava como se um tesouro supremo fosse; em outros dias, depois de sumiços ao dobrar a esquina, chegava esfuziante e me punha no pescoço um pedaço de brisa. Oh, como eu sentia! Um outro presente demorou sete dias pra trazer. Ao chegar me disse que havia ido ao deserto encomendar um xale de areias e que ele próprio tecera com as mulheres das tendas de um oásis. Ele sumiu por sete dias até retornar coberto de saudades. Enquanto cobria-me os ombros com o xale, ia descrevendo cores e sutilezas e fazendo trejeitos de decorador de corpos sobre a minha pele desejante de alegrias. Mas ele gostava muito era de dobrar esquinas para encontrar inspirações para seus presentes. Até que um dia me cansei de tantas esperas e inconstâncias. Não podia prendê-lo e não queria soltá-lo. Ele conhecia o meu êxtase, mas desconhecia a força que morava em mim. Cortei o galho da árvore do meu portão onde acontecia o ritual da sua magia. Quebrei o joelho da esquina. Nada adiantou. O mago havia me enfeitiçado. Recolhi os retalhos das lembranças, guardei os versos e gestos no meu coração e segui sem mar nos olhos, sem fios de luz de lua, sem olhar para outras esquinas onde a qualquer momento ele pode dobrar.
Outros me chamaram a atenção, mas não quiseram construir histórias dentro de mim: Azuis, brancos, pretos, índios, verdes, amarelos, representados por letras, cegos e estropiados, embora não tenham deixado marcas profundas e não tenham morrido no esquecimento. Tempos depois, mal eu me havia recuperado do soldado e do poeta, chegou um verdureiro. Meu Deus, que mãos calosas e unhas de arar a terra! Matava minhas fomes como se fosse a ambrosia dos deuses espelhada nos galhos de acácia amarela. Entendia o Olimpo – assim como me pareceu – como ninguém e me tornava imortal. Emprenhou-me com o branco maná produzido nos seus chãos com gosto de pão e mel. Caí de paixão pelas mãos grossas e sua fortaleza no olhar. Caí de paixão pelas suas descrições pelos tempos de cada semente sufocada na cova de cada dia.
Fui com ele para os longes das terras verdes. Lá conheci o que havia no disfarce de suas mãos bem como o diabo mais fogoso que havia no mais profundo do inferno ardente. Estive no centro do vulcão. Lá aprendi a solidão. No leito o procurava nas madrugadas e nada. Vivi o esquecimento das maltratadas. Eu era a sua terra e sofria com o rastelo, a enxada, a foice, o podão. Ele gostava do cheiro do rabo das cadelas e me fazia cheirar igual para as suas satisfações. Eu me desconhecia e tinha vergonha de mim. Quebrei o espelho do quarto com uma pedra para não me ver. Não podia gritar as dores para que o grito pudesse alcançar algum ouvido, tamanha era a distância entre mim e o mundo. Estava mais invisível do que sombra no fundo do rio. Ele gritava em seus gozos dentro de minha carne rasgada e minha boca tapada. Naqueles meus dias, ele me embebia o rosto com meu próprio mênstruo. Fugi mato afora. Me achou e, na corda, me trouxe de volta. Pensei em morrer, mas eu não merecia este pior. Ainda não era chegada a minha hora. Pensei: pinhão-roxo, mamona, mandioca braba, cobra coral, escorpião… Não sei se deixei pra trás um aleijão morto-vivo ou um homem morto-morto. Por sete meses fiquei num hospital que acode mulheres. Sete meses depois tive o meu nome mudado. Sete meses depois… atravessei oceanos.
Porém não posso esquecer o rei queniano que conheci no Texas e me fez cometer um poema na vez que o vi. Nem precisei saber seu nome, mas sua coroa permanece nos olhos da minha memória:
Hoje eu conheci um rei.
Estava coberto e um preto lustroso que lhe servia de pele
e sua testa sustinha uma enorme coroa
invisível para olhos desatentos.
Do seu sorriso marfim uma voz
pronunciava uma lei sem igual
por aqui.
Na sua altura trazia o Kenya inteiro
reino que deixou atrás de si.
Nunca havia visto um rei em pessoa
ancorado na proa
deste imenso cais que é a vida.
Ambos de passagem pelo mesmo porto
a despedida se fez presente
e a gente partiu se carregando em visão
de um passado que ali se encontrara.
Outros espíritos viajeiros
Se encontraram em nosso peito
E todos seguiram seus destinos.
(Austin – TX – Janeiro de 2024)
Eu continuo, buscando pacificação com a existência e resistindo bravamente todos os dias. Seja lá quem me apareça pela frente. Este Eu pode ser um novo que se apresenta diante de mim. Vamos ver o que me dirá.
Neuzamaria Kerner é poetisa, nascida em Salvador (BA). Professora, graduada em Letras e com os cursos necessários para o exercício da profissão escolhida pelo coração. Membro da Academia de Letras de Ilhéus. Membro da Academia de Cultura da Bahia. Artesã na técnica Bauernmalerei (pintura camponesa de origem alemã). Publicações: “Fragmentos de Cristal” (poemas), “Eu Bebi a Lua” (poemas), “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna” (parceria com outros escritores)(ensaio), “O Livro-Arbítrio das Evas – dentro e fora do jardim”(poemas), “Marcas Escrevividas”(poemas), “Memórias do Silêncio”(contos). Além de publicações esparsas em revistas literárias, mantém blogs e canal no Youtube, onde posta vídeo-poemas.
Mais um 31 de outubro havia chegado. Dias antes, na reunião de condomínio, os moradores do edifício Porto do Sol, à beira-mar de Boa Viagem, haviam decidido em maioria, por mais um ano, comemorar o Halloween, o famigerado Dia das Bruxas. Não sem antes ouvirem o costumeiro e veemente protesto de Patrícia, que insistira que a festa deveria ser em homenagem ao Saci, conhecida figura do folclore pátrio. Voto vencido, por mais um ano.
— Pois que encham este prédio com essas abóboras ridículas. O verdadeiro homenageado do dia é o nosso querido Saci!
Filha do falecido Major Vital, do glorioso Exército Brasileiro, Patrícia havia aprendido com o pai o amor à pátria e a valorização da cultura nacional. Contudo, dividia o andar com Cláudia, que considerava uma dondoca americanófila imbecilizada, entusiasta da festa estrangeira. Detestavam-se há anos, sobretudo nessas ocasiões. Aliás, o Quatro de Julho era outra data insuportável para Patrícia.
Pois muito bem, o Dia das Bruxas, digo, do Saci, havia chegado e as crianças perambulavam fantasiadas de andar em andar, pedindo doces ou ameaçando com travessuras.
A primeira leva de crianças do condomínio apareceu no andar do conflito “americano-brasileiro” e tocaram a campainha das duas portas opostas do hall. Ambas as adversárias ideológicas as abriram ao mesmo tempo e, de relance, encaram-se, para logo desviarem os olhares para as crianças.
— Doces ou travessuras! — gritaram em uníssono, estendendo sacolas.
A patriota, com uma grande sacola cheia de bonecos de sacis de pelúcia, distribuía os brinquedos, sempre lembrando: “hoje também é o dia dele, garotada.”
Cláudia, fantasiada de bruxa e com enfeite de uma assustadora abóbora na porta, distribuía doces dos mais variados à criançada. Não tardou para que estas corressem ao elevador. Cláudia não pôde deixar de censurar Patrícia:
— Você vai ficar dando esses bonecos ridículos a noite toda, vizinha?
— E você é bruxa de verdade para andar com essa roupa patética, querida? — retrucou Patrícia.
Fecharam as portas ao mesmo tempo.
E foi assim por toda aquela assombrada noite, as crianças ganhavam bonecos e doces e as duas trocavam ofensas das mais estapafúrdias.
— Você é uma alienada!
— Você não sabe brincar. São crianças, sua metida!
E por aí foi.
— Não sei como seu marido tolera você vestida assim na sua idade!
— E você só se manteve solteira por causa da pensão militar deixada por seu pai! Ou então porque é sem graça mesmo e nenhum homem a quer!
Essa tinha sido demais, mexeu com os brios de nossa patriota. Bateram as portas.
E passou aquele dia para o sossego de Patrícia. Rancorosa, guardou as palavras da vizinha como ofensa pessoal e à cultura nacional.
Passou-se um ano, nova reunião de condomínio, nova derrota de Patrícia, que, além disso, pelas normas estabelecidas para a ocasião, deveria dar apenas doces, em vez de bonecos de saci. Inclusive, foi uma insistente proposta de sua rival.
Porém, Cláudia não sabia com quem estava mexendo. Patrícia era filha de militar e, pior, realmente versada nos mistérios das ciências ocultas, cujos segredos, ecleticamente abrangendo desde a Wicca a magias de matrizes de diversas regiões do mundo, foram-lhe ensinados por sua mãe, que a iniciou numa secreta instituição mística feminina, durante a faculdade.
As crianças começaram a perambular nos andares de baixo. Até chegarem ao nono, onde moravam, Patrícia iria praticar sua travessura com aquela alienada fútil!
Primeiramente, dirigiu-se para a grande fotografia de pintura a óleo de seu pai, em trajes de major. “Não neste ano, pai.” Era bicentenário da independência do Brasil. E prestou sua reverência numa continência com semblante respeitoso e resoluto. Logo após, correu para um cômodo específico do seu apartamento, com um altar, um espelho e um monte de objetos cerimoniais misteriosos. “Mal-amada nunca, americana de araque”, pensou.
Numa cerimônia um tanto macabra, despejou um óleo perfumado, pétalas de rosas e outros ingredientes num caldeirão. Após isso, canalizou seu rancor a uma boneca de pano, em cuja perna esquerda enxertou um graveto para, em seguida, sussurrando: “quebra”, parti-lo em dois, ao tempo que se ouvia um estridente grito vindo do apartamento do outro lado do hall. Um malicioso sorriso de satisfação esboçou-se em sua bela face.
As crianças alcançaram o nono andar. As campainhas tocaram.
— Doces ou travessuras!
Patrícia, toda fantasiada de bruxinha, com direito a chapéu pontiagudo e estampa de luas e estrelas em seu vestido negro, abriu a porta com o sorriso de alegria.
