Janela Poética II

Demetrios Galvão

 

Desenho: Bárbara Damas

alguém comeu minhas mortes

 

minha boca suja de sono no teu sonho sujo desata novelos e subtrai gengivas: gosto de deserto em prato de cerâmica, língua escorregando pela geometria defasada. arapuca armada: impossível resistir ao ato de se abismar. a janela cega revela nódoas, sequelas atrás dos tijolos. o silêncio costurado com barbante faz lembrar que as raízes cortadas fazem falta: – onde furtaram meu quase nada há um incêndio infinito e asas longe do tronco.

 

***

no quintal de nossos umbigos

o teu riso desata um solstício – ( suprimimos os travessões, os dois pontos, as vírgulas, atropelamos a semântica com beijos salgados. retiramos do relento os balões desgarrados, retiramos também do guarda-roupa os sonhos velhos e os refizemos para o uso diário. nos encontramos quando erramos os caminhos, quando na interseção dos itinerários brincamos de nos perder e de nos achar e de trocar de pele.) – a cada gesto… um poema de amor, um samba, uma brincadeira no quintal de nossos umbigos.

 

 

 

 ***

 

 

 perdi muito mais que uma orelha

 

e tudo vaza pela ferida do pé: as árvores sorumbáticas, os peixes dopados de barbitúrico em mazeladas coreografias. a paisagem cabe em garrafas, enfio os fantasmas em um cordão e os penduro no pescoço. os dentes estão sujos, o corpo livre, os ossos antes oxidados sentem a velocidade retomar seu lugar, os espinhos nascem fortes novamente, devo a alguém o que me foi de vazio. o telefone está mudo e o colchão acolhedor em sua extensão longitudinal, província dos sonhos que arrebenta o nervo dos álbuns de fotografias, capitania tremembé guardada na memória das pedras. – e tudo vaza pela ferida do pé.

 

 

***

 

 

a espinha de março

 

i
a espinha de março atravessa a garganta do abismo.
um relâmpago indigente cai no deserto de presságios
perpendicular às asas verdes inoxidáveis que me pertenciam.

mordida pela nevralgia do cão andaluz
a menina conseguiu apanhar a mão no vazio da rua,
………………………………………………….antes que as formigas
………………………………………..chegassem.
quando no entardecer chovia no sol-laranja
os últimos demônios que ainda esperneavam se iam,
deslizando lentamente pelo orifício do horizonte
acompanhando o movimento do astro sumindo.

 

 

ii

21 gramas é o peso da alma dentro da anatomia rígida do caroço,
…………………………………….do hermetismo flácido da certeza
……………………………………..quando os pássaros caem feito folhas
……………………………………………..no chão abjeto,
……………………………………………..um quase-som do violinista verde.

 

impossível saber que código contém aqueles rostos:
………………………………………..quase poço sem fundo.
………………………………………..não importa.
fazendo a barba dos olhos com navalha
eu deixava a assonância dos acordes criar sons de cor,
……………………………………..jardins sinestésicos
………………………………………pra alimentar camaleões.

 

iii
março passa a conta-gotas em pingos diacrônicos,
um gole no líquido baldio da xícara
e um gosto suave insiste em permanecer,
………………………………imitando os dias teimosos.

as alpercatas do tempo acariciam degraus,
………………………a tangente dos cílios,
……………..o astigmatismo do olho d’água:
a diáspora das figuras-carcomidas que moravam nos armários,
……………………………………………………………gavetas,
…………………………………………….estantes da lembrança.

 

iv
– os insetos digerem o mundo na sua enzimática-paciência-atemporal,
tal como as ostras em seu silêncio-de-calcário-inacessível
guardam os pecados do mar num cofre impermeável.

 

 

(Demetrios Galvão é Historiador e poeta. Nasceu em Teresina-PI, cidade onde reside. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (FUNDAC/PI, 2005), Insólito (ed. Corsário, 2011) e o cd Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico (2005). Foi membro do coletivo poético Academia Onírica e um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011), além de ter participado da produção do cd Veículo q.s.p – Quantidade Suficiente Para (2010). Atualmente edita a revista Acrobata)

 

 

 

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