Dedos de Prosa II

Vássia Silveira

 

Vássia Silveira

Ilustração: Vássia Silveira

 

Inocência

Tinha vontade de arreganhar a boca e cravar no outro os dentes. Era a chuva. O barulho dela e os relâmpagos alimentavam o desejo. Desde pequena os temia. Sentia-se acuada, as pernas trêmulas na companhia de fantasmas. Não gostava da escuridão nas noites de tempestade. Perdia o poder de imaginar vaga-lumes.

A chuva era a lembrança da mãe, — “Corra, filha, suba! Esconda-se no armário” —, dos pingos grossos no teto de zinco, da louça quebrada e da voz dele abafada pelos estampidos do gesto. Era o retrato da menina esquálida, no armário. A bexiga apertada, a respiração presa. Era a ausência. O pão dormido na casa da tia distante, os pés descalços, o frio sem cobertor.

E não importava que o telhado agora fosse de barro e que a louça estivesse intacta na cozinha: o barulho da chuva despertava-lhe os demônios. Ouvia os mesmos gritos, sentia o mesmo medo. Queria trancar-se no armário — mas lembrava-se que não tinha um em casa. Tapava os ouvidos na esperança de que o silêncio lhe devolvesse a lucidez. Queria afastar a lembrança, a ira guardada nas entranhas e ouvir apenas o ressonar do marido, que dormia inocente, sem suspeitar dos desejos da mulher. Sem saber que um dia, sem explicação, ela viraria uma cadela enfurecida, rasgaria os lençóis, lhe cortaria as carnes e encheria de sangue, a boca.

Sem imaginar que até lá, em noite de tempestades e na falta do armário, ela enroscava-se na cama. E esquecendo-se dele, cobria-se com a ponta do lençol que restava — cantando para os fantasmas a canção de ninar da mãe: “Boi, boi, boi… boi da cara preta… pega essa menina, que tem medo de careta”.

 

 

***

 

 

O gato

Um gato histérico arranhou o teto. Estava pendurado pelo rabo, o imponente bichano. E sobre ele refletiam-se as últimas luzes da madrugada – as estrelas caídas de sono, a noite ardendo pela chegada da manhã: Pobre gato! Pobre moça que ficou a olhá-lo no teto, enquanto arranhava o ar procurando por sua existência.

 

 

***

 

 

O colecionador de moscas

Tudo é uma questão de tempo – ou do que você faz com ele. Aprendi isso na infância, enquanto minha mãe cronometrava os minutos que eu deveria levar para sair da cama, trocar o pijama, escovar os dentes, tomar banho, vestir o uniforme, engolir a comida e entrar no ônibus que me levava à escola.

Todos os dias, a mesma rotina. As frases matinais coladas num aviso de recados imaginário e os sorrisos grudados na face gelada da mulher. Éramos sós – e não me atrevia a perguntar-lhe sobre a ausência do pai. Não que eu não tivesse curiosidade, mas porque imaginava que a interrogação lhe custaria um tempo não previsto na mesmice dos dias.

Ela trabalhava como secretária num escritório no centro da cidade e de noite fazia bicos numa lanchonete. Saía logo depois do jantar, deixando na geladeira e em cima da mesa, uma variedade razoável de doces. Não gostava deles, mas me acostumei a puxar um banco e ficar olhando as moscas que vinham pousar nos glacês e confetes.

O que teriam em comum as moscas e essa mulher?

A pergunta me veio aos 12 anos, enquanto eu assistia à lambança dos insetos no bolo de aniversário que cortamos, comemos e depois ficou no balcão da cozinha para me fazer companhia em mais uma noite de trabalho dela.

Foram anos de observação até conseguir encontrar uma resposta e quando enfim encontrei-a, era suficientemente maduro para intuir que aquele conhecimento me renderia alegrias fortuitas e nenhuma preocupação com as mulheres.

Porque ao contrário do que imaginam os galanteadores de plantão, o segredo para conquistá-las não está em conhecer os melhores vinhos, o cinema de vanguarda, ou alguns poetas e artistas plásticos aclamados pela crítica.  Dinheiro? Músculos? Isso também é balela!

As mulheres gostam de abismos e foram treinadas pela genética para acreditar que possuem o dom da salvação. Aí entram as moscas. Foram elas que me ensinaram – em seus sublimes voos para a morte – que é necessário juntar ao doce, um pouco de tristeza, espécie de amargura disfarçada: podem ser lembranças da infância ou mesmo uma fraqueza.

O importante é que elas, as mulheres, sintam-se não só atraídas pela confessa (ainda que mentirosa) angústia, como irremediavelmente presas a ela. Feito isso, voam como as moscas em direção ao abismo.

E por falar em abismo, ia esquecendo o principal: aprendi que as moscas têm vida curta. É uma pena que as mulheres não saibam disso.

 

 

***

 

 

Descoberta

Ela acordou e descobriu que estava sem rosto. A cabeça estava no lugar. Mas havia algo de morto na face, nos olhos e mesmo no nariz, que antes achava arrebitado. Olhava-se no espelho e não encontrava as rugas nem as mancha escuras que trazia desde a infância. A imagem provocou uma sensação nova, um desespero sem dor. E quanto mais a olhava, mais sentia a inutilidade das coisas. Por que, afinal, os seus choros? E onde estavam agora, se não os via marcados na pele fina e alva? Lembrou-se da cicatriz do último acidente e levou a mão na altura dos cílios. Estavam inteiros, negros e sem nenhum sinal que denotasse o ocorrido: o natural seria que a expressão da face se contraísse e que a boca, por instinto, se mantivesse aberta por alguns segundos. Mas nenhum músculo mexeu-se. E como também não era mais possível denotar naquele rosto o espanto, deixou-se ficar olhando o espelho como quem assiste – sem crer – a um milagre.

Vássia Silveira é inquieta, mas por hábito diz que é jornalista e escritora. Já plantou árvores e fez filhas. É autora de Febre Terçã (poesias; Selo Off Flip,2013), Indagações de Ameixas (crônicas; Multifoco,2011); e dos infantis Quem tem medo do Mapinguari? (Letras Brasileiras, 2008) e Braboletas e Ciuminsetos (Letras Brasileiras, 2007).

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