
Caminhar com o tempo, e não ao largo dele. Sentir o vento investir em nossos rostos suas rajadas sem rumo. Entender tudo o que nos cerca com um sentimento de dinamismo e alguma ponta de mistério. Entre passados inalteráveis e futuros projetados, melhor ficarmos com o que agora explode diante de nossos olhos vacilantes. Fora do presente, tudo são instantes em suspensão, emoldurados no coágulo de eras internas. O tempo que nos rege é inquilino assaz de nossos silêncios, um sorrateiro habitante das entranhas que nos são caras e indomáveis. O novo, falseando a mutabilidade das coisas, usa máscaras para sair às ruas. Acaso existirá o ainda não-dito? Sempre fomos os mesmos por mais sedutoras que possam parecer as transformações mundanas? Perguntar ou responder mais? E quanto ao exercício das escutas, o que fazer? Ao passo que nos achamos pretensamente munidos de certezas, percebemos o quão frágil é nossa espinha dorsal. Subliminarmente e em doses terapêuticas, vamos provando o gosto indefinido de tudo aquilo que não temos domínio aparente. Será o invisível que nos impele? Ante tamanhas indagações, é preferível viver em suspensão, supondo ritmos próprios e não profetizando auroras. Assim, testemunhando o curso imprevisível da existência, compartilhamos da mesma substância que impregna a arte do fotógrafo Ozias Filho, cujas imagens curvam-se diante do ritual indomável das horas. Nessa mesma trajetória de mistérios, as janelas poéticas de Tadeu Renato, Ana Peluso, Caco Pontes e Vagner Muniz convergem em densidade. Revivendo uma porção fundamental do legado do cineasta Eduardo Coutinho, a jornalista Claudia Rangel fala sobre o documentário Jogo de Cena. Numa aproximação com a ótica de Jorge Luis Borges, o escritor Anderson Fonseca caminha filosoficamente pelas complexas apreensões do nome de Deus. A entrevista com a escritora Ana Peluso traça painéis em torno do intricado mundo das palavras. Cenários difusos de vida compõem as estruturas narrativas dos contos de Isabela Penov, Alberto Pucheu e Sérgio Tavares. O poeta Gustavo Felicíssimo discorre sobre a crônica em consonância com a obra de José Saramago. Os olhos apaixonadamente cinéfilos de Larissa Mendes voltam suas atenções para a odisseia familiar do longa Nebraska. Somos todos ouvidos ao mais novo álbum da banda mineira Graveola e o Lixo Polifônico. Assim, o contar do tempo nos fala de 88 Levas vividas. E, a cada edição que surge, permanece a sensação de que olhamos tudo como se fosse a primeira vez. Que você, caro leitor, também possa desfrutar de tal perspectiva!
Os Leveiros
Uma resposta em “Ciceroneando”
Parabéns aos leveiros por mais esta belíssima edição. Sou fã de Diversos Afins! Parabéns a todos.