Olhares

Indeléveis dimensões

Por Fabrício Brandão

 

Ana Pérola

 

A cada passo dado, as sandálias do caminhante desgastam-se num ciclo irreversível. É o tempo com suas investidas e artimanhas. No mesmo instante em que se olha para trás, os rastros deixados já não são mais os mesmos. Inexplicavelmente, nossa capacidade de perceber o exíguo prazo de duração de um estar no mundo é inversamente proporcional ao que podemos reter de fato. Assim, anda-se muito. Assim, fala-se em demasia. Assim, perde-se o essencial da viagem.

É possível a fuga do mundo quando ele nos apresenta a sua face mais cruel? Nem sempre. Muitos dirão haver saída nos incontáveis manuseios da abstração. Outros verão a tudo com certa resignação e tentarão ressignificar viciadas paisagens. Alguns mais darão um beijo de língua nessa divindade chamada caos. Seja qual for a alternativa elegida, em tudo haverá um pacto, o qual, silencioso ou não, adentrará dias e noites convidando corpos e almas a refastelarem-se no grosso caldo da incerteza.

De toda sorte, há combates entoando seus cantos por todas as frentes. Se guerreamos, consentimos em deixar partes nossas nos vãos devastados e tentamos conviver com o saldo dos vestígios. Se nos omitimos, duras revoluções implodem nosso ilustrado castelo de cartas falivelmente projetadas. Por tudo isso, a desordenação das coisas até pode assustar hordas de desavisados, mas haverá quem vislumbre nela a oportunidade de olhar a tudo como uma outra dimensão da existência.

Ana Pérola

Foto: Ana Pérola

O que dizer, então, quando nos deparamos com as fotografias de Ana Pérola Pacheco? Arriscar na resposta uma ideia de que o caos nosso de cada dia é um lugar de aproximações. Se o mundo afugenta por suas complexas questões indecifráveis, a artista estreita os laços com o seu tempo, seu espaço e, sobretudo, sua gente. É uma predileção que não ressalta escolhidos, mas sim alça os seres a um patamar de igualdade entre si.

Numa dinâmica de comunhão entre pessoas, lugares e esferas intangíveis, Ana desfila seus olhos ante o girar da vida. O resultado é uma delicada apresentação do real segundo uma ótica que não negligencia as hesitantes intervenções humanas. Afinal, somos um barro cujos moldes apontam para sabidas imperfeições.

Quando a constatação das visões da vida nos revela a pungência das adversidades, aí então notamos o caráter essencial da expressão de Ana Pérola: poder observar as tensões mundanas e retirar delas saídas poeticamente imagéticas. Tal perspectiva não vem acometida por uma necessidade de redenção ou purificação diante de um mundo declaradamente conturbado. O viés adotado pela fotógrafa também intenta uma leveza que seja capaz de minimizar a solidão dos homens, propondo-lhes caminhos de aproximação.

Ana Pérola

Foto: Ana Pérola

Nascida no Rio de Janeiro e vivendo atualmente em Florianópolis, Ana também se dedica à literatura, tendo publicado poemas e ensaios. Mantém o blog Sentidos e é colaboradora do site Poesia: Falsidade Ideológica.

De mãos dadas com a poesia, a fotógrafa promove suas imersões num mundo que, por vezes, todos julgamos conhecer. Mas será que o sabemos de fato em sua inteireza? Melhor confessar que não, pois a pretensão é superior à concretude de nossas constatações. Assim sendo, Ana crê num caminho que constrói perspectivas, valorizando um ambiente no qual nossas humanas idades representem menos turbilhão e mais serenidade. E no âmago dessa busca, ela mesma nos diz:

Há quentura na sombra
E há também frieza no vazio.
Os pés que te levam
É o meu retorno para o lado contrário
Nossa estação de passagem
Transborda fantasia
Aguça a alegria do sonho
Esquenta
E danço, como o fogo quando queima a lenha
Voo pr’um mundo que não sei, que não vi
Desafio-me no olho do desconhecido, vibro
Talvez eu ame algum dia. Talvez.
E até dê flores aos Amigos
Talvez eu me encoraje e abra a porta
Dê descarga, deixo ir a sobrecarga
Me banho na água do rio e vou
Correnteza. Ser oceano.

Ana Pérola

Foto: Ana Pérola

 

* As fotografias de Ana Pérola Pacheco fazem parte da galeria e dos textos da 102ª Leva

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