Categorias
Galeria

Desenho: Felipe Stefani

Categorias
Galeria

Desenho: Felipe Stefani

Categorias
67ª Leva - 05/2012 Destaques Outras Levas

Janela Poética I

Desenho: Felipe Stefani

CÍRCULO DE SANGUE

Edson Bueno de Camargo

 

carrego a sede
de desertos
e a certeza perene
da repetição do verso
costurada
nos dentes

sou dos homens
que trazem
um círculo de sangue
na parte superior
da mão

e as palmas limpas
como areia de aluvião
das que repousam
o fundo das torrentes
depois de secas
as chuvas

 

 

***

 

LILITH

 

entre a escolha
entre a mulher virtuosa
e a que caminha sinuosa

embora cindido
eu prefiro a que tenha asas

que me beije como um anjo
e escolha a posição que quiser

 

 

(Edson Bueno de Camargo foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica” com cheiro de máquinas. Escreve desde muito jovem, sempre muito prolixo. Na maturidade, passou a ter uma relação com a poesia que vai para além da literatura, a poesia é sua experimentação do sagrado. Escrever poesia é seu tempo do sonho)

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Kenia Vartan

Depois de um longo caminho trilhado, a Revista Diversos Afins volta suas atenções para a concepção de um novo espaço de publicações. Se é certo que, através dos tempos, a perspectiva de mudança ergue-se como companheira inseparável de muitas iniciativas desse porte, não seria diferente com o trabalho contemplado por nós. A vontade de ofertar aos leitores possibilidades, cada vez mais profundas de experimentar os signos aqui sempre exalados, fez-nos arrumar a casa em direção a novos rumos. Uma outra estrutura afigura-se agora bem diante de nossa trajetória, reportando-nos ao incessante desafio de mantermos a tônica viva de nossos propósitos. E esse é um caminho que nunca encerra bases definitivas, pois, a cada edição erguida, lidamos com a complexa tarefa do aprendizado. Seja em critérios formais ou subjetivos, a busca pela qualidade segue como sendo nosso objetivo principal. Dentro dela, a oportunidade de estabelecer uma conexão entre as expressões dos autores e artistas e os leitores constitui verdadeira missão, muitas vezes calcada em valiosas revelações criativas. A nova etapa de vida da revista contempla um vasto panorama visual, reforçando ainda mais o diálogo entre imagens e palavras expostas. Como forma necessária e inalienável de preservação de nossa memória editorial, nossas Levas anteriores permanecem vivas dentro do antigo site, proporcionando aos visitantes um autêntico percurso histórico pelo que já publicamos. Sendo o marco de um nascente tempo, a 66ª Leva aponta descobertas valiosas. Exemplo disso está na exposição fotográfica da amazonense Kenia Vartan, que traz um olhar especial sobre pessoas e lugares.  Nossas janelas poéticas abrem-se aos versos de Wesley Peres, Ana Vieira, Roberta Tostes, Felipe Stefani, Alice Macedo e Anna Apolinário. Falando sobre improvisação, o ator e diretor Rafael Morais promove a estreia do Jogo de Cena, caderno que aborda reflexões sobre teatro. Numa entrevista, o fotógrafo Márcio Vasconcelos fala sobre sua trajetória em torno da fotografia documental. Larissa Mendes apresenta sua mais nova dica cinéfila, o longa Medianeras. A pungência dos contos de Gerusa Leal e Jorge Mendes atravessa recortes de vida. O escritor Jorge Elias Neto traduz o poeta espanhol Ángel González. Por aqui, também as escutas do mais novo disco da banda Mundo Livre S.A. Com ânimo redobrado e brilho nos olhos, seguimos adiante. Agradecemos a todos os leitores e colaboradores por tudo o que trilhamos até hoje, em especial a Ana Peluso e Antonio Paim, parceiros responsáveis pela materialização deste novo ambiente.

Saudações sempre culturais,

Os Leveiros

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Foto: Kenia Vartan

 

 

ANÍMICO ANIMAL

Roberta Tostes Daniel

 

Petrificado pelas sensações.
Um bicho. Transmuta
Dor de si. Calcário,
Prende no rosto da rocha
Um reino de pesar. Pensa
Sob seu magma, sente
A poeira nas formas:
Sedimentária magia.
Requenta um passado
De fome. Um nome
Sublima a meninice do homem.
O anímico animal crava os dentes
No sangue da rosa. O peito
Como o diabo gosta:
Santa candeia de artérias.
Um servo: de querer bem ao corpo;
Um passo: rumo a tudo que varre;
Um sopro: de abismo e de glória.
Poente, um deus que venta o rio.
Senhor de fogo, de frio,
Ferve o eterno.
Verve do querer.

 

***

 

COMO PALAVRA
Palavras, evocações que faço
Beberagens do desconhecido
Sob a areia dos meus pés
Fortuitamente, o delírio.

