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88ª Leva - 02/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A crônica e a crônica de José Saramago

Por Gustavo Felicíssimo

 

José Saramago / Foto: divulgação

 

Sempre fiz da literatura uma espécie de sacerdócio. Organizei encontros com escritores, editei jornais e revistas, publiquei uns tantos livros, colaborei para a publicação de outros tantos e fiz um percurso literário priorizando a publicação de poemas, afinal, era perda de tempo um autor tão pouco lido, e naquele momento tão jovem, se precipitar a publicar contos e crônicas apenas porque era conhecido de meia dúzia de leitores dessa nossa imensa Bahia de todas as dores.

Como durante algum tempo mantive-me publicando em jornais, revistas e no meio virtual, artigos sobre poesia, algumas leituras que fiz se deram um tanto por obrigação de ofício, outro tanto por conta de uma vontade insana de colocar à prova as leituras teóricas que detinha a fim de adequá-las à minha visão particular sobre o fazer poético, e por fim, sobre o poema.

Embora me sinta poeta em tempo integral, todos os dias, as leituras que sempre e mais animam meu coração sucedem da crônica, essa forma literária que nos impele à reflexão, em que o narrador está desnudo e desvelado, especulador e concludente, poeta e ficcionista. Um gênero literário cujo conceito é altamente variável e que pode englobar tudo: páginas de memória, lembranças de infância, flagrantes do cotidiano, comentários metafísicos, políticos, considerações literárias, filosóficas, poemas em prosa, trechos de romance. Mas é o tratamento com feição ficcional que muitas vezes lhe é dispensado, aproximando a crônica de verdadeiros contos, que lhe dá a qualidade artística digna de grandes mestres, como é o caso de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino ou de um Saramago, a respeito de quem passamos a tecer alguns comentários a partir das próximas linhas.

Devo admitir que não li ao todo mais que três ou quatro romances de Saramago, e que pouco ou quase nada soubesse de suas crônicas até ler algumas, dessa vez por ofício de estudante, graduando que sou em Letras. Delas o que me ficou foi a certeza que trazia comigo há tempos, que sua prosa é um exemplo de apuro do instrumento literário, para dizer o mínimo, dado que atualmente é impossível qualquer análise da prosa em língua portuguesa sem o conhecimento e o inevitável reconhecimento de sua obra, como atesta a imensa lista de estudiosos e críticos que possuem consciência do seu legado, à qual não falta em doses certas, reflexões existenciais, críticas, ironia, humor, a mais íntima relação com suas crenças ideológicas e observações ligadas às fontes da vida.

Pelas crônicas de Saramago abundam exemplos do seu compromisso com a sociedade e o desconforto sentido com a circunstância do homem entre os homens, coisificado, como em “O grupo”, mas que procura dentro deste mesmo universo uma ressignificação dos próprios valores, da existência, assim como vemos também em “O cego do harmónio”, texto que ainda apresenta em si, assim como em “O inevitável poente”, uma narrativa de envergadura onírica, em que se nota acentuada inclinação do escritor para os domínios da poética.

 

José Saramago / Foto: divulgação

 

Entre os textos selecionados, um em especial chama a atenção, é “A palavra resistente”, em que o autor sugere ao leitor a escolha de uma palavra qualquer a fim de dizê-la seguidas vezes até que sentido e densidade se esvaiam ao ponto de se transformarem num articulado sonoro, que nada exprime. É evidente que a sugestão de tal experiência pouco ou nada importaria se o próprio autor não a tivesse vivenciado pessoalmente. E viveu. A palavra escolhida por Saramago foi “horizonte”, repetida insistentemente por ininterruptas cinquenta vezes para enfim descobrir que o prestígio que ela possui advém do caráter particular daquilo que exprime. Ou seja, para Saramago o horizonte não simboliza apenas o espaço que a vista abrange ou a linha que limita circularmente todas as partes da terra que se podem ver de um ponto determinado. Para ele, tal palavra possui dois sentidos: o próprio, que exprime a realidade contra a qual nada se pode fazer, posto nos ser impossível estar no horizonte, esse lugar que tanto mais se afasta quanto mais queremos nos aproximar. E há também o figurado, o que em verdade mais importa, pois é o lugar no qual se aclaram as perspectivas do amanhã.

Neste ponto tudo parece palpável, lava-se com o poder da palavra o rosto da realidade de pedra, afinal, existimos sobre o mesmo chão e sob o mesmo céu, muito embora cada um de nós traga consigo seu horizonte pessoal mais ou menos alargado, a depender do ponto de vista. Saramago nos guia para o ponto nevrálgico do texto: a questão da realização pessoal. E assim, horizonte não é mais um fenômeno dado apenas ao sentido da visão, mas às perspectivas que a palavra revela em si e na confluência com tudo o que é humano. Para uns significará a realização de um propósito, para outros, se revelará na satisfação de se empreender qualquer tipo de esforço e não apenas no resultado final de sua consecução.

Escolhi também a minha palavra, e foi “silêncio”, algo que uma alma irrequieta como a minha necessita em altas doses. Descobri muitos silêncios, o primeiro deles encontrei naquilo que faço agora. Escrever é refletir e silenciar. Por sorte, o lugar onde escrevo é o meu santuário, nada comparado à turba que se faz lá fora. A cidade e seus pregões. E como escrever não se faz sem o ato de ler, o que requer penetrar surdamente no reino das palavras, como aconselha Drummond, um e outro verbo estão intimamente relacionados ao substantivo silêncio. Mas existe outro silêncio, maior e mais duro, incrustado no íntimo de cada um de nós. Ele nos emudece aos gritos e se o conseguimos ouvir, lá no fundo do nosso ser, estará dizendo de nós o que pouco estamos acostumados e que a ninguém necessitamos revelar.

Escuta-me, leitor, pois me revelo mudo. Disse isso em um poema. E se me coubesse fazer uma pergunta ao Silêncio, uma pergunta apenas, certamente seria a seguinte: O que anseia dizer? Ele responderia: de nada adiantam as palavras se não me conhece por dentro, se não consegue me ouvir. Eu sou a pedra de toque que a tudo transforma, arremataria.

Chega de divagações existenciais. Melhor voltar ao Saramago e suas crônicas, pois nelas, assim como em tudo, e a tudo que faz, Saramago parece impor seu modo particular de enxergar vida e existência, sua atividade de escritor e o papel de intelectual, nunca se resignando, antes se indignando com todo tipo de iniquidade, certo de que um homem digno é um vagabundo a menos no planeta.

Muito mais poderia dizer sobre as crônicas do bardo lusitano, mas como se aproxima o horário de estar na universidade e entregar o texto à professora, pois como dizem os mais antigos: manda quem pode, atende quem tem juízo, arrisco dizer, enfim, que, embora o gênero pareça estar destinado a temas limitados no tempo, escritos para um leitor que compartilha desse tempo, a crônica, pelo seu valor intrínseco, ou seja, pelo seu hibridismo, encontra em José Saramago um dos cultores mais originais – quer pela graça, quer pela seriedade dos temas que aborda – e determinantes para a definição da real dimensão e status do gênero entre os gêneros literários.

 

Gustavo Felicíssimo é escritor e editor da Mondrongo Livros. Publicou “Diálogos: panorama da nova poesia grapiúna” (Editus/Via Litterarum, 2009) e “Blues para Marília” (Mondrongo, 2013).

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

DEUS, O NOME

Por Anderson Fonseca

 

Seria o tempo a sucessão de um mesmo nome? Será a história a diacronia semântica de um único nome?   Segundo a Bíblia, sim. Este livro é a transformação de um mesmo e único nome, Deus, que se revela em cada verso, cada estrofe, cada personagem, como se todos os elementos que constituem a narrativa fossem um aspecto desse nome, e a história fosse a sucessão do nome em diferentes circunstâncias.

Logo, a história na Bíblia é o desenvolvimento de um único nome, e o tempo, a sucessão desse nome que se repete indefinidamente, e os personagens, a sua sombra. Isso leva-nos a pensar que o nome Deus é a realidade subjacente do qual tudo é apenas um reflexo. A literatura seria, portanto – tomando-se a Bíblia como modelo –, o desenvolvimento semântico de um único nome. O nome Deus repete-se e se transforma em literatura, e a literatura é, quanto a esse nome, a historicidade da palavra. O nome sucede-se no tempo, ou o tempo é a sucessão desse nome no pensamento.

No livro de Êxodo, cap. 3, 14, Moisés indaga a Deus seu nome, e Ele responde: “Eu Sou O Que Sou”. Mas o nome ainda não é o Nome, pois lhe falta uma letra que entregaria sua natureza real. O Ser apenas disse a Moisés o que Ele é, não lhe revelou quem, e sim, o quê. Eis outro aspecto do nome, cujo significado é desvelar a natureza do ser nomeado. Entretanto, a narrativa bíblica nos apresenta outro olhar, o nome não leva à compreensão da essência, porque em qualquer substantivo falta-lhe uma letra, cuja função é trazer à luz a natureza do ser nomeado. Deus não disse Seu Nome, apenas substantivou o que Ele em si é, o É. Ser em si o que é, ou Ser em si o É, revela-nos sua atemporalidade. O nome de qualquer ser é atemporal, a temporalidade surge quando o nome é envolvido pela circunstância. Ser o ser, ser o É, não está em quando, porque o Ser-É-em-si, é um nome ao qual não há tempo. O tempo do nome é sua transformação circunstancial segundo outra voz. Aí, o Ser-é tornar-se o Ser-será, o Ser-foi, o Ser-seria.

A palavra Ser é verbo, mas também é substantivo, porque nomeia; e, segundo a gramática, é um substantivo abstrato na forma infinitiva. O infinitivo aponta a atemporalidade do nome, se este nome é conjugado pela relação voz/circunstância, torna-se sou, és, é, somos, sois, sereis, e etc. O Nome em si é extemporâneo, mas através da relação com outro nome (de um substantivo com outro substantivo) surge a sucessividade e o Nome passa a sofrer a presença do tempo. Deus é enquanto Nome, contudo a repetição do Seu Nome é a razão da sucessão. Portanto, o tempo seria a sucessão de um mesmo Nome no pensamento. Se Deus é, Ele é hoje, ontem e amanhã; a presença do é, atesta que o tempo é uma ilusão, sua experiência só o é real, devido a relação estabelecida com o conceito que se repete, até por que a repetição de uma mesma ideia admite a negação da relação anterior e o surgimento em seu lugar de uma nova. A literatura é a sucessão desse Nome, e a sucessão do Nome é a causa da narrativa. Conforme a Bíblia, a narrativa seria a repetição de um mesmo nome em diferentes relações estabelecidas com ele. Chega a um limiar em que não se sabe se o Nome transformou-se ao longo da narrativa (história) ou se a narrativa é a transformação contínua desse Nome. Quando se lê a Bíblia, está lendo-se a narração de um nome que se transforma ao longo dos séculos.  A Literatura é, portanto, a narrativa de um Nome.

Contudo Moisés não conheceu o Nome de Deus, faltava-lhe uma letra e, devido a isso, o Nome se transformou na história, transformou-se semanticamente. A narrativa seria a busca de encontrar a letra que falta ao Nome. A ausência dessa letra levou a atribuição de outros nomes (qualidades) como modo de completar o Nome. Assim, Deus passou a ser chamado de Justo, Santo, Amoroso, Verdade, etc. Essas qualidades que em si são antropomorfismos nascem da necessidade do homem compreender a Deus, porque dEle o homem só tem por conhecimento um Nome incompleto.

Moisés esperava de Deus saber seu Nome, mas Deus não lhe disse, apenas falou-lhe o que Ele é. Quem sabe Moisés planejasse com a descoberta do Nome dominar o deus que lhe apareceu. Mas ao ouvi-lo, reconheceu a impossibilidade de tal façanha, porque seu conhecimento limita-se a uma palavra, cujo sentido encontra-se na falta. Por mais que buscasse, jamais descobriria quem é através do nome que foi lhe dado, pois ao nome faltava-lhe uma letra. Cabe ao homem, agora, preencher o vazio deixado ao Nome com outros nomes, cuja função principal é qualificar (acidentar) para ser racionalizável.  O Nome será interpretado pelo homem por meio da racionalização de Seu vazio. A interpretação fundamenta-se na falta que há no Nome, porque no momento em que é interpretado, o Nome está sujeito a abstrações, i.e., ao receber características que não lhe pertencem para torná-Lo entendível. A Literatura, logo, é a letra que falta.

A letra que falta é a razão do Nome ser na narrativa, e a narrativa, a sucessão desse Nome, e, enquanto narrativa, o Nome existe. Portanto, Deus existe como narrativa de si mesmo.

 

Jorge Luis Borges / Foto: divulgação

 

Jorge Luis Borges escreveu no poema Uma Bússola:

 

Todas as coisas são palavras lidas
Na língua em que Algo ou Alguém, noite e dia,
Escreve essa infinita algaravia
Que é a história do mundo.

 

Jorge Luis Borges em toda sua obra parece buscar o Nome, porque o Nome seria em si a própria obra. O livro Ficções é o desenvolvimento desse Nome, um Nome que se repete, e que se converte em história. Nos contos A Biblioteca de Babel, A morte e a bússola, Três versões para Judas, e O Fim, Borges trabalha as versões desse Nome; ele faz uma releitura.

Em A morte e a bússola, uma série de assassinatos marca a busca pela reconstituição do Nome Secreto. A primeira morte, a do personagem Yarmolinsky denuncia o labirinto, porque até seu assassino contém no nome a metáfora do labirinto, Scharlach. Ou seja, a vítima começa com Y e termina com y, e o assassino com Sch, e termina com ch, fechando um círculo. O nome Deus em hebraico YHVH seria outra imagem do círculo, cujo significado oculto é eternidade ou a repetição infinita da mesma série de eventos. Nessa metáfora, Deus seria a história circular, a repetição de um Nome infinitamente até que os elementos desse nome tornem-se uma extensão dele, i.e., uma narrativa. O narrador escreve: “a tese de que Deus tem um nome oculto, no qual está compendiado seu nono atributo, a eternidade – isto é, o conhecimento imediato de todas as coisas que serão, que são e que foram no universo.”

Em Três versões de Judas, o narrador diz: “a traição de Judas não foi casual; foi um evento predeterminado que tem seu lugar misterioso na economia redenção.” Em outra passagem, escreve: … “que infinito castigo seria o seu, por ter descoberto e divulgado o horrível nome de Deus?” Os trechos confirmam a tese de que Jorge Luis Borges, assim como eu, e como qualquer cabalista, vê a história como uma sucessão de eventos ou desdobramentos de um mesmo Nome. No conto O Fim, o narrador afirma: “a planície está por dizer alguma coisa, nunca o diz ou talvez o diga infinitamente e não a compreendemos, ou a compreendemos, mas é intraduzível como uma música”.

No poema O Golem, Jorge Luis Borges escreve:

 

Se (como o grego no Crátilo di-lo)
Da coisa o nome é sua ideia pura,
Nos sons de rosa a rosa é e perdura
E todo o Nilo, na palavra Nilo.

E, feito de consoantes e vogais,
Nome terrível há de haver, que a essência
Cifre de Deus e que a Onipotência
Guarde em letras e sílabas cabais.

(…)

Gradualmente (como nós) viu-se ele
Aprisionado na rede sonora
Do Antes, Depois, Ontem, Enquanto, Agora,
Direita, Esquerda, Eu, Tu, Outro, Aqueles.

 

O Golem é o simulacro do Nome, assim como a história, uma infinita repetição das letras que o compõem num espaço circular – o labirinto.

A obra borgiana, tal como a Bíblia, é um desdobramento do Nome Deus, nome que se torna o próprio tempo, e que através da história afirma sua Eternidade. O tempo se nega e se afirma no círculo que é a repetição infinita desse nome YHVH.

 

Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará.

