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141ª Leva - 01/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Thaís Fernandes

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Deixou que tomasse conta de si a noite gélida e calada. Lembrou-se de ter-lhe beijado o rosto e sentido o gosto salgado de suas lágrimas.

 

 

 

***

 

 

 

Cansado do frio da madrugada, às manhãs envoltas em papelão, foi buscar abrigo no palco da Igreja. Aquela noite sonhou com o sino tocando sua vida inteira num horizonte à frente.

 

 

 

***

 

 

 

A velhice bateu-lhe à porta e ele a convidou para entrar. Largou-se aos recônditos da amargura, em desmemória, vendo os seus pés fincarem lentamente naquele lugar.

 

 

 

***

 

 

 

Vi as lágrimas escorrerem e lhe borrarem a maquiagem. Pintou-se para elevar a autoestima, mas por dentro o coração flutuava nas águas.

 

 

 

***

 

 

 

Entre o nada e o tudo, viram-se em um abismo silencioso, de onde refletia a profundidade das próprias mágoas.

 

 

 

***

 

 

 

Não raras vezes, o cheiro de santidade exalava de seu corpo. Era um homem esbelto, viçoso, aparentemente leitor de clássicos, cujos títulos poderiam condizer com a entoação de sua voz em latim e com o seu comportamento reservado, isso graças àquele ar cerimonioso.

 

 

 

***

 

 

 

Assim como a água, límpida e calma, pediu que cuidasse também das rosas, da alma de cada pétala, recepcionadas pelo silêncio agora, onde jazem o Reino dos Céus.

 

 

 

***

 

 

 

Esperançosa, acreditou que após recorrer à terapia ele fosse capaz de costurar os rasgos feitos nos corações alheios, e do arrependimento uma nova chance de perdão.

 

 

 

***

 

 

 

Ela preferia ali ficar, envolta na sua angustia existencial.

 

 

 

***

 

 

 

As fotografias antigas eram tudo que ele tinha, ainda em preto e branco, como um resgate memorial que o ajudava a envelhecer sorrindo.

 

Thaís Fernandes é natural de São Paulo — SP. Graduou-se em Letras (Português-Inglês), possui especialização em Língua Inglesa e suas Literaturas e desenvolve pesquisa em Estudos da Tradução (FFLCH/USP). Tem textos poéticos e traduções publicadas em jornais e revistas eletrônicas nacionais e internacionais, incluindo The Mark Literary Review, (n.t.) Revista Literária em Tradução, Revista PHILIA | Filosofia, Literatura & Arte, Zunái — Revista de Poesia e Debates, Revista LiteraLivre, Tuck Magazine, Gueto — Revista Literária Luso-Brasileira. Traduziu, entre outros, Maya Angelou, Katherine Mansfield, Mark Twain e ensaios literários de C.S. Lewis, Ralph Waldo Emerson e Robert Louis Stevenson.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Mírian Freitas

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Instante

 

Mas para que serve o instante?
Na sobrevida do momento íntimo
flâmulas acesas chamuscam
no escuro da parede de tijolo cru
pavio insano aceso
entorpece os olhos nus
duas biroscas matizadas
no reflexo da luz e da sombra
–fotografia nas instâncias letais
do corpo—
infinitude
incompletude
o instante se faz ausente.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Solidão

 

Olhe para dentro,
há o turbilhão das vozes,
íntimas raízes, mortos que falam.
O solitário não fala, mente.
Traduz de si para si
o calendário da alma.
Dentro
–realisticamente–
ninguém
ninguém.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

À flor da pele

 

Labaredas da alma acesas
como fogueira incessante
a queimar os poros
as células viciantes do corpo
a vicissitude do instinto
o bojo dos lábios,
o fogo,
incêndio no pedestal da cabeça.
Fogo!
respira fundo,
o fogo nos ossos
a crepitar no instante do último fôlego.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

A Morte dos bois

 

Os bois antes de morrer, choram.
Cabisbaixos,
lagrimejam os grandes olhos
sabem que vão ser mortos.
A caminho do matadouro,
em fila indiana,
os mais delicados sussurram seu pranto triste.
Outros, ao berros, urram de medo
e desespero.

Quem, afinal, gosta de morrer?
Quem, afinal, vê na morte uma necessidade?

Sofridos, desalentados,
os bois choram.
Inútil chorar.
As algemas da morte estão atadas
não perdoam.

As lâminas afiadas cortam,
o sangue escorre.
Lágrimas, gemidos, sussurros tristes

de nada adiantam.
Morrer é preciso.
Morrer é urgente.
Os bois suportam o mundo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Come in

 

Cultiva-te em mim as tuas mãos
como se fossem galhos apressados, firmes,
molhados pela doçura do orvalho noturno.
Despoja-te em mim teu corpo
como um barco náufrago, afogando-se
no pranto da multidão
no poço das águas revoltas.
Mergulha-te em mim como um peixe
a esfregar tuas escamas no meus pelos negros
insanos
— rebeldes–.
Transborda-te em mim como um líquido
assim,
gotejando em silêncio, sem dizer palavra,
apenas abraçando-me na mudez
como a planta que ama
sem necessitar do verbo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Os que nascem em abril
comem maçãs vivas
enquanto pensam escuro lá dentro
na terra e nas folhas

relâmpagos sopram faíscas
luzes solitárias—vivas como os invertebrados,
além das luzes, o arfar do vento acende o termômetro
da vida pulsante
que não se atrasa para partir—.

