Janela Poética III

Alberto Lins Caldas

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

assim a dor o sofrimento

 

assim a dor o sofrimento
sob a língua é só deserto
entre os dentes o q sobra

se perguntasse – o vazio
se negasse – só o vazio
se dissesse – não sabia

todos esses tão perfeitos
não sentem fome – a fome
essa satisfeita com osso

todos esses são felizes
?os q sofrem são de carne
então por q não se devoram

todos na mesma sombra
todos na mesma crença
uns na brasa outros rindo

só vivemos nessa dança
só bebemos esse cálice
sal q tempera a morte

 

 

***

 

 

é preciso

 

é preciso
muito mais superfície
pra dizer o essencial

mais ondas
e em todas essas ondas
o mar

não o ruído
mas todos os ruídos
enfim o tecido e o rato

jamais o silêncio
mas todos os silêncios
só assim o não

é preciso esquecer
tão completamente
q  nem sei

depois estarrecido
tocar a máscara nua
assim o corpo sabe

não apenas o entre nós
o jorrar dentro e além
mas a ferida e a hora

agora é sempre
por isso não se afaste
não há tempo a perder

 

 

***

 

 

não sabemos eu e o imperador

 

não sabemos eu e o imperador
como tudo isso começou
como brasas pegam fogo

como nossa paz nosso bem
nossos servos se transtornaram
e tudo quer nos destruir e apagar

não sabemos qual a hora o lugar
o momento preciso em q a onda
a onda se tornou esse mar

não sabemos eu e o imperador
se haverá futuro ou bem querer
pros nossos os nossos bem amados

temos medo dos metais afiados
enquanto escondemos os pesados
bem longe desse mundo q aderna

não dormimos há tanto tempo
q o sono nos domina e prende
enquanto eles devoram tudo

 

 

***

 

 

correr pela treva

 

correr pela treva
chamando o q passou
é fogo morto é fogo fátuo

chamar os vivos os homens
por um desejo q não é deles
é fogo morto é fogo fátuo

querer a clara chama
quando tudo é escuridão
é fogo morto é fogo fátuo

admirar essas coisas
o q se dispõe como gente
é fogo morto é fogo fátuo

gritar assim tão infeliz
quando ninguém pode ouvir
é fogo morto é fogo fátuo

o q não jorra da violência
essa bruta potência entre nós
é fogo morto é fogo fátuo

 

 

 

(Alberto Lins Caldas publicou os livros de contos “Babel” (Revan, Rio de Janeiro, 2001) e “Gorgonas” (Cepe, Recife, 2008); o romance “Senhor Krauze” (Revan, Rio de Janeiro, 2009), o livro de poemas “Minos” (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2011) e colabora em várias revistas literárias e blogs de literatura e arte)

 

 

 

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3 Comentários

  1. excelentes!!!grande poeta que sigo pelo face! e perfeito o titulo da matéria. mas justamente o que ele provoca cutucando nossas zonas de conforto vem nao so no poema mas na sua linguagem na sua forma: sem acentos, sem terminar algumas palavras como o “q” por ex e com seus sinais pretos , ja tao características nossas, contendo o poema. aqui ele se “normalizou” e ficou como um jovem a quem a gente arranca as roupas coloridas e rasgadas e corta o cabelo. e o veste com roupas tipo terno e o apresenta assim, aos convidados da festa. bonito forte e preso. sem mais liberdade.

  2. São ótimos .Ele escreve bem ,nos leva junto ,e a leitura flui .
    Gostei muito dos poemas .

  3. Extasiante! mergulho no Não SER

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