À “quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera.”
(Primavera nos Dentes, de Secos & Molhados)
— Eu vou fechar a porta, para de escrever. Disse ela.
— Peraí. Respondi sem olhar para seus olhos negros. Alguma coisa fora da sala chamava mais atenção.
— O que é?
— Tem alguém naquela janela, tá vendo? Apontei com o nariz, com medo de ser descoberto.
— Não, é a sombra de alguma coisa que largaram lá. Respondeu ela, sem dar muita atenção a minha preocupação.
— Não, é um rosto que tá olhando pra gente. Há quanto tempo tá lá?
— Para de ser neurótico. E foi tentando me empurrar pra escada.
— Não! Tem alguém ali. Insisti.
— Credo. Disse ela, se afastando de mim.
— Deixa eu me esconder. Estou ficando com medo. Minha nuca arrepiava como se um espírito estivesse atrás de mim.
— Eu é que tô com medo de você, tá loco. Coisa estranha… Você tem cada uma.
— Sobe essa escada e some. Disse eu, indignado. — Você tá me atrapalhando.
— Não! Você precisa descansar.
— Eu vou escrever mais um pouco. Afirmei categórico e calmamente.
— Para com isso, essa caneta já tá fervendo.
— É a intenção, me deixa.
— Vá dormir. Ela pedia já colocando os pés nos primeiros degraus.
— Não, eu preciso fechar essa página pelo menos.
— Vá rápido! Ela parecia uma mãe, às vezes.
— Ele ainda tá lá. Disse, voltando ao assunto que me preocupava.
— Não é ninguém, deixa disso.
— É alguém, sim.
— É nada!
— Mas tá rendendo uma história, né? Eu disse, com um sorrisinho no canto dos lábios.
— Desgraçado. Xingou, balançando a cabeça em sinal de desistência.
— Senhor das ilusões. Corrigi.
— Ilusão é a sua existência, seu alter-ego chinfrim. Essa porra não vai dar em nada! Explodiu, enquanto eu redobrava minha atenção no vulto.
— Vai, sim. Insisti, com um fio de esperança.
— Vai dar em doença crônica.
— Não encha!
— Vamos, seu nariz tá sangrando.
— Então, adeus. E fui definhando até a última despedida.
(Homero Gomes é escritor. Vive e trabalha em Curitiba. É editor do blogue Jamé Vue colunista dos portais Página Cultural e Mundo Mundano. Contribuiu com dezenas de publicações nacionais, tais como Cult, Rascunho, Ficções, Germina Literatura, Cronópios e Rapa Dura. ‘A sombra e eu’, até hoje inédito, faz parte do livro de contos Sísifo Desatento (inédito), finalista do prêmio Sesc de Literatura, edição 2007)
(Marceli Andresa Beckeré estudante de filosofia e professora. Publicou poemas nas revistas Zunái, Germina, Pausa e Eutomia, no Portal Cronópios e em diversos blogs. Participou ainda da Miniantologia Poética do Centro Cultural de São Paulo, organizada por Claudio Daniel, da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel, e do trabalho Canto Ancestral (CD e livro), do cantor nativista Lisandro Amaral. Na área de filosofia, publicou artigos científicos e ensaios em revistas eletrônicas e mídias impressas. Contato: mab_1109@yahoo.com.br)
Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto (Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo). Argentina. 2011.
“A vida é um bolo de merda e cada dia há que se comer um pedaço”.
(Alberto Laiseca)
Quem jamais proferiu a melancólica frase “ah, se eu tivesse 20 anos com a cabeça que tenho hoje…” (salvo os que mal saíram de tal faixa etária), que atire a primeira pílula da juventude. A oportunidade de voltar ao passado para reparar um erro ou meramente para se dar bem paira no subconsciente do homem desde que este usa a desculpa de comprar cigarros. Com enredo inspirado no diabólico poema Fausto, de Goethe, e baseado em um conto inédito do escritor Alberto Laiseca, que faz as honras de narrador da película, Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto traça um retrato amargo, porém franco, das frustrações, da mediocridade e da insignificância do ser humano.
Ernesto Zambrana (Emilio Disi) é um corretor de imóveis de 63 anos, que leva uma vidinha pacata em Olavarría, província de Buenos Aires. Com a nítida impressão de que é um fracassado e nunca teve boas oportunidades na vida, um dia, enquanto almoça com a mulher Rosa (Emma Rivera) em um restaurante simplório, é abordado por um homem misterioso e sem nome (interpretado por Eusebio Poncela), que lhe propõe o seguinte acordo: Ernesto pode voltar no tempo e passar 10 anos em qualquer época de sua vida e, quando retornar a 2011, receberá uma recompensa de 1 milhão de dólares. Para sua mulher, entretanto, não se passarão mais que 5 minutos, tempo que justifica a frase-título do filme. O que se vê a partir daí é uma realidade paralela, com um Ernestito desculpando-se com a mãe enferma, implantando o (até então inédito) formato reality show no Canal 3, em Olavarría, tentando impedir o atentado às Torres Gêmeas, plagiando antecipadamente Imagine, de John Lennon, entre tantas outras passagens jocosas e mal-sucedidas.
Se a temática ‘viagem no tempo’ já foi explorada com exaustão pelo cinema e o próprio título possa parecer repetitivo, o filme ganha em seu argumento e estrutura, a começar pelos poderes conferidos ao anônimo imortal (ou seria ele o demônio?): contrariando o matemático Gauss, ele foi atingido duas vezes por um raio, que o fez morrer e reviver, no Marrocos – lugar onde, segundo o narrador, qualquer coisa impossível pode acontecer. Outro diferencial é a narrativa fragmentada, com inserções do próprio Laiseca justificando algumas passagens do conto/filme. A propósito, o carismático escritor é uma enciclopédia de frases de efeito[-riso]. É interessante observar também que uma tartaruga – animal de estimação de Ernesto – pontua a passagem dos anos, como que advertindo que o tempo tem um caráter de efemeridade relativa.
Com roteiro e direção de Mariano Cohn e Gastón Duprat, os mesmos cineastas de O Homem Ao Lado (2009), Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto é uma comédia non-sense da qual os hermanos parecem ter se tornado especialistas. Abordando a trinca tempo-vida-morte de forma crua e com certo humor negro, é um filme leve e divertido, porém altamente reflexivo, principalmente porque subverte o tom existencial pela pura fatalidade. Queridos, vou comprar pipoca e já volto.
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)
Não dizer palavra…
Deixar o silêncio plantar sua nódoa
na cinza dos olhos.
E uma sombra há de vir,
insustentável,
e despojada de dor e remorso e cansaço
trará numa das mãos linho novo,
alfazema;
na outra, conchas de praia deserta,
frutos da estação,
e ainda sem dizer palavra
acenderá os cílios com o sal das águas
de uma outra concha,
essa mão que rasgará silêncios,
tatuando na pele uma palavra gasta.
