Foto: Lu Brito

Arriscamos dizer que há mais dúvidas do que certezas pairando sobre nossas cabeças sempre inquietas. A dúvida é, por si só, combustível do ato espantado de existir. E entendamos aqui por espanto não a obviedade primeira do susto, mas o incômodo capaz de nos movimentar e levar a questionamentos e ações mais efetivos sobre as coisas que nos acossam. A criação motivada pelos imperativos da arte parece ser eterna companheira desse vasto espaço de incertezas. E o fascínio sobre aquilo que desconhecemos e não dominamos pode levar a resultados dos mais instigantes. Um escritor ou um artista visual, por exemplo, flertam com o abismo na medida em que seus passos estão desgarrados da ideia de controle sobre as coisas. Explicando melhor, é considerar que certos resultados são pretendidos, mas estes nem sempre acontecem pelas vias naturais dos arremates desejados. Ao mesmo tempo, não se ter respostas para tudo pode gerar a fagulha do alerta permanente, sensação que faz com que criadores nunca se deem por satisfeitos com primeiras soluções e, desse modo, busquem o aperfeiçoamento de suas investidas recusando qualquer tentativa de acomodação diante de qualquer resposta que se mostre facilmente sedutora. Literatura, cinema, música, teatro, dentre outras expressões do delirante espírito humano, são tributários das inquietações que jamais cessam em nós. No trabalho de observação que fazemos aqui na revista, notamos uma imensa paisagem por onde transitam as mais diferentes subjetividades e seus projetos de mover suas apostas para além da incerteza. É quando notamos, por exemplo, o gesto que desacomoda coisas nos poemas de gente como JP Schwenck, Bruna Baldez, Anna Clara de Vitto, Helena Aranha e Ilza Carla Reis. Na entrevista feita por Rogério Coutinho com o escritor Rodolfo Guimarães Neves, assinaladas estão algumas reflexões pungentes sobre literatura, filosofia, cinema e política, dentre outros alvos. É Sandro Ornellas quem nos mostra as veredas de “A teoria da felicidade”, mais novo e sensível rebento da escritora Kátia Borges. No caderno de cinema, Guilherme Preger explora a temática das experimentações do real tidas no filme “Notturno”, do diretor Gianfranco Rosi. Por sua vez, Larissa Mendes traz à tona suas escutas precisas para o álbum “Inteiro Metade”, de Tagua Tagua. Nos contos de Márcia Barbieri, Alessandra Barcelar e Adriano B. Espíndola Santos, sintomas amplificados da condição humana. Na resenha de Gustavo Rios, atenções pormenorizadas percorrem “Cães”, romance de Júlia Grilo. Cruzam todas as esquinas e alamedas de nossa edição as ilustrações de Marjorie Duarte, artista que se move vigorosa pelas urgências do tempo e da avidez em comunicar mundos através de seu engenho criativo. Com toda essa reunião de potentes vozes, caras leitoras e leitores, trazemos com ânimo renovado a 143ª Leva. Bons mergulhos!
Os Leveiros
Alessandra Barcelar

ABUSO
– Tire a roupa, sussurrou.
– Não, papai, por favor, não.
– Disse que tire. Agora!
– Papai, não quero, não me faça…
– Faça isso, tire. É uma ordem.
Envergonhada e com lágrimas nos olhos a menina livrou-se da roupa lentamente.
O homem ao ver a pele nua da filha, não pode fazer outra coisa que chorar. Sentiu-se miserável, impotente, desgraçado. Abraçou a filha e beijou-lhe a testa.
– Devemos denunciar a mamãe – disse o homem acariciando a pele da filha, enquanto suas lágrimas caíam sobre as queimaduras de cigarro em sua pele.
***
ELA
Observo uma foto em que aparecemos os dois.
Ela está feliz, me abraçando e sorrindo para a câmera.
Logo viro a cabeça e vejo seu cadáver no chão. O sangue segue escoando de sua cabeça. Penso que deixou de me amar, e que, de certo modo, sou culpado pelo que acaba de acontecer.
Me aproximo dela, gemendo de tristeza, me encosto a seu lado.
Depois de um tempo os vizinhos derrubaram a porta, me jogam de lado e apontam o revólver em suas mãos.
E enquanto tudo isso acontece, eu só posso latir e abanar o rabo com medo.
***
NOCTÂMBULOS
Os animais noturnos não se importam com a cor da lua, se ela está cheia ou é um quarto minguante, eles só procuram os efeitos de um raio de luz para mitigar seu pensamento.
Andam insatisfeitos à caça de sonhos e se infiltram nos aromas salgados das almas que parecem solitárias.
Com as letras não só o seu nome existe, também se escuta sua voz.
***
ALUCINAÇÃO
– Esquizofrenia – disse o psiquiatra – Na verdade o caso mais célebre dessa clínica.
– Se refere à essa criança? Parece-me tão inocente.
– Creia-me, não é! Assassinou a avó brutalmente com um machado.
– Sério? Ao menos disse o por quê?
– Bem, repetiu várias vezes que sua avó na realidade, era um lobo disfarçado.
***
UM HOTEL NUM QUADRO DE HOPPER
O amor é um hotel no meio da tempestade, que apagou as luzes assim que me viu se aproximando. A realidade se disfarçou de ficção, mas daqui posso ver o fechamento de seu traje. A felicidade me toca, mas sempre coloca luvas.
***
A SACOLA
A morte bateu na porta e a pequena Giovanna foi quem abriu. -Onde está tua mãe? Perguntou a Morte, em seu vestido preto, seus cabelos ruivos e suas pupilas de fogo cinza.
A garota já a conhecia. Ela a vira há dois meses, no dia em que sua avó não se levantou mais. “Siga-me”, disse a pequena Giovanna.
Elas caminharam até o final do corredor e chegaram a uma porta, que a garota abriu para demonstrar boas maneiras. O interior estava completamente escuro. As cortinas fechadas e a janela trancada roubaram as cores da sala. “Obrigada”, disse a morte em sua voz rouca e sensual. Ela entrou e saiu um minuto depois, com um coração em uma sacola de pano.
Quando a morte foi embora, a pequena Giovanna foi até a cozinha, chegando ao exato momento em que uma mulher com o rosto machucado e ferido se jogou de uma cadeira. No entanto, a corda em seu pescoço, por algum motivo inexplicável, quebrou como se fosse borracha. “Mãe”, a menininha murmurou e a mulher virou-se imediatamente. Ela chorou envergonhada e abraçou sua filha como nunca antes. “Mamãe, lê um livro pra mim?” “Eu não posso Giovanna, eu devo cozinhar para quando seu pai acordar.” “Eu não me preocuparia com isso.” Eu não acho que ele se levanta – a garotinha disse antes de pegar um livro.
Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, atua na área de Economia da Saúde. Publicou contos em revistas literárias do Brasil, Portugal, Argentina e Alemanha. Participou em 2019 como jurada do prêmio VIP de Literatura (Categoria Contos); colaborou na coletânea Mitos Modernos I, que recebeu o prêmio Le Blanc de Literatura e Arte Sequencial, como melhor Antologia de 2018. Atualmente é organizadora de uma coletânea de contos sobre realismo mágico.
Anna Clara de Vitto

arrebentação
o mar
vindo desmaiar aos nossos pés
o sangue do sol se dissolvendo
nos beijos salgados d’água na areia
onde um olhar mais cuidadoso
desvendaria pegadas
apagadas
porém ainda minhas
procuro inutilmente
na fotografia recém tirada
um pedaço de felicidade
sobrevivente
***
atenciosamente
antes que os caminhos
desapareçam sob a chuva,
olha-me de perto
à luz das pedras, sou outra
olha-me mais uma vez:
ignora as lamparinas falsas
sou medusa vitoriosa
se não te pareço monstro,
olha-me de novo
mais sóbrio
***
qual o foco exato
do sismo definitivo?
qual a linha entre imensos
tectônicos?
qual a linha da vida
na palma das placas?
qual sua parte e
qual a minha?
seremos nós
a ameaça ao mapa?
***
a mulher sem mãos conta os dias
em comprimidos
e no crescimento dos fios de cabelo
diligentemente arrancados antes
do colapso dos sistemas de saúde
bonito é quando cicatriza — ela repisa
e se contenta: não sabe mais do passar das semanas
bonito é quando cicatriza — reprisa
e mede as horas nas unhas que se refazem
após os cortes programados
os minutos na tampa do dedo arrancada
durante o preparo do jantar
os segundos nas gotas do ansiolítico
e sobretudo nos mantras mentalmente entoados
enquanto a mulher sem mãos ensaboa
cotovelos
antebraços
punhos
palmas
parabéns-pra-você
enquanto isso
ossos expostos
sob a água pandêmica da torneira
inauguram
novo calendário
***
142ª
que cor tem o tempo ido?
salpicos que cirandam no fundo branco
retratos mortos de olhos postos
nas paredes à espera de retornos
na noite enorme do porto
cargueiros e transatlânticos
lançam preces aos práticos
amanhã
a certeza do sol
ao leste da orla
amanhã
não haveria chave
que abrisse a mesma porta
***
o olhar amansado
por pedras
as pedras
antes dos poemas
os passos
antes do caminho
eu ainda penso
eu ainda penso
eu ainda penso
penso nas pedras
e levanto o olhar com ânsia
para me certificar de que as pedras
ainda são pedras
já não tropeço
uma mulher entre pedras
vestia a camiseta:
“e agora
que você sabe?”
Anna Clara de Vitto (Santos/SP, 1986), é poeta e autora de “Água indócil” (Urutau, 2019) e MEADA (ed. da autora, 2019). Desde 2017, integra coordenação do Clube da Escrita para Mulheres, fundado pela escritora, cordelista e poeta Jarid Arraes. Possui poemas publicados nas revistas Ruído Manifesto, Mallarmagens, Germina Literatura, Plural, Fazia Poesia, Literatura e Fechadura, Escrita Droide, entre outras. Além das publicações esparsas, ministra oficinas de poesia e participa de saraus, performances poéticas, podcasts, leituras e mesas de debate.
Por Guilherme Preger
Notturno. Itália/França/Alemanha. 2020.
Notturno (2020), de Gianfranco Rosi, é uma obra não-ficcional que aborda a guerra da Síria. O filme foi montado pelo diretor ítalo-americano com material recolhido durante três anos de gravação na região do Curdistão entre Turquia, Iraque, Líbano e Síria. A obra foi apresentada no festival de Veneza de 2020 e disponibilizada pela plataforma de vídeo sob demanda MUBI recentemente.
O tema de Notturno é o sofrimento das populações civis com o desastre humanitário da guerra da Síria, sobretudo em relação à ação bárbara e genocida do grupo extremista Estado Islâmico (conhecido pelo acrônimo ISIS). Mas também aborda os atingidos pelo extermínio étnico do governo de Saddam Hussein, que precedeu a guerra da Síria, sobretudo em relação à população curda, mas não apenas ela.
No entanto, Notturno não é realmente um documentário, como frisa seu diretor na entrevista com o diretor mexicano Alejandro Iñarritu que acompanha a versão do filme na plataforma MUBI. O diretor faz questão de dizer que não documenta, mas filma. Em boa parte de seu testemunho no making off ele enfatiza sua opção pelo registro direto da imagem contra a ideia de que faz um documentário.
E, de fato, não há roteiro aparente nesse filme. Apenas as cartelas de abertura nos situam no conflito que acontece numa região outrora ocupada pelo império Otomano e que, após a sua queda, passou por diversas guerras e conflitos de reclamação territorial. O povo Curdo, de imensa população, até hoje não tem um estado nacional, sendo uma região dividida entre pelo menos 5 países (Irã, Iraque, Turquia, Síria e Líbano). No restante do filme, no entanto, sem qualquer tipo de narração, somos apresentados a uma montagem disparatada de cenas cujo contexto e localização não conhecemos. Temos que nos localizar apenas pelos testemunhos (nos quais se incluem os de crianças órfãs). A deslocalização faz com que o Curdistão seja uma terra sem geografia e fronteiras e Notturno um filme fronteiriço, no qual o deslocamento é seu motivo cinematográfico principal.

A dificuldade do espectador de se localizar nas cenas vem justamente desse aspecto fronteiriço que formalmente (in)determina o filme. Pois a obra explora também a fronteira entre a ficção e a não ficção. Somos levados a refletir sobre a função da perspectiva nesse caso. No cinema ficcional, sobretudo nas produções mais comerciais, a câmera fica dissimulada como se não existisse. O que aparece na tela quer se impor como se não houvesse sido filmado, por mais inacreditável que apareça. Num certo sentido, a câmera é a própria tela e além dela não existe mais realidade. O espectador está diante da tela como se também ele não existisse. A câmera do cinema comercial aponta para o espectador a sua metralhadora de 24 ou 30 imagens por segundo para atingir sua sensibilidade. Mas no cinema não ficcional, a câmera invade a cena e é uma parte dela. A câmera é uma intrusa e traz junto com ela o olhar do espectador. É a técnica do “kino-eye”, da câmera-olho de Dziga Vertov, na qual a câmera não focaliza objetos, mas é ela mesma objetiva. Ela participa da cena, transformando-a. Por intrusa, a câmera deforma parte da cena, mas sabemos que além dela há mais imagem, imagens do mundo, que é mais “defletido” do que “refletido” pela câmera-objetiva.
Nas primeiras cenas de Notturno, acompanhamos um guarda-guerrilheiro por uma estrada em sua motocicleta. Depois ele entra num bote e vai para o meio de um lago. Anoitece e torres de petróleo no horizonte jorram fogo. O guarda age como se a câmera não estivesse ali próxima, em outro bote. Esse modo de operar se repete ao longo de todo o filme quando os não atores são filmados em suas atividades diárias, sem se importar com a câmera que está próxima deles os enfocando. Há uma espécie de pacto ficcional entre o diretor Giafranco Rosi e suas personagens. É assim que ele pode entrar na intimidade das guerrilheiras curdas, verdadeiras encarnações das amazonas guerreiras, não só nas suas atividades de vigilância constante, mas também na intimidade do dormitório. Esse pacto ficcional entre diretor e retratados mostra que esta obra recorta também ela uma fronteira, desta vez entre a ficção e a não ficção. É por isso que Notturno não é um documentário. Ele é, antes de tudo, como no cinema de Dziga Vertov, uma montagem de cenas. É também a prova que, da realidade mais crua e nua, a ficção pode se instalar não como uma obra de arte estética, mas como uma operação de dar sentido ao que não tem sentido, de organizar o absurdo da guerra civil, do genocídio, da tortura e do sofrimento extremo e desumano.
Por isso a gravação no sanatório psiquiátrico de Bagdá é tão importante. Lá há o registro da encenação de uma peça teatral entre os internos sobre a história do Oriente Médio. Esta peça no filme de Gianfranco é um verdadeiro “mise en abyme”, uma ficção dentro da ficção, mas que traz a verdade mais real. A terapia cênica é uma oportunidade aos internos do sanatório de se situarem em meio ao caos e à desordem extremos e é também a forma com que os espectadores de Notturno podem se situar na montagem aparentemente desconexa. A ficção é, nesse sentido, mais real do que a realidade, cuja destruição provoca traumas psíquicos e dissonâncias cognitivas.

Entre as cenas iniciais de Notturno, há duas bem contrastantes. Num primeiro momento, soldados, nas luzes iniciais da aurora, correm em círculo em torno de um pátio no meio de um quartel militar. A câmera está parada e registra a circulação em blocos dos soldados que a cada passada de seu treinamento gritam pausadamente “uh”, como um grito de guerra e de esforço. A circulação precisa como um relógio da marcha não se interrompe, como num circuito infernal. A seguir, o filme de Gianfranco acompanha mães islâmicas numa visita a um presídio no Iraque onde Saddam Hussein colocava seus inimigos para torturá-los. Saberemos que aquelas são mulheres que perderam seus filhos assassinados naquele presídio. Elas circulam aleatoriamente nas alas do presídio abandonado e se concentram afinal numa das salas onde ficou preso o filho de uma delas. Lá entoam um canto fúnebre. A cena nos emociona para o que tem de universal: a dor inconsolável das mães que perderam seus filhos numa guerra injusta e absurda. O que essas duas cenas têm de contrastante entre os soldados que se preparam para a guerra e as mães que lamentam suas mortes e desastres é a oposição entre o circuito infernal dos primeiros e a dança fúnebre das mães. Ou seja, a oposição entre a repetição e o irreparável. Assim, o título Notturno nos vem com sua carga metafórica concreta: não apenas a noite sombria da dor, mas também a exigência de um not-turno, a recusa do retorno ao conflito absurdo.
O filósofo Walter Benjamin dizia que a fotografia torna bela até a fome e a guerra. Não devemos ler isso como uma crítica necessariamente negativa do filósofo alemão que, como sabemos, era um amante da arte fotográfica. Notturno, de Gianfranco Rosi, também faz usos de filtros de cores tarkovskianos para tornar sublimes as paisagens desoladas e devastadas do Oriente Médio. Em vez de embelezar a guerra e o sofrimento, ou de dar sentido ao absurdo, a sublimidade das imagens opõe a vastidão cromática da paisagem à pequenez da irracionalidade humana. É um filme sobre a intimidade daqueles que sofrem a guerra, que fizeram um pacto ficcional com o diretor para permitir que a câmera percorra as linhas humanas da História. Essa História tem algo de absurdo, mas não de aleatório. Ela decorreu de escolhas e ações humanas. Suas consequências dramáticas também são humanas. A paisagem física é assim retratada como um horizonte de fuga do absurdo. A amplidão do horizonte é também a amplitude das alternativas humanas e das possibilidades da História, que deve se libertar dos seus ciclos infernais de repetição para enveredar por caminhos múltiplos de devires outros.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.
Helena Aranha

Meus ouvidos são copos de vidro
bacias onde escorre pra dentro
água salgada
– ao passo do conta gotas
da gravidade –
nascida do lençol freático
que me corta.
Dentro da noite
há pontilhados
no teto, que me fogem
dançando o ronco das motos
O eterno ruído da boca
do estômago
arranca.
Dentro da noite
há algo que me escapa
ou me consome. Dentro
da fronha do travesseiro
Dentro
do café que tomei mais cedo
Dentro
não.
[ de vidro ]
***
Percebi que nós pode significar nós como os nós de uma corda de uma corrente
nós podem(os) barrar a fluidez de um movimento de um peso
obstruir a entrada de certas coisas
nós de uma armadilha nós de dedos apertados e nós juntos nós
não necessariamente somos bons mesmo quando pensar em nós é bom
nós somos ruins atados ou quando um dos nós se prende
nós sugerem uma ligação feita à força e não se questiona
à quem ela pertence à quem interessa estes nós tão presos e dados
nós talvez se desfaçam com paciência e com jeito
mas para tanto nos deixam machucados, tanto que desistimos dele
não como quem se conforma mas como quem se cansa e larga
com as mãos ocupadas
***
Esquecer tem uma manha, uma regra,
consiste numa fórmula que todo mundo conhece,
da qual por algum motivo fui alienada?
Esquecer tem textura de pele,
ou gosto de cigarro,
seu cheiro fica impregnado nos dedos?
A língua amarga e inchada dentro da boca,
os olhos vermelhos e apertados,
tentando enxergar na claridade branca do mormaço?
O som da espuma iluminada e efervescente
que interrompe o ensurdecer calmo do mar,
a onda que atinge sem aviso?
E que te puxa para onde quiser,
em uma dança descoordenada
que te engole por inteiro
e você não sabe mais se faz algumas horas, um final de semana,
ou uma vida toda em que a ardência do sal na garganta
se esgueirou em direção ao peito
se expandindo até explodir em um rasgo,
num ciclo onde as histórias se repetem
sem platéia e sem voz.
Seria o suor escorrendo pelas costas,
a tatuagem desbotada,
o calor abafado, a voz que grita e ri,
um cinema abandonado na República?
Seria o amigo que te beija a bochecha,
afundar em um abismo de almofadas,
a dor que vem tirar o sono?
Ou seria cantar baixo acompanhando as curvas da estrada?
Quantos copos de café tomar até esquecer?
Quantos goles, quantos dias, quantas manhãs em silêncio,
quantas vezes chegar em casa, o tilintar indiscreto das chaves no escuro,
caminhar às cegas pelo corredor memorizado,
fechar a janela do quarto como um ritual de encerramento
que se repete toda noite e finda absolutamente nada.
Penso tanto nessas 8 letras, uma de cada vez,
uma memória por vez,
separo em sílabas à medida em que também divido as horas,
três sílabas, três horas, três meses,
a semântica não me parece inteligível
pois só me vem à cabeça o antônimo que é lembrar a todo segundo
e quase implorar para alguém me ensinar
como se faz para esquecer o que é gostar de você.
***
sombras teu contorno cobre páginas as palavras falam sobre ele
ou sobre nós é difícil ter certeza sobre mim e sobre o que são apenas
sombras observo tudo o que há em nós sob uma camada de sombras
sombras na esquina da loja me assusto com algumas sombras
e de volta para casa corro sozinha pois me vejo envolta por sombras
no frio do apartamento não te enxergo em meio às sombras e pela janela
o gato branco se perde sorrateiro entre sombras sua bicicleta me corta
jogada em sombras num emaranhado de cacos e roupas e lixo e tantas
outras sombras mentiras e sombras a corda despejada me amarra
e me revela minhas próprias sombras o escuro e o som da chuva
me confundem pois seu rosto está repleto de sombras sombras
quando caminho pelas ruas vejo apenas sombras sombras e na mente
de cada pessoa sombras sombras no metrô prevejo abismos onde
potencialmente existem sombras sombras ou apenas sombras
até que ponto há sombras há profundidade nas sombras e as sombras
e os planos são apenas sombras se os pensamentos tão escuros
estão apenas no meio das sombras sombras quanto mais a sombra
é difícil de entender nas sombras que caminham ao meu lado
e se são sombras ou apenas sombras.
***
Nessas férias comi bem.
Estive ocupada, te garanto,
por isso não respondi nenhuma das suas mensagens.
Perambulei por lombadas diversas que me chamaram,
sem rotina, sem dever. Li o que meu professor
escreveu sobre sexo e mais um tanto
de introduções e coisas incompletas.
O noticiário estava difícil, as noites às vezes
mais, o vinho intragável embora delicioso.
Matei a curiosidade ao quase me afogar
entre ondas que, ao se partirem ao meio,
acariciaram minha bochecha esquerda.
Encontrei no céu um laranja tão aberto
que não podia ser verdade; na mata,
o sopro da noite; na água, a divisão do mundo;
vi ao longe (não tão longe) uma mulher
de maiô branco e me vi de maiô preto.
Lembrei de você e de você e de você,
meus pés às vezes emergiam e avistei
até um caranguejo sendo levado pela maré.
O pêssego estragou, mas comi alguns,
o maracujá que ia virar bolo também.
Tudo bem; tenho o corpo abastecido,
minha barriga se dobra em conforto,
meu coração saciado
pois nessas férias comi bem,
embora você não tenha me comido.
***
Hoje em dia é com o coiote que transo,
embora haja ainda um resquício
a memória de canto de olho
das chaves lubrificadas pelo frio
escorregando no bolso do peito
da respiração que pintava o escuro
dos pelos eriçados
e meus passos que lambiam gelo.
De noite
o olho do coiote brilha
milhares de vezes em cada folha úmida
estrelas negras flutuantes
na rua que tentava ser uma velha amiga
onde uma mulher emergia dos arbustos
onde um homem deslizava de bicicleta
onde eu caminhava sem querer ser vista.
Hoje em dia estou na mesma rua
hoje em dia o corredor não se esquece
hoje em dia a casa não chega
as chaves estão perdidas
no pega-pega infinito de uma caçada
e meus passos doem
e meus olhos ardem.
Naquela rua não havia um coiote
Ele não se escondia
Ele não me enganava.
Helena Aranha (1991) é designer, nascida em São Paulo, onde reside atualmente. Em seu estúdio na capital paulista, desenvolve experimentos artísticos com poesia e artes visuais, além de projetos de design gráfico e ilustração.
Adriano B. Espíndola Santos

Coleção de veredas; e nenhuma razão
Pior do que não falar nada foi a molície do corpo-indiferença de Laís. Não sendo afeita às palavras, algo natural à sua personalidade estrita, eram comuns, no entanto, uns lances de rabugem, de reclamações. Naquele dia, simplesmente saiu pela porta da sala, depois do estrago.
Era agosto ainda; um mês para o meu aniversário. Ela sabia, desde que éramos crianças birrentas, que esperava ansiosa; que teria mil planos, para fazer, continuamente, a melhor festa de todos os tempos – a cada ano, me impregnava com a ideia de que deveria superar a anterior, e, quase sempre, conseguia.