 

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87ª Leva - 01/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

O amor enquanto privacidade

Por Sérgio Tavares

 

 

Superado o queixume sobre a disseminação irrefreável da tecnologia portátil, o escritor norte-americano Jonathan Franzen chega ao baú onde guarda as velhas cartas de amor compartilhadas por seus pais, no terço final do ensaio ‘Só liguei para dizer que te amo’, abrigado na coletânea ‘Como ficar sozinho’ (Companhia das Letras, 2012). Para ele, os registros dos vocábulos sedimentares para a edificação do amor de que foi resultado servem para confrontar o uso indiscriminado do ‘eu te amo’ ao término de uma chamada telefônica, um tipo de código vulgar do século XXI para dar fim a uma conversa. Franzen questiona a qualidade do sentimento. Se há, em sua manifestação pública e suplementar, a mesma textura conservada naqueles papéis enviados com a carga de quem, debruçado sobre as margens, perdeu-se em horas a fio, exilado num universo bidimensional, para condensar em poucos parágrafos a imensidão dos desejos, das angústias, da vontade incessante de estar junto. O amor a sério, conclui-se findada a leitura, carece de pertencimento. Ocorre num grau sobrelevado de intimidade necessário para projetar no outro a mesma voltagem que pulsa em si.

Em seu magnífico romance de estreia, a escritora e artista plástica gaúcha Helena Terra trata da complexa gestação do amor enquanto privacidade. Narrado em primeira pessoa, ‘A condição indestrutível de ter sido’ (Dublinense, 2013) traz a lume a amostra de um movimento nato da era hipertecnológica: os flertes firmados no mundo virtual que, justamente por prescindir de pessoalidade, acabam por minguar sem culpados e feridos. A protagonista, de quem não se sabe o nome, entretanto, vai além. Depois de criar um blogue com conteúdo munido por postagens coletivas, ela se atrai por um participante em especial, Mauro, um sujeito que se apresenta bem letrado e cativante, propondo um diálogo privado, uma troca rotineira de e-mails suscitada à base de elogios correntes e versos de Baudelaire. A narradora de pronto se envolve e, à medida que o interlocutor virtual vai trazendo à tona aspectos da sua vida real, um estreitamento de afeto se consolida, bombeando, interações após confissões, combustível necessário para rutilar um sentimento incapaz de ser expresso apenas com a ortografia computadorizada. A maneira de lidar com essa emoção sem freio é o ponto de partida da trama.

Helena Terra propõe acompanhar o erguimento de uma construção que, a qualquer instante, inevitavelmente se demolirá. Por certo, desdobramentos malconformados para relacionamentos não são nenhuma novidade na literatura contemporânea. Basta escolher um livro do Ian McEwan, a seu gosto. O diferencial (e o brilho) fica por conta da visão sobre o tema. Nesse caso, a tessitura da relação compete efetivamente ao relato de apenas um dos envolvidos, fornecendo um ponto de vista, senão suspeito, ao menos desfalcado. O outro, enxergado sob um anteparo, se desenvolve a partir das qualidades e dos defeitos que se convencionam a ele, portanto uma projeção dos próprios desejos e aflições daquele que narra, o produto idealizado de um processo psíquico. Ao situar o despertar dessa paixão no plano virtual, a autora potencializa o mergulho às cegas na experiência de amar. As veracidades das palavras e da própria afeição, a armadilha do anonimato, perdem atenção diante da ansiedade do próximo contato, do piscar do novo e-mail na caixa de entrada, uma espécie de dependência que ocorre de um sentimento transtornado já sem nome, uma condição intratável.

O resultado é a quebra de todas as regras, a perda das rédeas do próprio domínio. Em dado momento, a narradora condiciona que não trocariam imagens, não obstante a promessa será desfeita por ela mesma numa decisão extrema. Mauro conta ser casado, com dois filhos. Fato moralmente questionável diante do rumo do envolvimento, mas ela frivolamente não leva em conta. O mundo inventado para ambos, que se deslinda à redoma que a protege em frente ao monitor, é sustentado por uma sobrecarga sensorial, ou melhor, unicamente pela idolatria. Tanto que, ao surgir uma pausa na comunicação, o efeito é de abstinência, uma avalanche de autoquestionamentos sobre o motivo do sumiço que a arrasta para fora dos limites interiores, numa viagem tomada em revide para o mais longe possível daquilo tudo (um país insular espertamente escolhido pela autora, cujo acesso a internet é caso de censura). Em território estrangeiro, a narradora interage com outro homem, porém Mauro, o seu Mau, é uma sombra constante, dado que, apesar da distância geográfica e da escolha de não ligar o computador, o mundo segue funcionando dentro de si, um mundo imantado pela carência. Não por menos, quando retorna, ela resolve agir de forma contundente, derrubando a barreira dos caracteres na tomada da tal decisão extrema com o uso de fotografias.

Sem precisar recorrer a centenas de páginas para dar profundidade e alcance ao enredo, Helena Terra demonstra habilidade e segurança ao ir fundo na análise da vulnerabilidade humana. O risco de dar voz a uma personagem definida por uma confusão de emoções, aferrada numa busca indomável pela completude em outro corpo, é anulado por uma prosa delicada e bem polida, que recorre a paralelos e metáforas sem derrapar na pieguice, encontrando, em capítulos curtos, a dinâmica perfeita para provocar no leitor o interesse pelo desdobramento até a última página. A escritora propõe o amor como uma reação incendiária dentro de uma cápsula que, ao entrar em contato com o exterior, não queima, sofre desnaturação ao alcançar intimidade. Se existe uma cumplicidade em seus atos, a narradora dessa história de (des)amor é cúmplice exclusivamente de si.

No passado visitado por Franzen, sua mãe questiona o grau de afeição do seu futuro esposo, dado que este nunca tinha assinado uma carta com ‘eu te amo’; fato contestado pelo filho-escritor diante de outros gestos do pai que igualmente exprimiram amor de uma forma particular. Antes e depois do advento da internet, quando alguém tenta conformar um outro a ser amado, paixão e ilusão se confundem.

 

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A SOBREVIVÊNCIA DO EFÊMERO E A FALÊNCIA DO PASSADO

o contorno só interessa aos apressados

Por Jorge Elias Neto

 

Foto: Bruno Kepper

Afinal, é chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balburdia multimidiática de nossos dias.

Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias, um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.

E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.

O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.

Mas deveríamos contestar a sutileza do instante e a beleza do efêmero? Faz-se necessário então conceitualizar o que costumamos chamar de instante e de efêmero.

O adjetivo efêmero é derivado do grego ephêmeros, -os, -on, que dura um dia. Em sua origem, a palavra efêmero nos diz da poesia das águas perenes dos riachos que só existem durante o degelo ou a estação das chuvas; da flor da noite que desabrocha e fenece ao longo da madrugada. Efêmero é a imensa amplidão da transitoriedade fugidia.

Daí, se dizemos: Está suspensa a transitoriedade das insignificâncias, não é uma imposição, é muito mais, é uma exposição. Nos expomos ao deixar transparecer o desespero por resgatar o sentimento do homem pelo efêmero; dizer do que repica no peito, da percepção da urgência de que o homem reaprenda a aquaplanar o momento, ocupando com silêncio e reflexão o espaço que sucede à transitoriedade do instante.

É isso – buscar no instante o paradoxo da pausa.

Mas é outra a definição de instante que nos coloca à deriva. E os dicionários são precisos, diria premonitórios, quando nos apresentam o adjetivo instante (derivado do latim instans, – antis, – are) como aquele que insta, que insiste com obstinação, que vai logo, iminente, URGENTE – que diz uma necessidade premente. O sufixo – are diz da soberba humana, da vontade de poder, estar de pé, erguer-se (o deus bípede, que se aproxima – ameaçador). Quando utilizado como substantivo masculino, a palavra instante traduz-se no “menor espaço apreciável de tempo, momento, ocasião”.

E eis o homem colocado à deriva no mar da pós-modernidade, sujeito às intempéries dos instantes impostos e desejados. E esse ser fluido, partícula em suspensão nesse mar batido de uma sociedade de consumo, torna turvas as águas do Planeta.

Onde encontrar tempo para o espasmo diante de uma imagem fulgurante, não a imagem digitalizada, pixelada no écran da mídia de bolso, mas a imagem efêmera, construída pacientemente, pela evolução do deus Darwin?

Quando jovens, aprendemos com nossos ídolos a valorizar o momento,    o agora. Vivificar o instante se mostrou a melhor forma de ter uma vida saudável e feliz. E o homem “sábio” incorporou, em graus variáveis, essa máxima.

