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154ª Leva - 02/2024 Galeria

Foto: Marcelo Leal

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153ª Leva - 01/2024 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Zô

 

Há 18 anos surgia a Diversos Afins. E eis que apareceu dentro de um contexto de efervescência das produções em meio digital. Era o ápice de blogs e sites dedicados a todo tipo de narrativa no front cultural. Muitos espaços personificavam os estilos de novos autores, individualizando condutas de publicação dos textos. Foi importante testemunhar a aparição de um sem fim de expressões da poesia e da prosa, desde iniciantes e até mesmo dos mais consagrados. Igualmente recompensador foi também perceber a chegada de vários portais e revistas dedicados não somente à Literatura, mas a outras artes, apresentando em seu cardápio multifacetado resenhas, ensaios e textos sobre cinema, teatro, música e outras frentes. Cada um com sua identidade própria, com seu jeito de ofertar aos leitores modos peculiares de estruturação dos conteúdos. No meio dessa borbulhante paisagem, nossa revista figurava como uma janela através da qual parte importante desse oceano de produções se fazia adentrar. Definida a sua política editorial, a Diversos Afins manteve desde o início o intuito de acolher novos autores, em grande contingente inclinados a  desengavetar seus escritos pela primeira vez, interessados por oportunidades de publicação. No ofício de se editar uma revista, há muito aprendizado envolvido, sobretudo aquele que decorre das trocas estabelecidas com parceiros, colaboradores e leitores, todos eles, ao fim e ao cabo, se colocando como verdadeiros entusiastas de cada edição. Chegar a mais um ciclo de existência significa muito para nós, pois, mesmo nos hiatos que se impõem à jornada, a vontade de seguir adiante permanece viva. De ânimo sempre renovado, os encontros do presente constroem nossa 153ª Leva. Nela, descortinamos os poemas de gente como Nívia Maria Vasconcellos, Constança Guimarães, Julia Sereno, Camila Passatuto e Christian Dancini. Na cartografia presente pelas alamedas desta edição, as imagens de nos fazem companhia, arte que transborda recortes sutis do cotidiano. Em nosso caderno de cinema, Guilherme Preger nos provoca a ver e sentir “Motel Destino”, filme mais recente de Karim Aïnouz. É Alex Simões quem nos convida à leitura de “onde a água faz a curva”, livro do poeta Matheus dos Anjos. Na entrevista concedida a Gustavo Rios, o escritor Victor Mascarenhas fala sobre os percursos que o levaram à construção de seu último livro, “Sete dias em setembro”. O mais recente livro de Ruy Póvoas, “O Risco e o Laço – traçados do destino nagô”, é tema das apreciações de Tica Simões. Os contos de Neuzamaria Kerner, Adriano Espíndola Santos e Paulo Zan tecem um instigante mosaico de narrativas mundanas. Nas impressões sonoras de Fabrício Brandão, o disco “Milton + esperanza”, fruto da especial parceria entre Milton Nascimento e Esperanza Spalding, agora gira na agulha de nosso Gramofone. É tempo de, com imensa gratidão, celebrar junto a nossos leitores e colaboradores o nascimento de uma outra etapa. Boas leituras e mergulhos!

 

Os Leveiros       

 

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153ª Leva - 01/2024 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

MILTON NASCIMENTO E ESPERANZA SPALDING – MILTON + ESPERANZA

 

 

A passagem do tempo vai revelando em nós camadas difusas através das quais a vida se dilui e transcorre. E se já não somos mais os mesmos de outrora, talvez consigamos preservar acesa em nós a chama de certos sonhos, estes que foram arroubos de juventude ou que ainda representam algo significativo no campo da contemplação, bastando apenas que consigamos conceder-lhes sentidos ativos.

De todo modo, a coleção de vivências que experimentamos pode estar inscrita em nós até os ossos, delineando reminiscências, o gosto de uma pretérita existência desfrutada com intensidade ou certa dose de romantismo. Pode ser também expressa num desejo de futuro a ser construído não como mera condição de espera, mas como movimento dinâmico de busca.