Ela guardava, de início, uma inexplicável rejeição a mim, porque, pelo que percebia, eu seria a causadora da separação de nossos pais; da mudança repentina de vida, para pior; praticamente a razão da inércia de meus pais, que, logo após a dissensão, se esqueceram de nós, assumindo, como diziam, “cada qual os seus problemas”. E não admitiam interferências exteriores, o que complicava a situação, para o espanto de minha avó Maria, que nos amava muito. Alegavam, vagos, que precisavam se estabilizar e despachar – ou apagar – o passado; e isso inclui não estarem presentes, não participarem das festinhas de colégio e não dedicarem míseros instantes para nos resgatar da tristeza que, pouco a pouco, nos abocanhava.
Ainda que morássemos com minha mãe, vivíamos sem qualquer regulação; o que não era bom. Para os nossos amiguinhos da escola, seria um sonho, viver livre, sem um pai ou uma mãe superprotetora a tiracolo. Mas não – posso confirmar, e era difícil de explicar –, a suposta liberdade, para quem não compreende a vida, é uma armadilha voraz; falo isso por experiência própria – presenciei pelejas de minha irmã, para se desvencilhar de um canalha, um garoto mais velho, que queria possuí-la. Eu mesma cortei, com um canivete, todos os tendões dos dedos de sua mão direita, e o safado saiu com os farrapos dependurados, qual um carniça desossada, se esvaindo em sangue. Aprendemos, na marra, a nos defender, com os instintos apurados, à flor da pele, que poderiam, facilmente, eliminar um agressor.
A questão também morava no campo da competição. Mãe queria mostrar ser superior, e incluía, em sua obstinação cega, arranjar um namorado novo e bonito, e ostentar invejável independência financeira. Pai, que era do tipo esbanjador, por natureza, acumulava dívidas, na mesma proporção – só ficamos sabendo anos depois, pelo motivo da debandada para outro estado, se escondendo das buscas judiciais, que, de certa forma, nos enleava também, com as cobranças chegando ao nosso endereço de origem, as quais não suportávamos; e, por isso, abríamos as cartas, uma por uma – o montante poderia superar o valor de três apartamentos bons, num bairro nobre da cidade.
Assim sobrevivemos até os dezessete anos, qual irmãs siamesas, com personalidades diferentes, é claro; mas irmanadas, confiantes, uma na outra, somente. Foi que mais uma divisão aconteceu: prestes a completar dezoito anos, mamãe, com o seu novo namorado – com o qual se perdera e, cega, se achava amada –, numa espécie de reunião familiar, que nunca tivemos, por sinal, declarou que não poderíamos permanecer ali, já que pretendia formar uma nova família. Significou o choque total, apesar de já intuirmos que, mais cedo ou mais tarde, iria preparar uma dessas.
O que nos salvou, mesmo com tudo, foi o amor de minha avó Maria, que aí nos acolheu, sem pestanejar. Mãe, sendo sua ex-nora – e dizem que não existe ex-sogra –, rareava nas ajudas com alimentação e bens de primeira necessidade, alegando que: “Estão bem grandinhas… E não vou botar comida, sustentar sozinha as duas, coisa que o pai de vocês nunca fez!”, e se carregava em raivas passadas e conversas hostis, como se fôssemos inimigas. Por isso, vovó não compactuava com a ideia de termos de suplicar por qualquer coisa aos “pais desnaturados”: “Vamos nos virar com isso aqui” – e apontava para a geladeira, da qual se vislumbrava nada mais que água, frutas, arroz para a semana; cuscuz e um bocado de verdura. “Pelo menos não precisamos nos humilhar pra seu ninguém…”, concluía.
Não demorou, como esperado, e mãe conheceu o desprazer de se dar a um negócio arranjado; a um “casamento” de aparências; e, sendo enganada mais uma vez, quis meramente nos pegar de volta. Laís foi mais enérgica, fincou o pé e disse que não era molambo, para ser jogada de um lado para outro; que estávamos “bem grandinhas”; que, ainda que ficássemos no limite entre a simplicidade e a miséria, nos virávamos muito bem, obrigada. Mãe nunca mais deu as caras.
Claro, me assustei com o arrependimento de minha mãe, assim, nevrálgico, e, de pronto, com o reproche de Laís. As duas saíram de ponta, magoadas; compreensível, visto que possuíam personalidades semelhantes. Fiquei mais ainda grudada à minha avó, com medo das prementes mudanças e instabilidades. Vó nos acalentou, como meninas pequenas; como fizera nos tempos remotos, superando a barreira que era a sisudez de Laís. Ela se desmanchava toda, sem dar o braço a torcer, quando vó a afagava; bonito de se ver. E eu ganhava, nesses atos naturais, uma piscadela e um sorriso de vó, como se dissesse: “Tá vendo… Consegui domar a fera”.
Não me esqueço de que, nesse mesmo ano de 2011, vó me presenteou com um celular Nokia novinho e com uma festinha modesta, que programou com minhas amigas. Foi um momento mágico, de plena satisfação; esquecemos as dores, os problemas, as contas atrasadas e renegociadas a perder de vista; estávamos engajadas a sermos uma legítima família.
Começamos a trabalhar. Laís como secretária de uma firma de contabilidade, e eu como atendente de uma grande loja de departamento. Nossas vidas mudaram, agora para melhor. As esperanças eram vivas e palpáveis; podíamos comprar roupas, comidas variadas, iogurtes e biscoitos, e honrar as contas da vó Maria. Engraçado é que ela nunca nos cobrou trabalhar, ainda que estivesse abafada pelas pressões financeiras; dizia que, se estudássemos, estava de bom tamanho. Fato é que nunca deixamos de trabalhar e estudar. Terminamos, com um certo atraso, o terceiro ano e logo emendamos nos cursinhos oferecidos pela rede pública.
Laís foi a primeira a passar no vestibular, para Comunicação Social – pode ser ignorância minha, mas não entendi essa pretensão, nem a censurei, sabendo que era de poucas palavras. Um ano depois foi a minha vez, em secretariado, numa faculdade pública.
Nossas vidas corriam bem, embora atulhadas de serviços. Não nos entregávamos. Sempre fomos fortes e atrevidas. Contudo, ambas na metade das respectivas faculdades, fomos surpreendidas com a doença avassaladora de vó, um câncer na região abdominal. Em menos de oito meses, a internação, o coma e a morte.
Isso, sim, nos arrebentou; dilacerou os planos traçados, que seriam de dar um fim de vida tranquilo a vó. Para não termos de pedir ajuda, trancamos as faculdades e continuamos a trabalhar. Eu tive mais sorte, porque, sabendo da morte de vó/mamãe, meu chefe me liberou por um mês; na verdade, antecipou minhas férias. Laís ia arrastada ao trabalho, sem conseguir comer; em tempo de sofrer um revés. Eu mesma preparava sua marmita, para que tivesse apenas de comer; mas, em regra, voltava remexida, quase nada consumido.
Ficamos, sem qualquer perturbação, por dois anos na casa de vó, até que o homem que nos gerou, mancomunado com um tio, boa bisca, irrompeu a morada sagrada para nos despejar, com um mandado judicial forjado, decerto, porque era desse tipinho malandro, criminoso; e, para evitar uma premente morte, contendo os ânimos de Laís, lutei para rebocá-la para um quarto e sala; uma locação que fiz às pressas, para não pararmos nas incertas estrias das ruas.
Laís decretou que sairia com um mês, e queria saber qual seria o homem capaz de tirá-la antes disso. Alcançavam seus arroubos de que a vingança, preparada por ela, seria um prato para se comer quente, fervendo; que esperassem.
***
Acordei, no malsinado dia, atordoada com a quebradeira. Laís estava determinada a arrebentar das janelas aos azulejos do banheiro. Assim o fez. Nenhuma alma mais viveria ali, conforme declarou com os olhos. Não consegui contornar nada. Estava atordoada, além do mais, com os acontecimentos presentes, tresloucados.
Recuperei alguns pertences, algo que poderia compor a nova morada. Mas, também acometida de ódio visceral, desmanchei o que, quiçá, tivesse serventia.
Laís saiu, colérica, se desatando de minhas mãos suplicantes, com uma mala de mão. Não deixou carta, nem sinal de fumaça. Liguei para amigas e familiares que podiam ter algum resquício de contato, e nada.
Sofro desmesuradamente porque, a essa altura, não sei se está viva, se tem um lugar para dormir; se está perambulando por veredas errantes. Não sei se se entregou à perdição, às drogas. São conjecturas que me atormentam.
Não vale, para mim, ter esse teto sem ela. Agora sou eu quem provo os traços da loucura e do completo abandono. Queria apenas passar meu último aniversário ao seu lado.
Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Por Larissa Mendes
TAGUA TAGUA – INTEIRO METADE
“Se eu nunca vir você de novo Eu sempre vou levar você dentro fora na ponta dos meus dedos e nas bordas do meu cérebro e em centros centros do que eu sou do que restou”. (Charles Bukowski)
O Modelo Kübler-Ross aponta que os cinco estágios do luto compreendem: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Nem sempre as etapas seguem exatamente esta ordem, podendo haver oscilação entre os estágios, que inclusive podem ocorrer de forma simultânea. E o que é o fim de um relacionamento senão uma experiência de morte? Atualmente, porém, a positividade tóxica parece tentar impedir o “estado de não estar bem” e sugere que na manhã seguinte a gente vire a página e faça a fila andar. O produtor musical, instrumentista e ex-vocalista da banda gaúcha Wannabe Jalva, Felipe Puperi, não é o primeiro a transformar seu período de luto (profissional , geográfico e amoroso) em arte, porém muito bem o fez normalizando-o como uma etapa necessária para a transmutação gradual das emoções.
Tão logo trocou Porto Alegre por São Paulo, em 2017, Felipe formou seu projeto solo denominado Tagua Tagua, referência ao lago que banha o pueblo de San Vicente de Tagua Tagua, no interior do Chile, berço dos primeiros povos sul-americanos. Cantando dessa vez em português – curiosamente as composições do Wannabe Jalva eram quase em sua totalidade em inglês, enquanto o primeiro instrumento de interesse de um Felipe ainda menino foi o luso-brasileiríssimo cavaquinho –, o projeto explora elementos percussivos de MPB associados à música eletrônica, soul e rock. Após dois EPs lançados, Tombamento Inevitável (2017) e Pedaço Vivo (2018), Tagua Tagua apresenta seu primeiro álbum de estúdio, o intitulado Inteiro Metade (2020), fechando uma espécie de trilogia dos dissabores.
Com 9 faixas autorais, o disco mergulha entre timbres eletrônicos e orgânicos e apresenta uma faceta mais madura do artista. Se o lirismo intimista lembra um pouco o início de Silva em Claridão (2012), as melodias envolventes mesclam-se a letras inspiradas (praticamente poemas musicados) e sintetizadores que vão desacelerando ao longo das faixas. É como se o álbum traçasse uma linha do tempo desse processo reflexivo, girando em torno da ressignificação de sentimentos que vão sendo diluídos com o passar do tempo, desde seu estado mais efervescente até a nostalgia, às vezes em looping.

A retumbante Mesmo Lugar (e ele vem, dá volta e volta/pro mesmo lugar/parece até que sabe onde chegar/andam dizendo que o agora/é tão diferente/e a vida vai passando pela frente), soul composto em 2019, mais parece uma canção premonitória para nosso longo período de isolamento social. Só Pra Ver (eu vou até o fundo só pra ver/que eu ando e só acabo em você/eu vou até bem longe só pra ver/que eu ando e só acabo em você), primeiro single divulgado, trata com irreverência, tanto no arranjo quanto na letra, da dificuldade em se desvencilhar de alguém. Com levadas orgânicas, mas baseadas em beats eletrônicos, 4AM (deixo a poeira me levar/corro, escorro sem ter hora pra chegar/me encontro com o dia que já se foi/e eu nem vi) aponta para um caminho mais introspectivo, como o próprio “sonho” que a letra propõe. A balada 2016 (parou pra ver ela escorregar/por entre as minhas mãos/parou pra ver ela voar), de fato gravada naquele ano, tem um clima saudoso de quem aprendeu a [sobre]viver “tão longe de mim”.
Com naipe de metais, Bolha (eu vivo na bolha existencial/indiferente, espero ir tudo pro lugar/discretamente, eu saio sem me retirar) retoma a pegada soul e faz uma auto-análise bem peculiar. A embargada Até Cair (feito folha seca desvendando o quintal/roupa enxaguada esperando o varal/xícara molhada desfazendo o jornal/quase em paz), talvez a canção mais séria do disco antecede Inteiro Metade (feito ferro no sal/eu sou inteiro e metade/risco de verso final/vou deslizando em saudade), faixa que leva o nome do trabalho e sintetiza o conceito do álbum. A experimental Sopro (não chegue tarde na minha vida/que eu já não posso te esperar/tô nessa vida/e o tempo pode nos terminar), com pseudo-gingado e verso único é um fragmento de alegria, como todo [re]início prevê. Assim como o encerramento de um ciclo, o álbum termina em clima de renascimento com o “poema etéreo” Do Mundo, avisando que “agora eu sou o/do mundo”.
A questão estética sempre esteve presente na obra de Felipe Puperi, que já trabalhou, inclusive, na produção de trilhas sonoras para cinema. O clipe de Rastro de Pó (faixa de Tombamento Inevitável), por exemplo, rodado no interior da Bahia, aborda a guerra de espadas que ocorre durante as festas juninas e ganhou o prêmio latino do Ciclope Festival, como Melhor Vídeo Musical. Inteiro Metade flutua entre recortes ensolarados e sombrios, como bem ilustra João Lauro Fonte, designer responsável pela arte do disco. Ele traduz nas capas (do álbum e dos singles) e lyric videos a vastidão do universo de Tagua Tagua.
Impedido de divulgar o álbum na estrada por conta da pandemia, Tagua Tagua lançou no final de janeiro uma live session para que os fãs tivessem uma experiência sonora e estética do disco. As 9 faixas – que passeiam entre MPB, indie, R&B e soul – foram apresentadas na íntegra com um belo conteúdo audiovisual. Disponível nas plataformas de streaming e também em vinil, o disco foi lançado simultaneamente no Brasil (Natura Musical), Europa (selo Costa Futuro) e Estados Unidos, de forma independente, aproveitando a exposição internacional do single “Peixe Voador”, presente na trilha do jogo FIFA 2020 e de sua apresentação no Brasil Summerfest NYC e a abertura de uma mini-turnê do The Growlers, ambas em 2019.
Como consta no release da obra, “Inteiro Metade é um disco sobre o processo de encontrar novos espaços pras mesmas pessoas dentro da vida. É ser inteiro num dia e metade noutro. É a caminhada da transformação, da aceitação dessa mudança dentro de nós. Nesse percurso, aparecem os mais variados sentimentos: euforia, alegria, gratidão, saudade, tristeza, luto. Morre uma relação pra nascer outra”. E Tagua Tagua [re]nasce como um dos grandes nomes da nova música brasileira. Como diz o compositor em certo verso de seu primeiro EP: “tua dor é uma dádiva”. Aceita que dói menos: o mergulho é inevitável.
Larissa Mendes, nasceu em Caçador/SC, banhada pelo Rio do Peixe.