Acontece que o mercado e as grandes corporações sempre estiveram atentas a esse fato e se desdobraram, e continuam se desdobrando, para ampliar e diversificar as “ofertas de instantes”.

Mas o que acontece quando o instante se fluidifica demasiadamente, se torna cada vez mais instantâneo, insatisfatório? Quando o instante passa veloz; quando um piscar de olhos nos impõe uma limitação fisiológica para vivenciá-lo? Ocorre a desertificação da vida, pois uma frustração insustentável passa a dominar o indivíduo.

E é com essa noção insalubre do instante e esperançosa do efêmero que devemos observar o homem que se adentra no século XXI.

Decreto

(para ser lido tomando água de coco à beira-mar)

Atenção!
Está suspensa a transitoriedade das insignificâncias.
Não é permitida a inspirabilidade do óbvio.
É mandatório o afogamento das circunstâncias.
O statu quo deverá ser limpo com papel higiênico.
Será suprimido do vocabulário o beijo sem língua.
No cardápio das quartas-feiras
o prato principal será o ócio.
Cada bocejo deverá ser celebrado como profecia.
Ao homem, que não lhe faltem
ovos fritos com torresmo, chicletes e água fresca.
Que todos os reflexos sejam queimados
nas piras da reflexão.
Para cada ser humano, um momento lento de aurora.

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))

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86ª Leva - 12/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Novas cartas para uma nova história

Por Marcos Pasche

 

 

O século XX foi para a arte ocidental um tempo especialmente marcado pela busca sistematizada de novas formas de expressão, as quais intervieram diretamente nas maneiras de criar e de perceber as obras. A poesia brasileira do período, muito interessada em emancipar-se esteticamente da Europa, enveredou-se pelos caminhos da transgressão de normas e da ruptura com a tradição, tendo como primeiro grande expoente dessa diretriz revolucionária o Modernismo, aparecido com a Semana de Arte Moderna, em 1922, em São Paulo.

No início da segunda metade do século, surgiu, também em São Paulo, um movimento que se consagrou por elevar a patamares maiores a reinvenção do discurso poético: o Concretismo. Idealizada e protagonizada pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari, a poesia concreta ganhou espaços dentro e fora das faculdades de letras, foi saudada por outras vertentes artísticas (como a pintura e a música popular) e ainda hoje se mantém, sobretudo em termos de ideologia literária, como grande força de orientação para muitos poetas. Dentre os feitos proclamados pelos próceres e epígonos do Concretismo, destaca-se a primazia no tocante à produção de um “ismo” verdadeiramente surgido no Brasil, sem tomar de empréstimo alguma forma estrangeira para aplicá-la às letras nacionais.

Mas as vanguardas também cometem seus enganos, e por isso chama muita atenção um livro de 1954, pouco comentado à época de sua publicação (ocorrida três anos depois), e ainda hoje, sessenta anos após sua concepção, permanece algo desconhecido: Novas cartas chilenas, de José Paulo Paes. Numa época em que poetas digladiavam-se por conta dos rumos que a arte do verso deveria tomar, polarizando suas ideias entre vanguarda e tradição, é interessante notar que o livro de Paes afasta-se desse maniqueísmo, dirigindo suas atenções à memória nacional e estabelecendo uma tensão entre história e historiografia digna das melhores páginas das teorias historicistas, como já se percebe em “Ode prévia”, poema de abertura:

 

História, pastora
Dos alfarrábios.
Meretriz do rei,
Matrona do sábio (…).

Histriã do rico,
Madrasta do pobre,
Copo de vinagre,
Moeda de cobre.

Estrela da manhã,
Mapa ainda obscuro.
História, mãe e esposa
De todo o futuro

 

As Novas cartas chilenas foram lançadas em 1957, no sétimo volume da Revista Brasiliense, célebre veículo da intelectualidade da esquerda brasileira (e, recentemente, foi reeditada na Poesia completa, de José Paulo Paes). Seu nome é derivado da filiação a uma importante obra da literatura nacional: Cartas chilenas, livro atribuído a Tomás Antônio Gonzaga, e que em meados de 1789 começou a circular de maneira clandestina em Minas Gerais, denunciando satiricamente os problemas da administração do governador Luís da Cunha Pacheco e Menezes, cognominado na obra como Fanfarrão Minésio. Apesar da íntima relação, os livros possuem peculiaridades marcantes, que na Brasiliense foram apontadas em prefácio de Sérgio Buarque de Holanda: “A diferença aparentemente mais importante à primeira vista é a falta de Fanfarrão ou de algum personagem concreto que faça as suas vezes. Mas não estava já ele morto quando circularam aquelas outras cartas chilenas? Não, o Fanfarrão continua a existir e está presente em todas as páginas deste poema (…), subdividido em mil fanfarrões, sempre cheios de audácia e pompa vã”.

E é a partir disso que o livro de José Paulo Paes alcança seu grande fator de distinção. Enquanto o Concretismo, a estética da moda, aprofundava seus exercícios metadiscursivos, e uma outra linhagem poética – enquadrada na vaga denominação Geração de 45 – abominava as inovações para reivindicar espaço para uma poesia de inspiração clássica, as Novas cartas chilenas fazem da reflexão crítica sobre a vida nacional a sua razão de ser: “Os bandeirantes heris, continuados/ Em capitães de indústria, preterindo/ O sertanismo pela mais-valia”, diz o poema “Por que me ufano”, ácida síntese dos momentos decisivos da história brasileira.

A singularidade do opúsculo de Paes não significa ausência de apuro formal. A leitura atenta do livro deixa perceber um poeta altamente familiarizado com as diversas técnicas da escrita em verso, além de revelar que a obra do autor atingia maturidade ainda não vista em seus dois primeiros livros, O aluno (1947) e Cúmplices (1951). Davi Arrigucci Jr., em “Agora é tudo história” (texto de apresentação aos Melhores poemas de Paes), diz que Novas cartas chilenas caracteriza “a fórmula pessoal que lhe permitia ao mesmo tempo reler a tradição, glosar lições do passado (como ao reassumir o tom satírico das Cartas chilenas para falar do presente), aceitar ou não procedimentos da vanguarda coetânea e inserir-se, com consciência irônica e carga crítica, munido de recusas necessárias e linguagem sob medida, na perspectiva do mundo contemporâneo”.

É o exercício de reler a maneira como fatos importantes da história do Brasil foram inseridos no imaginário nacional que dá ao livro suas páginas mais brilhantes. Seguindo a disposição cronológica convencional, as críticas do poeta recaem inicialmente sobre os fundadores do País, como se vê em “Os navegantes”: “Achar é nossa lida mais constante/ E lucro nosso empenho mais vezeiro:/ Hemos a gula vil do mercador/ Num coração febril de marinheiros”.

Avançando algumas páginas, outros atores do teatro brasileiro entram em cena para também serem desmascarados. Por conta disso, o poeta constrói um discurso com a dicção própria daquele que é desmerecido, criando o seguinte efeito: não há alguém falando sobre os personagens da história nacional, são eles que falam, inserindo em seu próprio discurso a confissão das atrocidades que efetuaram. É o que ocorre em “A mão-de-obra”, rasura da Carta do achamento, de Pero Vaz de Caminha: “São bons de porte e finos de feição/ E logo sabem o que se lhes ensina,/ Mas têm o grave defeito de ser livres”; e também em “Testamento”, este versando sobre a herança dos bandeirantes:

 

Alfim, sob o da morte agro comando,
Terminamos a dada, perdoando
A nossos netos o serem bacharéis
E ao bandeirismo mostrar revéis,
Pois que no latifúndio e na finança
Também se alcança, ao cabo, essa abastança
Que apaga o crime e propicia a glória
Do bronze, onde dormimos, pais da História.

