Fernanda Pacheco

prazer, você
dentro de mim mora o infinito
e dos olhos pra fora,
um íntimo enquadramento
do desconhecido,
da ilusão condicionada
e consumida pelo hábito do absoluto
que desobedece minha imaginação,
tão genuína e desabitada.
isso me acostumou a ignorar os detalhes,
fez do meu corpo aliado do tempo,
calou meus sentidos
me colocou os olhos de outro
que nunca me reconheceu
e eu solucei por isso:
por ter me reconhecido
como se eu tivesse nascido postumamente.
***
marcha da cronocracia
as árvores de raízes velhas
marcham na pista molhada.
as velhas cobrem o rosto,
viram as costas pra puta calada.
a intransigência disputa espaço
com o bafo do inevitável disparate,
do desassossego que me aponta o dedo,
que me crava a alma no ponteiro.
cada moleque de pé no chão
já me afronta com a rouquidão de um reencarnado
enquanto eu deformo meus dedos
com golpes de ansiedade.
por mais que viver seja um alento em hipótese
o regresso do mundo cão é evidente:
agora parou um homem cego
me pedindo em nome de deus uma aguardente,
implorando por um sono que dure pra sempre.
***
Em nome do santo
Meu desejo é a falência do tempo,
A cristalização do escorrimento da vida,
O estancamento dos passos dados absortos no fim,
A conformidade com as injustiças do tédio.
Multiplicam o silêncio em troca de conhecimento
E alcançam o fundo do poço num grito errante
Que não satisfeito com a agonia de ser sozinho
Cava ainda mais fundo com as mãos o prelúdio da morte.
Não há crítica que perfure tal desolamento.
A dor deixa de se superar para virar rotina
E o que ultrapassa a retina cansada
É o reflexo de uma luz incompleta.
Imagino a solidão como a finitude do mar
Num dia frio de abandono da vida
Deitada na fronte encolhida
Aguardando a eternidade do ponto final.
***
sem título
de copo
em corpo
amo
e sofro.
***
A culpa é do Chet Baker
Seu rosto é todo neblina.
Apaga esse cigarro.
Deixa que eu me apago
Sozinha.
Agora vê se destoa de mim
E não me encare à toa.
Que embaraço essa coisa
de ter que amar como quem adivinha.
Fernanda Pacheco é professora, tem vinte anos, mora em São Paulo e é formada em História. Seu primeiro livro de poemas, “A culpa é do Chet Baker”, será lançado pela Editora Patuá em fevereiro. Admira a crueza, o desequilíbrio e o improviso da poesia. Sua primeira publicação saiu pela revista Mallarmargens.
Uma resposta em “Janela Poética IV”
Bela coleção de póemas, mais admirável ainda por sua pouca idade, Fernanda. Posso falar de cadeira: estudei poesia portuguesa e inglesa, al´me da brasileira. Para b~ens!!!!
maria lindgren, velha e prosadora apenas