***
TECIDO DE ESPERAS
O olhar colhe asperezas…
Nenhuma alma de regresso às mãos
cansadas de tecer esperas;
nenhuma nau singra a saudade
e a tessitura é desfeita
pela ausência de abraços.
(Wender Montenegro, natural de Trairi/CE, é professor de História e poeta. Tem poemas publicados nas revistas TRIPLOV, Blecaute, dEsEnrEdoS e em outros espaços literários. É autor de Arestas, 2008, pela All Print editora/SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia, e espera publicar em 2012 dois livros inéditos, o Casca de nós e o Livro-arbítrio)
Sempre dos gestos mais pessoais. Dos trejeitos mais repetidos. Esqueço dos meus modos nas situações. Das mãos na cintura quando converso em pé, e de como ergo o rosto pra soltar a fumaça do cigarro. Quando me descrevem, dizem do que mal percebo e do que é o menos passivo em mim. No descuido que o esquecimento permite, a restrita liberdade escapa. E os defeitos e falhas tão mal escondidos, os palavrões, a falta de tato, a evidência do cansaço, o excesso de cuidado, os pequenos melindres, a falta de paciência. Tudo bem figurado na descrição. Encarnado. Quando me chamam a atenção, perco o ritmo, tropeço e fico manca. Demoro a acertar o passo outra vez. A espontaneidade é coisa frágil.
***
IMAGEM
A casa. A porta lateral está aberta. O ar é denso do silêncio povoado. O calor e os rumores do meio do ermo. É cortante o ranger dos bambus gigantes. Eles ladeiam a casa. Dentro é escuro, úmido, frio. Cheira a madeira molhada. Sempre. A cozinha é quase toda a casa. A mesa grande. As cadeiras descompostas pelo espaço. Utensílios. Livros abertos e fechados. Os pratos sujos. Panos. Óculos. Frutas. As flores apanhadas. Partes do silêncio. E também o arrastar da escova nos cabelos. Ele está em pé, atrás dela que está sentada muito ereta num banco, e lhe penteia os cabelos. Grave. Ela se move involuntária. O puxar que a escova lhe inflige ao pescoço. Não dizem nada. Bem à frente dela, uma janela pequena aberta de par em par. A mata no horizonte se revira com a ventania. Acompanha o cinza escuro da tempestade que chega. Ela quase não respira. É calmo o olhar que vê a aproximação da tempestade. É ainda curioso e encantado. O mesmo olhar que vê a cena vivida.
(Priscila Miraz de Freitas Grecco natural de Assis, SP, é mestre em História da América pela UNESP – Assis. Teve contos publicados pelo jornal literário de Curitiba, Rascunho, pelas revistas eletrônicas Germina e Caderno Literário. Participou também de duas coletâneas da editora Pragmatha, O imaginário do mar e do navegador, e Cardeno Literário III- Meio Ambiente)
Eu não sabia o que fazer e abri a blusa
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar.
Bruna Lombardi
Flash!
Qual a pose que ficou? Eu de olhos lânguidos pra ele? Eu de taça de champagne na mão? Podia ser whisky? Essa dor de cabeça é whisky, tenho certeza. Mas quando foi que eu desci do champagne protocolar para o porre? Quem mandou beber em público, sua alcoólatra, no meio de um monte de jornalistas? E olha que eles foram convidados. Nós não somos nada sem a imprensa, querida. Até vocês decidirem nos destruir, eu devia ter completado. Amanhã vai sair a pior foto no jornal. Nada da minha arte, só a fofoca. Você está namorando alguém? Eu ainda estou casada, querida. Ele está filmando no Xingu, um filme ma-ra-vi-lho-so, co-produção com a França, querida.
Flash!
Eu não vou te contar, querida, que acordei com seu flash nos meus olhos, quase cega, querida. Você não vai saber que eu não dormi em casa. Tá! Eu ainda não sei bem onde estou e nem quem é esse cara deitado na cama. Você ia gostar de me ver agora, de quatro, debaixo da cama, à caça de uma calcinha. Eu estava com uma, tenho certeza. A manchete podia ser assim: uma noite vadia com Bruna Bianchi. Muito literário pra você, não é? Você ia preferir algo mais direto nas bancas de revista: flagra! Bruna Bianchi pula a cerca. A foto de meu traseiro nu, mal coberto por esta camisa de homem. Não, querida. Esse gostinho eu não lhe dou. Pode falar mal de meus quadros, pode dizer que sou péssima atriz. Você não é crítica de arte mesmo. E novelas? Aquilo não é arte, é corrida de obstáculos. Como você explica sua arte? Você perguntou. Como você explica sua ignorância, meu bem? Eu não virei artista plástica do nada, benzinho. Você não sabe que eu fazia Belas Artes, quando aquele fotógrafo me descobriu? O dinheiro era tão bom, entrei no mundo da moda. As novelas? Uma coisa leva à outra. Não! Isso não é meu eu interior. Minha arte pretende outra coisa. Nem pense que você vai fotografar minha alma. Contente-se com meu corpo. E não, eu não estou fazendo isso para aparecer. Se eu quisesse aparecer, seria melhor ter um câncer. Tão na moda, hoje em dia. O sucesso seria garantido. Atriz vence luta contra a doença. Eu, belíssima e orgulhosa com minha cabeça raspada, uma Nefertite vitoriosa. Tenho certeza que você ia escrever algo assim: o sofrimento deixou Bruna Bianchi mais próxima de sua personagem. Ela consegue viver a dor da heroína. Que dor? Pura técnica. Cristal chinês. As lágrimas falsas.
Flash!