Imagino que as linhas acima possam traduzir um pouco do que a escuta do álbum Milton + esperanza demonstra sugerir. Se a voz já não empresta aquele vigor do passado, Milton Nascimento deixa impregnada nesse mais recente disco a sua alma, uma esfera da existência importante que, apesar das investidas limitadoras do tempo rei, não subtrai desse momento o amor pela música, senhora esta que povoa as paisagens da vida do artista desde sempre, oferecendo-lhe um manancial de imagens sensíveis e provocadoras.

A produção desse disco deveras especial é de Esperanza Spalding que, convidada pelo filho do compositor numa conversa informal quando da turnê de despedida de Milton dos palcos, topou a missão. Mas o ingrediente que se soma a essa tarefa é o fato de que a artista tem uma enorme admiração pela obra dele, tendo já gravado coisas do músico, dividido palcos, estreitando uma relação de amizade que sabidamente já dura alguns bons anos. O resultado dessa parceria materializa agora um projeto cujo apuro está tanto no esmero com a produção e arranjos, mas sobretudo pela condução vocal que os dois parceiros de jornada souberam fazer nas 16 faixas.

Os caminhos iniciais do disco sinalizam para a importância transformadora da música. Que o diga a primeira faixa, “the music was there”, que, funcionando como uma espécie de intro, mostra um Milton a revelar o quanto a sua veia compositora se vale daquilo que emana das imagens que o povoam por dentro e por fora. Esse gesto confessional é testemunhado como o registro de um diálogo em que as reações de Esperanza são marcadas por sonoras e suaves risadas e suspiros de concordância. Vale ressaltar que esse clima de conversa entre os dois artistas também se estende a outros momentos do disco, como é o caso das trocas que aparecem em “outro planeta”, parte em que Milton enaltece tudo o que o motiva a compor: amizade, amor, crianças, o mar, a vida.

Logo na sequência, difícil não se emocionar com a roupagem dada à majestosa “Cais”, cujo arranjo consegue preservar a essência definidora da canção. Na curta “Late September”, visualizamos a assinatura artística de Esperanza como se representasse uma pequena demonstração da verve jazzística contemporânea virtuosa da musicista.

“Outubro”, originalmente gravada no belíssimo Courage (1968), segundo disco da carreira de Milton Nascimento,  atravessa as dobras do tempo com um ânimo novo, mas sem abrir mão da ambiência poética que lhe é característica. Ao lado de Esperanza, Milton preserva a intensidade existencial que torna a canção uma das composições mais representativas de sua obra. Trata-se de um olhar profundo sobre o lugar do sujeito no mundo, a coleção de lembranças, ações e imagens que o permitem esboçar a partida rumo a um porvir envolto em mistério, quiçá aquilo que denominamos por morte sem ter certeza de absolutamente nada. A faixa, com seus belos requintes jazzísticos regados ao marcante contrabaixo acústico de Esperanza, bem como piano e flauta, nos lembra que, antes de mais nada, estamos ocupados mesmo é de viver.

 

Milton e Esperanza / Foto: Lucas Nogueira

 

“A Day In The Life”, icônica composição dos Beatles, vem embalada pelo suave diálogo entre violão e piano, harmonizando as vozes de Milton e Esperanza à atmosfera central da canção. Nesse sentido, a proposta original da música permanece, divisando o arranjo em esferas distintas de intensidade. E tal gesto é deveras necessário, pois as subidas e descidas da música são sua marca inalienável, como um mosaico de cenários difusos agora ainda mais recheados pela escolha de sua base instrumental.

Há um sentimento pueril rondando “Saci”, cujas gargalhadas de Milton ao final da faixa marcam o espaço brincante da canção. Diga-se de passagem, tal emblema de espontaneidade parece mostrar uma intenção deliberada de captar a atmosfera descontraída e leve que povoou a feitura do disco.

