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71ª Leva - 09/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

UM MUNDO PARA CHAMAR DE MEU OU, QUEM QUEBRARÁ O SILÊNCIO?

Por Renata Azambuja

 

I

A mancha, a silhueta e a palavra.

 

Pintura: Sylvana Lobo

O desejo é começar pela primeira impressão que permaneceu, mesmo depois do segundo e terceiro olhares, deste conjunto de pinturas de Sylvana Lobo. A visão persistente de manchas coloridas, massas em preto/ silhuetas e palavras. Esses são fatos preponderantes da pintura da artista. Parece paradoxal, mas as manchas e massas funcionam, no contexto de sua pintura, como signos de visibilidade. Ajudam a contar a história que se segue; um universo cheio de alegorias.

Diferentemente do Informalismo, tendência que tratava a mancha como gesto espontâneo e improvisado, as manchas nessas pinturas não comparecem como fruto do acaso de um processo criativo. Podem ser, sim, como naquele movimento, resposta a um momento de crise. Não à maneira de uma crise mundial, como se manifestou então, ao final da Segunda Guerra Mundial, mas da ordem de uma crise na política das relações amorosas, como veremos mais à frente. Assim, não seria disparatado qualificarmos estas manchas como matéria, lançando mão dos dizeres de Argan, que as coloca como uma problemática com a qual a artista se depara, a “incerteza quanto ao próprio ser, a condição de estranhamento em que é posto a sociedade”¹.

Se ela for, então, um elemento problema com o qual se deve lidar, a mancha encontra o seu sentido mesmo: o de ser uma substância que macula algo. É o elemento imprevisto. Ou será que ela está no lugar de algo que não foi conscientemente construído?

A mancha, por ser esta matéria que ocupa lugar mostras de definição, é uma continuidade no tempo. O único indício de temporalidade é sua permanência de uma pintura a outra. Está presente em todas as cenas das pinturas, balizando a figura-silhueta. Se a mancha esconde uma revelação ao mesmo tempo em que se espraia, a silhueta delineia. Em cada pintura há uma imagem feminina.

Silhuetas parecidas com as dos retratos recortados, desenhados e pintados em papel preto de figuras em perfil, na corte francesa durante o reinado de Luis XV, no século XVIII, e que tornou-se hábito a ser cultivado entre as moças da época. A silhueta identifica a figura de origem pelo retrato que produziu; uma impressão na memória.

Pintura: Sylvana Lobo

Estando essas silhuetas postas em situ-ação, nos remetem às figuras do teatro de sombras. Se a mancha é presença que esconde, a sombra, como ausência de luz, reforça a ideia de que há algo que não quer se mostrar ou que age como duplo, um outro que está represado. A noção de obscuridade vinculada à “sombra” era algo a ser evitado e o nome “silhueta” substitui o nome “retrato de sombra”. O panorama, portanto, esconde mais do que apresenta e mesmo as cores não parecem contribuir para a mudança de cenário, pois continuam como manchas. São como nuvens escuras, densas, prontas para desaguar, sensação mais manifesta em Beije, coma e Não sou a mais bela. Estariam estas pinturas nos indicando a impossibilidade de comunicação? Seriam territórios de incomunicabilidade?

Como silhuetas que são, apontam para seres que conhecemos. As figuras solitárias das pinturas são imagens emblemáticas saídas dos contas de fadas e princesas; arquétipos de um determinado feminino, de acordo com Carl Jung e expressões de desejos recalcados, segundo Sigmund Freud. São brancas de neve, cinderelas e belas-adormecidas. Essas personagens foram construídas por Sylvana Lobo tendo em mente não as versões modernas, voltadas para as crianças, em que toda a narrativa, cheia de percalços, está a serviço de um final feliz, porém mais próximo dos contos populares, originados de tradições orais muito antigas onde a fantasia não precisa criar laços de comprometimento com uma realidade moralizante. Nessas narrativas, o texto nem sempre é aprazível e a morte, o canibalismo e o incesto, por exemplo, fazem parte recorrente das estórias que, diferente do que ocorre atualmente, tinham os adultos como público.