Os quadros? Eu só pinto o que vejo. Por isso os cães de bocas ávidas, de olhos arregalados, brilhantes como o sol; os homens abobalhados, os mesmos olhos acesos. E os quadros só com olhos, dezenas de olhos, objetivas de câmeras, binóculos, isso não lhe lembra nada? Você ainda não se identificou, meu amor? Não entendeu nada, hein? Bote lá na sua manchete: Atriz impressiona em sua primeira exposição. Não foi isso que a TV mandou dizer? Enquanto eu estiver no ar, tenho imunidade diplomática. A TV não vai deixar nada me acontecer. Todos nós sabemos quanto vale o meu rosto. E a novela está nos seus momentos decisivos, audiência absoluta. Eu tão comportada. Já faz um tempo que não dou escândalo. Estou limpa, querida. Sem calcinha, na casa de um estranho, é verdade, mas você não tem provas. Vai sair uma foto dele me abraçando? O nome, a profissão. Modelo? Olhando daqui, pode ser. Tem estampa. Minha avó diria que ele tem apresentação, moço bonito. E tem tamanho, Vó. É magro. Deve ser mesmo modelo. Amanhã vai estar famoso. Eu sei, Vó, eu deveria me preservar mais. Vou tentar da próxima vez. Agora só me preocupa a calcinha que não acho. Isso eu aprendi, Vovó. Uma mulher não deve deixar vestígios. São nossas intimidades, minha neta. Mas como, Vozinha? Eu sou uma fábrica de pistas. Meu cabelo cai por onde passo. E essa tintura é única. Outro dia achei um fio na calcinha. Imagina quantos homens que apenas me cumprimentaram foram flagrados com cabelos meus na cueca. Esses fios são assim. Entram em tudo. Também sempre se solta um vidrilho do vestido. O batom, então? E os cheiros. Não dá pra recolher tudo isso. Pelo menos a calcinha! Eu sei,Vovó, eu sei. E se ele pegou de souvenir? Afinal, é uma calcinha de Bruna Bianchi. Um troféu! Ele tem de mostrar pros amigos. Não, não parece que seja isso. Eu devo ter perdido. A cueca dele está aqui, o nome da grife no cós. Ei, dela eu lembro saindo da calça, toda branquinha, embaixo da camisa transparente, a barriga absurdamente malhada, a virilha quase à mostra. Imprensa amada, Vovó querida, Bruna Bianchi é uma vadia. Está explicada a perdição em que me meti. Aquela saliência que começa na cintura e vai até lá embaixo, os pêlos começando discretamente, foi por ali, foi por ali … Veio tudo como um flash. Eu gostaria de me justificar, sabe? Foi uma tentação audiovisual, como nos melhores métodos de aprender línguas. Tinha aquele corpo atrás da transparência e uma voz dizendo algo como puxa, é como se você colocasse um espelho na frente das pessoas que lhe rodeiam, os fãs, os jornalistas. Este é o mundo que você vê. Viu, Ricardo, eu lhe traí com alguém que entende minha arte, ao contrário de você. Tá, isso que ele disse tava no release que mandei pra imprensa, mas eu estava bêbada. E você? Você não pareceu capaz de tirar uma folga deste filme idiota para ser o par de sua esposa. Já está há três meses neste fim de mundo. Ciúmes das índias, eu?. Elas não me preocupam com seus peitos caídos, suas barrigas inchadas. Acho que nem se interessam por um branquelo como você. O que me preocupa são essas atrizinhas de quinta, fazendo papel de índias, os seios duros de silicone, lhe chamando para um mergulho no rio. Não me volte com doenças, Ricardo. Se voltar, que seja malária. Vou me deliciar com as febres de fim de tarde. Ah! Meu amor, o que você me faz fazer? Lembra quando nos conhecemos, eu já estava muito bêbada. Você disse alguma coisa que não entendi, mas terminou me chamando de docinho. Eu não sabia o que responder, nem sabia a pergunta, mas aquele docinho sussurrado no ouvido .. eu não sabia o que fazer e abri a blusa. Você deve ter me achado uma louca. Depois eu ia dizer: foi sem pensar. Ia dizer que foi você quem me tirou a razão. Não foi nada disso. Eu apenas não sabia o que fazer. E uma mulher, assim perdida, assim sozinha numa noite mais triste que as outras, essa mulher, só porque não entendeu uma pergunta, é capaz de abrir a blusa, mostrar-se desafiadora. Foi só isso, Ricardo. Toda minha vida em suas mãos só porque você disse docinho no final de uma pergunta. Não sei se você queria ir ao banheiro ou se queria me pedir um beijo. Eu apenas abri a blusa e você ficou maravilhado com minha ousadia. Um botão pode decidir nossas vidas.
E agora, aqui estou eu neste chão de um apartamento estranho. Veja, vozinha, amigos jornalistas, registrem este momento. Podem fotografar. Eu não estou lá na melhor forma. Este camisão não me valoriza, estou com a maquiagem borrada, mas gostaria de aproveitar a oportunidade para falar de meu próximo projeto de teatro, um recital: Brutalmente Bruna. Eu completamente sem glamour, assim como estou agora. Sempre funciona. Se a ex-modelo se enfeia para o papel, já sobe de patamar, vira atriz. É o pedágio. Vou virar atriz, querida, e você vai ter de deixar suas ironias de lado nessa sua colunazinha de fofocas. Agora só vou aceitar críticas da Bárbara Heliodora, fofa. E eu também vou fazer o cenário e a luz. Veja essa fresta de sol sobre meus seios. Se eu me inclino pra frente, a luz ilumina meu rosto. Já dá uma chamadinha na TV, não é Ricardo. Sei, Vó. Pernas fechadas. Tenho de lembrar sempre de fechar as pernas na televisão. Mas eu vou usar calças. Uma mulher sempre está de pernas fechadas, minha neta, esteja usando o que for. Mesmo sem calcinhas, bêbada, usando só uma camisa de homem? Eu devia levantar e ir ao banheiro recompor este rosto. O que fazer sem maquiagem na bolsa? Só um batom. Água e sabão. E se o batom é rosa, pode ser o blush e a sombra. Uma mulher nunca deve estar inteiramente de cara limpa, principalmente nos momentos mais dramáticos. Esse prédio deve ter porteiro que certamente me conhece. Os porteiros conhecem todo mundo que é famoso. As revistas têm sempre de passar por eles. E quando você está na novela … Tenho de descer com toda a pose, roubar estes óculos do rapaz, esse dinheiro para o táxi. Melhor deixar um bilhete dizendo que peguei emprestado e vou devolver. Não. Nada de vestígios, não é Vó? Ele que pense o que quiser. Depois mando um pacote anônimo devolvendo tudo. Desfaz-se a impressão e ele vai ter certeza de que não é pra me procurar. Vou levar este casaco pra disfarçar o brilho do vestido. Estou uma gatuna. Se eu fosse uma princesa europeia, ia ter um batalhão de assessores pra esconder meus deslizes. Um telefonema e o serviço secreto invadiria o apartamento, depois de minha discreta saída, e sumiria com todos os vestígios. Se o rapaz não colaborasse, jamais trabalharia neste país. Um caso de segurança nacional. Mas eu só tenho minha Vozinha pra zelar por mim e um marido ausente. Ricardo não está nem aí. Ele ia adorar me pegar no pulo. É muito difícil para uma mulher não ser uma princesa. A calcinha? Vejamos uma resposta. Voz natural, enfado: Nossa, ela marcava muito através do vestido. Tirei e joguei no banheiro da galeria. Lembra que Carmem Miranda fez isso uma vez? Eu não podia imaginar que existissem pessoas tão doentes como esse rapaz. Roubar a calcinha de uma atriz como eu. Certamente um fã, mas um fã muito doente. E eles leiloam de tudo nessa internet. Como as pessoas são solitárias hoje em dia. Esse rapaz certamente só quer chamar atenção. Dada minha última entrevista, passo os olhos no apartamento. Simpático até. Desço pela escada os dezoito andares. Elevadores são perigosíssimos. Muita intimidade. É quase promíscuo. Lá pelo nono ouço uma ópera. Alguém ouve ópera de manhã cedo. Ainda bem que não moro aqui. Ópera? Eu quero a Gal aos berros, você me entende. A Gal rasgando a garganta. Saio sem olhar o porteiro na cara e caminho para uma rua transversal. Bairro agradável, nem estou longe do meu. Desvio do jornaleiro que abre sua banca, a rua deserta. Meus saltos são o único barulho nas pedras portuguesas. Não é tão fácil como estar numa passarela, mas coloco um pé em frente ao outro, ombros para trás, mãos nos bolsos do paletó, fixo o olhar num fotógrafo imaginário no horizonte e vou.
Flash!
(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado – 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55 e, mais recentemente, “Cada dia sobre a terra” (contos) – EPP Publicações e Publicidade, 2010. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)
Saber adentrar com maestria as searas do tempo pode significar um atributo deveras valioso a um autor. Na dinâmica das experiências vividas, a capacidade de reter instantes significativos em matéria de criação e depois lhes emprestar sentido, seja em palavras ou imagens, é tarefa especial. É então que o binômio saber e sabor, com a sua magnitude peculiar, perfaz a incerta estrada da criação para depois consolidar uma obra que se pretende autêntica e consistente. Ao pensar numa característica como esta, logo entendemos porque a trajetória de um alguém como W. J. Solha traduz perfeitamente tudo o que foi dito anteriormente. Esse paulista, radicado na Paraíba há alguns bons anos, lapida, a cada passo dado, uma condição diferenciada frente ao universo da arte. Verdadeiro multimídia, Solha assumiu papéis diversos no palco da vida, notadamente dentro das feições de escritor, artista plástico e ator de teatro e cinema. Em cada um deles, soube extrair do tempo os instrumentos necessários ao seu caminho.
No campo da escrita, o traço de W. J. Solha é inconfundível, sendo que a referência a aspectos importantes do percurso vivo de nossas humanas idades pode ser imediatamente reconhecida por quem se permite percorrer os olhos sobre suas letras. O autor de livros emblemáticos como Israel Rêmora (Romance), A Canga (Romance), História Universal da Angústia (Contos) e Relato de Prócula (Romance), dentre outros, agora nos oferta Marco do Mundo, obra que integra uma trilogia poética iniciada a partir de Trigal com Corvos. Assim como seu antecessor, Marco do Mundo se utiliza da perspectiva do poema longo, concatenando de modo preciso e envolvente uma estrutura de versos dotados de complexidade. A ideia do poeta face à angústia da criação é, sem dúvida alguma, o grande trunfo do livro. Some-se a esse aspecto o vigoroso painel de acontecimentos ligados à história da humanidade e que ajudam, sobremaneira, a erigir uma babel de alicerces poéticos bastante sólidos. Na conversa que agora segue, Solha fala sobre seu novo rebento literário, a opção por uma certa independência editorial, o porquê de ter deixado a pintura, além de alguns outros assuntos que permeiam suas andanças pelo terreno cultural.
DA – Logo em seu princípio, “Marco do Mundo” prepara o leitor para uma verdadeira incursão na complexa tarefa do fazer poético. A sensação ali é de que o escritor, antes de parir seus versos, se depara com um fosso abismal de proporções gigantescas, qual seja o mistério da criação em carne viva. Quem escreve é, de fato, um atormentado?
W. J. SOLHA – Criar, para mim, é um tormento. Renoir dizia que somente pintaria enquanto isso lhe trouxesse alegria. Feliz dele. Sofri tanto com os pincéis, que acabei por abandoná-los. Deixei de fazer teatro pelo mesmo motivo. E sofri como o diabo para interpretar meus papéis em O Som ao Redor – de Kléber Mendonça Filho – que está fazendo bela carreira no exterior, desde a estreia no começo de fevereiro, no festival de Roterdã, e sofri do mesmo modo no Era uma Vez Verônica, de Marcelo Gomes, ambos rodados no Recife. Não sei se dói mais assumir outra alma, como ator, ou criar uma nova, escrevendo. Porque é aquilo que diz Fernando Pessoa: Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. A diferença é que a literatura, a poesia, exige isolamento. Com a vantagem de que você é responsável apenas por você mesmo, quanto ao resultado que irá alcançar. No cinema, não: tem-se que pensar coletivamente. Atrás da câmera que faz um close seu, há quarenta pessoas trabalhando. No filme de Marcelo ainda havia um agravante: o apartamento de meu personagem ficava na Conselheiro Aguiar, a segunda rua depois da avenida Boa Viagem, com um trânsito enorme. E cada vez que eu e Hermila Guedes tínhamos uma cena em casa, o Detran parava o tráfego lá fora, pense no que significa isso. E o ator não só se arrisca, como arrisca a obra de alguém que é maior que ele, naquele momento: o diretor. Mas você percebeu bem: quando resolvi escrever o Marco do Mundo senti o salto que teria de dar. Tenho um quadro meu, antigo, em que se vê uma paisagem enorme, com um despenhadeiro altíssimo, e, lá em cima, inebriado pela beleza do que vê, um menino dá um salto, completamente nu, no imenso vazio.
DA – Aos poucos, “Marco do Mundo” vai edificando cada andar de uma tresloucada Babel, aglutinado uma profusão de seres das mais distintas eras. Como tecer a trama dos versos face a tais provocantes humanas idades?
W.J. SOLHA – Eu ainda não tinha a ideia de fazer um poema longo tipo marco, na linha de cordelistas como Ataíde e o Leandro Gomes de Barros, quando vi, mentalmente, a cena em que um contêiner se aproxima de uma torre em construção, trazido por um guindaste, e dele sai para ela, a fim de lhe ser um dos andares, uma noturna e esfuziantemente iluminada Quinta Avenida, de Nova Iorque, com todo seu trânsito e arranha-céus, ao som do clarinete da Rhapsody in Blue, do Gershwin. A essa imagem espontânea seguiram-se outras, como a de outro contêiner chegando, este trazendo uma manada de baios “sob uma nuvem que a bombardeia de raios”, outro vindo com o Arthur Bispo do Rosário e suas centenas de obras de arte, ele no Manto da Apresentação que criou para seu encontro com Deus, “que lá vem, Deus, apesar dos ateus, com tutti quanti angeli et archangeli”. Aí foi inevitável fazer vir com Arthur o Poeta do Absurdo, Zé Limeira, e me atrever a uns versos na linha dele. Na verdade, só a fascinação que tenho pela poesia do Limeira (ou dos que a criaram com seu nome) poderia me deflagrar a grande libertação poética que é o Marco do Mundo, como ele acabou se tornando uma espécie de repto aceito para superar os cordelistas, embora sem me servir do cordel, na loucura criativa que foram suas próprias babéis, publicadas em 1915 e 16 – o Marco do Meio do Mundo e Como Derribei o Marco do Meio do Mundo. Evidentemente, isso acarretou uma desenfreada farra de rimas de todos os tipos imagináveis, dentro de um ritmo alucinatório, com a intenção de induzir o leitor a acompanhar tudo como num filme – sem interrupções.
W. J. Solha - arquivo pessoal
DA – Dentro do percurso escolhido por você, é interessante pensar na noção de poema saga, fundada desde “Trigal com Corvos”. De que modo esse raciocínio consolida o propósito da trilogia?
W. J. SOLHA – A ideia é que em Trigal com Corvos centrei o mundo em mim. O poema longo foi gerado por minha angústia ante a obra a ser feita e que não me saía, de modo algum, satisfatória. O Marco do Mundo é uma visão da História que ocorre mesmo com a minha ausência. E agora estou trabalhando no Homem, daí o Ecce Homo, que é um título provisório. No entanto, assim como o Marco do Mundo não começou com a ideia que dominou depois, nele, não fiz o Trigal já pensando em três poemas longos formando um complexo poético. Como também não fiz as partes que compõem minha História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005) pensando numa coletânea. Tinha feito meus romanceamentos do Édipo e do Hamlet, um conto longo sobre o Rei Saul, outro sobre o menino Parsifal, e percebi, de repente, que estava trabalhando apenas com grandes angustiados. Daí a lembrança da História Universal da Infâmia do Borges e o título que enfeixou tudo.
DA – Algo serviu de modelo para “Marco do Mundo”?
W. J. SOLHA – Sempre tive fascínio pelo making of de um grande filme, pela análise como a que Ernest Jones faz do Hamlet, ou da criação de O Corvo, feita pelo próprio Poe, ou das traduções deste poema, feita por Ivo Barroso. Daí que resolvi que faria parte do Marco do Mundo a própria criação do Marco – fictícia, é claro – com o Poeta aparecendo como seu próprio personagem, que não sou eu, declarando sua poética e a luta para superar os cordelistas autores de marcos anteriores, luta que faz parte, aliás, das características dos marcos.
Muitos disseram que o Marco do Mundo é inanalisável – Ivo Barroso, Ruy Espinheira, Nilto Maciel – pelo que adianto a informação de que fiz o poema longo motivado pelo surrealismo que sempre existiu, independentemente de Breton-Dali, como no caso de nossos cordelistas Ataíde e Leandro Gomes de Barros com seus marcos, de Bosch e Brueghel com seus quadros no século XV, de Apuleio com seu Asno de Ouro no século II, e todas as religiões e/ou mitologias, em que Mercúrio voa, Moisés abre o Mar Vermelho, Jesus anda sobre as águas e multiplica pães e peixes, ressuscita os mortos, enquanto em nossas matas pululam sacis, curupiras e mulas sem cabeça. Jung dizia que as artes, religiões e sonhos provêm da mesma região de nossas mentes. Acredito nisso.
DA – Seus dois últimos livros são fruto de uma postura editorial independente, através da qual você mesmo driblou possíveis amarras e bancou a publicação de ambos. Foi melhor assim?
W. J. SOLHA – O que você acha? Estou pagando para escrever. Desde meu romance Relato de Prócula – que só saiu pela editora A Girafa quando me comprometi a comprar, dela, 500 exemplares, isso vem acontecendo. Ganhara a bolsa da Funarte com ele, para produzi-lo, ganhei, depois, um dos prêmios da UBE-Rio, mas nada disso adiantou. O fato é que W. J. Solha somente é ator de cinema, somente foi artista plástico, somente foi dramaturgo, somente é poeta… Porque existe um prosaico Waldemar José Solha, que trabalhou no Banco do Brasil por 28 anos para – como um mecenas – sustentá-lo.
DA – Dada a confissão que você fez agora, o que mais o impele a prosseguir?
W. J. SOLHA – A certeza de que o mecenas – o bancário aposentado Waldemar José Solha – sabe o que está fazendo, ou a Paraíba não teria, até hoje, seu primeiro longa-metragem, nem a UFPB teria um painel de 7,20 m de largura, composto de 36 telas – homenageando Shakespeare, nem o teatro de João Pessoa teria tido, entre os anos 86 e 90, nenhum espetáculo com texto e direção de W. J. Solha. O que pode não ser grande coisa, mas era o que havia para ocupar um vazio enorme enquanto não chegava Luiz Carlos Vasconcelos pra escrever e dirigir “O Vau de Sarapalha”, que repercutiu Brasil afora e nas estranjas.
DA – O cinema tem feito parte especial de sua vida há muito tempo. Muito do que você escreve tem, por sinal, um forte apelo imagético. Que balanço você faz dessa sua íntima relação com a sétima arte?
W. J. SOLHA – Hemingway dizia que frequentava os museus para aprender a escrever. Realmente, como me dediquei à pintura desde menino, a imagem tem sempre uma forte presença em tudo o que escrevo. Muitos, muitos de meus versos provêm de fotos de quadros ou simplesmente de fotos, pois tenho muitos livros sobre Arte e Fotografia. Mas a dinâmica de meus poemas e romances derivam do cinema, sim. Eisenstein dá o texto de Leonardo com o projeto de um quadro sobre o dilúvio (que faz parte do Marco do Mundo) como nada mais nada menos do que um roteiro cinematográfico. Claro, pois a pintura, ao contrário do que se supõe, não é estática. Se você não dá ao espectador o chamado “caminho do ôlho”, ele vai se perder na “leitura”. A vivência do cinema dá ao poeta e ao romancista uma aprendizagem nova: a de panorâmicas, zooms, cortes, closes, slow-motions. Usei a câmera lenta até no teatro. Em minha peça A Bátalha de OL contra o Gígante FERR, ante o problema de uma cena de duelo com espadas enormes, medievais, portanto perigosas, fiz a coisa toda como uma vagarosa dança que culmina com a morte de FERR. As cenas do Marco do Mundo – há uma fuzilaria dela, no poema – são todas como que de cinema. Deu-me muito trabalho, por sinal, o trecho em que chega à torre a cena de E o Vento Levou, em que Scarlet O’Hara vai à estação de estrada de ferro de Atlanta, atrás de socorro médico para a cunhada, e dá com aquela multidão de agonizantes e feridos da Guerra da Secessão.
DA – Há alguma razão em especial para você ter deixado de se dedicar à pintura?
W. J. SOLHA – Há duas: desde adolescente, vejo a rejeição que se faz ao figurativismo, que sempre me foi muito caro. Em 89, pintei meu painel A Ceia, no Sindicato dos Bancários, de cuja diretoria eu fazia parte, com Marx ,o lugar de Cristo, dizendo Um de vós me trairá, provocando aquela comoção leonardesca nos “discípulos” Mao, Allende, Che, Stálin, Trótski, Lênin, Fidel, Ho Chi Minh e Gorbatchev. Pois bem: lembro-me disso porque alguém, ao me ver pintando a tela de 3 metros e 60 de largo, mostrou-me uma reportagem da Folha de São Paulo dando conta de que uma exposição das obras de Lucian Freud – figurativista – estava com uma fila de virar quarteirão, em torno do Moma de Nova Iorque. Foi o último espasmo de “minha época”, que se esvaía entre meus dedos. Claro, fui a uma mostra de esculturas de Rodin no Recife, mas aquilo já encarado como coisa do passado, como uma sinfonia de Brahms. A outra razão foi essa angústia de que falamos no começo da entrevista. Passei seis meses trabalhando numa tela de dois metros e tanto de altura, em que atualizava o Jardim das Delícias, de Bosch. Passei nove meses fazendo um painel de sete metros e vinte de largura, que está na reitoria da UFPB, homenageando Shakespeare, mas… a insatisfação sempre enorme, sufocante. Van Eyck escrevia sempre, abaixo da assinatura, nas telas dele: “Faço o que posso”. Eu também fazia. Mas não era o suficiente. Aí, em 2004, fiz uma exposição com cerca de duzentos quadros e, sozinho no salão imenso, entre aquele mundo de esforço inútil, tomei a decisão: “Não pinto mais”.
DA – Voltando a “Marco do Mundo”, é possível perceber que o poeta, diante de um mundo eivado de informações, busca lapidar ao máximo o que pode lhe servir de instrumento criativo. Chama atenção nesse momento uma certa obsessão pela perfeição, pelo algo supremo. Para um escritor, de modo geral, tentar erguer uma obra monumental não constitui tarefa árdua demais e quiçá algo desnecessária?
W. J. SOLHA – Árdua, sim. Desnecessária, de modo algum. Pelo contrário, somos carentes de obras monumentais. Em todos os campos. E de perfeição em pequenas coisas, também. Foi o que Ariano Suassuna fez com o grandioso romance A Pedra do Reino e com a comédia nordestina Auto da Compadecida. A Itália se orgulha da Sistina, da Divina Comédia, como do Ladrões de Bicicletas e Amarcord. A busca da perfeição me incomoda, sim, mas porque é preciso ser gênio para consegui-la: trabalho, só, não resolve. E, evidentemente, de gênio não tenho nada. Por isso deixei de fazer teatro e de pintar. Continuo com a literatura porque é onde me sinto menos limitado. Havia jurado, também, não mais me meter em cinema. Houve insistência para que fizesse os testes para os filmes do Kleber e do Marcelo, já tive o alívio de ver que O Som ao Redor está se dando muito bem no exterior, apesar de minha presença. Sofro o suspense de como vai se sair o Era uma vez Verônica… e trabalho na terceira parte da trilogia de poemas longos. Como estou mandando de graça o Marco do Mundo a quem se interessar por ele, pelo menos ninguém poderá reclamar que perdeu dinheiro com o que escrevi.
W. J. Solha - arquivo pessoal
DA- A certa altura de “Marco do Mundo”, o poeta manipula o tempo, atravessa-lhe as entranhas para ver fluir o incorrigível espírito humano. Você acredita que o imediatismo é nosso equívoco maior?
W. J. SOLHA – Tenho a maior admiração pelos repentistas paraibanos. Oliveira de Panelas é assombroso, nisso. Em cima do ponteio da viola faz um discurso rimado em que menciona as flores do vestido de uma senhora presente, os olhos verdes de fulana de tal, também ali, ousando servir-se até do martelo agalopado, que são estrofes em dez versos com dez sílabas cada, todos acentuados na terceira, sexta e décima sílabas, com rimas obrigatórias do primeiro com o quarto e quinto versos, do segundo com o terceiro, do sexto com o sétimo, e do oitavo com o nono. Pense na cabeça desse cara enquanto ao mesmo tempo procura graça e beleza na composição. E isso tudo é … efêmero. Quem viu, viu, quem não viu… – rime você. Os autores de novelas de TV também têm de ser imediatistas, pois a crítica que recebem vem do IBOPE. Já os impressionistas foram, todos, mestres do vapt-vupt, mas Cèzanne dizia querer a arte dos museus. E a conseguiu, o que é juntar a fome com a vontade de comer. O perigoso é o imediatismo que vive embarcando em “ondas”. Portinari sai do Brasil acadêmico, volta da França cubista. O Cícero Dias, daqui do Recife, chagallizando. O que acredito é naquilo que você SENTE que tem de fazer. Meus dois últimos romances – Relato de Prócula e Arkáditch – foram os primeiros, suponho, a abordar a classe média urbana, nordestina, contemporânea. E o que me levou a participar dos dois longas pernambucanos – O Som ao Redor e Era uma vez Verônica, de Kleber Mendonça e Marcelo Gomes – foi justamente o fato de que foram os dois primeiros filmes a tomar o mesmo tema: classe média urbana nordestina, contemporânea. Há, em todas as gerações, tônicas dominantes. Como os ciclos do cacau e da cana de açúcar. A arte tem de se sintonizar ao seu espaço e ao seu tempo, para deixar, deles e neles, a sua marca d´água. Ou não terá feito nada.
DA – Com que olhos você acompanha a produção literária na contemporaneidade? Costuma manter um diálogo aproximado com novos autores?
