Jogo de Cena

UM BURACO DE FECHADURA PARA VER NELSON

Por Augusto Cavalcanti

 

Nelson Rodrigues / Foto: Agência Estado

 

Difícil encontrar alguém que não reconheça Nelson Rodrigues como influente. E polêmico. Não seria diferente, pois ele é certamente o mais destacado autor brasileiro no que diz respeito ao Teatro, à dramaturgia em geral. Com certeza, é o mais visto, considerando suas inúmeras adaptações, e que será lembrado pelo público em uma enquete, por exemplo.

Não sem mérito, sua rica dramaturgia da vivência nas ambientações burguesas, mitos e ritos intrínsecos à sociedade, situações enfrentadas na realidade dos costumes das famílias, a modernização e introdução do Trágico Épico ao cotidiano, histórias da burguesia beirando as vicissitudes da classe média, a sua virtude literária, a vibração do popular, tudo teve foco certo de provocação e crítica social.

Pai que tem desejo pela filha, irmã que jura no velório não concretizar a paixão pelo cunhado, viúvo que se casa com prostituta e vê o filho com tendências homossexuais se apaixonar pela esposa, irmãos que se entregam loucamente à paixão, essa mistura de desejos e reparos, vontade e ódio, são alguns exemplos de enredo da obra dele. O autor escreveu dezessete peças.

Logo, a necessidade do jornalista desvencilhou o autor do cronista que o permearia na maturidade, para além do palco, por boa parte da sétima arte, pois o cinema também bebeu na fonte Rodriguiana, e o que foi produzido por meio da obra dele resultou em mais de vinte filmes.

Da metade do século passado ao início deste, suas obras dominaram o cenário da vez, nas telas e nos palcos. Vestido de Noiva, Engraçadinha e as crônicas de A Vida como Ela É figuram facilmente no imaginário da população de todas as classes. A televisão foi grande viés para mantê-lo no topo da lista dessa época. Não sem mérito.

Nelson também pode ser aclamado por suas frases polêmicas e, ao mesmo tempo, brilhantes, ainda mais para alguém que não deveria imaginar o poder que o minimalismo dramático abrangeria na época do micro-blog. Em suas tiradas, muitas vezes ácidas e certeiras, ele é capaz de nos arrebatar com um mero desdém aos costumes vigentes da época, o que nos leva ao riso, ao ódio, ao palco, em uma pílula mínima da palavra.

Foi um observador sagaz das nuances intrínsecas da sociedade. Um realista com alma de menino, menino que vê o amor e o erotismo inerente ao real do ato de fazê-lo amar todos e tudo analisados através de um buraco de fechadura, na descrição dele sobre si mesmo: anjo pornográfico.

Falta-nos atualmente quem o faça tão bem, com tamanha discrição ao sórdido e verdadeiro, o ambíguo, esse anjo pornográfico, como observador que marca um gol no ato da fala.

Por essas e outras, Nelson está seguramente ao lado dos renomados dramaturgos do século XX, como um grande em tudo o que fez. Foi jornalista, cronista, contista, romancista e sempre um crítico fervoroso da vida cotidiana, dos desejos não revelados pela hipocrisia e, ao longo de sessenta e oito anos de vida, uma existência atribulada e dedicada ao relato da vida como ela foi, para ele, para os seus, sem meias palavras.

Talvez fosse muito cobrar dos dramaturgos contemporâneos uma visão tão marcante da perspectiva do humano como tinha Nelson Rodrigues. Como todos os mestres, será imbatível, pois é único. Não se pode formar a idiossincrasia estruturada de um estudante num ver sagaz de autor de gênio. Querer outro autor que não este formado pelo destino, o ícone de seu tempo, o detalhista da mise-en-scene da realidade. Escola nenhuma do mundo o conseguiria.

Da formação como redator, vendo e aprendendo o fazer jornalístico, aquilo que formou seu entender da raça estava nos romances clássicos, contudo permeados nas páginas policiais da realidade de seus tempos primevos na redação.

Já com treze anos, escrevia para jornal, observando com critério o real daquela existência por demais dramática, culminada com o trágico assassinato do irmão ilustrador, provavelmente bem próximo ao mesmo, na redação onde se convergiu a arbitrariedade do ser humano.

Histórias contrastadas com uma segunda paixão: o Fluminense e o futebol. Foi excelente e único também nas crônicas esportivas.

Nelson nasceu em Recife, em 23 de agosto de 1912, o quinto de quatorze irmãos. Mudou-se, ainda criança, para o Rio de Janeiro e foi na Zona Norte carioca que formou, na infância, a arguta capacidade de entender o redor como palco. Formou-se redator no jornal do pai e depois passou por diversas redações em sua vida. Apoiou a Ditadura Militar. Escreveu, com trinta e um anos de idade, Vestido de Noiva e, com trinta e oito, as crônicas de A Vida como Ela É. Faleceu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.

Nelson Rodrigues / Foto: Divulgação

Vestido de Noiva

Encenada pela primeira vez em 1943, Vestido de Noiva é um marco na dramaturgia brasileira. Segunda peça escrita por Nelson, que procurava, na época, uma renda complementar à função de jornalista. Sua primeira peça, A Mulher sem Pecado, estreada em 1942, fora um fracasso de público.

Podemos perceber, em Vestido de Noiva, todo o drama psicológico e a critica à hipocrisia social vigoradas pelo autor em sua obra.

É uma peça de teor psicológico cuja montagem é feita em três planos que se intercalam. Formam, ao todo, o plano da alucinação, da realidade e o da memória.

O enredo conta a história de Alaíde, personagem que representa a burguesia carioca. Ela morre vitimada por um atropelamento e, enquanto os médicos tentam salvá-la, entra em uma viagem interior através da qual vai rememorando e encontrando-se com pessoas do seu passado.

A peça tem como exemplo de liberdade e quebra ao regimento social a Madame Clessi, antiga prostituta do Rio de Janeiro.

Alaíde conquista e se casa com Pedro, namorado de sua irmã Lucia. Pedro e Lucia cometem o adultério, e, quando Alaíde morre, os dois se casam.

O inusitado da peça está em apresentar-nos esse argumento em uma estrutura não linear e aparentemente caótica. É, sem dúvida, um retrato do lado desumano da sociedade carioca do século XX.

Visto por um buraco de fechadura


Seria interessante ter a possibilidade de sentarmos à mesa e conversar com essa efeméride literária. Tentar perceber nos detalhes, entre um copo e outro, de onde brotavam as situações complexas criadas por ele. Não podemos descrever se o anjo deixaria mostrar-se. Num retrato, ele seria o ser que observa calado, um rosto marcado pela sabedoria, sem preconceitos expostos. Contudo, a função de arrebatar a alma do expectador do conformismo foi detalhadamente talhada em suas dezessete peças. E é com a visão vasta, dessas mesmas criaturas surgidas desse palco, que, cremos, ele gostaria de ser visto. E nós só temos que agradecer e aplaudir.

(Augusto Cavalcanti é poeta, escritor e dramaturgo. Formado em Cinema e Filosofia pela UFSCar, tem contos e poemas publicados na revista Olhar, no site Cronópios e em outros diversos websites de Literatura e Artes. Bloga em O Poeta e o Barco. Contato: acantizza@gmail.com)

 

 

 

 

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