A Diversos Afins é puro movimento, dinâmica que teima em render frutos que nos impulsionam adiante. Seu projeto editorial vem se consolidando e renovando cada vez que nos deparamos com instigantes expressões do campo artístico. E como é importante saber que os caminhos não se esgotam por si só, pois habitamos um mundo onde as vozes se mostram plurais e dotadas de acordes próprios. Aliás, o emblema da singularidade sempre foi uma marca de nossas edições, pois, a cada etapa de publicações, percebemos que surgem outros tantos olhares sobre o mundo, essa grande plataforma através da qual os sentidos emanam e se fazem presentes. Imersos em leituras das mais variadas, por vezes somos surpreendidos positivamente com o efeito que os autores imprimem a seus textos e imagens. Ao fim e ao cabo, são distintos modos de se narrar a persistente aventura humana sobre a Terra. Escritores, artistas plásticos, ilustradores e fotógrafos, dentre outros, são verdadeiros provocadores quando nos tomam de assalto com suas investidas. Mais parecem desacomodar nossas pequenas e frágeis certezas diante da vida e seus fenômenos todos. E é salutar quando a Arte atinge esse ponto de se balançar antigas estruturas e nos propõe fôlegos alternativos para saborearmos nossas andanças mundanas, pois o objeto artístico não se desvincula do ato espantado do existir. Do equilíbrio entre convites e aproximações espontâneas, brota uma nova Leva de expressões que remontam a universos pessoais bastante contundentes em seus propósitos. Pelas veredas das nossas janelas poéticas de agora, por exemplo, despontam os versos emblemáticos de gente como Marianna Perna, Marlos Degani, Ramayana Vargens, Anna Lúcia Maestri e Lisandra Crespi. São de Gustavo Rios as impressões acerca dos contos de “Gosto de Amora”, obra de Mário Medeiros. Na seara do teatro, Vivian Pizzinga nos apresenta uma abordagem sensível e convidativa sobre o monólogo “Traidor”, interpretado por Marco Nanini. Por ora, somos bem servidos de prosa com os contos de Whisner Fraga e Ailton Lima, cada um com seus horizontes peculiares. Em sua verve cinéfila habitual, Guilherme Preger incursiona pelos aspectos relevantes do filme “Anora”. O disco de estreia do rapper Yago Oproprio é destaque das apreciações sonoras e aguçadas de Larissa Mendes. O entrevistado da vez é ninguém menos que o escritor baiano Paulo Bono, que dialoga com Fabrício Brandão sob o impacto dos desdobramentos de seu mais recente livro de contos, “Pepperoni”. É Roberto dos Santos quem nos conduz pelas alamedas de “Quem falou?”, romance de André Cunha. E todos os espaços aqui aparecem abrilhantados pela exposição das ilustrações de Nicole Marra, artista que nos oferta uma possibilidade especial de mergulho na dimensão feminina das formas. Com toda essa reunião de valiosas contribuições, nasce a Leva 155. Boas leituras!
Se a origem hebraica do nome Yago remete a vencedor, Oproprio dá a letra e sobrenome ao jovem artista colecionador de isqueiros e de belas canções. Criado entre a Zona Leste de São Paulo, a interiorana São José dos Campos e a Venezuela, Yago vem obtendo destaque na cena musical com seu estilo singular e inovador, onde mescla elementos do rap tradicional com influências de boom bap, MPB e de música latina (graças aos anos de sua adolescência vividos no país de Maduro em companhia da mãe). Suas letras abordam temas cotidianos e experiências pessoais, criando uma conexão imediata e genuína com quem sequer esbarra em sua sonoridade. Aos 30 anos recém-comemorados no palco, o rapper convive desde berço com a arte. Cristiano Carvalho, seu pai, é um dos fundadores do coletivo paulistano Dolores e um Yago ainda menino já frequentava os saraus do Jardim Triana.
Em maio passado, o músico lançou seu álbum de estreia, intitulado OPROPRIO (2024), pela gravadora Som Livre. Antes do lançamento da obra, ele já havia chamado atenção em sua participação no single Imprevisto (2022), do rapper Rô Rosa, e com as 5 faixas de seu EP O Inquilino (2023). Além disso, possui parcerias em inúmeras canções com promissores artistas nacionais do pop, funk e neo-soul, como Tupi, MC TH, Jean Tassy e Iuri Rio Branco. E se prepara para lançar um samba em breve.
Foto: divulgação
Logo de cara, a capa d’OPROPRIO chama atenção por se tratar de uma pintura em cores primárias do artista plástico Rodrigo Branco. A boca borrada e os olhos atentos podem fazer alusão ao trap de influência latina La Noche (trago a visão pra quem não enxerga mais/a voz que busca a paz de todos que ficaram mudos), que abre o álbum e narra o drama de encarar o “trampo” após um “rolê insano” — pra não dizer que não falei das gírias. Inofensiva (mas toda noite eu rezo e peço minhas desculpas/tão cristã minha culpa/deixa eu só cumprir minha missão), espécie de continuação da faixa anterior, explora a complexidade da conduta humana e o eterno duelo entre certo e errado. Já a soturna Catedrais é descrente de Jesus ou Satanás, porém apoia todos que pregam a paz. E ainda traz um verso de “Cristiano Opai”(disse pra atentar minha chegada/e ver se a rua tá livre de ser autuada”), sua primeira referência artística.
O bloco seguinte ganhou o repeat da minha playlist e meu coração todinho. Se Fora do Tom(vou juntando meus pedaços pra saber quem sou/distribuindo meus retalhos por aí/vou descobrir como chegar a pé) é poesia pura de quem atravessa uma crise ou o caos completo, Melhor Que Ontem (nada do que foi vai voltar/e o ponteiro do relógio serve pra não esquecer/que na vida tudo passa, a dor, a paz, a graça/o tempo é professor e nos ensina a viver) é um sopro de esperança e transmutação – e talvez seja a mais bela faixa do álbum e de todo 2024. Enigma (mas se você me conquistar/abro os caminhos pra gente tentar entender/e os meus segredos você pode desvendar/que eu guardo num lugar que eu nunca sei falar/nem sei dizer) aborda aquelas conexões amorosas intensas, por vezes até confusas, mas extremamente raras; e por fim, Modus Operandi (eu não mereço todas dores desse mundo/se eu me confundo, num segundo eu perco tudo/(…) e quanto mais o tempo passa, eu me confundo/eu grito alto e o desespero deixa mudo/Mas se eu pudesse congelar o tempo, eu evitava tudo) questiona a dualidade de um amor meio tóxico.
Enquanto Papoulas (eu procurei, não achei respostas/decifrando o jeito que cê veio incomum/a tua postura tão proposta/cativou no peito e eu não quero mais jejum) encerra o bloco “love songs” através de sua visceralidade, a engajada Jejum (tamo pensando em um por um, que revolta cada um/linha do tempo pode nos comprometer/se te incomoda еsse jejum, temos dorеs em comum/basta nóis saber reconhecer) desencadeia o desejo de protestar contra o absurdo da vez e sobra até para o mascote da Lacoste. O álbum encerra com todo o astral de Linha Azul (e eu ficando bolado com tudo/de tudo que eu não teria que fazer/se a cada metrô que eu pegasse/eu não deixasse meu rango do mês), faixa composta em 2019 que soa quase como uma ciranda e tem a energia e a inocência de uma cantiga de roda.
Com produção musical de Patricio Sid (idealizador do projeto Nômade), as 10 faixas de OPROPRIO são marcadas por um flow melódico e rimas que refletem questões ordinárias da vida com ironia e “sagacidade”, como bem dito em La Noche. Se suas influências latinas incluem nomes como Calle 13, Orishas e Don Omar, a brasilidade tem o peso de Sabotage (Yago participou da faixa Maloca É Maré com Iuri Rio Branco no álbum comemorativo Sabotage 50), Racionais, Duda Marapé (MC assassinado em 2011 e citado em Amor Incendiário, de O Inquilino), Chico Buarque, Moreira da Silva, Pedro Luís e Criolo — que já foi abordado na rua por um Yago fã e não poupa elogios ao hoje colega. Somado a todo o talento poético, o artista tem carisma, uma voz inconfundível e um jeito de cantar articuladamente despretensioso, o que confere a ele um estilo muito “próprio” (com o perdão do trocadilho) no hip-hop nacional. Yago é mago das palavras e tudo que toca vira obra-prima.
(Larissa Mendes foi desapropriada de suas palavras e playlists e só tem ouvidos para o Mago Yago)
O tempo se dissolve no ar
Átomos mágicos
de pó
de vida
O tempo só pode viver
em trânsito
através da transmissão solar
que transporta
a trajetória da existência
O tempo não é triste
nem histérico
É tranquilo
no transe histórico
dos motivos orgânicos
da razão de existir
O tempo
O tempo
O tempo
O tempo poeira
transitório
não tem trombetas agudas
Atropela em silêncio
***
Na geografia abstrata
da condição humana
imprudência maior
é não perceber
a inutilidade do medo
***
Ninguém sabe quem
inventou
a máquina que criou
Deus
No entanto percebe-se
pragmático engenho
humano
na indústria da culpa
e fabricação do pecado
Mas quem explora
o câmbio flutuante
do medo
e outros ativos baratos
dos negócios escusos
da alma
no mercado
clandestino
das mentes covardes?
***
Quando sinais são trocados
menos com menos
é demais
A ordem dos horrores
não altera o produto
A soma das mazelas
é um total sem restos
ou rasuras
***
Eduquei meus neurônios
com muita
permissividade
Fiz todas as vontades
e eles ficaram
mal acostumados
Criei meu coração
com liberdade
para sentir
o que quisesse
Aceito sereno
seus caprichos estranhos
e suas manias esquisitas
Não ensinei maldades
ao meu espírito rebelde
Acostumei meu sono
a dormir limpo
com a consciência
desarmada
Passei meus olhos
por paisagens pacíficas
e atmosferas benignas
Habituei minhas mãos
no trato sincero
do afeto dedicado
Sou normal
Diferente diverso
Único
Exclusivo
Comum
Sigo leal
os mandamentos
do instinto
as luzes da razão
os saltos de improviso
e a verdade
desconhecida
do que sou
Faço o que sinto
Mas não controlo
infortúnios
e mal entendidos
de amor
***
Histórias íntimas
têm o sagrado direito
ao segredo
Memórias secretas
retidas no peito
sangram de medo
quando não são
drenadas com jeito
***
Do sal das estrelas
e dos sonhos dos deuses felizes
fez-se o amor no espírito da vida
Do atrito do vento
passageiro do espaço
que sopra faíscas
no incêndio das águas bentas
formou-se a massa matéria
fumaça
de momentos partidos em pedaços
de tempo
Comunhão
entre sangue
e sentimento
na usina do desejo
nas formas da carne em festa
***
Bichos que voam
conhecem
todos os tipos de chuva
Não arriscam as asas
em tempestade com raio
Não voam contra o vento
em nuvem pesada
Só os pássaros da paixão
enfrentam tormentas
por amor
Ramayana Vargens é poeta, jornalista, dramaturgo, compositor e professor de Literatura. Iniciou seus escritos na adolescência e, após mais de 5 décadas, tem textos publicados em variados suportes, do impresso ao digital. Os poemas aqui selecionados integram o livro “Amor Tecido nas Nuvens” (Via Litterarum, 2023).
Gosto de Amora, publicado em 2019 pela Editora Malê, é um livro com 15 contos divididos em duas partes. Nele, Mário Medeiros nos mostra, entre outras coisas, que a verdade, a proximidade com a vida e um bom bocado de talento podem nos trazer muito mais do que uma simples leitura.
Mário, que além de escritor é doutor em sociologia pela Unicamp, parece se valer da própria vivência para produzir seus contos. Todavia, diante do que li, posso dizer que esse recurso não se aproxima da chamada autoficção – aqui considerando o conceito do Doubrovsky -, servindo apenas para dar a medida exata das suas verdades. Verdades que passam pela realidade de milhões tais como ele, sendo Medeiros um homem negro num país essencialmente, terrivelmente e estruturalmente racista.
Já pela parte gráfica, concebida pelo talentoso artista paulistano João Pinheiro que, entre outras coisas, foi ganhador de prêmios pelo seu trabalho com a Hq Carolina, uma parceria com a escritora Sirlene Barbosa, Gosto de Amora já nos mostra para que veio. E para aonde quer ir e estar.
Linguagem
Nas 146 páginas da obra nos deparamos com uma linguagem simples e direta. As histórias se baseiam na vida de pessoas que muitas vezes trafegam num mundo invisível. Num tipo de invisibilidade que extrapola o enfoque “social”, negando-os até mesmo a própria perspectiva ao contar suas histórias.
Ao entrar como homem e indivíduo nos textos, o tom supostamente confessional enriquece o trabalho. Assim, além da leitura propriamente dita (a que se prende ao estilo, a linguagem, ao ritmo e a beleza; ao texto em si), Mário nos oportuniza duas coisas: a de conhecermos e/ou confirmarmos uma realidade terrível que berra ao nosso redor, e a de podermos enxergar que, dentro de uma coletividade, existem indivíduos; cada um com sua voz e com sua, importante dizer, subjetividade.
O olhar do leitor extrapola o entendimento, ou mesmo a lembrança fundamental de que, como sociedade, estamos apressados indo para um abismo, apesar das generosas lufadas de esperança decorrentes da última eleição. Porém, essa necessária visão do todo (as pessoas no geral), deve nos comover a partir do uno (uma pessoa: uma vida e, por que não dizer, um coração).