W. J. SOLHA – Vivo alguma dificuldade para encontrar tempo suficiente para acompanhar o que se faz no Brasil e no mundo. Escrevo praticamente o dia todo, com a urgência a que a idade me obriga, pois não tenho a menor ideia de quanto tempo, ainda, disponho, com tanto que ainda tenho para dizer. Além do mais, escreve-se muito na Paraíba. Leio muita coisa inédita. Há pouco escrevi textos para orelhas e quartas capas de três autores premiados em concurso do Estado. Há um excelente romance de Tarcísio Pereira, O Autor da Novela, que obteve Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte há dois anos, ainda sem editor. Também li os originais de um bom livro de Marilia Arnaud, contista que se aventurou com sucesso no romance. Tirei um atraso, recentemente, comprando um lote de obras do Affonso Romano de Sant´Anna, a quem admiro muito. Fiz a quarta capa, também, há pouco tempo, de um belo romance do Carlos Trigueiro – Libido aos Pedaços – que saiu pela Record. Fiz uma resenha alentada do último romance do Esdras do Nascimento, A Rainha do Calçadão. Li os originais de um romance de primeira, do Hugo Almeida, mineiro lá de São Paulo, com título ainda provisório. Acabo de ler o maravilhoso O Corvo e suas traduções, do Ivo Barroso. Fiz uma entusiástica resenha da recente coletânea de poemas de Ruy Espinheira Filho, que saiu pela Global, etc, etc. Além do mais, meu modo de escrever exige muita pesquisa, e é no que dedico mais tempo, além da escrita propriamente dita.
DA – O mundo está mesmo dividido entre os que leem e os que não leem? Não acha que, nesse aspecto, subestimamos em demasia potencialidades humanas de apreensão da realidade?
W. J. SOLHA – Nunca dividi o mundo assim. Vivi oito anos no alto sertão paraibano, quatro dos quais como chefe da Carteira de Crédito Agrícola, quando tive a oportunidade de conhecer de perto matutos altamente “intiligentes”. Fiz, inclusive, uma comédia – Curicaca – a partir de vinte livros de José Cavalcanti, em que o grande personagem era, sempre, o cabra tremendamente esperto, como o João Grilo do Auto da Compadecida. Por outro lado, conheci muita gente culta, lá e em toda parte, que não criava absolutamente nada e era um eterno enrolado. Eu mesmo adoro deixar de lado minha face “intelectual”, de “escritor”, pra representar, quando me entrego completamente ao instinto. Jamais fiz escola de arte dramática e não lamento isso. Melhor ainda é que nunca fiz papel de nenhum “intelectual”, de “escritor”. Meu trabalho mais marcante no cinema, até agora, tinha sido o de um velho camponês embrutecido pela miséria – em A Canga, um curta de Marcus Vilar, baseado num trecho de minha novela homônima. Agora, aí está O Som ao Redor, o primeiro longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, bombando em Roterdã, Nova Iorque, São Francisco, já com presença em mais vinte e tantos festivais internacionais, incluindo o de Washington, Londres e Jerusalém, em que faço um velho ricaço afoito, em cujo apartamento não se vê nenhum livro. Acho ótimo sair de mim. Deixar, pelo menos temporariamente, de ser o que sou. Qual foi o livro que o Lula já leu, mesmo?
DA – Afinal, por que escrever?
W. J. SOLHA – Veja bem: trabalhei a maior parte de meu primeiro poema longo – Trigal com Corvos, lançado em 2004 – quando ainda era obrigado a meus expedientes no Banco do Brasil. Incluídas aí, também, várias retomadas, desistências ou trabalhos em outras áreas, o livro me tomou doze anos. Para o Marco do Mundo -aposentado – precisei de apenas quase quatro, incluídas aventuras no cinema e retoques finais em meus romances Relato de Prócula e Arkáditch. O que acontece, então, na fatura de um Trigal, na de um Marco? Você produz uma leitura que consome por volta de uma hora de um bom leitor. Uma leitura que custou a seu autor anos de esforço, uma concentração enorme de camadas e camadas e camadas de escrita. O resultado é que nunca me sinto à vontade quando alguém diz que quer me conhecer pessoalmente, porque nessa hora em que a pessoa estará comigo não terá absolutamente nada do que ela encontrou nesta ou naquela obra. Sou um sujeito sem carisma, sem nada de especial. E isso, evidentemente, vale também para a relação que tenho com meu livro pronto: reduzi a montanha de pedra bruta que foi esse eu-no-tempo, a um quilate ou dez de diamante ou de ouro. A enorme quantidade gestou uma minúscula qualidade que passa não só a me dar sentido à existência, como a me fornecer… respostas com a profundidade máxima, com a beleza máxima que me foi possível alcançar, a respeito de mim mesmo, pois, como dizia o oráculo de Delfos, Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás os deuses e o universo.
* Quem se interessar pela leitura de Marco do Mundo, poderá receber gratuitamente, pelo correio, um exemplar do livro. Basta entrar em contato com o autor, fornecendo nome e endereço, através do e-mail wjsolha@superig.com.br
o desejo é como água:
flui
circunda
onda mais alta
(de cor profunda)
o desejo é como água
(de mar ?):
sempre distante do porto
e o que fazer do corpo
apenas invólucro
– breve,
finito –
e, portanto, sequioso
do próprio desejo
em que se afunda ?
sobre o cetim da pele
desliza a veste que escolho
ou nenhuma veste
o desejo é como água:
flui reflui
escorre inunda
o corpo
(quem bebe ?)
***
DESDE O FOGO
Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.
Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.
Não quero essa alma que me queima:
de barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).
Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível restar calada.
Desde o fogo
a tristeza nos consome.
(Elizabeth Hazin publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e a Editora 7Letras publicou o livro escrito a quatro mãos com Davino Sena: Lêgo & Davinovich. Em 2010, foi re-publicado pela Vieira & Lent o Arco-Íris, poemas para crianças. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB – Universidade de Brasília)
O que se pode esperar de uma obra literária é que ela provoque, no mínimo, o estranhamento no leitor, arrancando-o do automatismo da vida ordinária. O leitor que se aventurar na leitura de ‘Notas de Pensamentos Incomuns’, de Anderson Fonseca (Editora Multifoco, 2011), será, com certeza, tocado por esse estranhamento. O livro é composto de minicontos, sem título, e quase sempre narrados em primeira pessoa, ou fragmentos que se articulam como se fizessem parte de uma única história, mas que, ao mesmo tempo, mantêm uma independência em relação ao todo. E esse já é um dado do estranhamento que o livro provoca, pois, ao final, sabemos tratar-se de uma obra cuja tessitura só se completa com a junção de todos esses fragmentos aparentemente autônomos.
E o estranhamento se aprofunda com a presença dos seres minúsculos, bizarros, fantásticos, que povoam o universo ficcional criado por Anderson Fonseca. Tamagotchi, Delírios, Gloeb, Jhungols, Flopers, Dabie-Dabie e Móbile são alguns dos estranhos personagens com os quais o leitor irá se deparar durante a leitura de ‘Notas de pensamentos incomuns’.
Alguns desses seres minúsculos habitam a cabeça (e às vezes dela brotam) ou outras partes do corpo de um quase sempre atormentado narrador-personagem. É o caso de Apple, um “bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso” que um dia escapa da cabeça do narrador-personagem: “E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que me lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça” (pág. 51). Às vezes esse processo de coabitação é mais radical, e o ser intruso penetra o corpo do narrador-personagem ou interfere na sua capacidade de articular o pensamento. Imagine uma mosca que pousa certo dia na mão do sujeito e, depois de algum tempo, já se encontra morando embaixo da sua pele. Ou seja, ele se torna o seu hospedeiro. Noutro miniconto, uma bactéria começa a interferir nos pensamentos do narrador-personagem. Diz ele: “Faz um tempo que meus pensamentos estão sob a regência de uma bactéria” (pág.85). E para que o leitor não ache que isso seja inverossímil, improvável, o narrador-personagem cita como argumento de apoio a matéria publicada na Scientific American confirmando a existência de uma bactéria capaz de “alterar o estado cognitivo do ser humano”. Mas nem precisava usar esse argumento, pois, desde o início, o leitor terá notado que a narrativa de Anderson Fonseca, nesse ‘Notas de pensamentos incomuns’, dá-se fora dos limites do realismo. O que se vê aí é a mais viva manifestação do fantástico e do absurdo.
E é nesse sentido, dessa forte presença do fantástico e do absurdo, que podemos falar das influências que permeiam essa obra de Anderson Fonseca. É visível o diálogo dessas suas narrativas curtas com a obra de Jorge Luís Borges (estão lá os espelhos que simulam outras realidades ou imagens, os corredores formando labirintos, o espírito de fábula), a de Julio Cortázar (o seres minúsculos e fabulosos lembrando cronópios, famas e esperanças), a de Kafka (a metamorfose, a sujeição do personagem a uma realidade que escapa à sua vontade) e, também, o universo mágico da obra de Escher. Esse, aliás, é citado literalmente numa das narrativas: “É embaraçoso viver numa casa desenhada por Escher, e muito mais embaraçoso saber que ela existe numa folha de papel…” (pág. 73). De tudo isso surge um texto de feições próprias, mas que mantém suas raízes fincadas na tradição que subverte o real.
Mais que qualquer outro mecanismo de forjar realidades, é a imaginação que prevalece nesses textos ficcionais de Anderson Fonseca. É da imaginação do narrador-personagem, do seu pensamento incomum, atormentado, que brotam todas essas notas e todos esses seres e universos perturbadores. E, aqui, o leitor irá se deparar com outro elemento que destoa do normal: o narrador-personagem e o autor fundem-se, aparentemente, numa só pessoa. O autor Anderson Fonseca, à maneira de Borges, se coloca na narrativa. (E os limites entre realidade e fantasia quase que se dissolvem.) Todo esse universo de perturbações e estranhamentos situa-se na sua mente. E diante da sugestão do médico para extirpá-lo (a cura mataria a capacidade criativa do autor), ele escolhe permanecer coabitando com os seres que, muitas das vezes, sugam a sua energia e a sua paz de espírito: “Vendo hoje o meu estado, tenho vontade de esmurrá-lo, lançá-lo para longe dos meus olhos; (…) me apeguei de tal modo a essa pequena criatura inocente, que sacrificá-la seria o mesmo que me destruir”, diz ele sobre Gloeb (pág. 18). Criador e criatura estão, nesse caso, unidos de maneira indissociável. Criar é, de certa maneira, deixar-se habitar pela existência do ser criado. E o leitor que se aventurou por esses estranhos mundos criados por Anderson Fonseca não escapará ileso: os minúsculos seres que pululam na mente do autor, ou do narrador-personagem, passam a habitar também agora a sua imaginação.
(Geraldo Limanasceu em Planaltina, GO, em 1959. Mora, atualmente, em Sobradinho, DF. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, escritor e dramaturgo. Já publicou seis livros, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF),UM (romance, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites:O BULE,Dona Zica tá brabaePortal Entretextos: Colabora com o Jornal Opção,em Goiânia, o Jornal de Sobradinho e aRevista TriploV. Contato: gera.lima@brturbo.com.br)
ASSIMETRIA, ESBOÇO E PROJEÇÃO: A ARTE DE FELIPE STEFANI
Por Hilton Valeriano
Desenho: Felipe Stefani
Pode a arte apreender o movimento primevo do nascer das coisas e dos seres, de seus gestos, acontecimentos, vivências? Antes do fato, os sonhos; antes do anseio, os projetos; sempre a possibilidade. Os desenhosdeFelipe Stefani, artista convicto em seu ofício, parecem demonstrar o fluxo premente da existência antes de sua realização nas dimensões da temporalidade. Uma obra marcada por traços assimétricos, onde início e fim confluem, onde o desfecho paradoxalmente inconcluso expressa formas vindouras, repletas da instabilidade característica do movimento, e que revelam um intento permanente de criação. Longe de uma mera abstração sintética, seus desenhos manifestam a forma, isenta de toda matéria, em seu prenúncio. Sua subjetividade de artista busca o instante nascedouro, o esboço humano de concretização, o que nos leva à questão da definição de um ser em sua essência.
Se as ações do homem não o definem como um ser estático, mas sim como um ser sempre projetado, o espaço aberto, espaço esse constitutivo da liberdade em suas múltiplas escolhas, ou seja, o futuro, evidencia o campo de possibilidades nunca definidas, nunca concretizadas, a continuidade da vida como fluxo de projetos a se realizarem como significação provisória. Assim, podemos pensar os desenhos de Felipe Stefani nas suas dimensões estéticas em três planos analíticos: assimetria, esboço como forma inconclusa e espaço de projeção.
Desenho: Felipe Stefani
Assimetria
Tendo a ação humana como realização de seu intento a possibilidade ou não de concretização, transposta para o âmbito da arte como subjetividade criadora, seus traços, simbolicamente representados como projeções, só podem ter a assimetria como apreensão do movimento intencional característico do humano em sua manifestação.
Esboço como forma inconclusa
A possibilidade de concretização da ação humana revela o projeto como significação, como instaurador de sentido, mas sendo possibilidade, só pode manifestar o esboço em seu anseio de realização, ou seja, sua forma inconclusa porque não determinada.
Espaço de projeção
Apreender a ação humana em seu intento e simultaneamente mostrar toda a dimensão provisória de sua realização, toda a possibilidade ou não de concretização de seus anseios, revela a principal característica do homem: a liberdade. A liberdade como dimensão definidora do homem, como sua essência, só pode ser percebida nos desenhos de Felipe Stefani se prestarmos atenção na relação estrutural, semântica existente entre os seus desenhos e a folha branca, que se apresenta como espaço de projeção. Seus desenhos parecem nascer, brotar da folha branca como um sentido a clamar pelo homem.
A estética de Felipe Stefani ecoa as palavras do poeta Murilo Mendes: “O homem é um ser futuro. Um dia seremos visíveis.”
Desenho: Felipe Stefani
(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)