Janela Poética I

Virgínia do Carmo

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

No avesso dos voos

 

Há pássaros que me doem no avesso
dos voos. Como se engolisse a vertigem
de um caos de penas e perdas. Acentos
graves em desassiso na queda invertida das
lágrimas

………do fundo de mim para a superfície dos teus
…………. olhos.

E sei que não há outra pele que me salve
da solidão. Porque tu corres-me por dentro
do corpo. Qual seiva espessa do ar que me
atravessa. Um abismo de sopros a romper-me
o peito. Tempestade de reversos. O oposto do
teu toque.

Há pássaros que me doem no avesso
das asas, sabes. Como se a vida fosse este caminho
de pernas para o ar. Um horizonte desenhado
ao contrário. Um céu que piso sob o peso da terra.

Há pássaros que me doem, meu amor.
No avesso dos voos.

 

 

***

 

Decomponho-me

 

Sitiada na hora da torção da luz, decomponho-me.

Em excertos de estrada húmida. Em filamentos
de solidão.

Entorno o meu corpo nos intervalos das tuas mãos
recorrentes, e contemplo a agonia amplificada dos
ruídos na crosta arfante da terra.

…………[Consubstanciação do impacto da memória.]

Como as gotas de ti no vidro sujo.Como aquele
cheiro a interior prescrito.

…………. [Como se não pudesses
habitar-me mais.]

E no movimento perplexo dos olhos golpeados
de horizontes intermitentes, respira-me o lamento.

O meu grito lentificado,

…….. [pedestal do teu aceno]

a sangrar visões de nós. Um uivo grave, desnorteado,
a ser-me eco mortificante na pele.

E sitiada, ainda, na hora da torção da luz,

……………decomponho-me.

 

 

***

 

 

O silêncio das pedras

 

Apetece-me o silêncio das pedras
A quietude das areias primitivas de um chão
sem dono
A lonjura sem fundo
nem pele
que me doa

Apetece-me a nudez das escarpas
salgadas
A liquidez inabraçável
do mar

O alívio de não ter peito
O descanso das mãos

Apetece-me o silêncio das pedras

 

 

***

 

 

Um rosário de dias sem nome

 

Sobre a mesa do meu jardim de pó e ar,
um rosário de dias sem nome. Dias
(in)seguros na compressão de dedos partidos.
Dias memoriados em cacos de porcelana azul.
Contas de um céu por limpar.

É um rosário de dias sem rosas nem chão. Dias
desfiados em mistérios de um tempo menor, a tremer
por dentro das coisas, a doer nas dobras dos dedos
partidos.  Atravessado de vestígios da salvação
por encontrar.

É um cordão de pedras e nós a engolirem silêncios
irrespiráveis.
Estranha cadência de uma procura qualquer.
Três terços de um todo por acabar.

 

 

***

 

 

Cansada

 

Cansada de me ser um relevo abstracto na textura das coisas que piso.
Cansada de percorrer esta cordilheira insular de abraços possíveis.
Aprendi a respirar vazios estranhos ao meu corpo e dói-me já o peito
de tanto me salvar dos espaços contaminados.

Cansada de calcar a ternura em gavetas que já não fecham e depois
partir para um mundo onde não cabe todo o tempo que ainda falta.

cansada.

Cansada de tudo o que me sobra do chão.

 

 

(Virgínia do Carmo nasceu em Champagnole, França, mas foi em Trás-os-Montes (Portugal) que cresceu e aprendeu a escrever. Licenciada em Comunicação Social, o seu percurso profissional passou pelo jornalismo, mas foi no mundo livreiro que encontrou a sua verdadeira vocação. Atualmente leva adiante um projeto (Poética – Livros, arte e eventos)  que, mais do que uma livraria, pretende ser um espaço de verdadeiro e profundo encontro de livros e pessoas. É autora das seguintes obras: “Tempos Cruzados” (poesia), Pé de Página Editores, Coimbra, 2004,“Sou, e Sinto” (poesia), Temas Originais, Coimbra, 2010,“Uma luz que nos nasce por dentro”, Lua de Marfim Editora, Lisboa, 2011)

 

 

 

 

Clique para imprimir.

3 Comentários

  1. Poemas maravilhosos. E que domínio do idioma!

  2. Gina,
    Adorei ver-te neste espaço.
    Tu e a tua poesia merecem a maior divulgação possível, porque ambas são excelentes…
    Um beijo, querida amiga transmontana.

  3. Gostaria de lhe dar os parabéns pela sua poesia, linda e profunda!.

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *