Dedos de Prosa II

Na escuridão nos movemos lentamente

Sérgio Tavares

 

Neuza Ladeira

Pintura: Neuza Ladeira

 

A lembrança sempre começa comigo correndo.
Estou no quintal do sítio dos meus avós, os pais do meu pai, em Petrópolis, correndo em círculo atrás de galinhas.
Zuzuque, uma pequinesa de pelagem amendoada, corre atrás de mim. Era um domingo e meus pais tinham subido a serra cedo para discutir com o meu avô sobre a intendência da loja de sapatos que haviam tomado às rédeas fazia alguns meses.
Os adultos estão no interior do casarão, exceto minha avó que tricoteia numa cadeira de balanço no alpendre, contudo de onde está não consegue me ver.
As galinhas cacarejam alto, em tropel, enquanto fogem de mim. Próximo a um abacateiro, na lateral do casarão, o bando se separa. Muitas se refugiam no galinheiro, que fica nos fundos do quintal, onde o terreno cuidado se transforma em mata fechada. Outras seguem em direção ao casebre que meu avô transformou em oficina. Eu persigo essas.
Zuzuque vem no meu encalço, com suas patas curtas e focinho achatado, tentando morder a bainha da minha calça. Quando passamos por um jacarandá florido, que sombreia e suja o telhado do casebre, percebo que ela parou de me seguir.
Olho para trás, o tempo das galinhas desaparecerem, e a vejo erguida, com as patas dianteiras apoiadas no caule da árvore. Ao me aproximar, ela começa a latir.
Só depois de um tempo que noto a gorda lagarta verde que escala o tronco.
Com todo o esforço que lhe é possível, flexiona o corpo mole e peludo numa maratona incessante em torno da árvore. Zuzuque tenta derrubá-la, mas a larva já está numa altura que não dá o salto. Me aproximo e a examino bem de perto.
Imagino o quanto já percorreu e o quanto ainda vai percorrer para alcançar um galho e completar seu primeiro ciclo de vida. Depois o casulo, o período de pupa e, finalmente, o renascimento metamorfoseada em borboleta. Tenho vontade de esmagá-la.
Exploro o perímetro da sombra da copa e acho uma pedra redonda, maior que a minha mão. Miro e bato com toda a força contra o tronco. A pedrada é violenta o bastante para cortar a lagarta ao meio e respingar o conteúdo viscoso no meu braço. Zuzuque ataca com as garras as partes que caem na grama, ainda animadas.
Neste instante, ouço minha mãe chamar o meu nome e corro para a frente do casarão.
É uma edificação extraordinária de estilo rústico, erguida pelos imigrantes alemães muito antes da construção das fábricas.
A fachada de madeira envelhecida se sustenta sobre pilares de caibro que demarcam toda a extensão do alpendre elevado, circundado por balaústres pintados de verde-musgo que emprestam cor aos patamares da escada e aos beirais que selam o telhado de cerâmica vermelha, de onde emerge a ponta da chaminé branca.
Em ambas as laterais, há janelões de moldura escura, e uma porta estreita nos fundos. Árvores de várias espécies loteiam a propriedade, escoltada por picos e silhuetas ralas de montanhas. Quando chego à frente do casarão, meus pais e meus avós estão próximos ao Chevette marrom, estacionado a poucos metros da sebe podada à meia altura.
Minha mãe ampara o impacto do meu corpo com um abraço providencial, já me envolvendo numa manta de malha, embora seja verão. Carregando uma cesta com sobras do almoço e do lanche (assado de porco, salada de batatas, strudel, gugelhupf), meu pai manda que eu me despeça dos meus avós. Entretanto, eles insistem que passemos a noite, temerosos pelas nuvens carregadas que avançam sobre os montes.
Meu pai recusa o convite, alegando que tem de abrir a loja mais cedo que o habitual, que ainda tem de terminar o balanço da semana, e entramos no carro.
Pelo vidro do porta-malas, eu vejo minguar a imagem de dois velhos preocupados.

Alguns quilômetros depois, no meio da descida da serra, fomos pegos pela tempestade.
De uma hora para a outra, as nuvens inquietantes, que ameaçam o fim de tarde com rugidos ao largo, transformaram tudo ao redor num sorvedouro.
Rajadas furiosas de vento acertavam o carro por todos os lados, munidas com chuva grossa, folhas e galhas que explodiam contra a lataria.
Em velocidade baixíssima, meu pai fixava as mãos no volante tentando controlar a direção, com os faróis altos acionados contra o véu cinzento. Minha mãe, católica, de cabeça baixa pedia proteção para uma medalha de Santa Rita de Cássia.
Circulava uma eletricidade ruim dentro da cabine.
Um medo irradiado pelo mutismo e as respirações nervosas, uma espécie de asfixia.
Com o rosto colado no vidro embaçado, eu não conseguia enxergar nada adiante.
Não era possível distinguir os limites da estreita estrada sem acostamento, as raias das curvas sinuosas. Os únicos indicadores de que não estávamos avançando rumo ao precipício eram os relâmpagos regulares que se refletiam na pista alagada.
De repente um galho grosso acertou em cheio o capô e correu sobre o teto, no curso quebrando um dos braços do limpador de para-brisa.
Tomado de assalto, meu pai freou bruscamente, afrouxando o controle do volante que guinou para a direita. Sem resistência, o carro começou a adernar.
Meu pai lutava para estabilizar as rodas de volta ao eixo, mas era preciso uma força sobre-humana, que naturalmente ele não tinha, de modo algum.
O carro girava, a direção já não detinha comando.
Então, com o peito apoiado no volante e o rosto pressionado de sangue, meu pai começou a gritar para que abríssemos os vidros das janelas.
Todos, rapidamente.
Aterrorizado, agarrei a manivela ao meu lado e comecei a rodá-la com toda energia contida num menino. Não tive chance de reduzir a metade da altura.
O jorro que invadiu a pequena fresta atingiu o centro do meu rosto, me derrubando do banco de trás com agressividade. Com os vidros abertos, o exterior inundado teve permissão de nos atacar com sua voragem, sua extravagância.
Em segundos, a cabine estava encharcada, nós estávamos encharcados.
Destroços do temporal espiralavam por toda a parte parecendo pássaros selvagens presos num espaço apertado, lutando por liberdade.
Minha mãe berrava, horrorizada.
Meu pai berrava, pedindo calma, numa inútil tentativa de combater a impotência.
Eu berrava, deitado de costas no banco de trás. O pavor me fez mijar nas calças.
O irônico é que justamente o vidro que eu não consegui descer acabou funcionando feito um leme, e a pressão do vento detido foi empurrando o carro de volta ao meio da pista.
Com o controle retomado, meu pai arriscou e aumentou a velocidade.
Deslizamos serra abaixo, patinando sem segurança a cada curva, na iminência de batermos num possível deslizamento na estrada. O vale abaixo, inundado pela desclaridade da noite precoce, soprava agouros de garganta aberta.
Foi então que se entremostrou, por trás da parede de água, a silhueta luminosa do posto da polícia rodoviária. Meu pai suspirou, minha mãe agradeceu à santa.
A poucos metros, porém, o carro bateu num bolsão d’água, perdeu o controle e rodopiou.
Um ônibus que vinha atrás não conseguiu desviar a tempo e atingiu o lado do carona.

Com o impacto, eu fui arremessado contra o teto, abrindo um corte fundo na testa. Meu pai teve uma luxação e algumas escoriações. Nada grave.
Minha mãe, por outro lado, ficou presa às ferragens.
A nosso favor, havia uma unidade móvel dos bombeiros estacionada na saída da praça de vistoria e o atendimento foi praticamente imediato.
Outros veículos de pronta-emergência chegaram minutos depois.
Me lembro de estar passando por uma sutura na carroceria aberta da ambulância e divisar, contra a chuva manchada pelas luzes bicolores das sirenes de socorro, minha mãe sob um forte facho amarelado, sendo retirada do carro e transferida para uma maca logo coberta por uma proteção plástica, cingida por um grupo de paramédicos.
Além dos cortes e das concussões, o acidente causou fraturas em ambas as pernas, no braço esquerdo e na mão direita, além de deslocamento da bacia.
Minha mãe passou por cirurgias emergenciais de algumas horas.
Com a reprodução da notícia do acidente, parentes e funcionários da loja correram para o hospital e se prontificaram a doar sangue. A estadia na UTI durou uma semana, depois foram mais seis meses entre total imobilidade e início das atividades fisioterápicas.
Aos domingos, eu e meu pai íamos visitá-la.
E, apesar da saudade, do vazio que se renovava pela casa a cada conclusão de dia, o que mais me feria era vê-la daquele jeito, presa às maquinas, confinada naquele quarto esterilizado de móveis diminutos e um televisor de baixa polegada em preto-e-branco, sabotando sua dor, sua angústia, seu medo, para tentar mostrar interesse pela minha rotina medíocre.
Ela sempre pedia para eu levar as minhas lições escolares, livros de leitura e um saco de balas boneco, que devorávamos à surdina. Nos minutos finais da visita, pedia ao meu pai para ficar sozinha comigo. Aí perguntava sobre a minha semana, se a dinda, que tinha ido morar conosco a fim de auxiliar meu pai a administrar a loja e a vida de um filho pela primeira vez após oito anos, estava agindo correto comigo.
Minha mãe sempre chorava na despedida.
E quando pressionava o meu rosto contra o dela, tatuado de cicatrizes frescas e hematomas, eu sentia o cheiro ferroso do sangue coberto pelo iodo dos curativos.

