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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

DANOS

Bruno Gaudêncio

 

quantas
asas
oram
nas covas
gastas?

?quantas
horas
vagas
cavam
nas curvas
postas?

?quantas
flores
mortas
ardem
em voltas
sem chegar
a lugar
algum?

 

 

***

 

 

RETINA

 

O olho do poema
permanece fechado,
fluente em seu acaso,
buscando o caos.

O olho do poema
escreve o seu atraso,
no teatro tenso
das luzes do mau.

O olho do poema
voa falso
(aos monstros da fala).

O olho do poema
come a razão
(com sua fome de nada)…

 

(Bruno Gaudêncio nasceu em Campina Grande, Paraíba. É escritor, jornalista e historiador. Publicou: O Ofício de Engordar as Sombras (Poesia, Sal da Terra, 2009) e Cântico Voraz do Precipício (Contos, Via Litteratum, 2011). Membro fundador dos Núcleos Literários Blecaute e Caixa Baixa na Paraíba. Membro do Conselho Estadual de Cultura do Estado da Paraíba. Possui poemas publicados nas seguintes revistas e sites culturais: Correio das Artes (PB), Revista Blecaute (PB), Verbo 21 (BA), Palavrarte (RJ), Revista Macondo (SP), Germina Literatura e Artes (SP) e Samizdat (POR). Atualmente Coeditor da Revista de Literatura Blecaute. Os poemas fazem parte do seu segundo livro de poesia, intitulado Acaso Caos, a ser publicado no início de 2013)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

AFAGO

Fábio de Souza

 

Ele ressonava, de modo que pude surpreendê-lo com o afago delicado na nuca suada. Parecia ser sempre assim: quando ansiávamos algo, vinha a tal necessidade do corpo do outro, como se daí fosse provável extrair não o calor, ou a aspereza da pele, mas um pouco da nossa própria subsistência, do afeto que nos garantiria um pouco mais de tempo, sim, essa urgência toda a nos impelir ao toque. Da janela, todas as tardes, era possível sentir o dia inflamar-se de um calor que segregava essas horas insondáveis à beira do sono, quando tudo o que tínhamos era que aguardar que esses corpos aí arrancassem um do outro um certo gozo sofrível, quase às raias da inanição. Para então desabarmos, como se ruísse a carne. Nessas horas me esquecia de quem eu era, se homem ou mulher, para experimentar daquele ranço à beira do sono. Ali mesmo. E desconfiava se de mim não se esvaia a vida, sem que eu sequer a sentisse. Beijei-lhe a fronte, então. Um gesto providencial, como se a reafirmar minha própria existência ao seu lado. E notei que ele ainda dormia. Num timbre aveludado, quase um sopro a afetar-lhe naquela iminência insuspeita, tão imerso que ia: “vamos, acorde”, eu disse…

 

 

***

 

 

ESTRANGEIRO

 

No pesadelo da noite anterior eu morria nessas paragens. Velho e só, feito agora. Uma tarde igual a essa, quente e de brisa nenhuma, o ar como que estagnado. Um mal que me acometia num desses repentes. Me levava até a última memória. E lá ficava eu, oco por dentro, minguando sob aquele deserto todo, azul e ofuscante, qual esse que já me assola o juízo. Piso o cimento, ensaio palavras numa língua que mal sinto o gosto. Tarde de domingo, acho. Caminho a passos omissos. A estação rodoviária deserta. Penso se chegaria ao fim de tudo. Esqueço o propósito de minha viagem até ali. Deixo de buscar o endereço horas depois, mais ou menos quando me perdi. Mais ou menos nesse instante, quando resolvi entregar os pontos e ceder. Sim, mais ou menos aí, quando eu já não tinha mais forças para exigir coisa alguma de minha vida àquela altura. De modo que sentei. O banco de pedra de meu pesadelo. E esperei, sobre o dorso das horas. Esperei que algo me ocorresse. Uma puta dor no peito…

 

(Fábio de Souza é escritor. Nasceu em Cuiabá, MT, em 1987. É colaborador dos coletivos literários “Dona Zica tá braba” e “Filacantos”. Reside atualmente em Brasília)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

Boana 

José Carlos Souza

 

existe uma cor
que desambienta a paixão.

na varanda
o sol se desdobra
arranhando os vãos das telhas
despencando em lanças de luz.

mofo e fuligem
no interior
das veias.

amanhã
a vida
terá outro nome.

 

 

***

 

 

sonhando manhãs

 

nos varais da sorte
há um riso
que amarro entre os dentes.
palavras não deixam rastros
entre a voz e o soluço.
passarinhos no ar
arquitetando ninhos
sequestram o luar.

permaneço sentado no vazio
sonhando manhãs.

 

(Algumas pistas: Sou baiano de Santo Antonio de Jesus, vivo entre a poesia e a música e teimo em acreditar no valor da amizade. Contato: aldebara743@gmail.com)


 

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71ª Leva - 09/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LEO GANDELMAN – VIP VOP

 

 

 

Entre aquilo que efetivamente somos e o que pensamos ser, há um hiato por vezes imperceptível. Coisas se agigantam e somem diante de nossas mais firmes certezas e arremates. Cenários se revezam de forma frenética, transpondo o pano de fundo de tantas investidas e revelando que o fio delicado da existência atravessa toda sorte de pretensões. Caminhando um pouco mais por sobre a passagem do tempo, talvez consigamos perceber que o jogo dos extremos flerta a todo instante com nossas hesitações. E assim, sabendo-nos duais por natureza, firmamos o pacto de sermos som e silêncio na medida em que a vida e seus imperativos pedem passagem.

Quando a arte assinala lembranças em torno dessa ciranda de signos em que estamos envoltos, muitos horizontes podem se descortinar. E gente disposta a tecer representações dessa natureza não é algo tão raro. Exemplo vistoso disso é quando nos permitimos ouvir VIP VOP, o mais novo trabalho do saxofonista Leo Gandelman.  A começar pelo título, o músico já deixa clara a sua intenção de provocar nossa atenção rumo a uma jornada que sabe ao instigante e complexo universo das porções humanas.

Enquanto a porção VIP (Very Important Person) remonta a uma espécie de Olimpo do ser/estar, sua correspondente antagônica, VOP (Very Ordinary Person), por sua vez, firma os pés no chão sem aniquilar as asas de Ícaro. Da combinação desses dois termos, prevalece muito mais uma noção de complementaridade do que uma mera oposição de sentimentos. E sermos, ao mesmo tempo, especiais e comuns é condição necessária para que a lucidez não afaste o sonho, ou vice-versa.

O fato é que o norte escolhido por Leo Gandelman aponta veredas sublimes em torno dos contrastes que moldam nosso barro. O disco de então prima por um traço bem digno de um vigor poético, trazendo à tona todo um percurso apoiado em gêneros como a Bossa Nova, o Samba e o Jazz. Nesse ambiente de fusões rítmicas, cada faixa deixa exalar o quanto de pesquisa musical habita a vasta carreira do artista. A condução dos arranjos e a disposição do repertório são pontos precisos do álbum, tecendo um painel de sensações que se apoiam em recortes valiosos de nossa brasilidade.

Do mosaico de imagens sonoras percebido no disco, chama atenção a intensidade de composições como Sinal Vermelho, Nego Tá Sabendo, Vip Vop e Numa Boa. Do mesmo modo, uma aura de delicada beleza toma conta das escutas em torno de Luz Azul, Neshama (Para o Meu Pai) e Alma Cubana. O time de músicos, composto por David Feldman (piano), Alberto Continentino (baixo) e Renato Massa (bateria), é virtuoso e reforça de modo especial o caráter de permanência da obra.

Com 10 discos solo na bagagem e uma trajetória de projeção nacional e internacional, Leo Gandelman consolida em VIP VOP uma maturidade musical deveras importante. O artista visita cenários de nossa rica sonoridade sem apontar para a tão desgastada noção da releitura. O resultado é um mergulho autêntico por sobre aquilo que está entranhado de modo valioso em nossa cultura. Ao penetrar cada espaço materializado na alameda instrumental do álbum, cotejamos o equilíbrio do ser como forma de sabermo-nos parte de um lugar que nunca estará cheio nem tampouco vazio. Bom mesmo é saber que o lado sublime das coisas afugenta excessos.

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

CASULANIMUS

Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo

 

descortinamos a sombra avulsa que mastiga o sol     faminta por entre os monturos
da tarde     surge nas vértebras do tempo uma nuvem de abismos
estática da agonia que não se comunica com seus vultos abandonados
feixe de evasivas     o pavor diante da pilha de cenários vazios     a cidade
regurgitando a própria memória como último recurso para evitar a asfixia     mas
o cansaço reveste os corpos de desamparo     e as esculturas perambulam pelas
galerias sem ninguém
no chão o ruído de madeira reclama as tiras das frestas que atam as cenas
germinando lentas     diáfanas     tendo que relutar
contra o espaço desabitado dos cenários      recolhem o movimento imperceptível
dos sentimentos
nos fios das travessias     emaranhados como um casulo na curva da clavícula
tecemos nossa ausência com as fibras das garoas finas
caída nas costas do crepúsculo     são corpos que mudam de lugar    cruzam as
artérias de um mundo desolado
enlutam os cabides gastos pela melancolia     escrevem os nomes trocados para
confundir a dor
há muito que reúnem as estações para pequenos tragos na madrugada     quando
revivem as imagens desfeitas     e destacam passagens incongruentes da
narrativa de suas vidas incomuns
sedimentando desvios nos fósseis da ressonância urbana
as pernas sonâmbulas dos sonhos no branco do teto deixam marcas longas e
frágeis de nervos de folha desgastada de verão    devoram as cicatrizes
rudimentares de umas poucas utopias que rastejam por monturos     cartazes
aniquilados     detritos surpresos     orquestração de misérias
fomos descortinando a pele dos desgastes     tateavas um palimpsesto aqui     eu
mascava uma imagem putrefata ali     a memória não alcançava o dia seguinte
perdemos a história
já não sabemos em que tempo conjugar os verbos

 

 

***

 

MASCARALVO

 

a noite e o problema confinado     jogo de despistar o solitário
noite de sexo sem a coroa de estrelas     não te conhecem as cigarras     o bafo quente
…..das sombras macias
somente as silhuetas dirimidas no breu     dissolvidas as cores do dia na saliva da boca

para dizer que tudo se esvai     mas permanece este delírio
arrancar a ilusão do duro das paredes
buscar as amarras     o equilíbrio das gotas de chuva no limiar do arame     na ponta
…..dos espinhos
minto carnavais e feriados     noite de sexo sem a purpurina vermelha     sem a pérola
…..branca
o estranho gosto do amor na boca amanhecida com atraso
lençóis rachados como os lábios do deserto de teu olhar   contrariar a roupa ao vesti-
…..la
gemidos entranhados entre a meia e o sapato     não te vás     não me sigas
o sol se retrai indeciso sobre o disfarce que usará
a janela se espreguiça com um gato decalcado em suas vértebras
o mundo não vai a parte alguma     nem sei ao certo quem és
rumino as penumbras dos gestos e algo quebra a casca fina da manhã gelada     onde
…..as primeiras luzes surgem indiferentes     inventam o cotidiano no gargalo dos
…..recintos
imperturbável na hora do despertar
nascem os corredores de reflexos     matizes promissoras e lembranças viajantes que
…..vagueiam no vasto do dia que vem sem ti
e precisamente onde não estás recupero o que houve de melhor entre nós
e o faço entornando a jarra de felicidade com que sei que nada voltará a se dar

 

(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os livros mais recentes, se encontram Autobiografia de um truque” (2010) e Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))

(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

CINCO ESTRELAS

Frederico Latrão

 

