Dedos de Prosa I

Fernando Marques

 

Victor H. Azevedo

Desenho: Victor H. Azevedo

 

Amor e seus disfarces

 

1. Longevos

 

Da mesa de trás vinha a informação:

– A cana tem 18 por cento de açúcar. Já isso aqui tem 99 – o homem referia-se provavelmente ao branco açúcar sobre a pequena mesa da confeitaria.

Ao chegar, eu os tinha notado, ele bem mais velho que a mocinha. Naquele momento, o tema da conversa era a longevidade.

Um homem maduro ao lado de uma quase adolescente – ela devia ter 20 e poucos – nos dá a impressão, decerto convencional, como que automática, do Lobo prestes a devorar Chapeuzinho, coitada.

Ele sabia coisas, verdades várias, e as depositava na mesinha, perdulário. A garota o seguia e, de vez em quando, falava. Uma dessas conversas que ouvimos sem querer e das quais só escutamos bem uma das vozes; a outra, casual e tímida.

O empenho virtuoso em assegurar afeto. Assim, até eu – a ponta perfurocortante da inveja. Vaticinava:

– Ainda estarei firme daqui a 150 anos! Espero que você esteja por perto – a voz sorria, insinuando a promessa.

Levantaram-se. Ele, a bolsa a tiracolo à maneira de outras décadas; o cabelo muito preto parecia pintado. Ela, pequenina, o vestido cândido a denotar simplicidade. Desapareceram de mãos dadas.

2. Papéis trocados

Adelaide devia ter 17 anos, estávamos na década de 70, 1979, talvez. Não sei ao certo. Lembro seu rosto suave.

O corpo acima do peso a incomodava, sim, mas o que de fato a fazia infeliz eram os pais fora do esquadro. O esquadro careta, sejamos claros.

A tendência para a obesidade vinha deles, ambos gordos; não desarmoniosos, porém. Aquele era seu estado natural, baixos e volumosos. Nada demais, pois.

O que chamava a atenção residia no comportamento. O pai tinha um ar lânguido, adocicado; a mãe, ostensivamente masculina, os gestos em ângulo reto. As vozes que usavam – a dele, aguda e ciciante, a da mulher, cava e rouca – também obedeciam ao lugar-comum dos papéis trocados.

A menina sofria com a evidente estranheza diante de seus pais, que muitos sentiam e que seus amigos adolescentes não disfarçavam. Não se fizesse uma piada, ficaria magoada, talvez chorasse mais tarde. Não se ousasse um comentário, neutro que fosse, já se conseguiria perturbá-la. Amava os pais; doíam as exclamações, o sarcasmo.

Eram diplomatas, cultos, de hábitos sofisticados. Praticavam equitação, coisa de grã-finos. Imaturo, uma vez os vi e achei engraçadas as roupas de montaria, as calças largas que se afunilavam, as botas de cano longo, o chicote petulante numa das mãos… As fatiotas tornavam-se mais curiosas ao ser usadas por aquelas pessoas, que pareciam não ter braços para a tarefa que as roupas sugeriam.

Manifestei o espanto divertido. Foi o quanto bastou para atingir a minha amiga, de quem gostava. Recordo a expressão machucada no rosto de Adelaide quando cometi a brincadeira ambígua, a palavra pouco generosa.

A menina pensava que, ao menos comigo, estivesse a salvo de tais grosserias. Creio que me achasse alheio, superior a elas. Não reagiu ao perceber que o jovem de conversas etéreas era capaz de perfídias. Mas a amizade acabara.

3. O beijo empírico

Sabemos que as brigas entre namorados podem ter motivos ocultos, diferentes daqueles que os próprios envolvidos alegam; razões alheias às disputas explícitas.

Já os arranca-rabos entre ele e ela, os dois iniciados em questões literárias e filosóficas, não faziam dessas questões meras desculpas, substitutos das verdadeiras desavenças. Não. O casal era capaz de arengar em torno de temas puramente abstratos:

– Pensei que você realmente acreditasse na possibilidade de totalização do real – disse ela com um travo de desencanto. – E não partilhasse o ceticismo que abre caminho a todas as desistências… Vejo que me enganei. Como fui tola – reclamou, enfática.

Era devota dos teóricos marxistas, entre eles Lukács, o da totalização.

– Pode-se até acreditar nas possibilidades racionais de apreender o real – respondeu, persuasivo. – Mas quem sabe o empirocriticismo estivesse correto ao combater as teses materialistas…

– Lenin é que estava certo; aliás, ele venceu a polêmica – rebateu ela, que não sabia direito o que era empirocriticismo, mas tinha ouvido falar.

– As bases de nosso conhecimento são sensíveis, sensoriais – afirmou, sutilmente explicando o que fosse aquele monstrengo conceitual, com o cuidado de não melindrar a namorada. – O que podemos afiançar sobre as coisas em si mesmas, amor? Nada! Somos reféns de nossos cinco sentidos. Dos sete buracos de nossa cabeça, entende?

Ela abriu o Dicionário de filosofia, volume de 1200 páginas que lhe pesava na bolsa, ao qual recorria nos momentos agônicos. Localizou ali o verbete “Materialismo dialético” e leu desafiadora: “Há coisas que existem independentemente de nossa consciência, independentemente de nossas sensações”, recitou nervosa, mas ainda afável.

– Como refutar a evidência? – ela fez a pergunta retórica. Ao ver que o namorado silenciava, insistiu: “Não existe e não pode existir diferença alguma de princípio entre o fenômeno e a coisa em si. A única diferença efetiva é a que existe entre o que é conhecido e o que ainda não o é”.

– Lembro perfeitamente dessa passagem – ele informou com uma superioridade quase imperceptível. Lenin dizia que “o conhecimento nasce da ignorância” e…

Não terminou a frase. A namorada calou sua boca, fechando-a com um beijo demorado e ávido. Adorava aquele homem porque sentia que ele estava à sua altura.

– Não podemos esquecer, porém, que entre Lenin e Lukács houve problemas sérios. Quando o filósofo lançou História e consciência de classe em 1923… – pontificou, valendo-se de certo tom didático, paternal, que a irritava bem.

Ela esperou por um longuíssimo instante, prestes a perder a calma. Ele:

– Ora, imaginar que os acontecimentos históricos estejam prefigurados na matéria, isto é, nas relações de produção, como pretende o Lenin…

A luta recomeçou. Logo berravam, batiam com os pés no chão, pueris e autoritários. Os dois se amavam.

Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva.

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1 comentário

  1. Não sei de qual dos três contos gostei mais. O autor não precisa de muitas palavras para nos fazer adeptos do seu texto.
    Muito bons!!!!

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