Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Márcio Vasconcelos

Há um marco especial fundado nas possibilidades de quem se dedica à fotografia documental: harmonizar, a um só tempo, as ações humanas aos cenários de suas epifanias particulares. No entanto, isso não é o bastante quando quem registra sabe, como ninguém, encontrar o ponto ideal no qual os objetos retratados adquirem novos sentidos. É então que o fotógrafo, utilizando-se da capacidade de perceber as nada óbvias perspectivas encerradas no mundo que o cerca, ousa transpor a tênue cortina que envolve os dias.

No caso do maranhense Márcio Vasconcelos, tudo o que foi dito acima se coaduna bem, principalmente por estarmos diante de uma trajetória que devota olhares diferenciados aos homens e seus lugares. Adepto inconteste da via documental, Márcio conduz com maestria suas sensíveis visões em torno das porções humanas. Aliada a tal característica, resiste incólume a observação atenta ao que podemos chamar de memória dos lugares. Dessa junção entre tais elementos, surge um estilo de captação da realidade algo singular, pautado, sobretudo, numa precisa e delicada percepção das paisagens visitadas. Dono de um trabalho independente, o fotógrafo acumula valiosas incursões pelas searas da cultura popular nordestina, em especial as manifestações oriundas dos afrodescendentes do Maranhão. Merece destaque seu ensaio “Na Trilha do Cangaço – O Sertão que Lampião Pisou”, conjunto de registros que percorrem os rastros memoriais deixados pela emblemática figura do rei do cangaço. E para falar um pouco sobre tais caminhos trilhados por sua precisa retina e outros temas ligados à fotografia, Márcio Vasconcelos acolheu a Diversos Afins numa iluminada conversa.

Foto: Márcio Vasconcelos

DA – Seu trabalho é marcado intensamente pelos caminhos da fotografia documental. Mais do que retratar lugares, pessoas e situações, acredita que esse tipo de registro promove, de certo modo, uma intervenção na realidade?

MÁRCIO VASCONCELOS – De 2008 para cá, tenho me dedicado intensamente a um trabalho mais autoral. É muito bom ter uma ideia, pesquisar, conversar com pessoas ligadas ao tema e cair em campo para produzir, sentir-se o autor ou co-autor do começo ao fim. Quando estou no processo de imersão, não tenho a preocupação de saber se este projeto vai mudar uma situação ou uma realidade, apenas quero fazer da maneira mais profunda e sincera, ser honesto comigo e com os personagens daquela história. Quero fazer a minha versão daquilo que vi e senti. Agora, é muito gratificante quando vejo que, depois de pronto, o resultado mexe e emociona as pessoas que o experimentam.

DA – Num viés antropológico, o fotógrafo documental adentra o universo do outro, estabelecendo com ele uma espécie de pacto. Como é que você percebe a questão do distanciamento, sobretudo do ponto de vista da preservação das diferenças culturais, entre quem registra e aquele que é objeto das lentes?

MÁRCIO VASCONCELOS – Com relação ao processo documental , quando estamos invadindo espaços e momentos de muita particularidade, creio que o respeito, a discrição e a ética são os elementos de maior importância. Na maioria das vezes, somos intrusos e, assim sendo, precisamos demonstrar as reais intenções de nossa aproximação, o objetivo do projeto e a relevância daquele assunto para nós e para a sociedade. O trabalho só deve ter continuidade quando percebemos que estamos sendo aceitos e que a permissão nos foi dada. Neste momento forma-se realmente um pacto, no qual a confiança, como fio condutor, jamais poderá ser quebrada. Temos que estar muito atentos ao espaço físico e espiritual que conquistamos e de forma alguma ultrapassá-lo. A confiança mútua é a joia maior que podemos adquirir.

“Esse branco pode voltar aqui quantas vezes quiser para fazer o seu trabalho, pois confiamos nele”. Estas são palavras de uma mãe africana do Benin, depois de receber umas fotos de seus filhos, enviadas por mim desde o Brasil, em mãos de um antropólogo beninense amigo. Palavras como desta mãe é que gratificam nossos trabalhos.

DA – Muito do seu olhar está direcionado de modo especial à cultura popular brasileira. Que país você vislumbra quando está imerso em tais registros?

MÁRCIO VASCONCELOS – A cultura popular brasileira não teria a força que tem se não fosse a forte influência das nações africanas. Percebe-se que todas as danças brasileiras, que adotam os mais variados tipos de tambores como marcação rítmica, foram trazidas ou derivadas de manifestações do continente africano. Uma das minhas maiores alegrias como fotógrafo foi ter a oportunidade de viajar ao Benin, na África Ocidental, quando da realização do projeto “Zeladores de Voduns do Benin ao Maranhão”. Desenvolvendo o projeto ali, no meio das danças, dos sons, da energia daquele povo, tinha a verdadeira sensação que estava num dos quilombos do Maranhão. Foi muito mágico e inesquecível.

DA“Na Trilha do Cangaço” é, sem dúvida alguma, um de seus trabalhos mais marcantes, sobretudo pelo aspecto da pesquisa histórica. De que modo você estruturou seu roteiro de andanças em torno do tema?

MÁRCIO VASCONCELOS – A proposta do Projeto era resgatar e refazer os caminhos percorridos por Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dadá, e seus bandos, através da elaboração de uma trilha que ligasse locais que foram simbólicos na história do cangaço pelos sertões nordestinos. Desta forma, a trilha deveria começar no Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada, local do nascimento de Virgulino Ferreira da Silva, e terminar na Grota de Angico, na beira do Rio São Francisco, em Sergipe, onde Lampião foi morto pela volante do Tenente João Bezerra.

Além do aspecto físico desse sertão revisitado, o Projeto procurou também identificar, localizar e fotografar personagens que fazem parte dessa história, ou descendentes destes, e que ainda se encontram vivos para contar “causos” e atestar a veracidade do mito Lampião e Maria Bonita.

Passei por momentos de extrema emoção, principalmente quando deparava com lugares simbólicos ou personagens que foram testemunhas e que ainda se encontram lúcidos apesar da idade avançada.

Mantive horas de prosa com Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro, de 97 anos, e que se encontrava na Grota do Angico no momento da emboscada que matou Lampião, Maria Bonita e outros nove companheiros. Candeeiro conseguiu fugir, mesmo baleado no braço, e é o último cangaceiro ainda vivo deste grupo. Mora no povoado Guanumbi em Buique, Pernambuco.

Na cidade de Olho d’Água do Casado, Alagoas, cheguei de surpresa na casa de Elias Matos Alencar e este se encontrava no terraço, numa cadeira de balanço, como que a me esperar. Elias, hoje com 98 anos, pertencia à volante chefiada pelo tenente João Bezerra e narrou com muita precisão toda a cena de ataque que vitimou Lampião e seu grupo.

Em Serra Talhada, Pernambuco, passei dois dias arranchado no sítio Passagem das Pedras e, em noite de lua cheia, dormi numa rede contemplando a casinha simples de taipa de dona Jacosa, avó materna de Lampião, que ali nasceu e brincou na infância.

Para finalizar a trilha, escolhi o local que considero mais simbólico em toda a história do cangaço, a Grota do Angico, às margens do Rio São Francisco, no lado de Sergipe. Acompanhado de Hugo, meu guia, segui no final da tarde por setecentos metros, na mesma trilha percorrida pela volante do tenente João Bezerra, até chegar ao local da chacina. Acendi onze velas pelas almas dos cangaceiros ali sacrificados, fiquei em silêncio por vários minutos até a chegada da luz ideal para efetuar o último disparo, dessa vez não de morte, mas pela celebração à vida.

Foto: Márcio Vasconcelos

DA – Sua experiência nesse percurso pelo sertão nordestino evoca uma sensação de que a oralidade foi transposta para as imagens. O que mais lhe chamou atenção nesse processo?

MÁRCIO VASCONCELOS – O mais impressionante em todo este processo que vivenciei naquela região do sertão nordestino foi perceber que tudo ali ainda é muito vivo na memória do povo. Eu chegava sempre nos lugares sem a preocupação de ter marcado antecipadamente os encontros, as entrevistas, as fotografias, e tudo acontecia exatamente ao contrário. Parecia que eles estavam a me esperar, as informações iam fluindo com muita facilidade e eu acabava encontrando os personagens sentados em cadeiras de macarrão plástico na porta de suas casas, por exemplo, como se o encontro tivesse sido marcado.

Um episódio muito marcante foi encontrar um senhor indo para a roça de bicicleta, já no cair da tarde, no povoado Malhada da Caiçara, na Bahia. Achei aquela figura muito interessante e fiz sinal para que parasse. Começamos a conversar sobre o ofício que faria àquela hora do dia e, depois de certo tempo, solicitei gentilmente a permissão para fazer uma foto dele, no que fui prontamente atendido. Depois de um papo gostoso, nos despedimos e ele, sem que eu perguntasse algo sobre o cangaço, começou a falar que era primo de Maria Bonita e que seu pai fora namorado dela. Como a noite já vinha chegando, esta seria a melhor revelação pra fechar aquele dia. Tinha ganhado um verdadeiro presente daquele senhor, chamado Seu Borges. Ele seguiu pra roça e eu voltei para a minha trilha.

DA – Arriscaria dizer que seu ofício é um manifesto à preservação da memória?

MÁRCIO VASCONCELOS – Trabalho com afinco e seriedade. Isso, no futuro, só a memória dirá.

DA – Suas origens remontam ao Maranhão, estado que agrega um rico cenário de apreensões do imaginário popular. Veio daí a motivação maior para trilhar o caminho documental?  

MÁRCIO VASCONCELOS – Além da minha origem nordestina e da riqueza cultural do Maranhão, senti que já estava com um trabalho maduro para seguir um caminho mais independente, mais autoral. Quero, cada vez mais, ser o idealizador de um tema, me aprofundar nas pesquisas, fazer uma leitura própria e transformar isto em imagens.

DA – Suas incursões pelo Brasil permitem-no constatar que, no tocante à preservação de nossa memória histórica, ainda estamos longe do ideal?

MÁRCIO VASCONCELOS – O Brasil é de uma riqueza cultural enorme, e, realmente, muito pouco para a preservação da memória de parte desse acervo tem sido feito. Somente no Maranhão, por exemplo, poderíamos trabalhar anos seguidos e não conseguiríamos registrar metade desse tesouro.

DA – Afora os evidentes aspectos tecnológicos, o que você considera como sendo a principal mudança trazida pela fotografia digital?

MÁRCIO VASCONCELOS – No começo, senti uma grande resistência para fazer a troca do analógico para o digital, pois a diferença de qualidade era gritante. Hoje, vejo que o processo de pensar o ato fotográfico continua o mesmo, apenas a captura é que mudou. Em alguns trabalhos documentais, como em comunidades quilombolas, por exemplo, o processo digital ajuda muito, pois podemos mostrar as fotos imediatamente aos personagens e isto contribui para a troca de confiança.

DA – Está em curso algum novo projeto documental seu?

MÁRCIO VASCONCELOS – A minha cabeça está sempre a fervilhar e a vontade de produzir é incontrolável. Atualmente, estou desenvolvendo três projetos ao mesmo tempo:

“Terecô – a magia dos tambores da Mata Codoense”, aprovado no edital da Secretaria de Cultura do Maranhão, resultará numa exposição sobre uma vertente do Tambor de Mina, em uma região específica do Maranhão.

“A Estética do Terreiro – materialidade e agencialidade nos terreiros de Pajés do Maranhão”, este projeto em parceria com a antropóloga Ana Stela Cunha, tem patrocínio do Banco do Nordeste e será apresentado num livreto e numa exposição no Brasil e nas cidades portuguesas Lisboa e Guimarães.

“Incorporados”, projeto que mostra o processo de montagem de travestis, drags e transformistas. Este trabalho, mesmo antes de concluído, já ganhou uma Menção Honrosa no Concurso Iberoamericano de Fotografias, promovido pela Embaixada da Espanha na Bolívia, e fará parte da exposição a ser montada no Centro Cultural da Espanha, em La Paz, no mês de abril.

Outro projeto que se encontra em processo de sondagem e pesquisa é sobre Monges e Mosteiros do Brasil.

DA- Afinal, por que fotografar?

MÁRCIO VASCONCELOS – A fotografia passou a ser a extensão do meu corpo, da minha mente, da minha alma. Fotografo a todo instante, até enquanto durmo. Às vezes, até uso uma câmera para fotografar.

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2 Comentários

  1. Bela entrevista, Fabrício. Não há coisa mais essencial, para um entrevistado, do que um entrevistador que sabe do que está falando, como – sempre – é o seu caso.

  2. Parabéns pela entrevista com o fotografo Marcio Vasconcelos, que a Diversos Afins da a conhecer tanto atraves das palavras quanto das imagens.
    A reflexao suscitada pelas perguntas da DA é tao poética e instigante quanto as fotografias.
    As imagens que aparecem no site do fotografo sao de uma beleza, de uma emoçao tais que permitem esperar que elas passem a mais gente a força épica dessa cultura popular, nem sempre retratada com a mesma sensibilidade de Marcio Vasconcelos.
    Fiquei sem saber se “Na trilha do cangaço” foi editado em livro, se foi uma exposiçao, se fizeram catalogo…

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