Como exemplo, descrevo um belíssimo trecho do conto “Meias de seda se esgarçando”: “Eu escrevia, no meio da tarde, no meio da sala. Era um domingo. Ela apareceu do nada. Eu, inocentemente, perguntei se havia dormido bem, se estava se sentindo mais disposta. A tudo ela respondeu que sim. Ambos sorrimos. Sabíamos que, do contrário, iriamos nos ferir mais que há três horas, quando tentáramos, mais uma vez o amor.”
Crianças e homens
Novamente me valendo da professora Mariana (sem ela eu seria incapaz de fazer esta resenha), no livro também podemos ter a ideia de nos depararmos com contos infantis, “dentro dos moldes ocidentais”.
Em “Fábrica de balas”, por exemplo, Medeiros já nos mostra suas intenções. No conto o personagem sofre, transita em sua comunidade, encara a miséria ao redor, se relaciona com amigos e com suas próprias angústias – e devemos entender angústia como algo muito além das dores do tipo existenciais, mas que, ainda assim, são calcadas no privilégio de poucos.
O que era para ser doce, ao menos de forma sugerida da bala, vira enjoativo, numa realidade em que a fábrica produzia “balas que (o protagonista do conto, Rubi) não podia chupar, balas que não podia pagar no mercadinho de merda ali perto da favela (a não ser quando as recebia de troco, fato raro, pois sempre tinha o dinheiro contado).”
Uma fábrica “velha, feia, suja, fedida, cuja chaminé – preta, para variar – deixava sair aquele cheiro doce e enjoativo, impregnando todos os cantos, todos, todas as roupas, todos os narizes.”
O trecho abaixo deve confirmar a ideia de que Mário Medeiros não está para brincadeiras:
“Às vezes o Preto Rubi agradecia por não tomar café, porque no barraco da dona Maria Baiana, ela, a filha, o genro, o filho da filha dela, enfim, todo mundo parecia ter as tripas soltas à noite toda, fazendo tudo num barraco só. E como era o primeiro barraco ao lado do córrego que ficava perto da ponte por onde Rubi passava…bom, como era o primeiro barraco, tinha uma espécie de escadinha por onde às cinco e quarenta e cinco, pontualmente, alguém jogava o líquido feito chocolate quente no córrego. Às vezes aquilo dava nojo no Rubi Preto e ele cuspia de lado. Antes, quase vomitava. Depois de dez anos, nem isso”.
Notem no parágrafo acima: Mário trabalha de uma forma simples, como se conversasse conosco. Ideia reforçada pelo uso das reticências e da repetição proposital que se segue (“…bom, como era o primeiro barraco…”), recurso que se mostra fundamental para o bom andamento da cena.
Família
A relação com a família também é outro tema recorrente. E não poderia ser diferente. Medeiros muito nos comove com suas descrições de uma “mão preta, grande, gorda e boa” que o conduzia do portão até o “Grupo Escolar.” Ou mesmo de sua vó, conforme outro belíssimo trecho abaixo:
“Eu adorava seus cabelos brancos e bem penteados, trançados para trás. Seu cabelo branquinho e sua pele preta lisa. Sua voz arrastada e seus olhos vivazes. Vovó. Vó. Vó Paina. Vó desbocada, Vó palavrão, que me ensinou vários, cabeludos feitos suas madeixas largas. Vó Paina que, ao tombar, um dia, derrubou todos nós, deixando um vazio tão grande.”
Da relação familiar, à relação com a comunidade ao redor, Mário nos mostra que, grosso modo, a dinâmica familiar também existe na relação com o outro. Seja o amigo de infância ou mesmo com as pessoas de um bairro. Para exemplificar, sugiro a leitura do conto “Pau, panela, apito”.
A maturidade
Assim, confirmo a ideia de que Gosto de Amora é o trabalho de um escritor maduro e talentoso. Um artista que não vai permitir que lhe determinem o espaço e as escolhas individuais: ele seguirá falando sobre o que desejar, seja algo “coletivo” ou íntimo; ou as duas coisas juntas. Por escolha própria, esse mesmo autor também não deixará de se assumir como parte de um todo, no que podemos chamar e literatura negra e periférica – que conta com outros nomes, tais como Allan de Rosa, Ferrez, Nelson Maca e Fábio Mandingo, entre tantos outros e outras (os nomes citados priorizaram homens de estilos bem distintos, mas com algo em comum; ao menos na minha visão).
A viagem individual de Medeiros é grandiosa pela própria natureza. Mas abarca diversas outras vozes. E isso o torna uma grande pedida. Sem dúvida.
Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.
num dia acorda-se tarde depois de
se ter aprendido tudo com a cedura das manhãs
num outro dia acorda-se e já terá partido
o seu cão
e só muitos dias depois é que seus pés
aprenderão a se acostumar
com a ausência
de outras patinhas no caminho até o sofá
num dia acorda-se e descobre-se que
a mãe existe
e agora você finalmente tem
para onde voltar
mas o pai continua por se descobrir
quem sabe um outro dia
numa terça ou quarta-feira
de um fevereiro ou dezembro
e sabe se lá deus de que ano
num dia acorda-se e o mundo já terá engolido
a casinha azul onde mora a infância
e mesmo assim
com tantos números quanto o
calendariozinho na geladeira
é capaz de suportar
vive-se dois dias apenas
um em que as coisas todas estão
e outro
em que há muito já ficaram para trás
***
dos pequenos caprichos
esconder-me pequena
da lua cheia
descobrir a caligrafia
das vizinhas
aceitar a cartografia bagunceira
de um ipê
pequenos compromissos
com o capricho que é viver
fazer do chuveiro
cachoeira
reclamar de uma ou outra
obrigação
deixar-me aqui a ver
o tempo dos morangos
pequenos caprichos
com o compromisso que é viver
***
como iniciar uma conversa
encontre por aí uma formiga.
apenas uma é o bastante por hora.
mas lembre-se que
encontrar uma formiga não é pegar uma formiga.
encontrar uma formiga não é comprar uma formiga.
encontrar uma formiga não é tornar sua a formiga.
ou, como é ainda absurdamente muito comum,
encontrar uma formiga não é,
sob qualquer hipótese, matar uma formiga.
então pergunte à formiga o que ela faz pra se divertir.
acompanhe-a por alguns dias e quando, evidentemente,
não obtiver resposta alguma,
pergunte à pessoa mais próxima
o que as formigas fazem pra se divertir?
