Dedos de Prosa III

Pedro Costa Reis

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

Desejo

 

Essa ave fugidia, eu a vejo de longe, na extensão gélida, sobre as montanhas. Minha tribo a chama de Desejo, mas não tentarei explicar por quê. Tente você, meu leitor, descobrir com o arrastar dos anos como montar essa palavra com o quebra-cabeça de peças que somem ao toque. Ela voava, chegava até a ser pretensiosa. Olhava para mim vez ou outra, podia jurar. Mas aterrissou na neve, bem próxima da minha armadilha. Mas não guardo tantas esperanças.

Ilusória, pode muitas vezes dissuadir-nos de sua presença, mesmo a quem tem olhos fixos nela, como, no momento, eu. Salto do meu cavalo bem longe de onde ela está, só para ter uma visão melhor da minha presa. Ajoelho-me lentamente enquanto ela lentamente perambula nas patas à procura de alimento. Bem próxima. Quase lá. Queria saber passar a sensação do suor estacionando no meio do caminho do meu rosto, a fim de não atrapalhar o acontecimento. Isso se chama concentração. Mas vejam, meus leitores, ela parou, me olhou com vista antiga e zombeteira, depositou um bicho qualquer em cima da minha armadilha, cuja reação foi de um estrondoso estalar de ferro e madeira, jogando neve para todos os lados, fazendo subir uma fumaça branca e espessa que despistou meu olhar da fuga do Desejo.

Se pensam que estou frustrado, é por que realmente não conhecem o sentimento pelo qual nomeamos aquele animal. Saberiam a carne magra e escassa que ela tem, quando vista de perto ou tocada, e saberiam que não a caçamos por alimento ou sustento. Ela passa por você muito mais sorrateiramente do que para nós, posto que sabemos que a incerteza é um dos traços mais fortes dessa ave. Mas ela passa por você, tenha certeza, pelo menos disso. Chego até a imaginar que, se me virasse, ela estaria à janela me espreitando…

Sem ela, meu amigo, tudo é mais sofrido. Até essa escrita. Penso agora: e se ela me espreitasse no espelho feito das palavras no papel? E se pousa no vácuo entre os verbos? Talvez se tentasse descrever esta ave para você, conseguisse capturá-la, ao menos por aqui, pelo papel. Mas a ave é feita de caos, e as palavras pesam. O papel não a suportaria.


 

 

***

 

 

Mosca Diuturna

 

Esfreguei os olhos e balancei a cabeça com rudeza de um lado para o outro, e franzi o cenho por conta da imensa luminosidade. Estava em um amplo areal branco infindável, completamente desorientado, e tirei os sapatos para poder avançar um pouco. Lembrei que estava de relógio em pulso e também o retirei. Senti debaixo dos meus pés aquela areia fina como pequenas lascas de vidro rasgando meu andar em frente, um andar fluido e quase imperceptível, o que me fez permanecer na dúvida se andava ou estaria somente imaginando o meu andar. Meu delírio começou quando eu vi tudo se modificar a cada passo, o firmamento mutável me trazendo imagens belíssimas medonhas felizes suicidas até eu quase cair de um precipício: o final do meu terreno, e sem forças não conseguia retornar ao ponto de onde comecei.

Daquele limite de terra branca tive outra visão: era um abismo cujo fim não sabia distinguir se era o fim ou o começo do fim, pois também era pálido como o areal. Mas, proeminente daquele cenário pacífico, ao longe,  elevava-se uma montanha, e seu cume terminava na linha de minha visão paralisada. No topo desse cume, pude ver que havia uma sereia em seu topo, e olhava para mim.

Seu rosto era brilhante, parecia forjado em silício queimado, e seus cabelos esvoaçavam para o alto por conta de um vento frequente e forte que vinha da respiração daquele monte pálido e enorme – teias brancas brincavam em sua cabeça, se tecendo por si mesmas, em meio ao canto tremeluzente daquela voz etérea. Queriam se tecer para mim, mosca diuturna e oposta da vigília.

Quanta saudade senti quando reconheci-me naquele monstro, e parecia que meus pés tinham se diluído no pó de nuvem. Poderia até tentar avançar. O fim, ou o começo do fim, poderia também ser o começo, e poderia ousar pisar imaginando-o nele um prolongamento do terreno. Desvencilhei meu pé direito e toquei com a ponta do pé o que poderia ser um vazio, e uma pequena série de ondulações circulares percorreram velozmente o espaço entre meu cume e o cume da sereia com rosto de espelho.

Quando o padrão circular tocou o iceberg a minha frente, ele estremeceu e parecia também ser feito de areia branca, e a movimentação das águas poderia levemente destruir e afogar meu objetivo. Não mais tentei ousar percorrer a planície invisível, pois destronando aquele ser de seu espaço, seu por direito e meta, não poderia mais voltar a me reconhecer.

 

 

(Pedro Costa Reis, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, à capital, iniciou sua produção com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lançou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal Cronópios, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cronópios e lançada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fantástica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)

 

 

 

 

 

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2 Comentários

  1. “Não poderia a voltar a me reconhecer”. Talvez eu possa fazer este reconhecimento associando aos que já o fizeram. Duas narrativas prodigiosas, fantásticas. Não há como piscar os olhos, só nos detemos ao final de cada narrativa, mas também isso é ilusório, pois voltamos ao início de cada uma delas ruminando para apreender-lhes os múltiplos sentidos que encerram. Claro, se tal ocorre é porque fomos arrebatados.
    Abr.,

  2. A ave que se chama desejo…

    Muito bom!

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