Dedos de Prosa I

Sérgio Tavares

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

 

evolam-se os barcos

 

hoje eu matei o trabalho, fui ver os barcos.

gosto de ver os barcos nesses dias de baixas nuvens chumbo, quando o céu se torna um reflexo encapelado do mar e sopra fiapos d’água que tingem de escuro meu terno, tecendo um manto baço de papel de seda que cobre o horizonte.

nesse cenário espesso de giz, os barcos são como pequenos borrões coloridos, imóveis no expressionismo da tela turva, onde gaivotas e trinta-réis adejam em voos erráticos como úmidas cerdas de um pincel que pinta de inverno todo o tecido marinho, exceto as franjas brancas tomadas por este misterioso e interminável ímpeto de tramar-se e destramar-se.

gosto de sentir as azaleias de espuma que se abrem mansamente entre meus dedos e me queimam de vida a carne, para logo em seguida desaparecerem na areia viscosa que suja de sal as bainhas da calça e engole meus pés para a fundura cinza onde penetram as ondas.

gosto de deixar que o áspero sudoeste me percorra o corpo, açoitando a pele por entre as casas dos botões e insuflando as asas de um homem-pássaro negro, eu e milhões de grãos, gotas e uma gravata, que rodopiam pelo ar.

parto com eles em direção ao infinito, perdendo-me no teatro de névoa e chuva, no momento em que descem as cortinas e os barcos içam suas velas, disparando em mim a reconfortante certeza de que o vazio da praia é maior que o meu.

sempre preferi a solidão. vivia em busca deste estado de desaparecimento, quando é possível ouvir alto a própria voz calada. na infância, fui uma criança introspectiva. gostava de colecionar coisas sem valor e andar a esmo pelos parques. não tinha amigos e nos aniversários ficava sentado ao lado dos adultos, observando as outras crianças brincarem.

uma vez, me deram um cachorro, mas ele morreu de tristeza antes de completar um ano. nem sequer teve um nome, só um retrato que desenhei do dia em que desenterrou um pardal. esquecia das horas entre os lápis de cera ou assistindo aos desenhos animados. minhas tias diziam que eu seria um infeliz ou um gênio.

quando ingressei no ginásio, descobri a leitura. lia de maneira indistinta e compulsiva. na biblioteca, no horário de recreio, no ônibus de ida e no ônibus de volta. no meu quarto, chegava a ler dois livros de uma vez. os professores começaram a me usar como referência e minha introspecção foi se tornando sinal de inteligência e admiração.

verdade era que, na página seguinte, eu já não me lembrava do que tinha ocorrido no capítulo anterior. os livros eram uma necessidade, pois são chaves para a solidão. às vezes, deitava na cama com um livro pousado sobre o peito e me perdia nos entremeios e nas reviravoltas até me esgotar de sono. era gostoso retomar a história no dia seguinte e perceber que parte do enredo fora tramada em sonho. dormindo, eu era um melhor escritor.

tentei a faculdade de matemática, mas os livros não me serviram para os números. os anos foram adoecendo meus pais até os tornarem dois insetos pequenos demais para a mecânica da casa. tive de trabalhar para comprar remédios e reparar os móveis.

meu primeiro emprego foi na fábrica de calças. tinha a função de verificar a precisão dos botões e dos zíperes. eu gostava, pois passava todo o dia sozinho, forçando as costuras e o trilho dos fechos. na hora do almoço, me sentava numa mesa do canto com um jornal aberto sobre o tampo para afastar qualquer intenção de diálogo. a única que insistia era Irene.

todos os dias, puxava conserva sobre os fatos publicados, que eu respondia com hum-huns. de tanto me importunar, acabamos iniciando um relacionamento em que nos víamos pouco, falávamos no refeitório e ela me ajudava nas tarefas domésticas pesadas de fim de semana. minha mãe gostava da Irene. dizia que ela me entendia e amava como ela amava o meu pai, e que dançariam conosco a valsa nupcial, no baile de casamento.

fatalmente ela estava enganada. alguns meses depois, minha mãe sofreu um infarto fulminante. no dia seguinte, meu pai acordou cedo, fez a barba, tomou o ônibus até o mais alto prédio comercial, subiu o elevador e se jogou do nono andar. fizemos as bodas junto à missa de sétimo dia para salvar as poucas economias que tínhamos, ameaçadas pela hipoteca da casa que pendia há seis meses. com o ordenado da fábrica, seria impossível nos sustentar dignamente.

foi quando um tio de segundo grau, que trabalhava numa secretaria de estado, me ofereceu um cargo no setor de protocolo. era um trabalho que não requeria muito raciocínio, o salário e os benefícios eram satisfatórios e o horário flexível, embora o terno e gravata fosse indispensável.

dividia a sala com dois funcionários estatutários, nos revezando no ofício de numerar os processos, carimbar, comunicar e depositar num dos muitos arquivos. a sala era pequena, de paredes cor pastel e sem janela, acarpetada e tomada de antigos móveis de patrimônio. havia três mesas, uma máquina de escrever e um ventilador em mau funcionamento.

verdade é que, com o tempo, comecei a gostar de passar o dia nesse isolamento remunerado, no qual quase não tinha de interagir com pessoas e podia me perder na leitura por horas sem interrupção. com essas garantias, me vi impelido por vontades que se harmonizavam aos desejos de Irene. quitei as dívidas e recuperei a casa, compramos móveis novos, incinerei as tralhas dos meus pais e tivemos duas filhas. tornei-me um homem de família, embarcado numa ciranda de deveres e novos sentimentos, em que a solidão era o acordo que incidia sobre o cotidiano quando o relógio de ponto, no hall de entrada, marcava o início do expediente da repartição pública.

uns dois anos depois, esse refúgio, porém, adquiriu uma atmosfera claustrofóbica que asfixiou o mundo que inventei para mim. a Casa Civil protocolou um comunicado, informando que todos os órgãos teriam de cortar despesas. houve demissões e todos os contratos foram suspensos.

logo, os funcionários do meu setor foram alocados em outras seções e fiquei sozinho. é claro que, a princípio, assaltou-me uma euforia sem igual. ficaria completamente isolado, imune a qualquer contato ou explicações. livre para ler, sonhar, pousar minhas costas sobre a espalda da cadeira e ouvir somente a minha voz calada. no entanto, detidamente percebi (e era como sufocar aos poucos) que esse estado que tanto buscava, a solidão, só suscita recompensa quando conquistado e não imposto.

a paralisação deflagrou a negligência que já pairava sobre as repartições, estabelecendo a mediocridade e o desânimo que acomete todo o ser envenenado pela burocracia. não havia mais andamento de despachos, fotocópias ou telefonemas. o expediente resumia-se a sentar diante do relógio e esperar os ponteiros empurrarem a massa pegajosa que era o tempo. fui sendo esquecido naquela sala sufocante e sem janela. desbotando feito um retrato consumido pelos anos, uma silhueta borrada sem reflexo.

a vontade de isolar-me, esse ímpeto de estar apenas comigo, deteriorou-se dentro de mim, deixando um vazio que me tornara invisível não do modo que sempre pretendi. às vezes, acontecia de um entregador ir ao setor levar uma correspondência e ficar parado na porta, olhando como se não tivesse ninguém, até ir embora. quantas feitas eu pedia para segurar o elevador e as portas se fechavam indiferentemente. ou quando alguém precisava arquivar um processo, o deixava com um bilhete escrito à mão, avisando que tinha estado ali e a sala estava vazia.

em casa, o isolamento desencadeara um processo mais doloroso. juntamente ao amadurecimento do corpo, minhas filhas desenvolviam a cruel habilidade de não me enxergar. cruzavam por mim como se me vestisse a textura do papel de parede ou a insignificância de um vaso ornamental.

já começavam as refeições sem a minha presença, ignorando meus comentários e mesmo os pedidos de passar o sal. quando, por ventura, estava assistindo à televisão, naturalmente pegavam o controle remoto e mudavam de canal. há duas noites, eu me deparei com a menor olhando para uma foto minha com ela e a irmã ainda pequenas com uma estranha atenção, como se eu fosse suspenso em sua prematura memória.

mesmo Irene, que me encontrou no esconderijo dentro de mim, agora me esquecia em comezinhas obrigações e pormenores que supriam o sentimento de ausência. fui desaparecendo. rareando como um tapete pisado, um fantasma na eletrostática da televisão. não dormia, e nem mesmo a leitura trazia-me conforto. comecei a vagar pela rua, em busca de um olhar, um rosto em meio à multidão, uma expressão manchada por olhos nublados capazes de enxergar o invisível…

ele vê a forma, um borrão, uma mancha que aflora na sedosidade da neblina e o assalta um entusiasmo incompreensível, tal a voragem que urde grãos de areia e contracorrentes na germinação de bulbos de lótus, flâmulas e pétalas que se abrem apenas para se despedaçarem na arrebentação, fragmentos de espumas, espelhos-fantasmas que refletem o desfraldar das asas do pássaro negro, o prelúdio do voo entre os véus bailarinos de chuva fina sobre as milhares de pegadas que se confundem e percorrem caminhos que nunca existiram, rumo ao rochedo, o aglomerado de pedras e depressões, coberto de limo, alestrins e matacães, onde explodem ondas e acertam estilhas peroladas nas suas costas, avançando contra os papa-breus entrando por desvãos e saliências que lanham as mãos confusas, entre o par de sapatos e escorregões, na escalada até o cume, o abismo onde o ar é menos salino, e ela está sentada, braços envolvendo os joelhos, o rosto delgado e a bainha do cabelo castanho, repartido ao meio.

É uma bela visão.
É uma bela queda.
Não deixa de ser um ponto de vista.
Talvez um menos glorioso.
A vida, em certos aspectos, tende a não ser gloriosa.
Meu pai costuma dizer algo parecido.
Seu pai é um homem sábio.
É, talvez.
Posso me sentar?

Sabe, subir aqui me dá a medida da minha insignificância.
Para mim, é a possibilidade de desaparecer.
Acredite, não é tão simples.
Não é difícil o bastante.
Está vendo os barcos? Os pequenos borrões coloridos atrás do mau tempo, surgindo e desaparecendo? Imagine todos os elementos que são necessários para que isso aconteça. A névoa, a chuva, o vento, as ondas. Tudo tem de convergir perfeitamente para criar essa ilusão de ótica. Não acho que seja tão simples assim.
Eu não consigo me impressionar com ilusões.
Deve existir uma boa razão para isso.
Meu pai é mágico, um ilusionista, como ele prefere ser chamado. O seu número mais famoso é o do desaparecimento.
E você cresceu sabendo que era uma ilusão.
É. Ele era grande em sua época.
E onde está agora?
Agora ele está preso à cama de um hospital, flutuando entre momentos de lucidez, enquanto espera por um transplante que nunca acontece. Irônico, não? Meu pai ganhou a vida com truques de desaparecimento, e agora não há nada que se possa fazer para evitar que desapareça para sempre.
Sinto muito por isso.
Acho que essa é a ilusão que ainda me impressiona. Acreditar que existe algum sentido na vida.
Sei que não é reconfortante, mas imagine, em todos esses anos, quantas pessoas seu pai tocou com seus números, quantas vidas conseguiu mudar.
Não é nada reconfortante.
Ao menos, ele tem a você.
A mim e ao meu irmão Pedro. Nunca o abandonaríamos. Minha mãe desapareceu quando éramos crianças. Meu pai sempre foi muito presente. Apesar da vida itinerante, de crescer seguindo a rotina dos circos de cidade a cidade, em momento algum ele permitiu que imaginássemos que poderíamos ficar sozinhos. Fomos ensinados a acreditar na comunhão e educados a construir um futuro próprio. Ele nunca deixou que seguíssemos sua estrada.
É curioso como viemos aqui por razões parecidas, mas com propósitos diferentes.
E o que você veio fazer aqui, num dia chuvoso, de terno e gravata?
Não sei ao certo. Encontrar algo.
Não deveria estar trabalhando?
Deveria, mas ninguém se importa. Já faz algum tempo que ninguém percebe que estou lá. Faz tempo que ninguém me percebe, de forma alguma.
Você é casado.
É, a aliança. Tenho duas filhas.
Isso é bom?
Não sei.
Deve existir uma boa razão para isso.
Passei a vida me escondendo, tentando desaparecer. Quando finalmente consegui, descobri que não podia voltar atrás.
No número do desaparecimento havia um fundo falso. Meu pai era amarrado por correntes presas a cadeados e erguido dentro de uma caixa. A chave ficava na sua mão. Quando a corda se rompia, ela passava pelo buraco e caía sobre um colchão. Esse é o segredo.
Quer ouvir um segredo? À noite, quando sei que todos estão dormindo, vou até o quarto das minhas filhas. Pego uma cadeira e me sento à beira das camas. Fico horas apenas as olhando, às vezes até raiar o dia. Eu não sabia o porquê. Na verdade, eu fingia que não sabia o porquê. No fundo, eu esperava que uma delas acordasse e, na transição entre o sono e o despertar, ainda livre de qualquer pensamento, pudesse me ver novamente. Saber que eu estava ali, que ainda existia. Mas agora sei que não posso reverter o que me tornei. Sou um fantasma no porta-retrato, um morto-vivo.
De alguma forma, é isso que meu pai se tornou.
É isso que, afinal, nos tornamos.
E não há nada que possamos fazer.
Ainda podemos ver os barcos.

 

 

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O conto aqui publicado faz parte de seu mais recente livro, “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012)

 

 

 

 

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