Janela Poética III

Lourença Bella

 

Rebeca Prado

Ilustração: Rebeca Prado

 

emanações do ser

 

não presto
nunca prestei para ser em série

tentaram me colocar numa forma
o máximo que conseguiram
foi me ver flertando com a morte

assustaram
e me reacordaram de um sono de gilete
e me aumentaram o tamanho dos dias

não presto
não sei se algum dia vou prestar

tentei óculos escuros nas minhas perdas
queria ter coração mesmo que rude
só consegui lacrimejar meus sapatos

tenho fomes
e só presto para o uso geral e irrestrito
do anormal dos anos que ainda me gritam

 

 

***

 

 

o frágil correr dos dias

 

ainda que saibamos
que os heróis não cunham suas moedas
nem as esfinges devoram seus enigmas
falta-nos entender
esta lâmina que vem com a ausência
e que nos corta onde nunca há costura

mas há o tempo
este que se apresenta em fatias
que é capaz de nos mostrar à nossa cólera
e nos leva a reconhecer-nos sobreviventes
dos nossos circos e das nossas próprias guerras

é quando descobrimos:
imperioso é reconhecer-nos em nossos afetos
e seguir carregando as nossas marcas
indelevelmente

 

 

***

 

 

rios da fala

 

gosto de frases tontas
doentes do gosto
que se soltem
na garganta

frases que despertem
sonos e rumos
em caminhos
que já perdi

gosto de frases bêbadas
que sejam o prumo
do coletivo
em mim

e que rolem as necessárias pedras
nos rios da minha fala

 

 

***

 

 

em dias mortos

 

não encare
sem dor
a tela vazia

nem se acostume
à arritmia
da falta de versos

não se cale
não se sele
não se apague

nas esquinas
dos desfavores
é no poema que se acende
o sexto sentido

 

 

***

 

 

à maneira dos sonhos lúcidos

 

triste como quem carrega pedras
alimentava silêncios
caminhava devagar

e me queria

eu não sabia
em que compartimento de mim
ele cabia

eu sorria
só sorria

um dia
ele sorveu meu riso
deixou-o enrodilhando-se
na língua
como se nunca tivesse provado
o gosto da alegria

tornou-se parte de mim
mesmo não tendo sido meu

 

 

***

 

 

em redefinição

 

para Ser
preciso aceitar
impotências e calmarias
tempestades e girassóis
promessas e muralhas

para Ser
preciso enxergar
ratos e miragens
entranhas e oitavas
camélias e adagas

para Ser
preciso antes
me perder
e em novos
espelhos
me reconhecer

 

Lourença Bella é mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi só o inicio. Pisciana que é, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educação, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra até hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso escreve.

 

 

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4 Comentários

  1. Essa Poeta Lourença Bella, não escreve poemas.Materializa pedras raras : Jadeites, Diamantes vermelhos e Serendibites. Uma verdadeira ourives poética.

  2. Lourença Bella!!! Veio de ouro em forma de palavras/poemas jóias que encantam/ verdadeira joalheria!!! Rara pessoa que gosto e admiro! Uma maravilhosa amiga!!!

  3. […]
    é quando descobrimos:
    imperioso é reconhecer-nos em nossos afetos
    e seguir carregando as nossas marcas
    indelevelmente”

    Foi um prazer ler a poesia de Lourença Bella e o toque misterioso que a une às palavras.

    Como sempre, amei estar aqui.

    Um abraço

  4. “para Ser
    preciso antes
    me perder
    e em novos
    espelhos
    me reconhecer”

    Excelentes poemas com destaque para o último que termina com os versos copiados acima. Como sempre Minas nos brindando com seus poetas.

    Abraços

    Neuzamaria

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