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155ª Leva Destaques Olhares

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O gesto silente das transformações

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Nicole Marra

 

A vida em seus diferentes modos de uso: universos que coexistem na arena das singularidades e que nos fazem atentar para as delicadezas que habitam esferas íntimas do ser. Desde o recorte daquilo que há de mais cotidiano, passando pelos detalhes abrigados nas mais diferentes sinas, nossas humanidades despontam na paisagem diluída pela sucessão dos dias que trilhamos sobre o planeta.

E há quem esteja alerta a tudo isso com o toque marcado pela atenção aos pormenores que escapam diante da fugacidade imposta pelo imponderável deus tempo. Nesse ínterim, o olhar sobre o mundo revela seus pontos de ênfase, descortinando imagens que traduzem um vasto panorama de sentimentos. É assim que Nicole Marra lança mão de sua condição de artista para evidenciar a poética da existência que sabe a gestos e formas de uma intricada cartografia de afetos.

De imediato, não há como deixar passar a marcação do feminino como fio condutor da obra de Nicole. Nesse painel através do qual transitam múltiplas expressões, é o corpo quem rege o destino das formas exploradas, pois ele, em larga medida, funciona aqui como catalisador de sensações e ímpetos. Assim, a artista nos oferta vertentes de apreciação que flutuam entre a dimensão física e imaterial das personagens apresentadas, sugerindo um equilíbrio entre as tensões internas e externas do ser mulher.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

Diria que a particularidade do traço de Nicole Marra é também capaz de harmonizar o caos interior que mobiliza as paixões humanas. E nesse fio delgado que molda seres e lugares, está fundamentada a percepção de que estamos por um átimo limítrofe, seja para a contenção dos arroubos ou a explosão daquilo que precisa ser manifestado aos olhos do mundo.

Residindo em Berlim desde 2017, Nicole destaca que a arte é um instrumento que auxilia sua compreensão sobre a condição de migrante, algo decorrente de uma trajetória de vida que mescla adaptação e introspecção. É, por assim dizer, a busca pelo entendimento do que seja construir sua própria identidade enquanto pessoa e artista, porções amalgamadas pelos efeitos das escolhas e movimentos.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

De posse dessas confissões dela sobre os fatores que impulsionam seu trabalho, é preciso assinalar que as ilustrações levadas a cabo por Nicole Marra simbolizam as metamorfoses pelas quais experimentamos no transcurso da vida. As personagens femininas retratadas pela artista exprimem seus diferentes estados de fruição do viver, arregimentadas especialmente pelo experimentar silencioso do recolhimento, sendo que o emprego das cores parece redimensionar os mapas da solidão tão caros ao exercício do autoconhecimento e da individualidade.

Em seu curso, as ilustrações de Nicole delineiam sublimes maneiras de expansão da consciência da mulher diante de seu corpo-território. Mas eis que essa assunção daquilo que emana de tal corporalidade transcende os aspectos meramente materiais, fluindo da linguagem expressa pelos contornos e formas em direção ao ambiente abstrato das emoções saboreadas. É na apreensão das revoluções internas que o salto acontece, pois elas noticiam lúcidas epifanias de feminilidade.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

* As ilustrações de Nicole Marra são parte integrante da galeria e dos textos da 155ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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154ª Leva - 02/2024 Destaques Olhares

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Moradas da singularidade

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Marcelo Leal

 

A vida pode encerrar não somente aquilo que está postado na superfície imediata das nossas visões, mas também tudo o que desliza nas dimensões imperceptíveis dos dias. E esse pode ser o ponto em que as coisas passam a fazer diferença na medida em que notamos o dinamismo sobre o qual se apoia a nossa existência. Para além dos flagrantes mais óbvios que nossos olhos detectam à primeira vista, há microuniversos circundando toda a jornada humana sobre a Terra.

O mundo pode ser uma grande redoma dentro da qual confinamos e fazemos girar a roda das grandes expectativas. Nessa nuance, os sentimentos de tudo e de todos restam diluídos na força de um presente que deixa para trás seus rastros, tencionando projeções para o que denominamos por amanhã. Certamente, as imagens que apreendemos em nossas mentes e que nos lançam ao desejo do registro são a manifestação de que é o tempo presente quem assinala seu protagonismo, consubstanciando o ímpeto de reter, de algum modo, a vida e suas epifanias.

Como, então, tornar visíveis os lampejos que decorrem das searas mais abstratas do ser? Indo mais além, o que de fato inscrevemos na parede do presente quando sabemos que a existência contempla aberturas e mistérios da ordem do intangível?