 

Mais à frente, a fase colonial cede espaço ao tempo do Brasil já emancipado. Lúcido, José Paulo Paes percebe que apesar das mudanças políticas, a realidade nacional não se modificou estruturalmente. A exemplo das dicotomias com que a poesia do século XX foi segregada, as soluções para os entraves da política nacional entraram, no século XIX, num enganoso jogo de cara-ou-coroa. Por essa razão o livro contesta a monarquia, – “Sejamos, na cozinha, escravocratas,/ Mas abolicionistas de salão:/A dubiedade é-nos virtude grata” (“Cem anos depois”) –, bem como, no mesmo poema, desnuda hipocrisias republicanas: “Vamos fazer a República,/ Sem barulho, sem litígio,/ Sem nenhuma guilhotina, / Sem qualquer barrete frígio”.

Desviando-se do discurso oficial da história, o livro é solidário àqueles que pagaram um preço maior por se oporem, por razões diversas, ao poder instituído, “Muito antes que vingasse a recente proposta acadêmica de fazer História ‘pela ótica dos oprimidos’”, diz Alfredo Bosi no ensaio “O livro do alquimista”. No lance mais bem realizado do volume – o poema “Os inconfidentes” –, narra-se dramaticamente todo o movimento que levou Tiradentes à morte: “Um minuto de séculos e o corpo/ Tomba no vácuo, fruto decepado./ O calvário cumpriu-se. A luz se apaga/ Nas pupilas imensas do enforcado”. Mas aqui história e poesia unem-se para imprimir no tempo e na memória coletiva o contragolpe às verdades dos que prenderam, torturaram e assassinaram em nome da ordem e da justiça:

 

Mas reparai, cavalheiros
Da Igreja como do Estado,
Que um herói ficou de fora,
Embora fosse enterrado.

Tiradentes se recusa
Ao vosso fácil museu,
Panteon de compromissos,
Olimpo de camafeus.

Prefere a praça plebeia
Ao pó das bibliotecas
Onde, a soldo, vosso escriba
Faz da verdade peteca.

 

Em meio à acidez dos questionamentos, há espaço para uma nota de sóbrio (e irônico) otimismo, não por acaso ao fim do livro: trata-se de “Por que me ufano”: “O sol do grão, a esperança da raiz,/ Sob o signo do Cruzeiro insubornável,/ Tendo em conta passados e futuros,/ Sempre me ufano deste meu país”. As Novas cartas chilenas, que já haviam contrariado as tendências da poesia e da historiografia nacionais, contrariam agora a própria postura cortante do livro que passa em revista o passado da pátria, ao dar pistas de um sorriso à “mãe gentil”. Ao final da leitura, nada garante que outro Brasil será possível. Porém, após a mesma, talvez não seja mais possível vê-lo como antes.

 

Nota: O ensaio “O livro do alquimista”, de Alfredo Bosi, é o prefácio de Um por todos, poesia reunida de José Paulo Paes lançada em 1986. O ensaio foi reproduzido em Céu, Inferno, do referido crítico.

 

(Marcos Pasche nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1981. Cursa doutorado e leciona Literatura Brasileira na UFRJ. É crítico literário, autor de “De pedra e de carne: artigos sobre autores vivos e outros nem tanto”. Neste momento, pede aos acidentais leitores que não deixem de assistir ao documentário “Garapa”, de José Padilha)

 

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85ª Leva - 11/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Whisner Fraga: um fundador de mundos

Por Anderson Fonseca e Mariel Reis

 

Whisner Fraga / Foto: divulgação

 

Fernando Gabeira, escritor e político, escreveu Sinais de Vida no Planeta Minas, contando as peculiaridades desse estado da federação repleto de causos e personagens curiosos. O endosso de que Minas Gerais é mesmo outro planeta vem de outro escritor Humberto Werneck, no livro Os Desatinos da Rapaziada, onde elenca a rica e longeva vida intelectual da Belo Horizonte dos anos vinte. No livro de Werneck encontramos nomes respeitáveis das letras nacionais como Pedro Nava, Murilo Rubião e Carlos Drummond de Andrade. E acrescente-se a informação de que tanto Fernando Gabeira e Humberto Werneck são mineiros, afirmando os sinais de Vida do planeta Minas.

Os sinais de Minas logo se tornam visíveis nos céus brasileiros. Não se pode ignorar um mineiro por muito tempo por sua tenacidade. E se ele tiver talento será impossível. E tenacidade nesse país pode ser tomada como sinônimo de teimosia e o mineiro é um ser teimoso ou tinhoso. De lá, desse planeta, Whisner Fraga, de Ituiutaba, tem enviado à literatura brasileira sinais inequívocos de que quer marcar sua passagem por ela. Empenhando-se em concursos literários e tornando-se vencedor dos mais ilustres, aumentou sua notoriedade e alcance. Mas não precisaria se valer do recurso, se quisesse. O livro de contos Coreografia dos Danados, elogiado por Dionísio Silva, garantia o lugar do ficcionista nas estantes dos leitores mais exigentes.

Whisner Fraga é um escritor fluido, plástico e poético. Não é um criador rendido às técnicas narrativas que preconizam as orações curtas como meio de enredar o leitor. É um autor caudaloso, porém exato, porque é um rio que não transborda as próprias margens. O contista talentoso detectado nos concursos também não escapou do olhar arguto da brasilianista Marlen Eckl que o catapultou para a Feira de Frankfurt, juntamente com outros autores brasileiros, para brilhar na maior feira literária européia onde o Brasil era o país homenageado. E não há dúvida do acerto em sua escolha para integrar o casting de escritores levados para as terras alemãs.

A errância, o não-lugar e a consciência fraturada das personagens constituem a danação explicitada na coreografia ensaiada pelo autor para as suas criações. O romancista Whisner Fraga radicaliza as experiências do contista, espiralando o universo deste e ampliando em um jogo de esconde e revela que atravessa as sombras que a sua criação traz. Na literatura brasileira, Fraga pode ser situado como descendente de Raduan Nassar, embora sua descendência não indique uma devoção castradora.

Em seu romance O Abismo Poente se entrelaçam diversos registros para construir o efeito desejado sobre o não-lugar de seus personagens. Obra considerada experimental, o autor equilibra o conteúdo e a forma na linguagem.  Em sua obra percebe-se o signo da errância do estrangeiro como painel do destino daqueles que ajudaram a construir o país.

O estranho estrangeiro

 

Fraga é um poeta encerrado dentro do prosador. No espírito de sua narrativa misturam-se amargor, ternura e raiva. Descreve quadros intensos em que a condição humana é explorada minuciosamente e parece requerer para si o título de indisciplinador de almas. A danação de seus personagens é constante, debatem-se nas teias perversas de seus próprios destinos como Helena e Afif, e as linhas que os conduzem pendentes dos dedos de seu criador não transparecem em momento algum.

A literatura de Whisner Fraga é uma literatura que investiga aquilo que Caio Fernando Abreu denominou como o estranho estrangeiro. O homem exilado em si mesmo ou de si e de sua terra, cruzando o território inóspito do humano em busca de si mesmo e de sua identidade, construindo-se com os cacos que espelham a sua cultura natal ou tentando conformá-la às exigências circunstantes que nem sempre o favorecem.

E também não é apenas uma literatura de exilado, ou de mera observação antropológica sobre o olhar do estrangeiro ou daquele que está no não-lugar para a terra que por ora habita. O escritor não reedita somente a noção do errante, há nela uma fratura que impede o homem de ligar-se a si mesmo, uma danação que consome os personagens como estava prenunciado em seu primeiro livro de contos, um bailado macabro de intenções que se não se confirmam, enchem o espaço, entre a intenção e a realização, de alegrias e estertores, de desejo e proibição, do claro e do escuro, do permitido e o interdito.

Whisner Fraga, mineiro de Ituiutaba, escritor brasileiro é outra das apostas de um novo caminho no cenário da literatura atual. É outro sinal do planeta Minas para o qual o futuro terá que estar atento, porque, em sua precipitação, pode achar que se trata de um cometa, quando, na verdade, é um sol, não poente, mas à pino, ardendo sobre um novo mundo constituído.

TRECHO:

 

sob o gesso dos olhos o desespero coagulado, o mistério  rastejando nas barras da sua sobrancelha, um comício de dúvidas revestindo o vitoriano manto da incompreensão, mas são assim as coisas não sorvidas pela goela da vista, as invisibilidades tardias, mesmo o vento só é plenamente vento quando se revela por meio da poeira, ah, tomes, ah, helena, este nosso mundo é uma espessa cratera de inexistências, da qual nos desviamos com as córneas empoladas de medo e arrogância.

(Abismo Poente, Ed. Ficções, 2009).

(Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará)

(Mariel Reis é autor dos livros Vida Cachorra (2011) e A arte de afinar o silêncio (2012))

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85ª Leva - 11/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Do sonho ao pó… ou breves considerações sobre o livro  O Chão e a Nuvem de Heitor Brasileiro Filho

Por Silvério Duque

 

 

 

 

ao poeta e amigo Antônio Brasileiro,
pois tudo que, aqui, se aplicar ao brasileiro de Jacobina-Ilhéus,
aplicar-se-á, muito melhor, ao brasileiro de Feira de Santana…
Esquecida no tempo, a alma procura
algo que, já não é, porque era tanto…
Emílio Moura

 

Fui presenteado, por seu próprio autor, com o livro O chão e a nuvem (Mondrongo, 2013), de Heitor Brasileiro Filho, e, sem perder tempo com a tamanha falta de tempo que muito me desagrada ultimamente, li-o de pronto e com muito apetite. E posso confessar que, com o manjar poético que Heitor Brasileiro Filho preparou para mim, bem como aos seus outros leitores, dei-me muito por satisfeito.

Poeta de alma e coração de ouro – por ter nascido na cidade baiana de Jacobina – e de verso e prosa atrelados a uma consciência tão lírica quanto rebelde – pois é escritor radicado em Ilhéus –, Heitor Brasileiro Filho revela-se um poeta de temas e formas tão engenhosos quão bem realizados, por mais que lhes faltem, muitas vezes, as técnicas clássicas que formaram nossa consciência literária ao longo de séculos e lhe sobrem aquele impulso de liberdade e, muitas vezes, de libertinagem, que nos é inerente desde a aurora do século passado. Dizer mais o quê, então…?!

Vejamos… À primeira impressão, o livro (com uma primorosa edição, diga-se, bem típica à qualidade que a Editora Mondrongo tanto gosta de prezar e presentear aos seus consumidores) não poderia me parecer melhor, porque os elementos estruturais da poesia de Heitor Brasileiro Filho revelam-se frutos de uma consciência artística muito vigorosa, sem que, em algum momento, venham perder-se de uma identificação realista tanto com a vida, em suas mais diversas impressões, quanto com a natureza, em seus mais diferentes sentidos, mostrando pouquíssimos traços com as influências românticas e modernas das quais a expressão poética brasileira, em sua atualidade, ainda se fia e se confia. Não que Heitor Brasileiro Filho não as possua; só não se dá ao luxo idiossincrático de revelá-las, sem nenhum pudor, a um público tanto preparado, bem como àquele pouco afeito a discussões poético-formais de quaisquer tipos, como é o caso deste que vos fala… – Oh, meu Deus!

Também, não é preciso, todavia, um diploma universitário de qualquer tipo para perceber que, em sua poesia, Heitor Brasileiro não é um homem de comportamento fechado – defeito terrível de muitos pequenos e grandes bardos –, digo: de se apresentar (enquanto poeta que é) fechado ao mundo. Como queria um T.S. Eliot, o autor de O chão e a nuvem não foge “ao desenho de autorretratos nem de confissões pessoais”, sem que sua veia poética se perca por causa disso. Tudo que se lê, em O chão e a nuvem, é de uma autonomia muito sagaz, e digo até sem vergonha, pois se lá existem temas fortes à pessoa de Heitor Brasileiro Filho, os mesmos poderiam ter um alto preço ao poeta.

Uma coisa é certa, este versificador de formas livres e, às vezes, até descuidadas, sabe (como poucos) captar a essência espiritual de pessoas de modos e vidas simples, somadas, evidentemente, aos modos e, quem sabe, à vida simples dele próprio. Seus versos, diga-se não só de passagem, têm uma espécie de engenharia que muito contribuem para isso. E, se não bastasse, aglomeram um imenso cabedal de sons, imagens e efeitos sinestésicos tão dissonantes, muitas vezes, que só poderiam terminar numa mistura tão inusitada quão intensamente reveladora. É o caso de versos como os contidos em Soluços Sísmicos:

Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos

soluço sísmico
na contração do parto

pende um quadro
trêmulo
na parede do útero

Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:

deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado

Jacobina
não é apenas um retrato
na parede
um berço
a ser embalado.

 

os do intricado e revelador O grande espetáculo da terra:

 

Hoje não vou à Broadway –
pois não é que nunca vou à Broadway –
que importa fogo ou neve em New York?
Vou ficar para o grande espetáculo da terra

como o circo de Maru
com a rumbeira Margareth
e os clowns Chega-Chega e Batatinha
no ritmo inebriante de Tijuana Taxi

meu Deus, que fim levou a rumbeira Margareth
delírio da criançada de perdida infância
casou-se e foi para Feira de Santana

véus – muitos véus – iam-se dissolvendo um a um
agora grinaldas, o buquê, girândolas de pétalas
uma tiara de corações partidos
e aquela calda toda
……………………………..de branco

imagino-a sob o altar da Catedral
da sagrada Nossa Senhora de Sant’Anna
ao eterno som de Tijuana Taxi

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

(apoteose dos grotões de minha terra:
na aurífera
na agrícola
nessa imensidão distante e tão próxima
como a antiga cidade de Jacobina

sem o arpejo, o canto, o desespero de Bob Silva
sem o auto-faltante da Rádio Nacional
nem a doce viola de Paulo da China
numa esquina perdida da Rua Ana Nery
mas cristalizada numa antiga cantiga)

Há um momento em que os malabares
…………………………………..eternizam-se no ar

e o trapezista projetava-se
para o alto e precipitava-se
sobre um assoalho de taipás
para o delírio da meninada
………………………sem infância
sem rede
sem coração

e lá estava o homem-borracha
estatelado em linha reta
– e a linha tênue –
Na linha oblíqua do chão

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

Têm-se infância e memória?
A quem importa a ruína do Empire State?
Que importa a estrutura vítrea do Louvre
o burburinho do Quartier Latin
as ruínas gregas e as pirâmides no Cairo
o Coliseu e o túmulo de Tutacamon?

Meu Deus, o que importa
a privada de ouro de um sultão em Omã
se o levante do Oriente
é o que há de mais moderno?

Que importa aquele edifício em Dubai
ante o singelo pedido da natureza –
subcutânea tatuagem e a fina estampa da pele?

Deem-nos infância e memória
e ficaremos para o grande espetáculo da terra.

 

ou mesmo nos versos, como dirá Jorge de Sousa Araújo, de “solução simples e grande gozo estético”, contidos em Lirium:

 

quem
bem me
quer
não me
despe
……ta
……la

 

Mas cuidado, confissões de poetas não têm valor algum para a obra de arte se não forem compostas como obras de arte. E versos como os contidos em Soluços Sísmicos e O grande espetáculo da terra, bem como a todos pertencentes em O chão e a nuvem são bem mais que meras confissões de um menino ainda presente num homem adulto – tema, aliás, caríssimo ao velho Manuel Bandeira – mas que não se encaixa muito bem à obra de nosso jacobino-ilheense que, acima de tudo, quer se vestir de muita maturidade em tudo que faz e escreve. É preciso, antes de qualquer interpretação ligeira, ler tais poemas como uma grande crítica à política, ao mundo, ao cotidiano, à hipocrisia dos homens e outras tantas temáticas ali presentes e tão prontamente reveladas por uma poesia muito fácil de compreender; contanto que não se entenda “fácil”, aqui, como sinônimo de coisa pouca ou sem grandes significados, pelo contrário: um bom poeta, formal ou não, erudito ou afeito às cantigas populares, tem de saber dialogar com o público que carrega sua poesia e a quem ela pertencerá quando este se for deste mundo para se misturar ao húmus dos monturos e coisa e tal.

