Janela Poética IV

Wender Montenegro

 

Foto: Rosa De Luca

 

 

ABSTRATO EM LUZ E MEDO

 

O medo é a alma dizendo onde dói
pássaro conduzindo léguas
sob asas feridas.

É grito de Munch sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.

É o temor do cântaro ao desuso
jardins plenos de sede e gerânios
cardumes de espectros
pescando crendices nos rios da noite.

Há mel e fé na colmeia do medo
e os anjos terríveis de Rilke
pintam de ferrugem cada luz e riso;
semeiam gerânios sobre cada grito.

 

 

 

***

 

 

 

MEA CULPA OU PROFISSÃO DE FÉ

 

Ao poeta Francisco Carvalho

 

Semear poeiras e andrajos de esperas
dissecar os ossos das metáforas
acender espantalhos no amarelo das espigas.

Decantar o silêncio que sustenta o cais
ostentar um colar de metonímias
despir a voz da louca, cuja febre anuncia
um evangelho apócrifo.

Caminhar sob pedras como por milagre
ouvir a foz rouca dos rios da infância
borrifar no azul as flores do arco-íris.

Pintar um verão vazio de andorinhas
se encharcar de sol e devaneios
hastear um lenço sujo de saudade
ajustar os ponteiros na cópula dos pardais.

 

 

 

***

 

 

 

INVENTÁRIO

 

O brasão está posto nas cãs da matriarca
as chaves da terra
penduradas no peso dos anos
lhe enferrujam a voz.

Sete línguas mastigam as léguas do tempo
sete reses ruminam as vozes dos mortos.

E meu filho dorme, alheio a tudo isso.
Inocente ainda e derradeiro herdeiro
apenas deseja palmilhar um sonho
nas léguas do seu chão
de berço.

 

 

 

***

 

 

 

TEMPO DESCARRILHADO

 

Ao poeta Mário Gomes

 

Esses olhos que a terra não deseja
hão de comer a vastidão da terra
plantar no solo o sêmen de seus rastros
cravar na pedra o seu punhal de febre,
sonho pleno de pedra.
As algemas de sangue, solidão e medo;
o luminoso terror noturno…
Há tragédia em cada ato
no tempo descarrilhado
e um gosto de eternidade.

 

 

(Wender Montenegro, natural de Trairi/CE, é professor de História e poeta. Tem poemas publicados nas revistas TRIPLOV, Blecaute, dEsEnrEdoS e em outros espaços literários. É autor de Arestas, 2008, pela All Print editora/SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia)

 

 

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2 Comentários

  1. “Abstrato em luz e medo” é, com certeza, o poema de Wender Montenegro que mais me agrada. Um poeta de voz forte, este Wender. E o seu poema ao Francisco Carvalho é uma belíssima homenagem. Abraços, poeta.

  2. Poemas do Wender Montenegro! Sempre wenderful

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