Olhares

O relógio imponderável de Ozias Filho

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Ozias Filho

 

No coração do mundo, pulsam sentidos hesitantes. Sob o efeito das cores e formas, somos tomados por epifanias que nos relembram a perspectiva cíclica do tempo. Mas eis o tempo e seus matizes. Majestoso em seus domínios, este senhor, que governa os ímpetos dos instantes todos, lança seus dados ao léu, arregimentando preces múltiplas daqueles que intentam lutar contra os ardis da resignação. Como conceituar a palavra destino? O que nos conforta face o correr das horas impensadas? Algum paraíso nos espera repleto de dádivas compensadoras para apaziguar nossa ansiedade?

Quem sabe ao contemplarmos os registros da luz, tidos em Ozias Filho, possamos esboçar algumas mínimas reações em face de tamanhas indagações? Sim. Ao fotógrafo cabe a sutil percepção das coisas que flutuam entre os dias. Ele, por si só, não profetiza amanhãs. Pelo contrário, pestaneja como os demais mortais. No entanto, ousa sondar as esferas que dividem a rotina agastada dos homens e dela põe em evidência a delicada película que envolve a tudo.

O que busca Ozias Filho? O paraíso por entre as conturbadas paisagens humanas? Talvez. Mas o fato é que seus alvos de observação transcendem urbanidades, trincam as vitrines intocáveis aos olhos e duvidam das nossas zonas de conforto pretensamente civilizadas. A Pasárgada de Ozias é feita de concreto e de sonho, do jogo dos extremos, de uma ponta qualquer de infinitude e, acima de tudo, do testemunho de que a existência é uma dama cujo manto é exponencialmente sensível. Nela, as cidades são vias de acesso para a aclimação das dúvidas. Não se busca uma terra prometida ou se vislumbra a morada da perfeição. Apenas subsiste a constatação de que as horas desmontam qualquer ilusão vã.

Foto: Ozias Filho

Carioca de berço, Ozias Filho foi buscar noutras paragens, mais precisamente em Portugal, a edificação de uma nova morada. Em todos os sentidos, diga-se de passagem, pois lá desenvolveu suas feições de escritor, editor e fotógrafo. Do seu envolvimento com a literatura, nasceram as obras Poemas do dilúvio (2002), Páginas despidas (2005) e O relógio avariado de Deus (2011). Algumas de suas imagens foram publicadas em revistas brasileiras, portuguesas e alemãs. Recentemente, o fotógrafo criou imagens a partir de versos de Iacyr Anderson Freitas. A obra, intitulada Ar de Arestas (2013), promove um diálogo entre duas poéticas que se fundem, harmonizando linguagens corporais em torno de um ambiente onde densas travessias da alma governam os sentidos de nossa tenra existência.

Um olhar detido pelas fotografias de Ozias nos permite atestar que o resultado poético é o grande alvo das pretensões do artista. Se há um caminho através do qual os fluxos da vida assumem uma dimensão diferenciada, sem dúvida alguma é a poesia quem determina tal escolha. Desse modo, o fotógrafo ignora os limites circunstanciais do tempo e não volta suas atenções para a mensuração cronológica dos momentos. Pelo contrário, deixa-se levar por motivações de ordem interna, catando verbos ao vento e os unindo a um painel que sabe a fragmentos de valor inexorável.

 

Foto: Ozias Filho

* As fotografias de Ozias Filho são parte integrante da galeria e dos textos da 88ª Leva.

 

 

 

Clique para imprimir.

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *