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154ª Leva - 02/2024 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

 

AMARO FREITAS – Y’Y

 

 

Um rio que nasceu na cruel periferia do Recife e deságua nas águas da Amazônia. Esse é um roteiro de viagem possível quando se ouve o quarto disco do pianista pernambucano Amaro Freitas, Y’Y (2024). Um jazzista improvável, que cresceu entre o gospel, o funk e o rap e que teve sua vida transformada após um DVD de Chick Corea chegar em suas mãos.

A estreia de Amaro veio com Sangue Negro (2016), marcado pela fusão do jazz com ritmos nordestinos e que abriu caminho para sua inserção no circuito internacional de jazz. Rasif (2018), cujo título em árabe homenageia sua cidade natal, aprofunda a influência do baião, frevo e coco na polirritmia de seu jazz. Em Sankofa (2021), Freitas completa um percurso de pessoas, lugares e filosofias da história negra brasileira, muitos dos quais ignorados pela história oficial.

Y’Y traz o encontro do jazzista com o mundo amazônico, que potencializou sua música com elementos da cultura da floresta. O título vem da expressão para água do dialeto da comunidade indígena amazonense Sateré Mawé. E é de maneira fluida, como água, que o piano de Amaro constrói uma suíte amazônica no lado A, que recupera a ancestralidade e as lendas da floresta. O piano e a percussão se entrelaçam nas faixas “Mapinguari (Encantado da mata)” e “Uiara (Encantada da água) – Vida e cura”. Enquanto Mapinguari, nas palavras de Amaro, se trata de “um gigante faminto e peludo, com um olho e uma boca enorme no umbigo, que vagueia pela floresta em busca de comida”, Uiara é o boto-cor-de-rosa, o princípio feminino das águas.

 

Amaro Freitas / Foto: Micael Hocherman

 

A conexão Nordeste-Amazônia já tinha sido feita pelo conterrâneo Naná Vasconcelos em Amazonas (1973), o homenageado em “Viva Naná” e que serviu, de alguma maneira, como guia para Amaro, que usa um piano bastante percussivo ao longo do disco. “Dança dos Martelos” lembra que, no final das contas, o piano é um instrumento de percussão. Ou, mais tecnicamente, de cordas percutivas. Raras vezes um piano soou mais indígena, mais amazônico.

“Sonho Ancestral” é um momento mais lúdico, com direito a citação de “Asa Branca”, que surge como uma possível lembrança de infância, fundindo as bacias do São Francisco e do Amazonas em uma coisa só.

Abrindo o lado B, a faixa-título “Y’Y” (pronuncia-se “iê iê”), trazendo a flauta do britânico-barbadiano Shabaka Hutchings, que representa um “encontro das águas” com o piano de Freitas, como se o rio amazônico desaguasse no litoral pernambucano. “Mar de Cirandeiras” é uma homenagem às cirandas de Pernambuco, uma expressão cultural popularizada por Lia de Itamaracá e pelo Quinteto Violado, entre outros, que aqui ganha a companhia da guitarra do norte-americano Jeff Parker. As reminiscências da terra natal de Amaro levam a um tributo à figura materna, Dona Rosilda, na faixa “Gloriosa”, pontuada pela harpa de Brandee Younger, a primeira mulher negra a ser nomeada para um Grammy de melhor composição instrumental.

Por fim, “Encantados” retoma a abordagem de trio jazzístico bastante comum em trabalhos anteriores de Freitas, com a adição da flauta de Hutchings. A busca pela ancestralidade nas águas amazônicas e nos mares pernambucanos encontra a aldeia global negra do jazz, fruto da diáspora africana. Amaro Freitas aponta para o futuro, sem perder suas tradições afro-brasileiras.

 

 

Rogério Coutinho é gestor e produtor cultural, com trabalhos em museus e patrimônio, além de comunicólogo e publicitário. Colaborador eventual da Diversos Afins, apresenta o podcast Gramofone junto ao editor Fabrício Brandão. É o criador e responsável pela Rádio Nove.

 

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154ª Leva - 02/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Bianca Monteiro Garcia

 

Foto: Marcelo Leal

 

PÊNDULO DE FOUCAULT

 

deitada na poltrona de frente pra cama
ensaio um luto te vejo segurando um pedaço
de amora adormecida com as mãos no abdômen
carrego no peito um pêndulo estático
e atento aos teus ponteiros
varro os olhos pela casa e a casa despeja
uma canção sem resposta:
tua pele este tronco de madeira antiga
será capaz de carregar ainda
a textura do teu tempo
quando a raposa que à noite te fareja pela janela
decidir enfim saltar em tuas pernas?
o ruído que tua pleura orquestra
ferve na sola dos meus pés um aviso
a noite se esconde da aurora
e o rastro deixado pela areia
forma um longo tapete antiderrapante
a raposa mais uma vez adormece
debruçada nas patas de um cavalo

 

 

 

***

 

 

 

QUANTO AO QUARTO BALDIO

 

tão irônico este quarto
com estes lençóis branquíssimos
impedindo a poeira a olho nu
embora persistente debaixo do nariz

a parede alva e sóbria adornada
uma longa flâmula vermelha
e dentro
uma citação de madre teresa
– paz
– longevidade
– amor
– paciência
fincado ao leito
o silêncio decora tudo com letargia e raízes

tão irônica esta cama sem cabeceira
presa à parede e ao chão
a cinco passos de uma porta sem fechadura
encostada por um chinelo preso em sua fresta
meu único alarme de segurança

ontem mesmo uma vizinha às 2h da manhã
tensa como as cordas de um violino
pediu pra dormir embaixo da minha cama
por medo da colega de quarto
atacá-la com o pente de cabelo

qualquer um pode invadir o espaço
até o vento entra sem permissão
e eu mesmo sem precisar de chave
não consigo sair à revelia

 

 

 

***

 

 

 

HIPOCONDRIA

 

cresci rodeada de plantas de plástico
não me lembro de arnica em machucados
a mesa da cozinha
sempre costurada por uma mini-farmácia
nimesulida paracetamol privina
hoje teimo fazer sabonetes de argila
e vitaminas de banana com linhaça

 

 

 

***

 

 

 

RELEASE

 

acordo com 25 anos e olheiras salgadas
preciso logo-logo mexer nas pastas
as máquinas me perguntam
– tua data de nascimento
– o nome do pai
– o nome da mãe
– os três primeiros dígitos do cpf

as máquinas me questionam sem pudor

eu lembro, pai
durante os almoços de sábado
das nossas conversas atravessando o som
do rádio
de como as mexericas são
pequeninas
de como as tangerinas são
grandonas
perto de ti eu era eterna
criança
que dormia com as mãos cruzadas no peito
e pedia a um deus qualquer que fizesse do pai
um guerreiro imortal
como highlander
mas sem morte no final
oh dear dad can you see me now?
i am myself like you somehow

 

 

 

***

 

 

 

TRIAGEM

 

cymbalta para suposta fibromialgia
aos 14 esporadicamente alprazolam
aos 16 nos dias de insônia clonazepam
depakote receitado devidamente aos 20
aos 21 a cama dobra de tamanho com lioram
para queda brusca de libido e apatia de sobra:
oxalato de escitalopram
o coringa do hospital psiquiátrico:
sertralina e quetiapina
não peça s.o.s na enfermaria

 

Bianca Monteiro Garcia nasceu em 1994, no subúrbio carioca, onde vive desde então. Fundou a Macabéa Edições em 2019, editora focada em publicar autoras mulheres de diversas regiões do país. Publicou “breve ato de descascar laranjas”, seu primeiro livro, em 2023, que foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2024, no Eixo Inovação, categoria Escritor Estreante – Poesia. Lançado em parceria de coedição entre Macabéa Edições e 7letras, o livro fala sobre luto, loucura e solidão. Participou do World Poetry Day Festival, de Washington, representando a jovem poesia brasileira, em março de 2024. Em janeiro do mesmo ano, integrou a publicação La Juventud de la poesía en Brasil: muestra de poesía contemporánea, da Fundación Cultural Esteros (Uruguay – Argentina).

 

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154ª Leva - 02/2024 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodrigo Melo

 

Foto: Marcelo Leal

 

O QUE VIM FAZER AQUI

 

Urucutuques é um remanso. Não há turistas com camisas floridas e protetores solar, tampouco hipsters com tatuagens coloridas e barbas bem cultivadas, muito menos DJ’s ou headbangers. Acho que nunca vi um policial fardado, em patrulha. Na verdade, lembro de um que frequentava a praça principal, mas ele não usava arma ou colete e sua ronda se limitava a uma partida após a outra de dominó.

Era como se a cidade tivesse estacado em algum dia da década de 70 e uma parte de sua alma continuasse lá, preservada em um tipo de inocência que não serve para muita coisa, a não ser que o sujeito tenha desistido ou se esquive de grandes emoções. E era justamente desse jeito que eu andava, um bocado esquivo, e continuaria assim “ad infinitum”, não fosse uma inesperada ventura que me veio através do que lá fora chamam de wake up cool ever – acho que é isso -, que significa, basicamente, uma chamada de consciência absoluta. Um dia, de frente para o espelho, do nada dei de procurar o indivíduo que achava que era. Meia hora ali, em uma extenuante busca. Não o encontrei. Em seu lugar, um quase estranho, aquele tipo com quem cruzamos na rua e vasculhamos na memória de onde conhecemos. Sentia que passava por algum tipo de despertar e que havia algo de espiritual naquilo.

De toda maneira, lá estava eu, distraído, a caminhar pelas ruas de Urucutuques com sacolas de compras nas mãos, quando escutei a sua voz:

– Que tal uma cerveja?

Devia ter uns trinta e poucos anos, cabelos alisados e pintados num tom acaju, a alça do vestido caindo até o meio do braço. Seu rosto era bonito, mas desgastado. Estava em uma das mesas de um bar que, na fachada, tinha escrito “Supermercado Iguatemi”.

– Estou resolvendo umas coisas.

– Resolve depois.

– Não posso.

– Tá com medo?

– De quê?

– De mim.

– Ainda não deu tempo.

Ela sorriu. Não tinha um canino e um pré-molar.

– Gostei de você. Vou ficar aqui, te esperando. A vida foi feita pra se viver.

Não encontrei Lucky Strike na banquinha e acabei comprando uma carteira de Broadway, que me causava um pigarro enorme. Fui até o carro e arrumei as sacolas no banco do passageiro. Bastava ligar o motor. Meia hora de ramal. Colocaria uma música e a viagem seria rápida e agradável. Antes de girar a chave, no entanto, pensei nela. Havia qualquer coisa diferente nos seus olhos – esperança ou fé -, embora também tenha enxergado um tanto de desespero e loucura. A vida tem que ser como um rio em dia de temporal, imaginei-a dizer para alguém, ajeitando o cabelo sobre os olhos. Fechei o carro e caminhei até o bar.

Estava na mesma mesa, agora acompanhada de uma larga morena. Sentei em uma das cadeiras, tirei um Broadway da carteira e o acendi.

– Daiane, pega uma cerveja – ela disse para a morena. – O moço tá com sede.

Daiane me olhou e, em seguida, se levantou e seguiu, balançando sua enorme bunda de um lado para o outro, rumo ao balcão onde havia um velhote mal encarado usando boné.

– Isso aqui era um mercado?

– Acho que sim. Agora é bar e puteiro.

– Não imaginei.

– Ficou decepcionado?

– Não tenho problemas com bares ou puteiros.

– Que bom. Tenho um quartinho limpo lá atrás. Quer conhecer?

– Agora, não.

Daiane retornou e serviu a cerveja; primeiro, no copo delas e, depois, no meu. Dei grandes goles, a escutar aquela mulher falar. Dizia se chamar Marisa, crescera em uma área rural longe dali e tinha uma filha de oito anos que vivia com a avó. Chegara a Urucutuques há três meses. Achava a cidade parada, a não ser nos dias de sábado, quando os trabalhadores das fazendas vinham fazer compras e beber. Uma leve brisa cortava a rua da feira, bem à nossa frente, e trazia até nós o cheiro de verdura apodrecida, que se misturava ao da cerveja que secara sobre o piso. Algumas moscas graúdas revoavam à nossa volta.