 

Foto: Marcelo Leal

 

Diria que, ao observar a arte de Marcelo Leal, talvez tenhamos a sensação de que poderemos encontrar alguns indicativos para as perguntas feitas acima. De imediato, penso que o trabalho desse fotógrafo traz à baila evidências de que a melhor tradução do mundo está naquilo que simboliza o conjunto de delicadezas que ele abriga. E compreender essa miríade mundana exposta nas fotografias de Marcelo é deixar se levar pela riqueza contida nos pormenores capturados.

Em meio à profusão de ambientes, seres, objetos e manifestações da natureza, o fotógrafo gaúcho lança mão de um olhar que extrai das frestas do cotidiano o componente poético. Ao fazer isso, suspende a camada repetitiva da vida, dando lugar a uma representação imagética que privilegia detalhes dos mais peculiares, denotando a coexistência de mundos no mundo. Eis aí o trunfo maior: revelar facetas daquilo que se abriga no comum.

Se a rotina acolhe os atos mais comezinhos e outras expressões da chamada vida ordinária, os registros de Marcelo Leal dão conta de que é preciso vislumbrar aquilo que pulsa nas entrelinhas, nos recônditos que falam mesmo quando as ausências humanas perpassam os lugares retratados. Daí que, modulando luzes, cores e sombras, o resultado obtido pelo artista sugere uma sinfonia de vestígios, marcas de nossa passagem pelo planeta.

 

Foto: Marcelo Leal

 

Ao mesmo tempo, o fotógrafo também nos oferta janelas de introspecção, evocando uma viagem para dentro de dimensões que, embotadas de silêncio, nos fazem valorar o sentimento das pausas. São lugares onde os instantes não se deixaram coagular, permitindo aos seus protagonistas a medida exata da contemplação. É preciso dizer que nessas alturas as personagens, inanimadas ou não, orquestram o gesto sereno que se espraia pela vida.

Oriundo de Porto Alegre, Marcelo Leal, além de artífice das imagens, é um alguém devotado à música e faz parte de um quarteto de jazz há três décadas. Seu trabalho com a fotografia, que inclusive lhe rendeu premiações, está materializado em diversas exposições, bem como participações em livros e revistas. Nas palavras do próprio artista, seu ofício imagético tem por propósito exprimir a procura por uma identidade que possa demonstrar aquilo que ele genuinamente sente pela arte da fotografia.

Suspeito que não há como desfilar os olhos pelas capturas de Marcelo sem que os pensamentos se deixem levar pelo aceno das singularidades. Mais do que um engenho de matizes estéticos, sua arte navega por certas fatias insondáveis do mister humano, daquelas que somente a atenção desacelerada é capaz de usufruir com mais plenitude.

 

Foto: Marcelo Leal

 

* As fotografias de Marcelo Leal são parte integrante da galeria e dos textos da 154ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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153ª Leva - 01/2024 Destaques Olhares

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Refúgios cotidianos

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Zô

 

Mirar as coisas diante das visões que se avizinham: eis uma das características do universo criativo daqueles que se dedicam a representar imageticamente o mundo. Ou termo melhor seria o de que artistas nos apresentam a multiplicidade de fenômenos mundanos? Impasses terminológicos à parte, já nos é dado saber que não saímos os mesmos diante da experiência que nos revela signos capazes de trazer à baila horizontes pautados na matéria da vida que testemunhamos incessantemente.

Então, o gosto pelas manifestações embotadas de rotina não nos mostra a inércia dos dias. Pelo contrário, faz com que vislumbremos em tais epifanias recortes marcantes da existência. E é esse olhar humano carregado de sutilezas e atento a detalhes singulares quem pode fazer a diferença no fértil terreno artístico.

De todo o dito acima, arrisco que a produção de uma artista como Giovanna Gonzaga, paulista de nascimento e hoje radicada em Curitiba, seja porta-voz dessa noção um tanto mais atenta aos pormenores dos cenários da vida. Assinando seus trabalhos como , que é como prefere ser chamada, essa artífice das imagens demonstra que é possível reter nuances do mundo em que habitamos através de escolhas confessadamente atravessadas por certa dose de encantamento.

E Zô revela que esse olhar que prima por tal encantamento busca nas paisagens do dia a dia a potencialidade encerrada nas expressões marcadas pelo anonimato. Daí que a face oculta dos agentes que fiam o tecido dos dias ganha uma outra possibilidade, pois se desdobram em formas e cores dispostas a uma reconfiguração das cartografias humanas. Dizer isso é reconhecer que há um sem fim de alternativas delineadas pelo traçado comum da vida, mas que se mostram através de perspectivas diferenciadas, denotando sentidos peculiares de abordagem.

