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72ª Leva - 10/2012 Galeria

Foto: Mercedes Lorenzo

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72ª Leva - 10/2012 Galeria

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71ª Leva - 09/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Pintura: Sylvana Lobo

Imprimir ritmo ao tempo, extraindo dele a noção de liquidez necessária às palavras e imagens elaboradas pelo olhar. Eis um ponto de convergência impulsionador dos percursos da arte como um todo. Pensar assim é fazer com que o substrato das coisas sirva de norte para as criações como um todo. Aquele que escreve, por exemplo, leva a cabo um processo particular de buscas tanto pessoais quanto coletivas. Diante disso, a questão é pensar sobre a importância de se fazer convergir tais universos, colocando em eventos paralelos a perspectiva da alteridade. Indo mais a fundo, é atraente imaginar que a arte evoca um desafio permanente de externar os papéis do ser e do não-ser. Nossa ambiguidade sugere uma inquietação permanente frente a tais estados de atuação no mundo, mobilizando-nos ao nível de um sadio inconformismo. Então, como pensar um motor que move o pensamento artístico sem sentir correndo nas veias a fluidez do estranhamento? De certo, parece impossível conviver com a criação apenas no aspecto da estética ou de uma mera representação do real. Mesmo o gosto pelos mistérios que nos atravessam não serve como pretexto para uma profusão de elaborações sem sentido. É como nos diz nosso entrevistado da vez, o poeta José Geraldo Neres: como inventarmos a roda sem beber na tradição? Nesta conversa, o escritor pontua aspectos que fazem parte de uma concepção bastante especial do ato de criar, qual seja o fato de entender a obra que está por nascer como sendo um grande deserto a se cruzar, sabendo-se a todo instante passível à queda. Aqui, um ato de cair que pode significar um mergulho noutra dimensão útil da consciência. Há, por sinal, incursões dessa natureza nos versos de autores como Mariana Ianelli, Jorge Elias Neto, Ian Lucena, Bruno Gaudêncio, José Carlos Souza, Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo. Entre as linhas tecidas pelas mais distintas expressões de agora, temos o arremate sensível da pintura de Sylvana Lobo a integrar os espaços. E quem nos guia pelos olhares em torno da artista plástica é Renata Azambuja. Seguindo em frente, o lado existencialista das palavras impera nos contos de Marcia Barbieri, Fábio de Souza e Frederico Latrão. O escritor W. J. Solha prenuncia o novo, e ainda inédito, “O Autor da Novela”, romance do paraibano Tarcísio Pereira. Nosso gramofone reproduz a qualidade do novo disco do saxofonista Leo Gandelman. A paixão de Larissa Mendes pela sétima arte traz à tona reflexões sobre o longa francês “Intocáveis”. No terreno da arte, caro leitor, há sempre muito por trilhar. A 71ª Leva mantém aceso o desejo desse pacto.

 

Os Leveiros

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Pintura: Sylvana Lobo

 

Impassível

Ian Lucena

 

quando deixei de ser
hipócrita algumas ampulhetas
foram embora
à busca das ampolas da memória

quando deixei de
morrer afora
a clepsidra da mágoa
trouxe tudo de volta
às águas da minha vida inócua

 

 

 

***

 

 

Chuva

 

numa noite movimentada
os fios de prata – tecidos – deslizam
atrapalham as vistas das mentes
pequenas
noutras noites os pingos
grossos metalizam a fina umidade
e se tornam tempestade às mentes
criadoras

apenas num dia árido
muito árido
como aqueles que nem é possível sonhar
a chuva acaba
e a minha visão aguçada
perdura

 

 

(Ian Lucena, natural de Cascavel – PR, é poeta, empresário e universitário do curso de Economia)

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Pintura: Sylvana Lobo

AOS EDITORES, UM NOVO AUTOR E SEU BELO LIVRO

Por W. J. Solha

Dois dias depois de me dizer que não lera meu poema longo Marco do Mundo porque uma virose que lhe afetava os olhos o atormentava, deixando-me muito preocupado, Esdras do Nascimento me passou e-mail falando da entrevista que eu dera aqui para o Fabrício Brandão, no Diversos Afins, e, mais:

– Gostei muito e me interessei por um romance que você elogia muito, nela, O Autor da Novela, de Tarcísio Pereira, que permanece inédito. Você poderia conseguir os originais para mim?

Tarcísio Pereira é um profícuo dramaturgo, romancista de excelente nível e ganhara a Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte com esse livro. Residente, como eu, em João Pessoa, é oriundo de Pombal, no alto sertão daqui da Paraíba, cidade onde vivi oito anos como funcionário do BB. Ele se entusiasmou com o prêmio, e imaginava, por causa dele, ser procurado por grandes editoras afins de publicá-lo, mas botei seus pés no chão:

– Olha, Tarcísio: para mim, pelo menos, a Bolsa não me rendeu nada além do dinheiro que me permitiu uma deslumbrante viagem pra Londres e o pagamento de uma edição do Relato de Prócula pela A Girafa. Quem sabe meu nome – depois de editar pela Record, Bertrand Brasil, Ática, Moderna, Codecri e Itatiaia – esteja em alguma lista negra e pra você, desconhecido delas, a reação seja diferente.

Não foi. Daí que pensei duas vezes, olhando para o e-mail do Esdras, e concluí que deveria fazer a ponte entre ele e Tarcísio. Sua opinião – se favorável – poderia, quem sabe, abrir caminho pro amigo em dificuldade. Fiz isso e, dois dias depois, Tarcísio me manda uma cópia da mensagem que recebera do grande autor de A Rainha do Calçadão, romance para o qual, aliás, eu fizera alentada e entusiasmada resenha para o mesmo Diversos Afins:

Em 19/06/2012 16:06, esdrasn@uol.com.br escreveu:

OI,
Acabo de ler seu romance.
Excelente.
Há muito tempo eu não lia texto tão
bom, tão bem estruturado, tão divertido,
com personagens admiravelmente bem criados.
Parabéns.
Vindo ao Rio, me telefone para um chope. 22851682.
Espero já estar recuperado da paralisia facial que vem
me aporrinhando há dois meses, para que possamos conversar
à vontade.
Semana que vem lhe mando “A dança dos desejos, Opus 13”,
publicado pela A Girafa.
Li a resenha do Solha sobre “O autor”. Muito boa.
Vc deve conhecer o romance do Vargas Llosa sobre
tema idêntico.
O que achou?
Um abraço.
Esdras

Well, I… welll, I…. não veio  nenhuma promessa de intervenção para publicação da obra, mas esse e-mail pode ser lido por algum bom editor, agora, que adquira os direitos do achado.

O que é O Autor da Novela?

É um romance que literalmente li – como se diz – de uma sentada só. Faltavam cinco para as onze da noite quando cheguei à última das 170 páginas em A4, que devem dar cerca de 210 em livro. Tive a alegria de telefonar pro Tarcísio às oito da manhã seguinte, pra lhe dizer que gostara muito do livro. Muito mesmo. E que me surpreendera ver quanto o nosso escritor crescera como romancista, de Agonia na Tumba – que já é muito bom – pra cá.

O Autor da Novela tem uma desenvoltura, uma fluência impressionante, por servir-se do expediente das novelas radiofônicas – como a Maria de Todos, criada e dirigida por seu personagem principal – que é a de terminar cada capítulo curto deixando o ouvinte (e o leitor) com a velha pergunta “e depois?, e depois? ”, num macete – salientado pelo próprio Tarcísio, no livro – que já vem da Sheerazade de As Mil e Uma Noites.  Para minha felicidade, o romance não só sacia, como sempre supera essas expectativas. Para isso, conta com uma série de personagens dignas de Dias Gomes (que inclusive aparece na narrativa), e várias situações novelescas, todas criativas como o diabo.

A história se passa por volta de 1970, quando a televisão chega a Pombal e  à região circunvizinha, onde tudo acontece. Eu estava lá, por sinal, e trabalhei para isso – como presidente do Conselho de Desenvolvimento do Município – sem saber que estava – rs rs rs – lascando o personagem de Tarcísio. Explico: sem se imaginar às vésperas desse evento marcante na vida sertaneja, Diá – O Autor da Novela – evolui de seus trabalhos na difusora do lugarejo onde mora, aproveitando-se de sua experiência de escrevinhador de cordéis desde a infância, para passar a produzir em prosa, na forma de novela de rádio, nos moldes da extremamente popular O Direito de Nascer, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que marcara sua infância. As repercussões de sua criação, bem local, na audiência da cidadezinha e arredores, são todas inteligentemente, humoristicamente exploradas por Tarcísio. E é aí, quando tudo vai bem, no melhor dos mundos possíveis, que o prefeito instala a tal TV na praça central do município, esvaziando toda a audiência do radialista que já se tornara celebridade. Por sinal, em 2002, quando eu trabalhava no filme Lua Cambará, vi, num lugarzinho assim, 70 km ao sul de Fortaleza, uma televisão acoplada a um poste, numa praça cheia de gente assistindo à novela das oito. O efeito dessa novidade no nosso herói fez com que ele me lembrasse Chaplin revoltado com o advento do som no cinema.

Meu grande medo era Tarcísio não sustentar o ritmo contagiante até o fim. Mas ele se sai notavelmente bem também nisso, de modo que a Paraíba já pode se orgulhar de mais uma obra literária à altura de seu invejável currículo.

Bem.

Conclusão. Não vou mais atormentar o Esdras a ponto de fazê-lo constranger-se ante o fato de não querer me dizer que não tolerou meu poema longo. Ele é apaixonado. Quando gosta de uma obra, gosta. Quando não gosta, não gosta mesmo. Nunca me incluiu em sua reiterada lista dos melhores romancistas brasileiros, mas chegou a dar uma oficina sobre meu Relato de Prócula, no Rio, o que me pareceu muito.

Que o livro do Tarcísio Pereira decole.

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)