— Aqui, meninos, muitos doces!
— Obrigado, tia!
Os pequenos voltaram-se para o apartamento de Cláudia e tocaram a campainha de novo, com ansiedade.
— Já vai!
Quem abriu a porta, no entanto, foi o marido de Cláudia. Esta veio mancando por trás e se apoiou nos ombros do marido. Sua perna direita estava quebrada. Escorregara durante o banho.
— Dessa vez não temos doces, minha esposa se machucou, estamos indo ao médico.
— Sem doces? — Um garoto com máscara de Freddy Krueger, valendo-se do anonimato, foi audaz:
— Que quebre as duas pernas, velha manca e mocoronga!
E todos os meninos correram rapidamente pela escada de incêndio abaixo, aos risos.
— Essa juventude… não sei onde vamos parar… — disse o marido da Cláudia, amparando-a no seu mancar em direção ao elevador — a propósito, vizinha, você está linda de bruxinha.
Cláudia fuzilou os dois com os olhos. Não queria acreditar no atrevimento de seu marido e sequer imaginar qualquer coisa além de um inocente elogio.
— Obrigado, querido — disse Patrícia com sorriso nos olhos e uma piscadela — e feliz Dia do Saci para vocês! — finalizou retirando um involuntário sorriso do marido de Cláudia. Esta lhe deu um leve tapa na nuca, indicando com os olhos o elevador. Foram-se. Patrícia estava radiante, correu à sala e bateu nova continência diante da fotografia de seu saudoso pai. Missão cumprida! Doce travessura!
E nunca mais nossa bela e querida patriota foi impedida exaltar a cultura nacional no condomínio, ainda que fosse a entregar os já afamados sacis de pelúcia, seja no detestável Halloween, seja nas ocasiões de comemoração do nosso folclore. Pois bruxa que é bruxa de verdade encanta, não apenas nas vestes, como também enfeitiça em sigilo… em qualquer dia do ano.
Rodolfo Guimarães Neves. Nascido em 01/11/1979, em Olinda, Pernambuco. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Seu conto “O Mal Iluminado” compõe a antologia de contos “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, da Editora Paradoxo, e roteirista da HQ homônima, nela baseada, juntamente com o quadrinista Pedro Ponzo. É também autor da antologia de contos e poemas intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas” e da peça teatral “Ressentimento”, estas últimas da editora IGP.Foi selecionado no concurso de contos “KosmoKontos” da Editora Ventura com seu conto “A Invocação” (2022). Por fim, é autor do frevo de bloco “Cidades Irmãs” e do frevo canção “Aurora das Festa”, cujos arranjos foram elaborados pelo Maestro Parrô Mello e encontram-se devidamente registrados na Biblioteca Nacional.
Um dia depois da derrota do bozo saí à rua com a pretensão de passar despercebido. Cláudia me pediu prudência e cuidado. Eu estava pouco me fodendo com o que os bolsonaristas iriam pensar. Para mim, o caso estava superado; sem mais brigas e discussões daí para frente. E, além de tudo, estava com uma ressaca filha da puta, que me revirava os miolos a cada passo. Eu deveria estar no escritório às 10h, pelo menos. Recebi mil mensagens de felicitações, por nosso novo presidente, mas uma em particular me afetou: “Petista vagabundo, está morto”. Claro, o número era confidencial. Pensei em fazer um B.O. na delegacia, mas percebi que não adiantaria muito, não iria “dar em nada”, como ouvi algumas vezes. Cheguei ao escritório, e uma amiga olhou para mim sorrindo, leve e feliz, sem esboçar qualquer palavra; ela é do meu time. Os outros colegas são, em sua maioria, “em cima do muro”, ou seja, bolsonaristas enrustidos. O ambiente estava tenso. Um colega passou na minha mesa e me deu os parabéns, com um ar zombeteiro, querendo puxar conversa: “Eu sabia que Lula ia ganhar, rapaz… Com ele no jogo, não tem para ninguém… Aliás, agora, não tem para ninguém mesmo!”, insinuando que Lula havia roubado e que estaríamos numa ditadura – fiz essa interpretação porque sei com quem estava falando. Suspeitei dele, sobre a maldita mensagem. Ele é do tipo rasteiro, sujo, capaz de passar a perna até mesmo no Honório, um antigo colega de trabalho, que saiu por implicância do dito cujo, o baba-ovo do dono. Stélio, o chefão, não poderia ser, apesar de não disfarçar a raiva e a apreensão. Entrou na nossa sala aturdido, dizendo que teríamos de resolver as nossas pendências “para ontem”, porque “o ano não estava para brincadeira”. Decerto, contava com o estado comunista; que nos tornaríamos, logo, logo, uma Venezuela, coisa do tipo. Mirei-o com um olhar sereno, para transmitir tranquilidade e estabilidade. Soube que ele, no mesmo dia, havia feito o desligamento de duas empresas de mídia, porque havia o risco de uma