No domingo em que só se falava sobre o festival de música, meu pai nos surpreendeu e anunciou, ainda na entrada do quarto, que ela iria para casa conosco.
Houve um leve alvoroço, prontamente censurado pela enfermeira de plantão.
Com platina nas duas pernas e o braço imobilizado em gesso, minha mãe saiu empurrada sobre uma cadeira de rodas, que meu pai teve dificuldade de acomodar no porta-malas do carro novo, um Monza Hatch azul-marinho.
Seguimos direto para casa. O percurso foi marcado por um silêncio longo, a tensão por estarmos revivendo a cena pela primeira vez após o acidente.
Fomos recepcionados pelos meus avós, alguns tios e amigos que haviam preparado uma festa de boas-vindas, menos a dinda que tinha ido assistir ao show da Nina Hagen.
Ao chegar, minha mãe pediu que a levasse para uma volta pela casa. Em seguida, fez um breve discurso emocionado, desculpou-se pela indisposição e se recolheu num dos quartos de hóspedes que meu pai adaptou, no primeiro andar, para o seu tratamento.
Durante três meses, minha mãe continuou a se locomover unicamente sobre a cadeira de rodas. A enfermeira vinha todos os dias para lhe dar banho, trocar as camisolas, as roupas de cama, aplicar injeções, fazer os curativos e auxiliar com a fisioterapia.
Nesses instantes, não me era permitido entrar no quarto. Em todo o restante do dia, exceto o período em que estava na escola, passava sentado ou encolhido sobre a beirada do colchão, flanando com ela por lembranças evocadas pelas altas doses de analgésicos, enquanto me afagava a cabeça com a mão sadia.

A recuperação foi lenta e dolorosa. No inverno, as sequelas do acidente ficavam piores e, do meu quarto, no andar de cima, a ouvia gemer durante toda a madrugada.
Meu pai dormia num sofá sem conforto, próximo ao leito. Apesar disso, não abria mão de fazermos o desjejum juntos, ignorando o explícito incômodo da minha mãe por estar suja, fedida, privada da capacidade de pentear os cabelos, corar o rosto, pintar os lábios e as unhas, como gostava, de cores vibrantes.
Mas não era por mal.
E ela sabia que não era por mal. Portanto nunca protestou.
E quando voltou a caminhar com o auxílio de muletas, era ela que não abria mão de tomarmos o café da manhã na cozinha ao invés de, inadequados, ao redor da cama.
Minha mãe queria estar bem, recuperar-se e, em momento algum, mesmo com o corpo governado pelas máquinas hospitalares, hesitou ou esboçou desistência.
Com o máximo de independência que se pode adquirir com um par de muletas, obrigou meu pai a confiá-la toda a contabilidade e as resoluções administrativas da loja. Passava horas no escritório, cuidando dos balanços semanais, dos contatos com os bancos, da comissão dos funcionários e dos telefonemas para os fornecedores.
Sentir-se responsável, útil, retomando de alguma forma as rédeas do negócio, foi recompondo o que estava fraturado e hibernado dentro dela.
Logo pediu para voltar a dormir no quarto de casal, onde meu pai a levava, escada acima sobre os braços todo o fim do dia, e a descia, da mesma forma, todas as manhãs.
Eles tinham uma brincadeira que era só deles.
A visita da enfermeira passou a ser menos regular.
Me recordo de uma manhã, quando me preparava para ir à escola, surpreender-me ao encontrá-la à boca do fogão, fazendo panquecas doces. Sob os primeiros raios de sol que se infiltrava pela fresta das cortinas de plástico, de repente, a redescobri linda.

