Janela Poética V

Ronaldo Cagiano

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

 

MEMÓRIA

 

desço as escadas do velho porão
onde hibernam infâncias amputadas

não vejo destino para os aniversários
diante da nauseante mendicância
de afetos
que ainda decora
as paredes mofadas,
albergue de fantasmas.

entrincheirado no passado
extraviado do futuro
há um presente alienígena
que sussurra no mato que engoliu o jardim.

tempo de corrosão
e abstinências.

lá fora
o mundo invadido
pelo lodaçal de supérfluos
está perdido, arcaico e desigual
diante da estupidez inflamada
de pastores que vendem gato por lebre
nas praças esterilizadas pela cegueira
da fé demencial dos evangélicos.

a casa desabitada
não revela o mistério
de tanta distância construída

umidade e fungo
batizam cada percurso
de minha descompassada lembrança

mas a memória, abrigo de punhais na mente,
não cede à cortês diligência da morte
que tão cedo impregnou de silêncios
os cômodos, os lençóis, os brinquedos
a cerca de arame farpado
o varal sem rumor
de panos

entre tantos desencontros
desencantos
descaminhos
o bisturi de Freud
duelando com o criminoso silêncio de Deus
responde às minhas dúvidas

 

 

***

 

 

ESCRUTÍNIO

 

no fundo da alma
a memória não sossega:
rio invisível e insondável
mas sublevado
……………………..e dissidente

febre que arde
e ressuscita
nas carcaças do passado

feito um saci,
salta
da floresta opaca e fria
……………….da noite

A Iniludível me acena
sem cordialidade nem música
com a inflexível veemência da morte,
que derrota a fé ensimesmada dos homens
e não camufla a inércia imperdoável de deus

na epiderme do oceano de dúvidas
uns olhos cavalgam sem sair do lugar

é noite alta e fria

não sei se é você ou é o luar
que exuma meus fantasmas
e exorciza a babel de mentiras

sei apenas que
quando agoniza a madrugada
e migra a população de vagalumes
o sol irrompe feito um furúnculo
e tudo pulsa em meu olhar

é a urgência da vida
a me desatinar

é a certeza do amor
vencendo a retórica imperial
…………………………………………do tempo

 

 

***

 

 
CICLO

 

Enquanto o cortejo seguia
alheio aos gestos automáticos
das mãos que cerravam as portas

……..outros continuavam a vida
……..imunes à que passava,
……..despojada de sua última chama.

A cidade não seria diferente
porque amanhã
outras notícias viriam

e o rio no qual navegamos,

……..Tejo a repetir a lógica de Heráclito,

seguiria rotineiro
como o sangue em nossas veias,
entre urgências e desatinos metabólicos.

Entre o solene despedir dos mortos
e a maquinal dor dos vivos

………..a criança se demorava
………..num olhar pensativo e inquiridor
………..rumo ao insondável.

E percebia,
ainda na antevéspera de sua existência,
que viver é um lento aprendizado de extinção.

 

 

(Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília, onde formou-se em Direito, e reside em São Paulo. Publicou, dentre outros:  Palavra Engajada (Poesia, 1989),  Dezembro indigesto (contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006)  e O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF,  2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo  (LGE, Brasília, 2006))

 

 

 

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2 Comentários

  1. Sempre bons os poemas de Cagiano, fortes e contundentes!

  2. Parabéns Cagiano pelos poemas.

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