guerra civil no Brasil, iminente. Apesar das nossas profundas diferenças, ele me tratava bem por ser o seu braço direito na formulação das peças jurídicas, sempre intrincadas por sua mente caótica; e eu, logo eu, era responsável por desatar o nó. O novo colaborador, Jackson, mal olhava para os lados. Era meu imediato. Cumpria tudo a rigor, sem precisar de carões e afins. Nesse dia, teria saído mais cedo para resolver uns problemas no banco, para o chefe. Não poderia ser ele o agressor. Tácio e Lorena, os atendentes, não teriam tal liberdade, ainda que remotamente eu receasse que Tácio tivesse virado a cabeça, lunático que era. Ele, sim, era bolsonarista de carteirinha. Usava um broche com a bandeira do Brasil desde o começo do ano. Poderia ele planejar um atentado? Não consigo imaginar, com aquela cara de tacho e uma cabecinha trivial. Desde que eu havia chegado ao escritório ele não cruzou comigo; estava no almoço, depois na sala do chefe e no banheiro. Quem mais poderia me desejar a morte? Descartei Lorena, que era muito frágil e maria-vai-com-as-outras; votou talvez no belzebu por influência de seu parceiro de trabalho, com quem também mantinha relacionamento. É fato que, nesse tempo eleitoral, havia arranjado vários desafetos. A família estava dilacerada, não por mim, mas por parte achar que era dona da razão; por se juntar a um projeto de morte; por estar acampada em frente aos quartéis – e ainda dizia que iria salvar o país, mesmo para um comunista como eu. Apesar dos pesares, não consigo vislumbrar que algum desses malucos teria a capacidade de me ameaçar ou me desejar a morte. A não ser Francisco, o marido de minha prima. Puta que pariu, por que não me lembrei antes? O canalha, antes das eleições, apostou até o carro, alegando, veemente, que o bozo ganharia. Deve estar falido e desesperado. Liguei imediatamente para Cláudia, minha digníssima, e desmarquei a nossa ida ao aniversário da filha do sujeito, que se daria em duas semanas. Melhor prevenir do que remediar. Cláudia, bastante triste, disse que também temia a imagem brutal de Francisco. Bem, estas linhas são para descrever o pior dos cenários: Francisco está preso em Brasília, depois do 8 de janeiro. Saiu em todos os veículos de comunicação que ele foi um dos responsáveis por organizar o ato terrorista. Em seu celular, descobriram que havia um plano para dizimar a população comunista, incluindo o vencedor do pleito presidencial. Esse “um dia depois das eleições” se arrasta e ainda gela os meus ossos.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; e em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Escrevo de memória, a nossa história na exposição de pães. Vivíamos na triangulação dos nossos sonhos, entre cultura, mídia massiva e história, fornecendo postais a um hippie argentino. Nos vernissages da moda, circulávamos como se fôssemos grandes artistas, em meio a hordas de poetas e punks. Naquela noite, fomos parar na Escola de Belas Artes, na abertura de uma instalação. E então, como numa performance, decidimos matar a fome dos pedintes que dormiam ao relento nas ruas do bairro do Canela. Não lembro quem teve essa ideia. Daquela época, recordo com exatidão de poucas coisas. Há sempre uma cena de filme, com trilha sonora do Velvet Underground, e uma pessoa desconhecida que acena, efusivamente, do outro lado da rua. O coração da gente era um gigantesco Luna Parque. De modo que tudo ali acontecia como no poema de Adília Lopes e, antes que cada sequência fosse para a sala de montagem, ninguém sabia bem ao certo no que ia dar aquele set. Um curta indie, quem sabe, talvez best-seller. Ou apenas mais uma memória substituta, algo absurda, em nossa coleção da Vagalume. O coração da gente era tão pequeno que cabia no bolso como no poema de Raymond Carver. Mas isso, confesso, eu escondia. Porque havia o sol nas bancas de revistas e eram tantas as notícias. Páginas e mais páginas, os romances que a gente lia, flutuando nas águas do Rio Ouse. E as tais pedras, as tais pedras, no meio do caminho. Você, meu personagem predileto. As suas mãos desfazendo com ousadia a instalação do artista, apanhando os pães com que se fazia a arte do nosso século. Como na metáfora da música de Gilberto Gil, a sereia que veio dar à praia, com o seu busto de deusa Maia. Enchemos as nossas mãos naquela noite mágica, desfazendo a arquitetura cara da instalação, e saímos distribuindo os pães aos mendigos pelas ruas do Canela. Queríamos o rabo da baleia para a ceia dos famintos, ainda que aquilo nos custasse pagar algum mico e a revolta furiosa de um artista.