Partir-se infiel a um outro
no escuro atrás das coisas
serpente nos olhos
–vibrantes— a vida no centro
submerge como os submarinos,

bolhas na água límpida flutuam espumantes
vozes indefinidas atrás das estâncias líquidas
naufragam o poema.

 

Mírian Freitas, mineira, reside em Juiz de Fora, doutora em Estudos de literatura (UFF), lecionou em Massachusetts,  EUA, por quase 10 anos e atualmente é professora do Núcleo de Línguas do IFSUDESTE/JF. Autora de “Intimidade vasculhada” (contos- Editora 7  Letras/Imprimatur), “Exílios naufrágios e outras passagens” (poesia- Editora Patuá), “Caio Fernando Abreu: Uma poética da alteridade e da identidade”- no Prelo- (Ensaio), foi uma das autoras da Antologia Lusófona I (poemas- Folheto Edições&Design, Leiria- Portugal). Possui textos espalhados em  revistas como CP Literatura (Editora Escala), Revista Cult, blogs e sites de literatura como o Releituras, portal Cronópios e outros.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Berlin Alexanderplatz. Alemanha/Holanda. 2020.

 

 

Nova versão cinematográfica do grande romance de Alfred Döblin (1929), Berlin Alexanderplatz foi apresentada ao público brasileiro apenas na Mostra de Filmes de São Paulo, sendo um dos filmes de maior repercussão. Trata-se de uma releitura, ou melhor dizendo, reconstrução do romance modernista, que também foi trazido para a linguagem audiovisual na célebre série televisiva de Rainer Fassbinder (1980).

Burhan Qurbani, diretor da versão 2020, é afegão e mora em Berlim. Nesta sua versão, ele atualiza o clássico de Döblin, trazendo a trama para o presente. Franz Biberkopf agora se torna Francis, refugiado negro de Guiné Bissau, vivido pelo ator Welket Bungué, que é conhecido do público brasileiro, pois participou de filmes do cinema nacional tal como Corpo Elétrico (2017) e Joaquim (2017).  Na reconstrução cinematográfica de Qurbani, Francis é um imigrante que entra ilegalmente na Alemanha e tenta a princípio se estabelecer legalmente em trabalhos na indústria. Mas como o Biberkopf original, Francis acaba por se desviar para as atividades ilícitas de comércio de drogas ou de cafetinagem. Nesse seu desvio de rota para a marginalidade, duas personagens lhe servem de balize. A primeira é Reinhold (extraordinariamente vivida pelo ator Albrecht Schuch), traficante de drogas, pessoa ambígua e demoníaca, na melhor tradição fabular alemã de Fausto e de Mefistofeles. Reinhold é perverso, impotente sexualmente e desenvolve uma união umbilical com Francis, que vê nele quase um irmão. A sexualidade de Francis também é ambígua, aparentemente bissexual, assim como sua própria ética existencial, dividida entre o Bem e o Mal, entre o desejo de se tornar um cidadão alemão normal ou um traficante, entre a amizade por Reinhold e o amor de Mieze.  Esta é outra personagem principal, de índole oposta (vivida pela atriz Jeela Haase), uma prostituta angelical que se casa com Francis e lhe serve de guia amoroso e espiritual. É dela a voz narrativa que justamente narra a peripécia de Francis em busca de sua Salvação, assim mesmo em maiúscula, para acentuar seu tom teológico (próprio ao nome do protagonista que lembra o nome do santo cristão).

 

Cena de Berlin Alexanderplatz / Foto: divulgação

 

Um diretor afegão, um herói negro imigrante no lugar de um branco, a obra de Qurbani tem tudo para se tornar uma verdadeira desconstrução do clássico literário germânico.  Mas, em certo sentido, trata-se de uma versão bastante fiel ao espírito original do romance. De fato, as desventuras de Franz na década de 20 na Alemanha, período imediatamente anterior à ascensão do fascismo, estão todas fielmente traçadas neste filme de 2020. Esta versão é longa, com 180 minutos, dividida em 5 partes, mas ainda bem menor do que a versão de Fassbinder, com seus 14 capítulos e 15 horas de duração.

Mas a obra modernista de Alfred Döblin tinha desde sempre uma forma plástica, feita para apropriações. O próprio autor realizou a primeira adaptação, ao fazer uma leitura de sua obra por transmissão radiofônica. Em seu famoso ensaio sobre o romance de Döblin, Walter Benjamin nos mostra como em Berlin Alexanderplatz a narrativa épica reaparece nas ruínas do Romance burguês. É através da transposição da montagem cinematográfica para dentro do Romance, que o discurso romanesco é implodido e, na verdade, desmontado. Para Benjamin, Alfred Döblin tem mais sucesso do que James Joyce nessa tarefa de desconstrução da narrativa moderna. Há nesta leitura benjaminiana claramente a influência de Brecht: o retorno da narrativa épica através da montagem é a vitória da memória coletiva, possibilitada pela técnica das massas, contra a interioridade burguesa e individualista do Romance de Formação. O mundo fronteiriço pequeno-burguês de Franz Biberkopf é típico dos heróis brechtianos: proxenetas, mafiosos e prostitutas, figuras de um mundo em dissolução. O tema da impossibilidade da bondade num mundo pérfido é recorrente. A única maneira de ser bom num mundo ruim é fazer a revolução e transformar o mundo. Do contrário, a bondade não passa de máscara hipócrita.