Com a disciplina de um artesão, levantou junto ao sol e preparou o café da maneira mais tradicional possível: água quente no bule, mas não fervida, e jogada diretamente nos grãos torrados e recém-moídos colocados em filtro de pano. Logo a cozinha e a casa se preencheram do mais intenso perfume. Com uma xícara fumegante em uma bandeja, voltou ao seu quarto pisando devagar, desviando dos calçados e das roupas jogadas no chão durante a madrugada. Ela, em meio aos lençóis revoltos e ainda com os pensamentos amarrotados, se senta na cama, olha para a cena e toma a xícara tímida, retirando os cabelos do rosto e segurando as lágrimas pela emoção de estar sendo tratada como nunca havia sido antes.

Ela odeia café.

***

DEMISSÃO

As coisas pessoais que guardava em seu antigo escritório estavam todas dispostas em apenas uma caixa. Não queria levar muita coisa dali. Nada de lembranças. Elas, para ele, são meras bagagens esquecidas por aqueles que passaram pela sua administração. Também nada de levar os troféus ganhos pelos bons serviços prestados. Eles ficarão dispostos nas prateleiras para que sirvam de recado para aquele que chegará em seu lugar, um aviso singelo de que terá muito trabalho pela frente. Assim, pegou sua pequena caixa e saiu. Ao abrir a porta, viu todos os antigos subalternos dispostos em um corredor, batendo palmas. Muitas palmas. Mal se escutava a sua voz dizendo obrigado. Muitos choravam de emoção. Já o ex-chefe, seguia agradecendo e sem nem ao menos mudar a expressão.

Ao sair de vez do inferno, todos os demônios se perguntavam quem ocuparia o lugar de Lúcifer. Os rumores dizem que o posto será de um demônio muito mais novo e com um currículo invejável, mas que fará o mesmo trabalho ganhando bem menos.

(Frederico Latrão é escritor, poeta, haicaísta e uma doce fraude, pois é o eu-lírico sem rosto do jornalista Gilberto Porcidonio no blog Versos Patéticos e no twitter @FredericoLatrao. A alcunha pomposa lhe veio em um sonho durante um retiro espiritual e após o uso exacerbado de substâncias com alto teor cafeínico)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Pintura: Sylvana Lobo

O ENCONTRO

Mariana Ianelli

 

Dá-me um acontecimento
E eu nada direi sobre isso.

O crime perfeito
Será meu segredo
Fechado por dentro
Em silêncio
Como um vício.

Face à justiça dos homens
Há de me salvar
A vida rotineira
Entre mil outras tão parecidas.

Irei mansamente,
Azul sobre azul,
Sem que desconfiem.

(Quase diurna, eu diria,
Não me turvasse o delírio.)

E no passeio dos lobos,
Teu sangue meu sangue,
Para o chão
Águas e limites.

Repleta do terceiro corpo,
Em asa de luz
Nada direi sobre isso.

De línguas mortas
E um tempo morto
Farei caixa de guardar
Minha fé ilícita.

 

 

***

 

 

O AMOR E DEPOIS

 

Era esperado que aos poucos
Definhasse, fosse desaparecendo
Naturalmente levado pelo sono.
Era suposto que por abandono
Morresse –

E não teria o vento nenhum sentido
De ventura, seria apenas
A passagem de uma hora branca,
Entre outras tantas,
Para um coração manso
Que já nada espera nem recorda –

Como se o tempo não devorasse
Também o desconsolo,
E dele fizesse exsudar um leve perfume,
Como se não arrastasse
Cada corpo uma penumbra,
Como se fosse possível
Em vida a paz dos mortos.

 

 

(Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em 1979. É poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Publicou os livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007) e Treva alvorada (2010), todos pela editora Iluminuras. Participou dos livros Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Ed. Casa da Palavra, 2009), Roteiro da Poesia Brasileira – anos 90 (Ed. Global, 2011), Caminhos da Mística (Ed. Paulinas, 2012), entre outros. Tem poemas publicados em Portugal, Espanha, Cuba e Argentina. Em 2008 recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude. Em 2011 obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Intocáveis (Intouchables). França. 2011.  

 

 

 

 

Os portadores de deficiência ou doenças crônicas retratados pelo cinema costumam viver dramas mórbidos e penosos, como nos densos (e excepcionais) Mar Adentro (2004) e O Escafandro e a Borboleta (2007). Ao contrário do suposto e previsível viés trágico, o longa-metragem francês Intocáveis (não confundir com o clássico policial Os Intocáveis, de Brian de Palma, Al Capone e cia) assume uma postura mordaz e até mesmo politicamente incorreta da situação. Em vários momentos o filme faz com que ignoremos as condições limitadas do protagonista para focarmos em outras questões não menos delicadas. Até porque, como ele mesmo diz em determinado ponto, sua deficiência não é física, e sim viver sem o amor de sua falecida esposa.

Philippe (François Cluzet, cuja fisionomia lembra muito o ator Dustin Hoffman) é um milionário colecionador de arte que ficou tetraplégico após um salto de parapente. Para seu enfermeiro, ele contrata o candidato mais improvável de todos: Driss (Omar Sy), um robusto senegalês sem nenhuma experiência como cuidador e com antecedentes criminais por assaltar uma joalheria. Escolha justificada pelo tom arredio, debochado e sem nenhum sentimento de piedade do ex-presidiário tratar o aristocrata na entrevista de emprego. A propósito, Driss nem sequer aspirava à vaga, estava interessado apenas que assinassem um documento para que continuasse recebendo seu seguro-desemprego do governo. A aproximação gradativa desses dois homens de mundos opostos faz com que Philippe reavalie sua autocompaixão e recobre o bom humor, qualidade intrínseca do novo amigo, enquanto um Driss em processo de lapidação encontra uma válvula de escape para fugir do seu drama pessoal de morador de subúrbio às voltas com os problemas familiares.

A brilhante atuação de François Cluzet, que mesmo mexendo só o pescoço transmite toda a carga emocional do cadeirante, o carisma do personagem Driss (não por acaso Omar Sy tornou-se o primeiro negro a ganhar um César, o Oscar do cinema francês, superando Jean Dujardin, de O Artista) e a química entre os atores talvez expliquem o sucesso do longa escrito e dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache. A comicidade atinge seu ápice nas cenas em que o cuidador flerta com sua colega Magalie, tece uma análise sobre música clássica e experimenta diversos cortes para a barba do patrão. Philippe também tira proveito da situação, enquanto simula um ataque para despistar a polícia na sequência inicial, quando tenta convencer um colecionador a adquirir um quadro pintado por Driss por alguns milhares de euros ou mesmo quando sente os efeitos da maconha. De forma simples e sem digressões, Intocáveis questiona o preconceito, as diferenças raciais e sócio-econômicas, alfinetando a França quanto ao problema da imigração. Em escala universal, contempla o valor da amizade, da arte e a complexidade da própria existência.

Baseado na história real de Philippe Pozzo Di Borgo e Abdel Sellou – que inclusive aparecem nos créditos finais do filme –, e em seus respectivos livros lançados recentemente no Brasil sob os títulos de O Segundo Suspiro (Editora Intrínseca) e Você Mudou Minha Vida (Editora Record), Intocáveis é uma celebração positiva do que podemos fazer com os percalços impostos pela vida. Exibido durante o Festival Varilux de Cinema Francês (mostra realizada na segunda quinzena de agosto simultaneamente em mais de 30 cidades brasileiras), e atualmente em cartaz nas salas nacionais, o filme obteve a segunda maior bilheteria da história da França, com cerca de 20 milhões de espectadores no país, atrás apenas de A Riviera Não É Aqui (2010). Definitivamente, Intocáveis é uma comédia tocante e imperdível.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

VÉRTEBRAS E CORAIS

Marcia Barbieri

 

“E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”.
(NIETZSCHE, F. Para Além do Bem e do Mal)

Os carros não passam nos becos. Vértebras partidas impedindo toda possibilidade de travessia. As ruas são escuras e a luz barata morre antes de tocar o fosco do chão. Jonas perdido dentro da baleia. Vísceras e Deus dividindo o mesmo leito. Temporal lá fora. Algumas poças devolvem um retrato cruel de mim. Doryan Gray. Marginais defecam no meu rosto magro. A barba cresce (ou seriam apenas penugens?) e sinto que posso a qualquer instante rejuvenescer. Experimento o medo de todos os meus antepassados através do meu sorriso pálido. Dou uma olhada ao redor. A lua atrás continua minguante. Retrocesso. Vejo as fases da lua no calendário. Cheia, às vezes. Quando estou com sorte. Rasgo o verbo, principio de todo infortúnio. Me recordo que Ela espera. O cais despenca dos seus cabelos molhados.

Gosto de observá-la. Calado como um animal solícito na expectativa de uma migalha. Ela afia a faca sobre a pedra furta-cor, inclina a cabeça para o lado e tira pacientemente as escamas. Corta as rodelas de tomate, de cebola, pica o pimentão. Vermelho. Ela gosta do vermelho e das cores púrpuras. As entranhas escorrem poéticas pelas suas mãos pequenas de mulher perdida. Todas elas cortesãs. Nunca amaria alguém tão frágil nas extremidades – era tão certo devorá-la! Os olhos do peixe insistem em me interrogar, em me deixar inseguro. As pálpebras mortas no mar. Os escafandristas procurando refúgio para seus suicídios diários. Submergir e emergir para esse mundo de merda. O enigma da vida perdido em alguma isca não devorada.

Toda noite sonho que moro num lugar cheio de cerejeiras. As noites são brancas e os dias se diluem entre um intervalo e outro do relógio. Um engano matemático. Somente.

Ela chama para o almoço. Já é tarde. Ela gosta de se gabar da sua maestria na cozinha. Me sento na mesma cadeira de sempre. De frente para o descaminho. Desvio o olhar. Começo a comer. Engasgo com uma espinha. Ela fica atravessada na minha garganta. Como aquele nó que se forma quando queremos chorar e o choro não vem. Estrangulando toda palavra, qualquer tentativa de discurso. Começo a entender o que significa escutar o silêncio. Me calo. O talher bate no prato. Vão. Entre uma ideia e outra. A saliva viscosa escorre feito esperma molhando a espinha. Resistente. Ela parece se deliciar com o mar formado na minha laringe. Saudades de sua origem. Os olhares se voltam pra mim. O centro do universo. O umbigo depravado do mundo. Envaideço. Aos poucos a gosma da minha garganta envolve a solidão da espinha. Ela se despedaça e desce. Solto um pequeno sorriso, dez centímetros de talho. Eles voltam a movimentar as mandíbulas e os talheres continuam a ensurdecer meus ouvidos. O zunido das pedras caindo nas águas.

Irei embora, antes acendo um cigarro. De longe, Ela imagina que a brasa entre meus dedos é um pequeno pôr-do-sol. Quase apagado.

 

(Marcia Barbieri é paulista. Possui textos publicados nas Revistas Literárias Coyote, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Tem três livros publicados: dois de contos e um romance. É colunista da Revista Literária O BULE)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

Insignificância

 

Em que pese os malefícios para o corpo,
devemos arrastar a consciência de nossa insignificância
Jorge Elias Neto

 

 

O azul se dissipa
em tons de desespero.

Os segundos corrompem
nossos sonhos,
e a eternidade –
consome toda inocência.

O céu conspira
dentro de mim,
ponto
sujo no útero
da neve.

 

 

***

 

 

Um resto de sol no desalento

 

Ocupo-me de uma febre
sem propósito.
Modos existem
de forjar os dias,
principiar universos,
rir-se do descomunal
segredo da vida …
Mas não nessa noite gelada
em que persisto centelha.
Eis a última pele – a palavra –
que se desgarra inapta
a prosseguir
afirmando
o esplendor da verdade.

 

 

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))