Dedos de Prosa I

Maria Balé

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

A Cerimônia do Chá

As cores da tarde quente de princípio da primavera são prenúncio de céu claro e sol generoso para o dia seguinte. A chuva tropical que cai por horas a fio, enfim, dá trégua.

Uma alegria tímida tonaliza sua fisionomia. Ela poderá voltar ao estreito alpendre que circunda o quarto do andar de cima, de onde se vê a quaresmeira roxa coberta por folhas frescas. A prenhez fora de hora dos seus talos intumescidos  é mensageira de esperança. Comovida, ela evoca Baudelaire e abstrai-se num solilóquio em reverência ao bíblico manto de Verônica em que se transformará aquela árvore, não demora. Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais importa. Para que o horrível fardo do tempo não vos pese sobre os ombros e vos faça pender para a terra, deveis embriagar-vos sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Promete a si mesma, ali, naquela hora, um dia, recitar tamanha beleza, em Francês, o sonoro idioma original.

Sua alma, embriagada de poesia, submerge no púrpura imaginário e, etérea, dissipa-se na densa brisa de incertezas. Sua magreza exausta permanece ali, imóvel como uma pilastra grega.

O gemido abissal a traz de volta do transe lenitivo. A sudorese intensa encharca o pijama de listras largas nos variados tons que vão do azul-marinho ao cinza-claro. A dor voltara. Com força.

Ela chama a enfermeira que, doce e decidida, injeta na veia gasta uma dose da morfina diária.

O pavor abandona a face abatida pela doença. No entanto, a despeito do alívio rápido, o semblante é inanimado. O brilho ausente nos olhos do homem enfermo traduz o longo período confinado nos compartimentos internos da íngreme história que se abrevia. O espírito, desalojado, vagueia nu e indefeso, sobre o branco dos lençóis bem lavados.

Assustadoras indagações comprimem seu peito e um terror repentino a domina. Calafrios invadem seu corpo tenso. Haveria tempo para demolir a parede invisível entre eles? Como remover o entulho acumulado durante anos e que impede a visão mútua?

Ela olha para a janela. Percorre a testa com as mãos, tentando domar a angústia que a assola. De um ângulo diferente vê a ponta de um galho da sua árvore apinhado por flores jovens em seus matizes em aquarela. Decide que o evento não é mero acaso. Mais que um capricho botânico, é um signo profético. Respira, toma fôlego e dirige-se à cama reclinada. Segura as mãos distônicas do seu ocupante e espera por alguma reação. Minutos? Horas? Um tempo sem métrica.

Em fragmentos, sente a frágil pressão em seus dedos e, devagar, as mãos trêmulas se agarram às dela. Ela abraça o corpo frágil, consumido pela languidez prolongada e o choro, em ambos, flui livre, caudaloso e limpo. Aos soluços, os dois adormecem. Ele, recostado em três travesseiros finos. Ela, na velha poltrona marrom, exaurida, dorme sentada.

A noite chega lenta e, silenciosa, passa.

A luz da manhã de fim de setembro reflete-se nos olhos translúcidos do homem de aparência suave. Seu olhar tem todas as cores do mundo. O entusiasmo, há muito esquecido, surpreende e dá um susto na rotina. Ela espreguiça-se, estica os braços, alonga as pernas e joga água fria no rosto. Sem pressa, retoma o seu lugar na janela. Mais galhos amanheceram em flor. Réstias luminosas estampam as paredes úmidas da ala norte da antiga Santa Casa de Misericórdia.

Ele parece outro, no frescor do banho da primeira hora.

O delicado aroma de glicerina mistura-se ao cheiro do desjejum na pequena mesa redonda entre o armário e a veneziana entreaberta. Ele senta-se em posição de lótus, num solene arremedo de cerimônia. Toma o chá em goles longos e demorados. Sereno como as águas de um lago plácido, ele sorri feito um menino. E vai embora.

Ela olha o relógio. São horas de embriagardes! Para que não sejais os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.

 

Maria Balé é pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC – SP, produtora de textos publicitários e fotógrafa. É cronista do caderno Cotidiano do jornal eletrônico Algo a Dizer, edição mensal. Integra o elenco dos oito autores do livro Damas de Ouro & Valetes Espada, da MG Editora. Mora em São Paulo, Capital.

 

 

 

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3 Comentários

  1. Sempre acho, aqui com meus pessoais botões, que um grande escritor é aquele que dominando sua linguagem, consegue tocar o leitor e ter inventividade na ordenação das palavras, a fim de tocar sem mesmice, a fim de nos prender num brinquedo novo. Acho Maria Balé uma grande escritora. A ambientação deste conto faz sentir a umidade do ar, as cores da quaresmeira; a evocação de um pensamento aprendido quer absorver o fascínio daquela hora. É um devaneio o que nos mostra; logo a realidade retorna. A dor é em nós. A dor é no outro. E no círculo da relação humana tudo causa.
    A magreza, as dores, o gemido. A necessidade dos lenitivos se confirma. A vida é difícil e pode mesmo estar abaixo do desagradável. Para além do orgânico em queda, a alma não deu conta de não erigir muros, mas agora, tudo se esvai no abraço. A quaresmeira continua seu trabalho, a vida prossegue no quarto do doente e fora. Morrer é uma etapa do ciclo da vida. E, entre nascer e morrer, seguimos o conselho de Baudelaire, embriagamo-nos de poesia. Parabéns. Presenteie-nos com um livro de seus contos.

  2. Lindo texto!!!!

  3. Belíssimo texto. Triste, de uma tristeza que não acabrunha porque poética. Parabéns!!!Maria Lindgren

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