***
deixar que uma coisa leve a outra
queria escrever em voz alta
manifestar meu anti-manifesto
atirar-me sem artilharia
deixar ir a ideia brilhante
que nem ao menos brilha
nada que interessar possa
ao desinteressantes medos
dar aos dedos
alguma coisa nova
talvez isso,
navegar nas novidades dos dias
tentar diálogos
com os caprichos do tempo
com o diacho das folgas
com o bicho que é meu fôlego
deixar que uma coisa leve a outra
poupar-me do pouco que sei
até não sobrar soberania alguma
alugar algum lugar em que
eu possa estar livre em mim
sem fincar bandeiras
presumir que fugi
fingir que não sei do que se trata
desfazer os tratos comigo
e mesmo assim,
seguir sentindo tudo pelo caminho
e que meus caminhos se resolvam entre si
***
outro dia
passei pelo mundo e vi
Começo e Fim
com seus focinhos esfregados
um contra o outro
um carinho sutil
só
um carinho
sutil
é capaz de consertar
de coreografar
as linhas do tempo
até que deixem de ser linhas
até que se tornem
danças do tempo
caleidoscópios do tempo
crianças do tempo
pequenos brotos de cenoura do tempo
marés do tempo
acrobatas do tempo
até que deixem de ser linhas do tempo
e se tornem
acrobatas
do tempo
***
o belíssimo espetáculo inimaginável do sonho
chega ao mundo
de perto, bem de perto
lê-se apenas que
é expressamente proibido olhar
pela cortina.
então,
feito criança, espia-se
Anna Lúcia Maestri é poeta e educadora, tem 24 anos e nasceu em Santa Catarina. “Tapetes são cidades de dançar” (ed Devir Poesia e Prosa, 2024) é sua obra de estreia na poesia, que cativa novos ares através da imaginação, profundidade, bom humor e encantamento com o que há de pequeno e grande em nosso cotidiano, um olhar sensível cultivado também no trabalho com as crianças pequenas. Atualmente, mora em São Paulo e divulga seus ofícios através das redes sociais.
Anora foi o filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2024 e vencedor do Oscar 2025 nas categorias de filme, diretor e atriz principal. É o oitavo longa do diretor americano Sean Baker. Estes prêmios foram a consagração de um diretor considerado independente e autoral. Suas obras têm roteiros originais escritos pelo próprio diretor. Também a produção de seus filmes fica em família, realizada por Samantha Quan, sua esposa.
Desde Tangerine (2015), pelo menos, Baker tem recebido atenção frequente pelo seu caráter inovador e experimental de construção. Este filme, por exemplo, foi inteiramente filmado em câmera de celular. Seu estilo frequente é o docudrama, mistura de documentário e ficção, com câmera na mão, locações reais e luz natural, baixo orçamento e uso de não atores, o que confere um grau elevado de realismo às suas obras, ou mesmo de hiperrealismo, se podemos dizer.
Mas é sobretudo o conteúdo dos filmes, roteirizados pelo próprio diretor, que realmente dá uma marca autoral à sua obra. Baker enfoca os marginalizados da sociedade norte-americana, ou ao menos de suas promessas de felicidade pelo consumo. Neste caso, seus protagonistas pertencem a um subproletariado, ou a um precariado de jovens trabalhadores em atividades que estão nas margens entre o lícito e o ilícito, alvos vulneráveis do apelo (ou pressão) por consumir.
Nesse aspecto, o sensacional The Florida Project (2017) é um filme exemplar da pesquisa cinematográfica de Sean Baker. O filme retrata os moradores de um condomínio vizinho à Disneyworld, em Orlando, sugestivamente chamado de “The Magic Castle”. O condomínio é um motel barato onde Halley, mãe solteira e desempregada, ex-stripper, vive com sua filha Moonee, de seis anos. Halley vive das refeições que sua vizinha Ashley obtém de seu trabalho de garçonete. Ela tenta obter uma ajuda temporária para famílias em situação de vulnerabilidade social, porém o passado de stripper e drogadição dificultam a Halley o acesso ao benefício. Enquanto isso, o foco do filme vai para Moonee e seus amiguinhos do condomínio que se divertem em brincadeiras, algumas das quais pouco inocentes pois envolvem pequenos furtos em lojas das redondezas. As brincadeiras e atividades desse grupo de crianças preenchem de vida e sentido lúdico o ambiente inóspito e vazio do condomínio. O Projeto Flórida se refere a um projeto urbanístico de condomínios no entorno da Disneyworld, mas que carece de toda forma de beleza arquitetônica, contrastando com o sonho encantado vendido pelo parque de diversões vizinho que atrai turistas do mundo inteiro, e que é, no fim, o sonho de consumo das crianças do próprio condomínio.
No último filme de Baker, Anora (Mikey Madison) é stripper e trabalhadora sexual da comunidade de Brighton Beach no Brooklyn. Por sua ascendência russa, Anora é designada pelo gerente do clube para atender Ivan “Vanya” (Mark Eydelshteyn), um jovem de 21 anos. Vanya se revela como filho de um magnata oligarca russo e mora sozinho numa mansão dos pais nos EUA. O jovem russo é um perfeito “nepobaby”, ou jovem da geração nem-nem que, longe dos pais, se diverte às custas da fortuna da família. Ele pede que Anora seja sua acompanhante de luxo, simulando sua namorada durante uma semana, quando vão para Las Vegas com amigos, e por lá acabam, num rompante romântico, por se casar oficialmente, à revelia dos pais de Vanya. Anora começa então como uma releitura do mito de Cinderela, da moça pobre que encontra seu príncipe encantado, para finalmente se desconstruir numa desastrosa confusão narrativa, porém em tom de comédia dramática na qual os desastres são observados com olhar cômico e afetuoso para os personagens, inclusive os supostos vilões.
Mark Eydelshteyn e Mikey Madison (centro) / Foto: divulgação
Anora partilha com o filme anterior de Sean Baker, Red Rocket (2021), muitos elementos comuns. Neste último filme, o protagonista, que se chama Mikey (curiosamente o mesmo nome da atriz de Anora) e é um ex-ator de sucesso da indústria de vídeos pornográficos, retorna falido e no ostracismo à sua cidade natal no Texas e procura recomeçar a vida junto à sua ex-mulher, também ex-atriz pornô, numa profissão ordinária. Porém, não conseguindo encontrar emprego, acaba se valendo da venda de maconha na cidade. Mikey se apaixona por uma ninfeta de 17 anos, atendente de uma loja de donuts, e procura convencê-la a se tornar uma atriz em Los Angeles, oferecendo-se para empresariá-la na indústria de vídeos sexuais.
Tanto Anora como Mikey, ou a transgênero Sin-Dee Rella, paronomásia de Cinderela, do filme Tangerine, ou ainda Halley de Project Florida, são ou foram trabalhadores sexuais que caminham às margens do sistema americano e sobretudo de suas fantasias. Sean Baker procura nesses filmes um olhar cúmplice para esses personagens marginais, sem julgamentos morais. Embora todos estejam envolvidos em decepções, desilusões ou mesmo violência, Baker evita o tom dramático, reforçando o lado cômico, mesmo quando amargo. Como pertencentes ao subproletariado da nação mais rica do planeta, eles desfrutam do consumo fútil de fast-food, donuts, e outros produtos junkies vendidos nas lojas de conveniência à beira de estradas.