O jorro profundo o silêncio
Seminal do indizível
A liturgia do poema.

Clivada de oculto, não meço
Que levo uma espécie
De vida dupla, movediça
Transubstancio-me na coisa

Da lida da lira.
Como palavra me abro
Ao rito vertida.

 

(Roberta Tostes Daniel, carioca nascida em 1981. Colaborou recentemente na Miniantologia poética do Centro Cultural São Paulo. Publicará na próxima edição da revista Zunái e no segundo volume da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel)

 

 

 

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Medianeras (Medianeras – Buenos Aires en la era del Amor Virtual). Argentina/Espanha/Alemanha. 2011.

 

“A Internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”.

Como não soar clichê num drama romântico em tempos de arrobas? Pergunte a Gustavo Taretto. Escrita e dirigida por este argentino estreante em longas-metragens, Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, é o desdobramento de um curta idealizado pelo cineasta em 2005. Apesar do subtítulo provinciano e desnecessário, o filme é de uma universalidade singular. A temática não é o sentido do amor em si e tampouco o revés tecnológico, mas a solidão paralisante de jovens adultos que julgam já ter provado sua cota de desencontros e de ‘para sempre’ via chat ou sms. A mesma geração de amores delivery, velozes e ambulantes, que discam M para matar a fome de amar, vegetam aqui no jejum da sozinhez.

Martin (Javier Drolas) é um metódico e recluso web-designer, aficionado por games e compras virtuais. Sua verdadeira ligação com a vida real é Susú, cachorrinha herdada do relacionamento com a ex-namorada americana que voltou para sua pátria mãe. Mariana (Pilar López de Ayala) é uma arquiteta com fobia de elevadores. Ganha a vida como vitrinista, talvez por identificar-se com o silêncio e inércia dos manequins que produz, sobretudo desde que rompeu uma relação de quatro anos. Martin e Mariana moram na mesma rua, mas sequer se conhecem. Estão separados por suas respectivas medianeras, aquela parede lateral cega do edifício, inútil, destinada à publicidade ou que fica simplesmente esquecida, ‘como a sujeira que escondemos embaixo do tapete’.

O roteiro é altamente sagaz, humano e divertido e atinge seu ápice nas reflexões dos protagonistas sobre os relacionamentos e a vida. Momentos como quando Martin culpa a arquitetura por todos os seus infortúnios, compara um encontro a um lanche do Mc Donald’s ou faz uma análise nerd da atualidade (há algo mais desolador no século XXI que não ter nenhum e-mail na caixa de entrada?); e quando Mariana afirma que a busca de um amor é mais complexa que encontrar Wally, o enigmático personagem de camiseta listrada do ilustrador Martin Handford (‘se, mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo achar, como vou achar quem eu procuro se nem sei como é?’).

Tal qual seu hermano O Homem ao Lado (2009), a arquitetura aparece como um terceiro protagonista e elemento fundamental para a trama. Ambos os filmes exploram a diversidade arquitetônica de Buenos Aires para justificar todos nossos males, sejam eles sociais ou pessoais, as irregularidades estéticas e éticas da cidade e do ser humano. E estas pequenas aberturas feitas nas medianeras em busca de “un poquito del sol”, mais que fendas solares ou frestas de ventilação, servem como consolo – ainda que provisório – a nossa própria falta de planejamento emocional. E na prática portenha, em casos mais graves, motivo de disputas judiciais. Afinal, ‘o que se pode esperar de uma cidade que dá as costas para o seu rio?’, critica Martin em determinado ponto.

Reais ou virtuais, o fato é que as ventanas sempre serviram para nos aproximar de algo, seja dos boatos cotidianos do quarteirão, do universo paralelo de Bill Gates ou do chat mais próximo. E cá da janela, eu me pergunto: onde está mesmo Wally?

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

NOTURNO

Felipe Stefani

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Nos estreitos breves
a arte íngreme
de ser,
frente às faces do mundo.

A margens se re-
dobram nas entranhas das luas.

As barcas sonham a distância das flautas.

Fendido ao tempo feito
um canal,
nos orifícios cegos do fôlego,
basta
aquilo que arrefece.

A inocência do mar submerge as cítaras.

 


Desenho: Felipe Stefani

V

Colossal angústia
da muda serpente
que passa rente
à inexistência.

O inefável labirinto absoluto
está em tudo.

A essência é o enigma,

e a morte toca as margens
com dedos surdos.

Somos o estigma do vento
na estiagem do infinito.

 

(Felipe Stefani é poeta e artista plástico. Nasceu em São Paulo em 1975. Tem os desenhos publicados no site Sodesenho. Ilustrador, já ilustrou muitos livros de outros escritores, e também seus dois livros de poemas já lançados: “O Corpo Possível” (2008), pelo coletivo Dulcinéia Catadora e “Verso Para Outro Sentido” (2010), pela Escrituras Editora. Prefere que sua arte fale por si mesma)

 

 

 

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

MUNDO LIVRE S.A. – NOVAS LENDAS DA ETNIA TOSHI BABAA


 

Depois de alguns anos sem gravar, eis que os pernambucanos do Mundo Livre S.A. atacam de novo e intensamente. Com uma pegada que mistura letras irreverentes e bem dosadas de críticas voltadas aos efeitos míopes de nossos tempos, a trupe comandada por Fred Zeroquatro não se cansa de ser afirmativa naquilo que melhor sabe fazer: construir um caminho próprio e eivado daquilo que acredita ser o fundamental. Diga-se de passagem, o próprio Fred, que assina todas as letras do novo álbum, acaba por consolidar uma estética que vem se desenhando ao longo da trajetória do grupo, verdadeira teia de ideias a torpedear sentidos necessários ao tresloucado mundo que nos cerca.

Sem dúvida alguma, o que mais chama atenção no trabalho da banda são os elementos construtores do discurso. É como se, a cada disco, um capítulo de um extenso livro fosse escrito de forma pungente e continuada. Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa é apenas um pretexto para deixar correr solto um universo paralelo de coisas que explodem aos quatro cantos do mundo. O nome, por si só, encerra um vasto painel pictórico de possibilidades e mexe bem com os brios da famigerada contemporaneidade. Aqui, vale também ressaltar a expressividade da arte de Derlon Almeida exposta na capa do cd.

Despaginando cada trecho dessa história agora contada, uma profusão de temas flutua nas mais variadas dimensões sonoras presentes no álbum. E exemplos dessa miríade de sensações não faltam. Há espaço para um vigoroso sentimento urbano nos apelos de Constelação Carinhoca 7324, faixa que também devota as atenções para a consciência ecológica. Noutro ponto, Se Eu Tivesse Fé – Fucking Shit vai fundo na racionalidade para questionar enlaces religiosos. Em Soneto do Envelhecido sem Pretexto, a sensação maior fica por conta de uma verve poética devidamente entonada sob a forma de um lúcido clamor. Uma controvertida negação à solidão se faz presente em Nenhum Cristão na Via Láctea.

Com 25 anos percorridos, a Mundo Livre S.A. não economiza nos arranjos de seu mais novo rebento e põe sua sonoridade a toda prova. Mesclando com precisão música e conteúdo, a banda mostra que os caminhos permanecem abertos a outros tantos arremates. O apelo lendário encerrado no nome de batismo do disco é valioso propósito para deslocar o foco em torno da escamoteada realidade em que pactuamos viver. Resta-nos a percepção do rumo das coisas, antes que o vento se encarregue de espalhar desavisadamente as páginas que mal sabemos escrever.

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Foto: Kenia Vartan

 

 

A PEQUENINA MORTE

Alice Macedo Campos

 

há uma hora em que uma pequenina morte vem até mim,
como uma flor que cresce timidamente no pathos da memória.
dir-se-ia que a pedra inteira do meu corpo
se atira completamente ao mar.
o buraco que o meu peso abre nas ondas é a âncora,
a concha invisível e segura, onde o meu ser mergulha no âmnio,
qual ínfimo peixe à procura de um ovo.
nesses momentos de pura distracção,
o pensamento é um olho autónomo,
fixado em qualquer ponto distante,
não exterior a mim.
onde estás, alice?, perguntam.
e eu não sei responder.
não sei se estou no lugar da lucidez ou da loucura.
gosto de sentir o movimento das ondas e boiar entre elas.
quando eu morrer,
tenho a certeza que esta flor me sai pela boca.
atirem-na ao mar.

 

***

 

a linguagem pára diante da mulher, corpo a corpo
se encaram e se entregam, as melhores palavras, as
que chegam em bandejas de prata, com a escama ainda
exposta, e o sangue, avançam como éguas, ouve-se daqui
o seu galope, deslizam na pele à velocidade dos meus pulsos,
e correm. estavam porém um espelho e a minha voz deste lado,
a luz claramente acesa sobre o medo, pronta a cegar-nos os olhos
e a boca fechada, a gramática impura dos amantes fez do verbo estar
um filme que acontece fora de nós, na paisagem e nos brilhos, onde a
música toca um instrumento tântrico que nos adversa, na hora de cantar.

 

***

 

(passam sobre mim os dias, extenuantes. o que sei é que
existir adquiriu  um peso insuportável. visto-me de manhã,
e observo os meus gestos, como se outra mulher fora de mim,
ainda nua e ensonada, retivesse no seio a vaca da tristeza.
suponho que permanece no quarto, deitada na minha cama,
enquanto finjo, ou procuro a normalidade, até à hora de dormir).

 

 

(A poeta Alice Macedo Campos nasceu em Penafiel, distrito do Porto, Norte de Portugal. É licenciada em Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho. Publicou “o ciclo menstrual da noite” (Edium Editores, 2008), “um cão em cada dedo” (Incomunidade, 2010) e “a mulher sus.pensa” (Edita-me, 2011))

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Dedos de Prosa

Dedos de prosa II

COSTUME

Gerusa Leal

 

Foto: Kenia Vartan

 

Escorada na porta, olho para a cozinha: tamboretes, mesa e armário de louça enegrecidos pelo tempo, panelas, conchas e peneiras cansados pelo uso suspensos no ar por ganchos fixos no teto, a noite já bem instalada.

Em que momento havia começado a me acostumar?

O menino brinca e sorri, neto em casa de avó. Aparece de vez em quando. Não pede comida, não quebra nada, não fala, não geme nem suspira. Minha filha adorava brincar com ele, que sorria e brincava com ela de igual para igual.

Acho que por isso tudo, e porque não pede doce nem missa, também fui me acostumando.

Depois de circular para lá e para cá o dia inteiro cuidando da casa, nem pra comer se senta, Da Paz enxuga e guarda a louça do jantar e eu me sento no tamborete ao lado do fogão escutando as dez badaladas no relógio do corredor. Ela tropeça no cachorro deitado ao lado do menino, atento à brincadeira, xinga alguma coisa, pergunta se ainda preciso dela, dá boa noite e some no corredor.

Às vezes chegava a pensar, nesse trajeto sem pouso, que nada me faria mais sair da cama; que nada me restava a não ser esperar pelo nada ao final desse sertão de solo rachado, riachos secos e arbustos retorcidos. Mas havia, sim, havia algo. Ouço a risada infantil e sinto no ar o cheiro do sabonete do banho recém tomado e saboreio esse perfume como se fosse alegria.

O rosto pousado na mão, o cotovelo apoiado na perna, olho o menino girando o pião, que avança pelo piso sem se abalar pelas falhas e tábuas soltas. Mas ele está ainda muito lá adiante. Concentro-me no percurso do pião.

Em qual tábua solta é que foi mesmo que eu parei de girar?

Estamos fazendo companhia um ao outro desde o entardecer. Minha filha chega na porta, estira os olhos até o cachorro deitado ao lado do menino e pensa:

– Já devem ser dez horas.

Depois de conferir se a janela está fechada, some no corredor.

Hoje somos só nós duas e minha neta, Gabriela. Não faz muito, éramos quatro, mas fomos nos dispersando até só restarmos nós. Primeiro foi o menino, depois meu marido, pai de Sandra. Da Paz ainda ficou mais um tempo, mas depois também se foi.

O pião bambeia e para a meus pés: não ouso tocá-lo, chuto de volta para o menino, que me sorri e volta a brincar. Continua a sorrir e a brincar até que, de repente, se vai. Eu sei que ele foi ao quarto de Gabriela. Fecho o casaco sobre o peito, esfrego as mãos para aquecê-las.

Não falamos muito uma com a outra. Já faz tempo que se acabou qualquer assunto que importe. Acabou-se com o silêncio que reina na casa. Sei que ela conversaria se eu quisesse, mas não tenho vontade. As palavras não se formam, e quando alguma passa pelo pensamento, não tem força pra mover a língua. É assim. Por isso não falamos muito.

O cachorro abaixa as orelhas, pousa o focinho sobre as patas e começa a cochilar.

Cai uma gota da torneira, fazendo um som surdo na cuba da pia. Outra começa a se formar, fico esperando que engorde e caia também. Mas ela fica lá, pendurada. Não cresce. Não despenca. O vento sopra nuvens que passam transparentes pelo alto da mangueira, e a gota pendurada finalmente cai.

Sandra passa por mim puxando a gola do robe sobre o pescoço, bebe um copo de água recostada no balcão, os olhos perdidos na noite que entra pela janela. Costumava sonhar muito com minha filha no início, sempre criança, brincando com o menino. Não lembro quando parei de sonhar. Acho que foi quando nasceu minha neta, Gabriela.

Sandra também não sonhou mais. Acorda todas as noites na mesma hora, e vem à cozinha beber água.

Ouço o riso de Gabriela, de lá do berço no quartinho pintado de azul, ao lado do quarto da mãe. Sandra também escuta, seu rosto se anima, e a passos largos some outra vez no corredor.

(Gerusa Leal é escritora entre o conto e o poema. Psicóloga de formação, leitora crônica. Pernambucana, recifense, reside em Olinda. Tem escritos publicados em várias coletâneas e antologias impressas e virtuais. Alguns contos e poemas premiados isoladamente e seu primeiro livro-solo, “Versilêncios”, é Prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007 da Academia Pernambucana de Letras)