A versão de Fassbinder recupera outra dimensão pela qual o texto de Benjamin passa batido: a saga de Biberkopf é outra versão da mitologia fáustica, mefistofélica, representada pelo antagonista Reinhold, cuja maldição assombra a cultura germânica. Fassbinder, que é o mais agudo crítico da Alemanha do pós-guerra, vê no pacto burguês após a catástrofe do Holocausto novos sinais desse pacto demoníaco. A transposição medial de Fassbinder é então realizada através de outra técnica. Ele recupera a dimensão folhetinesca do romance de Döblin e a traduz para o ambiente da televisão. A serialização televisiva dissolve o poder contrastante e implosivo da montagem cinematográfica. A dissolução da classe trabalhadora que permitiu o nazismo se torna então figurada pelo pacto pequeno-burguês que essa mesma classe derrotada faz com as forças do imperialismo americano para recuperar a autoestima da nação germânica sobre as cinzas de milhões de judeus assassinados.

Na versão de 2020 do afegão Burhan Qurbani outro giro acontece. Curiosamente, a serialização trazida por Fassbinder ganhou uma súbita contemporaneidade nas séries audiovisuais das plataformas de vídeo sob demanda. Mas Qurbani retoma novamente a força da montagem cinematográfica, das múltiplas perspectivas de ponto de vista, para recuperar a força política original. E, ao mesmo tempo, une essas perspectivas ao folhetim melodramático que marca a versão de Fassbinder. Ao trazer a situação dos imigrantes africanos para o centro da trama, esse movimento desloca politicamente a mitologia germânica. Mais ainda do que em Fassbinder, o pacto entre Francis (cujo nome remete ao atual Papa) e Reinhold é novamente mefistofélico. O filme ainda é serializado, mas a divisão em capítulos não distende a trama, mas a comprime e tensiona. A versão de Qurbani consegue ser mais “fiel” do que a de Fassbinder, no sentido em que toda a técnica da montagem cinematográfica, agora digitalizada, é manobrada na direção da guerra contra o mito. O Romance de Formação burguês se transforma no relato audiovisual da sobrevivência dos imigrantes internacionais, que são o verdadeiro “sangue germânico”, mais alemães do que os próprios alemães, como diz a certa altura um bem sucedido Francis aos seus companheiros africanos, negros como ele.

 

Cena de Berlin Alexanderplatz / Foto: divulgação

 

A versão 2020 assim restabelece a potência cinematográfica da montagem para não perder sua potência política. A mesma ameaça que pairava sobre os trabalhadores alemães da década de 20 do século passado retorna no medo contra o crescimento do movimento de extrema-direita na Europa, assustada com o “espectro do imigrante”, novo corpo do proletariado transnacional. Nesse aspecto, Reinhold assume um típico arquétipo do membro direitista, ressentido, pervertido, alimentador do desprezo pelo outro e, ao mesmo tempo, sequioso por recuperar o desejo de luxúria perdido pela impotência social do neoliberalismo econômico.

Por outro lado, algumas críticas feministas reclamaram da caracterização das personagens mulheres no filme, todas elas “prostitutas”, inclusive a angelical Mieze, que faz o contraponto a Reinhold. Mas é verdade que este mesmo submundo já estava desde sempre retratado na obra original. Walter Benjamin não perdeu isso de vista, ao observar que esta sociabilidade, de fundo pequeno-burguesa, era uma espécie de “fim de linha” à burguesia, e para o proletariado representava o elemento dissoluto de sua subordinação de classe. Este submundo de prostitutas e traficantes está amarrado à trama visual do novo filme entrelaçada, à maneira contemporânea, pela pulsação rítmica e ambientação vertiginosa que o atravessa.  O melodrama pequeno-burguês da obra original é reconfigurado pela pulsão desejante dos corpos marginais, sobretudo do corpo imigrante, negro e mutilado de Francis. Como sonhava Benjamin, há uma vibração ébria e emancipatória trepidando nessa atmosfera sonora e visual. É essa vibração que reverbera na semiose fascinante da nova versão. Ela marca o compasso na trajetória narrativa de Francis de sua Danação à sua Salvação. Quem sabe, nos anos que se seguem à crise pandêmica, haverá esse reencontro com nossos corpos perdidos ou esquecidos na vibração de outros desejos de mundo.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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141ª Leva - 01/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Kátia Borges

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A aerodinâmica dos pássaros

 

Parece inacreditável hoje, mas na infância participei de uma caça a passarinhos com estilingue. Fomos, eu e Silverinha, no sítio de um tio no Litoral Norte. Não recordo com exatidão todas as circunstâncias, mas lembro que caminhamos dentro da mata até bem longe de casa e que, após atingir as aves com as pedras que levava nos bolsos, ele espetava os corpos dos pássaros caídos no arame farpado.

Fiquei vendo Silverinha fazer aquilo e, confesso, o horror me tomou inteira. Decidi voltar sozinha para a sede do sítio, mas acabei perdida no caminho. Distraída desde sempre, andei uns poucos metros entre árvores que pareciam surgir pela primeira vez na minha frente. Era apenas o sítio de meu tio, onde tantas e tantas vezes brinquei com os primos, e não a floresta misteriosa de As Brumas de Avalon.

Sabia que os adultos da casa não sentiriam logo minha ausência. De vez em quando eu me aventurava no rio que ficava no terreno ou desaparecia por algumas horas, catando licuri para encher o tonel que ficava na varanda, isso quando não estava escalando árvores, para sentir de perto o cheiro das folhas, arrancar as frutas no galho ou simplesmente ter, do alto, a visão do verde das coisas.