É impressionante a capacidade que Heitor Brasileiro Filho tem em criar uma espécie de background emocional em seus poemas, fazendo com que a força dos elementos significantes de seus versos pouco precise dever aos elementos de sua estrutura sonora ou rítmica, ao tempo que tudo isso nasce de uma disposição muito engenhosa, como já disse. Assim sendo, Heitor Brasileiro Filho pode muito bem se sentir à vontade para reivindicar temas tão pessoais e que lhe trazem conflitos tão arrebatadores, pois, ao se reportar novamente à infância, e com ela, por exemplo, a um circo de onde a alegria e a ingenuidade de menino dão lugar aos primeiros delírios eróticos de rapaz – como se pode facilmente perceber em O grande espetáculo da terra –, fica fácil, ao leitor, mergulhar no turbilhão composto tanto de alegrias bem como de profunda angústia; de esperança e tristeza; fantasia e realidade… e tudo o mais que se pode extrair mesmo de uma leitura menos cuidada de versos como os de Heitor Brasileiro Filho e que, em certos momentos, nos parece ser tudo que ele possui de real e de valor. Eis a força da sinceridade de sua lírica e da maneira apaixonada com a qual o poeta entrega-a ao seu público.

A facilidade em captar diferentes planos para um mesmo tema ou efeito imagético, independentemente de se tratar de um tema autobiográfico ou uma evidente intertextualidade, é, quem sabe, a parte mais bem elaborada de O grande espetáculo da terra e um caractere muito revelador em tudo que diz respeito ao seu livro, O chão e a nuvem. Com isso, Heitor Brasileiro Filho consegue poemas ao mesmo tempo tão belos quanto elaborados dentro da melhor técnica artística possível e compreensível, ou como dirá o professor Jorge de Souza Araújo, na apresentação deste mesmo livro: “um poeta que se chama Heitor – evocando acordes de um Villa Lobos – e é brasileiro no sobrenome e na natividade de ações afirmativas, tem, neste O chão e a nuvem, um agudo repertório de espantos, uma frequência de ironias, uns remates de mímeses, coincidências fabulares, diálogos e interlocuções com outros comparsas (a exemplo de Ferreira Gullar) a que não podemos deixar de apreciar e refletir”. Em suma: a poesia de Heitor Brasileiro Filho se quer uma poesia plena em sua essência, ou seja, quer nascer e se firmar através da documentação dramática que só a perplexidade aliada a uma carga lírica, tão técnica quanto emotiva, pode nos trazer.

Se há algo de realmente muito agradável na poesia de Heitor Brasileiro, mais até que a sua evidente capacidade poética, é a sua total incapacidade para o “mascaramento”, tão comum tanto ao poeta moderno quanto ao contemporâneo. Por isso mesmo, é mais que evidente que um poeta que escreve um livro como O chão e a nuvem se sinta tão livre para eleger temas como os que nele se encontram; capazes mesmos de fazer com que uma linguagem que não se pretende mais do que simplória adquira conteúdos às vezes tão mágicos e cujas metáforas possam abrir mãos de suas relações analógicas criando imagens tão dissonantes e símbolos tão dissolventes que, aliados a temas tão pessoais, e, não raramente, caros ao seu autor, capazes de trazer à superfície dos versos uma pesada carga de emoções – nem sempre agradáveis – possam criar poemas como esses: frutos de sonhos e de pó.


(Silvério Duque é poeta, professor, formado em Letras pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), e músico. É autor de “A pele de Esaú” (Via Litterarum, 2010), “Ciranda de Sombras” (É Realizações, 2011), “Do coração dos malditos” (Mondrongo, 2013). Seu próximo livro, “A moldura vazia”, está no prelo)


 

 

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84ª Leva - 10/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Catarse e lirismo na poesia de Rita Moutinho

Por Hilton Valeriano

 

“Que as pétalas subjuguem
os dolorosos espinhos!”
Rita Moutinho

 

Confrontar-se com situações limites, com obstáculos interiores contínuos às ações corriqueiras do cotidiano, defrontar-se com a busca de superação da ausência de sentido, existir sob a tensão do viver! Esse quadro característico de estados de depressão reflete a poesia lírica presente no livro “Psicolirismo da Terapia Cotidiana” (Ateliê Editorial), da poeta Rita Moutinho. Uma poesia marcada pela permanente tensão entre o “Eu” e um mundo interior fragmentado, instável, fugidio: “Frente a mim,/no meu presente,/não me desvendo/e assim permito/arroubos de pensamento/e justifico, que lá dentro,/há de estar o que não penso.” Lirismo dramático expresso em versos que mostram a crise da exacerbação do “Eu”, marcas de um Século Pós-moderno e que ainda se estabelece sobre a herança do Iluminismo, do Secularismo e do esvaziamento do referencial transcendente, ou seja, do sentido metafísico, portanto um “Eu” labiríntico: “Deve haver um lento tatear-me,/pois em mim não há outra coisa que não eu/a me querer nascer.

Uma das características da poesia de “hoje” tem sido o experimentalismo, muitas vezes questionável, que transita entre o minimalismo, releituras do Concretismo e da poesia de João Cabral de Melo Neto, uma poesia que tem como objeto estético a própria linguagem, não obstante sua dimensão semântica “impenetrável”. A poesia de Rita Moutinho se apresenta em polo oposto. Seus versos são líricos e a linguagem apresenta-se como instrumento estético e não objeto estético. A temática subjetiva de sua poesia e a tensão de seu lirismo a aproxima de poetas como Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca, poetas do drama do “Eu”:

Aonde irei neste sem-fim perdido,/Neste mar oco de certezas mortas?/Fingidas, afinal, todas as portas/Que no dique julguei ter construído...” (Mário de Sá-Carneiro – Ângulo).

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,/É um brasido enorme a crepitar!/Ânsia de procurar sem encontrar/A chama onde queimar uma incerteza!” (Florbela Espanca – O meu impossível).

Inspiro e sou a musa avessa/explorando avidamente/aquilo que não aflorou:/certeza” (Rita Moutinho).

Mas, ao contrário dos poetas suicidas, Rita Moutinho faz de seus versos uma verdadeira catarse, no sentido aristotélico do termo, ou seja, purificação de suas vivências. Podemos dizer que a poeta faz da linguagem uma autoanálise de seu drama interior, itinerário catártico do “eu”:

Iluminar o lado escuro/da penumbra/e se fazer radar/até que me descubra”.

Os poemas acalmam ou são proféticos,/lavam ou surpreendem a alma quando criados./Ei-los, a um tempo, deuses e miméticos.”

Eu lavo as veias com água e após transfiro/o sangue da ansiedade às palavras (…)”

O itinerário existencial presente nos versos de Rita Moutinho mostra-se titânico em sua recusa a uma referência semântica transcendental – “E eu, lírico clown, cato – com os demônios! -,/os piolhos que infestam meus neurônios!” – característica de um Século Pós-moderno como já assinalamos. Assim, a poeta apresenta-se como uma anti-heroína mesmo tendo a linguagem poética como uma estética catártica dos mares tempestuosos de sua subjetividade: “Os versos são fragmentos de epopeia/falsa, pois falsa heroína é a poeta,/falsa, fraca, falida, mas não cética:/crê que a maré se abaixa, mas não seca”.

Uma poesia para se ler. Uma poesia para pensar.