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O repouso do acaso
Inveja mesmo, ele sentia de quem dorme no ônibus. E de pessoas distraídas que esquecem objetos importantes em lugares inusitados. Também invejava aqueles que os encontram e emprestam alguma subjetividade aos acontecimentos. Estar atento é cansativo sem o repouso do acaso – esses portais repentinos que se abrem, em lapsos e elipses, no cotidiano. Acordar em sobressalto. Longe de casa, ainda atordoado pelo sono. Um menino toca seu ombro como se fosse um anjo. Esteve ali todo o tempo. Entregue aos olhos do desconhecido, como por encanto, segue seguro até o ponto final do coletivo. Dali retorna sonolento. Talvez adormeça de novo. Chegará ao seu destino como em sonho. Buscar na bolsa, no bolso, o documento. Essencial para movimentar um processo estagnado, estava ali ainda há pouco. Talvez o tenha deixado em algum trecho do trajeto entre o apartamento e o cartório. A certeza das mãos ocupadas. Na entrada do prédio, o esquecimento atravessa lentamente um Saara. Se fechar os olhos, quase pode ver a caravana. O sentimento de que a vida é inexata torna frágil a precisão do poema sobre a navegação em cabotagem. É preciso enfrentar outra vez o processo burocrático da perda. Molhar as plantas com cuidado, sem pressa, como se não houvesse amanhã. E será que há mesmo? Água fresca nas folhas da memória, tão verdes quanto se pensa o coração. Mas será só intuição que ainda pensasse nela? Será só coincidência que o vento tenha trazido aquela certidão de casamento justo no dia da sua separação? Vivia esperando que algo mágico acontecesse. Então ali, quem sabe, estivesse o sinal do que ainda existia. Pensando nisso, dobrou o documento achado no chão em quatro partes e guardou no bolso.
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Uma menina vinda de Marte
A menina aceitou aquele desafio no desajeito de sempre, sem saber dar resposta. Levaria para a escola o tal brinquedo que todos queriam, que muitos já possuíam, objeto de desejo de nove entre dez crianças de oito anos. Voltou para casa lamentando não ser como a maioria dos colegas, que já começava as aulas com mochila e uniforme novos, livros didáticos, caixas de lápis de cor, merendeira colorida. Seus pais mal conseguiam manter as finanças domésticas em dia. Brinquedos só no Natal, quando muito. E era sempre penosamente que davam conta de quitar a imensa lista de material escolar de cada ano das duas filhas. Agora, metera-se naquilo. Os colegas ririam de sua tolice como se fosse mentirosa. Ao lado da mãe, descendo a ladeira íngreme em silêncio, pensava em um jeito de comprar o tal carrinho. Ainda mais essa, um brinquedo de menino! Talvez se desejasse uma boneca, dessas que vive de olhos arregalados, a mãe até fizesse um sacrifício. Possuía um coração tão generoso. Costurava roupas na máquina madrugada adentro, ajudava o marido nas despesas. De vez em quando, sobravam uns trocados. Mas como explicar que havia dito aos colegas que possuía o tal carrinho e que duvidaram dela? Por alguns dias, suportou todo tipo de zombaria na escola. Até que simplesmente deixou de ir ao recreio. Sozinha na sala, sob o olhar curioso da professora, arrumava o lanche na mesinha e comia: Ki-Suco de morango, pastel de carne. Rezava por dentro para que a aula acabasse. Diante de sua mãe, ninguém riria dela. Dois meses que buscava um modo de pedir que comprasse o tal brinquedo de menino e nada de coragem. Deixa de esquisitice, talvez a mãe respondesse, dando o caso por encerrado. E olha que nem desejava tanto assim o tal brinquedo. Só falou que o possuía por absoluta estultice, falta de jeito de puxar assunto. Nunca soube se comunicar direito com nenhum deles. A menina vinda de Marte. Seu primeiro, seu eterno apelido. Enquanto se alongava, aquele impasse, foi inventando desculpas para faltar às aulas. Tudo ia bem, em suas súbitas rinites, até que chegou a época das provas. Sem uma alternativa, procurou a mãe e implorou que lhe comprasse o carrinho, réplica de um Ford colorido que abria e fechava as portas. Não era Natal nem nada. E nem ela era um menino. Mesmo assim, as duas foram juntas ao supermercado. Na seção de brinquedos, passaram direto pelas bonecas de olhos arregalados, em busca do carrinho colorido que, brilhando na caixa, custava mais que um dos livros pendentes na lista de material didático. A mãe olhou para ela e disse que o dinheiro só daria para comprar um fusca. As duas riram. No dia seguinte, na escola, foi um alvoroço e todos se sentiram enganados. Mas a menina já não se importava nem um pouco com isso.
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O enigma da rosa
Ela releu a mensagem repetidas vezes como se fosse a destinatária, mesmo sabendo que aquela dedicatória viera parar por acaso em suas mãos, entre as folhas amareladas de mais um livro de poemas achado num dos sebos da Rua Ruy Barbosa. Bem mais barato que outros tantos que já havia comprado, por conta da ausência da capa original. O dono da loja a olhava de lado com indisfarçável desprezo, porque ela sempre comprava os seus piores exemplares usados. Os mais velhos, os menos conservados, aqueles que ele fazia questão de esconder lá nos fundos, quase implorando para que alguém os achasse e levasse embora por um valor mínimo. Ela preferia justamente esses, os desvalidos, aqueles que ficavam quase escondidos, largados num cesto de vime que seus amigos apelidaram de asilo. Era bem ali que os resgatava, pelos mais inacreditáveis preços, conferindo apenas se traziam dentro, entre as suas páginas, alguma dedicatória, algo desenhado ou escrito. Costumava tomar para si cada dedicatória, emprestando novas histórias a personagens desconhecidos, presenteados com mundos imaginários que perdiam todo o sentido ao mudar de mãos. Talvez procurasse algo específico, um recado perdido entre as dezenas de títulos descartados que encontrariam novo lar em sua casa. Doados, vendidos? Pouco se sabe. Inventava também seus registros, construindo novos percursos entre o abandono e o encontro. Este mesmo, por exemplo, teria vindo de uma cidade distante, que tanto podia ser Pasárgada ou Macondo. Pelas estradas, pelos ares, voava ainda a sua capa, hoje liberta do miolo. As frases escritas por antigos donos nem sempre traziam um recorte bonito da vida, esse enredo que se espalha em fluxo, fragmentado em milhares, em milhões, de corpos. Algumas sequer vinham inteiras e decifráveis. Mas é que ela também se interessava pelos fragmentos que despencavam dos frontispícios. Feito um poema secreto guardado: “registro que um dia toquei seu coração”. Naquele livro, e então logo despedaçado. De modo que já não se podia intuir o destinatário da única palavra legível, quer fosse de amor ou rechaço. Muito menos quem ali deixara entre as páginas uma flor ressecada, tatuando entre as letras a sua forma.
Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014), “O exercício da distração” (Penalux, 2017), “A teoria da felicidade” (Patuá, 2020) e “Tudo será daqui pra frente” (2022). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013). Foi semifinalista ao Prêmio Jabuti 2021, na categoria crônicas, com o livro “A teoria da felicidade” (editora Patuá, 2020).
“[...] a maldade dos homens não teve outra origem senão nas suas
calamidades.”.
Giacomo Leopardi
“Você testemunha injustiça, mas segue adiante em silêncio.
Que falta de sorte a sua, nesta noite estrelada,
presenciar certas coisas e agora ser culpado de passividade.”.
Neguinho Dantas
“Eu quando saio/Pelo mar afora/Faço de conta/Que já vou embora...”.
Antônio Marcos, Gaivotas
“Filho da pólis [1], como é fruto das tuas ausências a comichão da procura. O tédio é uma dor aveludada. Por isso, não se foi ainda o que havia de brutal no homem primevo (nos sufoca, nos toma em demasia e nos leva às obscuridades) — essa violência que engole a palavra, que faz calar, há o pó na garganta, as alimárias e as iras nas entrelinhas da vida, quando o diálogo falha e os homens latem, por isso o Coliseum de cada dia como paliativo. Nesta mesa de bar, olho ao redor da multidão e quase não vejo vivalma, exceto dentro do meu copo americano. Um menino noturno estende a mão para mim e me pede uma moeda para um suposto pão, um suposto pão também noturno, porque também não conhece Chopin; resta ao filho da pólis as migalhas noturnas. Eu não nego uma moeda a ninguém. Os homens são filhos das circunstâncias, porque em algum momento de suas vidas alguma coisa externa os toma de surpresa fazendo-os comuns, trêmulos, seus semblantes como de palhaços falhos. E o dia lhes é indiferente e o filho da pólis boceja muito, porque não encontra convívio entre os filhos da esculhambação, e ninguém entende uma palavra dita, neste estado febril em que se encontram as coisas; seu corpo é invertido, não haverá redenção. E se Jesus disse “Filho do homem”, eu digo hoje “filho da pólis”, porque a vez de falar agora é minha! E Priscila Richardson, amicíssima, pintadíssima, descolada, num sempre salto alto, questiona: “Que porra é o filho da pólis?”; eu digo que não sei ao certo que porra é o filho da pólis, que talvez deva ser, quem sabe, alguma coisa lá para as bandas da Grécia Antiga, que no fundo acho bonito dizer “filho da pólis”, porque eu leio filosofia nas horas vagas, porque eu tenho graduação em História, porque eu não odeio este corpo onde habito, porque eu gosto de falar difícil. Priscila Richardson pula à janela, salta e voa anu-preto ao firmamento, novas paragens e tal. O caso é muito sério, nosso Homo sapiens é nascido em berço de tumulto, como não sabe nada do Começo é um desencontrado — Homo sapiens sapiens humanitas, ou Homo sapiens sapiens bestialis. Eu disse que olhe para as próprias mãos e me diga a que pertence. Vejam adiante, no chão, o sobejo da civilização muito apreciada pelos roedores, e para aqueles que não suportam seus caprichos, hão de lascarem-se, ao final da reta! Ao meu redor, bandeiras variegadas, ferros em múltiplos formatos, fumo e fogo e cinzas, muitos dedos em ristes, muitos espadachins e espadados… é a vida que temos hoje. Aqui mesmo, neste bar, vejo o universal, uma repetição de gestos, de sensos de causas e efeitos, e os melhores homens dentre os outros, aqui dentro, são como seres héteros a desfilarem sisudos com o archote de Prometeu dentro do orifício monossilábico, dentro do rabo. Na beirada da calçada, à sombra profunda de uma frondosa árvore, comporta-se dócil o corpo inerte de um bebum. Tal imagem deveria ser posta no centro da bandeira nacional. Em sua boca dócil e aberta uma mosca é acolhida, por isso ainda há alguma bondade neste município de coronéis analfabetos; ele parece indiferente à visitante, assim como um porteiro de edifício, que apenas quer cumprir o seu dever. Será que o bebum sonha, ou há dentro dele apenas um branco vácuo? E se há este espaço zerado dentro dele, então, como poucos neste mundo, encontrou Jeová. Tão imóvel e tão desnudado de humanidade, não sei se é ainda um homem ou tornou-se uma pedra, ou um anjo mesopotâmico. Nunca vi no rosto dos que dormem um sono bom e profundo tamanho desprendimento e abandono de tudo. O seu rosto não é o de um morto, nem de um vivo, aliás. O seu rosto é puro como o de um santo. Em seu semblante eu vejo aquela absoluta ausência de expressão, típica das coisas que não têm rosto, como uma nuvem ou uma cachoeira. Imediatamente, ao observar o bebum inerte, um jovem que passa se contorce numa rajada de gargalhadas — a trágica música de Antônio Marcos roda na radiola, e me parece que tal gargalhada acentua uma espécie de dor que soa sob as notas graves do violão. Não percebi (porque o inconsciente rege nossos interesses) o fundo rascado da calça do bebum em que se via as nádegas, seu Manifesto. Apesar de tudo, escrevo. Eu escrevo como quem mostra assentado o rego do rabo. Por sorte, o melhor de perder tempo sempre arrasta junto um pouco de paixão. Escrevo para não me transformar em uma pedra e não perdoar meus clichês. Não tenho muitas ferramentas, não posso ter muitos livros. Às vezes eu os roubo. A moça da biblioteca da Universidade me olhou de cara feia quando passei por ela sentada e um aparelho emitiu um som estridente; eu não sabia que colado à orelha do livro que eu trazia dentro da calça jeans havia um dispositivo que acionava aquele aparelho sonoro; não houve consequências para aquele meu primeiro roubo, além de olhares desconfiados; aprendi a retirar as etiquetas com o dispositivo atrás da orelha dos livros, como fazia a nossa Josete Londa, e nunca mais fui incomodada pelo som estridente do aparelho à mesa da bibliotecária. Roubar, todavia, apenas para matar o tempo (dos poucos que abro para sondar as páginas, dentre os livros roubados, há muitos que não entendo uma vírgula, nem quero). Exceto a minha casa, há somente dois tipos de lugares onde estive todos esses meses: este bar e as pequenas bibliotecas, a deste município, a de Pariconha e a de Água Branca. E aqui, nesta mesa, minhas pequenas leituras, impregnadas da música de Antônio Marcos, se misturam aos vultos caóticos de bêbados que adentram à minha retina. Se leio um verso de Byron percebo que cada frase está impregnada deste suor etílico, deste cambalear sem norte, sem sorte, destas mãos ensebadas de fumo, destas faces de olhos confusos. Isto ocorre porque sempre o leitor coloca suas asneiras dentro do texto do autor. E arrisco-me demais para não escrever. E o escritor não é outra coisa senão um ostentador da própria sujidade interna, destas mãos ensebadas, destes olhos que olham sem querer curar o mundo; o escritor de ficção hoje no Brasil é um incendiário sem isqueiros, seu fogo é imaginário, porque se ele escrever críticas verdadeiras e não tendenciosas as pessoas vão dizer: “Ah, que escritor triste e problemático!” (e se ele escreve boas mentiras ele se acha Deus). Há um bálsamo na transparência sorridente de uma garrafa de vinho — do seu contrário, não haveria força que pudesse carregar-me, de um bar a outro, de uma estante de livros a outra, de um sonho a outro, de uma leitura muito superficial a outra. Eu mesma não sei se de fato devo estar… [2] Eu sei que todos os sentimentos arcaicos são perturbadores, porta de saída de si, um descontrole que explode na cara e no final, perde as estribeiras nas imersões alcoólicas; chora a musa que não se pode possuir, e eles pensam que suas próprias as lágrimas soam em fá sustenido, sibilando como cobra carente à vulva atônita e encrespada e até o âmago extático da alma da musa imaginária. É por isso que estes filhos da pólis se embebedam e morrem, mas não antes de chorarem tanto para as garrafas, até ao rés do chão do patético, até chorarem dez vezes mais os litros de pinga que bebem todos os dias; esses bêbados todos nunca deram no couro de verdade, sempre brocharam ou desconversaram em tolices após suas ejaculações precoces, por isso foram abandonados ou traídos, porque brochões verde-amarelos, os murmuradores durante o coito, se justificam acusando a parceira de frigidez, e transam ligeiramente e em viés, clamando em pensamento por Stalin, Adam Smith, Marx e Jeová. Este lugar fede a esperma frustrado. A estes filhos da pólis, assim como Onã [3], o capado, nunca será possível lembrar seus rostos — isso porque desaparecem, enquanto ainda pensamos neles. A vida é bela tal como o cio, um bocejo, um surto, tal e qual a descoberta por demais passageira de que Darwin estava certo! Quem não entende a vida se fode, se lasca, se arromba. Logo o afoito acha que sabe das coisas e bebe. E se há alguma beleza nessas vidas de boteco, esta se esconde fundo nos recantos de uma vida aos farrapos, quando o bebum, sempre dramaticamente machista, se lembra do seu amor impossível, da imaginária traição da amada, da falsa castidade desvelada em trágica lua de mel, no ciúme que o corroeu por dentro, da fixação a estas coisas todas tolas, e de somente poder enfrentar, enfim, o seu destino quando a pinga ofusca este destino. Por isso, numa metáfora, todo bêbado que se preze tem o cu à mostra. Não me embriago às quedas, ainda que eu mostre o rabo; qualquer coisa bela dentro de mim somente funciona quando escrevo, eu já disse, e a escrita é o ópio dos vaidosos, o pior dos vícios, porque aí a gente mostra toda a nossa intimidade a partir do buraco em que Jeová nos empalou. Veja aquele homem, ali, num recanto. Parece-me não ter ainda quarenta anos. Mas, já o rosto lavado de lágrimas, desde que começou a tocar Gaivotas, de Antônio Marcos. Todo mundo o conhece: é o filho do pastor, aquele, você sabe, que me visitou duas ou três vezes no passado. Nos primeiros acordes o bar se transforma — ali um moço tenso balançando a perna esquerda, uns abaixam a cabeça em reverência, talvez, e outros respiram fundo, mas, aquele filho de pastor, soluça sozinho, ali, num canto, e ele sabe que seu soluço é fingido, mas precisa deste soluço, porque é tudo o que ele tem; é por meio de tal soluço que se lhe ativa um fogo e toda uma arte de se emocionar; soluçando fingidamente lhe advém um transe e estando em transe consegue chorar de verdade, tendo como tema do seu choro a mulher que tanto ele mesmo traiu e maltratou e que depois foi por ela abandonado. Flagro um jovem apontar dizendo: “Olha o corno chorão…”. Na multidão que agora se choca, ombro contra ombro, há um apagamento de veredas com os próprios pés, porque ninguém mais ali sabendo para onde ir descobre nessas “ausências de lugar” um ombro imaginário e existencial para se recostar, enquanto anda cambaleante e pendido. São bárbaros os sentimentos. E tais são que nunca param de nos invadir. Pergunto àquele homem pelo motivo pelo qual chora? “É que a vida é tão grande, senhora, que até me sinto acuado, às vezes”. Descobrimos que fora dentista bem-sucedido, até cair no vício. Mesmo bêbado ele me confirmou: “Eu fui dentista. Altamente profissional! Já implantei molares de jegue em boca de lobisomem.”. Escrever. Na verdade, nunca entendi plenamente a palavra, quando igual aquilo mesmo que ela diz e que não pode se tornar o que ela diz (são os bárbaros!). “Eu fui dentista.” — ele disse —“Hoje, diante das circunstâncias, elegi este modo existencial”. Vinte anos de casado, dois filhos; o divórcio. Não quero me debruçar sobre a sua vida — eu pensei —, ou escutá-lo se rememorar da sua convivência familiar. Não haveria explicação a certas coisas. Elas acontecem, apenas (e por não poderem falar acerca do impossível muitos deles escolhem chorar, ouvindo Antônio Marcos). Ora, querer dizer mil coisas sobre um acontecimento pretérito é o mesmo que não ter o que dizer. Ofereço-lhe meu ombro para recostar. Ele relaxa por um momento e soluça, talvez para pensar com dificuldade acerca da ideia de pegar em minhas coxas, o que de fato acontece; eu lhe nego e ele insiste; um bêbado total não merece o toque da pele suave de uma coxa feminina, por isso deixo-o subir um pouco mais por minha coxa depilada e ele apalpa num susto os meus testículos. O susto! Sai às pressas cambaleando, os olhos redondos; eis mais um bêbado do interior, típico dos pequenos vilarejos sertanejos — ainda que esteja péssimo, discerne bem com o tato o que no fundo eu sou em parte. Acho que este velho dentista não acredita mais no feminino. Talvez, a condição de alcoólatra não lhe permita pensar que hoje uma mulher como eu pode ter testículos. Não tenho preconceitos contra bêbados, ou ojerizas. De qualquer forma, a gente roda e roda sem jamais poder entender e explicar o turbilhão de acontecimentos desta vida — por causa disso, talvez, ele escolhesse chorar ouvindo Gaivotas, de Antônio Marcos. “Eu fui dentista! Me respeite, seu viado!” — apontando o dedo para mim ele braveja do outro lado da mesa. A sua cara tem a dignidade confusa de um capitão num naufrágio.
[1] Encontrei este texto num boteco. Escrito em papel de embrulho, letras miúdas, duas folhas escritas, frente e verso, dobradas em quatro partes. Assinou-se “Aline” à caneta vermelha, à esquerda e embaixo. Digitei seu texto e o modifiquei bastante, para deixá-lo mais confuso.
[2] Nesse trecho há uma mancha escura de “tira-gosto”, isto é, de gordura de toucinho, pelo cheiro rosado. Infelizmente não consegui transcrever toda a frase.
[3] “Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou”. Gênesis 38:8-10
Wellington Amâncio da Silva é sertanejo nascido e criado no interior das Alagoas, Delmiro Gouveia. É formado em Filosofia e mestre em Ecologia Humana. É membro do editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca, entre outras. Publicou livros de ficção e ensaios em lugares interessantes.