Minha mãe bem que tentava acompanhar tanto movimento. Para colocar um freio em minhas aventuras no sítio, fez com que toda a família reforçasse as lendas de que havia um jacaré dentro do rio. O bicho ali representava o “homem do saco” das ruas de Salvador, sempre pronto a levar as crianças desobedientes para uma espécie de limbo.  Mal sabia que aquela história teria em mim um efeito contrário.

Localizar o jacaré do rio passou a ser a minha obsessão nas férias — aumentaram ainda mais, os meus sumiços no sítio. Só não sei até hoje como me meti nessa caça a passarinhos com Silverinha. Ele era bem mais velho e penso que me desafiou a mostrar coragem. Mas a verdade é que a coragem de matar as aves, eu simplesmente não possuía. Muito menos a habilidade necessária para armar a pedra no badogue.

Naquele dia, como se cumprisse um itinerário de tortura, engolindo a raiva e a vergonha, precisei esperar durante horas até que Silverinha ficasse cansado de acertar as aves com as pedras. E tudo aquilo pesou bastante nas decisões que tenho tomado desde então. Me refiro aos desafios aceitos só por orgulho. Aos amigos que pedem conselho, sempre falo sobre a queda que antecede o voo dos pássaros. Eu os observo da varanda do apartamento onde moro, no décimo-segundo andar de um prédio.

Gosto de tê-los perto por alguns segundos, como se não se incomodassem com a minha presença. É com certo prazer que me aproximo o quanto posso e deixo que sintam que nada desejo, nem mesmo capturar sua beleza. Nada nessa vida se compara à confiança de uma ave em sua queda. Um pássaro desconhece os princípios básicos da aerodinâmica.  Ele apenas confia em seu instinto.

Fico surpresa ao saber que cientistas ainda pesquisam de que modo os pássaros enfrentam as correntes de vento. Fico pasma com a perenidade de alguns mistérios. Como as aves dormem enquanto voam? Alemães estudaram uma espécie conhecida como Fragata de Galápagos e descobriram que ela plana quando adormece, usando apenas um dos hemisférios do cérebro. E até sonha (até sonha!) durante cinco minutos.

Cientistas, sempre eles, divulgaram uma pesquisa em 2017 sobre a adaptação das asas das aves às correntes de ar. Pretendem usar esse conhecimento nos cada vez mais detestáveis e invasivos drones. O mundo é um lugar horrível? Tá certo. Mas, ao mesmo tempo, ele é repleto de beleza. Na internet, por exemplo, alguém perguntou outro dia por que os pássaros não voam até a Lua em um site de buscas.

 

Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Escreve crônicas no jornal Correio semanalmente desde 2018. A teoria da felicidade (Patuá, 2020) é o seu sétimo livro.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Cristiano Silva Rato

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Venha até mim

 

Como é ridículo falar amor
E, belo, falar dor.
Ah, duas palavras, rimam,
mas uma é água
e a outra é lama sufocando lentamente o rio.

Ah! Por que querem que eu fale sobre o ódio?
Quero dizer coisas ridículas,
que esta raiva passe
e gritar pelado, pelas avenidas, ruas e becos
Amor,
Amor, venha me salvar da selva,
venha salvar meu corpo caído
estancar o sangue que corre como lama
por este buraco de bala.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Sem resposta

 

Sei, estou fora do tom,
do dom
da porra toda.

Recomeçar é difícil
como uma cãibra
no meio da madrugada
enquanto se dorme.

Mas não movo
um dedo.
Observo
toda a velocidade
os amigos que saem,
as pessoas que se vão

Estou no centro
não sou ninguém.
Quem é você?
Me perguntam.
Eu sou uma selfie muda.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Para os fracos

 

Nesta época
não se pode fazer poemas de amor,
temos que ser fortes
e sentimentos não combinam com a luta.
Tempos de guerra,
tempo líquido, gasoso, sem piedade.
De venenos destilados,
jogados em passeatas.
Mas me recuso, tudo me afeta,
a falta, a presença,
os raios de sol,
os sorrisos que não tenho mais.
O amor é para os fracos,
para os pobres,
para os que perderam,
para quem nunca teve,
aqueles que não conseguem dizer uma palavra
sem lembrar da sensação de um beijo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Dormente

 

Outra noite, e algo estava perdido,
minha consciência já não existia mais,
não era eu.
Você pode me odiar
me ridicularizar,
mas minha mente se foi,
eu não lembro.

Outro dia,
o álcool já não fazia mais efeito,
a cocaína já não era tão boa assim,
o thc já não me acalmava,
minha alma já não era minha,
eu não lembro,
minha mente se foi.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

… 1

 

Não me agradeça
repetidas vezes.
Não diga obrigado
quando eu lhe entregar as chaves.
Não diga obrigado
quando eu lhe der uma palavra.
Não diga nada,
não me olhe nos olhos.
Não ouço mais as revoadas de pássaros,
os latidos.
Eu não tenho mais que levantar,
não consigo mais.
Não me agradeça,
eu sinto um grito agudo,
uma canção de Dylan
e lágrimas,
acho que estou mole,
hoje em mim bate um silêncio,
não quero mais poesia e
palavras em
primeira
pessoa.

 

Cristiano Silva Rato é autor de “Todos que conheço são suicidas” (2019, Editora Caos & Letras) e “Sentido Suspenso!” (2012, Multifoco), tem diversos textos espalhados pela internet e em antologias. Documentarista, ajudou a criar e dirigiu o programa de websérie Literatura no Boteco. É Coordenador do Coletivo Terra Firme, responsável pelo selo editorial e agência multimídia Marginália Comunicação, locutor e produtor do programa Cemitério dos Vivos, na Matula Web Rádio, co-fundador e editor na Editora Caos & Letras. cristianorato@caoseletras.com

 

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141ª Leva - 01/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

 Amém e Axé: o diálogo que emana afeto

 Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira

 

 

Em agosto de 2014, oito traficantes cariocas foram presos por ataques a terreiro de candomblé, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Na investigação conduzida pelo delegado do caso, identificou-se que a ação foi coordenada pela Facção Terceiro Comando Puro, chefiada por um suposto pastor.

Parece um contrassenso falar de traficantes evangélicos, porém, o fundamentalismo religioso em ascensão no Brasil, com sua face mais exposta na Cidade do Rio de Janeiro — tendo em vista a entrada política de líderes religiosos neste cenário, desacredita toda e qualquer forma de espiritualidade diferente do cristianismo, além de produzir um discurso de ódio e de morte.

Nesse sentido, o livro  O amor como revolução, do pastor Henrique Vieira, é esperança em meio à brutalidade e um convite para o exercício permanente do amor nas nossas relações: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”.

Quem lê a “Oração da felicidade”, que funciona como o prólogo do livro, terá noção daquilo que vai encontrar ao longo da obra. À exceção do leitor dogmático e fundamentalista, o livro, por falar de diálogo e do poder renovador do amor, pode circular com tranquilidade por leitores de todos os credos, tanto que na capa temos relatos da Jornalista Flávia Oliveira, cuja fé é professada na Umbanda.

Pastor, escritor e militante de direitos humanos, Henrique Vieira conta que sua experiência com Deus ganha maiores contornos aos 16 anos, diante do desamparo da vida, condição que, segundo o autor, acomete a todos, independentemente de credo. “Nessa solidão há um drama existencial que atravessa todas as pessoas, uma comunhão universal na condição do desamparo”. É nessa busca pelo encontro consigo mesmo e pelo autoconhecimento que, em geral, os seres humanos procuram uma experiência transcendental que proporcione a superação do desamparo, sem deixar de perceber que também no sofrimento é possível evoluir como cidadão e como ser.

Diante do seu desamparo, a fé. Ao chegar ao oftalmologista para fazer um exame de vista, constatou que sofria de neurite óptica bilateral: “Voltei chorando para casa enquanto minha mão ligava para outros médicos pedindo orientação. Nos olhos da minha mãe, via minha dor sendo compartilhada; meu pai com semblante sempre sereno, me transmitia calma e confiança. Mais tarde, chegaram meus irmãos mais velhos, Ghilherme e Marcele, e todos juntos começamos a orar naquele quarto”.

O amor é definido como uma atitude revolucionária, que tem uma relação direta com a inconformidade, capaz de provocar comoção e reação diante de uma cena tão comum e naturalizada nas ruas cariocas, que é a da mendicância, e em muitos casos em ruas de áreas nobres e com grandes concentrações de templos evangélicos. Diante da sensibilidade do olhar afetuoso e do amor como prática diária, o autor afirma que ser cristão é se comover perante um mendigo, um detento, um jovem negro sendo sufocado, uma criança morta em uma favela ou por um assassinato motivado por orientação sexual: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”. Diante disso, pode a igreja se calar perante a morte de Marielle Franco? Ou da morte de Maria Eduarda dentro da Escola Municipal Daniel Piza, em Acari? É inaceitável que na Cidade do Rio de Janeiro lideranças religiosas dialoguem com um tipo de segurança pública forjada na lógica do extermínio, ignorando que Jesus foi preso sem culpa, torturado e morto pelo império romano, em uma sucessão de absurdos cometido pelo Estado.

Durante toda a obra, Henrique Vieira parece se vestir de palhaço para quebrar hierarquias e criar um ambiente de afeto e livre de preconceitos. O autor encaminha a narrativa para uma abertura espiritual que rejeita o dogmatismo e o fundamentalismo religioso, desconstruindo mentes machistas, apurando o olhar para entender que toda forma de amor é justa, aguçando a sensibilidade para nunca naturalizar desigualdades sociais e, fundamentalmente, apostando na convivência e respeito entre as religiões para desconstruir a noção de exclusividade de fé, que encoraja traficantes a agirem violentamente contra templos de religião de matriz africana: “Precisamos construir juntos um amém e um axé pela paz”.

Em tempos em que líderes disciplinam a experiência com Deus e criam uma agenda em que na segunda-feira Deus tem que dar uma bênção material; na quarta-feira uma cura e no domingo uma resposta para algum problema, crianças, expostas nas calçadas de caminhos de templos religiosos, seguem pedindo esmolas e desamparadas pelas famílias, pelo Estado e pela igreja. Da Sara Nossa Terra à Cara de Leão, seres humanos com cara de fome seguem ignorados nas suas individualidades e nas suas necessidades básicas, não respeitados em seus desejos sexuais, e quando são presos, torturados e mortos, agora pela máquina do ódio e pelo fundamentalismo religioso — não mais pelo império romano — a igreja silencia. E agora, Pai, que eles sabem o que fazem?

