Da empatia ao conto – uma leitura de três grandes obras
Por Anderson Fonseca
Foto: Ana Pérola
Existem escritores que são mais do que essenciais na construção do intelecto e da sensibilidade, são artistas plenos em sua vocação, cientes de sua natureza bizarra – inapropriada para o meio em que nasceram. Acidentes da natureza; o mais belo milagre. É preciso uma visão além da realidade, ser dominado por uma ótica que desvenda a verdade oculta sob o véu da aparência. Raros são os escritores que nos despertam este olhar, por isso são essenciais numa leitura. Logo após tê-los lido, nos vemos a nós mesmos diferentes e tudo o que nos cerca. Alguns nomes fazem parte do rol dos grandes contadores de histórias, os quais com sua incrível imaginação moldaram o imaginário de milhares espalhados pelo mundo. Entre tantos nomes, escolhi três, cujas obras impactam quem as lê. Livros divertidos, inteligentes, bem construídos e singulares na sua produção, pois refletem a alma de quem os criou. É claro que, para sentir como também entender a ideia que cerceia uma obra, é necessário estar dotado de uma natureza empática capaz de compreender com aproximação sutil o espírito do outro. É um ato de amor a leitura e exige renúncia.
Desses três escritores que nos ensinam a arte de contar histórias, um deles é o autor tcheco Franz Kafka. No tomo Parábolas e Fragmentos, Kafka reescreve parábolas judaico-cristãs e elabora contos que não chegam a serem concluídos, mas nem por isso, percebe-se na fragmentação da narrativa uma incompletude, ao contrário, o fragmento torna-se uma nova narrativa, cujo significado é aberto e circular, isto é, há uma infinidade de leituras e desleituras da mesma estória. Nesta pequena obra encontramos clássicos da literatura kafkiana como O silêncio das sereias e Diante da Lei, assim como Poseidon e Da Justiça, etc. São pedaços de textos, todavia, não transparecem essa fragmentação. O que se nota é o trabalho de construção narrativa de Franz Kafka, uma linguagem bem trabalhada, ocultando em cada elemento articulatório um novo significado a ser descoberto.
Franz Kafka / Foto : Reprodução
Outro autor que vale a leitura é o escritor francês Pascal Bruckner e seu livro Bichos-Papões Anônimos. O livro é uma reunião de duas fábulas sobre a natureza das emoções humanas. O primeiro conto Bichões-Papões Anônimos narra a história do bicho-papão Balthus Zaminski que após 25 anos de atividades em comer criancinhas, promete a seu criado Carciofi “que nunca mais comeria crianças”. Apesar de resistir, seu instinto lhe fala mais alto. Ele que vem de uma família de bichos-papões, é tratado, após a morte de seu pai, pelo criado como um viciado, um doente, que precisa de tratamento clínico para abandonar o vício natural de comer crianças. Com muita insistência e esforço de Carciofi, Balthus abandona sua condição, não antes sem sacrificar-se em nome daquelas criaturas pelas quais, desde jovem, tinha uma nobre feição. O ato é cometido como um grande espetáculo no circo. Balthus morre lançando-se num grande caldeirão e seu corpo é devorado depois pelas crianças que assistiram ao espetáculo e que desconheciam o círculo natural da vida, aquele que come um bicho-papão torna-se também um. O segundo conto, O apagador, narra a história de Falcone, um velho triste e ranzinza, que cria uma fórmula química capaz de apagar os seres e os objetos. Mas sua intenção é apagar o rosto das crianças felizes que ele diariamente avistava. Falcone consegue afastar de si aquela felicidade, mas não completamente, havia uma criança cujo sorriso o afetava profundamente e por mais que lutasse a imagem de seu sorriso persistia em sua memória. São dois contos belíssimos, escritos com mestria, possuídos de uma ironia refinada, um humor suave e uma linguagem simples que se aproxima da ingenuidade ou naturalidade de narrar. Você lê as histórias e se envolve tanto com elas que esquece tratar-se de uma narrativa escrita; a sensação é de estar ouvindo-as.
Pascal Bruckner / Foto: Simon Tanner
O terceiro autor é Augusto Monterroso e seu pequeno livro de contos O eclipse. Monterroso, dono de uma linguagem que reproduz a narrativa oral com enredos fabulosos, o escritor gualtemalteco nos oferece três histórias exemplares de sua mestria na arte da narração. A primeira é o conto-título da obra. Em O Eclipse lemos a história de frei Bartolomeu Arrazola, que após ser capturado por indígenas na selva da Guatemala, planeja surpreendê-los com seu conhecimento científico e relata para os índios que sua morte provocaria um eclipse solar. No entanto, quem é surpreendido é o próprio frei, pois os indígenas maias já tinham conhecimento do eclipse. Assim, o frei que acreditava sair vivo da situação, é sacrificado para agradar ao deus sol. Outra história é o microconto Dinossauro, cuja narrativa, embora breve, nos proporciona inúmeras interpretações do evento. O conto Um de cada três é sobre um homem que recebe uma carta com a proposta de confidenciar seus prazeres e dores à milhares de ouvintes através de uma rádio. Ao ler a carta pensamos conosco quantos gostariam que apenas um dentre muitos ouvisse sua história, vida, sentimentos e recebesse de seu ouvinte a compaixão.
Augusto Monterroso/ Foto: reprodução
Três autores que juntos formam o pensamento de um contista. A leitura de cada construção narrativa acaba criando um modelo ideal para a elaboração de outros contos. Por isso, vale a leitura. Mas de nada adiantará a leitura destas obras se não se permitir um sentimento empático pelo conto e seus personagens. Isso é mais do que necessário, é vital para o escritor que se deseja tornar.
Anderson Fonseca (Rio de Janeiro/Ceará) é autor do livro de contos “O que eu disse ao General” (ed. oitava Rima, 2014), considerado pela revista Eels um dos melhores de 2014, e da obra “Sr. Bergier & outras histórias” (ed. Rubra Cartoneira, 2013).
Um ultraje contra o Brasil, esse país de gente honesta
Por Sérgio Tavares
‘Mierdamorfose’ (7 Letras/172 pgs.), de Carlos Trigueiro, é um acinte. Uma bazófia, o apregoamento doidivanas de um despropério num país, que é de senso comum, foi instituído o politicamente correto, a caretice, o bon ton.
Como pode um cidadão, que se lê na orelha pós-graduado na Universidade de Roma, homem do mundo e autor de obras literárias de vulto, insinuar que, no Brasil, incorra o expediente da desonestidade, da corrupção, do toma lá dá cá, do jeitinho, do dólar na cueca?
Uma temeridade, um absurdo!
Só para registro, vamos ao livro: depois de despertar subitamente de ‘sonhos indecifráveis’, o professor universitário Anastácio Penaforte se percebe metamorfoseado. Tudo se inicia com um estremecimento incontrolável, seguido de uma ‘sensação de vislumbre generalizado’, que evolui para uma espécie de sexto sentido e, por fim, para a instalação de uma ‘fenomenal consciência’.
Tal processo insólito, que muito se assemelha ao sofrido por Gregor Samsa na novela ‘A metamorfose’, do tcheco Franz Kafka, não o transforma num inseto monstruoso, mas desencadeia anormalidades físicas, como uma descoloração do seu cabelo para um tom arruivado, o comprometimento da fala numa insuspeita língua presa e o soltamento de ‘uma coisa escura e pastosa da pele’, que torna a água do banho lamacenta e fétida.
Sentindo-se, então, ‘uma pessoa limpíssima, cristalina, decente, proba, digna, boa, honrada, íntegra’, Anastácio Penaforte passa a semear radicalmente a honestidade, tanto contra os desvios particulares quanto os públicos.
Seu périplo em defesa dos preceitos morais tem início pela faculdade onde leciona Literatura Comparada. Adentra, sem cerimônia, o gabinete do diretor e confessa suas infrações escoradas na autoridade de professor, entre os quais beneficiar alunas com a garantia de levá-las para cama e a fraude na autoria de um livro. O docente superior fica pasmo, credita o testemunho a um surto mental, e endossa um afastamento temporário.
Ato contínuo, o professor encaminha-se a uma delegacia próxima e, diante de um inspetor de polícia, averba uma ‘declaração espontânea de supostos delitos’, acusando-se de ter usado celular em locais proibidos, comprado produtos piratas, fumado maconha, desrespeitado a faixa de pedestre, apostado no jogo de bicho, perseguido alunos gays, mentido para escapar do serviço militar e cabulado reuniões de condomínio, dentre outros.
O próximo passo é uma consulta com o doutor Rubião (n. do resenhista: curioso esse nome) que não encontra nenhum mal patológico, associando tais mudanças a um fator fantástico, em especial a impossibilidade de pronunciar a sílaba ‘po’, trocando-a pelo som do antigo ‘ph’, a exemplo de ‘phoder público’. É inclusive conduzido ao checkup de uma fonoaudióloga, contudo a causa da anomalia permanece em mistério.
Ora, até este ponto o livro transcorre sem problemas. A gravidade dá corda adiante. Durante o testemunho na delegacia, Anastácio Penaforte anuncia o interesse de articular, junto ao Senado Federal, a implantação da ‘Comissão Nacional da Radical Honestidade’, e, veja só estimado leitor, a iniciativa provoca calafrios, desarranjos, desmaios, febre, preocupações nos assessores e no próprio senador Justo Varejão Raposo Neto.
O que estaria dando a entender o autor com isso? Passaria pela sua cabeça desconfiar da lisura, da incorrupção, da retidão, da probidade do parlamento brasileiro? Será que possa cogitar que haja desvios na conduta modelar de nossos políticos?
O caso é que por praticar, com seu discurso, ‘um gravíssimo crime político contra a segurança nacional’, como assinalado pelo senador Varejão, o professor Anastácio Penaforte é retido em prisão preventiva. Mas, no confinamento, se desdobra um desatino ainda maior. O preso leva uma vida de marajá, com direito a jornais de escolha, livros e outras regalias que, obviamente, não condizem com a realidade, só aceitas na mais delirante ficção.
Não se pode negar, todavia, que a remessa de leitura do condenado seja composta por obras imprescindíveis. Assim como a narrativa esteja amarrada por um domínio técnico preciso, a todo momento dialogando com a literatura, que a torna irresistível da primeira à última página. No entanto, isso não invalida o caráter ultrajante de ‘Mierdamorfose’ contra o Brasil, esse país de gente honesta e exemplo mundial de educação, saúde e segurança.
Dito isso, não me resta outra opção senão a de cobrar às autoridades a detenção preventiva do autor Carlos Trigueiro, da mesma forma que Machado de Assis, Lima Barreto e Mario de Andrade deveriam ter sido detidos em suas épocas.
N. do editor.: Dominado pelos vapores intoxicantes que exalam as páginas deste livro, o resenhista compôs o texto munido da mais fina ironia.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
A sagrada profanação do corpo: os ritos literários de Saint Genet
Por Rafael Peres
“Vocês”, um pronome que demarca a fronteira e o distanciamento entre nós e o personagem autobiográfico Jean Genet, em seu Diário de um ladrão (2012). Embora seja chamada de “diário”, tal obra apresenta-nos um painel anacrônico das memórias de Genet, as quais são dispostas de maneira multiforme, destituída de linearidade cronológica. Também não há como precisar se a narrativa é uma autobiografia, uma memória ou um diário, ainda que todos estejam em seu bojo. Além desse embaralhamento de gêneros, vemos um desfile de facínoras e ladrões, malandros de toda espécie, com os quais Genet confunde-se, tornando-se um caleidoscópio de suas amoralidades. Ao invés de compor uma ode aos valores da ordem social vigente, Genet canta as idiossincrasias de sua classe, em detrimento das instituições, com exceção do poder executivo, cuja ação violenta e punitiva é, para o autor-personagem, um traço que a aproxima da barbárie.
Seguindo a esteira de Baudelaire e de outros poetas malditos, Genet utiliza o grotesco como adubo de suas “rosas brancas”, extraindo da imundície a luz benfazeja de seu lirismo. O embaçamento de si mesmo durante sua herética travessia pelas margens sociais confere-lhe uma identidade ornada de magnificências ultrajantes, concebendo assim Jeannot, o amante platônico de Stilitano, um dos asseclas mais queridos do autor-personagem. Este se desdobra nas abundantes descrições, nas quais retrata uma torrente poética atingindo todos os ladrões, de modo que suas impurezas tornem-se matéria transcendental. Assim, o véu do catarro de Stilitano resplandece, ganhando tons até então impensáveis, principalmente em se tratando do pensamento popular em relação aos fluidos expelidos pelo corpo. Mostrar suas inúmeras facetas mediante uma poieses invertida demanda também fugir do cânone imposto pelo gênero, o que acentua o caráter ritualístico baseado na transgressão, uma vez que o autor suspende a narrativa a um plano etéreo e disjuntivo, cálice abjeto para a ordem dominante.
A santidade, segundo Genet, alcança a epifania à medida que uma corrupção de maior calibre sobrepõe-se a outra, numa busca incansável pela pretensa anulação do caráter. Com essa postura, o autor escolhe a traição como o estigma subversivo por excelência, tendo em vista sua capacidade ilimitada de sobrepujar os vínculos benéficos dentro de um grupo. Desse modo, a fraternidade, a gratidão e a honra são ceifadas, com a finalidade de proporcionar uma nova e paradoxal união, ou seja, o estabelecimento de um vínculo sagrado por intermédio da ruptura de tais valores. Logo, camadas gradativamente nocivas consomem as inferiores, produzindo uma massa disforme de sujeira moral e física, a qual gravita em torno da traição, já que a mesma não se circunscreve somente na ruptura de valores metafísicos, mas também no abandono da sanidade corporal. É mediante essa atitude que Genet olvida-se, reinventando suas facetas num prisma grotesco, de modo que este se torne uma cosmogonia insurgente de seu caos. Todavia, deve-se ressaltar que esse apagamento não significa a extinção de sua identidade, mas sim a procura por sua renovação, desnudando o que há de mais rasteiro entre os excluídos.
O corpo é um templo sagrado, “morada de Deus” para a tradição católica. Genet apropria-se dessa ideia, mas com enfoque completamente diverso, tendo como base perversões libidinosas, relações homossexuais e excreções. O sagrado e o profano têm relações estreitas, se analisados do ponto de vista antropológico, sobretudo deixando de lado a concepção ocidental de pureza e higienização. Entre os Bambaras, por exemplo, há uma classe de iniciados de nome “Abutres”, a qual “engole as forças profundas do universo” alimentando-se dos detritos. “Ao consumi-los, o abutre assimila o mundo por intermédio da coprofagia” (ZAHAN, in: CHEVALIER & GHEERBRANT, 2006, p. 412). Essa liturgia com elementos abjetos é recorrente na narrativa de Genet, que igualmente se vale de situações repugnantes para tentar justificar sua existência e reanimar as “forças profundas do universo”:
Os piolhos nos habitavam. Às nossas roupas, eles davam uma animação, uma presença que, desaparecida, as tornavam mortas. Nós gostávamos de saber – e sentir – pulular os bichinhos translúcidos que, sem serem domesticados, eram tão nossos que o piolho de outro que nós dois nos dava nojo. Nós lhe dávamos caça, mas com a esperança de que durante o dia as lêndeas teriam nascido. […] Não jogávamos os cadáveres – ou despojos – no lixo, nós os deixávamos cair, sangrando com o nosso sangue, em nossa roupa descomposta. Os piolhos eram o único sinal da nossa prosperidade, do próprio avesso da prosperidade, mas era lógico que ao fazer o nosso estado operar uma inversão que o justificasse, nós justificávamos ao mesmo tempo a marca desse estado. Tornados tão úteis para o conhecimento da nossa decadência como as joias para o conhecimento daquilo a que se dá o nome de triunfo, os piolhos eram preciosos (GENET, 2012, p. 35-36).
Revitalizando essa condição miserável, os piolhos são elevados a “joias”, em cujo brilho translúcido flagra-se outra realidade. De acordo com os povos tribais, os excrementos constituem a síntese energética da natureza, o elo do homem com o plano sagrado, não possuindo, assim, o arquétipo escatológico criado no ocidente. Muitos radiestesistas acreditam que os dejetos têm uma energia similar à emanada pelo ouro; trata-se de uma crença observada em muitas tradições. Classificar metaforicamente os piolhos de pedras preciosas é uma inversão que valoriza o abjeto como um estado anímico triunfante, gênese da beleza no “próprio avesso da prosperidade”. Minérios superiores são cotejados com o que há de mais infame na cultura ocidental, erodindo, com isso, os limites entre o sagrado e o profano, evidência das dicotomias entre o homem e sua corporeidade. Porém, mesmo na tradição judaico-cristã, nota-se essa ambivalência, uma vez que o ritual da eucaristia consiste em se alimentar do Cristo vivo, a fim de sanar os pecados e resguardar-se para a vida eterna. É visível, então, que a antropofagia funciona simbolicamente como a restituição vital do ser humano, cujos detritos, em outras culturas, também adquirem valor equivalente. Dos restos dos piolhos, o autor-personagem contempla o próprio sangue, sua marca existencial que o assinala no mundo. Seu “renascimento” acontece graças ao sacrifício da morte, perfazendo um fluxo intermitente, no qual as criaturas escatológicas servem como adubo e fertilizante para a germinação de uma nova vida. Nessa óptica, o ouro, o excremento, a joia e o piolho são igualmente importantes para o ciclo, o que endossa a premissa genetiana de utilizar elementos abjetos para alcançar o sublime.
As figuras de linguagem utilizadas por Genet em suas descrições associam-se quase sempre à natureza, espaço indômito, às vezes cruel, mas que evoca a beleza, extraindo dolorosamente seu caos. Os minérios, as seivas e as luminosas imagens locupletam os sentidos, paralelamente dispostos aos órgãos genitais, como a rosa branca e o voluptuoso escarro entre as pernas do assassino. O autor-personagem reitera que essas marcas poéticas são tentativas de alcançar uma moral superior, sobre a qual não se pode julgar conforme os paradigmas sociais. Genet chama seu lavor artístico de “santidade”, ou seja, é um tipo de cognição sensorial que busca asceticamente a totalidade, ainda que seu escopo seja inatingível; “afasta-se quando me aproximo dele” (GENET, 2012, p. 231), explica. Essa percepção estética apresenta maior grau de complexidade, pois o artista não lida meramente com algo prosaico ou com um simples fato do cotidiano, e sim com inúmeros signos escatológicos do corpo.
A expressão substantiva “Um ladrão” não identifica a pessoa que pratica o delito; assim quer Genet em seu texto, como sugere o título de seu “diário”. Quando alguém rouba um objeto de valor, sua intenção é basicamente usufruir de seu saque em benefício próprio e/ou de outrem. Todavia, a relação entre o meliante e seu furto ultrapassa essa acepção, posto que o indivíduo apropria-se indevidamente de uma particularidade de outra pessoa e a transforma num novo apêndice (que varia conforme a natureza do produto roubado) de sua identidade. O direito de posse é uma convenção que torna o objeto individual, opondo-lhe sua universalidade material e simbólica. Embora o espólio roubado seja um domínio alheio, o ladrão lhe concede novo significado, expandindo-o semanticamente, ao apropriar-se dele. Se o autor-personagem tem plena convicção de que é capaz de trair Armand, afanando-o em benefício de Stilitano, presume-se que o produto do roubo deva simbolizar não somente a apropriação de uma subjetividade, mas também sua partilha em prol de uma agremiação.
A cruel autoridade dos dois ladrões, Armand e Stilitano, cria a aura de erotismo e devoção, com a qual Genet banha-se de luz, assimilando o que há de mais nocivo nos comparsas: a traição. A gula pela vileza não se satisfaz, mas é sobre sua incompletude que o autor-personagem constrói seu altar, onde os corpos sacrificados são colocados à mostra e à revelia da sociedade. Os ganhos obtidos por Armand pelo tráfico de ópio são uma das oferendas, não considerados assim meramente pelo valor financeiro, mas, sobretudo, por encarnarem a postura transgressora do criminoso, um dos maciços blocos de sua personalidade infame. O traiçoeiro roubo das do outro possibilita a Genet a apropriação sensorial da maldade alheia e de seu próprio mal, aproximando, dessa maneira, seus pólos negativos. Com isso, os ladrões comungam um sentimento de redenção mediante o abjeto. As relações sexuais também revelam essa permuta identitária, que é simultaneamente morte e vida, indivíduo e coletivo, carne e espírito. O eixo de tais oposições consiste no vínculo da beleza com o grotesco, um oxímoro avassalador, benção de Saint Genet, o ladrão de joias poéticas…
Referências:
CHEVALIER & GHEERBRANT. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Coordenação de Carlos Sussekind; tradução de Vera da Costa e Silva… (et al.). Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
GENET, Jean. Diário de um ladrão. Tradução de Jacqueline Laurence e Roberto Lacerda. Editora Saraiva: São Paulo, 2012.
Rafael Peres nasceu em Patos de Minas, Minas Gerais, em 1986. Possui graduação em Letras pelo Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM). É Mestre em Teoria Literária, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Já escreveu os contos “O olho da máscara”, texto classificado no Concurso literário “Cidade das Asas”, “Ana Clara”, terceiro colocado no II Concurso Literário Icoense – CLIC – Poeta José de Oliveira Neto, e “Anátema”, obra inclusa na antologia do Prêmio Henry Evaristo de Literatura Fantástica. É também um dos vencedores do 48◦ Concurso Literário de Contos do FEMUP, tendo como mérito seu conto “Os Girinos”.
Em tempos de alguma pungente desesperança, redentores são figuras cada vez mais escassas. Para desejar que tais seres existam e assumam devidamente uma função entre nós é preciso sentir o peso de um incômodo maior que nos acomete. Entre um arremate e outro, ter fôlego para respirar significa tencionar caminhos entre luz e sombra. Assim, a quem poderia interessar a existência de heróis? Ao nosso medo de lidar com as investidas indecifráveis da vida? A uma velha necessidade de delegarmos coragem a alguém que está fora de nós?
É interessante refletir um pouco sobre tamanhas questões após a leitura do mais novo livro de Dênisson Padilha Filho. Prontamente, o título já nos toma de assalto: O Herói está de folga. Publicado pela Editora Kalango, a obra reúne nove contos que perpassam cenários compatíveis com as indagações feitas no parágrafo inicial desse texto. A primeira história já é por si só um abre alas para os territórios que iremos cruzar. Batizada de Com essas mãos, a narrativa inicial nos fala da pesada sina de um matador de encomenda (espécie de justiceiro, se assim é possível considerar), cujo peso maior está na maneira como o personagem lida com o inventário das vidas que ceifou. Admirado por uns e temido por outros, o assassino confronta seus fantasmas, contabilizando as mortes promovidas num ritual de incessante sensação de culpa.
Dênisson não faz do assassino de seu primeiro conto um alguém a simplesmente purgar pecados. Os dramas e fardos são os piores, os da consciência, mas a maneira como esses processos mentais são conduzidos faz-nos pensar que ninguém passa impune pela vida, de um jeito ou de outro. A, digamos assim, humanização de um protagonista aparentemente execrável dá-se muito mais na via de um resgate do que pela assunção dos erros.
Eis que é preciso fôlego para tocar a leitura adiante. Parafraseando o autor, todos vamos bem até a hora em que começamos a desejar demais. Mas o fato é que é inegável não querer ir além, dada a proposta da obra, sobretudo porque no entremear das narrativas abriga-se uma intangível pretensão de reconhecermo-nos desnudos e sós. A sensação de desamparo instaurada é, no caso das escrituras de Dênisson, uma provocação ao status quo de nossos ocidentalizados sentimentos.
Quem protagoniza as ambientações do conto Onde demora aquele fogo dos teus olhos? pode, por exemplo, ser qualquer mortal cujas percepções estão à flor da pele. Ali, reconhecer-se um homem comum é gesto que implica muito mais no saldo numeroso das desventuras, um olhar o compasso dos dias com o filtro polarizador da apatia. Assim, quiçá a projeção de um tempo ideal retido na memória se configure um antídoto ao caos intimista de um alguém que é tudo, menos herói.
Dênisson Padilha Filho é hábil em colocar seus personagens no olho do furacão. Dali, eles só podem escapar se lançarem mão de algo semelhante a uma espécie de expansão do tempo, o que fatalmente não acusa um sentido tradicional de libertação. Pelo contrário, a via da inexistência de mártires adotada pelo autor recusa saídas honrosas e meritórias. Por tal razão, a desgastada dicotomia entre bem e mal sequer importa. Subsiste uma dimensão na qual a reinvenção da memória parece ser substancial válvula de escape.
Em A pin up que caiu do céu, a capacidade do criador de modelar os recursos da fantasia humana é, sem dúvida, um elemento de destaque. A figura do vaqueiro Miquéias é símbolo do vigor de um imaginário bem típico dos rincões brasileiros. Para dotá-lo de um componente diferenciado, Dênisson flerta com o realismo fantástico. Reinventando-se, Miquéias busca refúgio noutras dimensões, conferindo ao seu desejo algum caráter de salvação.
Não é de agora que o autor de O herói está de folga sabe amarrar cenários e construções de personagens com destacável domínio. Exemplo disso está nos contos e novelas presentes em Menelau e os homens (Ed. Casarão do Verbo, 2012). Dentro desse controle narrativo, há muito mais do que saber contar uma história. Seres e lugares estão amalgamados por uma perspectiva de cronologia interna, através da qual as histórias resultam num elemento orgânico e equilibrado.
Em se tratando de percorrer as complexas paragens humanas, não há nada mais apropriado do que reconhecer aquilo que somos. Talvez por isso Dênisson ouse nos mostrar trajetórias de vida marcadas pelo traço lancinante da imperfeição. Já contabilizamos milhares de anos sob o planeta e, no entanto, resta sempre a indagação sobre o que pretendemos de nós mesmos. Não há saída. O incômodo está conosco até os ossos. De que adiantam heróis se debaixo do sol tudo está feito?
Para a memória coletiva, 2014 ficará marcado como o ano da Copa do Mundo do Brasil, com seus orçamentos faraônicos, com o ignorar do exoesqueleto de Miguel Nicolelis e com a goleada sofrida pela Seleção Canarinho, em jogo contra a Alemanha. Por sua vez, é provável que os engajados no debate político destaquem no ano a prisão de manifestantes que se posicionaram contra o que a Copa custou financeira e socialmente, sublinhando também o início da Operação Lava-Jato (sic), da Polícia Federal, que prendeu muita gente do alto escalão.
Sem me abster da coletividade, a mim pareceu que 2014 é um ano literariamente promissor. Reconheço que, nesses termos, promissor qualquer ano é, como arruinador de esperanças todos os anos podem ser. Portanto, a minha impressão alvissareira não esconde a obviedade pessoal: chegaram até mim livros que chamam a atenção pelo misto de juventude e maturidade de seus autores. São eles: a primeira morte, de Maíra Ferreira; Peomas, de Leandro Jardim (ambos de poesia); O que eu disse ao General (contos), de Anderson Fonseca; e Fagundes Varela, Poeta (ensaio), de Juliano Carrupt do Nascimento.
Sublinho a obviedade e o acaso para ir do relato pessoal à crítica do tempo: os livros de que tratarei aqui não figuraram nem mesmo nas notinhas de lançamento de grandes suplementos e jornais de literatura do Brasil. Seria injusto não reconhecer a pletora de lançamentos em contraste com a exiguidade de periódicos, mas não se pode ignorar que estes têm as suas lentes de grande alcance, o que se verifica todas as vezes em que um autor de alguma invisível periferia é anunciado.
Volto ao pessoal, sem dissociá-lo da crítica: eu sugeri aos jornais e suplementos que leio e com os quais colaboro resenhas sobre os livros em questão, mas houve recusa direta ou eloquente silêncio, e eu suponho que pelo menos de alguns desses periódicos seria diferente a resposta caso os livros fossem de editoras ricas ou se os autores tivessem guiado sua escrita por aquilo que pede a pauta contemporânea: a voz de uma minoria, a escrita em novos suportes de tecnologia, o cruzamento dos gêneros. A pauta é inegavelmente importante, dado que ela reclama atenção para o que, de modos diferentes, destoa de alguma hegemonia. Só que ela – a pauta – inegavelmente é transformada em moda, e assim àqueles em que não se verifica um determinado tipo de diferença não se dá a chancela de autênticos contemporâneos, ainda que sejam autênticos escritores. Mas aqui estamos num veículo não tomado pela tendência mercadológica, o que também é promissor, sobretudo num momento em que a promessa se cumpre pela centésima vez. A abordagem em conjunto inevitavelmente reduzirá a análise específica, mas tentarei fugir da mera informação.
Comecemos pela poesia, e comecemos por um começo. a primeira morte marca a estreia de Maíra Ferreira, e caso se junte o debute à idade da autora no momento da publicação (24 anos), causará espanto o fato de em nada o livro parecer o de uma estreante, dada a coesão da linguagem que permeia os poemas. Coesa também é a ambientação dos textos, via de regra num universo doído, repleto de desencontros, ainda mais cortantes porque a voz que os anuncia nunca cede ao derramamento emotivo, como se verifica no extraordinário “pequena princesa”: “se você diz que vem às nove, por/ exemplo, desde as sete estarei/ enrolando os cachos que não/ nasceram para ser cachos e preparando/ a comida com receitas que nunca/ aprendi e retirando os pelos/ de todos os lugares onde não se/ pode ter pelos e deixando à mostra/ a pele que precisa ser/ pelada a pele impelida/ pelo relógio marcando nove horas/ e alguns minutos que é quando/ descubro que na verdade você/ não vem e meus pelos agora/ entopem o ralo do banheiro/ desejando não terem sido/ expulsos da vida por tão/ pouco”.
O poema propicia um desdobramento: em a primeira morte a dicção geral é feminina, sendo alguns textos dotados de fortíssima sensualidade. E se a dor é dita com absoluta isenção de sentimentalismo, a pele pulsa de um modo surpreendentemente erótico e sutil, matéria de “náufragos”: “estou bebendo toda a sua água/ como quem mastiga o seu corpo/ como quem engole o seu rosto/ ou chupa/ a sua voz/ sem remorso bebo/ toda a sua água/ e entrego a minha inteira e intacta/ pra você/ beber”.
Peomas é o terceiro livro de poemas de Leandro Jardim, que também publicou um volume de contos, Rubores, de 2012. No presente trabalho, a escrita aparece mais encorpada, fundindo o que havia de melhor nos livros anteriores – especialmente o tom despojado e as tiradas criativas – a uma visão abrangente do tempo em que se encontra. Acerca disso, as investidas metapoéticas não tratam apenas da escrita e seus códigos, mas sim de uma forma de pertencimento e recusa aos dias que se colocam aos poetas, conforme se lê no emblemático “De época”: “Eu poderia tornar drama/ épico o meu passado,/ tão simples e prosaico,/ tão contemporâneo.// Eu poderia erguer pirâmides egípcias/ de complexos de Édipo, palavras/ à sombra do império paterno,/ dourar o meu caderno.// Mas meu cotidiano foi mais/ humano, e não menos/ poético por isso:/ ser mundano é mais propício”. Registre-se com maior ênfase o (antológico) poema que lembra as andanças reflexivas de Drummond e Gullar pela rua, na medida em que a expressão poética, a um só tempo, rumina sobre o fazer do poeta e sobre seu lugar no mundo. Confinado em seu carro, igualado aos que se atolam nos engarrafamentos ubíquos, o poeta, no exato momento em que revela o nascimento do poema, diagnostica seus limites na república pós-moderna – “Nada grave,/ só mais uma obra,/ só mais um veículo,/ só mais uma via.” –, sem, entretanto, deixar de flertar com a ambiguidade que instaura uma nova possibilidade, de sentido textual e de via existencial: “Não grave nada,/ só mais uma poema,/ só mais um poeta,/ só mais um dia”.
Como a poesia está em pauta, convém citar um de seus novos e vigorosos intérpretes brasileiros. Falo de Juliano Carrupt do Nascimento, erudito e engajado professor do Ensino Médio do Sul Fluminense, em Volta Redonda. Apesar do vínculo universitário como aluno de pós-graduação, Juliano é um estudioso autônomo, o que se verifica de modo cabal com este Fagundes Varela, Poeta, tanto pelo objeto de análise quanto pelo próprio fazer do livro, que não resulta de uma demanda acadêmica específica, como dissertação de Mestrado ou tese de Doutorado. Juliano Carrupt do Nascimento é antes de tudo um apaixonado leitor e militante do saber, e se isso já se verificava em sua publicação anterior – O negro e a mulher em Úrsula, de Maria Firmina dos Reis (2009) –, acerca da desconhecida romancista maranhense, agora se mostra de maneira mais pujante e abrangente, na medida em que o autor percorre com fôlego a bibliografia crítica dedicada a Varela, inserindo seu trabalho nesta como nova e admirável contribuição. Como Juliano também é um pensador do Ensino Médio, sua crítica literária não dissocia a sala de aula universitária da secundária, fato verificável em seus eloquentes questionamentos: “Qual a imagem da vida e da obra de Fagundes Varela que nos chegam via veículos institucionalizados de ensino e aprendizagem da poesia nacional, tais como livros didáticos, ensaios e pesquisas históricas de cunho teórico e crítico? Ou, qual a situação de seu público e local de fala, nos XIX?”.
Os meios oficiais de comunicação e as redes sociais diariamente nos trazem a notícia de um mundo obscuro, tão desenvolvido quanto apegado a todo tipo de barbárie. É desse mundo estranho, gerenciado por totalitaristas – sejam ditadores ou democratas –, que se abastece O que eu disse ao General, primoroso livro de narrativas curtas com as quais Anderson Fonseca evoca cenas e personagens da política internacional para escancarar a selva globalizada. A poderosa síntese entre construção literária e referência histórica confere à obra um singularíssimo lugar na literatura contemporânea, quer pela originalidade do argumento do livro, quer pelo teor crítico estampado pelas páginas. Como exemplo, cito o irônico “Santa Ceia”, dedicado ao ex-presidente do Paraguai, recentemente deposto do cargo. Trata-se de leitura para a cabeceira da presidenta do Brasil: “O presidente amava cães. Em sua casa ele criava dez. sempre passeava com os cães, à tarde, nos jardins da casa presidencial; e a cada um alimentava. Embora fossem de linhagens carnívoras, não representavam nenhuma ameaça. Houve um dia, entretanto, que (sic) o Presidente enraivecido não deu a eles comida. Os cães, em troca, o devoraram”.
Esses quatro livros dão boa mostra da qualidade do trabalho de jovens autores no País. Agora é torcer para que a outra parte se cumpra, e que eles encontrem os leitores que suas obras demonstram merecer. Esse gol é do Brasil.
Marcos Pasche é crítico literário e informa que a palavra “foco” tem sinônimos na Língua Portuguesa.
Aprofundamento no sentido mais vertical da palavra. Abundância do profundo no mais profundo da alma. Isso deve ser a Profundança. A alma aqui é o livro perpassado pelo filtro da poesia que habita nessas páginas de poemas e imagens femininas. As imagens, representações da psique das 13 escritoras que partiram de vários lugares e caminharam até o ponto de encontro: esta antologia. Elas desfilam vestidas de poemas, sendo vistas desde a apresentação do livro feita pela organizadora Daniela Galdino.
Profundanças: antologia literária e fotográfica em sua 1ª edição virtual, Voo Audiovisual, 2014, vindo de Ipiaú (BA), pousa nos campos virtuais para espalhar poesia. Na imagem de abertura uma mulher sobe degraus de uma escadaria como que simbolizando o progresso, a realização de desejo consubstanciado no livro pronto. 13 escritoras desengavetam suas palavras para que povoem o universo; 13 escritoras tratam de recolher as mazelas desaprisionadas da caixa de Pandora para que sejam reconfinadas até elas aprenderem com a Esperança – que havia ficado no fundo da caixa – sobre a importância da arte como elemento que transubstancia palavra em alimento para a alma.
Belisa, Brisa, Calila, Celeste, Daniela, Fernanda, Lorenza, Márcia, Potira, Raquel, Renailda, Say e Valquíria misturam suas experiências individuais e apresentam um modelo de pertencimento a uma comunidade artística de alto gabarito que interage com um público leitor que lança sua rede no mais profundo mundo virtual para buscar o melhor pescado.
A distribuição dos textos é feita com mistura de versos e prosas onde as autoras puderam expressar suas profundanças com muita leveza e liberdade, incluindo a apresentação de fotografias delas mesmas como extensão da palavra escrita. Elas estão presentes. Os textos têm a cara das donas e é muito interessante observar como cada palavra escrita identifica cada uma delas.
As fotografias vão como que revelando o cotidiano das moças e ilustrando o espírito do livro na medida em que o olhar dos fotógrafos vai capturando as profundanças dos momentos e perpetuando os movimentos das escritoras. Assim acontece o entrelaçamento das palavras e imagens quando Martinho, empunhando a câmera, olha o olhar de Valquíria que fala:
Empunho o que sou, porque o ser que me habita não quer o que esfria, ao contrário, pede o que borbulha.
Fafá surpreende Say entre panelas – dispostas no altar para o banquete – grafites, flores e estampas na saia. Mais uma vez a imagem casa com a poesia:
Escondo, na parte de dentro, Do estampado florido de minhas saias Um respiro calmo no altar de mim.
Márcia e Jéssica se encontram num diálogo aparentemente desencontrado. Só na aparência mesmo, posto que da cor seca do sertão brota a florada de quem, como num ato de contrição, escreve poemas:
Meu sertão tem a cor amarela Como as folhas no outono E a minha saudade tem a cor sépia Como numa fotografia uma saudade assim envelhecida.
Uma árvore prenha guarda águas sertanejas para matar as necessárias sedes. É assim a natureza: resistente e adaptável porque criativa. Como um útero aconchegante carrega dentro de si a poesia que germina e se desenvolve pela palavra forte de Celeste e pelo gatilho da câmera de Ravena. Belo encontro!
É dispensável neste momento escrever sobre as autoras, posto que no final do livro a organizadora teve o cuidado de apresentá-las numa Mini Bio d@s participantes de um jeito muito mais interessante de forma que o leitor poderá conferir e entender o porquê dessa ausência de explicações nesta resenha. Além da apresentação das escritoras, Daniela Galdino abre espaço detalhado para mostrar quem fotografou e quem ajudou na produção do brilhante material que a partir de agora está no mundo através da boca e da pena das autoras deste livro.
Olho-me no espelho nua por dentro
porque
Fui nomeada no esteio do vento.
Sou eu, ácido, violão sem cordas
E me extasiando com sua música surda
tenho medo dos sussurros das palavras
e
começo a pender para direções esquecidas
buscando os caminhos que
as quinas das portas cortam meus passos.
Há mofo no teto e gotas de chuva nas cortinas
e a minha saudade tem a cor sépia
na presença do enxofre envelhecedor de fotografias… mas
prometo gozar o atraso dos dissabores
sintomas de precipício/ predicados de botequim
Ah!… O que tenho?
Tenho tanto medo de deus / que até fraquejei com esta caneta,
porém depois de cada inverno inscrito
eu sempre voltarei para o verão dos teus braços
porque é neles que
os meus cabelos / escondem navalhas errantes
mas que não podarão a profundança de cada palavra poemada.
* Os textos em itálico são os títulos das falas das autoras deste precioso livro.
“Profundanças” está disponível para download no site Voo Audiovisual.
Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).
Qual a idade do poeta Geraldo Lavigne? Pergunta que fiz a Gustavo Felicíssimo ao receber esses dois livros que se embrincam. Pergunto-me por quê? Talvez por achar necessário alguma intimidade com o autor para quem se aventura a escrever uma orelha de livro. Talvez pela surpresa da promessa.
A poesia atual, em sua vertente mais celebrada pelas mídias do eixo Rio-São Paulo, se embriaga com o concretismo paulistano. Uma poética que brinca com as palavras, poética da forma, poesia da desilusão, do nada, egoísta, despida do deslumbramento.
Já a poesia de Lavigne ―… ―, ele mesmo a define “com alguma sinceridade” ao nos dizer suas meias verdades, já não escondidas atrás de uma máscara. E vai dizendo que “é no âmago que reside a centelha”, na “seiva que corre o motivo do visgo”. Lembra-nos que vivificamos o mito de Sísifo e nos avisa sobre a falácia de quem joga o bilboquê de pedra neste “mito de democracia”. E é enorme a generosidade do poeta ao nos alertar da “tirania maior” – o que nos faz recordar de Montaigne quando disse do medo dos homens que leem sempre um único livro.
Mas o “eu lírico” se percebe diferente, pois ser afeito ao silêncio e a contemplação é ser um transgressor, ser anacrônico, neste Mundo multimidiático. O homem não se irmana na globalização e sim no reconhecimento de que o “normal é diferente”. Compreende leitor?
E que bela imagem, a do coração, palimpsesto de pedra, onde é preciso “muita água da rara fonte dos olhos” para apagar o já escrito. Vejam a seriedade de um poeta jovem que se propõe buscar a síntese, o esmero técnico, sem que para isso necessite prescindir do coração. Um “eu lírico” que mantém a esperança de na busca ilusória do poema definitivo, perpetuar um coração minúsculo onde seja possível se escrever “com diminutas palavras”. Que bela imagem poética!
E o que dizer da ironia em Lavigne ― algo raro e necessário no enfrentamento das verdades ― quando no poema “aturdido” nos diz que “quando a água do chuveiro afaga meu corpo, posso ver, através da densa cortina, a minha vida com você é um filme de Hitchcock”.
Sim, a vida também é feita de perdas, e como emociona – e este é o maior objetivo da poesia – o poeta ao nos dizer da dor, no poema “meu velho”: “Faltam poucos dias para quatro anos nesse tempo dos homens que meu coração não reconhece”. E, consciente diante do absurdo do nada ― “a morte te espreita vereda por vereda” ―, ensaia o renascimento, um retorno mal sucedido ao ventre da inocência, pois já se impregnou com a verdade e se encontra “cheio de dentes e fantasmas”. Ressurge mais forte dessa viagem pela introspecção por ter “o gérmen do verde que brota quando o céu desaba”. Após o processo necessário de desconstrução, entende o silêncio, ergue os braços, toca as nuvens e “conversa com os anjos”.
Já no lúdico poema “Ocaso” Lavigne se questiona: “será que cupins alados pousarão sobre o lastro que me sustenta?”. Mas rebate, agudo, “ talvez seja mais um poente, talvez o ocaso seja o acaso em mim”. E acaba por definir ser o poeta o “tutor das plumas solúveis, que pousou altivo no patronato das aves domesticadas” e atinge a perfeição ao reconhecer que “a gota d´água não se sustenta nas asas do pássaro silvestre”.
Por fim, o poeta desafia os “borbotões de vento” que nos desfolham e nos tombam, ensaiando a transcendência “desafiando a longevidade dos ciprestes milenares”.
Agora, só nos resta tratar das amenidades …
AMENIDADES
O poeta do ameno deixa aqui seus fragmentos luminosos.
Toda singularidade do olhar lançado sobre o cotidiano pessoal traduz seu povo e sua terra.
Poemas imagéticos, sem dúvida; poemas de uma lentidão contemplativa, de saber de sua insignificância relativa e da importância de prosseguir no sem sentido, pois, “perfeição na terra – não há exceto o amor”. Para o ser imperfeito e portador do “fardo da consciência” o amor é “semidivino porque tem um quê de pecado” no lado debaixo do Equador…
O “chegar e partir, são dois lados da mesma viagem” nos diz Bituca, e também o fez Lavigne, autêntico poeta Grapiúna (confesso aqui minha admiração por esse nome e seus poetas) ao apreciar o entardecer neste “paraíso dos anjos”.
Como disse Ildásio Tavares: “Nada penso. Estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte”. Não será também esta atitude de Geraldo Lavigne nessa Ilhéus onde o céu se abre imenso, idílico, onde o “carvão abraçava a lua. A lua fogo abrasava o céu”?
Dá vontade, poeta, de apreciar esta “primeira claridade da manhã, com sabor de fruta madura, café coado em pano e tapioca”. Ver “as gotas caírem qual sais de banho” e, por saber-se nada, caminhar descalço sobre os seixos na ilha da Pedra Furada. Pois Cipango fica logo ali, onde aportou o sonho, que persiste e “cresce ao redor” e, apesar “do Mundo”.
Sabe, Lavigne, já “bebi menino as águas frias da mata” e meu mundo “era tão curto e tão vasto”… “mas o tempo dissipa as palavras como a aura dissipa a fumaça da lenha”. E por isso, também, sinto saudades de Senô, pois desejo a benção com água de coco, para quem sabe, também tornar-me doce…
É isso, leitor, já que me foi dado o privilégio de recebê-lo, o convido a entrar. O poeta é generoso, lhe oferece duas portas – dois livros: um que diz do homem como objeto refletido e repisado; outro mais ameno e bucólico, impregnado de memórias e imagens da bela região grapiúna.
Jorge Elias Neto é poeta, médico, ensaísta e membro da Academia Capixaba de Letras. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Secult – 2013). Recentemente, lançou seu mais novo rebento poético, Glacial (Editora Patuá – 2014).
HIPERTROFIA HIPERTENSA – Alexandre Guarnieri contra os críticos de festim
Por Igor Fagundes
DEVEREI MORRER ANTES DE ESCREVER
Na sala de espera por um médico, por um crítico, com o qual se consulte, um livro se exibe em rija anatomia de signos. Dada a disciplina, a precisão, a lucidez com que contrai e alonga a crueza supostamente doente de seu corpo, parece prescindir de socorro. Talvez, justamente por isso, pela saúde com que paradoxalmente dói, tenha mesmo de ir a consultório para socorrer o socorrista; fazer doer o analista, enlouquecendo o que este tem de Prometeu Moderno obstinado por certeza, consciência crítica e predicativa de tudo – tal petulância que, inflando-o de poder, deve sempre fazê-lo no fim impotente, enfermo de si quando se imagina imune e bem armado herói. Talvez por inverter ou embaralhar as relações médico-paciente, examinador-examinado; por embaçar os diagnósticos, desafiando e desfiando os receituários decorados da literária medicina, seja mesmo necessário o encontro com os doutores. No sentido de suspender as prescrições deste ou daquele remédio teórico, classificatório, genérico ou de referência; desta ou daquela ultrassonografia estética; desta ou daquela ressonância magnética, quer dizer, desta ou daquela alta tecnologia exegética; desta ou daquela análise clínica a listar quais e quantos glóbulos poéticos se fazem presentes ou ausentes nas veias, nas linhas, nas entrelinhas, identificando a seguir o grupo sanguíneo, o estilo de época, a escola ou família a que pertence; por fim, deste ou daquele exame de fezes, indicador da boa ou má digestão das obras lidas e influentes, suspeitando quais autores de ontem e hoje são nutrientes bem ou mal absorvidos e quais permanecem parasitas, protozoários de uma escrita. Parafernália supostamente imbatível para a obtenção da síntese, da resolução do problema-livro na medida em que, a partir dos resultados analíticos obtidos, facilmente localizável o tratamento a ser-lhe aplicado, sem que a peculiaridade de uma literatura ponha o crítico na berlinda. Sem que este ausculte os silêncios de um corpo que, pondo-se em obra, instaura (e, por que não, ostenta) suas próprias e insólitas, e intransferíveis, e assim poeticamente saudáveis, patologias. De tal maneira que suspenda os estereótipos judicativos; que ponha fora-do-juízo a medicina do poético, a fim de que esta, em última instância, em estado crítico, autocrítico, autopoético, abismado, se pergunte de novo pelo que é isto, o juízo. A crítica. O critério.
Todo esforço da tradição crítica está em fundamentar justamente o critério, ou a medida, a partir da qual emite seus juízos sobre a realidade. (…) Conhecemos inúmeras teorias das quais poderíamos lançar mão para justificar uma análise de determinada obra. Em geral, isso é o mais comum, recolhem-se, dos teóricos, seus conceitos e se aplicam, forçando a obra a aceitá-los. Usam-se, inclusive, os mesmos conceitos em inúmeras obras, organicamente, sistemicamente, confrangendo-as a um modelo e um sistema prévios, como vemos no caso de muitos trabalhos historiográficos que se consagraram na crítica contemporânea e na tradição crítica brasileira. Elaboram-se os conceitos de poesia e literatura, tomando-os como critérios para a crítica, para depois se aferirem as obras propriamente.
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Para que a tarefa da crítica obedeça a um critério apropriado e não se funde em representações que mais a afastam do que a aproximam das obras, é necessário buscar o critério que a própria obra já nos anuncia através daquilo que a sustenta como obra. Partindo daquilo que inaugura, sustenta e faz permanecer a obra como obra, teremos inquestionavelmente a garantia de um critério apropriado para nos empenharmos na tarefa do criticar (FERRITO in CASTRO et alli, 2014, p. 127).
Deverá o médico, o crítico, deixar que em seu jaleco branco respinguem as hemoglobinas gotejadas nas diversas páginas em branco de um livro ora chamado Corpo de festim. Deverá confrontar-se urgente e ironicamente com o festim epistêmico, o truque conceitual, que já não lhe cabe ser ou no qual já não cabe a um corpo vivo se adequar; abrir-se, pois, à concreta corporeidade que o cientista também é, ao corpo-a-corpo em que sempre virá a perder-se, para ganhar a poesia. Sem mais se iludir e iludir quem quer que seja com prognósticos viciados, diagnósticos literários tediosamente pasteurizados e simplificadores. A ciência (?) da poesia (!) – a ciência, grosso modo, de tudo; a que perde de tudo, de toda a realidade, o poético – deve aceitar, no desafio-livro, a agonia de pressentir agonizável seu corpo demasiada e falsamente munido, entulhado de tecnicopatias e sistematizações, desde que a razão se fez o Mito contra a (e não tanto a favor da) palavra poética bendita, da vida não dita e só dizível no interdito dos verbos vertiginosos.
Em nome de alguma poesia na ciência, deverá o discurso teórico, crítico, médico não redundar como o corpo de festim tratado pelo paciente-livro, por talvez ser-lhe a própria doença (a de ambos) que ironicamente comemora em autodenúncia. Por talvez ser a loucura ocidental – cientificista e egolatrada herança – pela qual a humanidade intentou e intenta sua soberania. Como se a imagem estampada na capa já fosse, da crítica, o primeiro dos múltiplos espelhos a surgir. Na estampa da obra, Houdini – o ilusionista – tenta driblar a morte com algemas e cadeados construídos com apuro e afinco. Nesse processo de negação da finitude, da negação cultural do próprio corpo (signo, por excelência, do finito), todo um ocidente anticorpo (anti-corpo: vacinado contra as corporeidades) sedimentado, mediante o já citado projeto do ego-centrismo, da proclamação do eu como o seu último e moderno – iludido e ilusório – fundamento: seu perturbado novo deus, crente fanático na imortalidade. Deverá o médico-crítico combater – diante de um livro em corpo cru – tal sanha egoica, sua divina onipotência: queimar-se prometeicamente. Refém do próprio monstro que inventou e inventa nos laboratórios, quer dizer, da relação sujeito-objeto, houvesse nas páginas por vir toda uma rebelião da objetividade contra a subjetividade que lhe foi a autora – Frankenstein que foi difundido epidemicamente e agora literariamente se dedura.
Deverá o analista aprender a morrer. Fazer-se morto por seus monstrengos. Deles virar a cobaia. Sobretudo, aprender a matar o cientista que não raro o pôs, o põe, em câmara fria. Tudo no sentido de, a partir da poesia que corta com bisturi a barriga das palavras, vir o crítico renascer como um poeta-obra-filho destes signos que rebentam e o examinam manchando de sangue suas máscaras, lupas, óculos. Para tal, terá de descartar luvas antes mesmo de usá-las, tocando a carne sígnica exposta e sendo por ela tocado. Tocado, vale dizer, pela ferida, pelo di-ferimento, enfim, pela diferença de um livro não menos feito em laboratório, mas rindo, é claro, de toda instrumentação cirúrgica por onde se arrisca. Nesse monstro alçado, o médico diferido poderá se tornar diferente, passar a paciente (enfermo, o analista) e finalmente pronto para escrever.
Devemos renunciar, portanto, a imediata e prévia fixação de conceitos, fundamentos e representações dados pelos sistemas e teorias, se quisermos de fato acolher e pensar o que a obra tem a nos dar como critério (FERRITO in CASTRO et. al., 2014, p. 127;128)
Para transformar-se em médico dos médicos, o livro na sala de espera entra no jogo destes, estuda e difunde seu dialeto, para seduzi-los, tirando-os, com cínica frieza, da frieza que aprenderam, a que nos ensinaram – através dos formidáveis defuntos posados em formóis, para deleite científico, iluminista. Desde as aulas primeiras de anatomia. Trama-se gelada, à revelia do derramamento, a carne-osso-livro, fosse um destes corpos mortos e prostituídos por e para manuais. Finge-se máquina para explorar (e, em silêncio, explodir) a relação maquínica com que os corpos vivos não raro convivem. Não convivem. Até que. Até que o gelo revele sua dureza provisória, sua dureza de festim, seu simulacro. Porquanto as geleiras-corpo-palavra trazem um líquido por dentro, por fora: deixam-no escorrer quando, no entre-verbos, uma alta temperatura latente. Até que. Até que a máquina supostamente sem vida surpreenda com a pilha, a bateria, o combustível ou, por que não dizer, com o microorganismo, com o vírus que já e desde sempre tinha: a poesia. E o consultório crítico se renda, pilhado, à contaminação. No queixo caído dos médicos, de todo e qualquer mundano colecionador de objetividade, e também de subjetividade, forjará o livro uma prótese do caos. No fim das taquicardias, das paradas cardíacas sofridas pelos marca-passos que os prometeus modernos criaram e puseram dentro de si; após o colapso de toda esta tecnopatia em que se encurralam garbosamente, poderão ganhar de volta os corações de carne e oco pelas mãos das palavras inscritas
( para aplacar a vontade ( inútil ? ) de habitar
um corpo /
( desde o útero ) todo esforço é doloroso / experimentá-lo
aos poucos
O corpo-livro de Alexandre Guarnieri – eis o nome do sujeito que só agora aparece porque deseja mesmo, a todo tempo, desaparecer, pôr a subjetividade (“mal que tarda a sarar”) em metástase – obriga o corpo-crítico ao velório de muitas e muitas páginas em branco. À instância em que também não seja mais sujeito de. Olhar o papel, a tela de um computador, o teclado, e não conseguir digitar, escrever nada, ou só escrever-digitar muitos e muitos brancos em página. E demorar, demorar, na travessia pelo deserto; até que chegue, não chegue, ao consultório. Até que o consultório seja ainda e, por excelência, deserto. E a consulta atrase, até que. Até que, recebendo um paciente-livro em dicção simpática à estética médica, o doutor o receba como seu traiçoeiro redentor; seu cacto promissor de água em meio ao nada, a recrutar paciência de camelo para arrancar da superfície cortante o líquido (de festim?) que (não!) matará a sede. Corpo de festim põe todo leitor, ouvinte, espectador, crítico nesses áridos contra-espelhos: como um outro e mesmo corpo morto, técnico, e de repente, a um só tempo, vivo, poético, quando se põe o objeto-dejeto eu em pacto fáustico consigo mesmo. Num “doloroso alívio, entre a punição e o prêmio”. Mas como? Como? Como ficar doente – chegar a tal método justo – para ouvir e deixar uma escrita, toda esta escrita, falar?
Alexandre Guarniei / Foto: Arquivo pessoal
DEVEREI ESCREVER ANTES DE MORRER
Crítico e obra podem, talvez, se encontrar, se reconhecer, entre a punição e o prêmio, mediante o obsessivo fisiculturismo – a disposição fitness, a boa forma física – com que encobrem e dissimulam as pathos-logias que os fundam, precisamente para que tal dissimulação se descubra como a grande verdade poética em curso. Assim sendo, para ensaiar, conforme o livro, a morte do eu no durante de uma hipertrofia, convoca o médico sua própria biografia, de modo que tal exposição se transforme – no instante da purgação ou ruína da bios que grafa – no apropriado corpus teórico: a saber, trata-se de alguém que cotidianamente se divide entre o tentar-se poeta e o teimar-se atleta. À parte da agenda como crítico, horas e horas a malhar os bíceps, quando não a exercitar a palavra. Horas e horas a malhar a palavra, quando não a exercitar os bíceps. O livro que o espera na antessala também almeja – e, de fato, já tem – perfeita forma. Páginas e verbos bem torneados, tipografia e projeto gráfico trabalhado com obsessivo rigor, nenhuma gordura: todo o volume de signos e sonoridades não abrange mais que massa magra. Talvez, destarte, caiba ao crítico retirar ironicamente poesia do atleta, da atividade onde, não raro, o julgariam do poeta se afastar, devido à fútil insistência no culto à forma, ao elogio da aparência, nela suposta, esquivando-se da séria e essencial perscrutação do disforme – ofício deveras concernente a um literato que se preze. Talvez, talvez, caiba-lhe saltar sobre tal dicotomia e não mais se dividir, assim foi dito, entre o poético e o atlético, mas os somar, confundindo duas práticas estéticas em nome do desvelo desvairado de uma ética de vida e de escrita. Alguma em que Dionisio sorrateiramente se infiltre nas engrenagens apolíneas que, afinal, surjam tão-só para evocá-lo…
Corpo de festim extrai poesia de um formalismo – atletismo verbal, plástico, tipográfico – jamais gratuito, jamais verdadeiramente formalista (e eis o simulacro!): na verdade trai o que parece mecânico ao propor-escrever uma “mecânica de fluidos”, ou seja, ao guardar e vazar fluidos e fluências de um Dionisio transverso à secura, à contenção, à con-formação do Apolo aparentemente aclamado. Toda a destruição do eu por exercícios rígidos construída, toda a desmusicalidade afinada culmina na emoção e no (des)concerto (des)construtivista de um “livro corporal ( sob o martírio de ser escrito )”: “onde estará guardado o coração das coisas físicas?”, pergunta Alexandre Guarnieri – um nome próprio para o que, neste corpo de páginas, se faz menos autor do que uma corda vocal, uma laringe, uma boca, uma língua. E um ouvido. Por onde o livro-corpo se conte. E salive. E resseque. E grite. E goze. E sue. E soe. E excrete, i. e., expulse o ego-cálculo renal pela urina.
cometer o único crime previsível, quiçá um icônico suicídio
pela honra, ritualizado à moda nipônica, para destituir-me enquanto
símbolo terrível, do self à tal persona poética, de toda a libido, do meu
“EU lírico” (esse serialkiller, ou o meu místico inner being), lançar-me
aos ares num assento ejetável, pôr o ego em gravidade zero
A hipertrofia das palavras frequentemente em assonância, aliteração, rima interna, externa, toante, em Alexandre Guarnieri transporta e transpira, na verdade, um silêncio hiper-tenso, ameaçador…
qualquer soco, avaria / aí cada agulha
se calcula ou se anula / balbúrdia,
barulho, algazarra que cada palavra
declara, tingindo toda ou alguma
área da página mais alva
É neste sentido que um eu-crítico não menos hipertrofiado precisa repercutir, por entre o calculismo que toda intelligentsia dele espera, um discurso também hipertensivo, porque levado o corpo ao seu limite. Levado o ego ao limite do corpo. Ao limite das fibras musculares. Ao limite da pressão nas artérias das palavras. Até que nesse estresse a que se ofereça, o projeto ego-centrista, já ego-excêntrico, extravie, e o corpo invencível reencontre o corpo finito, deixando “toda a vida contida numa exígua partícula”. De carbono, de letra, a cumprir a “fantástica e bizarra via crucis de todos os vivos”.
A ânsia pela superação, pela otimização da performance, por resultados maiores e mais rápidos em sua diária atividade física levou o crítico-atleta à hipertensão. Vinha, há algum tempo, utilizando estimulantes vários para suportar o tranco dos exercícios, como um cientista, um médico, um analista pode se valer exageradamente de fórmulas na promessa da eficiência. Ao saturar a máquina-corpo com tais psicotrópicas substâncias, o atleta-crítico queria mantê-la em máxima concentração, rendimento, impedindo-a de falhar. Mas, ao contrário, a máquina, entupida dos subterfúgios energéticos, passa a rejeitá-los, vomitando-os em refluxo. Apolo, enfim, nocauteado pelas cafeínas, taurinas, argininas, citrulinas, efedrinas dionisíacas, as quais enlevam, mas sobretudo elevam a pressão. E eis uma chave para entender Corpo de festim. O de si, do crítico malhador, mas o do livro de Guarnieri, a partir de alguma dialética instaurável entre a doença do formalismo e a saúde da boa forma. No primeiro caso, a atividade física da palavra conspiraria contra um corpo finito, mortal, humano, e na direção de uma literatura abstrata, meramente conceitual e que não co-move. No segundo, o árduo trabalho visaria a uma obra concreta, artística, comovente, forte, em que pululam questões na autossustentabilidade cosmogonia-corpo dos signos.
A musculatura verbal de Guarnieri se conquista através de uma tensão (de uma contração de fibras/signos permanente), em nome de outra, a da alta pressão arterial, como que para afirmar & negar – bagunçar – os sistemas corporais. O virtuosismo do poeta está, longe de opor densidade verbomuscular a flexibilidade, em alongar e flexibilizar os signos corporais enquanto os contrai; enquanto, por um tempo, os mantém contraídos (um personal trainer diria: enquanto os mantém em isometria), a fim de estimular, com inteligência, a ambiguidade de uma linguagem endurecida. Porque, para afirmar & negar – bagunçar – o formalismo, o anatomismo ou endurecimento das vivências e convivências, traindo o que no corpo é corpo, o que no corpo é matéria, é disforme, é caos por entre todo cosmos, e é cosmos por entre todo caos, Guarnieri lança mão de um exímio e maquinal domínio da forma e das fôrmas: manipulação de todo modo cínica. De maneira que o traço de cirurgião plástico (de artista plástico, designer, projetista gráfico misturado ao do poeta) e toda a escultura fitness da poesia já não suscitem nenhum beletrismo (nada que ver com escansões decassilábicas, alexandrinas, o ostinato rigore aí impresso…), porquanto quer provocar a vigorexia lingüística, semiológica, como a doença & a saúde (a punição & o prêmio) do livro enquanto ser vivo: sua instigante monstruosidade.
Poder-se-ia dizer: Alexandre Guarnieri chega ao celebrado verbo hiper-tensivo através de exercícios de força, de resistência, de potência, de hipertrofia, conforme os diversos tipos de série encontrados nos receituários de musculação. Todas elas se baseiam em repetições de movimentos, atingindo um grupo muscular por estímulos, contrações e velocidades variadas. Desse modo, para trabalhar os músculos de determinado tema, o poeta realiza (treina) séries específicas de poemas. Veja-se, por exemplo, a de abertura (“Darwin não joga dados, Mallarmé sim”), a qual tem a gênese dos corpos por mote. Nela, o poeta realiza exercícios conjugados (outro termo familiar aos profissionais da musculação): “o átomo de carbono (i)” junto a “sangue / suor / e celulose (i)”; “o átomo de carbono (ii)” junto a “sangue / suor / e celulose (ii)”; o “átomo de carbono (iii)” junto a “sangue / suor e / celulose (iii)”, todos eles com 11 repetições lentas, desempenhando, pois, trabalho de hipertrofia. Acrescem-se, a seguir, os 2 exercícios com 7 repetições de “\\livre aberto//”, comum em trabalhos de força, mas conjugados às 15 repetições aceleradas de “átomo de caborno (iv)”, típicas de séries de resistência. Como tal, fadigam mais rapidamente o músculo, exigindo um intervalo maior de descanso para a retomada da atividade física, do próximo exercício/poema de resistência em que consistirá “(( ( útero ~ incubadora ) ))”, com vinte repetições em regressiva e progressiva (outros termos técnicos do campo) e mais vinte em progressiva e regressiva. Para encerrar, as 16 repetições/versos de “bem-vindo à terra firme”, na qual o poeta enfatiza o trabalho de resistência face ao de força e hipertrofia do princípio. Os tipos de treinamento vão se alterando e alternando até o fim do livro, como se vê nas duas séries que restam (“corpo-só-órgãos” e “vigiar e punir”), mas de maneira que a pressão arterial gradativamente se eleve, até o colapso hiper-tenso, grito final, do último poema: “uma sequência de choques, somente interrompida pela morte”.
Poder-se-ia, ainda, dizer: uma sequência de contrações somente interrompida pela morte, as quais, no caso dos músculos, compreendem duas fases – a concêntrica e a excêntrica – desempenhadas de modo sui generis pela sinergia das palavras e dos sinais de pontuação, respectivamente. A fase concêntrica é a contração realizada quando se levanta, se puxa, se retira do repouso um peso. Desse modo, é quando o silêncio pesa e pede o empuxo – a volumização – da palavra contrátil. Já a instância excêntrica se dá quando novamente o músculo se estende, se alonga, volta à posição inicial, mas não para culminar em repouso, em relaxamento (porquanto este só se cumpre no intervalo entre uma série e outra, um exercício e outro, um poema e outro…): o retorno desacelerado da palavra/músculo para o silêncio já é significante, ainda é força, linguagem, contração, só que excêntrica: preparo e iminência de novo contrair concêntrico. Os sinais de pontuação não desempenham, assim, qualquer função sintática ou mesmo qualquer semântica respiratória, posto que musculação não é atividade aeróbica: des-cadenciando o inspirar e expirar de todo aerobismo, os dois pontos, as vírgulas, os colchetes, os parênteses funcionam como a justa dobra das contrações excêntricas e concêntricas das fibras verbais.
É curioso – é bizzaro e fantástico – o fato de que, quando Corpo de festim se põe a esperar por consulta com o médico-atleta, encontra-se o doutor na antessala de outros, a cuidar de seus próprios simulacros, a partir da constatação oportuna de que é de festim seu corpo, uma vez que o prêmio da hipertrofia lhe trouxe a punitiva hipertensão. Por isso, demora, atrasa-se para a conversa com o livro. Mas como se tal demora e atraso fossem necessários ao diálogo, pois assim pode a crítica finalmente, com o enfraquecimento da ânsia disciplinar, de vigiar e punir as obras, escrever indisciplinada, quer dizer, abalada, abismada. Pode, outrossim, finalmente ouvir e dizer um Corpo de festim segundo os critérios que este impõe, isto é, a partir da medida do próprio livro:
… a crítica que deverá se submeter à obra e não mais a obra à crítica. Esta deve manter-se obediente (ob-audire, sob o cuidado do ouvir) para ouvir e corresponder ao que na obra se dará, não como fundamento, mas como a própria possibilidade de um dizer – apropriado (FERRITO in CASTRO et. al., 2014, p. 128).
Ao tratar como máquina seu corpo, o atleta-crítico defrontou-se com o risco de pifar, de falhar no desempenho. Alexandre Guarnieri não escreve um livro sobre o culto ao corpo, mas escreve cultuando com rigorosa educação física – em alta performance – o corpo das palavras e das páginas enquanto coincidentemente se refere às palavras e páginas dos mundos da ciência-anatomia. Inflando-se o humano corpo com tal formalismo epistemológico, tal fisiculturismo/maquinismo semiológico, sinaliza o escamotear das dores ontológicas pelos hodiernos sujeitos. Daí, um livro em tom de ciência, mas com timbre de poesia. Ou um livro que traz, no timbre do cientista, o tom do poeta.
Guarnieri lança o homem de nosso tempo nesta armadilha: pretendendo tudo controlar (cuidar, curar, sarar: definir), já nem controla seu próprio afã controlador, remediador, destruindo mais que sarando, porque perdendo o que no humano e na vida não é corpo definido, sarado, isto é, o que no humano e na vida não é definição. Toda definição, objetivação, é obra da subjetividade. Neste sentido, a ambivalência de um corpo sarado: o corpo bem definido, bem delimitado, cuidado, curado, até que. Até que o excessivo cuidado ou desejo de cura (o excessivo capricho da subjetividade) seja o grande descuido, a derradeira loucura. Pois, talvez, a desmesurada disciplina/ciência/definição/delimitação seja a disfunção – a morte – do corpo. E eis então tudo o que há de sarado – no crítico, nos poemas, na cultura ocidental – enquanto doente de uma ideia/ideal de corpo, de uma representação de corpo, de uma categorização e funcionalização de corpo, de um corpo reduzido a significante e significado, de um corpo perdido de corpo, isto é, de sua presença inobjetivável, a-sígnica.
Se, de alguma maneira, Guarnieri dialoga explicitamente na primeira série com Darwin e Mallarmé (pondo a questão-corpo entre o determinismo evolucionista e a indeterminabilidade – o acaso – do lance de dados), implicitamente os filósofos contemporâneos Deleuze e Foucault ressoariam no título das outras: “corpo-só-órgãos” e “vigiar e punir”, respectivamente. A partir de uma expressão cunhada por Antonin Artaud (“corpo sem órgãos”), Deleuze cria um conceito para dizer não mais de um corpo extensivo, mas intensivo. Uma vez pré-fixado, organizado, funcionaria o corpo como máquina que trabalha para a produção. Quando estamos, assim, reduzidos a um organismo, esgotamo-nos numa utilidade, funcionalidade, causalidade, inserindo-nos na vida e na sociedade para cumprir determinados fins. Neste sentido, o desejo é reprimido, os órgãos são capturados por uma lógica ordenadora, disciplinar, capitalista. Dirá Deleuze que o organismo não é o corpo, o corpo-sem-órgãos, mas um estrato sobre ele, ou seja, um fenômeno de acumulação, de coagulação, de sedimentação que lhe impõe formas, funções, ligações, ordenações dominantes e hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair trabalho útil.
Quando Guarnieri abre uma série com a expressão “corpo-só-órgãos”, é a esse organismo-corpo-represado que consciente ou inconscientemente remonta, para que, a um só tempo e ao revés, se profira um corpo liberto, fluente, vazante, sem órgãos. Daí, a sub-série “mecânica dos fluidos” dentro de “corpo-só-orgãos”, como que para (ainda usando duas expressões deleuzianas) criar linhas de fuga, ou ainda, zonas de desterritorialização de algum corpo-só-orgãos cristalizado, ou com ele estabelecer uma dialética, uma máquina desejante, uma lírica em meio a todo projeto anti-lírico das páginas, mediante o extravasamento de líquidos (suor, sêmen, saliva, lágrima, urina, bile, pus, fleugma, leite materno) por onde a corporeidade consegue se abrir a imprevistas sensações, disposições, organizações não previamente estabelecidas. Deleuze faz só uma recomendação no exercício de desorganização do corpo para torná-lo pura intensidade: prudência, cuidado, medida. Guarnieri parece ouvir o filósofo, laborando uma poética ao mesmo tempo prudente, aprumada e ousada. Decerto que, neste horizonte, a obra Vigiar e punir de Foucault apareceria menos parasita do que nutriente do livro: o livro termina com a denúncia da histórica disciplinarização dos corpos de nossa cultura; da cesura e censura imposta às corporeidades (“ânus humano (.) ônus santo”). Espécie de protagonista das disciplinaridades e controles, o próprio eu – monstro fundamentalista – a ser demitido de sua função. Se ele mesmo é – se o ideal da autoria é, se a subjetividade é – a primeira das modernas construções: o construtivismo da expressividade que, a todo tempo, Alexandre Guarnieri, com uma poesia [des] construtivista (!!!), tenta evacuar:
[…] me ausento,
austero e frígido, da cópula contigo, meu leitor (o rei que deponho
do trono da alteridade), eu me livro de você a quem dirijo estas
palavras que escrevo sem segredo e nenhum delírio, enquanto eu
mesmo me incluo (ou excluo) destas inscrições por alguma convicção
oriunda das teses, da mais seleta baderna, da efeméride dos mais
sérios intelectos, das disputas da academia sobre esta ou aquela forma
da poesia, sobre se estar decerto derivado ou negando aquela certa
métrica palimpsesta, aquela lírica policialesca de protagonista
perseguido, oriunda dos tantos diários da dor de cotovelo dos mais
célebres poetas jovens de todos os tempos, e como num número de
mágica tão misteriosamente brotado do papel impresso, como a
justificativa mais esdrúxula para a suposta geração espontânea
d’alguma coisa viva em qualquer ambiente mal fechado por descuido,
este aceite que tomado por verdade pela infância da ciência exigiria
agora, passado o susto, o mais habilidoso passe do escapista (“ah se
harry houdini voltasse às vistas!”), o artista desaparecido sem deixar
vestígio, pois quantas vezes, tanto faz se no poema ou no cotidiano,
o “eu”, essa celeuma trêmula, essa centelha presa ao medo da morte,
fincada bem no centro de uma mandala tramada no nada contra
a angústia do esquecimento, se quereria extinguir-se, retirar-se da
estrutura outrora concebida para receber a suntuosa presença da
realeza no palácio da autoria, este “em si” físico do próprio criador […]
Bibliografia:
CASTRO, Manuel Antônio de (et al). Convite ao pensar. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2014.
Igor Fagundes é poeta, ator, jornalista, ensaísta e professor. Doutor em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor de Filosofia e Estética nos cursos de Graduação em Dança da UFRJ. Escreveu crítica para o Jornal do Brasil, Rascunho, Panorama da Palavra e em periódicos de arte, filosofia e literatura. Foi colaborador da Academia Brasileira de Letras. Publicou Transversais (Prêmio Estudantes do Brasil, 2000), Sete mil tijolos e uma parede inacabada (2004), por uma gênese do horizonte (Prêmio Literário Livraria Asabeça, 2006) e zero ponto zero (2010). No gênero ensaio, publicou Os poetas estão vivos – pensamento poético e poesia brasileira no século XXI (Prêmio Literário Cidade de Manaus, 2008), 33 motivos para um crítico amar a poesia hoje (2011) e permanecer silêncio – Manuel Antônio de Castro e o humano como obra (2011).
TETELESTAI -sobre GLACIAL, o novo livro de Jorge Elias Neto
Por W. J. Solha
Como diz T.S.Eliot, no meu começo está meu fim e em meu fim está meu começo, daí otítulo acima, que encontrei encerrando a obra em pauta, como se o volume editado pela Patuá fosse resultado de muito sofrimento:
Tetelestai *
João, 19:30,
………*Está consumado!
Descobri, ali, o fio da meada: a fé e sua perda estás empre ostensiva ou dissimuladamente presente em todo o GLACIAL. O poema “Paisagem”, por exemplo, tem como epígrafe trecho de um poema de Luís García Montero:
Cada tiempo de dudas Necesitaunpaisaje
O céu se fecha. Nuvens se entrelaçam ― íntimas . Onde encontrar um caminho sem cruzes?
Vê a montagem?:“Cada tempo de dúvidas”, “O céu se fecha”. E, com “Nuvens se entrelaçam – íntimas”, percebe-se que há no estilo de Jorge Elias uma certa combinação de palavras à maneira de Lorca: Árbol de Sangre, la tristeza sinojos, méduladel alma, Verde viento, silencios de goma oscura, rosa de lacircuncisión, etc. O surrealismo – movimento a que o espanhol pertenceu – foi fortemente influenciado pelas teorias de Freud, enfatizando a função do inconsciente na atividade criativa. Justamente como uma reação a uma arte que estava destruída – olha a pedra no sapato do poeta capixaba – pelo racionalismo. O tom, aqui bem leonardesco – todo non finito e sfumato – se torna mais poético, fala mais.
“Onde encontrar/ um caminho sem cruzes?”
O trágico é que o poeta sabe, todos sabemos, que isso não existe. Passei minha mui distante infância ouvindo Orlando Silva cantar:
Sou um covarde e bem sei
que o direito é levar a cruz até o fim,
mas não posso,
é pesada demais
para mim.
Há um poema de GLACIAL,“Rês”, em que Jorge Elias assume o papel da vítima, já que o dito uso da razão lhe é doloroso, uma cruz. Como se tivesse nascido em local demarcado pela estrela de Belém, diz:
Eis o meteoro /da impaciência / que destrincha a carne,/que fratura/o tempo e/me descobre/tenro,/palatável,/em meio/aos estilhaços/da urgência.
“Tenro” e “palatável”, porque está pra virar hóstia na própria Ceia. Por que, se perdeu a fé? Justamente porque resfriado nas /evidências da razão / – que não basta.
A razão não lhe basta. E ele diz em “Reinício” – entre mensagens cifradas:persigo sua imagem,/ Deus dos homens. Daí que ficamos com um poeta… relutantemente… místico, feito um Eliot, William Blake, um San Juan de la Cruz … “gauche”, como que por ordem do mesmo “anjo torto” de Drummond. No poema ‘Cronópio”, inclusive, ele se diz – contrariando Cristo – serfiel depositário de um torrão de açúcar, mas termina concluindo que Caronte – o barqueiro o inferno – aguarda o sal da terra. E aí, curiosamente, entramos no clima que justifica o título do livro:
O inverno é longo, o bastante para que a neve reaja a esses rudimentos de liberdade extinta.
Que inverno? Suponho que seja o “inverno do nosso descontentamento”(the winter of our discontent, conforme diz Ricardo III na peça homônima de Shakespeare ). Seguem-se poemas que falam em desandada tristeza, desespero (“Simetria do Caos”), condenação de loucura (“Assim & Assado”) e, doutoralmente, concluo que – parece-me – nosso Doutor Jorge Elias Neto já sofreu muito, viu sofrer… e talvez tenha feito sofrer muita gente…
– Havia uma alternativa / em alguma gaveta / queimada para não morrer /de frio.// Uma aspirina /entre duas torturas.
Ele diz, no poema “Matilha”:
Nomeados os lobos, desembainhei os caninos ………..– incógnitos – e ensaiei a dança solitária do uivo na imensidão austral.
A vida, já dizia Voltaire – maniqueísta – quando não é complicação é “Tédio” – título, por sinal, de outro poema tenso, onde O nada /é um cansaço/que dá sono.
E eis aí outra forma do branco eterno, de GLACIAL: o nada. Jorge Elias fala, em “Fração do indizível”, numa …biografia/ de renúncias /e equívocos.Fala de solidão: Minha distância / não é exercício de retórica,/ apontamento /de um ególatra.
Mas por que é tão racional?
Não me cabe o sedentarismo da crença, o fervor no púlpito.
Não me envaidece, não me encoraja (…) escovar os pelos que agasalharam erros.
Isso faz dele um dos “desterrados Filhos de Eva” – como diz a antiga oração –“gemendo e chorando neste vale de lágrimas”
Amanhecer
É setembro. escorrem as primeiras lágrimas das montanhas dos Andes,
Veja – no final do poema “Sobre anjos e blasfêmias” – o Gênesis numa versão conto de fadas:
Só que um toque atrevido,
por delicado que seja,
faz desabar o enigma
(Chamam a isso: pecado.)
Enigma = pecado. Isso nos leva à velha estória:
E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; Há uma culpa – máxima culpa, talvez- em jogo. E Jorge Elias diz, em Portal dos anjos:
Anjos …
Dou-lhes de presente
minha sanidade.
Sei o que me custará
rolar a cabeça no acaso …
Anjos de poeta não implodem,
esvaem-se da cabeceira
da cama do menino.
Retornam para a dimensão do sonho
que se teve
e se dispersou com a razão.
Anjos …
Retribuo com o poema a vigília
e peço que devolvam a Paulo
o patibulum e a culpa.
“Esvaem-se da cabeceira / da cama do menino”. Ah, caramba, eu mesmo tinha, em minha… cabeceira de menino…, um quadro em que um belo anjo da guarda acompanhava um casal de garotos atravessando uma decrépita ponte de madeira sobre o abismo, numa tempestade!
Anjos de poeta não implodem, esvaem-se da cabeceira
da cama do menino.
Retornam para a dimensão do sonho
que se teve
e se dispersou com a razão.
Ele sente isso. E o que faz?
Retribuo com o poema a vigília
e peço que devolvam a Paulo
o patibulum e a culpa.
O que tem o apóstolo da epístola com isso? Creio que Lacan tem parte na estória. Em 1960, em seu Seminário sobre a Ética da Psicanálise,
retoma textos antigos, como a Epístola aos Romanos, de São Paulo, “tu, que te glorias na lei, desonras a Deus, transgredindo a lei”(…) “porque pelas obras da lei não será justificado nenhum homem diante dele. Porque, pela lei, vem o conhecimento do pecado”.
Aí está, novamente, o pecado, o enigma que faz o poeta se sentir perdido no
gelo intransponível.
Daí esse tatear – essa procura.
Adam Smith disse em A Riqueza das Nações, 1776:
…não é da benevolência do padeiro, açougueiro ou cervejeiro que se pode esperar o jantar, e sim do empenho deles pelo que irão… lucrar.
Luis Büchner,em O Homem Segundo a Ciência, 1869, sobre o comunismo:
– Todas as tentativas do gênero têm falhado vergonhosamente e afirma-se que, por causa da fraqueza, da insuficiência da natureza humana, falharão sempre.
Insuficiência. Em GLACIAL, de Jorge Elias Neto, há um poema chamado “Insignificância”, em que ele fala:
O céu conspira dentro de mim, ponto sujo no útero da neve.
Insignificância, é o título do poema. Insuficiência, diz o também médico Büchner. E veja isto, em “O Arco e a Lira”, de Octavio Paz:
– A necessidade de expiar, como a não menos imperiosa da redenção, brotam de uma falta; não no sentido moral da palavra, mas em sua acepção literal: somos pouco ou nada diante do ser que é tudo. Nossa falta não é moral: é insuficiência original. O pecado é ser pouco.
Temos aí, portanto, uma bela correção ao Gênesis, que tem a ver com a “insignificância” de Büchner e Jorge Elias.
Veja, mais uma vez, o começo do mundo, no primeiro poema de GLACIAL:
Compondo o sitio arqueológico
A vastidão
é uma pedra
redonda e fria.
Grande esfera
onde deslizam
e desabam as criaturas.
O horizonte ‒ gelo
intransponível.
Daí esse tatear – essa procura.
A obscura arqueologia de esconder-se.
E, no silêncio, no cu
desse branco profundo,
aguarda,
e se expande,
e fulgura,
o jardim das epifanias.
Epifaniaé uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência de algo. E com a última estrofe, Jorge Elias cria, de cara, um choque estético. Mas, curiosamente, no poema “Insignificância”, repete a cena com outro palavreado:
O céu conspira dentro de mim, ponto sujo no útero da neve.
O que faz o Inconsciente! Substitui no cu / desse branco profundo, pelo Self do poeta, ponto / sujo no útero / da neve.
A faca yanagui
despregou da glande
a gota de sêmen.
Resgatou da solidão
o vicio cuspido.
“Solidão”, “Vício”, “faca” – é difícil não pensar em “vício solitário” – masturbação, como também em castração. Mas estamos… dissecando um poeta, e – segundo seu colega Paul Valéry – A meditação é um vício solitário que cava no aborrecimento um buraco negro que a tolice vem preencher.
“Tolice”? Ou… “epifanias”? Ficamos pasmos, sempre, com o inter-relacionamento de tudo que é humano. Voltemos aos poemas: eles falam em “gélidos desfiladeiros ladeando avenidas”, “enormes geleiras que sentenciam à morte os que ignoram a cronologia do desespero”, “cristais, cristais e mais cristais desabam e lancetam a alvura”, um caos, enfim. E aí lemos:
No caos, chupando manga
O poeta se debruça no caos
chupando manga
e a Lei suprema
se mistura
— indissoluta —
às fimbrias que teimam
em persistir
agarradas
entre os dentes.
Daqui do Nordeste, de onde escrevo esta resenha, saiu a avó de Jorge Elias, a quem ele passava horas ouvindo cantar e recitar cordéis, como ele diz numa entrevista a Hilton Valeriano. Pois bem: “cão chupando manga”, aqui, significa alguém muito especial no que faz. “Ariano Suassuna? É o cão chupando manga!”“No caos, chupando manga”, portanto, é uma volta por cima, num hábil jogo de palavras. Porque se trata do desprezo pela fonte de seu tormento:
e a Lei suprema
se mistura
— indissoluta —
às fimbrias que teimam
em persistir
agarradas
entre os dentes.
E tudo termina como se houvesse, por fim, um acomodamento. O poeta está produzindo… e basta. Será?
Inércia
(…)
O gelo conservou os corpos. Os gestos ….— consumidos pelo desespero — permaneceram.
Mas nem Baudelaire, Poe, Augusto dos Anjos… ou Jorge Elias – como todos nós – permanecem o tempo todo “pra baixo”. O que os faz, o que nos faz assim? A vida. C´estlavie. E isto é um belo poema:
Um resto de sol no desalento
Ocupo-me de uma febre
sem propósito.
Modos existem
de forjar os dias,
principiar universos, rir do descomunal
segredo da vida …
Mas não nessa noite gelada em que persisto centelha.
Eis a última pele ― a palavra ―
que se desgarra inapta
a prosseguir
afirmando
o esplendor da verdade.
W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora, pela qual também lançou seu segundo poema longo, Marco do Mundo, em 2012, a que se seguiu Esse é o Homem, em 2013.
Há algumas semanas, ao saber que tinham outorgado o prêmio Nobel de Literatura 2014 a Patrick Modiano, fiquei duplamente feliz: como leitor e autor. Na condição de leitor, porque acompanho as publicações de Modiano no Brasil desde os anos 1980, e é como se ele, junto a mim e outros leitores, “esculpisse” sem o saber, livro a livro, o ambicionado prêmio; na de autor, sinto-me naturalmente recompensado, porque, de fato, um escritor recebeu o Nobel por fazer Literatura, e não política literária ou por praticar atividades de arredor, usando a Literatura como cabide ou degrau. Prêmio justíssimo, portanto.
À parte Dora Bruder, que reconstrói um fato real da perseguição alemã aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, o que por si só já constitui uma lição de humanismo, todos os demais livros de Modiano publicados no Brasil, e que se assemelham na condição de romances breves, de pouco mais de cem, 120 páginas, apresentam aspectos altamente relevantes para o prazer e o proveito do leitor, bem como para a sua formação e seu aprimoramento. São peças de um virtuose de sua matéria. E não importa o assunto, se o nazismo ou o amor, o tratamento é sempre o mesmo: os personagens parecem assombrados, engolidos pela realidade, que não conseguem compreender, muito menos dominar. E, como num sonho, vão se deixando conduzir e imolar. C’est la vie.
Há anos que recomendo a leitura de Modiano a amigos e alunos, mas, infelizmente, poucos me levaram a sério. Ou talvez só este e aquele, mais próximos, o tenham feito. Agora… Bem, agora é realmente outra história. Mas a verdade é que todos os livros de Modiano publicados pela Rocco no Brasil estão esgotados. O leitor vai ter que esperar por edições novas. Enquanto alguma editora ou mesmo a Rocco as preparam (de forma apressada, certamente), o leitor mais afoito terá que se aventurar em idas aos sebos e se contentar, não raro, com exemplares surrados, enxovalhados, oferecidos a preços não mais assim tão convidativos, afinal o cara agora é um Nobel, e o livreiro espera lucrar com esta rubrica.
Livros de Modiano
Não sei se por influência do gosto do leitor brasileiro ou se por circunstância de nossa educação, sempre uma lástima, entra governo sai governo (e o atual, firmado na trapaça, constitui o paroxismo desta vocação para o desprezo ao conhecimento e às artes), o certo é que nossas editoras insistem em publicar mais do mesmo (autoajuda sempre, “coelhos” enquanto dure a inocência dos leitores, “vampiros” por um tempo de sangue, “tons de cinza” a par de ereções e mamilos tensos etc.), ao passo que esnobam a Literatura em quase todos os seus gêneros e idiomas. E, então, de súbito, somos surpreendidos por um fato como este: o autor prêmio Nobel de Literatura de 2014 não tem, muito embora sua extensa obra, sequer um livro em catálogo no Brasil. “Nenhum Modiano nas estantes”, poderíamos dizer.
Afortunada foi a CosacNaify que, ao programar para este ano a publicação do infantojuvenil Filomena firmeza, que reúne o texto de Modiano aos desenhos do extraordinário Sempé, demonstrou mais uma vez a sua vocação para as boas escolhas e a qualidade literária. E, se tornou, não por acaso, a porta de entrada de Modiano ao leitor brasileiro.
Certa vez escrevi este poema, breve como deve ser: “À tartaruga a linha de chegada parece longe,/ Mas, passo a passo, ela a transpõe,/ Enquanto aos coelhos cabe alcançar o horizonte”.
Claro que estou citando a velha fábula tantas e tantas vezes referida por tantos e tantos autores, nos quatro cantos do mundo, mas que parece compor uma alegoria perfeita desta inusitada situação: de que um autor como Modiano, paciente e cioso do seu ofício, chegue naturalmente, e talvez sem o desejar, aonde muitos coelhos afoitos gostariam de estar desde o primeiro momento. Ao menos para mim, seu fiel leitor, esta ironia tem sabor de desforra.
Mayrant Gallo é escritor e professor. Autor de “Os encantos do sol” (2013) e “O inédito de Kafka” (2003).