Janela Poética I

Iolanda Costa

 

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

De joelhos

 

O amor cãibra sobre o assoalho
dá voltas em torno da sua inadequação
e rala os joelhos.
Não transita. Não se ergue.
Não se transforma em a asa ou em barco.
Da porta mesmo volta
e macera.
Ele é aprisionado no corpo, o amor
e quase nunca conhece
a maneira dos pássaros.

 

 

***

 

 

Subtraído

 

teu coração de exíguo
e indefinido amor
descansa entre um domingo e  outro
põe a água para ferver
e esfria.
não espera o equinócio, o saldo
o próximo aniversário
o cabelo crescer pelas costas
enquanto vaga nas proporções
e quedas previstas pela exaustão.
meu coração
sobrancelha sobressaltada
no teu vulto
“cogito, ergo sum” sem a prova dos nove
meu batom terra glaise 74.

 

 

***

 

 

Acordo

 

não lhe faria mal algum pela manhã.
deixaria o saldo
………………. ….o ocaso
o escaldo da colheita
………………….tardia e enunciada
e a centena de mal-traçados
escritos em breves
e em permanentes polissílabos.
me devolveria o livro
…………………………….o centauro
a minha concuspicência.
sem olharmo-nos.
com o distanciamento
recomendável
aos que se amam em demasia
e se arremessam.

 

 

***

 

 

Anímico

 

anuncia o princípio anímico
e todas as coisas se enchem
de alma.
vela o Verbo
espia a pena
ratifica as Escrituras, o Talmude,
………………………………………………o Tao.
Deus imana e eu amo as hortaliças
de verde enluarado.
e o centeio e o peixe e o orvalho
e  a pedra e  a trovoada e a magnólia.
tudo exala. nada transcende.
o vácuo é composto de falenas.

 

 

***

 

 

Vigília

 

Havia ternura:
a cor da fruta
sombreava as palavras
o cavalo-marinho
ia de amarelo
e sem ver
todos os nossos braços
suspensos em tempo irregular
de afago e festa.

Então, reiventarei
por necessidade
novas guardas.
Trazes o crisântemo
e a ófris esquecida
e a alma
desalinha-se no leito:
minhas horas são feitas
de inseguro tear.
Antecipas o agosto
em tempo hábil
e o talha em jaspe:
a melifluidade
do amor raro
resvala na pedra.
Tuas mãos cheiram
a silício e abandono.

Nenhum louva-deus.
Nenhuma flor imprevista
salta das letras.
De madrugada
assim tão tarde
nem as tangerinas maduram
e nem o céu responde.
Tua metafísica monitora
o fólio, a promissória
e a minha poética insiste, azul
como anil dissolvido na água.

 

 

***

 

 

Amarelo Por Dentro

 

A tua letra é amarela
como a nêspera, a gema
o fruto em véspera e ocre
saltando da árvore, da página
da costura no dobrado do paletó.
Devolveu-me a vida enquanto escrevias
e sublinhavas o termo, a epígrafe
a semântica clara de cuidados.
Trouxeste o castiçal, o sol
a lâmpada
a última literatura.
O teu amarelo a escorrer-me, por dentro.

 

 

(lolanda Costa (Itabuna-BA) é graduada em Filosofia e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas (1990), A Óleo e Brasa (1991) e Antese (1993). Tem poemas publicados em jornais, antologias e blogs. É autora de Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense (2000), Poemas Sem Nenhum Cuidado (2004), Amarelo Por Dentro (2009) e Filosofia Líquida (2012))

 

 

 

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3 Comentários

  1. Gente, eu não sei qual o mais bonito! Fiquei a mergulhar tempos e tempos nestas canções da Iolanda. O amor, o “amarelo por dentro” estão perpetuados. Lindamente perpetuados.

    Abraços.

  2. Muito bonitos e inteligentes! Não a conhecia.

  3. Nossa!!! Somente agora vi essa postagem da Diversos e os comentários. Grata, gente!

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