Janela Poética IV

Ellen Maria Vasconcellos

 

Deborah Dornellas

 

O espetáculo da pedra

 

selvagem ela
levanta, cuida das folhas das plantas
tira os nós dos cabelos
as raízes dos dias cheias de umidade
trabalha em silêncio
até a noite quando avança
pelo chão da sala e olha o teto
dedos entrelaçados atrás da cabeça
cresce sem perceber
também se alimenta de luz
até que não se cabe.

 

 

 
***

 

 

 

 

Sereníssima

Sento e espero. Não posso respirar fundo. Me dá tontura e sinto que se antes de afogar, desmaio. Escuto desde aqui a máquina fazendo seu trabalho. Ela gira a um lado e outro sem sair do lugar, as roupas magicamente clareiam. O volume baixa e depois volta a subir. Enche o tanque e mergulho de olhos fechados. Tudo submerso em água macia. Não sinto minhas lágrimas desde o chão da sala. Veneza. Parto limpa a torcer peça por peça. Vou ao quintal. Estendo em corda bamba e outra vez, me estiro. A forma como o vento leva em gotas este silêncio das mangas não se repete.

***

 

 

 

Mergulho impossível

 

Tem um pouco de lava
Tem um pouco de gelo
lava endurecida
gelo derretido
e o silêncio das pedras reina
na encubadora das perguntas
sobre o início e o fim de tudo.

 

 

 

***

 

 

 

Poesia menor

 
Quando estou meio cheia
uso canudos em casa
Bolhinhas no fundo do copo
de requeijão

E a certeza íntima
E a dúvida exposta
Parte de mim, líquida
Outra, gasosa.

 

 

 

***

 

 

 

Dança ou Luta (girl power)

 

Eu já tenho o não antecedido
a indiscrição da inércia
o “privilégio” da derrota
o enunciado aceso que impõe o passo
e a verdade herege do tablado
que teima em tentar me controlar.

Mas eu também tenho
a possibilidade ainda que reprimida do sim
a força que desacata o fracasso
a vingança que corta a memória
o movimento entre o improviso
e o fandango que insisto, delicada e furiosa, em bailar.

 

Ellen Maria Vasconcellos. Natural de Santos, formada em Letras na USP, onde finaliza o mestrado em literatura contemporânea. Autora do livro de poemas Chacharitas & gambuzinos, publicado bilíngue (português e espanhol) pela Editora Patuá (2015). Tradutora do livro “Ângulo de guinada”, do autor Ben Lerner, publicado em ebook pela e-galáxia (2015). Tem seus textos publicados em diversas revistas e antologias no Brasil, Chile, Espanha e México. Toma fanta uva e café sem açúcar. Acredita em fantasmas e desconfia dos vivos. Enxerga muito bem, mas às vezes fecha os olhos. Não tem o coração de pedra.

 

 

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