Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Por trás dos percursos de uma obra, abrigam-se motivações das mais diversas. Definitivamente, entendê-las não é a via mais importante a se seguir. Sentir parece ser o termo mais apropriado. Daí, a necessidade de converter os mecanismos da percepção em ferramentas possíveis a um mergulho para dentro de nós mesmos. Afinal, tudo principia nas paisagens que, embora episodicamente relutemos em reconhecer, são cada vez mais redescobertas daquilo que tornamos a visitar, quiçá uma fonte inalienável da existência, alimentada pelas travessias reais ou vividas em sonho. Onde a distinção entre criador e criatura? Quão tênue pode ser a linha que perpassa projeções e concretudes? Mais ainda, como negar a noção de unidade que assoma nossas trajetórias?

Estas e outras tantas indagações estão postas no caminho que compartilhamos com nossos iguais. E ao alçar voo por sobre as humanas idades, somos companheiros de sopro vital de um alguém como o escritor Vicente Franz Cecim. Nascido nas paragens amazônicas, mais precisamente em Belém, no Pará, Vicente tem na mítica e emblemática Andara a pedra fundamental de seu caminhar com as palavras. Com a habilidade de quem faz do olhar sensível sobre o existir um precioso aliado, o autor constrói uma obra cujo apelo filosófico é virtude das mais caras. Do mesmo modo em que o ambiente tido em Andara sugere vias especialmente oníricas, pautadas numa aproximação com a literatura fantástica, também estamos diante da manifestação cotidiana, e nada banal, do real entre nós, algo profundamente transmutado em poesia.

E foi com esta habilidade de nos apresentar trajetos movidos por uma perspectiva de amplitude do ser que Vicente ergueu sua obra. Ao pensarmos no conjunto de suas escrituras, deparamo-nos com o que o autor denomina de livros visíveis e invisíveis. Seu trilhar abarca, dentre outros, feitos como Viagem a Andara oO livro invisível, K O escuro da semente (Ver o Verso, Portugal, 2005), Ó Serdespanto (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2006) e oÓ: Desnutrir a pedra (Tessitura, Minas Gerais, 2008), além dos e-books Desnutrir a pedra (Tertúlia de eBooks, 2012) e Asa de murmúrios (Tertúlia de eBooks, 2012). Como cineasta, é criador dos filmes KinemAndara. No diálogo que agora segue, Vicente Franz Cecim fala um pouco sobre as perspectivas criadas a partir de Andara e de como a simbologia dessa Floresta Sagrada de Palavras está inserida em nós mais do que pensamos. A entrevista, feita por e-mail, possibilitou também o explicitar de todo um singular modo de expressão do escritor no que se refere à grafia, algo que potencializa saberes e sabores inerentes a sua jornada.

 

 

Vicente Franz Cecim / Foto: Bruno Cecim

 

 DA – Andara, ambiente metafórico da vida e que perpassa sua obra, é desejo de reinvenção de nossas existências?

VICENTE FRANZ CECIM – Sim. É a nossa Existência que através de Mim inventa Andara, para ser inventada por Andara. Isso é recíproco. Mas já perdi de vista, agora – Andara começou a se manifestar em 1979 e estamos em 2013 – qual das duas Faces é a do Espelho e qual a que está diante dEle. Ah, não percebo Andara como uma metáfora: percebo/isto é: recebo Andara como o Real. É a nossa existência que entendo como a metáfora de uma realidade que deseja o Real, ou Mais Real, que Andara busca e busca e busca.

DA – E o que dizer das linhas que derivam destes signos andarianos? Serão elas uma ode à redenção do humano?