 

(Hilton Deives Valeriano é filósofo, formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Unicamp. Editor do blog Poesia Diversa. Autor de poemas, epigramas e aforismos. Livro no prelo: “Nas mínimas coisas – aforismos”)

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Aperitivo da Palavra

Ciceroneando

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Não há dúvida de que os caminhos da liberdade são os mais caros que possuímos. Diante de possibilidades infindas, dar um norte às escolhas pode representar uma posterior celebração de acertos. Com o tempo, vamos aprendendo que não há respostas para tudo o que supomos essencial em nossa trajetória pela vida. E a arte, de um modo geral, vem nos lembrar isso, tendo em vista que seus personagens frequentemente vestem o manto do insondável. Se o fluxo constante de indagações faz par com a existência, bem sabemos que dessa estreita relação surgem cada vez menos certezas.  Assim, rumamos ao desconhecido, vivenciando um status de deriva que escamoteia alguns vestígios, principalmente se a busca encerra alguma tentativa de retornarmos ao ponto de partida. No conjunto editorial que intenta harmonizar imagens e palavras, recepcionamos vozes de diferentes mundos, todas elas a ecoarem seu canto de vida. A julgar pela proposta contida nos trabalhos da artista plástica Denise Scaramai, temos a sensação de que as virtudes advindas da liberdade conduzem melhor nossos sentidos e percepções.  Tomados por essa atmosfera de cenários ricos em singularidade, testemunhamos os versos de autores como Diego Callazans, Mariana Ianelli, Wilson Nanini, Natacha Santiago e L. Rafael Nolli.  Partilhando de um ritual de mistérios e revelações, o poeta Edson Bueno de Camargo é o entrevistado da vez, conversa que, além de abordar aspectos relevantes de sua obra, nos mostra um autor devidamente engajado com as questões afeitas ao pantanoso terreno da literatura. O escritor Sérgio Tavares mostra sua leitura para o coletivo de contos “82 – Uma Copa l Quinze Histórias”. Larissa Mendes comenta o mais novo filme da diretora Sofia Coppola. No trajeto que redimensiona cenários de vida, nos deparamos com os contos de Mayrant Gallo, Airton Uchoa Neto e José Pedro Carvalho. Na segunda e última parte de seu percurso pela história do Teatro, Fernando Marques arremata suas considerações sobre o livro de Margot Berthold. Também por aqui, toda a leveza presente no segundo disco solo do guitarrista Rodrigo Bezerra. Com a sede por novas vias, uma 83ª Leva nasce primando pelo sentimento de que continuar é algo imperativo.

Os Leveiros

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Ressaibo de uma geração de chuteiras douradas

Por Sérgio Tavares

 

 

 

Subindo o primeiro lance da escada com degraus de mármore rajado, é possível divisar a imagem do bebê com um boné de pano sobre a cara larga, um menino bem fornido para os primeiros meses. Esse bebê sou eu. A imagem é um desenho feito a lápis numa folha de papel manteiga, acomodada sob uma lâmina de vidro retangular que se fixa no alto da parede revestida por folhas de lambri pardacento por conta de uma moldura resistente. É ela que recepciona aqueles que avançam para o segundo andar da casa dos meus pais. O autor é o meu padrinho, irmão da minha mãe, que, embora fosse um mero entusiasta, reproduziu com impressionante talento os traços da minha fisionomia, os olhos vagos de criança amamentada.

Durante muitos anos, esse quadro permaneceu no quarto dos meus avós, localizado no primeiro andar da casa. Depois que eles faleceram num espaço de tempo comum daqueles que convivem uma vida inteira e se apressam para se reencontrar, minha mãe o cambiou para o living no segundo andar. Recordo-me, salvo engano, de ter escutado que foi a minha avó quem encomendou o desenho ao meu padrinho. Contudo não me custa acreditar que a muito gosto do meu pai. Na imagem, o bebê está vestindo uma camisa do Botafogo. Por alguns anos, meu pai paparicou a ideia de ter um filho botafoguense, que cresceria compartilhando da mesma paixão que enroupa seu coração de alvinegro. A questão é que meus pais sempre foram pessoas trabalhadoras, de modo que fui criado por meus avós. Meu avô, clandestinamente, convenceu-me tricolor. Sou Fluminense, torço pelo time tantas vezes campeão. O quadro, portanto, passou a ser uma espécie de totem para o meu pai, um símbolo sagrado de um afeto que não se perpetuou.

Eu nasci em 1978, poucos meses antes da Copa em que a seleção Argentina eliminou o Brasil por conta do saldo de gols, naquele jogo suspeito em que Passarella & Cia derrotaram o Peru por 6×0. Obviamente (e fortuitamente) não me ocorre nada daquele mundial. Quatro anos depois, por outro lado, havia uma onda de entusiasmo que eletrizava o ar. Tenho a imagem difusa e um tanto granulada da minha família (como de hábito) em festa. Elepês de samba, cerveja, fogos de artifício e gente fantasiada, eu fantasiado. Mas o que trago de mais caro daquele ano de 1982 está novamente relacionado à habilidade artística do meu padrinho. Lembro-me de um varal de bandeirolas enfeitando a fachada feia da primeira casa em que moramos. Cada retângulo trazia a caricatura de um dos integrantes do escrete canarinho. Falcão, Sócrates, Zico, todos estavam lá retratados de maneira ímpar. Por isso tanto me marcou presenciar, mais tarde, os desenhos sendo rasgados como um tipo de mau agouro. Algo próprio daquela casa insalubre, com piso de tacos soltos e teto conformado por telhas de cerâmica espessas que, anos depois, desabou, por circunstâncias estranhas não matando a todos nós.

Hoje eu tenho 35 anos e essas recordações exumadas do manto transicional da minha memória me revisitaram terminada a leitura da preciosa antologia 82 – Uma Copa/Quinze histórias, editada pela baiana Casarão do Verbo. O volume, organizado por Mayrant Gallo, com assistência de Tom Correia e Lima Trindade, reúne interpretações, confissões e pontos de vista imantados pelo dia cinco de julho de 1982, em que a seleção brasileira de futebol foi eliminada do Mundial na Espanha, por um desacreditado time italiano. Aliás, pelo franzino Paolo Rossi que decretou o placar de 3×2, batendo um time glamorizado, onze jogadores no auge de suas carreiras, um Davi toscano que, com uma funda de couro, derrubou um gigante de chuteiras douradas chamado Brasil. O desencanto, o travo provocado pela derrota, é o eixo que conduz as quinze histórias, embora nem sempre o luto é o verniz que define o tom das narrativas. Conforme um bom escrete, o livro conta com diversas qualidades, soluções para o riso, o choro, o grito retumbante de gol.

Incomum em antologias, aqui há uma relação harmônica entre os contos. Fazendo uso do exercício de reminiscências, do humor ferino, do nonsense, da crônica jornalística ou mesmo tomando emprestado a estrutura da narração esportiva, os autores encontram versões interessantes para o tema, sem forçar contextualizações ou torná-lo um intruso no fluxo narrativo. A Copa e/ou especificamente a partida contra a Itália tampouco figuram como intransmutável elemento central. Do olhar pueril que alguns escritores resgatam da infância a personagens cativantes, ao exemplo do taxista verborrágico e do sujeito que incorpora nacionalidades, o recorte trágico do tempo ora ganha a textura de pano de fundo, ora é apenas sugerido, dando espaço para inspirados enredos que se substanciam, sobretudo, no arranjo familiar e na infiltração do cotidiano pelo extraordinário da circunstância. A lamentar apenas a ausência de escritoras, ainda que entenda (caso seja um argumento plausível) que estávamos bem distantes da Geração Marta naqueles anos.

Se no espaço narrativo a antologia se sai bem, o mérito se estende a dois golaços, digamos, fora das quatro margens. O primeiro é a escalação de Tostão, meio-campo campeão do Mundial de 70 e hoje craque da prosa, que assina a orelha. O outro é a escolha da capa, a histórica imagem do menino com a camisa do Brasil chorando no Estádio de Sarriá, onde ocorreu a fatídica partida. A fotografia de Reginaldo Manente, reproduzida na capa do Jornal da Tarde no dia seguinte, foi laureada com o Prêmio Esso justamente por capturar, no semblante compungido do hoje advogado José Carlos Villela Jr., a fratura do lúdico, do deslumbramento que provocava a seleção ao embarcar do Brasil rumo ao sonho do tetracampeonato. Como aquele menino (e aproximadamente com a idade daquele menino), quatro anos depois, nas quartas de finais da Copa de 86, era eu quem chorava atracado à grade da janela da casa de um tio, segundos depois que, na dramática disputa por pênaltis contra a França, Fernandez venceu o goleiro Carlos, enfiando a bola no canto esquerdo.

Post scriptum: Quinze anos após meu nascimento, meus pais tiveram o segundo filho e, para esse, meu pai não deu brecha e o tornou botafoguense. Hoje, ele tem com quem compartilhar a paixão alvinegra, embora, mesmo torcendo pelo tricolor das Laranjeiras, eu guarde simpatia pelo clube da estrela solitária. Inclusive uma das minhas caras lembranças relacionadas ao futebol vem da conquista do campeonato brasileiro pelo Botafogo, em 1995. Mas essa já é outra história, que fica para uma futura ocasião.

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente)