Dedos de Prosa I

Anderson Henrique

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Máscaras

 

“O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.”
(Nelson Rodrigues)

 

Não sei dizer quando começou a obsessão com as máscaras. Quando percebemos, todos estavam com seus rostos cobertos. Ontem mesmo, sentei no ônibus ao lado de um leopardo. No topo da cabeça, duas pequenas orelhas pontilhadas de manchas pretas sobre um fundo amarelado. Julguei que o objeto fosse de acrílico, mas era plástico. Havia dessas coisas: as classes mais baixas não dispunham de muito dinheiro para investir na confecção e acabavam improvisando. O resultado, às vezes, era desastroso.

Bela máscara, falei na primeira oportunidade, tentando chamar a atenção do leopardo. Quando ele se voltou para mim, pude ver seus olhos amarelados pelo corte no adereço. Talvez eu não tenha mencionado, mas havia máscaras para olhos também. Começou com as lentes de contato coloridas. Adiante, os rumos da criatividade. O leopardo não respondeu ao meu elogio. Ergueu uma das mãos como uma garra e fez um som gutural. Cumprimentei-o com um aceno e seguimos viagem.

Cheguei ao trabalho atrasado para variar. Pablo veio à minha mesa e reclamou dos prazos do projeto em que trabalhávamos. Usava uma máscara de abracadabra. Alternou o assunto e passou a me contar sobre suas aventuras no final de semana. Sentado sobre a bancada, falou como se as palavras tivessem prazo de validade.

ABRACADABRA

ABRACADABR

ABRACADAB

ABRACADA

ABRACAD

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ABR

AB

A

Alguém se aproximou sorrateiro. Colocou uma das mãos sobre o ombro de Pablo e perguntou sobre o andamento do projeto. Ele disfarçou o embaraço pelos atalhos da bajulação. Espetacular essa gaivota, chefe, disse referindo-se à máscara que nosso gerente usava. É um mandrião, ele corrigiu. Pablo tentou escapar da situação como pôde: ave magnífica, sem dúvida. Acabei por ajudá-lo. Abri uma planilha no computador e mostrei ao chefe que o projeto estava no prazo. Mantenha-o em dia, ele disse. Pigarreou, ajustou o nó da gravata e saiu. Tá sabendo que ele vai ser promovido no final do ano? Pablo perguntou assim que o gerente cruzou a porta da sala. Sei. E que diabos é um mandrião?, emendou. Virei-me para o computador e fiz a pesquisa: Mandrião — Ave da família Stercorariidae, conhecida pelo cleptoparasitismo. Cleptoparasitismo, nova pesquisa: forma de interação em que um organismo rouba recursos de outro organismo, geralmente um alimento que o outro capturou ou deixou armazenado.

Fui atendido por um chacal fêmea quando fui ao banco na hora do almoço. Tirei do bolso o boleto que precisava pagar e avisei que o código numérico não estava funcionando. Estranho, ela disse. Pegou o papel e começou a digitar a sequência no computador. Por que um chacal? O chacal uiva até a morte, ela disse. Olhou para os lados, confirmou que não era observada e segredou: é o que tenho vontade de fazer todos os dias, gritar até a morte. O chacal não é o símbolo de Anúbis? Ela fez que sim com a cabeça e a máscara acompanhou o movimento, as orelhas compridas do animal sacudindo para a frente e para trás. Os cabelos loiros também balançaram, escapando pela parte de trás do adereço. Ela se levantou, pegou um papel da impressora e me orientou a usar o novo código de pagamento.

Combinei um drinque com a mulher-chacal no fim daquele dia. Ela estava sentada em uma mesa próxima ao balcão quando cheguei. Não foi difícil identificá-la, apesar de não estar mais transfigurada no cão egípcio. Usava uma máscara peculiar.

É maia?

Não, é celta. Uma amiga trouxe de fora.

Deve ter custado uma fortuna.

Custou.

Você bebe um chope?

Não. Um Martini. Com duas azeitonas.

Pedi as bebidas ao primeiro garçom que passou. Um chope e um Martini. Com duas azeitonas. O homem-mosca anotou no bloquinho, pediu licença e se retirou para atender outra mesa. O que significa?, perguntei ao examinar a máscara que ela usava. Era toda moldada em couro, com ramificações que se entrelaçavam de uma extremidade a outra, muito parecida com a folha de uma árvore. Os olhos estavam expostos pelas duas aberturas na parte frontal e o corte para o nariz descia em uma abertura até a boca, por onde escapavam lábios pintados de azul. Tive vontade de lambê-los. Não significa nada, ela respondeu. Puxei assunto falando de trabalho, mas ela retesou a conversa. Débito, crédito, transferência eletrônica. O que quer saber? Sorri em resposta, aproveitando para experimentar a bebida que havia acabado de chegar. Ela prosseguiu: se é para falar de trabalho, vamos morrer de tédio. Recuei e disse que entendia. O que faço também não é nada interessante.

A conversa engrenou. Sorrimos de forma espontânea. Sorrimos quando sorrir significava apenas ser cortês e também quando era apenas o pincel da novidade falando por nós. Seu nome era Inês. Nome espanhol. Pura, casta ou cordeiro. Pesquisei o que podia sobre o nome antes do encontro, mas, na hora, não tive coragem de mencionar. Inês não me parecia nada daquilo. Faço aniversário hoje, ela falou. Sério? Não, é brincadeira. Só queria ver sua reação.

Fomos para minha casa depois do bar. Entre lençóis, ela confessou: lembra da história do aniversário? Lembro. Faço 35. Então era verdade? Era, foi um dos motivos de ter aceitado seu convite. Fui até a geladeira e peguei um bolinho recheado que estava guardado há semanas, sobras do aniversário de um sobrinho. Enfiei um palito de fósforo no doce e levei até o quarto. Risquei na lateral da caixa e acendi. Não dá para comer, mas você pode fazer um pedido. Ela fez. Depois apagou a chama com um sopro cuidadoso.

Inês examinava alguns livros em minha estante quando regressei da cozinha. Observei-a de um único ângulo, mas pude vê-la por vários outros. Os cabelos que escapavam da máscara estavam amassados e desordenados pelo tempo na cama. Vi a mulher um pouco acima do peso e as dobrinhas entre a barriga e as costelas. Pude ver os homens que antes ocuparam meu lugar; homens de prazer e dor, homens que sequer foram homens. Havia uma mulher também. Única, mas inesquecível. Vi um aborto, o medo dos filhos na hora errada. Vi seu primeiro emprego, uma loja em um shopping, horas de pé em um salto desconfortável atendendo a desejos e a mau humor. Trocou de trabalho outras nove vezes, o salário pouco, a perspectiva inexistente. A vida no banco não parecia tão ruim daquele ângulo. Vi expectativas estéreis. Casa, marido e filhos afogados em uma banheira rachada. Vi que gostava de artesanato, que decorava seu apartamento com pequenos apetrechos de materiais reciclados. Fazia maratona de comédias românticas no sábado à noite, enredos repetidos que não tinham qualquer relação com sua vida amorosa. Foi à Índia certa vez. Juntou dinheiro e foi. Classe econômica, hotel modesto. Economias que custaram uma fortuna. Conheceu um guru por lá. Deuses de mil braços e conceitos difíceis de explicar. Destruir para construir. Não era tão complicado. Queria ir para o Egito também, mas não deu. Não por enquanto.

Ah, então você também gosta do Egito!, ela comentou ao dedilhar a lombada de um livro sobre Nefertite. Por isso reconheceu a máscara do chacal. Fiz que sim com a cabeça. Ela tirou o livro do lugar e começou a passar as páginas. Ainda estava nua, apenas a máscara celta a ocultar o rosto. Comentei o que havia descoberto naquela tarde, que o chacal sequer existia no Egito. Não pude ver a expressão de curiosidade por trás do adereço, mas sabia que tinha despertado sua atenção. Prossegui: alguém confundiu o chacal com um bicho parecido, tipo um cão selvagem, e a lenda pegou. Imagina só: você é um deus, e os súditos o associam ao animal errado. Ela sorriu. Seus lábios não estavam mais azuis, as cores espalhadas por partes distintas de meu corpo.

Pablo soube de minha paixão por Inês após dois meses de encontros. Sem o menor vestígio de hesitação, me fez a pergunta mais impertinente de seu repertório: e então, como é o rosto dela? Repreendi meu amigo por sua indiscrição, mas ele foi insistente. Tirou o telefone do bolso, pressionou a tela algumas vezes e me pediu segredo. Era a foto de Cláudia, uma estagiária que trabalhava no RH da empresa. Pude reconhecer os olhos castanhos e os cabelos anelados que se escondiam por trás das máscaras que ela costumava usar. A foto trazia o rosto nu de Cláudia, que sorria e fazia uma posição atrevida para a câmera. Sardas avermelhadas polvilhavam as bochechas, a curva do rosto era angular e pequenas depressões se formavam nas extremidades dos lábios. Era uma jovem de beleza excepcional. Não diga nada a ninguém, meu amigo repetiu. Estamos saindo há apenas uma semana. É nosso segredo. Concordei com a cabeça, ainda entorpecido pela imagem que há pouco estava diante de meus olhos. Pablo, com a indolência que lhe era peculiar, voltou a perguntar: e Inês, como é? Fui evasivo mais uma vez. Afirmei que ela era uma mulher distinta, que não havia revelado seu rosto ainda.

A conversa com Pablo inquietou meus pensamentos. Transformou uma leve curiosidade em obsessão. Uma semana apenas, uma semana de envolvimento com a estagiária, e ele já estava com a foto do rosto dela em seu telefone. O desejo pelo rosto de Inês não era novidade, mas eu estava aguardando a ocasião apropriada.

Inês não pôde se encontrar comigo naquela noite. Sozinho em casa, elaborava hipóteses quanto ao formato de seu rosto. Tentei dormir, mas estava agitado. Fui até o computador e digitei um endereço. Era um site pornográfico. No menu de opções, selecionei a categoria mais requisitada pelos usuários. Um filme apareceu no monitor. A atriz, apenas de máscara, provocava o homem. Serpenteava em sua frente, enrodilhando-se em seu corpo, tocando-o onde ele precisava ser tocado, ora gentil, ora com firmeza. Copularam, treparam, satisfizeram-se. Em poucos minutos, o ápice: a atriz remove a máscara e a ejaculação é despejada em seu rosto. Maskless facial cumshot. O gozo, o pensamento em Inês.

O assunto das máscaras foi revisitado em sonho. Inês relutava ante meu pedido. Exigiu explicações ao ceder. Queria saber a razão pela qual eu estava sempre com o mesmo adereço. Não tem mistério, respondi. É só porque todos usam. Ninguém estranha que você esteja sempre com a mesma?, ela emendou. Só no começo. Depois deixa de ser relevante. Satisfeita com minha explicação, Inês levou as mãos à cabeça e revelou a face. Havia um rosto de serpente sobre o adereço. Eu podia ver as presas e a língua bifurcada. O susto me fez recuar. Inês ergueu novamente as mãos e retirou a pele escamosa, uma segunda máscara. No lugar de seu rosto, um rubi de cor púrpura, a face sólida como a pedra de sangue. Ela seguiu, desgrudando camadas e mais camadas de seu rosto. Assustado, acordei.

Sou direto em nosso encontro seguinte. Digo a Inês que desejo ver sua face. Ela é reticente na resposta e se esquiva. Digo que sei o quanto de intimidade aquilo exige de um casal. Pego em suas mãos para convencê-la de que já alcançamos aquele estágio, mas ela profetiza que não deveríamos nos apressar. Acontecerá quando houver de acontecer. Minha consciência discorda, mas aceito o argumento. Daria o tempo que Inês julgasse necessário, mesmo que a recusa gotejasse dúvidas em minha consciência.

Inês adormeceu em minha cama certa noite após esgotarmos nossas energias. Cedi à tentação diante da máscara a evocar o rosto de Circe em uma das pinturas de Waterhouse. Virou-se para o lado durante um pesadelo e balbuciou palavras incompreensíveis. A máscara prendeu no travesseiro e saiu do lugar, revelando parte de seu queixo. Levei uma das mãos até seu rosto. Com um dos dedos puxei o adereço com delicadeza, mas Inês despertou. Levantou-se da cama, preocupada em cobrir o rosto e destruiu qualquer reconciliação com olhos de fúria.

Levou algum tempo, mas consegui convencê-la a perdoar meu gesto impensado. Um caminho de desculpas e agrados até reconstruir o que possuíamos. Um pedido especial feito a um artesão a convenceu em definitivo. Presenteei-a com uma pequena estátua do reencontro de Ulisses e Penélope. Aos pés de Ulisses, a inscrição: Inês. Abaixo de Penélope, meu nome. Ela colocou o objeto sobre a estante e, emocionada, atirou-se em meus braços. Tomou então a decisão que eu tanto ansiava: pôs a mão sobre a nuca e removeu a máscara. Vi seu rosto alvo, um equilíbrio entre a simetria e um leve desalinho. Os cabelos loiros caíram em suaves cachos sobre a testa e pelos ombros. A mulher diante de mim revelava uma beleza que minha expectativa não tinha sido capaz de elaborar. Chegou então minha vez. Tomando a iniciativa, Inês colocou a mão por trás de meu pescoço e retirou a máscara. Surpreendeu-se ao ver os olhos castanhos, a boca fina e a pele marcada pela barba por fazer — a face idêntica à máscara que há anos eu usava.

 

Anderson Henrique nasceu no Rio de Janeiro e é formado em Letras. Possui textos publicados em coletâneas e premiados em concursos literários. Seu livro de estreia, “Anelisa sangrava flores”, foi publicado em 2014 pela editora Penalux. “Chame como quiser” é seu segundo livro.

 

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