Então, inesperadamente, voltou a ficar doente.
Um mal-estar acompanhado de febre que foi se agravando severamente dia após dia, ao ponto de voltar para o primeiro andar, depender da assistência integral da enfermeira e de o meu pai chamar de volta a dinda para a casa.
Era como se mantivessem uma criatura naquele quarto que a aterrorizava constantemente.
Gritos ecoavam dali, também do banheiro, gritos ecoavam de toda a casa.
Na manhã do meu aniversário de nove anos, depois de ser amparada até uma cadeira arrumada em frente à mesa da cozinha decorada com um bolo comprado em padaria, minha mãe teve um ataque e foi levada às pressas para um hospital de emergência e não voltou para casa durante algumas semanas.
No mesmo dia, eu fui mandado para a casa dos meus avós em Petrópolis, onde fiquei três meses sem qualquer notícia concreta do estado de saúde dela.
Quando retornei, minha mãe estava em casa, porém eu não podia vê-la ou saber sobre ela. Por mais que implorasse, era definitivamente proibido entrar no quarto.
Um ano e meio após o acidente, meu pai me acordou, com olhos infiltrados de tristeza, e contou que minha mãe havia morrido no andar de baixo, no quarto adaptado para a cura.
E embora ele não tivesse dito naquele momento ou censurado minha suspeita de que tinha sido em decorrência dos cortes, dos ossos quebrados, da criatura dor, a morte da minha mãe foi causada por algo muito pior, que somente me seria contado anos depois.

Faço o caminho para casa a pé. Cinco quadras até a rua residencial, de paralelepípedos, onde desponta o sobrado de dois andares em que nasci, fui criado e vi minha mãe morrer.
Contra o céu de chumbo sem estrelas, a antiga construção se assemelha a uma figura recortada em cartolina e rasurada com carvão.
A escuridão mina da estrutura, inundando a curta distância do portão à varanda, exceto pelo contorno luminoso de uma janela baixa interposta pela porta principal.
É um modelo de assombramento. Algo, à primeira impressão, abandonado, oco, destituído de habitação, caso eu não morasse ali.
Quando minha mãe morreu, tudo que vicejava em sua órbita foi também morrendo aos poucos: os animais, o jardim, os móveis, a casa.
Hoje apenas fantasmas transitam pelos cômodos frios e vazios, presos a um impulso que faz com que reprisem as mesmas intenções.
Eu sou um fantasma e estou preso à memória.

Sinto falta das tardes de sábado. Quando a loja de sapatos funcionava em meio expediente e minha mãe se preservava de acompanhar o meu pai.
O que trago na memória de mais elementar nesses sábados são os acordes. Os primeiros compassos infiltrando-se no sono, puxando-me daquela camada aconchegante com melodias aceleradas que surdiam do andar de baixo da casa.
Eu era um menino de sete, oito anos, e ainda de pijamas, agarrado a um pequeno cobertor com a cabeça do Topo Gigio, descia, sonolento, os degraus da escada, sendo envolvido pelo ritmo alegre que vinha do toca-discos na antessala.
O concerto sempre começava com Beatles, Elvis, depois vinha The Fevers, Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis, a ordem em que tinham sido anteriormente guardados os elepês.
Por um tempo, eu ficava estacionado entre o patamar e pórtico apenas sentindo a música energizar meu corpo adormecido, depois cruzava a sala até a cozinha onde sabia que estava minha mãe e seu sorriso radioso.
Minha mãe sempre usava vestido nos sábados, tinha os lábios pintados de vermelho e os cabelos encaracolados arranjados com um lenço, caprichosamente.
Logo que me via, abria os braços e gritava bom-dia como quem saudava a manhã e sua claridade cintilante que invadia as janelas e as portas abertas, revelando as verdadeiras cores dos objetos de decoração, os metais e os espelhos.
A casa tinha som, cor e cheiro.
Pois com a mesa do desjejum ainda posta, minha mãe picava o alho, os tomates e a cebola, crestando o fio de azeite para preparar o molho vermelho que cobriria o espaguete, recendo o ambiente com um aroma único que, se eu fechar os olhos agora, posso sentir rastejando pelo meu rosto.
O barulho do atrito dos pneus do carro subindo o acesso à garagem anunciava a chegada do meu pai, que sempre escondia no bolso um pirulito Zorro para mim.
Era o tempo dele se lavar, e logo estávamos sentados à mesa, comendo sem boas maneiras, contanto que eu não falasse com a boca cheia ou usasse as mãos para pegar a comida.
Meu pai se encarregava de lavar a louça e encher as canecas com vinho, enquanto minha mãe reabastecia o toca-discos e eu subia até o meu quarto para pegar o passatempo com o qual iríamos compartilhar a tarde.
Sentados no chão da sala, em torno da mesa de centro, nos divertíamos com Banco Imobiliário, Jogo da Vida ou Ludo. Meu pai sempre tentava trapacear nos dados, mas minha mãe nos defendia, prontamente empurrando-o com o pé descalço e depois sorrindo com ele desmoronado sobre o tapete, como que atingido fatalmente.
Era comum, quando isso acontecia, pularmos sobre meu pai e nos engalfinhávamos, disputando risadas e cócegas, até ele reagir.
Com presunção de campeã, minha mãe se levantava sacudindo os braços e soprando os indicadores conforme canos de revólveres, em seguida saía para escolher outro elepê, abastecer as canecas e me trazer uma tigela de creme gelado feito em casa.
Acho que, na verdade, ninguém nunca ganhou naqueles jogos.
Já noite, minutos depois de ser acomodado na cama, eu me esgueirava dos lençóis e seguia, na ponta dos pés, até o patamar da escada onde, escondido atrás dos balaústres, ficava ouvindo a fricção dos pés descalços no assoalho da antessala, no andar de baixo.
À meia-luz de um abajur de curta irradiação, meus pais dançavam embalados pela suave melodia de uma orquestra de jazz, dois corpos exaustos e espremidos.
De onde eu me escondia não conseguia vê-los, apenas a projeção de suas sombras alongadas, rodopiando pelo teto do cômodo adjacente feito insetos fascinados pela refulgência.