– Nunca te vi por aqui.

– Venho pouco à cidade. Passo no mercado, na padaria e volto pra casa.

– Deve ser casado.

– Não.

– Algum motivo essa pressa tem.

– Sou só um sujeito que gosta de solidão.

– Eu não ligo se você for casado.

Além de despachar as cervejas, o velhote colocava discos pra tocar. Naquele instante, em duas velhas caixas de som penduradas na parede, Silvano Sales se esgoelava, a rimar castigo com abrigo. Eu conhecia aquela música e, como havia bebido alguns copos, cantei o refrão.

– Ih, tá apaixonado – Daiane falou.

– Parece?

– Muito.

– Daiane, você é uma garota esperta, que deve conhecer os segredos da vida, mas errou nisso. O que acontece comigo na realidade é algo bem diferente de paixão.

– Tá desiludido – Marisa disse.

– Também não. O que tá rolando, como os gringos dizem, é um negócio chamado Wake up cool ever.

– Que porcaria é isso?

– É como se, de repente, num susto, eu tivesse começado a entender o que é que vim fazer aqui.

– E o que você veio fazer aqui? – Marisa quis saber.

– Ainda não descobri.

– Me conta, quando souber.

– Pode deixar.

Daiane se levantou.

– Vou pegar outra.

Bebemos mais duas ou três. Minha língua começava a enrolar, quando fiz um brinde a todas as coisas boas que ainda nos aconteceriam. Os copos estalaram no ar.

– Que tal ir lá no quarto agora?

– Hoje, não, Marisa. Mas volto qualquer dia desses.

Ela fez um muxoxo.

De onde estava, vi dois cachorros muito magros cruzando, uma senhora varrendo a calçada em frente a sua casa e outra senhora a caminhar com uma Bíblia na mão. O sol começava a se pôr – o sol laranja de Urucutuques, uma panela de ouro a reluzir o seu brilho sobre o teto de velhas casas. Em alguns minutos, ele começou a se esconder atrás do horizonte e o céu mudou de cor: do azul claro se transformou em amarelo, depois ficou lilás, azul marinho, até que, subitamente, a noite chegou. Eu poderia estar em casa, tentando escrever alguma coisa, a escutar o barulho dos sapos e dos grilos, mas estava ali, num puteiro com o letreiro “Supermercado Iguatemi”, a imaginar que existia algum significado naquilo e que a única coisa que precisava fazer era ficar mais um pouco. Como se aquilo tornasse a vida algo ainda mais cômodo e confortável. Ou, também pensei, como se, de algum modo, eu tivesse feito uma jornada no tempo e regressado a um dia qualquer de 1976.

 

Rodrigo Melo escreve prosa e poesia e tem quatro livros publicados. Vive em Ilhéus, Sul da Bahia.

 

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154ª Leva - 02/2024 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Fragmentos do indizível

Por Vivian Pizzinga

 

Foto: Carolina Spork

 

Há uma carta lacrada por anos. Podemos, da plateia, desconfiar de que ela tem certa função de despedida. Certamente, traz um mistério, indica um amor e talvez carregue respostas a perguntas difíceis de enunciar. O destinatário é um homem que não teve oportunidade de aprender a ler. Que é capaz de, por muito tempo, guardá-la como um dos documentos mais preciosos e imantados de sua vida, sem saber o que diz. Raimundo, nascido no sertão nordestino e trabalhando na roça desde muito novo, é o homem que recebe a carta, mas precisa aprender a ler para desvendá-la e, para tal, precisa antes vencer a vergonha de se colocar numa sala de aula como alguém que não conhece as letras. Há outros desafios que o protagonista dessa emocionante narrativa terá de enfrentar: ele precisará fugir de casa e de uma história de violência familiar para sobreviver física e emocionalmente, e terá de se colocar em outras cenas e cenários para viver e encontrar-se, para acudir a si mesmo de si mesmo e dos fantasmas que o acompanham e, então, quem sabe, ter coragem de abrir a carta, tão íntima e tão enigmática, conservada por décadas fechada. O remetente dessa carta é Cícero.

Podemos eleger a carta de que falamos como um dos fios condutores da belíssima (e também brutal) história de A palavra que resta, peça adaptada e dirigida por Daniel Herz e que nos oferece uma versão dramatúrgica do premiado livro homônimo do escritor cearense Stênio Gardel, cuja obra foi laureada com o National Book Awards na categoria literatura traduzida, sendo o autor o primeiro brasileiro a receber o prêmio estadunidense. Quando tive a oportunidade de assistir à peça, quando esteve em cartaz no Rio de Janeiro no mês de outubro, eu não havia lido o livro, mas adivinho agora que não há surpresa em saber que angariou um prêmio literário dessa monta, dado que a qualidade poética do texto do espetáculo adaptado é um dos grandes elementos da montagem, que faz jus ao título, dando destaque ao lugar da palavra. O romance de Gardel foi ainda um dos dez finalistas do 64º Prêmio Jabuti, em 2022, na categoria romance literário.

 

Foto: Carolina Spork

 

Por outro lado, a peça, cuja realização é da Cia Atores de Laura (comemorando 32 anos de existência, aliás), traz uma dinâmica cênica muito própria e instigante, em que os atores e as atrizes circulam e se dividem pelos mesmos personagens, usando uma vestimenta base, no figurino assinado por Wanderley Gomes. Essa dinâmica fractal repercutiu em mim de modo a ampliar a dimensão dos personagens (em especial, Raimundo), evocando também a noção de que somos mesmo uma multiplicidade, de que, em cada ação e cada gesto nossos, há muitos e muitas dentro de nós, quiçá bem coreografados, mas nem sempre bem adaptados à realidade que nos cerca e que pode exigir-nos umas quantas coisas que, com alguma frequência, não poderemos satisfazer, e uns tantos papéis que tampouco lograremos êxito em preencher. Em cada atitude que expressamos há diversos flancos viáveis e inviabilizados, alguns escancarados, embora nem sempre iluminados e visíveis a olho nu e pé descalço. É dessa forma que, no palco, Ana Paula Secco, Charles Fricks, Leandro Castilho, Paulo Hamilton, Valéria Barcellos e Verônica Reis assumem as vozes e as dores de Raimundo, Cícero e alguns dos outros personagens, em um drama familiar e pessoal de silenciamento, renúncias e, sim, alguma redenção.

É na juventude que Raimundo, nosso personagem, descobre seu amor por Cícero, e será em meio à rotina de trabalho na roça que, juntos, descobrirão a aventura do sexo e as consequências de não se furtarem aos seus desejos. Afinal, já nos sinalizavam Freud e os teóricos e as teóricas da psicanálise que se furtar ao desejo exige uma solução de compromisso dolorosa, traduzida em sintomas corporais e psíquicos, bem como em vida decepada e literalmente paralisada. O interdito da homossexualidade, porém, é um elemento que atravessa, de modo certeiro, o drama familiar de Raimundo, e os segredos e os não-ditos transgeracionais darão lugar a uma dura condenação do protagonista, após a descoberta desse enlace amoroso que o olhar do outro não admite e não suporta. Assim, acompanharemos a jornada de Raimundo, que tem de fugir para longe de sua cidade e das pessoas que ama. Mas somos mesmo muitos e muitas por trás de nossos posicionamentos superficialmente coerentes e, desse modo, as contradições de Raimundo também irão aparecer ao longo de sua vida na cidade, especialmente quando conhece a mulher trans Susany, vivida pela atriz convidada Valéria Barcellos, e também por Verônica Reis e Ana Paula Secco. Susany é um personagem imerso em vivências de violência e de quem, aos poucos, nosso protagonista se tornará amigo.

 

Foto: Carolina Spork

 

É preciso dizer que o espetáculo A palavra que resta cumpriu belíssima temporada carioca e merece outras mais, aqui e em outras cidades, porque nós merecemos mais e porque precisamos continuar falando e refletindo, poética e dramaturgicamente, sobre a temática encenada no palco: se a peça nos apresenta poesia e coragem, se menciona vergonha e sua contraparte, a exposição de si, é porque não hesita em pensar linguagens e imagens que trabalham, com primor, preconceitos, conservadorismo, homofobia, rejeição. É porque traz à tona possíveis caminhos de resistência e insistência. As atrizes e os atores da Cia Atores de Laura, claramente mergulhados na experiência literária que se origina em Stênio Gardel, conseguem sustentar o texto nos emocionando e também, em alguns momentos, nos fazendo rir, com as tiradas e reações cheias de ingenuidade e aparente espontaneidade dos personagens nas cenas que evocam o percurso trágico de uma vida e de uma família. E o espetáculo, por fim, tem o dom de despertar a curiosidade para a leitura do livro. Entretanto, infelizmente, ainda não é demais repetir que a violência física, psicológica e simbólica à população lgbtqia+, assim como a mulheres, pretos e pobres (lista que não esgota a lista), é um clichê em nosso país, e a abordagem dramatúrgica do assunto, ainda que não tenha como finalidade a pedagogia moral, mas sim a expressão artística, acaba por se fazer necessária, neste nosso país que tem tomado um gosto enorme por retrocessos. Espero ainda o momento em que não será preciso sublinhar, em nenhum texto sobre teatro, literatura ou cinema, a atualidade do tema, dadas as circunstâncias culturais em que vivemos. Que possamos apenas mencionar o deleite estético que uma excelente encenação, a partir de um texto literário de ampla e reconhecida qualidade, desperta em nós. Que possamos nos concentrar naquilo que um espetáculo teatral nos faz refletir sobre tantos outros aspectos pessoais e existenciais de nossas vidas. Espero ainda o momento em que escrever sobre A palavra que resta e outros espetáculos por vir possa escolher falar de violência e homofobia apontando-os como um evento histórico triste finalmente superado, passagem desbotada da história, como nos canta a música. Mas ainda não chegou o momento. Enquanto isso, podemos ocupar os teatros para elaborar, psíquica e coletivamente, por vias artísticas, nossos traumas individuais e coletivos e, por que não?, conferir beleza poética às histórias que nos constituem.

 

Vivian Pizzinga é psicóloga e escreve. Lançou, entre outros, “Ruído nos dentes” (Urutau, 2022, poemas) e “A primavera entra pelos pés” (Oito e meio, 2015, contos). Participou de coletâneas e revistas literárias, como da Revista Lavoura 7 (2022,impressa), Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus contra todos (Tinta negra, 2016, contos). Fez doutorado em Saúde Coletiva, no Instituto de Medicina Social (Uerj), é carioca e prefere o outono.

 

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154ª Leva - 02/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Jussara Salazar

 

Foto: Marcelo Leal

 

ars memoriae

 

Tenho uma vaga lembrança
De um pássaro [De um mar
De lembrar essa vaga [Essa água
De reprise de ondas
Filmes desbotados [De sombras
Marcas [De patas úmidas
De animais ao redor da casa
Peixes de celofane
Tenho uma vaga
Que se vai
Que se vem
Alga caravela de fogo
Boiando [Como uma chaga
Essa água
Chamada lembrança
Vagando chegando

 

 

 

***

 

 

 

sobre amanhecer no agreste

 

nessa aridez que tudo ocupa
terra semeada à faca_ iamanaka’ru
como se em terra sua
lança suas bordas afiadas
fere a pele de sua pele quando rasga
em si_ como se nasce_ sem água
essa terra que lhe serve de morada
e se lhe sustenta a epiderme_ é para
quando a sede que lhe bebe lhe serve
nas noites de frio espelhe-se
em galáxia de órion que vaga
lá do alto como a fruta violeta
_ a polpa breve
no céu da noite ao amanhecer
fúria
que o sol no catimbau floresce
_recrudesce_ em meio ao nada

 

 

 

***

 

 

 

visão de n.s. da feira do Arcoverde

 

En roscas de cristal
serpiente breve não vês?
pois ouve
seu farfalhar quando
resbala uns
guizos preguiçosos
arabesco
vivo venenosos
rodeando o barro das
vasilhas e moringas
esticadas ao sol gongórico
entre pés
idas e vindas
os peixes
presos ao calcário
gasto há mil anos
pétreos sob o sol
em duro calvário
não despertam
nem
à castanha passagem
ruidosa passagem
de cabras e trens
um cão
o vento
o vento
os bois
o tempo
a água
pingando
na lata
as mulheres
os homens
a montanha xukuru
a mata
e a procissão das
vestes negras o
corpo santo que
atravessa ao dia
o corpo
ornado de velas
vai ardendo a
parafina
à revelia
tão morno
tão fria
tão morna latomia
tão morna latomia
tão morna latomia
enquanto um tambor
ressoa
o som tortuoso
a ladainha ao
longe não é
senão
a luta de um vivo
e de um morto
timão fiado
santos
santa
barrueca bendição
eu e
minha avó
ali
temos
cem anos
de sertão
um cão
o vento
o vento
os bois
o tempo
a água
pingando
na lata28
as mulheres
os homens
a montanha xukuru
a mata
a terra castanha
como
as cabras
exibe suas
cicatrizes
sem
água
a terra
seu chão29
eu e
minha avó
na solidão
ali
temos
cem anos
de sertão

 

 

 

***

 

 

 

O sal

 

essa sílaba
mínima
marítimo oceano
um grão
cristal
pedra d’água
o sal
essa sílaba
para lavar pés
e derramar
sobre a cabeça
do santo
como o batista
um dia o fez
o sal
essa sintaxe salsugem
para a onda
levar
e trazer o cão
a escama
translúcida
essa bendição
o sal
de queimar o mar
das águas vivas
das pedras lavadas
das ervas nocivas
do encarnado
multitudinoso
rubro carnoso
oinopa ponton
homérico salobro sal
para sangrar o mar33
para levar
a onda
para trazer
o corpo
e cobrir as conchas
o fundo do barco
como mínimos
diamantes
para te parir
por um instante
o sal

 

 

 

***

 

 

 

das manhãs na rua das moças

 

sobre a mesa antiga
marcas
ranhuras
mapas riscados
rotas marinhas perdidas
……..[antigos oceanos]
entre panos
da costa
cauim
papéis recortados
as frutas
respingam um frescor
como as folhas brilham
nas mãos que as colhem
na tábua que as acolhe
e sangram seu sumo
como no andor36
de procissão incensada
sagradas
as frutas
as folhas que Nhá
com mãos escuras
lava
eleva
lava
mergulha
na ágata
e bendiz
as manhãs
da morada

 

Jussara Salazar é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade de São Paulo [Fapesp, 2016], é mestra em Teoria Literária pela Universidade Federal do Paraná (2010). Escritora, tradutora e artista visual, pesquisa ainda alguns mitos relacionados à oralidade e ao feminino havendo publicado “Inscritos da casa de Alice” [1999], “Baobá, poemas de Leticia Volpi”, [2002], “Natália” [2004], “Coraurissonoros” com tradução de Reynaldo Jiménez [Buenos Aires, 2008], “Carpideiras” [2011] com a Bolsa Funarte, ficando entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom na edição de 2012, “O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas” [2014], “Fia” [Projeto Funcultura, 2016], “Corpo de peixe em arabesco” [[2019], “O dia em que fui santa joana dos matadouros” [2020], Prêmio Hermilo Borba Filho e finalista do Prêmio Jabuti e Bugra [2022].

 

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154ª Leva - 02/2024 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

DEPOIS DO FIM, A POESIA

Por Sandro Ornellas

 

 

Após dois livros de crônicas, Kátia Borges retornou ao verso com Dias amenos (Segundo Selo, 2023). Nos livros anteriores, lançados durante a pandemia, Kátia escreve com sua palavra de experiente jornalista, de olhar atento aos nossos solucionáveis conflitos, mas também com sensibilidade para o que há de insolúvel. Com suas crônicas, Kátia nos ajudou a atravessar o áspero deserto daqueles anos falsamente distantes. Já neste último livro, um novo de poemas, o olhar de Kátia continua atento ao mundo – na verdade nunca o abandona –, mas traz algo do lirismo pungente da poeta que também atravessou o mesmo deserto que nós todos e todas. E se apegou à poesia através da jornada, trazendo-nos agora o que restou para ser dito pela palavra.

É como ela começa o livro, com um antológico poema sobre a força e a fragilidade com que é feito um poema: “corda tensa”, “quo vadis”, “hades”, “rocha físsil”, “ode extensa”, “mínimo moto”, “solda de estanho, chumbo”, “peça densa”, “equilíbrio em falso”. E nessa sucessão de metáforas, que são o esforço da poeta em traduzir a tarefa de um poema em dizer e sustentar a poesia, o diálogo com os mortos “se aos vivos nada cabe”, o movimento das pedras e “a fímbria espessa do mundo”. Nesse esforço do poema em dizer a poesia, ao poeta restam as máscaras de “vate” e “Sísifo”. Tarefa ingrata, a da poeta. Talvez mais fácil escrever crônicas em um tempo que tanto falou do seu próprio fim. Fim dos tempos. Tempo do fim. Crônicas para tentar entender, já que o poema é somente o que ressoa de “um fio de cobre [que] estoura”. Talvez também por isso o retorno com tanta força durante a pandemia da escrita e leitura de poesia. Quando os tempos fogem à compreensão, só o poema é capaz de dizer algo desse “sem sentido / apelo do Não”, como nos escreveu Drummond.

Se o poeta itabirano falava da memória como amor ao que se perdeu, Kátia fala do amor ao que existe de menor, discreto, ínfimo ou mesmo invisível no nosso dia a dia. A sua poesia ama o que ainda não se sabe ao certo como dizer, embora tenha sido sentido: “amo tudo o que esteja / ainda inominado. […] // resta sossego nos que silenciam / seus mistérios, nos rituais que negam todo acesso, nos poemas ainda não escritos”. O silêncio a que se refere Adriane Garcia no posfácio funciona na poesia de Kátia como contraponto ao ruído de tantas certezas gritadas por redes e cidades, o incessante ruído das pregações, dos moralismos políticos, das propagandas comerciais e autopromocionais, da música consumida ininterruptamente. A poesia de Kátia resiste bravamente aos fogos de artifício da contemporaneidade, artifícios que têm se tornado bombas com cada vez maior frequência. A discrição e – e sem medo de repetir um clichê – fragilidade da sua poesia é sua maior força em tempos de gestos de violência que se esvaem como modas frágeis, ao sabor do vento e das imagens. Da sua poesia, pode-se dizer ainda o que Kafka escreveu sobre “Odradek”, no conto “A preocupação do pai de família”: “Será então que no futuro, quem sabe se diante dos pés de meus filhos, e dos filhos de meus filhos, ele [ela] ainda rolará pelas escadas, arrastando seus fiapos?”. A poesia de Dias amenos nasce madura por se saber discreta e fina.

Mas a contemporaneidade é tempo de poetas, diria alguém equivocadamente evocando Hölderlin. Eles estão por toda parte, publicando, falando, cantando, divulgando-se, posicionando-se, lutando e performando nas redes, nas ruas e no debate público. É justamente por isso que os Dias amenos da poesia de Kátia podem resistir: como testemunho involuntário e às avessas desses dias extremos e ruidosos. Recentemente, em entrevista, eu disse possuir a tese de que em tempos de crise as pessoas recorrem à poesia para tentar se expressar e dizer o que sentem e pensam. É assim contemporaneamente e foi assim, por exemplo, durante a Ditadura Militar no Brasil. A poesia vem quando a vida é colocada em crise, e o papel (social) dos poemas é sempre tentar dizer exatamente aquilo que não se sabe exatamente como dizer, como são as crises. A poesia de Kátia Borges representa muito bem essa noção de lirismo moderno. Principalmente quando seus poemas falam em primeira pessoa do singular, nas incertezas ou nas perdas, nos prazeres ou nos desejos fugazes, nas saudades ou na melancolia.

Em Dias amenos, para arrefecer a passagem do tempo, Kátia busca cumplicidade em pessoas (“Maria, você bem sabe”, “já não há registros de sua vida, Alice”, “vê, amigo, a vida não é nada”, “era um anjo que nem Dona Olga…”), livros (“no tempo certo, os livros dizem não”, “trabalho para viajar e ler livros”), viagens (“um dia volver a julho”, “quando estivemos em Punta del Este”), família (“os olhos verdes de minha mãe”, “minha mãe desatava os nós”, “sou a terceira / a herdar este rosto”, “cada chevette faz lembrar meu pai”), dentre outros sinais para guiar a memória ainda viva: “preocupa-me a âncora /mais que a bússola”. Mas a verdade é que este é um livro de luto, no qual a poeta chora seus mortos, e não apenas eles. É um livro pós-pandemia, tecendo as memórias anteriores à catástrofe, a sua experiência desconcertante (“fundo um país no apartamento, / provisório, imprevisível”) e a consciência do ponto de não retorno (“paisagens que já não vejo”, “escuto em mim a canção do desapego”).

O verso livre de Kátia consegue abarcar muito do lirismo musical, sem recorrer a métricas e camisas de força rítmicas. Sua prosódia é a da brasileiríssima tradição dos cancionistas populares, que tão habilmente retiram melodia do mais prosaico dos fraseados verbais. Paralelamente, há música na sucessão das imagens criadas na hesitação entre som e sentido dos cavalgamentos (“enjambements”) entre versos, como em “mas apenas me calo, a palavra / sumida na boca, // como às vezes some / uma criança, desaparece / um gato, morre / uma flor, uma planta.” Essa é a música dominante das imagens em Kátia, sem dúvida. Todavia, a poeta não se esquece de alguns procedimentos de ruptura com o lirismo popular, que insinuam – mesmo que brevemente – construtivismos, como nas elipses sintáticas de “é preciso rasgar calendários / que não, / subverter cotidianos / que sempre”. São frases quebradas, de sujeitos quebrados, em tempos quebrados.

É bonito, no entanto, como a tristeza e melancolia dos versos de Kátia são capazes de comover e, ao mesmo tempo, promover alguma esperança. E a poeta sabe muito bem disso. Tanto que, à medida que o livro se encaminha para seu fim, sua última parte traz à cena grãos de futuro. Não como horizontes messiânicos de salvação, consagração, vitória e utopia, e sim como experiências possíveis entre a abertura para o inesperado (“sem saber indo de encontro / a um amor pra toda a vida”), a calma (“então cuidemos de pôr calma / em cada letra, antes / que a violência nos transforme”), a consciência da impermanência (“uma esperança não dura / mais que um verão” ou “e, se resisto, é no orvalho / das manhãs que se demoram / só um segundo”) e o eterno retorno à poesia (“e toda tinta torna à pena, / e toda trama torna ao prólogo”). Por isso que a poesia de Kátia Borges sobreviverá como um dos testemunhos mais fiéis do que experimentamos nos últimos anos, fiel como só a poesia é capaz de ser, fiel à sensação de que o fim do mundo, tão comercializado nas redes sociais, só pode ser interrompido pela poesia em sua eterna recusa aos fins.

 

Sandro Ornellas é escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Isto não é uma carta (P55, 2023) e Colecionador de Nada seguido de Ode Florestal (Villa Olívia, 2024), dentre outros.

 

 

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Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O meu entrevistado é sabidamente uma figura prolífica no campo literário. E dizer isso não se alinha a uma ideia de que há em seu modus operandi uma busca desenfreada pelo volume das coisas, ou seja, por uma maquinação que, a qualquer custo, grafe palavras no corpo dos livros. Há nele o interesse aguçado na matéria que emana da vida, vislumbrando cenários, objetos e personagens diluídos naquilo que tanto denominamos de realidade. Acima de tudo, é um alguém confessadamente imbuído de confeccionar seus escritos através de um engenho esmeradamente arquitetado, mesclando estudo e pesquisa, dentre outros importantes atributos.

Falar de Marcus Vinícius Rodrigues, a quem já entrevistei noutras oportunidades, é também pensar o quanto sua obra, largamente situada no terreno da prosa, reflete uma predileção criativa que trata a própria Literatura como uma entidade organizadora de tudo, quiçá o que ele mesmo chama de mistério da criação, esse algo que provavelmente convoca autores a lidarem com os chamados do mundo que os abraça e constitui. É assim que esse autor vai nos envolvendo em livros como 3 vestidos e meu corpo nu (2009), Cada dia sobre a terra (2010), Café molotov (2018), A eternidade da maçã (2016),  O mar que nos abraça (2019), dentre outros que engendram sinais de nossas humanas idades.

Mas a conversa que travamos agora para a Diversos Afins, em meio a uma entusiasmada troca epistolar de e-mails, coloca no centro o mais recente rebento de Marcus, o instigante Motel Mustang (2024), livro de contos que elabora, a seu modo, narrativas marcadas pelos efeitos de uma tragédia ocorrida em Salvador no fim da década de 1980. Nesta entrevista, é possível perceber o quão compromissado está o escritor em estruturar o seu ofício a partir de um projeto literário consciente e maduro, revelando pormenorizadamente ao leitor algumas estratégias que mobilizam e formulam suas criações. Mostra-se, pois, um alguém profunda e gentilmente disposto a compartilhar o universo que o faz seguir adiante, cultivando não somente palavras, mas também inquietudes.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – Partindo de uma tragédia real, você constrói o seu Motel Mustang. E é interessante perceber ali que a ficção ocupa um espaço privilegiado quando oferta aos leitores visões sobre personagens que perfeitamente poderiam ter existido, todas elas com trajetórias singulares, mas entrelaçadas pelo destino comum e fatídico. Na sua perspectiva de autor, a realidade também clama por alguma espécie de reinvenção?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Você inicia sua pergunta assumindo que eu parti de uma tragédia real para produzir um livro que privilegia a ficção. Na verdade, o processo foi o inverso e talvez eu possa dizer que tenha sido um acidente, um acaso, ou, quem sabe, um sopro de uma musa em meus ouvidos. Espíritos? Apenas o mistério da criação. Em maio de 2023, eu me dirigia à sede da Editora P55 para uma reunião. Já há algum tempo eu dizia a André Portugal e Marcelo Portugal, os editores, que eles deveriam fazer um livro coletivo (antologia ou coletânea). Vários escritores. Propus um livro erótico, que acabou sendo lançado e se chama Eros sobre os abismos, com Clarissa Macedo, Dênisson Padilha Filho, Kátia Borges, Rita Santana, Suênio Campos de Lucena, Victor Mascarenhas e eu. No caminho, no carro, me veio a ideia de fazer um livro sobre o Motel Mustang. Cada autor escreveria um conto que se passasse na noite da tragédia. Imediatamente, achei a ideia muito boa e resolvi escrever. Na reunião, apresentei os dois projetos. Na semana seguinte eu estava no centro de documentação do Jornal A tarde fazendo pesquisa.

Eu lembrava da tragédia ocorrida em 1989. É uma lembrança de ouvir dizer, de conversas das pessoas. Não lembro de ter visto as matérias nos telejornais. Devo ter visto, mas não lembro. Era uma lembrança sem imagens. A partir de 1991, eu passei a trabalhar na Avenida Suburbana. No trajeto, eu sempre lembrava do motel. Eu não sabia onde exatamente tinha sido e ficava imaginando onde ele ficava. Outra lembrança marcante foi que uma professora minha do ensino médio tinha perdido o marido na tragédia. Evidentemente, ele estava com uma amante. Essa é uma lembrança que também ficou enevoada. Não lembro se foi ela mesma quem falou ou se alguém falou dela. Com o tempo, eu passei a duvidar da história porque outras histórias semelhantes surgiram. Se todo mundo que dizem ter morrido no motel em situação de adultério tivesse mesmo morrido, teria sido muito mais que nove vítimas. Essa história de minha professora inspirou o último conto do livro (“O que se vê do alto”), primeira história pensada, já com a ideia de ir limpar a igreja para vender. Enfim, respondendo a sua pergunta: desde o começo eu pensei em usar a ficção para me aproximar dos acontecimentos. A minha pergunta íntima era: como as pessoas se sentiram. Eu quis entender o que é viver uma tragédia dessas; como é descobrir uma traição nessas circunstâncias; como é ver gente morrendo, como é morrer… e o que buscavam os clientes, quais suas histórias. Ao longo do processo de escrita e pesquisa, eu fui me aproximando mais e mais da realidade. Falo escrita e pesquisa, e não pesquisa e escrita porque, sim, comecei com ficção e fui adentrando aos poucos na realidade. Eu só consegui achar o inquérito policial no meio do processo. Mas eu já tinha o livro planejado e já sabia que a realidade, a tragédia em si, seria retratada no conto “O peso de tudo”. O livro foi escrito na ordem em que foi publicado, embora as duas histórias finais tenham sido as primeiras a serem pensadas. Na primeira pesquisa em jornal, eu li a frase “toalhas foram encontradas nas casas da vizinhança”, e essa notícia gerou o penúltimo conto, “A maciez da vida”.

 

DA – Interessante saber desses detalhes do processo de criação de Motel Mustang, pois eu já ia lhe indagar sobre como foi exatamente a pesquisa histórica que ele evoca, ainda mais em razão da obra apresentar trecho do inquérito policial, bem como o recorte de jornal que noticiava, em matéria de capa, a tragédia. Isso confere também certo reforço documental ao livro, uma sinalização ao leitor do seu embasamento na realidade. Ao mesmo tempo, é libertador saber que a Literatura não precisa ter compromisso com uma ideia de verdade comprovável?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Como você pôde ver, minha aproximação com o fato real foi quase por acaso. Ela não começa com uma pretensão de lidar com a realidade. Apenas aconteceu. Eu estava vasculhando na minha cabeça uma ideia sobre erotismo. A lembrança do motel foi um acidente. Uma pedra no meio do caminho. Peguei a pedra e transformei em uma direção a seguir. A escrita deste livro foi um processo único. Lá estava eu diante de um material real a ser trabalhado com minhas próprias realidades internas. Eu digo na orelha que é um livro escrito sob o signo da compaixão. É verdade. Aos poucos, eu fui me aproximando das pessoas reais que morreram, dos sobreviventes, das histórias íntimas vislumbradas nos depoimentos. Isso me fez olhar para minhas personagens com compaixão porque elas representam aquelas pessoas reais e todos sabemos o final trágico. É isso: eu tinha uma moldura trágica, ou seja, um destino inexorável, o desabamento. Quem entra no livro sabe disso. Então, coube a mim ficcionalizar, não a tragédia, mas os dramas particulares de cada um. Trabalhei muitos anos naquela região de Salvador, o Subúrbio ferroviário, como advogado de empresas de transporte coletivo. Naqueles anos, aprendi que, quando a tragédia chega, ela é obrigada a dividir espaço com dramas anteriores. Uma pessoa atropelada não é uma pessoa que vivia feliz e foi atropelada, é uma pessoa que antes já tinha seus dramas e suas infelicidades. Eu queria, no Motel Mustang, mostrar esses vários universos particulares que foram atingidos por aquele soterramento: o jovem e sua primeira vez; a mulher insegura do amor de seu namorado; o homem que quer ser aceito no trabalho; o casal gay que enfrenta a homofobia e o medo da AIDS; a mulher com seus conflitos religiosos; o menino que deseja se impor aos colegas; a mulher que redescobre sua libido; a mulher que descobre a hipocrisia da religião. Em meio a tudo isso, vislumbres da realidade: o garçom que ia se casar; o motorista e seu desamparo; o heroísmo do faz tudo; a camareira que não consegue salvar os hóspedes; o gerente que se sente impotente para resistir à opressão econômica. Até mesmo a dona do motel e sua crença em seres extraterrestres me interessa.

Eu fiz uma pesquisa extensa. Há muitos fatos reais interessantes e há, também, muitos fatos ficcionais. Eu lidei com aqueles que se me apresentaram inteiros, aqueles que acenderam primeiro, as primeiras cintilações de ideias. Ah! Se eu tivesse tendência à mistificação, diria que as personagens me escolheram. Muitas histórias reais e inventadas ficaram de fora. O fato de serem seis contos naturalmente exercia uma pressão para mais um, o sétimo, o tal número cabalístico. Resisti porque, desde o começo, tinha um desenho claro, uma partitura: a chegada ao motel, sua apresentação; os casais nos quartos na busca do amor no sexo; o momento do desabamento com todos os seus problemas reais e todos os sentimentos de morrer ou ver a morte; os saques do dia seguinte e o luto dos que perderam alguém. Não caberia mais nada além disso.

 

DA – Qual foi a sua maior sensação depois do livro ficar pronto?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Nossa! Deixa eu pensar. Vou elaborando enquanto escrevo. Sabe, tem uma coisa que estão falando ultimamente. As pessoas criticam quem diz que o filme ou o livro é baseado em fatos reais porque todo fato é real. Eu discordo e já mencionei isso acima. Existem fatos ficcionais, eventos inventados que são tão fortes que jamais poderão ser mudados em uma adaptação. Capitu tinha olhos de ressaca. Isso é um fato. Quando eu terminei o livro, eu tive essa sensação. Tudo que estava ali inventado era fato. Ou seja, eram pessoas e acontecimentos imutáveis. Alguns morreram outros sobreviveram. Eu sei quem são, embora não conte. E isso é um fato.

Essas personagens eu as vou descobrindo durante a escrita.  Esta semana eu estava numa oficina de escrita para romance de Davi Boaventura e o exercício era dizer tudo da personagem, criar a personagem. Eu me dei conta que a personagem vai me aparecendo com o tempo de escrita. O próprio ato de narrar é quem me faz entender a personagem. Quando tudo dá certo, a personagem fica completa e viva. Elói, Iranice, Marta, Torres, Jackson, Terêncio, Luciane, Dinho, os pais de Dinho, Dona Mira, o pastor, Janaína… todos são reais para mim. As pessoas reais também se cristalizaram. Eu tive muito cuidado em retratá-las. Omiti os nomes e as mencionei pela função. Ao mesmo tempo, fiz um tratamento ficcional. Eu queria que o leitor sentisse a dor que eu senti com a morte do motorista e do garçom, por exemplo. Eu queria que houvesse uma conexão com eles. A dona do motel era uma personagem pronta. Sua crença em ETs declarada à imprensa jamais poderia ser inventada. Soaria inverossímil, mas a realidade é assim, não é?

As pessoas reais: sei que familiares do motorista compraram o livro. Foram à editora pessoalmente para isso. Não tive contato. Localizei um filho de minha professora. Ele não quis falar sobre. Foi educado e distante. Ouvi muitas histórias de pessoas que frequentaram o motel, tive notícias dos donos. Até meu irmão conhecia o dono porque as contas do motel eram da agência bancária em que trabalhava. É um evento conhecido pela cidade. Muita gente lembra. É estranho lidar com um material tão sensível, uma responsabilidade ainda maior.

Do ponto de vista literário, Motel Mustang é um livro que resume minha escrita. Estão lá todos os temas, todas as preocupações, os meus modos de fazer e algumas descobertas. É um livro com tantos assuntos: sexo, amor, morte, descobertas da juventude, a pobreza de Salvador, as crianças, o homoerotismo, a AIDS dos anos 1980. Há um olhar a respeito da mulher; há a crítica à religião, assunto que me interessa. E há os assuntos que interessam às caixinhas das pautas atuais. O livro já foi resenhado a partir do ponto de vista da catástrofe ambiental. As pessoas falam da crítica social. Enfim, tem de tudo.  Mas para mim são pessoas.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – Essa sua última resposta é de uma profundidade significativa, pois trata dos seus mergulhos genuínos no engenho criativo. E não há como deixar de falar do modo como as suas personagens ganham vida ali no livro especialmente pela construção dos diálogos, pois você poderia apenas escolher ter narrado as histórias. Qual a dimensão do potencial que essas interações produzem na sua escrita na medida em que os protagonistas falam?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É tão bom falar de literatura assim: os modos de fazer, os truques de escrita. Gosto de falar truques e não técnicas, concepções, poéticas. Apenas truques. Hoje em dia as falas de escritores ou são o marketing do livro ou são os grandes temas da pauta contemporânea: a emergência climática, o racismo, a violência contra as mulheres, os lugares para as mulheres pretas, a visibilidade trans, a visibilidade lésbica (homens gays estão fora de moda), a periferia, “O tal Brasil profundo”, a discussão se existe “O tal Brasil profundo”. Dei muitas entrevistas no lançamento do Motel Mustang. O soterramento é um evento que desperta a atenção. Um bom marketing. Mas eu não pensei nisso quando tive a ideia. Já disse acima que eu estava vasculhando a cabeça atrás de uma ideia para livro erótico e acabei tropeçando na lembrança da tragédia.

Depois do lançamento, o livro encontrou a caixinha da tragédia climática e está ali perto da onda de histórias reais que vem junto com a autoficção. As histórias particulares reais. Toda a indústria da narrativa está voltada para histórias com um tempero de real. Eu chamo isso de “Literatura Gourmet”. Explico. Cozinha gourmet é assim: o cozinheiro (ou chef) diz no cardápio que aquela é a receita de sua avó italiana, que está na família há gerações, ou que aprendeu com sei lá quem. O caderno de receitas de minha mãe tem isso: umas receitas que levam o nome da amiga que lhe passou. Aí eu aprendi que tinha a Torta de Dona Nereida e sei lá mais o quê. Um dia a gente descobre que aquela receita é só um pavê igual a tantos e que não tem nada de especial. Mas ser de Dona Nereida, ser da avó italiana do cozinheiro “agrega valor”. A avó italiana é um clichê clássico e, claro, ser descendente de italiano nesse país parece ser alguma coisa. Ai, meu Deus, estou aqui arrumando inimigos. Deixa eu arrumar mais alguns: pra competir com a avó italiana, temos agora a avó filha de escravizados ou ela mesma escravizada. É importante uma memória mais palpável da escravidão. Acho justíssimo. Se os italianos e os judeus podem, por que não os descendentes de povos africanos? E são histórias nunca contadas.

Um parêntesis: acho que toda essa onda de literatura não urbana está ligada, também, a essa reconstrução da história perdida das pessoas descendentes de africanos. São histórias apagadas. Dou um exemplo da minha família: minha mãe, negra, sabe muito pouco de sua família biológica; sobre a família de meu pai branco tem um livro caseiro de um primo que recupera a história a partir do final século XIX. Acho muito estranho ser a partir do final, já depois da abolição. Como há muita lacuna, as narrativas de escritores negros e negras acabam se voltando para gêneros que estavam esquecidos. Não é por acaso os romances de sagas e de formação que passam por histórias rurais com ar de romance de 30. São essas narrativas construtoras que são necessárias agora. No futuro, os escritores negros também vão entrar na desconstrução. Antes que alguém me aponte o dedo, eu sei que há literatura desconstruída agora. O tempo todo tem de tudo acontecendo. Estou falando do que está em evidência. Só para que não me acusem de coisas, repito que são literaturas necessárias e de excelente qualidade. O que estou falando é outra coisa. Estou falando da recepção dessa literatura que leva em conta elementos externos ao livro. É isso que chamo de “literatura gourmet”.

O Motel Mustang caiu nessa. Ele interessa por fatos externos ao livro. A tragédia real agrega valor. Ainda são poucas as pessoas que querem conversar comigo sobre literatura, sobre a linguagem que eu usei… essas coisas que escritores gostam de falar, mas que pouco falam em público porque nas festas literárias querem que a gente fale das pautas do dia, com o agravante de falarmos — nós os escritores não tão conhecidos — para pessoas que não nos leram e jamais lerão. Eu quero falar das personagens falando. Os diálogos. Eu tinha narradores mais distantes, mais neutros, e acho que minhas personagens também eram mais introspectivas. Falavam pouco. Com o tempo, fomos ficando mais extrovertidos, eu, os narradores e as personagens. Se antes o jeito lacônico dos narradores contaminava as personagens, acho que agora são as personagens que, extrovertidas, contaminam o narrador.

O livro tem narradores em terceira pessoa. Ou melhor, tem um narrador em terceira pessoa que vai se contaminado pelas personagens. No primeiro conto, “O sol no meio da noite”, o narrador Elói e Miguel se misturam, às vezes na mesma linha de texto. Tudo muito coloquial. Há um vai e vem no tempo. Elói e Iranice, estão no presente, na entrada do motel. Miguel está com Elói no passado e em sua cabeça o tempo todo. Há quem diga que são três pessoas naquele casal. Enfim, tudo misturado e nervoso como é próprio da juventude das personagens. No lado oposto do livro, no final, o conto “O que se vê do alto”, tem personagens evangélicas. A linguagem, do meio para o final, é muito contaminada por isso. Quem cita trechos inteiros da Bíblia? O narrador, Dona Mira ou Dona Neide? É um conto com um final melodramático. Sofri muito para escrever a cena da vassoura. Na primeira versão ela batia no pastor com o cabo. Achei demais. Estava muito Walcyr Carrasco. Limpei, limpei, mas ela precisava varrer a cara do homem. Ainda acho muito melodramático, mas Dona Mira é assim. Esse é outro momento em que o escritor diz que a personagem tomou as rédeas. Na verdade, é a constatação de uma lógica interna da personagem. Dona Antônia, personagem do conto “A fresta”, que eu escrevi para a Diversos Afins, também é evangélica, cita a Bíblia, mas não faria esse gesto tão largo de varrer a cara de alguém. Bem, ela não perdeu o marido no soterramento de um motel. Ele está dormindo em sua cama com a barriga ocupando todo o espaço.

Outro conto que merece destaque é “O peso de tudo”, em que o narrador está próximo a Luciene, uma funcionária do motel muito católica e que tem aversão ao pecado do lugar. É a partir do ponto de vista dela que vemos a tragédia. Quando é preciso mostrar a encosta desabando, o conto é interrompido e entram alguns minicontos que mostram o desabamento por um ponto de vista objetivo, além de detalhes que aconteceram com as pessoas reais. Depois, o conto retorna de onde parou. Neste momento, o livro assume que não é um mero livro de contos, mas, sim, uma grande narrativa fragmentada em que o motel é o protagonista. Ainda sobre diálogos: o terceiro conto, “A face encoberta”, com o casal de homens, é todo em diálogos com um narrador quase inexistente para que o leitor descanse. Ele vem de dois contos de estilo muito enrodilhado e vai, depois, ler o conto sobre o desabamento, o mais pesado. Então, um conto em estilo simples dá um descanso. E ainda tem humor, apesar do tema ser homofobia, AIDS, morte. Pensei o livro como uma unidade. Por isso o terceiro e o quinto conto são mais suaves; o terceiro, suave na forma; o quinto, suave no tema. “A maciez da vida” é um conto esperançoso, um amortecedor entre “O peso de tudo”, com sua tragédia, seu horror, e “O que se vê do alto”, que é sobre luto e decepção.

 

DA – Bem sabemos que um motel é também um lugar de vivências clandestinas, tanto na questão do adultério quanto no explorar de horizontes libertários do desejo sexual, dentre outras possibilidades. Como é que você lidou com essa perspectiva na sua criação?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Neste momento em que escrevo, Salvador acaba de passar por três dias de chuvas muito fortes. Ontem uma pessoa morreu num deslizamento de encosta. Imediatamente, algumas pessoas próximas lembraram do Motel Mustang. Um repórter da TV lembrou do episódio ao vivo. Digo isso como quem prova que a camada de tragédia climática e social é bem evidente no livro. Mas, como já dito, é um livro de muitos temas, dentre eles, também como já dito, o sexo. O sexo é aquela centelha, aquele grão de areia que entrou na ostra e em torno do qual, camada por camada, se formou a pérola. Afinal, trata-se de um motel. Motel leva a sexo; ou melhor, sexo leva a motel, literalmente e do campo das ideias. Eu investigava sexo e a memória do motel se acendeu na minha cabeça.

Você falou de vivências clandestinas, do adultério e de outras. Sim. Há um adultério no livro e na história real. Ele não chega a ser encenado na página. O leitor é exposto apenas às suas consequências. Há um casal de homens gays que evidentemente se encontram às escondidas. Um deles, pelo menos, tem uma vida sexual hétero. Mas há outras dimensões de clandestinidade ligadas ao sexo. Escondemos nossos reais desejos dos parceiros e de nós mesmos. O sexo é soterrado pela religião, pelo moralismo, pelos traumas particulares da infância, pelo descompasso do que se é e do que se pensa ser… e, às vezes, apenas a clandestinidade objetiva do motel é que é capaz de revelar a real forma de uma pessoa viver sua sexualidade. Motel Mustang é sobre sexo e talvez seja o aquilo que ele mais é. Vamos por partes.

A primeira personagem masculina que que me ocorreu foi Torres, do conto “O amor movediço”. Vi no jornal que, no sábado posterior ao acidente, haveria uma Corrida da Infantaria. Foi assim que me ocorreu a personagem. Um homem que vai correr e não quer transar antes, mas precisa ir para o motel com a namorada. E o que ele faz? Aquilo que nunca fez. Dedica-se a dar prazer à mulher até que ela fique satisfeita. E quem é essa mulher? Marta está acostumada a não sentir tanto prazer, está acostumada à frustração, acha que a transa acaba quando o homem goza. Quando ela se vê recebendo sexo oral de uma maneira tão intensa, todas as suas inseguranças afloram. Eu queria que o momento de perplexidade e insegurança de Marta fosse durante o sexo. Eu queria uma cena de sexo absolutamente necessária. Normalmente, as cenas de sexo aparecem simplesmente por seu apelo. Os conflitos que as envolvem geralmente ocorrem antes ou depois. A maioria das cenas de sexo podem ser uma mera elipse. Mas a verdade é que, quando a gente está transando, a gente pensa em mil coisas, outros problemas, os sentimentos contraditórios sobre o parceiro. Acontece muita coisa durante. Eu queria Marta assim, conflituada enquanto tem prazer.

Outras mulheres do livro vivem seus conflitos. Luciene, de “O peso de tudo”, é muito católica e se incomoda de trabalhar em um motel, que considera um antro de pecado. Ela está dividida entre, na semana seguinte, assistir missa de Corpus Christi celebrada pelo Cardeal Primaz ou viajar com o namorado para Pojuca. Ela sabe que o namorado pretende transar com ela na viagem. O que decidir?

Em “O que se vê do alto”, Dona Mira, viúva do marido adúltero, relembra como ele a reprimiu quando ousou revelar desejo. “Ele disse que não gostava de mulher oferecida”. Submissa ao marido pastor, Dona Mira se recolheu. Na cama, esperava a iniciativa dele. Agradar o homem, sentir-se aceita por ele, esses são conflitos que as mulheres ainda vivem.

A mãe de Dinho, no conto “A maciez da vida”, tem um momento mais feliz. A chegada de uma toalha resgatada dos escombros do motel reacende sua libido. É ela quem toma a iniciativa de seduzir o marido novamente. Ele se deixa conduzir.

Em “O sol no meio da noite”, Elói é o jovem inexperiente que leva a namorada pela primeira vez ao motel. O conto não foca nela, mas é possível perceber como Iranice está mais segura que o namorado. Os leitores veem alguma atmosfera homoafetiva entre Elói e o amigo Miguel, principalmente na cena do carro. Eu acho que, se houver algo, isso aparece mais forte no fato de a voz de Miguel estar o tempo todo na cabeça de Elói.

Por fim, Jackson e Terêncio, em “A face encoberta”. O casal vive os problemas dos homens gays da década de 1980, o que não é muito deferente do que é hoje, a não ser por um aspecto. A Aids acabara de surgir e, exatamente naqueles dias, a Revista Veja publicou a famigerada capa com Cazuza: “CAZUZA, uma vítima da Aids agoniza em praça pública”.  A presença da doença é o que provoca o afastamento do casal. O medo. O zíper emperrado é o símbolo óbvio. Há muita reflexão sobre sexo em Motel Mustang, sexo e morte, Eros e Tanatos. Pulsão de vida e pulsão de morte. No meio, toda a experiência humana. O livro se faz nessa tensão.

 

DA – Diria que, observando o conjunto da sua obra, você é uma espécie de “cronista” do cotidiano, escavador dessas minúcias que nos tornam demasiadamente humanos. É sempre desafiadora essa perspectiva?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Já algumas vezes, nos últimos anos, quiseram me relacionar com escritores cronistas da Bahia. Menções vagas. Isso ocorreu por causa de O mar que nos abraça. As pessoas se contentam em ver o que está mais aparente. No caso desse livro, havia uma Bahia na superfície. Para mim, entretanto, um aspecto menos importante que as pessoas retratadas. Serem baianas para mim foi um acaso. Aliás, no caso desse livro, a encomenda exigia que as histórias se passassem em bairros de Salvador. Acontece que, vencido esse requisito, eu quis mergulhar no íntimo daqueles adolescentes. Eu me aproximo das histórias a partir do que entendo que as pessoas estão sentindo. Foi assim que, em A eternidade da maçã, cheguei ao tema da ditadura. Ouvindo a música In the Hot Sun of a Christmas Day, de Caetano Veloso, eu me deparei com um eu poético que dizia que estava sendo perseguido, que eles já tinham matado outra pessoa. Foi essa sensação que me fez entrar neste universo. Aí eu fui tratar da ditadura, pesquisei, puxei pela minha memória, mas sempre para retratar aquelas pessoas que eu vislumbrei nas músicas de Caetano. Esse é meu método.

Eu tenho muita dificuldade de me explicar para as pessoas (ou de ser entendido por elas). Esses grandes temas sociais, políticos (que aparecem muito nos meus textos), eu não entre neles pela porta da frente, mas pela dos fundos, pelas janelas, pelas frestas. Eu não sou um escritor que se diz: oh, precisamos falar da ditadura, precisamos falar da violência, precisamos atacar a homofobia! Não. Eu miro na pessoa, na história íntima, no potencial romanesco do tal grande tema. Eu procuro a boa história e a boa personagem. Os grandes temas aparecem naturalmente, afinal não sou nenhum cretino. Mas — olha só que legal — os cretinos dão personagens incríveis. Eu não sou óbvio.

Me cobraram em Motel Mustang uma menção ao Candomblé. Eu respondi que não era o caso porque não é uma religião que tem problemas com sexo. Falei de cristianismos católico e neopentecostal. Sobre o Candomblé, acho que o nome da filha de Dona Mira foi suficiente. É um nome que aparece e se torna o estopim de uma cena forte no final do conto. Dona Mira não teria reagido como reagiu se o pastor não tivesse feito uma insinuação racista religiosa contra o nome da menina Janaína. É um livro inteiro com várias personagens negras e pretas e em apenas um ponto há um comentário sobre racismo, no caso, racismo religioso. Quem poderá saber por que um pastor chamaria sua filha de Janaína e não por um nome da Bíblia? Eu até sei, mas o leitor não precisa saber. É uma história íntima de Dona Mira.

Mais uma vez parece que não respondo sua pergunta. Respondo. Você fala de “cronista” do cotidiano, eu concordo. Cronista do particular e não da cidade. Eu olho para os pequenos acontecimentos, os pequenos gestos. Outro dia, falando na FLICA sobre algo próximo disso, dei um exemplo: “aqui desta cena, os escritores no palco e a plateia de estudantes, se eu fosse criar uma história, eu escolheria a intérprete de Libras, que está ali no canto fazendo a tradução. O que ela pensa? O que ela sente? Os braços doem? Ela tem alguém esperando? Ela acha essa conversa chata? Será que ela se atrapalhou em um gesto e disse para si mesma que não importa porque não tem nenhum surdo aqui? Ela certamente fala deficiente auditivo, mas nos próprios pensamentos deve dizer surdo, ‘os meus surdinhos’, ela dirá.” É claro que não usei essas palavras, contar uma história já é inventar. Mas que personagem rica pode ser uma intérprete de Libras, melhor que escolher um escritor. Escritores como personagens para mim são chatos. Cronista do cotidiano? Sim, talvez. Cronista do sentimento, quem sabe. Eu quero saber o que as pessoas pensam e sentem sobre o que vivem. Cronista de mentalidades.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – A Literatura pode ser o engenho em que o autor está para além dos domínios de certas especialidades, ou seja, ele pode discorrer sobre campos diversos do conhecimento, até mesmo inventando uma teoria a ser defendida por seus personagens. Tal prerrogativa lhe soa atraente em alguma medida?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – No meu livro Cada dia sobre a terra, no conto “Segunda-feira”, a personagem protagonista, uma jornalista branca já com alguma idade, tem um discurso em que se pode perceber o seu racismo; em “A alma do diabo”, do livro A eternidade da maçã, o Major Andrade fala da necessidade de torturar subversivos e de como entregou sua alma a Deus. São personagens com pontos de vista bem definidos. Eles defendem suas posições racistas e ditatoriais, enquanto os contos existem justamente para criticar seus comportamentos. Não aparece ninguém com uma fala antirracista ou com um discurso contra a ditadura militar. São as histórias e os jeitos como são contadas que permitem que o leitor, no processo de interpretação, perceba o quanto aquelas condutas e formas de pensar são deploráveis.

A palavra tem um poder muito interessante. A gente consegue colocar uma imagem dentro da cabeça de uma pessoa. A fotografia mostra e o observador tem de aceitar aquela imagem. A palavra faz diferente. Ela inocula uma semente na cabeça do leitor, que criará a imagem a partir de seu repertório. O mesmo acontece com a ideia, a teoria, a ideologia. A história semeia e o leitor cultiva seu pensamento. É preciso repertório. É preciso confiar no leitor. Aqueles livros de ficção que produzem discurso pronto entregam para o leitor a árvore inteira sem opção de um pensamento a ser cultivado. Ok, a pessoa aprende. Pode funcionar. Mas é como se deslocar levado por um carro. Você chega ao ponto final, mas não desenvolve músculos. Melhor é que a história faça o leitor refletir. É como andar de bicicleta. Você chega ao ponto final com mais dificuldade, mas ganha musculatura.

Na maior parte das vezes, minhas personagens são incapazes de produzir um discurso organizado sobre qualquer coisa. Elas estão experimentando a perplexidade de viver. Estão perdidas. Elas não poderiam ajudar ninguém. Não sabem as respostas e, às vezes, nem a pergunta. Eu até quero dizer certas coisas, mas entre mim e o leitor tem um narrador e suas personagens. E meu processo de escrita é um processo de sedimentação. Eu vou colocando camadas em cima da ideia inicial. É um meticuloso processo de recalque. Eu vou empurrando as coisas para baixo e amassando com os pés. Tem de cavar muito para chegar àquilo que era antes de o conto ser o que se tornou.

 

DA – A quantas anda o Marcus Vinícius poeta?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eita, uma reviravolta na trama. A resposta é: não sei. Deve estar adormecido. A última vez que escrevi poemas foi há alguns anos. Era uma encomenda para uma antologia. Escrevi e gosto muito do que fiz, mas, na hora de publicar, me mandaram um contrato em que, praticamente, eu cedia os direitos dos poemas definitivamente. Me tiraram da antologia, amizades se desfizeram e eu escrevi um poema chamado “Quiseram roubar o poema”. Alguns desses poemas foram publicados na revista Poesia sempre, da Biblioteca Nacional. Há um livrinho pronto. Um dia lanço. Meu último livro de poesia foi o Manual para composição de vitrais, que foi escolhido para sair pelo Selo João Ubaldo Ribeiro. Eu não penso muito sobre poesia. Ela não me ocorre do nada como acontece com a prosa. O tempo todo eu tenho ideias de livros de contos e romances. Poesia, não. Se me encomendarem alguma coisa, eu acho que sai. Em algum momento vou me debruçar novamente sobre a poesia. Ou não. Ou talvez. Quem sabe?

 

DA – Nos últimos anos, você tem experimentado a faceta de entrevistador, conversando com autores de diferentes estilos, e parece estar bem à vontade com isso. Essa escuta e troca de ideias lhe ajuda a pensar também sobre sua própria trajetória?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Quem me levou à função de entrevistador foi minha amiga roteirista Carollini Assis. Ela me convidou para mediar algumas mesas do Festival SSA-ADAPTA e as pessoas gostaram muito, e eu gostei muito. Não fiz meras mediações, fiz entrevistas. O formato do festival ajudou porque era um evento sobre adaptação literária para o audiovisual. Então, estavam ali, por exemplo, dois entrevistados falando da mesma obra: o escritor e o adaptador. Entrevistei Milton Hatoum e Maria Camargo sobre o livro e a série Dois Irmãos; Marcelo Quintanilha e Heitor Dhalia sobre o quadrinho e o filme Tungstênio, entre outras entrevistas com escritores. Depois dessa experiência, peguei gosto. Fiz e faço o programa Palavra & ponto, no YouTube da Academia de Letras da Bahia; o programa Letras da Bahia, na Rádio Excelsior. Atualmente, além do Palavra & ponto, apresento o programa Livros à mão cheia, na TV ALBA.

Sobre pensar a minha trajetória a partir das entrevistas com outros escritores, a resposta é: não pensei. São posturas muito diferentes. Opostas. O escritor acaba se voltando para si mesmo. Não porque fale de si, nada disso, ainda que ocorra bastante. Vou dizer melhor. O escritor acaba se isolando na própria literatura. Ainda não está claro. É que o escritor, aos poucos, vai criando um espaço em torno de si. A cada livro, um mundo de coisas. Um mundo de mundos. Mitologias particulares, recorrências, autorreferências, estilo… essas coisas terminam por isolar o escritor. Ele vive lá dentro da própria loucura e nós, leitores e entrevistadores, os visitamos.

O entrevistador, já adiantei, é aquele que deixa o próprio mundo para olhar o do outro. Ele quer entender as leis daquele novo lugar. Claro que o entrevistador tem uma história, um repertório, mas sua postura é antinarcísica. Ele quer ver o outro, e não um reflexo. É só assim que funciona. Entrevistar é ouvir, ouvir ativamente, ajudando o entrevistado a se organizar na fala. A gente procura entender e embarca na loucura do outro. Eu estou falando de entrevistar escritores, não políticos. Com políticos a gente não pode embarcar na loucura, é preciso denunciar as incoerências. Do escritor o que se quer são justamente as incoerências e os atos falhos, senão como é que os teóricos da literatura vão ganhar pontos no Lattes? Tem de dar trabalho pra esse povo.

Eu gosto muito de ouvir. Não por acaso, no começo da vida, dos 20 aos 28 anos, fui voluntário do CVV, Centro de valorização da vida, uma instituição de prevenção ao suicídio, que se baseia na escuta. A pessoa liga e fala. O plantonista escuta sem julgar, sem aconselhar, apenas se fixando na emoção da pessoa. É um trabalho de apoio emocional. Já faço a propaganda. O número nacional é 188. Basta ligar. Minhas entrevistas têm um pouquinho desse jeito de voluntário do CVV. Só um pouquinho porque eu provoco, brinco, direciono a conversa aqui e ali, mas sempre ouço atentamente. Uma vez, um entrevistado usou uma palavra típica de uma religião e, depois que ele acabou o raciocínio, eu voltei à palavra de maneira bem discreta para ver se ele queria falar daquilo. Ele falou e isso ajudou muito a entendê-lo. Ele não falaria se eu não tivesse percebido o tipo de discurso.

Minhas entrevistas não têm um roteiro exato, fechado. É como faço na minha escrita. Eu chamo de estrutura de corrida de rally. Eu tenho uns pontos de controle, locais por onde quero passar, mas o caminho até eles é incerto, depende de muitas variáveis. Hoje, no Livros à mão cheia, esses pontos são os livros do entrevistado. O programa pretende passar por todos os livros para entender obra e autor. Às vezes, há desvios enormes e alguns livros não são tão explorados. É um programa de televisão com tempo certo. No Palavra & ponto, a conversa pode ser mais verticalizada. É isso: O Livros à mão cheia, panorâmico, visa o horizonte; o Palavra & ponto é um mergulho. Eu os concebi assim desde o título.

O que essa experiência contribui para eu pensar minha literatura? Acho que conheço ainda mais o que se produz hoje porque li livros que eu não teria lido se não fossem as entrevistas. Deve haver consequências, mas não sei dizer quais.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – De todo o seu tempo com a carreira literária, qual percepção você tem hoje de como ela se construiu? O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Agora vou ter de cair no clichê e dizer que é um processo de aprendizado. Eu queria ser escritor e não sabia nada. Não estou dizendo “hoje eu olho para trás e vejo que não sabia nada”. Não é isso. Eu sabia que não sabia. Na poesia, talvez não. Talvez eu tivesse essa sensação de saber. Poesia é tão abstrato. Quando eu escrevia poemas eu tinha certeza do que estava fazendo. Talvez não seja um acaso minha poesia ser irregular. Foi o que me fez estrear, é verdade, mas, olhando retroativamente, aquele não é um grande livro. Ingênuo. Na prosa é diferente. Eu sempre tive dificuldade de escrever. Escrevi poucos contos antes dos trinta. Nenhum foi publicado. Escrevi pouco porque era difícil — uma dificuldade de não saber como e uma dificuldade física, é cansativo. Eu brinco que, se não tivessem inventado o computador, eu não seria prosador. Continuaria nos poemas curtos.

O fato é que efetivamente eu estudei para ser escritor. Fiz todo tipo de oficina. Hoje noto que, embora eu seja fascinado por Lygia Fagundes Telles, meus primeiros contos publicados — e os anteriores — pareciam mais influenciados por Clarice Lispector. E falo isso no mau sentido da expressão. Sabe essas pessoas que não sabem contar uma história e ficam emulando Clarice com filosofices? Contos curtos. Eu não tinha uma noção de como fabular, inventar histórias e personagens. Acho que, aos poucos, fui melhorando. Eu não sabia fazer diálogos e não fazia porque tinha medo de fazer diálogos ruins. O conto “A omoplata”, todo em diálogos, surgiu de um exercício a que me obriguei. Eu me disse: vou fazer um conto só com diálogos.  E deu certo. O conto ganhou um prêmio nacional e fez as pessoas me notarem. Outro grande momento para mim foi o conto se tua mão te ofende, que foi publicado como uma novela. Em arquivo word tem apenas trinta e três páginas. Levei quatro anos para escrever. Eu queria que ele tivesse uma extensão suficiente para figurar sozinho num livro da Coleção Cartas Bahianas (livrinhos de 48 páginas em forma de envelope). Foram quatro anos tentando ampliar a história e construir as motivações da personagem para a cena final melodramática. Tenho voltado para esta cena ultimamente porque Dona Mira, de Motel Mustang, age de maneira melodramática contra o pastor do mesmo modo que Lúcio agiu contra a imagem de Jesus.  Não é por acaso que tema e forma reapareçam juntos. Deve ter algo aí que não me cabe investigar. Os contos, as personagens, eu, estamos todos nos abrindo mais.

A um contista sempre fazem a pergunta: e o romance? Aliás, não. As pessoas não perguntam assim de maneira sintética. Só um contista pergunta assim. Quem dá mais valor ao romance pergunta: quando você vai escrever um romance?

A eternidade da maçã e Motel Mustang são livros de contos que cumprem a função de romance. Eles estabelecem um painel social como os romances fazem. E numa época em que os romances estão sendo desconstruídos até virarem fragmentos, eu posso ser confundido com romancistas descontruídos. Talvez estejamos no mesmo lugar, mas os movimentos são no sentido inverso. Eu estou caminhando para um romance e os outros estão se afastando. Mas eu acho que meu romance, se vier, vai ser um romance de contista. A narrativa longa de quem só escreve romances é diferente de quem escreve contos. Eu não sei explicar com muitos exemplos, nem quero me comprometer. Mas há livros de contos que a gente lê e pensa: isso devia ser ampliado para um romance. E há romances que têm uns detalhes e umas estratégias que só o conto nos ensina. Não estou fazendo juízo de valor (qual o melhor). São características que eu percebo. Posso estar enganado, mas é esse engano que está na base da minha escrita.

O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada? Mudei, estou mudando, tentando me parecer cada vez mais com o que sou.

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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154ª Leva - 02/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Rita Santana

 

Foto: Marcelo Leal

 

Escrita

 

“Por afrontamento do desejo.”
Ana Cristina César, 27

 

 

Com que tormento sento
sobre noites secas e quebradas
onde estalam estrelas, e fachos
quentes rompem horizontes.

Não há nada diante de mim,
senão o vazio no espaço,
o aço sobre a mesa,
a lâmina da língua
que elimina o hálito
e ordena a ordenha
da Criação.

Ouço uivos de ouriços
dentro do poço
e me curvo
à pena e ao punhal.

O Outono risca o céu
de cinzas e incertezas e quedas.
Eu espio a escuridão do rio [Joanes].

 

 

 

***

 

 

 

Austeridade de Modigliani.

 

Tudo é uma jarra d’água derramada sobre o sossego:
um vazamento opressor na descarga,
um vazamento opressor na pia da cozinha.

Concederia pêssegos frescos ao mancebo
que me trouxe orgasmos
em seu bornal, em sua vassalagem provençal,
e
foice.

Nunca terei a austeridade geométrica de Modigliani.
Talho o verbo e, no poema,
labirinto o Minotauro.

 

 

 

***

 

 

 

Eu, Sapho!

 

Quando chega do céu,
veste-se então todo de púrpura.
Visto-me de âmbar, abro janelas
e veredas que murmuram águas
à sua passagem.

Danço à sua chegada com festins,
rituais de camaradagem, banquetes de Babette,
alvíssaras, alfaias e entregas.
Nada usurpa a vaguidão dos sentidos,
o estado de languidez daqueles dias.
Resfregam-se amor e medo em meus colapsos.

Há sismos duradouros na carne,
quando cataclismo gozo consigo.
Ante seus olhos istmos, olhos de cereais,
sobre os quais cambaleio e desnudo-me exata,
ritmo versos e estimo arritmias.

Assim como sou: a que envelhece,
a que pende sobre o nordeste dos sentidos.
Aquela que, sobre os telhados, observa sua vinda.
São candelabros acesos na escuridão,
quando chega do céu. Nuvens invadem
os cômodos da casa por alguns dias.

Os cobogós se dilatam!

 

 

 

***

 

 

 

Cortesia

 

Enólogos avaliam
a acidez das rugas,
cuidam do envelhecimento
das esperas em carvalhos.
Dialogo com a Sombra,
refugio-me no fugidio
e aceito trazer o candeeiro,
pois tento tocar o que me escapa.

Orvalho refinamentos,
dilato nuvens no crepúsculo
e corro na amplidão dos céus.
Homologo alguma alegria
no porvir das correntezas.
Osculo lábios perdidos na lembrança.
Afianço amar a quem já não quero
no ofertório da Casa.

Alumbra-me a sapiência
daquele homem que estila
o Desejo, sem atentar ao telhado
das horas, sem aceder às vigas
céleres dos ponteiros.
Sobejo-me
em seus beijos.

Oxalá eu possa ser cristal
para acolher os aromas do dia, os tons
das aveniências que surgem no contato
com quem está do outro lado do rio,
e ordena romãs no leito da velha jangada,
dispõe os figos e as amoras sobre os bambus,
a fim de que eu, um dia, desatenta e casta,
saboreie as dádivas da sua Cortesia.

 

 

 

***

 

 

 

Papoulas na Fotografia

 

Mulheres afegãs,
entre a plantação de papoulas,
colhem e ofegam desejos,
com seus lenços rubros,
sua exaustão que plana sobre o cinza
que cobre o horizonte.

Papoulas na
província de Balkh.
Daqui, não vislumbro risos
entre as folhas e os botões que ainda dormem.

As papoulas não querem nascer.

Mulheres vestidas de cinzas,
numa paisagem de chumbo,
também de plúmbeos desejos,
refugiam-se na lavoura.

Herméticas, as papoulas adormecem.

Sequer
um verde-solidão vibra
a cena.

A Loucura sentou na cama
e olhou para as mulheres.
Era preciso arrancá-las da dor
e levá-las ao outono dos dias,
ao pasto da fome,
ao descampado da razão.

 

 

 

***

 

 

 

O Silêncio de Bach

 

O que amo em Bach
é o seu silêncio.
O vazio de som
das sonatas,
a trepidação das suítes.

O que amo em Bach
é a sua engenharia
do nada.
O que amo em Bach
é a música que não existe.

 

Rita Santana  –   Escritora e Atriz. Graduada em Letras pela UESC.  Em 2004, ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos “Tramela”. A partir daí, publica: “Tratado das Veias”,  “Alforrias”, “Cortesanias” e  “Borrasca”, além de participar de eventos literários e de antologias.

 

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154ª Leva - 02/2024 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Substância. Reino Unido/França. 2024.

 

 

O filme recente, que concorreu em Cannes e ganhou prêmio de melhor roteiro neste festival, vem assustando ou impactando muitos espectadores.

A obra da diretora francesa Coralie Fargeat tem elementos de contato com Titane, de Julia Ducournau, que ganhou a Palma em Cannes em 2021. Ambos são filmes de horror, baseados em metamorfoses corporais, filmes nos quais uma sensação de incômodo, beirando a aversão, atravessa a plateia. Ambos os filmes também trabalham com elementos fantásticos, que não são simplesmente “surreais”, como nas versões modernistas, mas também não são sobrenaturais. O fantástico nesses filmes é um gênero de hibridização com formas inaturais, aberrantes. Não é sobrenaturalismo nem surrealismo, mas inaturalismo. Não trabalha com objetos, mas com abjetos. Trata-se de um cinema que tem uma interface com a literatura do insólito, como na obra da escritora argentina Mariana Enriquez.

Esses dois filmes abordam as intervenções técnicas no corpo produzindo deformações que precisam ser “incorporadas” pelas personagens. Nisso, fazem referência aos ciborgues da teórica Donna Haraway. A menção a esta teórica é importante, pois se tratam de obras sobretudo feministas, mas que não reivindicam um estatuto próprio à feminilidade, mas, ao contrário, indicam o que podemos chamar de uma “desapropriação do feminino”. Na obra de Haraway, o ciborgue é justamente aquele que “borra” o binarismo sexual e o dualismo natural/artificial.  No entanto, os filmes diferem num elemento fundamental: em Titane há um processo de alienação psíquica que é almejado e desejado (o ego deseja ser outro), ao passo que em A Substância, o ego procura um encontro com sua própria essência “substancial”, para além das formas corporais.

O filme de Coralie tem um apelo extra, que vem a ser metalinguístico, ou ainda, que é a feliz escolha pela atriz Demi Moore como protagonista para um papel que basicamente é o de interpretar a si mesma. Moore como se sabe é uma atriz icônica, mas que está associada a um semblante jovem, representante de uma geração (dos anos 80) que agora envelhece, o que significa para as atrizes (que ultrapassaram os cinquenta anos) um deslocamento para o ostracismo. No filme ela interpreta a atriz Elizabeth Sparkle, que se tornou uma estrela de aulas de ginástica (como Jane Fonda, outra atriz icônica de geração anterior), mas que os patrões da indústria cultural (representados pelo ator Dennis Quaid) querem “aposentar”. Elizabeth tem o destino de estrelas que são tratadas pela indústria cultural como “corpos bonitos”, o que quer dizer especialmente jovens e sexys. O envelhecimento significa para elas algo que simplesmente “stops”, como lhe diz o empresário bufão, branco e machista Harvey (Quaid).

 

Demi Moore como Elizabeth Sparkle / Foto: divulgação

 

No roteiro do filme, Sparkle tem acesso no mercado negro a uma “substância” que quando injetada nas veias dá lugar a uma bifurcação genética gerando uma cópia de si (clone), porém mais jovem. No filme, esta Elizabeth jovem é vivida pela atriz em alta Sarah Qualley, filha da atriz da mesma geração de Moore, Andy McDowell. A bula da “Substância” indica que as duas Elizabeth, a jovem e a madura, devem trocar (switch) de posições a cada semana. A bula também diz que elas não são duas, mas uma única pessoa. Uma só pessoa, mas com dois corpos. Enquanto uma vive, a outra “hiberna”. Mas a troca entre os corpos precisa respeitar o prazo de uma semana, ou consequências sérias acontecem.

