Gramofone

Por Graccho Braz Peixoto

 

DE VIÉS – MÁRIO MONTAUT

 

Capa - De Viés

 

Vivemos tempos nublados, onde não se vê na paisagem um horizonte cordial ou mesmo uma pequena utopia que nos permita repousar do cansaço gerado por conflitos, pelo movimento incessante de eventos de toda natureza, de tanta informação que não temos como absorver, minimamente. Parece que, para além de ideologias e credos, o mundo tornou-se um grande holding de comunidades transnacionais de consumidores, caixa de Pandora de onde as coisas vão se desmanchando no ar, saturado de revoluções.

Mas, se depois do mote vem a glosa, houve algum período de concórdia? Certamente o Tempo diria que não, que tudo dá corpo à História e é fonte para criação; afinal, é da matéria existência que a arte se alimenta. Por isso, cabe aqui lembrar uma frase de Igor Stravinsky: “O fenômeno da música foi-nos dado com o único fim de instituir uma ordem nas coisas, incluindo – e principalmente – uma ordem entre o homem e o tempo”.

Tudo nos leva a crer que o genial compositor russo não se referia somente ao tempo musical, mas também ao pulso musical, que estabelece íntima relação com emissor e receptor. Da música erudita – constituída por harmonia, melodia e ritmo – desviaremos nosso curso para uma pauta mais prosaica, mas não menos ilustre, que inclui a letra, o versejar, quarto e fundamental elemento para falar das canções, essas cápsulas sonoras de breve duração, com poder de nos transportar para um outro tempo, além do tempo realidade. Queremos saudar De Viés, o quarto disco do “cantautor” paulistano Mário Montaut.

Poderíamos abordar o álbum sob vários aspectos, mas seria mais coerente começar pela canção que abre o disco, a que nos deu a deixa para o primeiro parágrafo: Bela Humana Raça. Regravação que deu título ao disco inaugural, lançado em 1999, a canção, que valoriza os substantivos como cores a compor um quadro onírico, simboliza aquele travesseiro surreal em que podemos nos aconchegar, onde os males do mundo são anistiados por uma graça superior e tudo está em ordem.

Entoada de forma circular, o autor puxa o fio de Adão, como a evocar algo primordial para sublimar os senões e nos dar alento: Nada há que nos faça / Represar o mel /Cresça humana raça / Puxe o carrossel. A seguir, tinge de forma delicada – um traço constante e relevante de sua artesania musical – um universo fadado a procriar e dar à luz os desígnios do “fogo imperial”:

Choraminga a goela da menina mantra menta humana usina explode em música cristal / Renova aquarela comichão da primavera gera graça e humor no clã do velho Adão/ Lá na esquina espoca Zoroastro rei menino novo astro meu canário redentor/ Hálito celeste sopra e bate na remela do olho azul que ali no berço despertou…

É quando uma canção, simples, se veste de algo sagrado que emana da força da poesia, substância fundamental para o trabalho de Mário Montaut. Pois, na verdade, se trata aqui do poeta inspirado seduzido pela música. Vale citar a última estrofe, onde assonâncias e aliterações dão um brilho especial às sílabas cantadas:

Carne céu costela vida estala e se constela no barraco da favela e arranha-céu / Flui qual garoa ao sol chuvisco na canoa que flutua no amazônico esplendor / No vale ou montanha na Bahia ou Alemanha criancinhas sentinelas matinais / Bandos de cegonhas mais e mais barrigas prenhas tochas lenhas artimanhas de uma flor.

 

Mário Montaut

Mário Montaut / Foto: divulgação

 

Diz Ortega Y Gasset em A desumanização da arte: “A relação de nossa mente com as coisas consiste em pensá-las, em formar ideias delas. A rigor, não possuímos do real senão as ideias que dele tenhamos conseguido formar para nós”. Eis aqui um dado essencial para a arte, pois, na verdade, nossas ideias em relação às canções andam um pouco viciadas. Não vivemos mais aquelas várias décadas em que a música popular exercia um protagonismo inquestionável como meio de fruição e veiculação de questões relevantes. E, quando entre a ideia e o resultado há espaço para a singularidade, o artefato é uma boa medida, quando resulta naquilo que achamos de valor.

Castelo, outra faixa do disco, possui melodia barroca e versos de uma imaginação fértil. Fruto de uma forte ligação com o Surrealismo de André Breton e sua trupe, Mário tem gosto pelo mistério, pela sinestesia, a mistura de percepções de natureza sensorial distintas. Em várias situações ao longo das 16 faixas, as melodias servem de apoio para seu espírito lúdico, quase infantil. Resulta que para algumas dessas peças poderíamos cunhar o termo OMNIs – objetos musicais não identificáveis. Elas pousam fora do desenho padrão das canções, pedem ao ouvinte outra audição, uma abertura para se curtir os neologismos de seu projeto de canções que agem no âmbito das sugestões, das fantasias. Vejamos um trecho de Jardins Floríbulos, construída com base em proparoxítonas:

Los Los Los Los / Jardins floríbulos /Dos negros ídolos / E verdes óvulos / Dois doidos índios apaixonados / Há séculos e séculos … Céu e oráculos / Sol e tentáculos… Distinta das outras faixas, De tua lembrança é uma daquelas que emanam da tradição, no caso a tradição das toadas do interior de São Paulo e Minas Gerais. É como se a canção existisse desde sempre, como se já conhecêssemos a melodia, tivéssemos sofrido junto com ela.

O disco tem a colaboração decisiva do músico Roberto Gava. Compositor e produtor, Gava, além de executar violões e guitarras fez trabalho esmerado nos arranjos, tarefa árdua, pois, quando se tem tudo à disposição nos estúdios por meio de programações é mais fácil se perder do que achar o recurso apropriado. De Gava, merecem também destaque os arranjos que fez para as duas vinhetas que mudam repentinamente a sonoridade do cd. Executadas por programações, frases de naipes de metais trazem ao disco uma atmosfera divertida.

Ana Lee, com afinação e voz límpida dá apoio aos vocais, presença que se incorpora à essência do cd. Ricardo Stuani cuida dos ritmos com bateria e percussão. Músico e pesquisador, Stuani foge à regra da percussão como mero apoio. As ilustrações, aquarelas que valorizam os cenários das canções são de Regina Izumi Hasegawa. Todas as faixas são de sua autoria, mas em duas delas Montaut tem como parceiros Vicente Thiné (Álven Jérra) e Ozias Stafuzza (Cadáver Delicado).

Como dito acima, vivemos tempos em que não temos tempo para sorver sem rapidez e fragmentação a miscelânea das linguagens massificadas, a atomização das identidades. Neste cenário, De Viés é um disco de autor nômade, no contexto da miríade de mídias que respiramos. A abundância de discos, de suportes, e o universo infindável de segmentos passageiros são algo, ainda, de difícil análise.

Caudatários daquela que talvez seja a mais rica produção da cultura brasileira – sua música popular (curiosamente apesar de não termos tradição de ensino musical), hoje somos trovadores eletrônicos de pequenas vilinhas digitais. Não estamos começando tudo de novo, mas tudo é ainda muito novo depois que se formou esse supercontinente, a Pangea on-line. Porém, se o espaço público tornou-se o território do consumo, das relações líquidas, uma coisa não se perde: a autonomia do espaço íntimo. E nessas novas aldeias e vilas digitais Mário Montaut segue com seu quarto disco, na terceira margem das canções.

Graccho Braz Peixoto é Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP (2004), compositor e jornalista. É autor da canção “Noturno” (Coração Alado), em parceria com o compositor e arranjador Caio Silvio Braz. Possui mais de 80 gravações de suas músicas, por diversos intérpretes, no Brasil, Europa e EUA.

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2 Comentários

  1. super! Graccho.
    o CD do Mario tá no meu carro, e escuto, escuto. e gosto. muito.
    beijos!

    assini embaixo. Roberto Gava, Ana Lee, etc.

  2. O CD do Mário é desses que a gente escuta quando quer adentrar outras frequências de alma, alçar vôos, quando cansados da mesmice! Belíssimo!!! Essa resenha, rara! Como há muito não se vê! Que prazer! Todos estão de parabéns! Beijos!!!!!

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