Karen Walker, artista norte-americana, usa a técnica de silhueta como papéis cortados, elaborando cenários em que personagens, negros escravos e brancos dominadores, se relacionam, em uma alusão a episódios ocorridos no Sul do país, antes da Guerra Civil Norte-Americana. Eles tomam parte em ações que definem social, política e historicamente. Diferenças a parte, as imagens em silhuetas nos trabalhos de Walker, como nos de Sylvana Lobo, têm o intuito de provocar o pensamento sobre o que significa a representação por imagens e como elas podem estimular uma nova formulação identitária e uma visão crítica sobre a própria realidade. “Fazer trabalhos de arte sobre raça se transforma em assunto íntimo acerca da identidade”².

Este espaço silencioso, configurado pela mancha e pela silhueta é compartilhado por palavras, frases e expressões. É como se existissem para afirmar ou por em cheque a situação vigente. Mas, ao mesmo tempo que se referem às imagens, as palavras estão lá como parte da estrutura visual, ou seja, providas de materialidade própria, o que destitui o papel de ser “as” portadoras de significado. Assim sendo, o texto escrito na tela, se transforma, conforme lemos em Pierre Francastel, em signo figurativo, também uma sentença visual que não coincide, segundo ele, com o que vemos e compreendemos.

As frases, ou pedaços delas, dão nomes aos trabalhos, confirmando a suposição de que elas, talvez, sejam fatores dominantes dessas equações visuais indicando caminhos para o entendimento das pinturas ou para a resolução da “problematicidade” que enfrenta o artista, citando novamente Argan. Algumas são frases curtas em tom afirmativo e imperativo: toque, beije, coma; outras expressas como um anúncio: precisa de um escovão e dois príncipes encantados; como perguntas: você se sente atraído por mim?; quanto vale uma vírgula? e, ainda, a título de conclusão: É melhor do que escutar eu te amo; não come (a); minha língua gorda não cabe no sapato e, não sou a mais bela. O que se apreende, afinal, é de que há um outro para quem a falas se dirige. O vedor-leitor aos lê-las, torna-se um co-partícipe?

“Escrever em primeira pessoa é uma facilidade, mas é também uma amputação”, é o que diz o protagonista do romance Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago. Distante do trabalho autobiográfico, em que o artista se coloca como o representante de outras histórias e das suas próprias, tal como é o caso de Cindy Sherman e de Sophie Calle, Sylvana Lobo fala de suas angústias e desconfortos com a expectativa de ter de se tornar uma “mulher de verdade”, como ela mesmo diz, por meio das mulheres da ficção.

II

O fio amarelo: moral da história?

Pintura: Sylvana Lobo

E o que dizer do fio amarelo que vemos em todas as pinturas? Será que se refere a algum principio moral que rege toda essa alegoria? Em Toque-o, a única pintura em que a silhueta feminina não está visível, vemos o fio amarelo enrolado ao fuso, que é agora a silhueta. Esta pintura parece ser uma espécie de matriz geradora. O objeto ocupando o lugar da moça; o fuso da história da Bela Adormecida. Fada, fatalidade, destino.

No conto de fadas, o fuso é o perigo. É o prenúncio de morte ou, pior ainda, do longo sono que é pausa para o encontro com o futuro, personificado pelo príncipe, o homem idealizado. Nas pinturas de Sylvana Lobo, o fio amarelo é sinal de alerta, é a consciência tornada objeto. Deposita-se sobre o sexo, sobre a boca, enrosca-se pelos pés, nos pulsos, transforma-se em coroa, como lembrança de um futuro que espantará o presente a ser passado a limpo, e circula o pescoço seguindo até os tornozelos de uma outra silhueta, reprodução dela própria.

O fio amarelo é a garantia de comunicabilidade nesse território de incertezas onde dormir pode significar deixar de lado o devir. Não dormir, para não acabar como personagem de uma parábola moderna. Como a que Louise Bourgeois escreveu: “Um homem e uma mulher viverem juntos. Uma noite ele não voltou do trabalho e ela o esperou. Ela ficou esperando e ela foi ficando menor, sempre menor. Mais tarde um vizinho passou por amizade e ali a encontrou na poltrona do tamanho de uma ervilha”³.

 

 

1- Argan, GC. Arte Moderna, SP: Cia das Letras, 1993, p. 542.

 

2- Disponível em The Art of Kara Walker. http:/ leran.walkerart.org/karawalker/Main/RepresentingRace. Acesso em 20/01/2009.

 

3-Louise Bourgeouis. Ela perdeu aquilo. Diário da artista, 1947.
20 de janeiro de 2009.

 

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

(Renata Azambuja é pesquisadora, curadora independente, crítica de arte e arte-educadora. É licenciada em Artes Plásticas pela UnB e mestre em Teoria e História da Arte Moderna e Contemporânea pelo City College of the City University of New York, onde defendeu a tese “Cildo Meireles: A Física do Espaço Social”)

 

Sobre a artista:

 

Sylvana Lobo é artista plástica e fotógrafa. Participou das coletivas MAB – Diálogos da Resistência – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2012 – Brasília/ DF); 18º Salão Anapolino de Arte (2012 – Anápolis/ GO); Prêmio de Arte Contemporânea do Iate Clube de Brasília – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2011 – Brasília/ DF); Semicírculo – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2010 – Brasília/ DF); 39º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba (2007 – Piracicaba/ SP); 7º Salão de Artes Visuais de Guarulhos (2007 – Guarulhos/ SP); 6º Salão de Artes Visuais – Museu de Arte Contemporânea de Jataí (2007 – Jataí/ GO); XXIX Concurso Novos Valores – Fundação Jaime Câmara (2006 – Goiânia/ GO); Vetores – Museu de Arte de Goiânia (2005). Participou das individuais O IBRAM e seus museus (2010 – Brasília/ DF); de cabelos longos, sentada na relva – Galeria da Faculdade de Artes Visuais – UFG (2009 – Goiânia/ GO); Foto Arte (2008 – Brasília/ DF); Madame Bovary sou eu (2008 – Brasília/ DF).

 

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Antes de um tudo, o vazio e suas improváveis imagens. Antes de tudo, o silêncio, a ausência do verbo a rasgar instantes. Depois de tudo, a palavra a atravessar espaços e habitar a matéria do nosso concreto de cada dia. Como conceber a existência sem a poesia que antecede e esgota o sopro? Onde o intervalo mínimo entre projeção e realização?

Com tais percursos que remexem as entranhas da vida, a criação revela-se a musa das musas, representante imprecisa de nossa sina pelas tresloucadas paragens terrenas. Os poetas são seus mais legítimos porta-vozes, transformando desvãos da alma em versos pungentes, catando o despercebido e ofertando-nos tudo em doses nada terapêuticas. É atraente pensar que criadores vagam conosco no meio da multidão e, mais adiante, sugerem veredas. Nesse ofício, encontramos gente como o escritor paulista José Geraldo Neres, homem cuja sina celebra permanentemente a liquidez do verbo. Dono de um estilo que contempla um intangível olhar sobre os lampejos humanos, o autor abraça o silêncio como causa, mas não consente que nele se façam vãs inscrições. Para ele, importa a revelação escondida nas sucessivas camadas onde habitam as palavras. Se o resultado disso é mirar o abismo, a queda é perspectiva real.

Autor de obras poéticas como “Pássaros de papel” (Dulcinéia Catadora, 2007) e  “Outros silêncios” (Escrituras Editora, 2009), José Geraldo Neres alimenta agora sua travessia com a instigante reunião de contos presente em “Olhos de Barro” (Editora Patuá). Trata-se de um livro no qual as imagens inauguram as densas vias de uma prosa poética que sabe a queda e fronteiras. Seu trânsito no terreno cultural é múltiplo, compreendendo também as feições de roteirista, dramaturgo, produtor e gestor. Como curador do Projeto Quinta Poética, em São Paulo, articula encontros valiosos entre autores, artistas e produtores dos mais variados campos, num claro propósito de harmonizar linguagens múltiplas. Falando um pouco sobre suas andanças literárias e outros temas correlatos, Neres revela-nos agora alguns aspectos que movem a sua obstinada travessia pelas palavras.

José Geraldo Neres / Foto: arquivo pessoal

DA – O silêncio é um tema que está entranhado, de modo especial, em parte significativa de sua obra. Seria ele um exercício recorrente de escutas e, portanto, a gênese desafiadora da criação?

JOSÉ GERALDO NERES – A procura deste “silêncio” acaba por facilitar o deslocamento de tempo necessário para esta criação. Não existe limite ou obstáculo relacionado a ele. Passado (infância/natureza), presente, futuro, e, como costumo tratar, a travessia.

O “silêncio” é um paradoxo, pois tenho por hábito mergulhar ao máximo no universo musical/sonoro, quando estado de criação, e pesquisa/leitura, grande facilitador/aliado na revelação do ritmo interno do texto. A melodia das palavras líquidas é parte de minha busca, sim. Escuta, pesquisa e criação, principalmente tratando-se de um cenário cosmopolita em que estou radicado.

DA – Sua expressão poética possui a fluidez decisiva sobre as marcas da existência, como se as palavras percorressem espaços sensíveis de nossa materialidade buscando aplacar estranhamentos da condição humana. Seria um flerte fundamental com a perspectiva da transcendência?

JOSÉ GERALDO NERES – Como observador do cotidiano, tento retirar dele sinais que possibilitem o mergulho nas marcas que carregamos nos ossos. Tenho uma imagem inaugural e, a partir dela, busco expandir seu universo de alternativas ficcionais: a de um menino a perambular e brincar na beira de abismo, sem ter qualquer preocupação com a queda ou se retornará deste mergulho, transformado ou não. Gosto de tratar a criação literária desta maneira: experimentar ao máximo os riscos e não perder a infância ou essa imagem inaugural. Apanhar os desperdícios e o delírio do verbo tão presente em Manoel de Barros. Acompanhar o afinador de silêncios na obra de Mia Couto. Passar através dos ponteiros do relógio, lá onde o silêncio põe um capuz branco (Murilo Mendes), ou o conjunto de acontecimentos e processos que nos rodeia nos engendra e nos devora. Cúmplice e confidente (Octavio Paz). Desafiar os limites do corpo e da palavra. Cito alguns autores que provocam estados criativos, mas o mergulho é sempre renovado e um novo autor acompanha a queda.

DA – A síntese é um traço vigoroso em seus percursos poéticos, divisando imagens reais e quiçá oníricas. Harmonizar em versos um sentimento do mundo é pensar no inatingível?

JOSÉ GERALDO NERES – O exercício da síntese começou com leituras e estudos de autores haicaístas: Bashô, Buson, Issa e aqueles por eles influenciados. Cito um livro revelador de Mestre Bashô: Trilha Estreita ao Confim. Entretanto, o tempo e outros autores me mostraram que a síntese de um texto pode passar por trilhas e encruzilhadas diferentes. Desde então, procuro lapidar o texto, mas com o cuidado de não retirar a essência ou alma dele.

Com relação ao “inatingível”, não consigo pensar desta forma durante o processo de criação. Tenho na imagem poética uma grande aliada para desenterrar palavras/versos na ressignificacão do momento/mundo representado em um texto. É a procura da palavra debaixo da palavra. E continuo a tentar descobrir esta palavra latente (Vicente Huidobro) e o delírio do verbo (Manoel de Barros). Procura e exercício interminável. É um gozo divino, no sentido de êxtase, quando um leitor completa e dá sua interpretação a esse texto. Essa leitura reforça meu desejo de continuar por essas trilhas e encruzilhadas.

DA – “Olhos de Barro”, seu mais recente livro, dedica-se a uma prosa que se manifesta intensamente poética. O título, por sinal, é bastante sugestivo, apontando para um criador que, ao mesmo tempo, é criatura a mirar os trajetos da existência. Quais signos você elenca como sendo os mais emblemáticos nessa sua nova incursão pelas palavras?

JOSÉ GERALDO NERES – Sim, criador e criações. Tudo começou com uma provocação imagética: uma grande boca a perambular uma casa vazia, sem portas ou janelas, e, mesmo assim, ela não conseguia sair desta casa. A boca, corpo não tinha, e sua voz preenchia todo este ambiente. Essa imagem inaugural persistiu no grupo de textos produzidos e insistiu a provocar outras inquietações. Utilizei a estrutura da casa para os primeiros passos (a casa tinha quatro cômodos. Então, os signos elementais serviram de bússola, depois o embate do criador e criações: a casa como limite e parte deste corpo, corpo construído por palavras. Depois, o tempo: passado, presente, futuro e a travessia). A queda, os limites do corpo, as fronteiras que cercam os pensamentos e criações são partes dos signos utilizados. Os outros estão naquele que completa o livro: o leitor. Antes deste círculo se completar, é claro que fui procurar beber em outros autores que dialogam com este tema: queda e fronteiras.

DA – Essa sua menção a queda e fronteiras pode ser compreendida também como uma projeção da finitude, talvez um dos maiores temores humanos?

JOSÉ GERALDO NERES – Gosto deste temor, principalmente inserido no campo da criação, mas, particularmente, não acredito nesta projeção, e sim em transformação e travessia. Quando da realização e escolhas de leituras para “Olhos de Barro”, uma obra me chamou muita atenção: “Gringo Velho”, do mexicano Carlos Fuentes. Encantou-me a trajetória do personagem que, antes de “cumprir sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra” (diálogo dos personagens Chicó e João Grilo no Auto da Compadecida, obra imortal de Ariano Suassuna), atravessa a fronteira dos Estados Unidos da América para participar da revolução mexicana. Ele sabe o que o tempo planeja para ele, e, assim, abandona tudo para poder vivenciar este seu desejo heróico. É certo que o livro é muito mais que esta simplificação que acabo de fazer, mas é essa travessia que me impregnou durante a leitura da obra.

DA- Nesta travessia pela palavra, escrever seria também uma via de redenção?

JOSÉ GERALDO NERES – A literatura sempre me salva. Não sei dizer ou mencionar quantas vezes aconteceu isso, mas terminar um texto é um prazer que não há como definir. Poderia citar vários exemplos, e mesmo assim não atingiria a proporção correta. Terminar um texto nos dois sentidos: leitura e escrituração. Quando recebo a indicação de leitura de alguém, faço uma excursão pelos sebos (virtuais e tradicionais) até encontrar o livro. Gosto do desafio, da procura.

A literatura já me levou para inúmeros lugares que jamais pensei conhecer, e, a cada retorno, sou “o outro” que habita a mesma casa. Sei que tenho muito por caminhar, aprender e descobrir. Cada novo projeto/livro me dá essa possibilidade.

José Geraldo Neres / Foto: arquivo pessoal

DA – Em meio à sua trajetória incansável de articulador cultural, habita o  projeto Quinta Poética, do qual você é curador, e que agora está completando 50 edições. O que tem sido decisivo para a consolidação desta iniciativa?

JOSÉ GERALDO NERES – Nasci, literariamente falando, em Diadema, final dos anos 90 (pertence à região do grande ABCD daqui do estado de São Paulo), onde tive o privilégio de conhecer uma oficina de criação literária (ministrada pela poeta Beth Brait Alvim). Nesse período, aconteceu minha primeira revelação: descobri que tinha apenas o desejo poético, mas poesia mesmo, não. Descobri que não era poeta, mas também descobri o desejo e determinação de procurar pela poesia e seus realizadores. Esteticamente e poeticamente, tudo começou em Diadema. O fazer era agregado à vivência, convivência, coletividade, intercâmbio e experimentação. Neste clima, criou-se o grupo Palavreiros, e nós nos apresentávamos em leituras pela cidade, outras cidades, e espaços sócioculturais (aqui é só um brevíssimo resumo: há muito por falar). Desde então, peguei gosto por produção cultural e não parei mais.

O Quinta Poética chega a 50 edições na Casa das Rosas (anteriormente, o projeto habitou outros lugares), e é idealizado e promovido pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, onde se apresentou um mosaico com mais de quinhentos produtores culturais de todas as regiões brasileiras e exterior do país. Existe uma permanente mescla/diálogo com as demais linguagens artísticas. Por ser um projeto que existe e se mantém numa periodicidade ininterrupta, aliado à cumplicidade e qualidade destes produtores culturais, creio que sejam esses alguns dos ingredientes desta consolidação (a programação deste ano está pronta desde o mês de maio, e, atualmente, recebo indicações e sugestões de participantes para o ano de 2013).

É uma grande surpresa o desdobramento de cada edição: os participantes realizam além do costumeiro intercâmbio de saberes/contatos. Criam novas parcerias e andanças. Isso estimula e muito, além de aumentar a responsabilidade de estar na curadoria deste projeto (aqui quero deixar meu agradecimento aos curadores anteriores. Como certamente vou esquecer os nomes de todos, cito-os na figura emblemática do poeta Celso de Alencar).

DA – É possível dizer que os escritores contemporâneos, em prosa ou verso, detêm um estilo peculiar capaz de solidificar algum movimento? 

JOSÉ GERALDO NERES – Não acredito nessa possibilidade, pois não sabemos quem são nossos poetas ou escritores (isso em âmbito nacional ou estadual). Conhecemos certo número de autores, porém não todos. No Brasil, não há um mecanismo ou mapeamento dos produtores culturais, como, por exemplo, o Sistema de Información Cultural, CONACULTA, México. Acho que ganharíamos mais se nossa literatura fosse sistematicamente divulgada (obra e autor) internamente e, é claro, no exterior. Hoje, sinto uma movimentação, mas é um tanto tímida e, quando sabemos de uma obra traduzida para outro idioma, não há surpresa nos livros ou autores escolhidos ou selecionados. O assunto requer um debate amplo, e essas poucas linhas não seriam suficientes para discorrer ou apontar soluções. No entanto, quero deixar claro que conheço escritores e poetas sérios e competentes, mas lamento não ter este painel de nossa literatura nacional.

DA – Quais critérios norteiam a participação dos autores no Quinta Poética?

JOSÉ GERALDO NERES – Basicamente, qualidade, apresentação pública, disponibilidade para troca de saberes, e diálogo entre diferentes linguagens artísticas. O maior exemplo deste intercâmbio de saberes, estética e linguagens artísticas foi a 43ª edição, em Novembro de 2011, Especial diálogos – Diversidade cultural. Há um extenso acervo disponível para visitação e pesquisa na internet, relacionado a outras edições.

DA – O estado de coisas a que chamamos pós-modernidade talvez tenha trazido a frágil sensação de que é possível subverter tudo em matéria de gênero literário. O que você pensa sobre isso?

JOSÉ GERALDO NERES – Encontro essa desconstrução em autores do passado. Cito seis que tenho por hábito reler: Lautréamont, Gérard de Nerval, Charles Baudelaire, Octavio Paz, Jorge de Lima e Campos de Carvalho (se procurar um pouco mais no abismo de leituras, vou encontrar outros exemplos). Nessas leituras, fico a questionar os limites e fronteiras do gênero literário. Longe de mim afirmar que esses autores inauguram essa ruptura, pois a história literária é longa e bebemos na tradição para conhecê-la e poder subvertê-la. Não acredito em criação no vazio.

DA –  O que você não endossa na dita pós-modernidade?

JOSÉ GERALDO NERES – Apenas para reflexão: qual a preocupação com o tempo? Ele é o tempo e, assim, sempre será. Penso na capacidade criativa do ser humano, e tudo aquilo ou movimento que o influi e provoca para uma nova criação. Acredito no movimento cíclico. A escrituração começa nos primeiros registros na pintura ou gravura rupestre. Fica uma provocação: como inventar a roda sem beber na tradição?

DA – Para o homem das palavras José Geraldo Neres, escrever seria uma necessidade de expressão íntima ou a busca por uma interlocução com o mundo?

JOSÉ GERALDO NERES – Sim, escrever é tentar dialogar ou compreender os símbolos do cotidiano, sentir a pulsação, o ritmo, todos os sentimentos (positivos e negativos), e procurar uma solução estética que possa abrigar todos esses desejos. Os menores detalhes do mundo, aquilo que passa despercebido pela maioria, mas que está lá, aguardando uma significação (aqui, uma livre interpretação de Manoel de Barros: apanhar desperdícios). Nesta macrocomunicação, também me encontro. E citando-me no poema manifesto O eco das árvores, que encerra o livro “Outros silêncios”: Sou a roupa de arbustos onde um poeta tenta se equilibrar. / A vida despe o relógio, os ponteiros dissolvem o poeta em sua figura negra e única. / Sombra na busca do poema. // Dança de símbolos na eterna busca do homem que um dia poderei ser. // Corpo dividido, dispersando-se na medida que leio o que escrevo. / Eu não existo aqui mesmo. O poema mal sabe de mim.

 

 

 

O livro pode ser adquirido no site da Editora Patuá

 

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71ª Leva - 09/2012 Galeria

Pintura: Sylvana Lobo

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