Em “Wings for the Thought Bird”, mais uma vez a marca pessoal de Esperanza, com sua potencialidade instrumental confere tons especiais ao trabalho. E o destaque aqui está principalmente nos vocalizes com os quais a cantora atravessa toda a faixa.

Mas vejamos que “Earth Song”, emotiva e, por que não dizer, filosófica letra de Michael Jackson, ganha uma roupagem mais lenta, jazzística e povoada pela interpretação de Diane Reeves cujo potencial dota a música de um lirismo especial. Assim, do ímpeto original da gravação do rei do pop, o crescendo da canção permanece até que tudo se resolva em leveza ao fim. Uma delicadeza sem par com a participação de Milton nos vocais.

Cabe lembrar que tanto a composição de Michael quanto a dos Beatles foram escolhas especiais de Milton. De resto, Esperanza teve a liberdade de selecionar o repertório do disco, imprimindo nesse rol de opções os reflexos de seu enorme apreço pelo universo sonoro do artista, atitude confessadamente amorosa da musicista.

Sem dúvida uma das maiores composições de Milton, “Morro Velho” surge revisitada com todo o requinte de piano e da luxuosa contribuição da Orquestra Ouro Preto. Nela, a voz de Milton ganha beleza e dialoga com a de Esperanza com toda a pulsação de uma entrega recheada de sutilezas sonoras. E é isso que o arranjo escolhido imprime à canção, agora contemplada com uma atmosfera marcada pela leveza.

“Saudade Dos Aviões Da Panair (Conversando no Bar)” é uma rica reunião das vozes  de Milton, Esperanza, Maria Gadú, Tim Bernardes e Lianne La Havas, todos irmanados num tom que reforça a alma fundante da composição. Aqui, a opção pela inserção dos vocalizes em coro logo no início da canção, além de subverter a ordem original da música, gravada em 1975 no brilhante álbum Minas, trouxe uma atmosfera diferenciada como se antecipasse o apogeu que se consolida no fim da música.

E que tal um Paul Simon cantando em português junto com Milton? Assim o é em “Um vento passou (para Paul Simon)”, faixa que evoca a fortuna da amizade como um legado que concede valor à vida marcada pelo impacto das memórias. “Coração se aqueceu/Agora ao lembrar de você/Amizade é um dom/Que precisa merecer/Nesta vida, nesta história/Não esquecer/O silêncio é o som/Que não cabe mais no ar/(…), diz um dos trechos.

No começo deste texto, falei um pouco sobre sonhos, essa perspectiva que todos trazemos de algum modo como sendo a ponta de um iceberg em sua quase totalidade inexplorado. E mais do que meras aspirações e preces ao porvir, eles talvez possam se configurar como o anseio de uma entrega ao oceano do desconhecido, corpos e mentes velejando pela imensidão dos mistérios humanos. E faz jus a esse complexo de sensações a última faixa do disco, a requintada e jazzística “When You Dream”, composição que prima pela abundância sonora, cujas intensidades vocais e instrumentais encerram bem a jornada aqui proposta.

Milton + esperanza é um disco muito bem cuidado, soma de energias que se integram pelo propósito mais genuíno da música, qual seja o de provocar em cada ouvinte esferas múltiplas e também singulares de percepção. Acima de tudo, é um álbum construído pela força dos encontros entre gente que tem apreço por gente, colocando no ponto mais alto das apreciações o amor e a amizade.  

 

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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153ª Leva - 01/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Julia Sereno

 

Arte: Zô

 

teste

 

meu corpo faz perguntas o tempo todo
mesmo sabendo que as respostas estão escondidas
debaixo do tapete que meu coração esqueceu
na sala de espera.
a visita não veio mais uma vez

 

 

 

***

 

 

 

espelho

 

juntou todos os caquinhos

um
por
um

e com eles cortou o silêncio dos dias

que calados não faziam mais sentido

 

 

 

***

 

 

 

rota

 

suspiro de medo
e alívio

ou será apenas meu ar
comprimido
que escolhe
em silêncio
deixar meu peito doído

e levar um pouco
do tempo perdido

para onde eu consiga
respirar

 

 

 

***

 

 

 

ano-novo

 

fincou os pés molhados no passado.
levantou os braços dormentes de aperto.
abriu as mãos secas de carinho.
fechou os olhos cansados do ruído

 

 

 

***

 

 

 

meio

 

desloco-me e
atravesso

do avesso
retorno e
parto

mas não preciso
chegar a lugar nenhum

o entre-lugar é meu

 

 

 

***

 

 

 

ela

 

a dor escreve o texto
e logo se desespera

desalinhando os cabelos
descamando a pele

a dor exige ser lida, recitada,
engolida

e depois reescrita
pela autora do não

 

 

 

***

 

 

 

pressa

 

hoje a minha espera acordou inquieta.
saiu apressada sem se olhar no espelho.
até o café esqueceu de fazer.
queria encontrar as pistas antes do fim do dia.
mas elas estavam cansadas e não disseram nada.
seguiram caladas sem olhar para os lados.
pois o caminho de casa mudara outra vez

 

Julia Sereno é natural do Rio de Janeiro, mas vive em Lisboa desde 2020. Doutora em Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Publicou o seu primeiro livro de poemas, “As Outras em Mim”, em 2022. 

 

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153ª Leva - 01/2024 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Motel Destino. Brasil. 2024.

 

 

Nono longa-metragem ficcional do diretor cearense Karim Aïnouz, Motel Destino fez sua estreia no Festival de Cannes de 2024, sendo aclamado pelo público, porém sem prêmios. É estrelado pelo veterano ator Fábio Assunção, e pelos jovens atores Iago Xavier e Nataly Rocha.

Heraldo (Iago Xavier) é um jovem de 21 anos, morador de uma cidade no litoral do Ceará, que faz negócios escusos para uma misteriosa gangue que serve a uma pintora local. Apesar de sua atividade ilícita, Heraldo sonha mesmo em juntar dinheiro para ir morar em São Paulo e procurar por seu desaparecido pai. Porém, por causa de uma mal sucedida tarefa, o jovem é obrigado a se esconder num motel na periferia da cidade e permanece lá trabalhando clandestinamente. Então conhece Daianna (Nataly Rocha), que é a gerente do lugar e casada com Elias (Fábio Assunção), o dono do estabelecimento.

Elias, a princípio, acolhe bem o rapaz, que ajuda na manutenção do estabelecimento, porém, como era de se esperar, Heraldo e Daianna se envolvem amorosamente, de maneira furtiva. Assim, à clandestinidade do trabalho do rapaz se soma a clandestinidade erótica do encontro com Daianna.

 

“Motel Destino” / Foto: divulgação

 

Motel Destino, assim como Praia do Futuro (2014), é um filme de cores contrastantes e luz forte, ensolarado. Em Praia do Futuro, a luz solar e o clima quente do litoral nordestino contrastam com o frio e o cinza de Berlim, onde metade da história se passa. Em Motel Destino, não há essa oposição. A distinção neste filme se dá entre a liberdade do corpo e o confinamento do espaço, que não é só físico, mas também o da precariedade da existência, um confinamento social.

O filme está cheio de reminiscências, tanto da vida nordestina, que vai do sotaque da fala, aos modos corporais e às formas de convivência locais, mas sobretudo de reminiscências (ou seriam referências?) de seus filmes anteriores, particularmente de uma de suas primeiras obras, O Céu de Suely (2006). Assim, embora em Praia do Futuro reapareçam o verde do mar, as hélices das usinas eólicas, as dunas e as falésias das praias, em O Céu de Suely há mais similaridades de enredo, como citações cinematográficas, algumas mais evidentes, outras mais sutis.

Tanto Suely (Hermila Guedes), do filme de 2006, quanto Heraldo, protagonistas de vida precária, querem emigrar do Nordeste (particularmente do Ceará) para São Paulo como fugitivos da existência sem futuro.  As praias cearenses podem ser do futuro, mas o destino do precariado não. Ambos buscam reencontrar pessoas que perderam: Suely, o pai de seu filho e Heraldo, seu próprio pai, para então poderem seguir em frente. Suely vende seu corpo numa rifa, Heraldo de certa maneira também vende o seu num trabalho subalterno e clandestino. Mas diferentemente daquela, que não encontra prazer em seu ato, Heraldo busca em Daianna uma alegria erótica genuína.

Já o nome dessa personagem, vivida por Nataly Rocha, é uma sutil referência à canção que abre O Céu de Suely, uma versão do clássico do grupo Bread, cantada pela cantora Diana. E, curiosamente, Motel Destino termina precisamente tal como se inicia esse filme anterior, dando a entender que a obra cinematográfica de Karim teria fechado um ciclo. Ora, ambas as cenas musicais, filmadas em super-8, são passagens utópicas de um destino mais feliz.

Esses filmes citados se passam no Ceará, terra natal do diretor. Como mencionado, o cinema de Karim é feito de reminiscências, onde se destaca e resplandece a luz solar desse Estado Nordestino, que abre aos personagens uma vida intensa, porém sem futuro, quando a fuga parece ser a melhor opção. No caso do jovem Heraldo, o motel é primeiramente o lugar onde ele é vítima de um logro. Depois, já trabalhando lá, torna-se um lugar de refúgio. Finalmente, torna-se junto a Daianna um recôndito lugar para a existência libidinal e amorosa, entre os gemidos obscenos dos demais frequentadores. Esses gemidos, que se sobressaem do cenário de luzes fosforescentes, perdem sua característica obscena para se tornarem o fundo sonoro dos encontros do casal. Mas, há também a figura tanto cordial quanto amedrontadora de Elias, para compor o triângulo amoroso desse roteiro.

 

“Motel Destino” / Foto: divulgação

 

Elias, vivido em grande participação por Fábio Assunção, é o dono do estabelecimento e marido de Daianna. Sua recepção de Heraldo é inicialmente cordial. Mas tal cordialidade aparente é ambígua como no mito cordial do brasileiro, tanto econômica quanto emocionalmente. Heraldo é a rigor um trabalhador barato para Elias, pois consegue fazer pequenas obras sem cobrar, ou seja, através de trabalho não remunerado. O fato de ser um foragido o coloca numa posição ainda mais precária. Mas Heraldo não é tanto um rival amoroso para Elias, quanto também é um objeto sexual, já que a “macheza” encenada de Elias esconde uma dissimulada homoafetividade.

Como em outras obras, o sexo tem como pano de fundo a violência. Os filmes de Karim procuram fazer uma mediação entre as promessas tropicais da liberdade erótica do corpo e as necessidades de sobrevivência que quase sempre tomam um rumo violento. Esteticamente, há uma composição entre o contraste das cores e dos filtros, acentuadas em Motel Destino pelo ambiente ao mesmo tempo libertino e clichê, e a excitação da música que, nesta e em obras anteriores, assume os timbres extáticos das festas eletrônicas.

O filme, portanto, não é o retrato de nenhuma brasilidade nordestina profunda e sim a construção de um imaginário mais rico de nuances que desafia a monocultura estética, política, ideológica e amorosa que tomou conta do país, com a recente emergência ressentida dos movimentos de extrema-direita.  Este desafio fica claro numa das últimas falas de Heraldo, após um momento paradigmático que traz a reminiscência de uma cena de antiga novela televisiva de Jorge Amado.  Retoma-se, em outra chave, mais afetiva, um tema típico da cultura brasileira, a relação entre o clima tropical, com sua exuberância natural, e o transe dos corpos, que inclui também a violência. Trata-se de fazer emergir no cinema de película (com a qual o filme foi gravado) o cromatismo das luzes abundantes e o vigor das formas eróticas do corpo para o enfrentamento da precariedade da existência. Neste filme, em particular, do choque entre o estreito das condições sociais e o excesso da libido saltam as faíscas de mundos possíveis, mais plenos.

