Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Trama (L’Atelier). França. 2017.

 

 

L’Atelier, filme de Laurent Cantet, chegou aos cinemas brasileiros como A Trama. O título do filme em português não trai o motivo da história, mas introduz certo deslizamento semântico que torna o filme ainda mais interessante.

O atelier, no caso, é uma oficina de escrita. A escritora de romances policiais Olivia (vivida por Marina Foïs) ministra a oficina para uma turma de jovens “problemáticos”, periféricos ou marginalizados. O objetivo da oficina é a escrita coletiva de um romance policial pelos alunos. A atividade tem um fim de integração social e os alunos ganham uma bolsa pela participação. Eles são franceses de famílias de ascendência africana ou árabe. Mas há dois franceses tradicionais, brancos, e um deles é Antoine (vivido por Matthieu Lucci), que se sobressai como o outro protagonista do roteiro.

A reunião do grupo fornece um microcosmo das tensões sociais que afetam a sociedade francesa, em particular os jovens. A história do filme acontece após o assassinato em massa ocorrido na boate Bataclan em novembro de 2015. As tensões aparecem entre os jovens e entre eles e a professora, que é uma mulher branca, de cerca de 50 anos e bem sucedida como escritora. Ela ministra a oficina com idealismo, acreditando não apenas conduzir o grupo para uma boa realização de sua tarefa (o romance que será publicado), mas também que esta oficina ajudará os jovens em sua inserção na sociedade e na difusão do interesse pela literatura.

 

Foto: divulgação

 

Laurent Cantet é o diretor do aclamado Entre os Muros (2008), ganhador da Palma de Ouro em Cannes e do excelente Em Direção ao sul (2005), entre outros filmes. A Trama tem uma estrutura de roteiro que se assemelha a Entre os Muros. Mistura habilmente as esferas da realidade e da ficção. Sobretudo, em ambos os filmes há um conflito etário e social entre jovens e uma personagem de mais idade, numa posição de autoridade e conhecimento. No filme de 2008, há um confronto aberto entre os alunos e o professor que desfaz as relações de hierarquia dentro do aparelho escolar.

No filme mais recente, Olivia é uma escritora mais experiente, mas a literatura não é um aparelho de hierarquias rígidas.  A literatura é justamente o tipo de atividade que desestabiliza as hierarquias sociais porque embaralha as pontas entre a ficção, que é a técnica de construir um mundo imaginário, e a realidade, que não é outra coisa senão aquilo que contamos sobre ela. A questão é que aprendemos na literatura que ficção e realidade não se opõem, mas são complementares, que não há realidade que não seja também ficcionalmente elaborada.

Daí porque o título de A Trama faz um comentário a esse imbricamento entre realidade e ficção. É verdade que se fosse apenas por isso não teria alguma novidade no filme de Cantet, pois a confusão entre literatura e realidade é trabalhada em muitos outros filmes como, por exemplo, o filme Dans la maison, de seu compatriota François Ozon. No filme de Laurent Cantet, esse imbricamento tem uma conotação política e sexual.

No início do filme, pode parecer estranha a razão pela qual o roteiro escolhe a personagem de Antoine para seu foco narrativo. Entre jovens multiculturais é justamente o mais francês entre eles que protagoniza o enredo. A razão dessa escolha torna-se mais clara aos poucos: descobrimos que o jovem Antoine está para se envolver com grupos da extrema-direita francesa. Junto com seu primo e amigos, Antoine frequenta as reuniões de um líder extremista que prega a França para franceses, o ódio aos migrantes, o direito ao porte de armas. No entanto, Antoine não vê esse movimento como político, mas como um tipo de diversão. Ele acompanha apenas seus amigos aos encontros e a passeios onde brincam com armas. Durante as reuniões da oficina, ele é aquele que rejeita qualquer filiação do argumento do roteiro que está sendo construído coletivamente a uma motivação política como querem alguns dos outros jovens. A localidade onde o filme se passa, La Ciotat, é uma zona portuária que abrigou no passado muitos movimentos grevistas. Familiares de alguns desses jovens fizeram parte desses movimentos grevistas.

 

Foto: divulgação

 

No fundo está a questão do terrorismo, pois o assassinato em massa da boate Bataclan ou o atentado em Nice e a onda islamofóbica que invade a França estão muito presentes para os jovens e alguns deles sofrem na pele as consequências. Antoine expõe sua tese: a motivação política ou religiosa dos atentados é mero pretexto e deve ser posta em dúvida. Esses motivos apresentados pelas mídias não passam de narrativas ficcionais a seu jeito. O que realmente leva os jovens a matar é puramente o desejo de sentir a experiência do assassinato e da morte. Ele apresenta um trecho ficcional de seu próprio punho para o roteiro que escrevem. Nesse texto, apresenta a cena de um assassinato com os detalhes sádicos de realismo, o que provoca a repulsa nos demais jovens do grupo. Para Antoine, no entanto, não ser possível estabelecer uma causalidade política ou religiosa para os assassinatos acaba servindo muito mais à causa dos imigrantes, pois tiraria deles o peso da responsabilidade. Na verdade, apenas o desejo de matar dos jovens do Bataclan explica o assassinato e não o fanatismo religioso ou mesmo a filiação a movimentos extremistas islâmicos.

O que supostamente Antoine defende é não apenas a despolitização do romance (e da literatura), bem como da própria política. É como se ele encarnasse literariamente o absurdo do Estrangeiro de Albert Camus: para matar não há necessidade de nenhum argumento. De fato, assim como o personagem de Camus, Antoine vive uma vida de absoluto vazio existencial e tédio. Ainda próximo da adolescência, ele é um caráter que está à espera de seu destino, como uma página em branco.

Laurent Cantet, através da personagem de Antoine, está discutindo o apelo crescente da extrema-direita entre os jovens franceses. Curiosamente, esses jovens fazendo política não acreditam que são políticos. No grupo da oficina, Antoine está sempre contestando seus colegas de um ponto de vista que se quer neutro ou não engajado e desse suposto não engajamento vem parte de sua força argumentativa. O problema é que tal não engajamento não consegue se sustentar. Olivia, que estuda esses círculos de extrema-direita para seu próximo livro, observa que Antoine é sempre “do contra”, procura a cada momento o conflito com os colegas. Ela se aproxima dele para tentar talvez ajudá-lo, ou por causa de um fascínio erótico pelo rapaz mais jovem.  E é aí que aflora no roteiro uma tensão de fundo sexual não resolvida entre a escritora de meia idade e o jovem pós-adolescente.

 

Foto: divulgação

 

Tensão libidinal que é vivida pelo jovem principalmente como um grande incômodo. Pois ela penetra sub-repticiamente além de toda vontade, consciência ou determinação contrária. Isso acaba por atingir sua suposta neutralidade ou individualismo exacerbado. Mas não há neutralidade e sim um alheamento. E a libido fala de uma ligação afetiva mais primordial e inescapável em relação ao outro. Impossível não sermos afetados pela presença física e corporal dos outros. A oficina de escrita mostra que literatura não é só a arte de contar histórias, mas de colocar em perspectiva as diferentes visões de mundo. E o ateliê é o centro mesmo de onde essas perspectivas e suas tramas se encontram. E a partir daí acontece o que é comum a todas as tramas, que é se enredar. A Trama é assim um filme sobre as redes que a imaginação traça para agarrar a realidade e, justamente, o filme fala de um cargueiro que se desprendeu de amarras e avançou sobre a cidade num grande desastre. É para não se perder num “sentimento oceânico” freudiano de morte e aniquilamento que Antoine entrou para a oficina, apesar de seu suposto alheamento. Algo que faz todo sentido numa cidade portuária em que até os grandes cargueiros podem navegar desgovernados.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

 

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