 

Arte: Zô

 

A arte de Zô aposta na dose agigantada de distorção das formas, com criaturas com seus corpos alongados e na representação difusa dos espaços e ambientes. Diga-se de passagem, também o uso das cores aparece aqui conjugado a essa noção multiforme e não convencional da vida, pois tal predileção criativa aponta sobretudo para a ênfase que precisa ser dada a certos clamores existenciais.

Outro importante componente do trabalho da artista é sua inclinação para o território do fantástico, inclusive engendrando contornos, seres e cenários muito típicos daquilo que habita as entranhas do extraordinário. Com isso, Zô nos prova que é possível lançar lentes de aumento sobre a realidade, subvertendo, no bailado insubmisso das formas, qualquer lógica que tente limitar as alternativas de se flagrar a vida.

Entre gravuras, animações, pinturas, tatuagens e arte sequencial, Zô desfila toda a multiplicidade de suportes sobre os quais estão apoiados seus caminhos artísticos. E esse cardápio de opções variadas diz muito sobre a capacidade da artista em poder fundar mundos no mundo, descortinando predileções imagéticas que transbordam doses de intensidade. Sua voz, antes de mais nada, se faz sentir pelo teor abundante através do qual as criações recaem. Na interface profusa  entre seres, lugares e objetos, a arte aqui está posicionada como retratadora do gesto espantado que nos constitui.

 

Arte: Zô

 

* A arte de Zô é parte integrante da galeria e dos textos da 153ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

 

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152ª Leva - 02/2023 Destaques Olhares

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Entre enigmas e suas reconfigurações

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Magali Abreu

 

Sob o delicado manto das formas, há um universo embebido em mistérios que são fruto de nossas humanas idades. Nele, cabem as paisagens múltiplas que contemplam as porções interiores do ser, espaços constituintes do vivido e também do imaginado. Todo esse acervo é fonte de um manancial imagético capaz de retratar mundos no mundo, recortando possibilidades e sensações ao alcance do olhar que tem predileção pelos detalhes.

E eis que assim o faz Magali Abreu em sua travessia artística. Com um trabalho que ajunta os fragmentos sensíveis da existência, a fotógrafa nos oferta um panorama de alternativas cujas imagens simbolizam o gesto da recomposição da vida, processo este que não se descola da ideia de que o mundo pulsa intermitente entre os sentidos das dissoluções e reconstruções.

Ouso dizer que as fotografias de Magali ressignificam memórias em torno de pessoas e lugares. E na confluência entre a matéria tangível das coisas e a atmosfera das porções abstratas, forma-se um conjunto orgânico de sensações visuais que contêm afetos e também contemplam saberes e sabores particulares, desses que fazem sentido dentro da esfera líquida e secreta das imagens.

Daí que faz todo sentido se deixar guiar pelas imersões propostas pela artista, posto que ela nos atrai a um movimento que se assemelha também a um mosaico de representações. Mas para que isso se opere é preciso observar todo o véu poético que recobre as imagens da fotógrafa. É ele quem protagoniza os modos de exibição duma arte que encontra seu diferencial por não nos entregar facilmente os mapas de todos os percursos sugeridos.

 

Foto: Magali Abreu

 

Dito isso, cabe-nos o salto e os efeitos das descobertas para regiões mais profundas, zonas por onde circulam sentidos passíveis de espanto e/ou encantamento. Da mesma maneira, as fotografias de Magali Abreu parecem conter clamores em favor de uma nova ordenação para o humano, condição que retira do caos que nos acomete o fruto de eventuais libertações. Afinal, se o nosso olhar mais atento é capaz de redimensionar o modo como miramos o interno e o externo, também a arte poderia fazê-lo por intermédio de seus provocadores atributos.

Como a própria artista confessa, seu processo criativo é um se deixar levar pelos impulsos, fluxo por onde transcorrem naturalmente os estímulos dinamizadores de sua obra, a qual busca emocionar pessoas. Além disso, Magali assinala privilegiar o caráter subjetivo de seu trabalho, estabelecendo elos com suas porções íntimas, além de promover uma mescla entre o onírico e o real. Em sua trajetória, a fotógrafa baiana reúne exposições, premiações nacionais e internacionais, bem como menções honrosas.

A partir da aura enigmática que perpassa as fotografias de Magali Abreu, nos é dado perceber que a arte é fundamentalmente o encontro com a sugestão, considerando que um artista é aquele que nos conduz até certo ponto da jornada, pois o restante do percurso, muito provavelmente a sua maior parte, é feito por todo aquele que se permite mergulhar naquilo que se apresenta diante da sua visão. E é de se suspeitar que somente o mergulho não garanta a fruição da viagem, já que ninguém passa incólume pelas paragens artísticas, ainda mais quando estas desacomodam inquietudes.

 

Foto: Magali Abreu

 

* As fotografias de Magali Abreu são parte integrante da galeria e dos textos da 152ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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151ª Leva - 01/2023 Destaques Olhares

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Uma sublime travessia imagética

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Entre cores, impulsos e concretudes, a meta de se transitar pelas paisagens dos dias. Daí que as abstrações da vida, nosso campo intangível, parecem quase impossíveis de serem registradas como sintomas de um testemunho permanente. O que fazer com os sentimentos que transbordam no horizonte das perspectivas? Como reproduzir em imagens uma quantidade imensurável de coisas que nos invadem sem nenhum precedente sinal?

O imagético é esse mar de infinitudes a nos lembrar teimosamente que tudo pode ser representado, ainda que muito habite o campo do incompreensível. Afinal, precisamos mesmo de guias nesse percurso de signos complexos por natureza? Defender a ideia de que a Arte (propositalmente grafada aqui com inicial maiúscula pela característica de ser universo de possibilidades móveis) venha a ser desfrutada de maneira aberta talvez seja o melhor caminho para a fruição de seus dotes.

E como é fabuloso ver que cada pessoa empresta seus significados a todo o engenho criativo manejado por quem faz arte. Se a vida é um livro em construção, dificilmente as vias artísticas não o seriam também. A cada tempo, um espírito peculiar, marcas pungentes que cartografam sentidos experimentados por artistas e os receptores das obras. Nesse ínterim, talvez seja quase uma verdadeira proeza encontrar formas diferenciadas de apresentar as pulsações do cotidiano.

Desconfio que uma artista como Viola Sellerino saiba executar isso com especial destreza. Em seus trabalhos, a representação daquilo que está abrigado no dia a dia vem acrescida de um componente poético que desacomoda lugares comuns de observação. E estamos a falar de uma artista que, ao lançar atenções para a vida ordinária, retira desta os frutos diferenciados da contemplação. Na dicção de Viola, esse ato de contemplar não se baseia no foco passivo sobre certas vivências e cenários, mas lança sobre eles uma lente que redimensiona os saberes e sabores postados na jornada existencial.

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Dentro dessa esfera cotidiana, o olhar de Viola parece vislumbrar as alternativas de liberdade protagonizadas pelo corpo. Assim sendo, as investidas humanas são expostas como um tributo à emancipação de corpos e mentes, tomados que estão por certo gesto sublime do ser/estar no mundo. Daí que há espaço consagrado em sua arte para enlaces afetivos, flagrantes da delicadeza, pausas, arremates sintéticos dos entreatos humanos e sua ritualística, além de acenos que sugerem mergulhos meditativos diante dos mistérios do existir.

Todos esses atributos fazem das imagens concebidas por Viola Sellerino um painel que coloca como centralidade o humano e algumas de suas epifanias. Em seu modus operandi, a artista lança mão das ferramentas ofertadas pelo digital, além de se utilizar de técnicas mais convencionais como a aquarela e a acrílica. Italiana de nascimento, Viola reside em São Paulo, possuindo formação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Napoli e, também, em Ilustração editorial pelo Mimaster de Milão.

Uma imersão mais aprofundada pelas imagens de Viola Sellerino sugere certo envolvimento dela com uma forma própria de apreensão da realidade. Nesse sentido, ao fazer o entrecruzamento do vivido com o imaginado, a artista ultrapassa as zonas de conflito inerentes a nossas humanidades. Tal escolha não faz dessa proposta um lugar de fuga, mas de conversão de perspectivas, ambiente este que, sem renunciar às tensões impostas pelo real, transforma o embrutecimento da vida numa tomada de consciência mais serena.

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

* As ilustrações de Viola Sellerino são parte integrante da galeria e dos textos da 151ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.  

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Olhares

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A poética do despercebido

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Yuri Bittar

 

Estar presente é uma condição que permanece emblemática para todos nós. Tal percepção vem da ideia de que o momento mais importante da vida seria o agora, esse instante sobre o qual estamos de fato materializando as vivências. E estar atento a isso parece redimensionar toda uma carga de coisas marcada pela dispersão contemporânea de nossos tempos. Quando estamos conectados ao presente, passamos a prestar atenção em muitos fenômenos que acontecem ao nosso redor, escutamos pessoas e tendemos, inclusive, a assimilar aquilo que se abriga no campo do despercebido.

Sem dúvida alguma, a fotografia é um dos ramos da arte que conseguem nos apresentar traços valiosos sobre aquilo que se esconde por trás da rotina dos dias. E captar o imperceptível é um dos desafios da atualidade. Ao percorrermos registros de alguém como o fotógrafo Yuri Bittar, sentimos que a concepção da imagem põe em evidência a apreensão dos detalhes da vida. Como quem congela o instante, Yuri revela uma habilidade em nos apresentar a poesia que se esconde nos recônditos do cotidiano.

Conceber a imagem de tal forma é também defender uma atitude meditativa diante de todas os seres, lugares e objetos retratados. Adepto da Fotografia Contemplativa, Yuri se mostra um artista cuidadoso em não lançar filtros sobre tudo o que capta, posto que a sua presença diante daquilo que pretende registrar é aquela que silencia para que o mundo siga seu fluxo natural. Ao mesmo tempo, essa forma de trabalhar a imagem só é possível de se concretizar quando o fotógrafo está completamente entregue ao presente.

Podemos nos surpreender se acharmos que nosso dia a dia é confundido com um turbilhão de coisas repetidas. E é justamente a arte de gente como Yuri Bittar que nos mostra o quanto estamos enganados se supormos que nada merece ser tido como especial em nosso olhar. Subvertendo a velha noção de que não há nada de novo sob o sol, o fotógrafo nos mostra que, por entre os territórios apressados nos quais habitamos, há uma outra dimensão da existência pedindo passagem. É aquela porção através da qual a poesia se revela em face da manifestação dos gestos marcados pela simplicidade, enaltecendo pausas, rastros e sintomas de nossas humanidades.

 

Foto: Yuri Bittar

 

Em Yuri Bittar, a paisagem urbana é tomada pela ressignificação dos espaços e movimentos humanos. Assim, até mesmo lugares de ausência denotam vestígios deixados pelas diferentes pessoas que circulam no ambiente frenético das cidades. É como se em cada rastro configurado o dinamismo da vida nunca fosse capaz de apagar a presença registrada nalgum momento específico. Tudo isso a serviço de uma poética que sabe a silêncios, intervalos e encantamentos.

Quiçá o ato espantado de existir, com sua carga de revelações e assimilações do real, seja atenuado pela necessidade de deslocarmos nossa atenção para muito do que teimosamente insistimos em ocultar. E eis que as fotografias de Yuri, com sua força contemplativa, nos atraem para aquela vivência do presente a qual me referi no início deste texto. Agindo assim, talvez por alguns instantes recusemos os imperativos da pressa que tanto afetam nossa capacidade de saborear a vida com mais inteireza.

Atuando como fotógrafo desde 1998, Yuri Bittar também está atravessado por influências que vêm da literatura e da história oral, dentre outras. Como ele mesmo confessa, seu trabalho se move pela crença no humano, principalmente levando em conta soluções para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Mas eis que é a vida ordinária quem protagoniza a arte de Yuri. Seu interesse reside nos trânsitos engendrados por pessoas comuns, pois são estas que fazem girar tacitamente a grande roda dos acontecimentos. Através de suas lentes, seres e objetos representam organicamente um sentido de unidade para a existência, algo que sugere uma complementaridade entre partes até mesmo distintas. Pelo que se pode notar, é um todo harmônico que, sem negar as individualidades e especificidades, pede passagem para um exercício mais pleno e valoroso da vida.

 

Foto: Yuri Bittar

 

* As fotografias de Yuri Bittar são parte integrante da galeria e dos textos da 150ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Olhares

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Sobre o que transborda

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Drika Prates

 

Nas paisagens que vão por dentro, habita uma aurora de sensações. São cenários que movimentam paixões dispersas pela vida. Observações que brotam do que há de mais genuíno quando a viagem a ser feita é totalmente aquela que atravessa o painel das interioridades do ser. Nesse mergulhar fundo, a imersão traz vestígios das passagens por momentos dos mais diversos e faz com que a memória seja uma disseminadora de rastros afetivos.

É uma travessia em que o artista volta com um legado de capturas nas mãos. Como se não bastasse, sabe reverter isso a favor de sua criação. Difícil não levar em consideração os mergulhos que alguém como Drika Prates empreende com sua arte. São ilustrações que operam no continuum entre o dentro e o fora, tornando possível a coexistência entre tais dimensões. Durante a sua abissal incursão, não sentimos ali a contraposição entre as porções internas e externas do ser que a tudo observa com seus olhares atentos.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Drika é, antes de mais nada, aquela que no engenho de seu ofício transborda as pulsações interiores da condição humana. O resultado disso é a materialização das zonas de percepção mais oníricas e abstratas possíveis em favor de uma arte que se afigura poeticamente desperta. Assim, vão ganhando forma sentimentos, corpos e espaços diante do tão almejado ideal de verdade propalado por todos os cantos. Ao que parece, buscar a tal verdade das coisas seria mesmo uma luta vã e não é sobre essa procura que se apoia a arte de Drika. Nela, importa muito mais saber que as modelagens que constroem suas ilustrações são movidas pelo desejo pleno do existir, essa maquinação mental capaz de harmonizar os mais dignos contrastes da nossa experiência como seres tão contraditórios que somos.

Entre o afago e as durezas do caminho, as representações de mundo engendradas aqui vão além desse gesto que extravasa interiores e os põe ali, na linha de frente com o externo. E é certo que as dualidades do ser também estão na ordem do dia quando pensamos o trabalho de Drika. Mas talvez isso não roube tanto a cena quanto a capacidade sensível que a artista tem de ressignificar os corpos femininos segundo uma ótica alimentada pelos desígnios da delicadeza. Esse mesmo feminino é moldado como um imenso e variado panteão de libertações, através do qual o ideal de amor-próprio e o gesto afirmativo diante de um mundo que dizima mulheres em todos os sentidos se consolida como uma ferramenta crucial de resistência.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Atuando com design gráfico e ilustração, Drika Prates também se diz inspirada em primazia pelas formas da natureza. E não seria prematuro concluir que muitos de seus trabalhos artísticos contemplam essa fusão entre as humanidades e a natureza. Quando o assunto é falar de si num sentido de definição, a artista nos revela que não poderia ser tomada objetivamente ou de modo deveras óbvio. Prefere ser como um alguém que, assim como outras pessoas, é portadora de interesses múltiplos, humores e projetos. E aqui, pelo que sua arte sugere, tomamos a liberdade de incluir nesse rol também outra faceta para ela, a de pessoa sonhadora.

Com sensibilidade aguçada, um dos lemas da artista é deixar que a vida siga seu fluxo sem que se possa prever o resultado dos caminhos. Quiçá tal forma de pensar seja a chave para que, por meio dos profundos mergulhos de vida, sua arte ganhe um arcabouço estético que se prolongue no tempo. Quanto a nós, apreciadores dos trajetos aqui propostos, caberá a insondável tarefa de nos deixarmos tomar pelas alamedas revigoradas do inexplicável.

 

Ilustração: Drika Prates

 

* As ilustrações de Drika Prates são parte integrante da galeria e dos textos da 149ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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148ª Leva - 03/2022 Destaques Olhares

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Um performático bailado de vida

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Dos estados do ser. Vê-lo desfiando, dentro do tecido das horas, gestos de contemplação e inquietude. Corpo-templo é corpo-abrigo, vastidão de sonhos que atravessam o caminho concreto dos dias todos. Onde a mescla das imagens fantasiadas com a suposta ideia do real? Onde o nosso desejo de verdade naquilo que tomamos posse diante da visão primeira das coisas?

O ser que evoca o corpo denota movimentos que vêm das entranhas humanas. Nesse ínterim, as investidas reverberam como se expressassem o incontido em sua dimensão mais amplificada possível. Por vezes, o clamor das formas encerra um ato a ecoar poderosamente nas consciências. São vozes que se insurgem contra qualquer forma de encarceramento dos anseios mundanos.

Quando o corpo é porta-voz daquilo que somos, sentimos que a vida mesma se expande para todas as direções. É ele o invólucro das efusões, contemplações, dores, confusões, desvios, júbilos e toda a sorte de cotejos da alma. É ele também o mensageiro duma ancestralidade que nos atravessa a todos, permeando gerações e gerações, suas linhagens, traçado originário das rotas consagradas pelo ato não menos espantado e corajoso que é o existir.

Então, por que mencionar tamanhos contornos do humano nas linhas dos parágrafos acima? Diria que para exprimir um pouco do encantamento que a arte de Gilucci Augusto é capaz de nos proporcionar. E tal sensação se consolida à medida em que mergulhamos mais e mais nas searas propostas pelo artista.

 

Foto: Gilucci Augusto

 

E falei tanto sobre as paragens do corpo que mister se faz desfilar mais razões para tal. Nas fotografias de Gilucci, a corporalidade humana transcende as dimensões tangíveis da existência. Dito isso, podemos perceber que o gesto performativo que encerra suas imagens encontra, no nível do corpo, um elo entre as esferas interna e externa do indivíduo. É dizer que, para além da matéria em suas marcações de concretude típica da sina dos nossos desígnios mortais, um enlace abstrato se agiganta e proporciona um universo expandido de apreensões sensoriais.

O resultado da coexistência do que vai por dentro e por fora desemboca no efeito poético que as fotografias do artista têm também por atributo.  É, sobretudo, uma atmosfera conduzida pelo bailado das formas, através do qual as porções femininas e masculinas traçam rotas de expressão. Durante todo o trajeto proposto pelo artista, mais parecemos arrebatados pelos mínimos detalhes ofertados. E não são poucos, diria. Desde o contraste entre luz e sombra, passando pela nudez reveladora dos sentimentos, pela mescla de cores, intervenções e hibridismos imagéticos, tudo é vontade de comunicar mundos no mundo.

Profundamente interessado pela poesia que emana do Recôncavo Baiano, olhar eivado de relações com a tradição, diversidade e contemporaneidade, Gilucci Augusto nasceu em Santo Antônio de Jesus, na Bahia, e hoje reside na capital soteropolitana. Atualmente, cursa doutorado em Artes Visuais na UFBA e traz, em sua trajetória acadêmica, pesquisa sobre a poética da imagem fotográfica relacionada ao imaginário das mulheres do Quilombo Kaonge, localizado na região do Vale e Bacia do Iguape, no interior baiano. Com tais predicados, o fotógrafo se revela um alguém que possui em sua bagagem o equilíbrio entre sensibilidade e conhecimento teórico no seu caminhar criativo, feições que demonstram habilmente se complementar.

O corpo em Gilucci Augusto não é apenas vetor de signos e seus respectivos significados possíveis, mas antes é chama viva de nuances do inquieto espírito que povoa nossas humanidades. Tal travessia suscita revoluções internas do ser, modulando nossas visões rumo ao horizonte enigmático da existência. Para atingir esse efeito, é mais do que necessário ousar com as imagens, promovendo outros arranjos sobre os quais podem transitar a fértil andança das subjetividades.

 

Foto: Gilucci Augusto

 

* As fotografias de Gilucci Augusto são parte integrante da galeria e dos textos da 148ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Olhares

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A pulsação do intangível

 Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

O mundo e suas esferas possíveis. Fluxos do que vai por dentro e por fora de nossas perspectivas. Na confluência entre o duo interno/externo, sensações das mais abstratas assumem contornos de visibilidade pela materialização do gesto artístico. E ser artista, bem no meio do turbilhão nosso de cada dia, pode ser um ato de transformação de horizontes. É converter, por exemplo, o aborrecido em poesia.

Num certo sentido, o olhar do artista sobre a paisagem mundana revela opções que nos sugerem atravessamentos. Esse estar-se atravessado fala de como as complexidades humanas são capazes de afetar a visão de quem cria, pois é praticamente impossível não se levar em conta o quanto os nossos sentimentos e ímpetos orientam a dinâmica da vida que engendramos enquanto seres pensantes.

Observar o trabalho de Bianca Grassi é pensar também no quanto essas complexidades que se revelam na condição humana são eixos fundamentais a mover a Arte. Em suas ilustrações, a artista evoca sensações que dissolvem as formas convencionais de representação do humano. Em lugar de corpos e faces definidos num mar de expectativas tradicionais, vemos a matéria alongada dos seres, envoltos em proporções agigantadas, disformes, verdadeiro agregado de sintomas das perturbações que nos assomam na travessia dos dias sobre a Terra.

Mas o redimensionamento das formas proposto na arte de Bianca não parece ser uma mera escolha estética. Diz muito sobre como as experiências aqui vividas por todos nós mobilizam inquietudes, posto que estar no mundo é ato constante de alteração dos estados de existência, ou seja, é prover as mudanças do ser, de modo voluntário ou não.

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

O humano em Bianca Grassi é confrontado quando se mira no espelho. Nesse enfrentamento, irrompem espantos, medos, estranhamentos, dores e prazeres, fazendo-nos lembrar a todo instante que viver é um flerte incessante com a consequência dos caminhos escolhidos. Nesse trajeto, a ilustradora traz à baila o ímpeto da provocação, estímulo que ora nos desnorteia pelo desamparo de algumas imagens ora nos une pela sugestão de que não compreendemos a mínima parte do mistério que é o existir.

Autodidata, Bianca mescla diferentes técnicas como nanquim, carvão e aquarela, transpondo-as para o digital. Nesse ínterim, busca comunicar muito daquilo que está imerso no emaranhado cotidiano. Como ela mesma nos confessa, sua arte está voltada para reflexões sobre o indivíduo, as relações humanas e a sobrevivência do efêmero diante das dores do mundo. A artista também se dedica ao design e à literatura, tendo poemas e contos publicados em espaços e coletâneas digitais.

Na via que demanda a abordagem sobre as emoções humanas, as ilustrações de Bianca Grassi estão situadas num eixo marcantemente filosófico, posto que simbolizam incertezas do nosso caminhar, dúvidas que se manifestam sob a forma de indagações na miríade de sentimentos expostos. Nesse colossal painel de humanidades, imergimos nas profundezas, retirando dali vestígios do que outrora fomos, além de memórias desejosas de um porvir. Ao fim e ao cabo, somos o corpo de escrituras vivas, inserindo em nossa sina a marca portentosa da imprevisibilidade do ser.

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

* As ilustrações de Bianca Grassi são parte integrante da galeria e dos textos da 147ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.

 

 

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146ª Leva - 01/2022 Destaques Olhares

Olhares

Dos legados do corpo

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Fátima Soll

 

O que pode o corpo enquanto narrativa? Trazer notícias de um mundo embebido em caos e dúvidas? Falaria ele de rompimento de amarras de toda ordem? Anunciaria a vida em toda a sua potencialidade expressiva?

As indagações acima jamais esgotariam as possibilidades plausíveis de reflexão. São, na verdade, apenas um pequeno recorte do universo que remonta ao tema. Tudo depende de como direcionamos nosso olhar para a disposição das coisas. E também não é de hoje a ideia de se pensar o mundo e suas intricadas questões a partir de uma cartografia do corpo humano.

Tradicionalmente, temos pensado o corpo como um símbolo vivo de afetos, desejos e paixões. Também o tomamos como porta-voz de anseios de toda ordem, seja pelas marcas que traz, seja pela inscrição do tempo que o modela nas suas mais aparentes formas. Mas há a perspectiva do interdito, da proibição e da tentativa de silenciamento que atravessa as eras.

Um corpo que transgride regras controladoras, desacomoda tabus e, desse modo, envia seu recado político ao externo costuma, por exemplo, causar incômodos. E se este mesmo corpo for feminino, o impacto parece ser maior ainda, dada toda a carga de negativas conferidas a ele nos desvãos da nossa humana história por sobre o planeta.

 

Foto: Fátima Soll

 

Mas por que dizer isso tudo? Talvez como modo de não esquecermos que, para além de um receptáculo físico da matéria que nos constitui, portar um corpo é abrigar uma identidade própria a nos orientar para todas as direções. E tal condução abraça a nossa subjetividade como protagonista daquilo que pensamos, sentimos e aplicamos no campo concreto das realizações e interações com o mundo que, por vezes, tenta nos trucidar com seus imperativos.

Diante de toda essa constatação, faz bem termos em conta que habita entre nós a obra de Fátima Soll, artista que empresta olhares especiais aos percursos do corpo. Sua arte vai muito além da representação de mundos que transitam entre nossos domínios mais aparentes, posto que é chama sensorial que nos provoca ao lançar reflexões acerca da condição humana.

Munida pelo ferramental da fotografia híbrida, mescla do impresso com outras técnicas, Fátima adentra poeticamente as searas da imagem. Nesse trajeto, o mix de possibilidades criativas lhe permite ressignificar contextos, ofertando a quem se depara com sua arte outras experiências em torno da vivência do real.  Mas em tal caminho também se revela o flerte com a porção sublime da existência, pois suas fotografias são de tal ordem que ultrapassam as fronteiras da fisicalidade, voltadas que estão para um mergulho interior.

E não é em vão que a temática do corpo está tão impregnada nestas linhas que agora surgem por aqui. O próprio trabalho de Fátima vislumbra o assunto com marcas de autenticidade, posto que cria e recria, desloca-se da origem ao ponto no qual a vida acontece e se manifesta também de forma experimental. Na via do autorretrato, a própria artista revela-se amalgamada a sua criação, pondo seu corpo enquanto instrumento de libertação da alma e dos sentidos dentro de uma via que harmoniza autodescoberta e percepções do mundo.

 

Foto: Fátima Soll

 

Natural de Florianópolis, Fátima é formada em Cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina, possuindo também qualificação profissional em fotografia pela Escola Câmera Criativa. Confessa que se dedica ao ofício com as imagens como um meio de tornar visíveis emoções e reflexões, tudo isso movido por um espírito que posiciona a arte enquanto instrumento para se alcançar a liberdade.

Mas eis que a fotografia de Fátima Soll não é tributária de um gesto simples de libertação. Sua capacidade de explorar o nu, esse elemento ainda perturbador, aponta para um gesto político num sentido especial do termo. Implica em marcar um lugar no mundo a partir de perspectivas corporais que comunicam sensações complexas, mistérios, efusões, atos inconfessáveis, silêncios, contemplações, tomadas de posição e também a efervescência marcante e insone da paixão pela vida.

Pensar a arte de Fátima Soll é imergir em águas que acusam não somente o gesto espantado de existir, mas também permite a fruição de certas delicadezas existenciais. É também perceber a coexistência entre as porções interna e externa da natureza humana, seus matizes que nunca apontam para lugares fixos e estáveis. Nesse caminhar, os sentimentos parecem camadas sobrepostas umas às outras, engrenagens mobilizadoras daquilo que vai por dentro, aurora a reafirmar o indizível em nós.

 

Foto: Fátima Soll

 

* As fotografias de Fátima Soll são parte integrante da galeria e dos textos da 146ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.