 

 

Guilherme Preger é carioca, engenheiro e escritor. Doutor em Teoria da Literatura pela UERJ. Autor de Fábulas da Ciência (ed. Gramma, 2021) e Teoria Geral dos Aparelhos (Caravana, 2024). Mantém o blog Resenha Cibernética e faz curadoria do cotidiano diária no Mastodon no endereço @gfpreger@piupiupiu.com.br. Escreve sobre cinema na Diversos Afins desde 2015.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriano Espíndola Santos

 

Arte: Zô

 

Conversão

 

Uma pequena falha de caráter? Um desvio grosseiro, pecaminoso? Retomei uma crença que havia se perdido no tempo, no meio de tantos ensaios à sabedoria, quando achava que o homem era o único ser supremo: a fé cristã. Nunca, no entanto, consegui me desvencilhar de uma culpa católica. Nas orgias que preparava em casa, sempre no dia seguinte me batia uma depressão, uma tremenda culpa me pesava, como se eu fosse o pior dos homens; deixei de visitar minha mãe, porque não conseguia lhe encarar; “O que ela iria dizer de um filho pervertido?”, refletia. Sim, passados dois ou três dias, quando os colhões estavam latejando de luxúria, eu me enfiava, de novo, entre as pernas do Naldo, no trabuco da Jeniffer ou na bunda da Sofia, um(a) de cada gênero ou espécie, como queira. Houve o dia em que reuni os meus três fantoches preferidos numa sauna alugada só para a gente. Foi uma fortuna. Apliquei praticamente toda a minha poupança nessa experiência, que julgava ser a última; havia sido diagnosticado com câncer de pele. Sobre o câncer, digo que foi um blefe do destino, porque o médico, muito competente, tirou a área afetada e não foram precisos maiores cuidados. Já estou em fase de remissão; considero-me curado. Luto para juntar algum trocado para pagar contas antigas, inclusive de débito com a sauna. Os ou as três mosqueteiros ou mosqueteiras me abandonaram. Eu também os(as) abandonei. Na primeira semana em que fiz a cirurgia – que foi um sucesso, segundo o médico –, voltei à igrejinha do Menino Deus. Fazia, pelo menos, uns dez anos que não pisava ali. Ajoelhei-me e chorei, pedindo perdão a Deus, por meu egoísmo, por um vício meu, só meu, que eu não sabia controlar. A promessa que fiz resultou em um sacrifício e uma obrigação, que entregava a Deus, de não me entregar mais à perversão. Lembrava-me de quando era menino e puro, e não pensava em sexo ou coisas do tipo. A minha luta diária é para pensar e sentir a beleza das flores, o silvo dos ventos do sul e a magnitude do rei Sol. Amargo uma dívida pior, que não serei capaz de saldar em vida. Minha mãezinha está com Alzheimer. Justamente na minha conversão, minha mãe perdeu os sentidos para acompanhar a dádiva. O que resta de memória para ela – se é que resta –, é para brigar comigo, me chamar de “menino maligno”, algo que, mesmo sabendo que ela fala por falar, me dói profundamente. Essas são a minha adaga e o meu pendor. Entendi que devo suportar tudo isso, para a minha verdadeira redenção. Noutro dia encontrei Sofia, no centro, e ela me recomendou uma boa trepada para eu mudar o meu humor. Disse a ela que o meu coração é novo – ainda que tentado por aquele rabo espetacular.

 

 

***

 

 

Só por hoje

 

Noite clara. Tempo manso e veloz. Uma rasga-mortalha mandou o seu canto fúnebre. Minha mãe dizia que o canto indicava casamento ou morte. Como se fossem os opostos: felicidade e tristeza. Eu estava na linha dos acontecimentos. E brutalmente acometido de melancolia. Guinha, meu amigo de infância, disse que isso tinha a ver com o abuso no consumo de drogas; que ele também estava assim, ferido, abatido. Namorava com Érica, que, cravada de obsessão, sempre que brigávamos dizia que ia se matar. Ela, sim, era doente em alto grau – e, à época, eu não achava que uma palavra do que dizia fosse verdade. Era, além de tudo, dramática. Numa queda, em que ralou o joelho, quis ir ao hospital para fazer exames, porque jurava ter fraturado a rótula. O drama foi dissipado com um tranquilizante, que os médicos deram, alegando que ela estaria, possivelmente, com síndrome do pânico; que era algo muito corriqueiro, dada a urgência dos nossos dias. Saía com Guinha e Bengala para as noitadas regadas a uísque vagabundo e cocaína. O dinheiro vinha do meu pai, dono de uma pequena mercearia de bairro, porque eu, quando podia, lhe ajudava. Já tinha desencanado dos estudos. Meu pai decretou: ou trabalha, ou estuda. Preferi fingir que trabalhava. Arrumava uma coisa aqui, outra ali, para mostrar que fazia algo. A minha obrigação principal era a entrega das águas. Rodava o bairro, na fissura, entregava o que dava e, para os insistentes, dizia que a água da marca tal estava faltando. Meu pai reclamava da diminuição das entregas. Eu queria mandar tudo para o espaço. Às 17h, saía do emprego e ia para a casa da Érica ou dava uns botes com os comparsas. Numa noite em que sumi com Guinha, quando cheiramos todas as carreiras possíveis que o nosso dinheiro dava conta, ao chegar em casa, meu pai disse que tinha ligado para todos os hospitais atrás de mim, e falou o pior: Érica estava no hospital por overdose de remédios; teve uma parada cardíaca e estava com insuficiência renal. Dois dias depois, Érica veio a óbito. Eu quis me matar, por minha razoável culpa. Mas a verdade é que não tive coragem. Ao mesmo tempo, estava com ódio de Érica, que mudou o meu destino. Por conta dela, pedi ao meu pai para me internar numa clínica. Não aguentava mais lidar com a minha vida, mundana, absurda. Poxa, eu já estava pronto para acabar o relacionamento. Não tive forças, a covardia é minha amiga. Foram anos dizendo: “Estou limpo, só por hoje”. Estou limpo, mas brabo, doente. Joana é uma santa que encontrei pelo caminho. Ela me ajuda, no que pode, e não sei até quando. Ainda tenho pesadelos com Érica gritando. Na última vez em que encontrei Guinha, ele estava acabado, voltou a consumir drogas e morava na rua. Foi a dor mais doída. Que não me pegue a desgraça, só por hoje; só por hoje.

 

Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando; e em 2024 o livro de contos “Amparo secreto”, pela editora Urutau. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. É advogado civilista-humanista. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

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153ª Leva - 01/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Camila Passatuto

 

Arte: Zô

 

Enquanto recolho o que é real e apinho esquissos de corpos inconvenientes, a ronda cinza do alheamento contabiliza as dores.
Apesar da infame fuga ministrada a cada conjunto vil de tempo, entendo os meios poéticos dos dias.
Trancam meu eu.
Libertam, dizem,
O que me é espírito.
Café, clozapina, saliva e mulher.
Envolvo verbos por aliterações travadas e ninguém se importa.
E tudo faz sentido
Quando os pulsos
Doem
No apertar
Das cordas.
Recolho o que é real e turvo, amor. Socorro.

 

 

***

 

 

Rupturas, cores quentes, risos hiperbólicos, pálpebras arrancadas.

E continuavam a galopar pela cidade, sem objetivo de ser. Dedos mornos, pele azul, olhos secos, crianças fatiadas.

E a cerveja descia travada, a malandragem apoiada em solavancos de grades-janelas, nada tinha rumo, rima, remo ou graça.

Alguns diziam sábado
Eu gemia quarta
Foi-se dia de fim
Gritou a moça.

Mais um dia.

 

 

 

***

 

 

 

Você disse que meus olhos de exu danam as vielas dos que passam por mim.
Eu recolhi o troco que espalhava um prateado tímido no balcão estreito de um bar caro. Retruquei em dar o último gole no drink exagerado e pueril para meu paladar.
Escorri as mãos para o alto, no percalço de matar a gravidade em ti.
Você, beata dos cálculos imaturos de fim de mês, vênus assustada na cela dos cães raivosos, imaculada na nudez dos seios firmes. Disse que meus freios falham sempre na última curva, no verso exato de salvação.
Os tiros, que nascem no crânio de alguém, longe daqui, batucam em meus tiques nervosos na perna esquerda. E ninguém abençoa os filhos do medo em noites mal cultuadas.
Você insiste em imprecar os maldizeres ao meu olhar.
Das culpas vermelhas que estendo na varanda, os véus que cobrem o descontrole matinal é o que me alinha ao mundo.
Desculpa.
Abandono o lugar que me entedia.
Atravesso ruas avulsas, como quem desbrava o próprio peito à procura de alma.
– Meus fantasmas se afogam na minha bebida. Versam dos meus gritos o gênesis de uma nova era. Ninguém escuta. –
Você disse que meus olhos de exu enxergam a morte em tudo, minha linda.
Ela. Morta em 1937, La Paz. Ainda não sabe do desencarne.
E diz, ao desviar dos carros, que sou sua guia.
Somos a literatura do caos
No ventre das pontes
E gosto de chão
Na boca quebrada.
Na paz
Ralada
Na fuga
Dos torturadores.
Extremos e roucos.
Laroiê,
Meu amor.

 

 

 

***

 

 

 

O zimbro inocente dos quereres, por maviosidade do caos, fez germinar, no antro da civilização seca, um olho em broto, um encabeçamento de era.
E as crianças despertaram mais cedo, os dentes rasgaram a fome de pão, pés tortos marcharam liberdade e senhoras se tocaram rubras em praças públicas.
Um olho em broto, um encabeçamento de era.
E ela fumou um último cigarro, afastou as cortinas como se fossem mechas de moça, adentrou um fino espasmo de nós e foi correnteza por toda cidade.
Meu olho em broto, meu encabeçamento de paz.
E as crianças abriram caminho
E meus poemas ruíram o mal
E tudo era ritmo, aliteração,
desculpa pra mar.

Flufenazina e um tanto
de Rhapsody in Blue.
E tudo começa, amor.

 

 

 

***

 

 

 

Lama

 

Não quero escovar tempo
ou mesmo injuriar
tuas pernas
alguém tacou fogo
na lixeira da esquina
e vi deus
comburente
afetado
descalço entre as moscas
agitadas pelo calor.
– é outono –
Não quero bravejar
sou cria à toa
de condoimento
exagerado
e quebro os dentes
amarro os dedos.
Ontem
alguém lambeu
minha ira
e vi o diabo
exaltado
colostomizado
aformoseado no brilho
dos destituídos.
Hoje
fodo a testa
no barranco
– é outono –
minhas meninas,
no sustentáculo
de choro, miudam
acalmo o tempo.
escovo palavras frias.
é dia
após dia.
Alguém tacou fogo
na lixeira da esquina…

 

 

 

***

 

 

 

O monstro corre no tosco riso salivado, nos olhares de homens afervorados pela maldade infértil do comum e por vapores de ideias abortadas em assembleia geral.
Oremos.
O monstro instala seu verde ruído em vozes metálicas, nas vagas salinas do bairro médio de uma cidade média capada à miséria de capital lúcido.
Compremos.
O monstro fode a lógica dos desavisados no ritmo de um roteiro aborrecível no ato lânguido de poder.
Morremos.

Postula o que te é rebelde
No verso seguinte
Da escrita
Laica
E mata
O ignavo
Da língua cortada
Pelo homem histérico
Liberta-te
O verbo
Morto
Na manhã
Do teu fim.

Voltemos.

 

Camila Passatuto (1988) nasceu em São Paulo. Autora dos livro “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada” (Ed. Penalux, 2017) e “Nequice: Lapso na Função  Supressora”. Escreve desde os 11 anos e desde 2007 participa de diversas antologias e revistas culturais com seus poemas e textos.