Embora seja a mesma Elizabeth, sua versão jovem assume o nome de Sue, nova promissora atriz que ocupa precisamente o espaço de estrela destinado a Elizabeth, com um novo programa de ginástica no qual desfila seu corpo jovem e sexy. E então no roteiro do filme começa uma disputa entre as duas Elizabeth, a jovem e a madura, que agem como se fossem duas mulheres diferentes, mas que são a mesmíssima pessoa. Essa disputa vem às expensas da decrepitude acelerada da mulher madura, mas cuja desconstrução corporal ameaça a saúde da mais jovem. Ambas estão “umbilicalmente” ligadas. O melhor seria então dizer, “geneticamente ligadas”.

 

Sarah Qualley como Elizabeth Sparkley / Foto: divulgação

 

O mais interessante da obra de Fargeat é a incorporação de referências literárias. Já mencionei sua proximidade com a literatura do insólito. Em A Substância ecoam dois clássicos da literatura do século XIX, de influências góticas: O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson e O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Deste último, em particular, o filme parece uma releitura cinematográfica.

Mas a principal referência é a sua proximidade manifesta com o cinema de David Cronenberg. Há primeiramente uma relação com seu duplo, como em Gêmeos, mórbida semelhança do diretor canadense.  Há igualmente um interesse nas deformações corporais e no cruzamento entre corporeidade e tecnologia, no qual os corpos são objetos para intervenções tecnocirúrgicas (como em seu filme recente Crimes do futuro) ou hibridizações genéticas (como no clássico A Mosca). Há, no entanto, uma diferença crucial entre os dois diretores: a questão de gênero.

Os filmes de Cronenberg, ao que pese suas qualidades indiscutíveis, não deixam de apresentar aquilo que é chamado de “mirada masculina” (male gaze). A mirada é um gozo voyeurístico presente no cinema. Seu gênio absoluto foi Alfred Hitchcock que fez a mirada do espectador adentrar o espaço cênico como composição. Os exemplos mais óbvios são os filmes Janela Indiscreta e Psicose, em que  o gozo da mirada não é apenas um tema, mas é parte da construção da própria imagem cinematográfica. Este assunto foi objeto de diversas leituras psicanalíticas. No entanto, a mirada cinematográfica sempre foi tendencialmente masculina, principalmente quando a mirada recai sobre o corpo da mulher.

O que Coralie Fargeat faz em A Substância é desconstruir essa mirada de viés masculino. Sem recusá-la, ela a “deforma” e faz com que o corpo da mulher de objeto se torne abjeto. Faz com que a exigência de que o corpo feminino seja jovem, bonito ou sexy, seja revertida em monstro. De um lado revela o aspecto senil, branco, decrépito e grotesco da indústria cultural (uma verdadeira máquina monstruosa), retratada no conjunto de seus acionistas, homens velhos e brancos que são justamente os voyeurs iniciais da cadeia de exploração das formas femininas. Por outro lado, também denuncia por detrás o desejo cúmplice (pois todo gozo tem cumplicidade com o desejo) das mulheres com sua obsessão em corresponder aos apelos de juventude e beleza eternas, ou a própria dificuldade de lidar com a decadência corporal.

Walter Benjamin já escreveu que o choque estético, iniciado na obra do poeta Charles Baudelaire, havia sido incorporado tecnicamente pelo cinema. O cinema, para o filósofo alemão, era a arte do choque. Noventa anos depois de seu artigo (1936), o choque perdeu sua capacidade de impactar a sensibilidade do espectador. A questão não é que o cinema deve assumir formas cada vez mais radicais de choque, próximas ao terror, como certa linhagem cinematográfica pretendeu, explorando a violência ao ponto do sadismo. Essas novas diretoras trazem outra via para atender a necessidade do cinema “mexer” com a sensibilidade do público. Coralie Fargeat consegue construir um cinema do incômodo estético, retirando do espectador o direito a uma mirada acomodada.

 

 

Guilherme Preger é carioca, engenheiro e escritor. Doutor em Teoria da Literatura pela UERJ. Autor de Fábulas da Ciência (ed. Gramma, 2021) e Teoria Geral dos Aparelhos (Caravana, 2024). Mantém o blog Resenha Cibernética  e faz curadoria do cotidiano diária no Mastodon no endereço @gfpreger@piupiupiu.com.br. Escreve sobre cinema na Diversos Afins desde 2015.

 

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154ª Leva - 02/2024 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Cecília Vieira

 

Foto: Marcelo Leal

 

Meu primeiro conto de ficção científica

 

A cabeça ainda doía pela insônia. Na madrugada, lutei com aqueles pensamentos borbulhantes que fermentavam alternativas de respostas para nossa discussão.

Sovei bem essa massa de opções e a cozinhei no lado esquerdo do cérebro. Transformei tudo em produtividade e encarei meu primeiro banho do dia tentando sentir a energia da cromoterapia, efeito da lâmpada recém instalada no box. Última moda de relaxamento inconsciente do mercado.

Na noite anterior brigamos feio. O pior é que ele me deixou falando sozinha, mal respondia meus argumentos. Deve ter achado que agir assim resolveria. Até agora no café, pelo jeito, pretende ficar sentado à mesa sem me dirigir uma palavra.

Ainda não parei hoje, até esse momento do barulho ensurdecedor do liquidificador.  — Quando compramos dizia ser o mais silencioso! Sigo na tentativa simulada. — O quê? O que você falou? Não escuto fazendo a vitamina! 

Nada, indiferente. Ele bem sabe, que nada me irrita mais.

Ignorarei também. Afinal são 7h e eu já fiz minha meditação, exercícios faciais e os de “barriga negativa”. Check na primeira hora do dia. Pronta, não preciso da aprovação dele.

Os gêmeos, na correria matinal para a escola, não reparam na nossa falta de diálogo. Mal sentam à mesa, já levantam com a comida na mão falando combinações que só entre eles são compreensíveis. A caçula, no fone, nem que quisesse participaria da conversa, se houvesse alguma.

As crianças mandam um tchau de longe e ele nem olha. Isso já é absurdo. Nosso combinado sempre foi não misturar nossas discussões e o relacionamento pais-filhos. Meu nervoso só aumenta e desconto batendo em tudo enquanto procuro aquela lixa de unha que nunca está onde a deixei.

Agora vai se levantar e sair da mesa, no mínimo, para se fingir de incomodado com minha loucura.

Permanece quieto.

Então é guerra. O que era um conflito por temas banais, totalmente passível de resolução rápida e com bom senso, tornou-se daqueles que durarão o fim de semana. Incluindo sogra, cachorro, periquito e papagaio.

— Oi Alice! Sim, já estou descendo. Claro, faço questão. Mas na volta do happy hour hoje, você dirige porque é meu turno, lembra? Desligo o celular que fiz questão de atender ainda no apartamento.

Não, as vizinhas-colegas de trabalho-amigas de vale night ainda não estão na cota para serem afetadas pela briga conjugal.

Calço meu salto, bato a porta, chamo o elevador.

— Ai, esse salto não! Lembro que tirei o sapato de dirigir do carro, para limpar.

Escancaro a porta, reparo aquela nuca impassível, concentrada permanentemente no vídeo do celular. Toc toc toc toc, meus saltos pisoteiam o flutuante a ponto de quase se partirem, mas a tal série repetida deve ser mesmo mais interessante que resolver de vez a confusão.

Nessa altura, um olhar bastaria. Um — Mirela, me exaltei ontem, estou quieto repensando. Não. Só meu salto raspando na cabeça dele enquanto calço a Crocs.

Dessa vez não bato a porta. Cumprimento o vizinho de andar que segurava o elevador. — Obrigada! Bom dia! Quase terminando a semana, não?

No trabalho debatem o assunto noticiado pela manhã: um feminicídio ocorrido ali perto. Em plena luz-do-dia, o ex-marido com arma branca. — Em que mundo vivemos. — As mulheres não têm mais lugar. — Em casa está ainda mais perigoso. São os comentários dos que anseiam por uma justiça urgente. Fico sem saber o que falar. Compartilho do sentimento póstumo, mas me aterroriza o antes, em como relações chegam a esse ponto.

Após o almoço e com a fome ainda presente resultante da marmita fitness, olho constantemente o celular para checar o status online. Nada. E isso me surpreendeu. Só pode ter decidido fazer home-office, se afundou na vergonha de alhear-se a família e intensificou o trabalho.

— “Mãe, tem q autorizar nossa participação no campeonato do futs! E tem q ir junto”. É a mensagem que encontro no grupo da família. E continua… — “Viu, mãe? Pode ser? Vc marca lá no app da escola”. — Meninos, vocês sabem que assunto de futebol é com o pai de vocês! Minha chance. Joguei a isca, agora é aguardar.

— Ele não responde. Faz aí mãe. No dia ele vai. — Faço só isso então. Não posso perder minha trilha do sábado, já que domingo cozinho a comida da semana.

— “E antes tem q me deixar no coral, mãe!” — Sim filha. Feito meninos, agora peçam pro pai e me avisem.

Não fisguei ainda, mas coloquei gente para me ajudar. E não, eles ainda não perceberam nada.

A noite seguiu como esperada. Dois Mojitos para alegrar a conversa previsível das amigas sem intimidade e a cabeça na mesa do café. Por isso, o efeito do terceiro foi no #tbt da nossa última viagem de casal, com a legenda “amor pra vida toda”. Cansada dessa briga arrastada, da qual já nem me lembro o motivo.

Agora ele foi marcado, vai ver e abrandar aquele coração que só eu sei como é mole. Estou até agora sem entender qual das nossas falas rompantes o fizeram se chatear tanto, a ponto de desaparecer das nossas vidas.

Só quero logo que a motorista da vez se canse; libertar meus pés; tomar meu segundo banho e rir dessa confusão toda. E que as pazes não se prolonguem porque tenho minha leitura diária antes de dormir.

— Tchau querida, adorei! Sempre bom! Mês que vem deixa comigo.

Ao final de um suspiro, no espelho do elevador, reparo meu rosto. Quando foi que envelheci assim? Passo alguns segundos tentando entender o que faço ali, naquele lugar. Olho para os botões e não sei qual apertar. Apenas alguns segundos, de branco total, um frio no estômago como em uma queda livre. Por fim enxergo o 17. Isso, é ali.

Tudo quase volta ao normal, não fosse a indignação e decepção. A rotina cronometrada deveria estar mais eficiente, acho que falta incluir algo. Quem sabe nos 15 minutos restantes do almoço — Google, encontre um app para estimular memória após os 50. Talvez dormir seja uma boa opção. Um abraço apertado com autorização para choro sem porquê, também. Mas não, esses não aparecem na lista de trends.

Abro a porta com cuidado. Escuto o videogame dos gêmeos e as tentativas de afinação da caçula. Olho para a mesa e não seguro a risada.

É sempre assim que ele me ganha. Resolvendo tudo com bom humor. Como conseguiu voltar para a mesma posição da manhã?

— Oi Marcelo! Também senti sua falta. O salto enfim não resiste e se quebra com meus braços ainda em movimento para o abraço estalado pelas costas e um cheiro no cangote, quando tropeço e seguro no ombro dele com tudo.

Ele tomba devagar, para o lado, e bate a cabeça na parede. Um pedaço da orelha cai no chão.

Solto um grito atordoante.

As crianças aparecem esbugalhadas no corredor.

Me agacho trêmula e pego o pedaço da orelha. Do lado de dentro um papel, algo escrito em um tipo de etiqueta.

Com a vista turva pelo medo e assombro leio:

Modelo Cyborgue Yi1723. Para atualização de sistema e recarga de bateria abra o QR CODE.

 

Cecília Vieira é brasiliense, mãe de dois meninos e mestre em RH pela Universidade de Salamanca, Espanha. Estreou na literatura infantil com o “Marina a girafa que queria ser estrela”, na Bienal SP/22. É contista em coletâneas e revistas literárias. O conto “Perfeitamente equilibrado” foi um dos vencedores do 19º Prêmio Mário Quintana de Literatura. Lançou em 2023 o ebook “Guadalupe sobre um tapete de mangas” e o livro “Se tudo der errado não volto”, pela Caravana. Siga a autora em @cecivieira_eu.