Janela Poética II

Lou Vilela

Enredados

I

Ela traz em sua pele ancestral o teatro, o culto a Dionísio; eu, todas aquelas máscaras amalgamadas. Talvez, tenha sido um guerreiro cantado, recontado, dono de uma desconcertante objetividade. Talvez, nada nobre. Máscaras! Finda que as pendure, demonstre em cena, em cima, quando coros, entoados, formos um só: emoção! Não aquela coisinha insossa, fins de efeito moral – hipócritas! Ser Ilíada e Odisseia, parte umbral! Algo tangível, alternativo, interativo, de cunho social, alcunha desvalida – arte!

 

II

relógio que acorda
que desperta o passado
apesar de avançada a hora
que se nega
que não quer ir embora
: parados ponteiros
d’outrora

 

III

alimentava olhos tristes
dentes brancos
um gráfico senoidal
uma rede
um eco
dentro
entro
ntro…

 

IV

saída de um quadro
de Toulouse-Lautrec
– púrpura!

entre um trago e outro
cruzadas
um cabaré qualquer
Paris.

antes do beijo, do gozo
o ouriçar da pele
algumas chances
partidas
em telas.

 

V

éramos cactos e flores
sem jardineiras anis
nossos ares, distâncias

até tocarmo-nos naquele instante
capital
: crédito, 3 X

quando seguimos, cada qual
cartões, carteiras e nossos vasos
– paisagens

 

VI

desaguar
perder-se inteira
forjar-se
pedra, sabão
recomeços

 

VII

uma xícara trincada
tempo, apego
aquele quadro, esse nada
um eu além
quiçá um mote, sem conserto

 

VIII

tão querida quanto trêmula
não importava!
naquela idade
bom mesmo era poder quebrar
silêncios
foi assim o nosso encontro

 

IX

a moça da saia vermelha
nada me dizia
estava ali, impassível, em sua beleza ácida
queria voar
não havia asas
apenas poesia – ponte aérea
entre vãos
e todas aquelas vozes celulares
ar rarefeito unindo
motivos, vidas, saguão

 

X

as fraturas
e esta sensibilidade exposta, sonar
riem-se dos laços plácidos

 

XI

havia a história das corujas
vovó dizia: ‘rasgam mortalha’
e eu por um tempo acreditei
que não eram humanas

 

XII

ajoelhados em torta calmaria
ruminam, sobretudo, vendavais

 

XIII

como quem posta-se morto
o homem trabalha
volta à casa, come
transa, dorme
não acorda
trabalha…

 

XIV

Imoral é a hipocrisia que impera entre tantos;
são os dedos quebradiços da ética;
um olhar pseudo espanto [o ciclope em jardim panorâmico].

Imoral somos nós
mal fa(r)dados humanos;
são os monstros assíduos que criamos.

Imoral nossos atos impensados
pútridos paridos do descaso
sepulcros do que podia ser.

 

 

(Lou é pseudônimo; Sandra é marca pessoal, escolha de mãe; Vilela, herança de pai. Nasci em Natal/RN, mas resido em Recife/PE, desde a infância. Administradora, Especialista em Logística. Uma das integrantes do livro Maria Clara – uniVersos Femininos (LivroPronto, 2010). Possuo poemas publicados na agenda da Tribo (2012/2013/2014), e em diversos sítios na internet. Lunática, patética – nos intervalos, dialética. Move-me uma fome de horizontes: à procura da forma singro mares ins.pirando nau.fragios, auroras, crepúsculos, silêncios… – faço-me moinho de ventos: sopro (re)versos)

 

 

 

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4 Comentários

  1. Leio Lou e sinto sua garra. Vejo Lou e percebo nela uma das mais expressivas poetas de nossa geração. Fico feliz de vê-la aqui, onde tive o prazer imenso em estar. Acho diversos afins uma excelente revista literária. Parabéns pra minha querida amiga Lou e para vocês nas excelentes publicações. Feliz 2014.Rosa Pena

  2. Leila e Fabrício, obrigada por tudo! Prazer imenso estar aqui! Parabéns a todos que fazem parte da Diversos Afins, essa lindeza de revista!

  3. Rosa, obrigada pela leitura e por tamanha generosidade! É uma honra e uma alegria enorme receber um ‘feedback’ de uma escritora que tanto admiro! Beijos de fã!

  4. Show de bola, menina Lou!

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