Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

“Eres la fórmula perfecta
que el tiempo formó para mis manos.”
May Rivas

A poesia atravessa, não se sabe ao certo desde quando, um processo descontínuo de rejeição e acolhimento. Rejeição, por um lado, de um grande público, e acolhimento, por outro, de uma leva de escritores que algumas vezes não têm um verdadeiro compromisso com a palavra – objetivo maior. A produção literária, em especial a poesia, requer um ciclo de estações imprecisas, com tempos longos, por vezes intempestivos, para que o sumo necessário à existência da obra seja esgotado e colhido.

Por isso, quando nos deparamos com uma poeta de carreira sólida, construída com base num pacto com a leitura e a escrita, somos, inquestionavelmente, levados a notá-la, ao menos, com maior atenção.

Uma dessas poetas de tempos trabalhados é a peruana May Rivas de la Vega, que tive o presente de conhecer no XX Encontro Nacional e Internacional de Mulheres Poetas em Cereté, na Colômbia. Desde o princípio, não apenas pela sua poesia precisa e madura, mas pelas suas ideias equilibradas, May Rivas despertou meu interesse. Com uma postura poética decidida, arejada por imagens corpóreas, seu trabalho com as palavras revela o movimento da vida em direção ao embate amoroso e à consagração ao enigma “natureza”, condensando uma poesia de sombras luminosas. E é a mulher – a mulher May e todas as outras – que sublima reinos e fomenta a saga lírica, feminina, humana e universal quem habita os poemas da escritora.

Gestora cultural, editora, poeta da geração de 80 e feminista, May Rivas tem seguido um percurso de força na literatura, com vasto e feliz currículo. Formada em literatura e também em ciências políticas, trabalha pela promoção do Livro e da Leitura. Participou de diversos programas e eventos literários, além de publicações em revistas, e como jurada de concursos. É autora de Con ojos propios, de 1996, pela Magdala Editora, e Si Dios fuera mujer, de 2006, pela AzulVioleta Editores. É frequentemente convidada para vários eventos literários pelo mundo.

Faz sua estreia na Diversos Afins, contando-nos um pouco de sua trajetória poética, suas inclinações literárias e posicionamentos ideológicos e políticos como gestora cultural, ativista da leitura e feminista que é, num mundo no qual as mulheres ainda precisam de leis para conseguir outros espaços.

May Rivas / Foto: Alberto Schroth

CLARISSA MACEDO – Assinalando uma experiente jornada na matéria poética, seu livro mais recente, Camino de Regreso, marca uma carreira literária de mais de 20 anos. A poesia, no entanto, geralmente indica uma origem que precede quaisquer datas. Por isso, May Rivas, conte aos leitores brasileiros quando, melhor, como a poesia apareceu na sua vida chegando mesmo a determinar sua atuação profissional.

MAY RIVAS – Pois sim, são muitos anos de carreira literária. Sempre penso que é a poesia quem escolhe seus adeptos. Em meu caso, poderia dizer que começou com as leituras em voz alta que minha mãe me presenteava desde muito pequena e a bem nutrida biblioteca que meu pai deixava ao meu alcance. Porém, minha escrita poética começa em meu primeiro ano de universidade, aos 16 anos. Primeiro vieram as publicações em revistas universitárias, logo revistas literárias, para dar lugar, posteriormente, aos poemários próprios e antologias nacionais, assim como de outros países. Através dela é que de alguma maneira se conduziu minha atuação profissional, não somente no aspecto laboral, mas na forma como percebo o entorno. Desde sempre, tenho trabalhado como gestora cultural, conduzindo a gestão no campo literário em todos os seus aspectos, desde a criação, passando pela edição, até a indústria do livro e da leitura. Com a firme convicção que o consumo da leitura alimenta uma parte importante do ser humano: a alma. Assim mesmo, se converte em sanadora de quem a escreve e de quem a lê.

CLARISSA MACEDO – Partindo desse alimentar da alma de que você fala, e de sua íntima convivência com a literatura, qual o significado disso para você?

MAY RIVAS – É a porta para o conhecimento não apenas das pessoas que participam de sua criação e do processo pelo qual passa um livro para chegar ao leitor e leitora, mas também de quem se relaciona com ela. Através da literatura, encontramos a liberdade e a integração com o outro. Também poderíamos dizer que a literatura cumpre uma função de terapia, de cura. E como disse o escritor Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura: “A literatura é uma forma de insurreição permanente e ela não admite as camisas de força”.

CLARISSA MACEDO – Lendo seus poemários, percebemos algumas nuances insistentes: o próprio tema da liberdade, através de uma espécie de “grito de livre-arbítrio”, os caminhos traçados ao longo da vida, o elo materno, o desconforto do estar no mundo e, ao mesmo tempo, a necessidade de sê-lo; há um grande tema, ou grandes temas, em sua poesia? Se sim, quais são eles?