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Mônica Ribeiro

 

Desenho: Geometria da palavra

 

ÂNIMA

 

As coisas têm vida
se vida damos a elas

[quem me ensinou foi Patti Smith]

Mas eu já sabia
Só não tinha coragem
ainda
de falar com as coisas

E tinha menos coragem
ainda mais
ou ainda menos
de ouvir as respostas das coisas

Mas não

Coragem de ouvi-las
não tenho
ainda

Para tanto
é preciso saber
ouvir o dentro

As coisas não se ouvem de fora

 

 

 

 

***

 

 

 

 

PERNAS

 

As pernas da cabeça
bambas e trêmulas
não conseguiram
me fazer conseguir

Machucaram-se
as pernas da cabeça
Foi ataque dos pensamentos:
chutes, rasteiras, chaves de perna

As pernas da cabeça
agridem as pernas da cabeça
e permanecem firmes
torneadas
Nem um arranhão

As pernas da cabeça
agredidas pelas pernas da cabeça
doloridas, flácidas
não se levantam do chão

 

 

 

 

***

 

 

 

 

AMPULHETA

 

Não sei
quantos pontos
são necessários
para estancar
o sangue
de quem se corta
com cacos
de ampulheta

Não sei
quantas pinças
são necessárias
para tirar
do sangue
a areia do tempo
que escapou
da ampulheta quebrada

Não sei
quantos anos
sofridos
são necessários
para que a ampulheta
não se quebre

Há de se saber
que a ampulheta
é por si
torta
trincada
mal lacrada

Embora viva
morta

 

 

 

 

***

 

 

 

 

MEMÓRIA

 

Faz-me falta o que eu não tive
mas que sei muito bem
É coisa que retive
na não memória

É coisa do que não veio
do que não vem

Distraída disfarço
a falta
o cansaço

Retraída
eu perco
esta dança
e o compasso

 

 

 

 

***

 

 

 

 

TEMPESTADE DE AREIA

 

Dor não se mede
Dor desnorteia
Desagrega o ser
que agoniza
mesmo sem morrer

Dor é falta de ar
ventania que sufoca
hiperventilação arenosa
choro seco
de lágrimas secas

Dor é tempestade de areia
é falta de brisa
daquela que
em vez de ferir
alisa

 

 

 

 

***

 

 

 

 

FADO

 

Antes que fosse cedo
já se fez tarde
O tempo rompeu
a velocidade da luz
A vida escoou
aliada do tempo que é
A vida acabou
sobrou foi nada
Feneceu a vida que
como o tempo
é fadada

 

Mô Ribeiro, ou Mônica Ribeiro, é mineira de Belo Horizonte. Arquiteta de formação, descobriu-se poeta por insistência do inconsciente. Participou da antologia “É Urgente o Amor”, Edições Vieira da Silva, Portugal, e também da antologia “Ruínas”, da Editora Patuá. Foi publicada pelas revistas Caliban, Desvario, Germina, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mirada, Revista de Ouro, Revista Ser MulherArte e Ruído Manifesto, entre outras. Publicou, este ano, seu primeiro livro de poemas, PAGANÍSSIMA TRINDADE, pela Editora Penalux. Nasceu em 1971 e deu trabalho para vir à tona: o parto foi de fórceps. A escrita, ao contrário, vem nas contrações que dão à luz seus poemas. Partos rápidos, mas não sem dor, e depois o cuidado com a cria. Assim é sua escrita.

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Gramofone

Gramofone

por Larissa Mendes

 

SILVA – CINCO

 

 

“A música é o meu chão. É onde eu encontro sentido para as coisas e para esse mundo tão controverso. Fazer música, em sua grande diversidade de sentidos e significados, é a minha razão de viver. Hoje, vivendo de música, nunca imaginei chegar tão longe. E já que tão longe cheguei, chego também ao meu quinto disco autoral, que muito intencionalmente se chama Cinco. Cinco sou eu, Silva, com 5 letras e Lúcio, também com cinco letras (…)”. Numerologia à parte, o fato é que Silva chegou e permaneceu. O menino capixaba e tímido de Claridão (2012) deixou a barba crescer em Vista Pro Mar (2014)  e  Júpiter (2015)  e deixou também de ser promessa para hoje figurar como um dos principais expoentes da nova música brasileira. Lançado em dezembro nas plataformas digitais, Cinco – décimo álbum de carreira, incluindo quatro discos ao vivo e Silva Canta Marisa (2016) – traça uma continuidade natural do seu antecessor de estúdio, Brasileiro (2018). Finalizado durante a quarentena, Silva, que já havia lançado Ao Vivo em Lisboa no primeiro semestre, celebra genuinamente, mais uma vez, o amor e suas facetas: chegadas e partidas, idas e vindas, do encantamento a depois do fim, com serenidade, esperança e um pouco de sarcasmo.

 

Silva / Foto: divulgação

 

O ska sessentista Passou Passou, primeiro single divulgado, tem clipe em plano-sequência com o músico equilibrando-se em uma tiny house em movimento, enquanto despede-se em tom de deboche de um amor que tem que ir embora de sua vida. O suingue de Sorriso de Agogô (tira essa poeira dos olhos/vem pra ver como nasceram os sonhos/o depois a gente faz é agora/não dá pra adiar) e No Seu Lençol (como se fosse um dia bom/você sorriu e é bem melhor/morar aqui no seu lençol) evidenciam a tropicalidade do álbum composto com o sempre parceiro Lucas Silva, em passagem dos irmãos por Caraíva (BA). Enquanto a densa Pausa para a Solidão (pausa para a despedida/já não sei como expressar/que não encontrei saída) exalta com maturidade o fim de um ciclo, Não Vai Ter Fim (o amor é parte de tudo/é parte do mundo/é parte de mim) parece saída do repertório de Roberto Carlos e se não houvesse pandemia, possivelmente o compositor dividiria os vocais com o Rei em seu especial de fim de ano. A canção de quarentena Jogo Estranho (trancado nessa casa/acendo meu cigarro/e pego um violão/olhando da janela/eu tomo um outro trago/dessa solidão) contrasta com a sensual Facinho (eu gosto e fico tranquilo juntinho/cama, sofá ou de pé, de ladinho/ai, isso é bom, muito bom, já parei de contar), espécie de ska em dueto com Anitta, repetindo a parceria de Fica Tudo Bem, gravado com a funkeira em Brasileiro.

A balada Você (é que quando acordei de manhã/eu tentei te esquecer/e esqueci que o querer é um mar turbulento/não tenho um alento, nem sei velejar) e a bossa Quimera (pra que sentir/coração feito de água/não vou mentir/a saudade me naufraga/quando acalmar/e eu nem sequer te lembrar/vou amar de novo) relacionam poeticamente a saudade aos movimentos do mar. Se a acústica Não Sei Rezar (ainda é cedo pra falar de amor/é melhor fingir não ser/não quero atropelar você, meu bem/e por tudo a perder), ironicamente, mais parece uma prece, tamanha simplicidade e beleza, Furada (eu sei qual o seu perfume/sei que é bom/mas não, não vou mais cair na cilada/você finge ter poderes que não tem/ai, ai, essa sua lábia é furada) diverte como a troca de mensagens com um “contatinho”. O disco conta também com a participação do icônico João Donato no jazz Quem Disse (tem coisas que a vida nos dá/tem coisas que são como um dom/é dom te querer e depois/vou te requerer) – que tem lindos arranjos de sopro e piano e do profeta do Grajaú, Criolo na “afro-baiana” Soprou (te vejo no céu/te sinto no ar/no vento uma brisa que vem me acalmar). Além de dividir os vocais com Silva, o rapper compôs a segunda parte da letra, com versos como “controverso diverso disperso/tua pele na minha é verbo/minha boca na tua é luar”. O delicioso samba Má Situação (eu nunca me importei/com as coisas que não sei/somente com você/que não conheço/já tenho um grande apreço) dá o tom final em ritmo de amor platônico: que atire o primeiro bilhete único quem nunca se apaixonou por um(a) desconhecido(a) próximo à plataforma de embarque.

Há que se destacar também o projeto Bloco do Silva (2019) turnê onde o cantor revisitou o melhor dos hits carnavalescos, sobretudo dos anos 90, passando por sucessos do axé, frevo, samba e MPB , o que lhe rendeu desenvoltura suficiente para transitar com tanta despretensão pela brasilidade de Cinco. O álbum marca ainda o rompimento do artista com o selo SLAP (Som Livre), o que talvez explique o ritmo frenético de lançamento de seus álbuns em apenas uma década de atividade. As 14 faixas do trabalho destrincham com ritmo, poesia e refrão(!) o sentimento mais puro e complexo que carregamos no peito. E os irmãos Lúcio e Lucas, como bons artesãos a serviço da música, traduzem de forma orgânica e atemporal tal engenhoca. Então, tire essa poeira das orelhas e ouça Silva (5 letras), agora (5)!

 

 

Larissa Mendes, 13 letras, tem na música o seu céu.

 

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Olhares

Olhares

O legado das linhas de Vinha Oliveira

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Há um universo de coisas que se abrigam na tessitura dos dias. É dizer de formas que compõem mínimas partes de tudo o que pode ser representando pelas mãos de quem se dedica a mostrar o mundo pelas vias da arte. Nesse sentido, cada contorno e traçado se movimentam em favor da aparição de seres e objetos dos mais diversos aspectos, tendo em vista retratarem porções imaginadas da existência.

Na cabeça de uma artista como Vinha Oliveira, podemos supor resgates de memória, flagrantes cotidianos, delicadezas do ser, constelações de afetos e outros tantos sintomas da vida. Seus desenhos anunciam, de modo especial, uma miríade de mergulhos místicos que reverenciam a contemplação de mistérios inerentes à trajetória humana. Sobre este último aspecto, notamos que a criadora entrega seu ofício à sondagem do nosso âmago, trajetos internos que sugerem um diálogo com aquilo que transcende a materialidade das coisas.

Basta um percurso mais detido pelos desenhos da artista em questão e logo percebemos o efeito marcante que se inicia no engenho das linhas. A partir destas, Vinha desenrola os fios de cada gesto, face, objeto ou cenário apresentado. E tudo gira de modo impactante em tal perspectiva, pois é como se uma espiral de manifestações produzisse um resultado perene de possibilidades. Percebe-se, por exemplo, uma roda vida de expressões das personagens mostradas no enleio dos dias, na pulsação de hábitos, crenças e recortes íntimos.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A desenhista, que nasceu no Rio de Janeiro e mora na Bolívia há cinco anos, também é antropóloga e poeta. E foi no que chama de “exílio andino” que Vinha Oliveira, num modo de reencontrar elementos da cultura carioca que mais aprecia e tem saudade, se enveredou por caminhos autônomos do desenho. Estão marcados na memória dela, em especial, o mar, o samba, a música e as festas populares. Como a artista confessa, seus desenhos procuram a essência geométrica das palavras, percorrendo letras de músicas e também os poemas que escreve. Diga-se de passagem, tudo isso foi impulsionado no contexto da pandemia, sendo que o isolamento social levou-a a criar, no Instagram, o perfil Geometria da Palavra, espaço no qual divulga seus trabalhos.

A confissão de Vinha nos põe a pensar também que tudo principia no poder das palavras, pois estas geram a vontade das imagens. Mas é interessante notar que palavra aqui é matéria-prima, alicerce, estrutura sobre a qual se constroem as dimensões da vida representada em linhas, contornos, cores e contrastes. A palavra pensada em sua gênese primeira, que é dentro da mente de quem cria, estimula, projeta, engendra a materialização das formas no produto artístico. Palavra-faísca que dinamiza sensações, observações dos instantes e se constitui também como testemunho dos cenários experimentados na tênue linha entre saberes e sabores.

