Janela Poética II

Guilherme Gontijo Flores

 

Tomás Caceres

Foto: Tomás Casares

 

 REVER

 

é o cheiro da seca
………..no solo solto de chuva

– despétala a vi
………….olência flo
..rindo sem nome –
……entre cercas
.do asfalto violáceo

 

 

***

 

 

CADA SINAL cada passeio
por onde o carro
inadvertidamente
…………………passa
cada ferida na forma
fractabilizável
de um sorriso
………………..passa
ainda que no beijo
– rasgo de carne corpo
………..entrementes –
alienado a preços módicos
nos dedos sem assunto
duma datilógrafa
desempregada
nos pés aquáticos
da tua presença fabulada
ou nos sesquipedais contornos
deste último desejo
……….passa

 

 

***

 

 

NOITE DE NEVE (mentira)
…………….no fundo
do olho
……….(nada se encontra
……….nada resta
pra além de uma palavra feito
…………………undo
noutra língua
……….noutrora que não esta)

noite de neve paira sobre o mundo
(mentira cadavérica
………………….não presta
não desfaz a miséria deste mundo
nas brancuras do gelo
………………….(mera esta-

fa
…..– feitio de metáfora – mera
imagem do silêncio mera estátua
calcinada
………..nos olhos do futuro)

mentira gorda mentira
…………………fátua
mero cabresto sobre besta-fera)
noite de neve (noite de monturo)

 

 

***

 

 

SE CANTAR FOSSE O CANTO
da cotovia do
bem-
te-vi do rouxinol
se os ruídos da codorna
do jacu………..das águas
que murmuram de tédio
por entre as árvores
se o próprio som sentido
das árvores……do ninho
que nas árvores
se aninha

se o canto que ali se encontra
fosse caso concreto
…………………de imitação
de tudo quanto cerca
um canto além do canto
engloba o através
da mata que deixou
aquela moto     o ronco comburente
do caminhão de transportes
………..& por fim
o canto elétrico
que anulou seu ninho
o próprio canto-serra
sem conto sem pranto
da inaudita
…………………motosserra
que encontrasse ninho
na voz deste pássaro-lira

 

Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Latina na UFPR. Lançou traduções de “As janelas”, seguidas de poemas em prosa franceses, de Rainer Maria Rilke (2009, Ed. Crisálida, em parceria com Bruno D’Abruzzo),” A anatomia da melancolia”, de Robert Burton (2011-2013, 4 vols, Ed. UFPR, ganhador do prêmio APCA e finalista do prêmio Jabuti), entre outros. Publicou os poemas de “brasa enganosa” (2013, Ed. Patuá, finalista do prêmio Portugal Telecom) e do poema-site Tróiades. É editor do blog coletivo e revista impressa escamandro.

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