Em Anora, no entanto, elementos distintos se inserem, pois há uma tensão étnica e classista na relação entre os pais russos de Vanya, bilionários, e seus seguranças armênios, especialmente Toros (Karren Karagulian) que os dirige. Os armênios são responsáveis por “supervisionar” em Nova Iorque a vida do filho Vanya, que a todo momento se mete em confusões. Entre os seguranças está o recém-chegado Igor (Yura Borisov), que é russo como os patrões, mas que ocupa o grau social mais baixo entre os “gangsters”, supostamente tendo que realizar o trabalho mais “sujo”. Há uma mudança de ritmo no filme quando Toros e os seguranças entram em cena. Uma longa e violenta passagem de quase 20 minutos de briga na mansão de Vanya marca essa virada de ritmo. O filme então, nas palavras de seu diretor, se torna uma “montanha-russa” de situações e emoções. Aliás, “montanha-russa” é um símbolo metafórico frequente nos filmes de Sean Baker, aparecendo num momento crucial também em Red Rocket. Esta mudança de ritmo é habilmente explorada pelo diretor, pois também representa uma mudança de foco, na qual a protagonista Anora passa a dividir as cenas com o segurança Igor. A partir de então, pelo restante do filme, eles aparecem sempre juntos nos enquadramentos da câmera.
Mikey Madison como Anora / Foto: divulgação
Uma sutil conexão de afetos se estabelece entre a protagonista e o segurança russo pobre e bruto, que é o único que a entende. Neste aspecto, este último filme difere dos demais, pois os anteriores enfocam o subproletariado por dentro, enquanto Anora apresenta uma oposição entre sua classe e a dos ricos, neste caso, de magnatas russos, e também entre russos e armênios. O que era um conluio entre a jovem e seu namorado milionário e inconsequente, logo se revela com as cores da luta de classes. O sonho de Cinderela da jovem stripper esbarra em fronteiras de classe inexpugnáveis.
O final emocionante não resolve, mas antes ilumina as contradições e as vias secretas e entrevistas para ultrapassá-las. Ao mostrar suas margens, a câmera de Sean Baker mostra por onde a sociedade imperialista do consumo deixa esvair seus sonhos. Seu cinema afronta o “realismo capitalista” (Mark Fisher), que é a estética de uma sociedade que não tem mais futuro a apresentar. O espírito da esperança, no entanto, mantém-se vivo, mas escondido, latente, guardado nas formas de vida periféricas, desejosas por sua própria natureza.
Guilherme Preger é carioca, engenheiro e escritor. Doutor em Teoria da Literatura pela UERJ. Autor de Fábulas da Ciência (ed. Gramma, 2021) e Teoria Geral dos Aparelhos (Caravana, 2024). Mantém o blog Resenha Cibernéticae faz curadoria do cotidiano diária no Mastodon no endereço @gfpreger@piupiupiu.com.br. Escreve sobre cinema na Diversos Afins desde 2015.
A jovem analisou, com cuidado, cada item que precisava levar antes de sair de casa. Dobrou com precisão uma calça impermeável, duas camisas de cores neutras, três pares de meias; depois, escova e pasta de dentes, shampoo em um frasco de 100 ml, três pares de roupa íntima, o carregador do celular, dinheiro em espécie, remédios essenciais, uma capa de chuva dobrável, chinelos. Tudo foi organizado na mochila com paciência. Satisfeita com a ordem meticulosa, respirou fundo: agora, sim, estava preparada para a viagem.
O caminho à sua frente desenrolava-se vasto e imprevisível. Cada passo a conduzia para mais longe de casa, onde histórias a aguardavam. Encontrou pessoas de olhares profundos, cujas vidas entrelaçadas com a terra lhe contavam segredos guardados no tempo. As paisagens que surgiam pareciam sussurrar memórias de eras passadas. Rios de correntezas indomáveis mudavam seus cursos sem aviso, como se seguissem razões que só eles conheciam. Cada murmúrio do vento carregava um silêncio acolhedor, um tipo de conversa que não pedia resposta, mas merecia ser ouvida. Ela seguia com os olhos abertos e o coração atento, captando as sutilezas ao seu redor.
Na primeira parada, sentiu algo diferente. A mochila parecia estranhamente mais pesada, como se, a cada passo, acumulasse algo invisível e, ainda assim, palpável. Curiosa, decidiu pesá-la. E não é que estava mesmo mais cheia? Decidiu aliviar o peso: deixou para trás uma das camisas, um par de meias e parte do dinheiro, como se pudesse liberar um pouco do que a mochila havia absorvido. Com a carga aliviada, seguiu em frente, sentindo-se mais leve.
Uma tarde tempestuosa a surpreendeu pelo caminho, mas em vez de buscar abrigo, foi tomada por um impulso infantil e, entre gotas e poças, deixou-se dançar com a chuva. A sensação de liberdade a lavou de dentro para fora. Os transeuntes olhavam com curiosidade, alguns riam, outros meneavam a cabeça, mas ela apenas lhes retribuía o sorriso, grata pela troca silenciosa de um momento compartilhado. Ao fim do dia, no entanto, percebeu que a mochila parecia novamente mais pesada. Desta vez, deixou para trás a capa de chuva e o carregador de celular. Pensou que, se precisasse, pediria ajuda adiante; afinal, já estava aprendendo que, muitas vezes, bastava apenas confiar.
O amanhecer trouxe novos encantos. Os primeiros raios de sol filtravam-se pela névoa e beijavam a grama molhada, criando um cenário suave e etéreo. Ela decidiu tirar os sapatos e sentiu a textura úmida e macia da terra sob seus pés, como se a própria natureza quisesse sustentá-la. Ao lado de um rebanho de ovelhas, sentou-se e conversou longamente com o pastor, um homem de palavras simples e olhos serenos. Depois, numa pequena vila, jogou uma descontraída partida de sinuca com os moradores e brindou à vida, como se os recém-feitos amigos fossem velhos conhecidos. Quando a noite caiu, sabia que a mochila pesava mais uma vez, mas já havia aprendido a solução: deixou-a ali mesmo, ao lado da estrada, esvaziando-se de objetos para se preencher de memórias e encontros.
Finalmente, ao chegar ao destino, sentiu-se plena de um jeito novo, mais completa do que jamais imaginara possível. E, movida por uma curiosidade repentina, decidiu se pesar. A balança, no entanto, pareceu vacilar, quase incapaz de pesar a imensidão que ela trazia dentro de si. Foi então que compreendeu a lição do caminho. Assim como o coração bombeia o sangue, renovando-o a cada batida, as pessoas verdadeiramente felizes também se esvaziam e se enchem continuamente, num ciclo constante de dar e receber.
Não é o peso das coisas que carregamos, mas o espaço que deixamos livre para o amor e para as experiências que nos fazem plenos.
Ailton Lima, de 32 anos, nasceu em Caruaru, Pernambuco, e desde cedo trilha múltiplos caminhos como escritor de contos e thrillers, compositor e publicitário. Jovem, mudou-se para Barcelona, cidade que despertou sua imaginação e lhe abriu as portas para o universo literário, inspirando histórias intensas e personagens complexos. Uma batalha contra o câncer, que superou ainda na juventude, transformou profundamente sua visão de vida e o impulsionou a dar voz às narrativas que habitavam dentro de si. Hoje, suas obras refletem essa trajetória de superação e o desejo de explorar o desconhecido, criando personagens inesquecíveis e histórias que tocam fundo na mente humana.
Estas linhas tratarão sobre Quem falou?, de 2023, lançado pela Editora Penalux, romance de André Cunha, experiente romancista, novelista e cronista brasiliense, indicado por esta obra como semifinalista da modalidade romance literário do Prêmio Jabuti de 2024. Quem falou? é descrita pelo autor como uma “comédia romântica inteligente”, o que nos parece fazer jus a uma parcela de filmes do gênero. De fato, sua história se revela uma narrativa despretensiosa, mas competente na pesquisa que se vê por trás do mudo apresentado, sejam as locações e vernáculo catarinenses ou o mundo de negócios na área sanitária.
O romance é escrito em primeira pessoa, uma história com “altas doses de cinismo e uma franqueza brutal”, como bem define Francyne França, na orelha da primeira capa. O enredo é ambientado em Santa Catarina, alternando os cenários entre Jurerê Internacional, Balneário Camboriú e a periferia de Florianópolis. Nele acompanhamos Rebeca Witzack, que está mais para uma anti-heroína do que para simples mocinha caracterizada pela ênfase em virtudes. A protagonista é levemente detestável e, na medida em que é apresentada, vai nos cativando com sua humanidade. De personalidade inconstante ao longo do romance, passa por uma montanha-russa de acontecimentos, flutuações de humor e vício em ansiolíticos.
A maré dos acontecimentos e veredas abertas pelas escolhas da protagonista nos conduzem a uma busca por autoconhecimento, algo que ela não faz conscientemente, já que na maior parte da trama apenas se satisfaz com sua beleza padrão e com relações nos círculos de elite e da fama. A heroína assim é humanizada por sua personalidade ambígua e saúde mental volátil em tempos de adoecimento coletivo – sim, a história se passa em meio à pandemia de Covid-19 –, além de uma severa endometriose.
Rebeca inicia sua jornada “comprometida com um e grávida de outro”. Depois de ser exposta em um vídeo erótico vazado na rede, transforma esse revés em oportunidade, aproveitando a fama para se tornar colunista de um portal de notícias. Mergulha então numa vida de futilidades como seu El Dorado existencial, negligenciando camadas mais profundas de si mesma. A protagonista usa de expedientes escusos para colher vingança, projetando uma imagem de mulher empoderada. Contudo, acaba por não cuidar das feridas que o episódio da exposição lhe causou.
Justamente no período pandêmico, durante o qual fica encastelada numa cobertura em um dos cenários mais paradisíacos e elitistas do país, usufruindo da la dolce vita, mais ela se afasta do autoconhecimento e autocuidado, apesar do suporte financeiro, da segurança privada e dos testes rápidos de Covid à disposição. O leitor e leitora são convidados a acompanhá-la em tudo, a observar os atos mais inconfessáveis que a protagonista leva a cabo, mas a esta parece sempre faltar o olhar sobre o que realmente está se processando dentro de si. Para reforçar essa autoalienação, recorre à medicação controlada, como se a bioquímica dos fármacos pudesse preencher os vazios existenciais.
A protagonista vive desventuras em busca das aparências, do conforto, do luxo, circulando entre figuras proeminentes do mundo empresarial, musical e desportivo. Nesses momentos, o livro nos brinda com referências a celebridades nacionais para, ao final, abraçar outra perspectiva de vida.
A narrativa sobrepõe acontecimentos dos mundos externo e interno da protagonista, com direito a comentários de crítica musical sobre um dos maiores ícones da música brasileira, Chico Buarque. Também é utilizado o recurso de notas de rodapé que devem ser lidas concomitantemente e enriquecem a narrativa. A questão da saúde mental se mostra fio condutor subterrâneo que só encontra sua resolução dramática ao fim dessa leve, mas nada rasa aventura.
As notas de rodapé podem parecer enfadonhas, mas cumprem seu papel e trazem revelações sobre a personagem. Além disso, a parte de jargão técnico sobre a tecnologia de testes de Covid pode desagradar algum leitor pelo espaço que ocupa no texto, mas acreditamos que é necessária para dar maior verossimilhança. Traz informação e há leitores que certamente apreciarão o carinho dado a essa parte de pesquisa.
Ao início da obra, a protagonista afirma que só queria amar e ser amada e, na procura desse objetivo único, chegou a vender a própria alma e trilhar caminhos tortuosos em busca de um lugar bonito na fotografia, esquecendo de cultivar o amor por si mesma. Mas, como heroína de comédia romântica, após toda uma rocambolesca trama de autossuperação, encontrou o que verdadeiramente precisava no príncipe encantado do amor próprio e no afeto verdadeiro pelas coisas simples, depois de muito ter sido beijada pela lona até despertar do sono enfetichado em que caíra.
Roberto dos Santos é professor do Instituto Federal de Brasília e escritor. Publicou o livro de poemas Nomear é Preencher o Vazio (Editora Trevo), além de prefácios e participou de coletâneas. Foi finalista na categoria crônica do Prêmio Off Flip 2023 e nas categorias conto e poema no Prêmio Off Flip 2024.
Lave as mãos
se despeça do corpo
não se esqueça das extremidades
o cheiro da vida é voraz
inebria as narinas
tornando difícil sentir outro odor
gosto azedo queima a língua
talvez a vida venha para arder
impregnar nos sentidos
grudando na pele
mesmo que a esfregue na repulsa de tirá-la
não desgruda,
agarrou-se com medo que fugisse
fugir é perder
o ganho de todo entardecer
amanhã o recomeço
lave as mãos,
de novo.
***
A nascente se fez
crescente e derradeira
abriu espaço nas fendas
construiu caminhos
e destruiu meus ninhos
cuidei para que permanecessem
elas eram o começo
da vida em desalinho.
***
Morar em momentos
os segurar com força de vida
para condensá-los
Abraçar o instante perspicaz
nele se perde os passos, o abraço, a batida
Ruídos estalares despertam
o canto do tempo é esse
reverberando sua partida
Se agarrar a coisa qualquer
para quem sabe assim não se perder daqui.
***
Faz um tempo que não exponho
não escrevo
nem transbordo
é que me falta vírgula
muito ponto-
poucas reticências.
***
O sentimento é turvo
lança voo
ao pé do ouvido
Estremece o corpo
entorpece a mente
tomando conta
Só se faz sentir
quando caleja
vira semente
Tão temente
que esqueceu novamente
do presente.
***
No tic tac dos ponteiros
vejo todos passando
estão aqui e posso sentir
me avisando ao amanhecer
ainda há o que viver
a vagarosidade se perdeu no olhar
sempre atento ao que não é existente
como seria se não tentássemos espiar
a página do amanhã.
Lisandra Izabel Crespi, 25 anos, residente de Florianópolis-SC, é psicóloga clínica e dirigente de grupos de arteterapia. Escreve há 10 anos, no princípio seus poemas não passavam de brincadeira inocente, mas no decorrer dos anos a escrita se tornou uma forma de encontro com quem é e caminho para conexão com o mundo.
Com quantas credenciais se faz um escritor? De pronto, a resposta pode apresentar perspectivas das mais variadas e, sem dúvida alguma, o caráter pessoal que cada criador carrega em si é quem dá a melhor tônica. A singularidade das experiências individuais parece mesmo apontar arejadas direções e, por assim dizer, configurar estratégias que derivam dos universos essencialmente particulares. Eis então o ponto de grande relevância: saber que um autor reproduz em sua obra toda a sorte de imagens e sensações que o atravessam de forma pungente.
Apartados das viciosas comparações, seguiremos pensando que aquele que escreve constrói rotas e saídas fundamentais para que seus textos digam respeito a uma espécie de traçado próprio da imaginação. Ainda que sejamos tentados a considerar que não existe nada de novo sob o sol, a matéria criativa sofre um fluxo de transformação capaz de conferir outras possibilidades de se contar a história do mundo. Daí que escrever é cruzar um deserto através do qual muitas imagens se turvam dada a imensa quantidade de referências em que mergulhamos nas nossas fugidias trajetórias de vida. E qual a solução mais adequada para não se perder em meio a esse turbilhão de informações e signos múltiplos?
Suspeito que um autor como Paulo Bono nos dê indicativos consistentes de que é possível erguer pontes e outras dimensões quando o tema é fazer das palavras aliadas de uma obra literária. Ao dizer isso, refiro-me ao fato de que ele encara seu engenho criativo como alguém que se lança para a literatura com o desejo genuíno de não se aprisionar aos ruídos impostos por certas limitações. Pelo contrário, Bono tem sido capaz de desacomodar pudores ao nos mostrar suas investidas literárias repletas de vida. E falar disso é reconhecer que o trunfo aqui está em desencavar e fazer desfilar ante nossos olhos de leitores toda uma sorte de cenários e personagens que encontram correspondência com aquilo que somos.
É esse Paulo Bono que agora entrevisto noutro momento de sua carreira, tempo que remonta aos efeitos do seu mais recente livro, Pepperoni (contos), lançado pela P55 Edição em 2024. Nunca é demais lembrar que a qualidade literária dele já vinha se delineando com os contos de Espalitando (Ed. Cousa, 2023) e o romance Sexy Ugly (Ed. Mondrongo, 2019). De posse de seu novo livro, Bono reafirma o compromisso de fazer de seu ofício de escritor uma representação coerente da vida que já mais podemos esconder, pois é ela que inalienavelmente nos constitui, seja lá quem formos. As provocações estão aqui postas nesta breve conversa, e delas ele não foge.
Paulo Bono / Foto: Vinicius Xavier
DA – Depois de Espalitando e Sexy Ugly, dois livros que são de fundamental importância para termos em conta as suas credenciais de autor, você agora nos oferta Pepperoni. No mais novo rebento, sua escrita está cada vez mais apurada e certeira, cujas narrativas revelam fragmentos instigantes de mundo, o mesmo mundo que às vezes tenta nos impor limites e pudores. Como foi estar nesse lugar de ver um outro livro surgir?
PAULO BONO – Costumo dizer que Espalitando foi um livro de blogueiro. A maioria dos textos já estavam prontos. E Sexy Ugly era uma história antiga que eu já tinha na cabeça. Pepperoni foi diferente. Só havia mato. Me senti um pedreiro a levantar uma obra. Acordava cedo pra trabalhar nas histórias, nem que fosse uma página ou um parágrafo ou uma linha. Digo, antes da labuta que paga as contas, eu tinha esse cartão pra bater. E como hoje leio um pouco mais, acho que eu era um pedreiro com mais ferramentas. Temas, personagens, diálogos, palavras proibidas. Levantei cada parede do jeito que eu queria (ou tentei), mesmo que ninguém quisesse entrar nessa casa. Me diverti escrevendo, mas também suei bastante. Então o bacana é que eu não vi o Pepperoni surgir. Sinto que trabalhei pra isso.
DA – Esse seu processo com o livro novo remete também àquela ideia de que a criação literária é algo que envolve certa labuta e constância, inclusive para além da tão batida inspiração. Escrever, para você, sugere algum tipo de embate consigo mesmo até que as coisas aconteçam de fato?
PAULO BONO – Altos embates. É antes de sentar a bunda pra escrever que a peleja acontece. Quando passo dia e noite pensando pra onde vai a história, o que quero dizer, como dizer e se vale a pena escrever. Será que tenho apenas uma ideia estúpida? Será que sou incapaz de escrever algo que preste? Pra que diabo nasci? Isso pode levar um dia, meses ou anos. A história pode até morrer pelo caminho. Já sofri mais com isso. Hoje, até porque não tenho pressa de publicar, vejo esses embates como parte da maturação da ideia. Numa dessas, levou uns quatro anos pro Pepperoni sair do forno.
DA – Nesse tempo que o livro levou para ficar pronto, como se deu a construção dele em termos de estrutura e escolha das narrativas e suas temáticas?
PAULO BONO – Depois do Sexy Ugly, eu só queria voltar aos contos, às possibilidades das histórias curtas. Não tinha em mente um livro, muito menos um tema que amarrasse tudo. Era só meu bloquinho de notas no celular com rabiscos e ideias de motes e personagens. Aí é interessante que o primeiro conto do livro foi exatamente o primeiro que escrevi – “Dr. Gori, o criador de monstros”. A coisa do garoto não ser o herói que desejava. Achei que a última frase dava pano pra manga. A partir dali, garimpei histórias de personagens que lutavam para ser alguma coisa. Surgiram ideias como o jovem que queria ser escritor, a mulher que não queria ser amada, o olheiro que queria voltar a ser bom, o cara que queria voltar a ser criança, o assassino que queria se sentir pleno e por aí vai. Cada conto com seu desafio de encontrar o próprio norte. Acontece que depois do livro finalizado, das releituras e tempo de maturação, achei que o que saltava daquelas páginas eram as falhas dos personagens. Como se o livrofosse uma timeline de traumas, medos, defeitos, egoísmo, machismo, estupidez, inveja, preconceitos, pecados, inabilidades, fragilidades diante do mundo e falta de sorte. Só que não como uma crítica ou num tom acusatório. Mas como um espelho de quem somos e a turma por aí tenta negar ou proibir de falar. Lembra do garoto que não conseguiu ser herói? Pepperoni é uma homenagem às nossas kriptonitas.
DA – Um dos pontos de relevância de Pepperoni é justamente esse elenco de personagens que de fato compõem nosso tempo. E você não se furta a colocar ali as mazelas derivadas dos comportamentos que atravessam essa gente, mesmo que expor tais feridas seja algo ruidoso nos dias atuais. Como é que se equaciona tudo isso em favor da literatura?
PAULO BONO – O ponto é perceber que essa gente sou eu, você, a vizinha, seu dentista, o padeiro, o presidente, sua cantora favorita ou o peixeiro da esquina. Quem vomita tais mazelas somos nós. Alguns apenas disfarçam mais, nem que seja apontando pro focinho do outro. É muito louco não poder falar sobre quem somos. Chega a ser uma ingenuidade suspeita achar que suprimir palavras e polir personagens vai curar as feridas do mundo. Há uma gincana de virtudes por aí que serve apenas pra ganhar likes e novos contratos. Esquecem que nossa riqueza é feita de luz e sombra. Esquecem que o que torna o super-homem mais próximo do ser humano é a kriptonita. É aí que rola um ponto a favor da literatura. Se o Instagram não faz o serviço sujo, abre-se essa lacuna. A literatura, como outro tipo de arte, está aí pra botar o dedo na ferida e mostrar como somos completos humanos.
DA – É interessante perceber que a figura de Deco Ramone, personagem que também está presente em Sexy Ugly, reaparece agora num dos contos de Pepperoni. Diria que essa escolha envolve a ideia de que sua obra está aberta a uma dinâmica que não se prende ao espaço e ao tempo?
PAULO BONO – O bacana é que o retorno de Deco Ramone era um pedido dos leitores do Sexy Ugly. A turma vinha com a ideia do personagem ser o meu Mandrake, o meu Bandini. Eu achava interessante. E um prequel que mostrasse Ramone no seu auge encarando figuras escrotas e dilemas morais caía como uma luva em Pepperoni. Trazer Ramone de volta é como revisitar a Lapinha ou Feira de Santana nas histórias. Como Gabo e Ubaldo tanto faziam com Macondo e Itaparica. Vai além de uma repetição temática. Ninguém é o mesmo ao longo do tempo. Nem as pessoas nem os lugares. Então abre-se mais uma oportunidade pra literatura. Reencontrar personagens e cenários, enxergar histórias por ângulos diferentes e por aí vai. É uma dinâmica divertida.
DA – Por falar em leitores, o quanto a recepção de sua literatura influencia nos seus processos de escrita?
PAULO BONO – É bacana quando alguém chega e diz que um conto fez rir ou chorar. Funciona como um empurrão pra gente seguir escrevendo. É o tipo de influência que dá um gás. Mas, durante o processo de escrita, tento não me preocupar com a receptividade. Tem uma turma que espera que eu escreva sempre a mesma coisa e outra que jamais lerá minhas histórias. Se eu pensar em qualquer uma delas, não saio do lugar.
Foto: Vinicius Xavier
DA – Há quem lhe considere como sendo uma espécie de imitador de Bukowski. O que acha disso?
PAULO BONO – É uma impressão acertada. Tem até um conto em Pepperoni que canta essa pedra. O que lamento é a razão de afirmarem isso. A impressão que dá é que pinçam alguns sinais na superfície e pronto. Qualquer texto que tenha pau, xota e bebida recebe o diagnóstico automático de imitação de Bukowski. Uma visão reducionista sobre um autor gigante que escrevia com humor e ternura histórias cheias de humanidade. Quero dizer, eu apenas tento imitá-lo, mas não sou feliz na missão. Porém, conheço escritores de mão cheia que têm Buk como patrono — ou se preferir — imitadores de Bukowski. Imitação pode ser um ponto de partida natural. A gente tem por aí tantos imitadores de Machado, Clarice, Roth, Kerouac e Veríssimo. Imagine quantos Itamares Vieiras pipocaram como gremlins nos últimos anos. Já no meu bolso, vai a carteirinha do clube dos imitadores do Velho. Mas devo dizer que minha pseudo-imitação é promíscua e ordinária. Quando não tem paus e xotas, talvez seja difícil perceber. Mas em Pepperoni, tentei imitar também Vonnegut, Bradbury, Salinger e Rubão. Como obviamente não consegui, o resultado é Paulo Bono.
DA – A Literatura pode realmente tudo, inclusive não se deixar afetar por tentativas de controle ideológico ou toda sorte de censuras?
PAULO BONO – Não acho que ela esteja acima do bem e do mal. Mas, assim como qualquer tipo de arte, a literatura está aí pra controverter o que é o mal e o bem, subverter a ordem das coisas e chutar as fuças de qualquer tipo de controle ou censura.
DA – Nossa contemporaneidade tem mostrado uma atenção maior a temas que antes normalizavam desrespeitos e invisibilidades, sobretudo com relação a minorias. E isso parece ter ecoado também de forma significativa no terreno literário. Acredita que estamos um pouco melhores?
PAULO BONO – Estou com Chico Science. “Um passo à frente e não estamos mais no mesmo lugar”. O aumento da representatividade nas artes, mesmo quando a fórceps, ajuda bastante. Uma turma que estava fora do jogo ganhando a vez, ganhando voz, ganhando as páginas. Não sei, talvez o passo seguinte seja vencer as mesas nichadas. Que tenhamos essas minorias escrevendo mais humor, noir, romance, terror, ficção científica, imitando Bukowski ou quem quiser. É bom pra todo mundo e a literatura agradece.
DA – Trazer Pepperoni ao mundo simboliza qual momento de sua jornada como escritor?
PAULO BONO – Primeiro, acho que simboliza um amadurecimento como leitor. Li bastante durante a escrita. Não foi um lance de quantidade, mas de constância, releituras e descobertas de autores. Pepperoni é consequência dessa ingestão de nutrientes, de um tesão pelas possibilidades literárias. É também um livro que configura um senso de liberdade como autor. Não tenho rabo preso com temas nem curtidas. Não tenho uma caralhada de seguidores, nem quero ter. Não corro atrás de prêmios nem convites. Não vivo disso e nem vou ganhar dinheiro com isso. Só sobra a vontade de escrever. Escrever o que eu quiser. E isso é uma puta sensação de liberdade.
DA – Já lhe ocorreu a ideia do que de fato buscamos com a Literatura, sejamos leitores ou vestindo a pele de escritores?
PAULO BONO – Acho que é muito pessoal. Alguns buscam na literatura o que outros encontram na música, no surf, no bar, numa mesa de pôquer ou num pagode todo fim de semana. Uma espécie de preenchimento, alívio, sei lá. Aquela coisa de não viver sem isso. E talvez mais foda do que o que a gente busca é o que a literatura entrega. De repente, você abre um livro pra se divertir e leva um soco na cara. Você busca mistério e ele diz o que o jornal vai falar mais tarde ou por que toda reunião de condomínio é um inferno ou joga na cara que o problema é você. Nunca se sabe. Acho que a tal busca também varia na pele do escritor. Tem gente que escreve pra ganhar dinheiro, outros pra botar pra fora, outros pra matar o tempo e outros pra não enlouquecer. E estão todos certos.
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.