É de se imaginar porque Vinha Oliveira sustenta que na arte estão todas as respostas. E talvez a artista esteja querendo nos dizer que viver pela Arte é também se lançar num caminho permanente de descobertas, resgates, libertações e outras tantas epifanias íntimas. É renovar o impulso da vida, criar sensações, habitar dimensões outras, ver florescerem os enigmas e emblemas da condição humana. Mais ainda, pode ser forjar um outro indivíduo em nós, aquele que pende mais para as levezas do que para os abismos da realidade.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

* Os desenhos de Vinha Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 141ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Marcus Groza

 

Desenho: Geometria da palavra

 

do rascunho pra trás

 

no princípio era traço era rascunho
desenhamos o homem à imagem
e semelhança dos bichos selvagens

caçamos com afinco o dia futuro
em que o rascunho ganharia lustro
e progredindo de forma gradativa

chegaria quem sabe enfim às franjas
da perfeição por ser ele mesmo
braço mão cinzel e obra-prima

porém o que críamos ser qual nenê
que inspira cuidados e pede teta
mas alegria e graça promete aos pais

logo se mostrou nada mais do que
uma tosca versão definitiva
do omi-nenê sub-espécie extinção

progresso nenhum não veio aliás
senão o temporal que se prenuncia
com gestos de velhice e finitude

e avanço só mesmo qual curupira
cujo rastro é tão enigmático
que sherlock nenhum elucida

se no caso retrocedemos pra frente
ou se a vida é do rascunho pra trás

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vinho manga losna ou cacau

 

o apetite dos convidados de uma casa em festa
Luís da Câmara Cascudo

 

é amarga a vida diz um sincero
que nem tanat no primeiro gole

no início são fiapos de manga
aguerridos choupos ao vento

é o que respondo pois já nem
praguejo o visgo que se adere

e empedra no vão dos dentes
é uma manga a vida eu digo

é amarga repete o sincero
feito losna no dia seguinte

sinceridade é ateísmo açucarado
mesmo entre os mais crédulos

primeiro é tanino que amarra na boca
um gosto forte que água não leva

me lembra quando tudo salgado
da língua à garganta marrenta

como durante o sexo oral
não é sede na boca sedenta

a mim lembra bílis diz o sincero
que sobe em refluxo fermentado

e o palatante por fim experimenta
assombrações dos antigos manjares

entre arrotos azia e sabor azedo
é amarga a vida então eu penso

verdade é mancha no fundo da taça
o roxo que nos colore os lábios

amargor é vida eu digo
língua travosa cacau 100%

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vinagre da insistência

 

…………em toda mesa de trabalho
não só o café esfria
…….como cedo ou tarde
……………a ossatura ideal se rompe
……………………emulsão e textura coalham
…………..então resta nas mãos
…………………o vinagre da insistência

…………………….verter ali nossas lágrimas
………..chorar a linfa empoçada
………………os pés inchados
…………..se inda resultasse num afeto-feitiço
…………………..mas sequer materializa a prata

………….desaprender ………única tarefa
………………………………começa vertendo o método
…………………………em leito sinuoso quando sabemos
……………………..que nos cabe esperar
………………..da seiva extraviada
…..apenas uma poeira nos olhos
………um silêncio condensado

 

 

 

 

***

 

 

 

 

osso

 

dentre tudo Q descarna
o amor é a mão suja
dum açougueiro indo pra casa
quando prende o punho
na engrenagem da porta basculante
e os dedos não se magoam
de tão acostumados ao sangue

 

 

 

 

***

 

 

 

 

para raquel gaio

 

dentre tudo Q oxida
embolora e resseca
faço um semicírculo
de flores e folhagens
rejeitos e pedregulhos
Q você coleta
quando andamos
pelos arrebaldes
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona
cacos informes
materiais imperfeitos
irmãos nossos
servem de pretexto
pra esquecermos
a respiração curta
os invisíveis desabamentos
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona

 

 

 

 

***

 

 

 

 

suor e oração

 

dentre todos cuja
pele não formiga
e imolam remorsos
com fósforos molhados
Quem me dera
ser todo estômago
movimento peristáltico
bile e refluxo
pra poder vomitar tudo

vomitar nossa servidão voluntária
aos gritos sem delinquência
ao valor moral do trabalho
aos traumas produzidos
em banho maria
no seio das famílias

quisera ser todo estômago
pra vomitar os ritos insossos
vomitar a obediência
vomitar a hierarquia
as ordens cantadas
os papeis de leis escritas
mastigar como uma cabra
a tábua dos mandamentos
e cagar uma merda ungida

 

Marcus Groza é escritor, dramaturgo, performer e pesquisador. Autor dos livros “Uma pedra em cima disso” (no prelo), “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019) e dos textos dramatúrgicos “Não Urine no Chão”, “Tambor de Couro Vivo”, “Maré Morta”, entre outros. Participou com oralização de poemas no programa “Manos e Minas” da TV Cultura (São Paulo-SP), no “Eco Performances Poéticas” (Juiz de Fora-MG), no “Inverno Cultural” da UFSJ (São João del Rey-MG), no “Tercer Jueves” (Buenos Aires) etc. O seu ensaio “Para uma poética do esquecimento” foi traduzido para o espanhol e saiu no livro Olvidar – Brumaria Works #9 (Madrid, 2018).