MAY RIVAS – O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher independente é um eixo bastante presente em minha poesia, contudo, não é o único. Como sabemos, o que escrevemos é totalmente autobiográfico, somente em uma porcentagem, portanto, é o que percebo também em outras mulheres. Por outro lado, o escritor ou escritora é um testemunho de sua época. Ao sermos testemunhas de um momento determinado em um mundo como o que nos rodeia, dificilmente estaremos em conformidade com o que vemos, sentimos, etc. Portanto, há desconformidade. De outro modo, a literatura é insurreição pura.

CLARISSA MACEDO – “O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher” é, certamente, uma tônica bastante abordada na literatura. Embora nem sempre tenha sido assim e isto seja uma das molas propulsoras desse ciclo. Nesse aspecto, há algo que, me parece, a inquieta: a situação da mulher, não só na literatura, mas na política e em todos os setores da sociedade. Como você vê este processo nesses últimos anos e como está sendo no Peru?

MAY RIVAS – É um tema bastante abordado na literatura e, efetivamente, é um assunto que me interessa em sua totalidade como feminista que sou. Em meu país estas reivindicações têm tomado corpo, com idas e vindas. Entretanto, o constante trabalho organizado dos grupos feministas tem logrado uma certa autonomia da mulher em diferentes campos da sociedade. Isto não quer dizer que o trabalho tenha culminado, pelo contrário. Por exemplo, faz uns poucos anos, temos um Ministério da mulher, que, de acordo com diferentes governos, se dá maior ou menor importância; também há uma maior presença de mulheres no campo político, o que originou a lei de cotas que estabelece uma porcentagem mínima de mulheres em altos cargos do Estado. Porém, neste momento não vem sendo cumprida pelo governo, mas se está trabalhando para reforçá-la. Sem dúvida, é fundamental que se siga trabalhando em cima da mudança de mentalidade, sobretudo das mulheres: a consciência de gênero e equidade em todos os âmbitos.

May Rivas / Foto: Alberto Schroth

CLARISSA MACEDO – Pensando nas suas respostas anteriores e nesse envolvimento declarado com o feminismo, é possível dizer que sua poesia seria de alguma maneira comprometida com tais questões?

MAY RIVAS – A poesia, assim como a literatura, não tem que estar circunscrita ou a serviço de um movimento ou ideologia política.

CLARISSA MACEDO – Vinda de uma escola literária, digamos, moderna, como você vê a poesia contemporânea, que está permeada pelo fascínio da velocidade e do alcance das redes sociais?

MAY RIVAS – Pessoalmente, gosto, já que também se pode dialogar com outras disciplinas. As redes sociais facilitam a difusão e conhecimento do que acontece, desde o ponto de vista da literatura, em outros lugares, e chega a muito mais pessoas de maneira mais direta.

CLARISSA MACEDO – Partindo desse ponto, há um espaço genuíno para a poesia hoje?

MAY RIVAS – Sim. Todavia, há que se seguir fomentando o consumo da poesia, que, dentro da literatura, é um dos gêneros que menos se consome.

CLARISSA MACEDO – Diversos poetas partilham dessa opinião: a poesia como um dos gêneros que menos se consome. A que se atribuiria isso?

MAY RIVAS – Diria que não só vários poetas compartilham deste ponto de vista, mas também editores. Aventuro-me a dizer que a razão poderia ser que não é um gênero que se saiba ensinar adequadamente nas escolas e/ou que não aproxima a poesia dos meninos e meninas nos primeiros anos.

CLARISSA MACEDO – Em sua carreira como escritora, é notória a participação que você desempenha em encontros literários em várias partes do mundo, como Cuba e Colômbia. Em que medida estas experiências enriquecem a matéria poética?

MAY RIVAS – Enriquecem muito, porque se aprecia olhares diferentes sobre o que se escreve e de como se é percebido por outros públicos, assim como escritoras e escritores de outras latitudes, com uma carga diferente da nossa.

CLARISSA MACEDO – E daqui pra frente, quais são os planos de May Rivas como escritora?

MAY RIVAS – Terminar o terceiro poemário que estou escrevendo, e, claro, os que estão por vir. Não sou uma pessoa que tenha pressa em publicar, mas bem, sou das que frequentemente demoram nas publicações. Por outro lado, e de maneira paralela, continuar com o trabalho de editora e gestora cultural focada em projetos que tenham a ver diretamente com a criação, o livro e a promoção da leitura, este último como um compromisso.

Clarissa Macedo (Salvador – BA). É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. Está presente em diversas coletâneas. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Edita o blog Essa coisa que é o eu.

 

 

 

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2 Comentários

  1. Adorei a entrevista, Clarissa! É necessário ouvirmos discursos múltiplos para formarmos esse mosaico de consciências dentro de nós! As questões pertinentes às mulheres ainda nos são comuns, enfim! Vamos continuar tecendo essa rede de encontros! O trabalho e a concepção da autora são muito ricos! Obrigada, beijos: Leila, Fabrício e Clarissa!

  2. Amei!Mais uma autora para a minha estante de “a conhecer”. Notícias de um hermano sul-americano (Peru), de uma poeta de posicionamento firmes e uma consciência de equidade e de gênero. Muito bom!

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