VICENTE FRANZ CECIM – Ah, a Redenção do Humano. Isso é uma pergunta que abala todas as certezas, primeiro, para só depois pretender alguma resposta. A Redenção do Humano? De alguma forma, sim, Andara busca isso. Mas, às vezes, com muitas dúvidas que se ampliam em mais dúvidas sobre como, e por quais vias? É um labirinto de dúvidas que eu preciso percorrer, por onde passam, se entretecendo, a literatura e o humano. Antes de mais nada, Andara busca a redenção de si mesma – como uma Outra realidade: feita do tecido verbal e do tecido existencial dos seres e coisas que faz emergir através das Palavras. Quando parece, aqui e ali, tocar em algo, digamos, como que uma Graça, possivelmente redentor – então, dá um segundo passo: a partir desse ponto consistente quando achado, tenta avançar para fora das palavras e passar a caminhar já através do próprio humano. Não sei o que é mais difícil, se esse passo verbal ou o segundo, que vem depois dele, já em pleno humano. Porque, vê só: assim como Andara é verbal e não-verbal, existe e não existe – pois é um livro nãoescrito de onde brotam os livros escritos de Andara – também o homem e o mundo são existentes e nãoexistentes. E é justamente por isso – porque Andara e a Vida, a Literatura e o Homem são coisas tecidas de ser e nãoser – que, quem sabe, esteja de alguma forma autorizada a buscar redenções. Mas é possível se redimir de um sonho? E eu posso me redimir do próprio Sonho que, humano, sou?

DA – Diria que a memória presente em sua obra corre paralela ao que se vive em nosso mundo supostamente real? 

VICENTE FRANZ CECIM – Não, não se trata de um mundo supostamente real – mas de um mundo real como um sonho. Nesse sentido, Andara quis existir para nos lembrar disso, para evocar, permanentemente, essa Memória, este Saber: Mundo – tão real quanto um sonho, logo tão liberto de si mesmo como uma irRealidade da qual não se pode escapar.

Vicente Franz Cecim / Foto: Bruno Cecim

DA – Desde que tudo começou em A asa e a serpente, passando por K O escuro da semente e chegando a oÓ: Desnutrir a pedra, a busca pelo entendimento do Uno, tão apregoada no filósofo Plotino, atravessa intensamente seus caminhos de criador?

VICENTE FRANZ CECIM – Sobre isso só posso falar com as palavras que já disse outras vezes e que em cada Mil e Um Homens todos fingirão não entender, refugiados na Noite Espessa em que, no Medo ou Astúcia da espécie, se ocultam, o que no fundo todos já sabem. Sigamos sem muitas esperanças, então, a resposta: –  O homem é coisa que vive para dentro e para fora de Si. Para fora, ele é o Ente: o Espanto domado pela Civilização. Para dentro, ele É o Ser: o Puro Espanto de Ser, intocável. A Viagem a Andara caminha assim: desperta para essa vida em Ente e combatendo a Civilização como alienação de sermos, e se sonhando em miragens de sermos que nos libertem para Sermos plenamente, o que já somos, mas estamos encarcerados, vivendo como os Humilhados & Ofendidos de Dostoievski, mas em escala cósmica. E quer levar para além desse homem submetido – que se deixa submeter ou é submetido à força e por promessas políticas ilusórias das Forças Sociais Malignas, malinas como dizem as Crianças. Em Andara se dá a Alquimia Verbal da transformação do Humano em Umanoh, lançando para trás da palavra esse H inútil, vazio, aspirado para liberar o Um, o Uno: a abertura para o Ser. Mas aqueles que impelidos pelas Astúcias das Forças Sociais Malinas a viverem somente para fora a vida como Ente continuarão avançando na única direção que conhecem e lhes é consentida no Ocidente, onde se lê da esquerda para a direta: do calcanhar para a ponta dos dedos – e reencontrarão o H no fim da palavra. Que pena. Isso me entristece. Porque caminhar através da irRealidade, despertante, de Andara me mostrou que a direção oposta nos torna levar ao nosso Centro Real. E esse centro se atinge indo na direção inversa: da ponta dos dedos para o calcanhar, em demanda de um Real Total que nos transfigure. Pois o homem é, essencialmente, coisa que caminha Por Dentro. Se quiserem: Da direita para a esquerda. Liberando o Um de Tudo em si. – A Descoberta Fulgurante de Andara em sua Via Imaginal é a Irrealidade da Vida como  manifestação da Pura Irrealidade em Si – ou semSi – do que os homens intuem, advinham ou criam ou recebem como o que chamam > Deus. Mas isso não é coisa para temer:  gerou em Mim a Imensa Alegria. Porque significa, se entendido em um Clarão: libertação, significando: – Liberdade.

DA – A perspectiva de escrever invisivelmente nas páginas do livro da vida, abraçada a essa libertação a que você se refere, é uma total vontade de transcendência?

VICENTE FRANZ CECIM – Algo, ou eu mesmo, devo ter me feito essa pergunta no instante Clarão em que nasci – saltei aqui para fora, ou Dentro, como mais um ser de espanto. E a pergunta deve ter vindo me acompanhando até o dia em que, já aos 33 anos, escrevi a primeira página de A asa e a serpente, o primeiro livro de Viagem a Andara oO livro invisível. Até agora, + quase 34 anos depois, nada mudou. A primeira página com a resposta foi esta:

            Tu escreves um livro com tinta invisível.
            Por que fazes isso?

            Nós somos homens invisíveis
            Depois de nascidos, visíveis.
            Entre o início visível e o invisível final, nós somos os homens

visíveis.
            Aproveitemos para ver-nos

            E então ir escrevendo outros livros,
            nestes jardins, todas essas asas,
            para que um livro vá se fazendo.
            Mas não em si.
            Dele não se verá nem sombra das palavras no papel.
            Viagem a Andara.
            O não-livro. Não existe, não existe
            Literatura fantasma.
            Não foi escrito.
            Enquanto texto, tudo o que teremos dele é um título

Mas, Fabrício, há uma outra pergunta implicada nessa, e que não me fizeste – mas como eu a fiz a Mim, então te passo a página seguinte da abertura de A asa e a serpente, após a pergunta sobre por que escrever um livro invisível:

             E a pergunta seguinte é:
            E o que são livros, os livros que se escreve
            Livros de Andara.
           Livros-miragens. Pois uma vez escrita, da vida só resta a alucinação literária

          Situação dos livros de Andara: condenados à vi¬sibilidade para que Viagem a Andara, o livro invisível possa existir como pura ilusão.

            Andara, a viagem ela mesma, nunca será escrita diretamente.

           E ela está começando assim

 

DA – Chama atenção a presença de uma grafia toda própria quando menciona seus escritos, percursos em Andara. Nesse sentido, vislumbras uma espécie de ressignificação consciente da palavra?

VICENTE FRANZ CECIM – Bem, isso é mais simples do que parece. Quero dizer: é Simples como as coisas simples. Mas passa por estágios. O primeiro, essencial, é: um criador de literatura, de qualquer arte, ou é idêntico a sua impressão digital, único, ou é apenas um artesão. Esse é o estágio do Ser. O segundo é o estágio da Linguagem: a Vida toda é uma Linguagem que nos fala e se fala em nós próprios – todo esse Cosmos visível, um Livro – mas cada coisa, de cada espécie, fala a sua linguagem – mas aqui se dá algo curioso: para falar a partir de si próprio, e falar para todos, é preciso que cada um, dentro de sua espécie, fale uma linguagem tão sua quanto sua própria existência não pode ser a de outro. Aquele que fala a linguagem de todos certamente não fala para todos porque não fala solitariamente. Um terceiro estágio é um exemplo disso: a própria linguagem de Andara: senti que para falar como só a mim seja dado falar – e poder falar para todos – os tempos padronizados do verbo não eram suficientes: passado, presente, futuro – e precisei de um tempo-sem-tempo, que chamei de Tempo da Hipótese – esse é o tempo do Verbo em Andara, o tempo do fosse, seja, estaria – o tempo do talvez, do quem sabe, que acabou se tornando o tempo do Fosse Uma Vez. E de onde veio essa minha necessidade? Da descoberta, evidente, de que o tempo mais profundamente falso na literatura é o tempo do É – na Literatura nada é – por isso mesmo a Literatura pode ser tudo: ela é o menos real para ser o mais real. Entre o percebível Real e o concebível Imaginário, aí se manifesta a Literatura em sua Verdade. Além disso, devo acrescentar que, nesse Tempo da Hipótese, Andara foi me revelando a diferença entre palavras que se referem a coisas passageiras e palavras que dizem de coisas Permanentes: são as coisas como Entes, entidades, diferentes das coisas como coisas. Basta dar aqui um exemplo para ser entendido, acho. Quando em Andara escrevo: a noite, falo do fenômeno que é a noite. Quando em Andara escrevo: a Noite – surge o Ente que é a Noite origem e significado de todas as noites. Assim também: o homem/o Homem, uma árvore/aquela Árvore, a voz/a Voz – podendo às vezes se dar transmutações instantâneas, de uma mesma coisa, quando percebo numa cintilação, nela, sua dimensão de entidade, como em: o vento: o Vento. Mas os livros visíveis de Andara, os que escrevo e vão brotando de Viagem a Andara oO livro invisível, que não escrevo, é que dizem em si mesmo tudo o que eu apenas esbocei dizer.

 

Vicente Franz Cecim / Fotoaquarela: Bruno Cecim

 

 DA – Em sua trajetória, há também a presença de uma íntima relação com o cinema, sobretudo nos filmes produzidos ao longo dos anos. Que reflexão você faz desses percursos com a imagem? A vontade de produzir permanece viva?

VICENTE FRANZ CECIM – Uma vez conversei com o cineasta Carlos Diegues aqui na Amazônia, conversa longa, de amigos. E apontei uma árvore e disse a ele: – O que eu queria mesmo era trazer aquela árvore exatamente como ela é, viva, para dentro dos meus livros. E ele me respondeu: – Pois eu queria era poder trazer a árvore que tu inventas com palavras para dentro dos meus filmes. A resposta essencial a tua pergunta sobre por que faço, também, os filmes KinemAndara, Fabrício, está toda nesse diálogo. Tentemos entender isso que nos dissemos: são duas impotências: na Literatura, posso criar a árvore que eu quiser – e em Andara as árvores falam, caminham, contam histórias para os homens, sobem até as estrelas – mas não posso ter a árvore viva, no Cinema, posso ter a árvore como ela se mostra viva, mas ela, para se manter a árvore viva que percebemos, mesmo só como imagem, não contará histórias, caminhará, subirá até as estrelas. Por muitos motivos, mas esse é o principal – escrevo e filmo.

 

DA – Houve um período em que você encontrou ambiente mais favorável para publicação em Portugal, tanto que alguns de seus livros foram editados por lá. Naqueles tempos, você enfrentou, de fato, dificuldades para publicar no Brasil? Como estão as coisas agora? Um novo livro já estaria em curso aqui?

VICENTE FRANZ CECIM – Melhor, agora, assumir o tom de uma crônica, áspera e um tanto melancólica, para descrever esses já quase 34 anos de resistências, desistências e persistência de Andara, desde deu seu primeiro passo em 1979. Os principais livros visíveis de Andara saíram primeiro no Brasil, pela Iluminuras – Viagem a Andara, em 1988, reunindo os 7 primeiros livros, que recebeu o Grande Prêmio da Crítica da Apca – Associação Paulista de Críticos de Arte, antes dado apenas a Cora Coralina, Mário Quintana, Hilda Hilst e, depois de mim, a Manoel de Barros, porque só é atribuído se houver unanimidade dos críticos votantes – e Silencioso como o Paraíso, em 1994, reunindo os 4 seguintes, que Leo Gilson Ribeiro considerou ‘um dos mais perfeitos livros publicados no Brasil nos últimos dez anos’ e muitos outros elogiaram tanto quanto o primeiro volume. Devo revelar isso para que fique muito claro: o impasse do chamado mercado editorial brasileiro não é criado por questões de qualidade literária – é expressamente comercial. Então, após esses dois volumes, foi o exílio nacional de Andara. Não gosto de procurar editoras com meus originais e desisti de vez ao ouvir do meu próprio editor, um amigo e leitor lúcido, Samuel Leon, que ‘os leitores brasileiros ainda não estão preparados para Andara’, quando apresentei à editora Ó Serdespanto, em 1988, reunindo mais quatro novos livros de Viagem a Andara oO livro invisível. Só em 2000 o livro saiu em Portugal, pela Íman, e mais de dez críticos portugueses, consultados pelo jornal Público, o apontaram como o segundo melhor lançamento do ano – o que devo, pelo mesmo motivo acima – questões de qualidade literária – também revelar aqui. Mas nem isso foi suficiente para abalar a indiferença do exílio editorial brasileiro. Um novo inédito de Andara saiu em Portugal em 2005, pela Ver o Verso: K  O escuro da semente. Mais de dez anos após a última publicação de um livro meu no Brasil. Com dois volumes publicados no Brasil e dois em Portugal, comecei a me sentir um escritor tão brasileiro quanto Guimarães Rosa e tão português quanto Fernando Pessoa. Seria cômico, se não fosse doloroso – mas nem uma coisa nem outra, porque sempre me senti um escritor da Amazônia, da Floresta Sagrada – meu essencial país. Então, num espasmo que simulou uma redenção, enfim Ó Serdespanto saiu aqui pela Bertrand Brasil, em 2006. Mas O escuro da semente – e embora a editora tenha assinado comigo nessa época dois contratos de edição, dele e de uma reedição de Silencioso como o Paraíso – jamais foi editado – nem foi feita a reedição – e ninguém conhece O escuro no Brasil até hoje. Guardo os contratos não cumpridos como fantasmas num sótão, assombrações do Mercado Editorial. Enfim, continuei gerando novos livros de Andara. Para o que? Para nada? – Ficar jogando pedras no escuro? Enfim, o último deles saiu aqui pela Tessituras, de Minas Gerais, em 2008: oÓ: Desnutrir a pedra. Quanto ao exílio de Andara – continua. E há cinco anos não é impresso nenhum dos novos livros visíveis.

DA – E a alternativa dos e-books, o que acha do livro virtual?

VICENTE FRANZ CECIM – O livro virtual – que em breve deverá ser também devorado pelo sempre faminto Mercado Editorial – é uma radicalização do Exílio de Andara, que agora estou assumindo: editei em e-book, com algumas mutações, Desnutrir a pedra e o mais novo visível de Andara: Asa de murmúrios, pela Tertúlia de E-books – mas atenção: é uma editora de Portugal. Quem sabe, se não há um Lugar físico para os livros visíveis de Andara, não seja mesmo o livro virtual o nãoLugar de Viagem a Andara oO livro invisível?

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

VICENTE FRANZ CECIM – Essas divisões do chamado tempo histórico, ah – não me interessam – apenas como curiosos arquivamentos, são um Museu de Miragens dos passos passados da Humanidade que quer nos induzir ao sentimento, coletivo, de que estamos em evolução e que tudo vai bem – sua função, implícita e consoladora, é prometer que os chamados tempos melhores virão, sempre estarão vindo. E que tudo, no fundo, apesar das aparências, está bem. Elias Canetti escreveu um livro impressionante, Massa e Poder, onde você pode ver como em todos as épocas os homens avançaram brutalmente e seus passos têm sido à deriva e cruéis – como quem avança através das Trevas.  Eu vivo no Tempo da Natureza. Porque viagem do homem no Cosmos é uma só, Una, sem divisões em pré e pós. Através da História o homem avança e recua por labirintos de caminhos que em Andara chamo de: o Vários. Mas é no Um que passa, em nós e na Vida, o Caminho – assim, com maiúscula – em sua dimensão de Entidade, diferente desses caminhos nas névoas que também os seres neblina de Andara percorrem em Sua busca. Eu reduzi tudo a uma palavra-imagem: oO – e eu pequeno – eu – e o Eu grande – o semNome. Eu vivo é no O Um Vários.

DA – Em que medida o caminhar em Andara transformou o homem Vicente Franz Cecim?

VICENTE FRANZ CECIM – Na medida em que eu quase nem sou mais Vicente Franz Cecim. Andara tem uma meta: – Atravessar o que nos nega, chegar ao Sim. Atravessando Andara, fui aos poucos me tornando Sonhos de Escritura de mim mesmo. E, a cada novo passo na Viagem a Andara oO livro invisível, vou penetrando mais e mais, no Menos, gosto cada vez mais das páginas em branco, sem nem Sombras de palavras no papel, região dos Silêncios. É a busca – do que me busca? oO. Enfim, sou mais um serneblina de Andara: nascido, como todos, um ser de espanto, meu sonho é ser o próprio Serdespanto. Quando me vejo de costas num espelho, sinto melancolia. Nostalgia da promessa de Asas não cumprida nas omoplatas humanas. aVe

 

 

 

***

 

 

Vozes de Andara I – Muro branco das idades

 

 

 

 

 

***

 

 

K  O escuro da semente / Um fragmento

……(…)

……E seria nessa noite e sob aquele céu de asas negras brancas
que ele, Oniro, fosse se levantando da terra onde caído,

……e então diria:

……– Vê, Orino,
……isso: Isso, que eu agora entendi: essas asas, negras, brancas,
……seus Círculos brancos negros
……não existem. Eles são só uma invenção desse Vicente que nos
escreve,
……só que elas ele escrevendo com asas de palavras,
……e nós ainda inventando com palavras de carne,
……ah as pesadas as humanas, e nelas uns ossos vazios por onde
ele sopra os seus sonhos
……– Não existem, mas existem. Como te dizer isso?
……Escuta.
……E vem comigo

……– É que esse Vicente,
……vindo de um vale onde nasceu, é lá embaixo da vida,
……o que ele quer o que mais quer é ascender, alado, e, leve,
abandonar o Vários por maior Amizade ao Um.
……Pois já não houve um outro, um tal K que
……Diz-se
……antes dele já ascendeu deixando aqui embaixo o Alfabeto
Humano?
……Ou essa é só mais uma das suas histórias
……Esses livros que ele escreve
……Então, todos os seus livros sendo atravessados por asas,
……para ele um lugar não lugar Andara e todos os lugares sendo
para ele uma grande Asa, com a qual ele sonhando isso do Visível ao
Invisível,
……ele faz essa viagem, e já bem longa.
……Isso de andar sem ir ficando indo fosse
……Pois em Andara, tudo está no Vale, embaixo,
……e quer ir para a Montanha, lá no alto.
……Tudo

……– Vê, Orino,
……sendo fantasmas de Andara,
……nessa Neblina
……nós também podendo viajar por Andara inteira, indo através
dos livros que esse Vicente escreve,
……como estamos indo agora através das páginas deste livro que
ele escreve,

……e estão, vem comigo, façamos isso

……– Mas tu, não, dizendo Oniro ao omem de areia. Não vá se
desfazer nos grãos das palavras desse Vicente o que ainda resta do
teu Grão de Ser

……Vem,
……e vê Orino.
……Como parecem se elevar tão altos os seus livros
……À Sombra deles, ah suas sombras assim tão longas e íntimas
das sombras longe lá do horizonte
……as nossas sombrazinhas de Neblina humana

……A asa e a serpente.
……Lês, o título?
……Dos livros assim visíveis de Andara
……este é o primeiro. E vês o que eu te disse? A serpente: o Vale,
a asa: a Montanha. E tudo terminando por uma chuva de asas e
serpentes sobre a terra,
……sobre os homens
……Vem, vê. Entremos também neste
……É Os animais da terra. Aqui, repara,
……aparentemente tudo se dá só no Vale, mas não é o que
acontece, porque o sonho da Montanha vês ele
……nos vôos de Caminá? A mulher alada
……Este outro é Os jardins e a noite. O Vale está nos olhos que
antes um homem tinha para não ver nada, nada sob o sol, e a
Montanha nasce da Noite em que uma ave, a imensa,
……o Curau,
……desce do céu e tira os olhos desse homem
……e ele então começa a ver, é bem longe, e também dentro de si,
a vida
……Este é Terra da sombra e do não.
……Entremos
……Nele, uma criança atravessa o Vale: a vida, levada por dois
outros fantasmas como nós, um querendo ser leve, o outro, pesando
sobre a terra,
……e no final surgem umas borboletas, vês: elas, lá? Umas
cintilações no ar, que voando diante da criança a levam até a
Montanha, que é um montinho de nada de terra onde um morto
dorme e não dorme pois não sabemos se ele ainda está lá ou já se
ergueu de si
……Este é Diante de ti só verás o Atlântico.
……Nele, o Vale será submerso

……(…)

 

 

***

 

 

KinemAndara – PERMANÊNCIA (1976)

 

 

 

 

 

 

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