Agora todos que completavam aquele quadro estão mortos de uma forma ou de outra.
Não há cores ou melodias nos sábados, ou em qualquer outro dia, somente o cheiro rançoso do ar confinado, do desleixo para com a poeira que se condensa numa textura aveludada sobre os móveis e os objetos sem uso, de outros tempos.
A casa foi tomada por sombras.
Planos obscuros que revestem as paredes, as pinturas e os retratos enquadrados, espraiando-se das molduras tal um tipo de vírus incurável.
Um organismo capaz de se multiplicar ante o abandono e a melancolia, deteriorando gradualmente cada espaço com uma substância cinzenta, compacta.
Alguns cômodos, no primeiro andar, já estão intransponíveis, a ponto de a porta sequer abrir. O primeiro andar está perdido, afinal.
No segundo, meu quarto ainda resiste, salvo pelas vibrações que conservei dos objetos e a ternura que eles conservam de mim. Ali estão referências de um tempo em que a casa respirava, vivia. Não mais. A casa morreu conosco dentro ou não existe mais dentro de nós.
Uso a minha chave na porta principal e entro como, se ao cruzar a soleira, não me desse conta e tivesse novamente saído, rumo à noite.
É noite dentro da casa.
Caminho me valendo das silhuetas dos móveis e da configuração familiar. Atravesso o living e avanço pelo corredor estreito, tateando as paredes manchadas por contornos vazios de molduras, até estacionar à beira da escada.
Dali enxergo o facho artificial que foge da antessala, fatiando a escuridão.
Sigo e, à medida que avanço, o silêncio vai sendo quebrado por um rumor infrequente, mecânico, de alguma forma associado à intensidade da luz.
É ele, eu sei.
Encosto no umbral e o vejo pelas costas, estirado no sofá alheio ao televisor que reproduz sua programação impessoal. Tem a cabeça inclinada, coroada pela calvície, dorme. Desde a morte da minha mãe, meu pai se exilou nesse estado dormente, frouxo.
Não teve mais ânimo, emudeceu, passou a apostar nas coisas simples. Ocorre que as coisas simples são as mais terríveis, pois são elas que devoram o tempo. Meu pai é o que restou. Se esqueceu de si e, por conseguinte, se esqueceu de mim, da casa, da loja. Falimos todos.
É irônico como os homens tendem a construir casarões, fábricas, fortalezas, e todos acabam apertados numa mesma caixa de madeira lacrada.
O caixão da minha mãe ficou tampado durante o velório, e algumas pessoas tiveram receio de se aproximar dele. Eu não pude vê-la, dar um beijo de despedida.
A última vez em que vi minha mãe, ela estava com o corpo sugado, coberto por manchas púrpuras e quase sem cabelos, retorcendo-se de dor no chão da cozinha, no dia em que eu completava nove anos.
Meu pai dorme em frente à luz fria do televisor. Sinto a frialdade da sua sombra que passa ao meu lado e se projeta na parede nua atrás de mim.
Fico ali por um tempo, depois me afasto.
No movimento, me recordo do sítio, da sensação inefável da correria. Penso em correr.
Todavia, na escuridão, é inevitável nos movermos lentamente.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

 

 

Clique para imprimir.

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *