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73ª Leva - 11/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

 

UMA BUSCA PELO SENTIDO DO SER: A POESIA DE JORGE ELIAS NETO

Por Gustavo Felicíssimo

 

Rascunhos do Absurdo, obra de Jorge Elias Neto, se inicia com uma questão ontológica basilar: o sentido do Ser. Sua lírica insiste em um discurso de cariz filosófico, marcadamente existencialista, e reflete o esvaziamento de valores do homem moderno, abandonado em si mesmo e desnorteado ante a desestabilização de verdades universais, frente às quais está solitário, pois imerso em um processo de massificação, reificação e desumanização das relações. Trata-se de uma poesia contemporânea, poesia do desconexo, do descontínuo, fragmentada, cujo discurso denuncia um mundo que se desestruturou, ao mesmo tempo é a poesia que busca, nesse mesmo mundo, uma nova construção de sentido para o homem.

Criador de imagens cortantes, observador e crítico da condição humana, Jorge Elias Neto, desde Verdes Versos, seguindo dictum próprio, chega ao seu segundo livro propondo uma poesia que, carregada de um arsenal reflexivo, sabe que o poema não é apenas um fenômeno de linguagem, mas também de idéias, devendo partir da realidade vívida e vivida para a apreensão de um sentido maior. Desse modo, o poeta constrói seus poemas tateando o indizível, em sua busca da ciência de desinventar (1º de janeiro de 2008, p. 74), sem nunca perder de vista aqueles que nada entendem da solidão (idem).

Como médico cardiologista, Jorge enfrenta no seu cotidiano inúmeras situações limites entre vida e morte que ajudam a acentuar o caráter metafísico da sua poesia, e isso, para o autor, conforme confidenciou-nos em uma entrevista, tornou-se uma questão de vida: trabalhar a idéia de morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem frente a essa locomotiva… Por isso a sua naturalidade poética não poderia ser outra: o Expressionismo Existencialista, no que este tem de mais visceral, legitimamente íntimo e não desdobrável ou amoldável a circunstâncias outras que não seja a consciência de mundo, na qual predomina a visão pessoal do artista e não uma poesia que aspire capturar a realidade, mas que seja um reflexo da reflexão do poeta frente ao seu tempo. O poeta transmite sua angústia criticando a exploração do homem pelo homem, toda sorte de estupidez e misérias. Por isso,

Disseste que a corda
apazigua os desencantados.

Disseste que a terra treme
nas bordas do despenhadeiro.

A terra não tem nada a ver
com teu descontentamento.

Ela é acima de qualquer suspeita.
É que a luz só atinge tuas costas.

Hoje, a estupidez não é mais um traço:
é um demônio que se agiganta.
(Noir, p. 58)

 

Em Ser e Tempo, Heidegger propõe a pergunta acerca do sentido do ser. Pode-se dizer que tal pergunta apresenta o propósito de retomar o antigo questionamento ontológico sobre o ser dos homens, visando ao mesmo tempo uma explicitação da própria compreensão de ser.

Jorge Elias Neto encontrou na linguagem poética a sua maneira de investigar o ser humano, seus desejos, seus medos e frustrações, ou seja, o que está interno em nós e não a exteriorização, a superficialidade. É com a poesia, neste caso com Rascunhos do Absurdo, que ele empreende a sua busca pelo sentido do Ser, pois este não é o resultado de algo postiço ou acrescentado, mas um constituinte do poeta enquanto indivíduo. E desse livro o leitor não sai incólume, pois os melhores poemas nele inseridos são justamente aqueles que refletem o sentido trágico da vida, justamente aqueles que ganham dimensão cada vez maior toda vez que relido e repassado, como acontece aos poemas gêmeos, Corpo tombado (p. 64) e Poema ao morto (p. 65), também a Circo (p. 71) e Poema para o homem contemporâneo (p. 77), assim como a outro belo espécime da fauna versificatória brasileira, capaz de arrebentar a cabeça do leitor incauto, que é Cristo de pão:

Herdei de meu pai
esse Cristo forjado em miolo de pão.

Esse crucifixo que, pacientemente,
foi moldado no almoço de domingo;
em seus dedos, amassado,
em seus lábios umedecido.

Um Deus criado
pelo provedor de minha casa
durante o eterno silêncio
comigo repartido.

E eu aprendi que da bolinha de massa
se forja um ídolo.

Ao final da refeição, meu pai me estendeu
o Cristo na cruz.

Eu o peguei
e ele se partiu.

Foi duro para mim
ver Deus quebrar-se em minhas mãos.
(p. 79)

 

Trata-se de um poema dessacralizador, desorientador. Logo no primeiro dístico o poeta nos apresenta um “Cristo forjado em miolo de pão” para no final admitir que lhe fora duro “ver Deus quebrar-se em minhas mãos”. Não se trata apenas, possivelmente, da revelação de um “eu” profundo, descrente frente às “verdades” seculares, mas de uma experiência reputada indizível que expressa-se e comunica-se pela imagem (PAZ, 1972, p. 50). Imagem que não explica, antes convida-nos a recriá-la e, literalmente, a revê-la (Idem). Nesse sentido, o poema é um intermédio entre uma experiência original, avassaladora, e um conjunto de ações e vivências posteriores, que apenas adquirem consistência e sentido com referência à experiência primeva, fundadora, que o poema consagra no presente. E se é presente só existe neste agora e aqui de sua presença entre os homens. Para ser presente o poema necessita fazer-se presente entre os homens, encarnar na história (Idem, p. 53). Afinal, o homem é um ser histórico e fala das coisas que são suas e de seu tempo.

O tempo em Rascunhos do Absurdo, apenas para lembrarmos Vinícius de Morais, não é “quando”, mas o presente. Essa constatação reflete no significado último do poema que não é dito de maneira explícita, mas é o fundamento da poética de Jorge Elias Neto até aqui. Poesia feita no presente, para o tempo presente e para o advir, pelo menos enquanto o homem – ser temporal e relativo – for este que vemos aí, no mundo, conquistador de espaços que mal são  desbravados se transformam em cinzas.

Rascunhos do Absurdo é composto por quatro capítulos: “Livro de Notas”, “O Estalo da Palavra”, “Gaza” e “O encantamento do poeta Maratiba”, este último dedicado a Miguel Marvilla, também poeta, amigo e incentivador de Jorge, falecido em seus braços, na emergência de um hospital.

O primeiro capítulo se configura por apresentar poemas extremamente líricos, muitos deles nos remetem à própria poesia ou à função do poeta – / barriga de aluguel (Ventre Vazio, p. 29), ao convívio familiar, como em Dever de Casa, um poema imagético e sensorial, quase palpável, onde o poeta assegura à amada

Fazer por onde
sempre tê-la ao meu lado
para dizer-te, sempre:
Eu Te Amo.
(p. 39)

Suas palavras, sem qualquer prolixidade, tornam seus pensamentos consecutivamente compreensíveis, levando o poeta à busca de apurar seu discurso no sentido de transmitir o mais claramente possível seu enunciado, pois são plasmadas com coloquialidade, sem perder a elegância. É a necessidade de ser entendido e sua mensagem apreendida que servem de alimento necessário à sede do poeta.

O segundo capítulo é marcado por aquela temática que reflete o estranhamento do homem no mundo, impregnado por um sentido de deslocamento frente à ruptura de valores da modernidade e à queda de paradigmas, antes institucionalizados e agora questionados ou até mesmo negados. É nessa atmosfera movediça da contemporaneidade que sobrevive o poeta. Sua lírica reflete o esvaziamento de valores do homem moderno, abandonado em si mesmo e desnorteado ante a desestabilização de verdades universais, como atesta o exemplar poema A Prazo:

Levem-me as horas
para os caprichos mundanos!

Já destaquei a etiqueta.

Tomei posse do indivíduo.

Será que não vêem
no meu ante-braço
o carimbo de “pago”?
(p. 63)

 

Esse poema capta e revela o momento histórico da humanidade, em que o poeta tornou-se um alijado no seu tempo. Então

 

 Já que a palavra é uma puta:
………rasguem o poema.

Já que a rima é farta; e o poeta
……um estorvo,
que se recompense o primeiro idiota
……..a me cortar a carne.
(Balada da Carne, p. 69)

 

 

Jorge Elias Neto - Foto: Arquivo Pessoal

Em Gaza, terceiro capítulo, Jorge Elias Neto apresenta-nos uma poesia de forte apelo social e grande senso humano, preocupada – naquele momento de sua escrita – com os últimos desdobramentos do confronto entre palestinos e judeus, fazendo coro à indignação que toma conta dos povos desde os tempos da criação do estado de Israel, em 1948, quando Gandhi se manifestou dizendo que

O que está acontecendo na Palestina não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico.

 

Quase seis décadas após, José Saramago se manifesta sobre o mesmo conflito, utilizando a imagem do franzino Davi que mata em combate o gigante filisteu, Golias, dizendo que

 

Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinos para depois negociar com o que deles restar.     

 

O fato é que Israel suscitou uma sensibilização mundial em favor da causa palestina, inclusive por parte dos poetas. Notoriamente, o poeta mais importante nesse contexto é o palestino Mahmud Darwish (a quem essa parte do livro é dedicada), o precursor de uma geração de autores da vertente denominada Poesia Palestina de Combate, surgida após a ocupação de 1967, que inclui os palestinos Samikh Al Qassem, Fadwa Tukan e Tawfiq Al Zayad. Em Gaza a poesia de Jorge Elias Neto comunga e se amalgama ao canto desses tantos outros poetas em um grito uníssono, fazendo-se ouvir em todos os cantos do planeta, pois retratam os absurdos e os horrores desse conflito desigual e desumano.

Por detrás de todas as guerras percebe-se a inteira ausência de amor ao próximo, que, na verdade, reforça no poeta (Jorge Elias Neto) a incerteza quanto às verdades seculares, como a crença em um Deus que já não é refúgio para suas angústias. O homem passa a ser o criador de suas verdades e realidades, porém completamente aturdido pelo sentimento de abandono, por isso diz-nos que Ao poema, cabe / despejar sobre o chão, / e na cara dos facínoras, / uma resma de dúvidas (A Praça, p.94), ao invés de bombas, deflagrando o absurdo do existir frente ao mistério. E refletindo sobre o engajamento de Darwish (que fora expulso de sua casa, com a família, pelo exército de Israel), Jorge refaz seu caminho, e na celebração do viver encontra sentido na atitude exemplar do poeta palestino que Não azulava as dúvidas com preces / e entendia a sujeira como um vício da realidade.

Enfim, pensar e sentir estão imbricados num propósito de induzir o homem à revelação da verdade do ser e ao conhecimento de si. A poesia, nesse ínterim, torna-se a expressão maior de significados do homem, transcendendo a superficialidade da expressão na busca de se exprimir o inefável. Nesse contexto, pautado nas questões essenciais que afligem o homem moderno, em que o ser se lança na investigação identitária de si mesmo e no descortinar do sentido da vida, pulsante na concretude do mundo, é que se enquadra Rascunhos do Absurdo, uma obra comprometida com o homem e com a vida, em que o autor tece suas críticas ao mundo moderno, pragmático e utilitarista, refletindo o espasmo do homem frente ao mundo por ele criado e sua busca na ressignificação da vida.

 

 

Referências:
 
Neto, Jorge Elias. Rascunhos do Absurdo, Vitória: Flor&Cultura, 2010.

 

Paz, Octavio. Signos em rotação, Trad. Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Perspectiva, 1972.

 

Disponível na internet, no site do Comitê Democrático Palestino – CDP – Brasil. Visitado em 15/04/2011.

 

Disponível na internet, no site da Fundação José Saramago. Visitado em 10/01/2009.

 

 

(Gustavo Felicíssimo é poeta, ficcionista e ensaísta paulista radicado no sul da Bahia)

 

 

 


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72ª Leva - 10/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

De um belo e profundo mergulho na alma humana

Por Geraldo Lima


Mind the gap é um livro de contos – alguns são tão curtos que podem ser chamados de minicontos. É, também, um livro visualmente muito bonito (cabe, aqui, ressaltar o belo trabalho de edição da jovem editora Patuá).  É, por fim, o livro da escritora, jornalista e mestre em literatura e crítica literária Vera Helena Rossi. Ela é autora premiada em concursos literários e tem textos publicados em revistas e sites, como a Revista Língua Portuguesa e o site Cronópios. Seu romance Estamos todos bem foi finalista do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Ou seja, não estamos diante de uma escritora inexperiente ou que ainda engatinha na difícil arte de escrever ficção.

Mind the gap é composto por dezoito contos. Alguns deles, como já foi dito, podem ser considerados minicontos.  É o caso de “Eu e você qualquer dia”, “Ninguém dia a dia”, “Narciso” etc. Nesses textos mais curtos, Vera Helena Rossi parece buscar não a clareza, a linearidade, a narrativa pura, mas sim a ousadia de situar suas histórias mínimas nos limites entre os gêneros. Mas é nos textos mais longos que ela consegue realizar plenamente a construção de uma narrativa que nos revela o talento de uma autora madura e dona de um estilo próprio. Nesses contos que se estendem por cinco ou mais páginas, podemos perceber a habilidade da autora na caracterização psicológica das personagens, na construção dos diálogos e na sutileza com que conduz a teia narrativa de modo a prender a atenção do leitor até o final surpreendente. Destacam-se, nessa linha, “As caixas de papelão da família A. Almeida”, “Boa nova’” (este, para mim, o melhor de todos: vamos até o final, cheios de temor e aflição pelo que pode acontecer aos filhotes de gato) e “Lady Day”, em forma de diário ou simples desabafo da amante que se dirige ao amante em tom áspero e irônico. Não ouvimos a voz do amante, apenas o discurso denso e ácido da mulher contrariada.  E é com frases como esta que ela desnuda a relação com o amante: “Calados, meus solitários gritos, calados. Você devia me agradecer por ajudá-lo a se encontrar na sua solidão”.  Lendo esses contos mais longos, não nos resta dúvida de estarmos diante de uma escritora que sabe conduzir, sem excessos, uma boa narrativa.

A temática desses contos (e minicontos) compostos por Vera Helena Rossi é variada. Temos o caso da velhice e suas idiossincrasias, em “Boa nova”, do amor e seus conflitos, em “Lady Day”, até os embates cotidianos, no metrô ou no shopping, como nos são apresentados em “Assento vazio” e “À vista ou no cartão” (nesse o confronto físico se dá de fato e com violência assustadora).  Assim, podemos dizer que a violência se destaca em quase todos os contos de Mind the gap, sendo, de certo modo, o elemento que mantém uma unidade entre os textos. Fora isso, é bom seguir o que nos diz o título: mind the gap, ou seja, cuidado com os degraus, ou com os desníveis, no caso desse livro, preste atenção, caro leitor, à variedade de enfoques, temas e rupturas com a realidade. Num sentido mais metafórico, à queda cotidiana dos seres que povoam essa obra perturbadora.

 

 

* “Mind the gap” pode ser adquirido através do site da Editora Patuá.

 

 

(Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo. Já publicou alguns livros, entre eles Baque (conto, LGE Editora) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites O BULE e Portal Entretextos e do blog Dona Zica tá braba. Colabora com o Jornal Opção (Goiânia), o Jornal de Sobradinho (DF), e as revistas eletrônicas Triplov e Diversos Afins. Bloga ainda em: Baque. E-mail: gera.lima@brturbo.br / Twitter: @gerassanto.com)

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72ª Leva - 10/2012 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Psi, a penúltima

Por W. J. Solha

 

 

SF,

fica difícil falar sobre seu Psi, a penúltima depois de ler o Apêndice III do livro, com o que você chamou de Ecos da Crítica e da Generosidade. Não desato as sandálias de nenhum de seus comentadores, com os quais concordo totalmente, claro. Mas – como também faço versos – chamou-me a atenção a declaração de Lorca, citada no prefácio do Gerardo Mello Mourão:

Yo no puedo, yo no sé hablar sobre poesia. Yo la tengo aqui en mis manos, sé que está quemando mi piel, pero no lo sé lo que es.

Essa afirmação me leva diretamente às Confissões de Santo Agostinho:

O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei

Coincidência ou não, vejo-me, de repente, com dois enigmas colocados de um mesmo modo: poesia e tempo. E me pergunto – oportunista – se o segredo da poesia, o segredo da sua poesia, não estaria…  no tempo.

Explico-me.

Lembro-me de que quando era garoto, lá em Sorocaba, São Paulo, ouvia sempre um vizinho, mineiro, cantar, deitado na rede, acompanhando-se no violão, a música “Felicidade”, apressada, como Lupicínio Rodrigues a compusera. Nem perca tempo de ouvi-la inteira, aqui. Basta a primeira estrofe, pra ver, em seguida, onde quero chegar:

Felicidade foi embora
e a saudade no meu peito
ainda mora,
e é por isso que eu gosto
lá de fora,
porque sei que a falsidade
não vigora:

Anos depois, quando eu já vivia na Paraíba, surge um novo sucesso de Caetano Veloso, e vi que se tratava da mesma “Felicidade” do Lupicínio, mas.. transfigurada  por aquela preguiça baiana. Basta, novamente, a primeira estrofe, pra que você sinta a diferença obtida com a mudança de tempo na interpretação, de modo a fazer com que uma grande poesia – que eu não sentia na versão original – de repente aflorasse das mesmas palavras e partitura:

O que isso tem a ver com a sua poesia. Bem.

Não sou grande romancista nem poeta, mas tenho trabalhado nas duas áreas e me parece que sei – com aquele saber no sabiendo / toda ciência tracendiendo de San Juan de La Cruz (e de Lorca e Agostinho) – quando devo me estender na prosa e me conter em versos. Umberto Eco goza com todos nós quando garante que poesia é aquele texto que não vai até o fim da linha. Só isso. Mas me parece que na brincadeira ele deixou escapar uma verdade, pois esse é um modo de se tirar o pé do acelerador de um texto, mudando – de modo mais imediato – o tempo do seu conteúdo.

O que noto de imediato é que você gosta de poemas que poderiam ser contos ou crônicas. Como Antífona, onde há uma estrofe que poderia estar assim:

Depois me mudei: fui para além das cabeças da Serra Branca, para além do lado de lá, atravessei o crepúsculo, debandei para etc etc.

Prosa. Mas…  “atravessei o crepúsculo”? Poderia ter dito “fui para o poente” ou “para oeste”. Seria mais pragmático. Mas o resultado é que imediatamente sacamos que a prosa foi pra cucuia e o primeiro mandamento de Eco nos vem à baila: nada de chegar ao fim da linha.

Assim,

Depois me mudei:

(tempo)

fui para além das cabeças da Serra Branca,

(tempo para degustar das cabeças da Serra Branca)

para o lado de lá,

(tempo pra sentir: para o lado de lá?)

atravessei o crepúsculo.

(Caramba!)

Mais adiante:

Passava
tonitruante o Poti,
um  rio velho, cobarde e mentiroso.

O poeta – ante o adjetivo “cobarde” -, puxa o freio de mão e faz o replay, em slow motion:

Era de medo da seca,
fugindo do Ceará;

(Pausa. Pra que se sinta a beleza, a força da imagem que vem a seguir:)

troava o Poti, dentro dos abismos da serra,

Claro que não estou a lhe dizer novidade. No Apêndice I do Psi, “Os Poemas da Besta (ensaio)”, seu tema é justamente o tempo. Logo na epígrafe, tirada do Apocalipse 10, 5-6, você se extasia com a frase terrível do Anjo: a de que “já não haverá mais tempo!” Desencantei-me com a redução prosaica de outra versão, onde li: “Já não haverá mais demora!”, e fui à Vulgata:

Tempus amplius non erit.

E à fonte grega:

Χρονος. Cronos.

Volto às “Confissões” de Agostinho. Ele tenta responder, no capítulo XIII, a pergunta O que fazia Deus antes da criação. E conclui como Einstein, dezesseis séculos depois:

Se antes do céu e da terra, Senhor, não havia tempo algum, porque perguntam o que fazias então? Não poderia haver então se não existia o tempo.

Genial.

Tempo, matéria-prima do poeta, daí essa sua epígrafe.

Curiosa – por causa disso – a quantidade de notas que seguem todos os seus poemas. Lembram-me o glossário que acompanhava o romance também inaugural, “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida, ao apresentar – em 1928 – a Paraíba ao país, como uma terra ainda tão ignota quanto a civilização futura de a “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, romance também com seu glossário de gírias ainda não criadas. Lembra-me “Cem Anos de Solidão” começando assim:

El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo.

Assim é o Siarah que você nos traz como que de um tempo-espaço que não nosso.

Acudam-me os cantadores:
Ignácio da Catingueira, negro e escravo;
Romano da Mãe d´Água;
vocês fundaram
o galope, a cantoria
(…)
Também a dona Barrósa, a senhora dona Barrósa,
De seu Neco das Martins, o desafio,
que também me acuda,
eram poetas,
ganhou, ganharam,
fundaram este país!
(…)
Ai do cantador que se atrever,
ai daquele que não possa dizer:
eu sou,
eu venho,
eis a essência,
a chave-mestra,
a gota primeira:
nós!!!  

 

 

Soares Feitosa / Foto: David Feitosa

Daí sua poesia frequentemente me lembrar a prosa de Guimarães Rosa, que falou de homens e terras de Minas tão de dentro deles, que apelou para os neologismos joyceanos, como Shakespeare fez ao praticamente inaugurar seu idioma, ainda sem sequer dicionários.

Você diz:

Venho de um poeta, digamos Euclydes,
Capitão Ocrides.

(…)

Falemos
do fogaréu deste meu chão sem águas,
Siarah de chãos e terra!

Siarah! Temos, realmente, de puxar – de novo – o freio de mão ante a beleza de seu desafio ao poeta Thiago de Mello:

Não te pabules dos teus rios
que (…) escorraço-te com os meus peixes,
não esses “peixes” de lenda-de-beira-de-rio  –
com os peixes verdadeiros, porém, peixes-de-mar,
de-mar-cheio, do-mar-oceano;
e os meus tubarões de vinte metros
e as baleias de duzentos

Pabulagem? Fantasia! Como as de Chagall, judeu com seus milenares mandamentos. Por que não, então, os do sertão profundo de sua distantíssima infância?

Não podia era tirar ninho,
nem judiar de inocente,
nem abrir-a-porteira-do-curral,
nem mangar do desvalido,
nem desrespeitar o mais velho,
nem deixar de socorrer, doente, o animal.
Tocar fogo no capim?
Nem pensar,
Pois o Cão “aparecia”…

Não à toa você se refere tanto a Jeremias, Salmos, Apocalipse. A memória de sua terra se enche da mesma linda magia, nos seus poemas, com que você a via:

Pois o vento dos céus, elemento novo,
d´abastança,
expulsava do ventre do tanque seco
aquele outro vento,
vento velho,
encardido, das vacas
magras!

O vento bom,
túrgido,
que descia dos céus,
entrava em luta com o vento do abismo,
trevas;
o mormaço era expulso
ao ribombar dos céus,
farra dos ventos!

Isso tudo é de uma beleza tão densa, intensa, que nos impõe seu tempo, seu próprio espaço-e-tempo.

Detalhe deslumbrante:

Era de noite que chovia:
gotas amarelavam
à luz frouxa da lamparina de querosene.

Há todo um trecho igualmente cosmogônico no poema “Panos Passados”, em que você nos leva a assistir a um fenômeno único: o nascimento de um rio! Permita-me uns grifos:

Chuva primeira:
folhas,
folhas secas, caducas, garranchos,
pó,
folhas formando levas
– retirantes –
tangidas ao estrondar,
relâmpagos e coriscos,
gentilíssimas gotas primeiras,
um leve fio d´água,
e era ali, solene, mítico,
que se fundava,
refundavam-se os fundamentos
renascidos,
refundados,
pela enésima vez,
do velho rio,
rios,
rios secos,
meus rios,
do quintal da nossa aldeia:
rio do Governo,
Jaguaribe,
Macacos,
Curtume,
Acaraú.

(…)

E o fantástico cheiro da terra,
da terra fêmea, terra molhada:
mais uma vez,
as primeiras estrofes do Gênesis,
como se fosse a vez primeira.

Assisti uma infinidade de vezes a este pequeno flagrante cinematográfico de “Convite à Saudade”:
Mestre Besouro Preto olhou e olhou,
avoou de uma árvore a outra,
fez um cocuruto de vôo, mais alto

Tudo, no seu livro, vive muito próximo da criação bíblica. Como em “Rio Macacos”:

Porque as vertentes disseram às águas:
– desçam!
E as águas desceram!

No poema Psi a penúltima, dou com sua poética:

Gritei:

– ἀλώπηξ (alopex)?!
Vulpes?!
Renard!?
Renaaard???

(…)

Fale simples,
Chame a “Comadre”
(disse o Santo).
É a senha,
batei, abrir-se-vos-á!

Pra encerrar: você diz, no ensaio já citado, que o baiano Luís Antonio Cajazeira Ramos “não sabe a força que tem (… ou sabe?)”. Acho que sabe. Você talvez não soubesse da sua. Pois ele diz:

– Que nos resta? Dessacralizar os sacros (ou sacralizar a Poesia?) Antes que blasfememos, leiamos Psi, a penúltima, caldeirão febril sobre uma trempe cultural – grecirromana, judicristã e mundinordestina – , de onde sai cozida a palavra justa, e mais:

o abismo.

 

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Pintura: Sylvana Lobo

AOS EDITORES, UM NOVO AUTOR E SEU BELO LIVRO

Por W. J. Solha

Dois dias depois de me dizer que não lera meu poema longo Marco do Mundo porque uma virose que lhe afetava os olhos o atormentava, deixando-me muito preocupado, Esdras do Nascimento me passou e-mail falando da entrevista que eu dera aqui para o Fabrício Brandão, no Diversos Afins, e, mais:

– Gostei muito e me interessei por um romance que você elogia muito, nela, O Autor da Novela, de Tarcísio Pereira, que permanece inédito. Você poderia conseguir os originais para mim?

Tarcísio Pereira é um profícuo dramaturgo, romancista de excelente nível e ganhara a Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte com esse livro. Residente, como eu, em João Pessoa, é oriundo de Pombal, no alto sertão daqui da Paraíba, cidade onde vivi oito anos como funcionário do BB. Ele se entusiasmou com o prêmio, e imaginava, por causa dele, ser procurado por grandes editoras afins de publicá-lo, mas botei seus pés no chão:

– Olha, Tarcísio: para mim, pelo menos, a Bolsa não me rendeu nada além do dinheiro que me permitiu uma deslumbrante viagem pra Londres e o pagamento de uma edição do Relato de Prócula pela A Girafa. Quem sabe meu nome – depois de editar pela Record, Bertrand Brasil, Ática, Moderna, Codecri e Itatiaia – esteja em alguma lista negra e pra você, desconhecido delas, a reação seja diferente.

Não foi. Daí que pensei duas vezes, olhando para o e-mail do Esdras, e concluí que deveria fazer a ponte entre ele e Tarcísio. Sua opinião – se favorável – poderia, quem sabe, abrir caminho pro amigo em dificuldade. Fiz isso e, dois dias depois, Tarcísio me manda uma cópia da mensagem que recebera do grande autor de A Rainha do Calçadão, romance para o qual, aliás, eu fizera alentada e entusiasmada resenha para o mesmo Diversos Afins:

Em 19/06/2012 16:06, esdrasn@uol.com.br escreveu:

OI,
Acabo de ler seu romance.
Excelente.
Há muito tempo eu não lia texto tão
bom, tão bem estruturado, tão divertido,
com personagens admiravelmente bem criados.
Parabéns.
Vindo ao Rio, me telefone para um chope. 22851682.
Espero já estar recuperado da paralisia facial que vem
me aporrinhando há dois meses, para que possamos conversar
à vontade.
Semana que vem lhe mando “A dança dos desejos, Opus 13”,
publicado pela A Girafa.
Li a resenha do Solha sobre “O autor”. Muito boa.
Vc deve conhecer o romance do Vargas Llosa sobre
tema idêntico.
O que achou?
Um abraço.
Esdras

Well, I… welll, I…. não veio  nenhuma promessa de intervenção para publicação da obra, mas esse e-mail pode ser lido por algum bom editor, agora, que adquira os direitos do achado.

O que é O Autor da Novela?

É um romance que literalmente li – como se diz – de uma sentada só. Faltavam cinco para as onze da noite quando cheguei à última das 170 páginas em A4, que devem dar cerca de 210 em livro. Tive a alegria de telefonar pro Tarcísio às oito da manhã seguinte, pra lhe dizer que gostara muito do livro. Muito mesmo. E que me surpreendera ver quanto o nosso escritor crescera como romancista, de Agonia na Tumba – que já é muito bom – pra cá.

O Autor da Novela tem uma desenvoltura, uma fluência impressionante, por servir-se do expediente das novelas radiofônicas – como a Maria de Todos, criada e dirigida por seu personagem principal – que é a de terminar cada capítulo curto deixando o ouvinte (e o leitor) com a velha pergunta “e depois?, e depois? ”, num macete – salientado pelo próprio Tarcísio, no livro – que já vem da Sheerazade de As Mil e Uma Noites.  Para minha felicidade, o romance não só sacia, como sempre supera essas expectativas. Para isso, conta com uma série de personagens dignas de Dias Gomes (que inclusive aparece na narrativa), e várias situações novelescas, todas criativas como o diabo.

A história se passa por volta de 1970, quando a televisão chega a Pombal e  à região circunvizinha, onde tudo acontece. Eu estava lá, por sinal, e trabalhei para isso – como presidente do Conselho de Desenvolvimento do Município – sem saber que estava – rs rs rs – lascando o personagem de Tarcísio. Explico: sem se imaginar às vésperas desse evento marcante na vida sertaneja, Diá – O Autor da Novela – evolui de seus trabalhos na difusora do lugarejo onde mora, aproveitando-se de sua experiência de escrevinhador de cordéis desde a infância, para passar a produzir em prosa, na forma de novela de rádio, nos moldes da extremamente popular O Direito de Nascer, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que marcara sua infância. As repercussões de sua criação, bem local, na audiência da cidadezinha e arredores, são todas inteligentemente, humoristicamente exploradas por Tarcísio. E é aí, quando tudo vai bem, no melhor dos mundos possíveis, que o prefeito instala a tal TV na praça central do município, esvaziando toda a audiência do radialista que já se tornara celebridade. Por sinal, em 2002, quando eu trabalhava no filme Lua Cambará, vi, num lugarzinho assim, 70 km ao sul de Fortaleza, uma televisão acoplada a um poste, numa praça cheia de gente assistindo à novela das oito. O efeito dessa novidade no nosso herói fez com que ele me lembrasse Chaplin revoltado com o advento do som no cinema.

Meu grande medo era Tarcísio não sustentar o ritmo contagiante até o fim. Mas ele se sai notavelmente bem também nisso, de modo que a Paraíba já pode se orgulhar de mais uma obra literária à altura de seu invejável currículo.

Bem.

Conclusão. Não vou mais atormentar o Esdras a ponto de fazê-lo constranger-se ante o fato de não querer me dizer que não tolerou meu poema longo. Ele é apaixonado. Quando gosta de uma obra, gosta. Quando não gosta, não gosta mesmo. Nunca me incluiu em sua reiterada lista dos melhores romancistas brasileiros, mas chegou a dar uma oficina sobre meu Relato de Prócula, no Rio, o que me pareceu muito.

Que o livro do Tarcísio Pereira decole.

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

 

A SUÍTE DE SILÊNCIOS DE MARÍLIA ARNAUD

Por W. J. Solha

 

 

Deixo-lhe a melodia tecida nas cordas da minha carne, nos acordes da minha memória, na cadência do meu coração, a melodia-existência, labiríntica como o espírito, misteriosa como o tempo, definitiva como a morte. Último parágrafo do romance

Aquela que até agora era conhecida como brilhante contista, não começa o seu primeiro romance (Editora Rocco, Rio, 2012) com ganas de deslumbrar o leitor. Nada parecido com as quatro notas iniciais da Quinta de Beethoven; com a chamada da orquestra e as marteladas de piano que abrem o concerto número um, pra piano e orquestra, de Tchaikosky; com a clarineta virtuosística de Rhapsody in Blue; com a imponência da Abertura de O Guarani. Porque a violinista Duína – a personagem-narradora de Marília Arnaud – não nos quer levar a nada de grandioso, imponente, grandiloquente, arrebatador. Seu clima é o da Ária na Quarta Corda Sol, de Bach; do Adagietto da Quinta de Mahler; a do tristíssimo, lento – e maravilhoso – solo das peças para piano de Éric Satie, como Trois Gymnopédies e Trois Gnossiennes.

– A vida – ela escreve – é uma suíte de silêncios, a longinqua música de Deus.

O cuidado com que Marília Arnaud nos apresenta cada nota de sua Suíte, é o de um solista que fecha os olhos com força,  com doloroso gozo, pra obter os sustenidos mais difíceis e perfeitos do instrumento. Que instrumento, no caso?

Meu corpo, minha unidade. Meu corpo, minha vida. Meu corpo, eu.

É curioso o fascínio que o mundo das mulheres exerce, principalmente sobre os homens. Quando eu trabalhava no filme Era uma vez eu, Verônica – igualmente confessional – perguntei ao diretor e roteirista Marcelo Gomes, se ele iria dizer, depois, como Flaubert sobre sua Bovary, que “Veronique c´est moi”. E ele, rindo:

– Não, não…

Mas eu vi, passo a passo – no papel de pai da personagem – o esforço ingente da grande atriz, que é Hermila Guedes, pra chegar à perfeição de dar corpo à proposta do cineasta. Quem se esquece de Laura, Lara, Scarlett O´Hara, outras grandes personagens femininas do cinema? E de Aída, Carmem e La Traviata, na ópera? E das figuras femininas de Shakespeare, como Ofélia, Cordélia, Rosalinda, Desdêmona, Cleópatra, Julieta, Lady Macbeth? E acabo de ler os originais do excelente Palavras que Devoram Lágrimas, do paraibano Roberto Menezes, que será lançado em outubro, pelo estado, em que há um fluxo de memória de uma personagem louquíssima à la Molly Bloom, via Almodóvar; e leio a sólida resenha do também nosso  Rinaldo de Fernandes sobre Suíte de silêncios e me lembro de seu premiado Rita no Pomar, e não há como não citar  a Ana Karenina, de Tólstoi; a Capitu, de Machado; a Lolita, de Nabokov;  Anna Terra, de Érico Veríssimo; a Diadorim, do Guimarães Rosa; a Gabriela, Tieta e Dona Flor, de Jorge Amado, etc, etc, etc..

Mas

é notável como aumenta o interesse dos leitores quando encontram tais almas em livros diretamente de autoras.  Como Clarice Lispector, Françoise Sagan, Jane Austen, Virginia Woolf e assim por diante, simplesmente porque delas é que se espera mais… verdade.

Suíte de Silêncios é um romance extremamente feminino, extremamente bem escrito, extremamente triste e – sabe o que é dizer isso como elogio? – extremamente lento. Aborrecido? Nunca, never, jamás! E como ela conseguiu? Há uma cena incrível de equitação, no filme Mazeppa, de Bartabás, no qual ocorre uma demonstração de absoluto controle de um galope ao fazer a montaria – a cada movimento – quase não sair do lugar.  Assim, Marília Arnaud – no que tange ao tema de sexualidade de sua narrativa de 190 páginas, por exemplo – entrega-nos um primeiro toque íntimo, o de Victor em Duina, apenas na página 174, e – na seguinte -, a do prof. Ramon. Só na página 179  o grande amor da jovem, João Antonio, faz amor com ela pela primeira vez.  De novo a questão: Como ela consegue nos manter presos a seu depoimento? Como os cavaleiros de Bartabás: entregando-nos – perfeito em si mesmo – cada momento, cada etapa de sua evolução.

1) Foi quando passei a usar camisetas por baixo das blusas e vestidos, para disfarçar os seios de pitomba. Justamente nessa época começaram os constantes suores nas mãos, as espinhas purulentas no rosto, o odor repugnante nas axilas

2) Existiria algo mais bonito do que meu corpo, livre de qualquer reserva, à espera do seu?

3) A carne! (…) Porque tudo é carne, cavidades, secreções, odores, e é tanto, e tão intensamente, que chego a pensar em seu mistério como sendo tão grande ou maior do que o da Santíssima Trindade!

4) Eu o amei como só é possível amar em tempos de guerra, com a lucidez alucinada de quem sabe que aquela pode ser a última vez.

5) Guardar segredos. Sempre fui boa nisso.

Marília Arnaud faz um instigante jogo de espelhos em sua história. A Duína que narra, padece de uma dor insuportável desde que foi abandonada por João Antonio. E conta para ele (na verdade para nós) o que está sentindo e o que está rememorando, também: a angústia terrível – na sua infância – causada pela fuga da mãe com um amante, deixando o marido – e a filha – arrasados.

– Mamãe não voltou. (…) uma manhã como nunca houve outra igual! A primeira sem ela.

O desespero da rejeição que Duína sente e que também vê no pai a  desesperam:

Será que não existe nada mais indigno do que ser abandonado?

Quem viu Morangos Silvestres, de Bergman (Suíte – diga-se de passagem – também me lembra Bergman pela lentidão densa – é óbvio – e pelo  forte vínculo Eros e Tánatos: sexo e morte). Pois bem: quem viu Morangos Silvestres,  lembra-se do velho professor que, em meio a uma viagem de carro, para no lugar em que vivera muitíssimos anos antes, e se vê – a maneira bergmaniana de lhe mostrar a memória – em várias passagens decisivas de sua vida.

Observe a acuidade feminina destas observações de Duína sobre sua mãe, num detalhe dessa imensidão de um passado que não passa:

Um homem atravessou-se na minha infância (…) calçando sapatos brancos.

E ela anota:

– Parecia agitada, a todo instante arrumando o vestido do corpo, ou passando as mãos pelos cabelos. E que jeito de falar era aquele, em um tom frágil e cantado, que eu não conhecia?

É num momento desse que se conhece o romancista. E, mais precisamente: a romancista. E o efeito na própria garota é descrito por ela mesma, décadas mais tarde:

Nesse dia, tive a repentina compreensão de que  (…) em minha mãe existia algo indefinível, que transcendia a obviedade. (..) Essa descoberta foi o meu primeiro abismo.

Claro que o abandono da mãe a seu pai (e a ela) cala mais fundo quando a situação se repete com a partida de João Antonio, de volta para a esposa, deixando Duína, pela segunda vez, dolorosamente rejeitada. E essa última dor torna a primeira maior. Borges fala que Browning é kafkiano escrevendo muitos anos antes de Kafka, mas alerta que atentamos para isso – evidentemente – só depois que Kafka existiu.

Você se fora e eu me dava conta de que, enquanto vida houvesse, sempre se podia perder um pouco mais.

E ela realmente perde tudo: a mãe, Victor, João Antonio. A queridíssima vó Quela não morre, simplesmente: Deixou-me no meio de uma noite, sem despedida. E o maestro? Ao final da apresentação – ela conta do primeiro concerto de que participa – busquei, no momento dos aplausos, em meio aos olhos da plateia, os de meu pai, e o que enxerguei neles me deixou prostrada.

Duína, entretanto, não tem reações como a da personagem de Liv Ullman quando é humilhada pelo comentário da mãe – pianista famosa – à sua performance, no Sonata de Outono, de Bergman.

Toco razoavelmente bem – analisa – na medida da minha mediocridade, que hoje encaro com uma quase indiferença.

Mas a perda de João Antonio – apesar de aceita (Não o culpo por haver partido) – é definitiva.

Fora de mim, além do meu patético mundo de dor e autopiedade, não existia nada. Nada.

Mas Duína tem seu resgate num golpe de mestre de Marília Arnaud:

Agradava-me aquela sensação ambígua e inconfessável de entrega à dor.

Masoquismo? De Duína. Da romancista, orgasmo criador:

Me deixe ficar quieta em minha concha, você bem sabe como aprecio essas zonas sombrias, que me são quase uma carícia.

E foi na frase seguinte que ela descobriu que tinha um belo romance nas mãos:

– Só  a dor nos faz chegar à essência das coisas.

Marília Arnaud prefere selos a um outdoor. Música de câmera à orquestral, sinfônica, coros, trompas, trombetas. Prefere sussurros aos gritos. E, segura da qualidade do que produz, mantém-nos, passantes, no seu passo, compasso. Veja como ela descreve a capela da escola de sua infância:

É um mundo vagaroso, apartado do que zune lá fora, onde o ar é feito de um silêncio solene, que incha nos ouvidos, como se estivéssemos embaixo d´água.

 

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Desenho: Rui Cavaleiro

 

SATÃ ROUBA A CENA

Por Sinvaldo Júnior

 

Se a história de Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, acontecesse hoje em dia, seria mais ou menos assim: alguns amigos em um boteco (puteiro?) bebendo e filosofando sobre a vida, destilando sua erudição, com direito à citação de Hoffmann, Spinoza, Hume, Schelling, Homero, Platão, Schiller etc. É assim que se inicia o livro, mas em uma taverna, nos meados do século XIX, com muito vinho e mulheres ébrias e macilentas deitadas ao chão.

Nesse ambiente de taverna, noite, bebedeira, filosofia, mulheres macilentas, exclamações, fumaça, brindes (Senhores, em nome de todas as nossas reminiscências, de todos os nossos sonhos que mentiram, de todas as nossas esperanças que desbotaram, uma última saúde! (…) Ao vinho! Ao vinho!), alguém sugere uma contação de história, daquelas sanguinolentas, fantásticas, até absurdas (no bom sentido do termo), como as de Hoffmann, medonhas. Solfieri então começou.

Era em Roma, a cidade do fanatismo e da perdição. A noite estava bela. Solfieri encontra uma mulher pálida à noite. Segue-a até o cemitério. Ali adormece, espreitando-a. Um ano depois, de volta a Roma, após uma orgia, ao entrar na igreja de um cemitério sem perceber (estava bêbado), Solfieri se depara com a mesma jovem, mas agora morta. Tomou o cadáver nos braços. Mil beijos nos lábios sudário rasgado despida do véu gozo fervoroso. Àquele calor do peito de Solfieri, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos embaçados. Catalepsia? Mas ao acordar desmaiara. Solfieri carrega então o “cadáver” pelas ruas. Chega ao seu aposento. A mulher desadormece. Riso convulso. Insanidade. Dois dias e duas noites levou ela de febre. Morre. Após tudo isso, ela merecia uma estátua – foi o que Solfieri mandou fazer em sua homenagem.

De volta à taverna… Outro conviva se levantou: Bertram. Começou então a contar sua história com Ângela, a donzela espanhola e morena. Amava muito essa moça, mas quando estava decidido a casar-se com ela, precisou partir da Espanha para Dinamarca, onde seu pai o chamava. Soluços, lágrimas de esperança, beijos, promessas de amor, de voluptuosidade no presente e de sonhos no futuro. Partiu, enfim. Dois anos depois voltou. Mas Ângela já estava casada e tinha um filho. Então, como viver aquele amor que não morrera, nem por parte dele nem por parte dela? Enquanto o marido não soubesse, tudo poderia ser feito nas sombras de um jardim, mas um dia o marido soube de tudo. E marido traído é igual a Otelo. Ora, havia uma maneira de viver esse amor: Ângela mata o marido degolado e o filho. Por amor. Amor? Tudo resolvido, viveram uma vida insana, num viajar sem fim, aventuras, em noites belas. Porém, um dia ela partiu. Partiu, mas sua lembrança ficou como o fantasma de um mau anjo perto do leito de Bertram.

A história de Bertram é longa; não acaba aí não. Uma noite, ao cair bêbado às portas de um palácio, ele foi pisado por uns cavalos e por uma carruagem. O povo desse palácio o acudiu – um nobre viúvo e uma beleza peregrina de dezoito anos. Bertram a desonrou. Roubou-a do fidalgo que lhe dera abrigo e fugiu. Após enjoar, vendeu-a para um pirata, que logo na primeira noite foi morto por ela, que, por sua vez, afogou-se. Um dia, na Itália, Bertram tentou suicidar-se; alguém o salvou, mas esse alguém morreu afogado por tentar salvá-lo. Ô sina! Quando recobrou os sentidos, estava num escaler de marinheiros. O comandante gostara dele. Mas trazia a bordo uma bela moça, sua mulher. O leitor certamente imagina o que aconteceu. Amaram-se! Em alto-mar, após um combate sangrento entre navios, sobraram cinco: Bertram, a mulher do comandante, o comandante e dois marinheiros. Dias se passaram, a parca comida acabara. Os dois marinheiros morreram. Restaram, então, Bertram, a mulher/amante e o comandante. É aí que entra a antropofagia. Mas não falo, caro leitor, da antropofagia literário-artística da Semana de 22 não! Falo da outra: Bertram e a amada comem o comandante. Após toda essa aventura e sofrimento, de repente o nosso protagonista sentiu-se só, porque a amada não resistira:

Uma onda me arrebatara o cadáver. Eu o vi boiar pálido como suas roupas brancas, seminu, com os cabelos banhados de água; eu vi-o erguer-se na escuma das vagas, desaparecer e boiar de novo; depois não o distingui mais: era como a escuma das vagas, como um lençol lançado nas águas…

Agora é a vez da história de Genaro. Aprendiz de pintor em casa de Godofredo Walsh, Genaro desonra a sua filha de 15 anos, Laura, mesmo apaixonado por Nauza, a esposa de Godofredo. Laura diz ter engravidado. Adoece – cada dia torna-se mais pálida, mas a gravidez não crescia. Em seu leito de morte, ela chama Genaro: murmura que matara o filho deles antes de nascer. Laura enfim morre. Genaro, enquanto o velho chora a morte da filha, se declara a Nauza, que também o ama: E as noites que o mestre passava soluçando no leito vazio de sua filha, eu as passava no leito dele, nos braços de Nauza. Um dia, após um surto do velho, Genaro lhe confessa sobre a filha, o “namoro”, o aborto, a morte dela – tudo. O mestre então, depois, finge esquecer tudo. Uma noite, após a ceia, o mestre Walsh tomou sua capa e uma lanterna e chama Genaro para acompanhá-lo. Em frente a um despenhadeiro o velho lhe propõe o suicídio, uma forma de se desculpar por tudo que fizera. Genaro se joga ou Walsh o empurra? Mas não morre. É resgatado. Volta à casa do velho – se humilhar, mostrar-se arrependido ou se vingar? Nem um nem outro. Uma surpresa trágica o espera.

Chegou a vez de Claudius Hermann, que inicia sua história se gabando: em Londres, ninguém ostentava mais dispendiosas devassidões, nenhum nababo numa noite esperdiçava (sic) somas como eu. O suor de três gerações, derramava-o eu no leito das perdidas, e no chão das minhas orgias… Numa corrida de cavalos, conhece uma mulher. Apaixona-se. Essa mulher era a duquesa Eleonora. Claudius, então, começa a segui-la até o palácio. Ao encontrá-la dava-lhe narcótico a fim de, uma vez ela em sono profundíssimo, amá-la. Decidiu raptá-la, o que fez após lhe dar um narcótico fortíssimo. Eleonora enfim acorda. Desespera-se: está com um estranho, num lugar estranho. Depois de muitos choros, dramas, relutância, tentativa de convencimento, a duquesa decidiu ficar com Claudius. Aqui parou a história de Claudius Hermann.

– E a história, a história? – bradou Solfieri.

– E a duquesa Eleonora? – perguntou Archibald.

(…)

– E a duquesa?

Claudius soltou uma gargalhada. Caiu ao chão. Estava ébrio como o defunto patriarca Noé, o primeiro amante da vinha.

Johann é o próximo, dos amigos na taverna, a contar sua história. Era em Paris. Jogava bilhar com Artur, que venceu o jogo. Mas que encostara, voluntariamente ou não, na bola. Johann olha para ele com raiva, ao que o outro responde com um riso de escárnio. Johann dá-lhe uma bofetada. O moço saca de um punhal. A turma do “deixa-disso” impede o avanço do esbofeteado, que rasgou nos dentes uma luva e atirou-me à cara. Era insulto por insulto, lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue. Exagero? Mas é o que acontece. Antes do acontecimento fatídico, do duelo de morte, muitas peripécias, com direito a carta, lágrimas, anel, brindes, bebida – tudo a criar um mistério extra. Enfim, as pistolas se encostaram nos peitos. As espoletas estalaram, um tiro só estrondou… Depois de tudo isso, o autor ainda colocou muito incesto na história. Ô Álvares!

Enfim, chegamos ao capítulo final de Noite na taverna, de Álvares de Azevedo: Um beijo de amor. Surpresas. Surpresas inverossímeis? Mais tragédias, mas essas acontecidas ali, na taverna, entre os amigos contadores (inventadores?) de histórias. Contarei mais não. Leiam. É uma leitura deliciosa, inclusive para os jovens da atualidade, alguns dos quais com suas vidas parecidas com as dos personagens do livro, embora em outro contexto, completamente diferente daquele. É certo que, apesar de escrito por um autor brasileiro, nada possui de literatura brasileira, uma vez que nada ali espelha a história, o espaço, o clima, a vegetação, os costumes brasileiros. No entanto, esse fato não diminui o valor da obra, que é universal, tendo em vista que hoje vários leitores se identificariam (identificarão) com as suas discussões, as tragédias e desventuras ali narradas. Leiam e verão.

Desenho: Rui Cavaleiro


Em Macário, Satã rouba a cena

O prefácio de Macário é um pequeno tratado de Álvares de Azevedo sobre o drama (o gênero dramático): Haveria enredo, mas não a complicação exagerada da comédia espanhola. Haveria paixões, porque o peito da tragédia deve bater, deve sentir-se ardente; mas não requintaria o horrível, e não faria um drama daqueles que parecem feitos para reanimar corações cadavéricos, como a pilha galvânica as fibras nervosas do morto! Nessas obras dramáticas, a vida e só a vida! Mas a vida tumultuosa, férvida, anelante, às vezes sangrenta – eis o drama. Mas esse drama (Macário) que aí vai, diz o autor, não é exatamente o espelho de sua teoria, o seu tipo ideal, a sua utopia dramática. É um rascunho.

Mas é um ótimo rascunho, leitor. Nessa espécie de esboço de obras que seriam mas que não foram escritas, Álvares de Azevedo cria personagens interessantíssimos, os principais dos quais Macário, Satã e Penseroso. No entanto, embora não dê título à obra, é Satã que rouba a cena, porque é o personagem mais inteligente, mais sagaz, mais irônico. E, pelo menos como pintou Álvares de Azevedo, o mais sensato e racional, que destila sua verdade crua, mas VERDADE. Há, ora nas palavras de Satã, ora nas palavras de Macário, ora nas palavras de Penseroso, tanta verdade e tanta reflexão, dos tipos universais porque hoje ainda elas soam familiares. Vejam:

É uma coisa singular esta vida. Sabes que às vezes eu quereria ser uma daquelas estrelas para ver de camarote essa comédia que se chama o universo? Essa comédia onde tudo que há mais estúpido é o homem que se crê um espertalhão? (…) A filosofia humana é uma vaidade. (Macário)

Quem sabe onde está a verdade? Nos sonhos de poeta, nas visões do monge, nas canções obscenas do marinheiro, na cabeça do doido, na palidez do cadáver, ou no vinho ardente da orgia? (Macário)

A vida está na garrafa de conhaque, na fumaça de um charuto de Havana, nos seios voluptuosos da morena. Tirai isso da vida – o que resta? (Macário)

Bastaria citar vários trechos da obra, diálogos entre Macário e Satã sobretudo, para o leitor ter uma idéia da profundidade e complexidade de Macário. A primeira parte da obra (nomeado de Primeiro episódio – Numa estalagem de estrada) é simplesmente genial. A segunda parte (Segundo episódio – Na Itália) é menos bom, mas quando Satã reaparece em cena, os momentos de reflexão sobre a vida mais deliciosos voltam, e tudo volta a ser genial e prazeroso. Em Macário a descrição e a ação são o menos importante; o mais importante são a reflexão e os diálogos entre os personagens: Macário x Satã; Macário x Penseroso. São páginas de filosofia da boa, daquelas despretensiosas, mas profundas – sobre a poesia, sobre a esperança, sobre os mistérios das mulheres, sobre a vida.

A partir da leitura de Noite na taverna e de Macário, percebe-se que Álvares de Azevedo era um gênio que não aproveitou toda a potência de sua genialidade, pois morreu cedo demais, antes de completar 21 anos de idade. É impossível não tentar pensar no que ele poderia ter escrito, se tivesse vivido mais alguns (ou muitos) anos. Seria ele uma espécie de Edgar Allan Poe, o nosso Poe, com seu veio ultra-imaginativo e suas histórias de amor e morte? Não estaria ele no rol dos maiores gênios da literatura brasileira? São questões que não serão respondidas, mas que instigam os leitores de Álvares de Azevedo e da nossa literatura.

O autor

Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, em 1831. Entre as suas obras estão Lira dos Vinte Anos, Pedro Ivo, Macário, Noite na Taverna e O Conde Lopo. Morreu em 1852. Em seu túmulo, o epitáfio famosíssimo: “Foi poeta, sonhou e amou na vida”.

 

(Sinvaldo Júnior é um personagem do livro de narrativas Manicômio, de Rogers Silva. Nasceu e vive em Uberlândia-MG. Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU. Possui Mestrado em Teoria Literária (UFU) e Mestrado em Administração (UFU), com ênfase em organizações envolvidas em Artes & Cultura. Publicou artigos acadêmicos e jornalísticos em diversos sites, revistas e jornais. Atualmente é doutorando em Literatura pela UNESP. É pesquisador das obras de Campos de Carvalho e Drummond)

 

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Affonso SÍSIFO de Sant’Anna

Por W. J. Solha

 

 

 

Zaratustra – aos trinta anos – desce a montanha pra levar sua mensagem à humanidade, que está lá embaixo.  Sísifo, aos setenta e tantos, cansado de tanto sacrifício por nada, faz o mesmo, mas pra se despedir. Pois nós – seus leitores ou não – fomos contados, medidos e pesados por ele… com resultado bastante negativo:

A mim me tocou
viver numa época em que miúdos seres
rastejam sem visão no pó do instante
(DEPOIS DE TER VISTO)

Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
(RITUAL DOMÉSTICO)

Onde estão esses
que ao nosso lado
parecem tão passivos
com o ar silencioso
e corrosivo?

Onde estão?

Estão apenas vivendo
morrendo
como sub ser vivos.
(ONDE ESTÃO?)

Banqueteiam suas fezes em alarido
como se ouro fossem
e dançando à borda do abismo
se rejubilam
– com a vertigem.
(DEPOIS DE TER VISTO)

E isto – em ESCLEROSE E\OU MALEVITCH – é terrível:

Depois de aprisionar figuras
nas molduras de seus quadros
chegou ao ápice da arte
– e do espanto:
Emoldurou
– o branco sobre o branco. 

Sísifo, ante tal pedra no meio do caminho, dá um basta. Affonso Romano de Sant´Anna, que além de grande poeta é um contumaz viajante, dá com ela encalhada no Egito:

 

 

 

Vê, inacabado porque fraturado, o que seria o maior obelisco da terra em que tudo era gigantesco:  sua concreta pedra de Sísifo\Drummond. E escreve um dos melhores poemas de seu novo livro, com uma forte compulsão de se servir de um recurso… concretista:

Esse obelisco     inacabado
fora de Assuam     esse obelisco
o maior de todos    com a quarta
face não cortada     da pedra no chão
esse obelisco sem     inscrição alguma
a não ser as rachadu     ras do terremoto
que o partiu  esse  ob     elisco
abandonado ontem  ho   je visitado
por multidões atônitas    esse obelisco
inerte tem algo huma     no perturbador
em torno dele assim     morto e torto
estirado como se fo    sse um osso
ou algo nosso inse     pulto em torno
dele circulamos o     lhando o chão
como se algo e      m nós também
tivesse se par    tido
sem alcançar a perfeição

“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

Embora a tradição diga e Vinicius sustente que “poeta só é grande se sofrer” e o tema da proximidade da morte seja um achado – no Sísifo desce a montanha – do porte do corvo repetindo o nome da finada Lenora pro amante desconsolado – em Poe -, é claro que (para mim, pelo menos, que o considero nosso maior poeta vivo – e também, talvez, morto) não existe motivo real pro desconsolo. Pelo contrário: Affonso deixa o nome na História de nossa literatura, e – enquanto vai pra Cartago e Assuam, Chicago mais Teerã – nos intervalos descansa carregando pedra:

Sinto que o incomoda o fato de sua poesia, em certa fase, ter tomado partido por causas arriscadas, por conta dos sub ser vivos. Ele diz, em PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA:

Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
– na Cidade Proibida na China.
(…)

Impossível ficar no tempo que me coube
o  tempo todo
Preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de
como um Sísifo moderno
desesperado
julgar
– que o tinha que carregar.

A epígrafe de seu livro, a propósito, vem de Clarice Lispector:

A gradual deseroização de si mesmo \ é o verdadeiro trabalho que se elabora \ sob o aparente trabalho.

Deseroização.

Seria isto?:

Olho e acaricio meu cão.
e apagando a luz da sala,
tranco as portas
exilando o medo.
(AQUELAS QUESTÕES)

É estranho ouvir sobre tal busca de autodesmistificação em Affonso, que me foi apresentado por Sérgio de Castro Pinto há séculos, e que me lembrou, na época – pelo gigantesco A Catedral de Colônia, que tentei emular com meu Marco do Mundo, e pelo bravo QUE PAÍS É ESTE?, sendo ele próprio de ombros largos e grande charme –  a mais marcante figura épica de minha adolescência:

 

 

 

 

Mas o tema é A Morte.

Sou apenas um pouco mais “novo” que ele. Affonso é de 37; eu, de 41. Tenho, portanto, sentido a aproximação dela, também. E, como sempre me pareceu caber à poesia tirar as palavras de nossa boca, os melhores momentos do Sísifo desce a montanha são – para mim – aqueles em que o poeta aborda – heroicamente, apesar da inspetora Lispector – o tão temido tema. PREPARANDO A CREMAÇÃO, por exemplo, é antológico. Pela simplicidade veraz ou feroz com que Affonso revela ter feito o que ainda não me decidi a fazer, embora seja um ato inevitável:

Levanto-me. Vou ao cartório
autorizar minha cremação. Autorizar
que transformem
minhas vísceras, sonhos e sangue
em ficção.

O que pode haver
de mais radical?
Assinar este papel
tão simples
tão fatal.
Autorizar a solução final
de todos os poemas.

“Solução final”. Veja a sutileza com que ele nos remete à Solução Final da Questão Judaica, como foram considerados os terríveis crematórios nazistas nos campos de concentração. Mais sutil ainda é o fato de que ele não lamenta ter o corpo em chamas e reduzido a cinzas, mas “todos os poemas” desintegrados com ele.

Confirmando a imagem que sempre tive a seu respeito, o poeta tem amor intenso pela vida. Daí que é comovente vê-lo dizer mais adiante:

Há muito venho me preparando
me despedindo do sorriso da mulher, das filhas
da rua onde diariamente passo
me despedindo dos livros
vizinhos e paisagens.

Claro: em RITUAL DOMÉSTICO ele nos fala do aconchego do seu lar, com toques de extrema delicadeza.

Toda noite
acendo algumas velas na sala
enquanto minha mulher prepara o jantar.
somos nós dois
e essa cachorrinha meiga
com seu estoque inesgotável de afeto.

Essa cachorrinha meiga é presença recorrente no livro. Algo como a cadela Baleia de Vidas Secas ou o cão interpretado por Servílio de Holanda no espetáculo Vau do Sarapalha. Num desses instantes, Affonso se excede. Talvez haja me comovido mais porque tive, durante anos, uma pequinês chamada Lady, como a de Disney, e vi em casa cenas como essa, fantasticamente flagrada em LEVARAM OS SEIS FILHOTES. Não à toa os olhos de minha mulher marejaram quando li para ela:

Levaram os seis filhotes dessa cachorrinha
que chora
geme de desespero
procura suas crias pelos cantos da casa
sob a mesa
no jardim
na lareira
e pede socorro com seus olhos
exigindo explicação.

“E pede socorro com seus olhos exigindo explicação”!

É com detalhes assim que Affonso ressalta o apego à vida que sente estar por perder. Ainda em PREPARANDO A CREMAÇÃO, diz:

Olho cada parte de meu corpo
que vai se desintegrar:
mexo os dedos, vejo as veias
e no espelho esse olhar
que nada mais verá.

Já me vi fazendo o mesmo inúmeras vezes e me pareceu bem rever isso em versos.

Mas de repente, em COMPREENSÃO – num surto de otimismo – ele conclui que não há morte, tudo é recomeço. Daí que – tal qual num sonho – implicitamente evoca para si – ao optar pela cremação – um fim igual ao do profeta Elias… com o que tudo se transfigura:

Espero que um carro de fogo me arrebate numa tarde dessas
e sem estremecimento
me dissolva de vez na eternidade.

Mas  enigmas o cercam de todo lado e o angustia saber que a Esfinge vai devorá-lo sem que eles os decifre. No INDEPENDEM DE MIM diz:

Meus rins, meu pulmão, meu fígado
(e o coração)
não carecem que lhes ordene
o que fazer.
Na verdade me antecederam.
me hospedaram apenas. E se rebelam
se os forço a me obedecer.
são autônomos
mais que autômatos.
Eu é que sou essa estranha coisa
pensando movê-los.
(…)

E aqui termino, anotando o que ele diz a respeito, NO LABIRINTO:

Habito o mistério que me habita

O que me remete a uma frase do Ulisses que vivo me repetindo:

– Falar do mistério no seio do próprio mistério: isso é arte.

É, na verdade, arte.

 

 

 (W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

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68ª Leva - 06/2012 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

 

PEQUENOS DELITOS E EPIFANIAS

Por Jorge de Souza Araújo

 

 

 

 

Diante destes textos (ou peças literárias maxi-minimalistas, ou contos de feições microscópicas pluralizados por visão macro, ou crônicas abstratas derivando para contos fantásticos e, no entanto, intimistas, confessionais) é mais adequado pensar que a escritura de Antonio Nahud Júnior transcende seu mais exato mister, ultrapassando o que quer que se declare na ficha catalográfica do livro.

Dessa forma, “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” representa também exercício filosófico numa linha de investigação ontológica, metafísica, expressionista e existencial. E, por exemplo, “Love is a Many Splendored Thing”, que abre a coletânea de pasmos e pathos humanoides, ressalta uma fragrância de Poe, do épico e dramático de “O Corvo”, com a amada morta do protagonista entrando janela adentro na noite iluminada de Selton, o amante para sempre fiel e siderado pelas chamas da fornalha passional.

Assim, o que leremos doravante são mini ou macro textos parodísticos da existência pânica, imprimindo e imprimidos, não obstante, de frêmitos de lucidez em meio à voga lúdica, elíptica, espasmódica e diversionista da palavra em febre de dizer-se para além das eventuais obscuridades. O que mais neles avulta é a surpresa do insólito, não apenas reservados aos finais consagradores do clímax e do desfecho, mas por toda a rede de intrincadas e complexas teias, cujos enunciados se confundem com seus signos. O lírico sempre pesponta o outro lado do trágico e o humor cerrado em sorrisos contrafeitos observa a vida sob as escamas de um amplo e entrechocado mistério. A ambiência de sugestões de hiatos de percepção muda supre a necessidade de concretude do real. Por isso nem sempre as personas são nomeadas e a sensação do provisório e efêmero de nomes, pessoas e coisas produz a inércia do pensar, quase valendo qualquer nome para designar qualquer coisa ou pessoa.

Antes de se constituírem densidades dramáticas, oscilantes entre o trauma psicológico e a violência grosseira, contos como “Os Negros e outros são mais perceptíveis como registros de instantes fugazes ou prolongados, sinestesias dos impactos de sentidos múltiplos, em particular a visão e o olfato, o detalhe significante (e machadiano, que nisso é avant la léttre) da metonímia de uma nesga de rosto, mãos, cabelos, cores, cheiros, perfumes, com predominância de assunção e projeção de flagrantes e diálogos envolvendo o desejo homossexual, tudo feito com refinamento, sutileza e inteligência dinâmica e superadora de vãos preconceitos. Cito diálogo de “Os Negros”:

— “Acredita em romances entre machos?”, atacou Glauber.

— “Sei que uma relação bem sucedida não depende do sexo dos envolvidos, mas da comunhão inevitável”, respondeu pausadamente o garçom.

Uma acentuada dose de coragem de se expor trescala desse e de inúmeros outros trechos e textos do livro que ora se ostenta sem pregar slogans nem bandeiras. Antonio Nahud Júnior, entre o escracho ou deboche e a estreita visão do córner discursivo dos guetos, opta pela sinceridade. Estará, portanto, na boa companhia dos bons textos de uma Állex Leilla, por exemplo, um dos mais agudos e penetrantes da geração da prosa curta contemporânea na Bahia. O que pretende, então, quem fere as nebulosas humanas destas “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” das tribos antropocêntricas? Vejamos o que tem a dizer o próprio autor, em entrevista. À pergunta de Gustavo Atallah Haun (jornal Agora, 03 a 10 de julho de 2006, Banda B, p. 8) — Em sua opinião, qual é o aspecto mais difícil do ato de escrever? Ele responde: — A construção de um universo mágico que me emocione e, consequentemente, emocione o leitor. Transformar a literatura num oceano de prazer. É a parte mais difícil. Sou exigente, faço questão que o texto ou o poema me comova. Sobre os temas que mais se impregnam em sua narrativa, provoca: Os elementos sensuais desempenham papéis-chave na minha literatura: odores, texturas, sexualidade, funções corporais. No entanto, seria incorreto classificá-los como especificamente homossexuais, bissexuais ou sei lá o que, pois eu não acredito numa literatura homoerótica, assim como não acredito numa literatura feminina ou masculina. Todos os escritores são seres andróginos.

Polêmicas à parte, “Pequenas Histórias…” é mesmo um livro de textos que respiram situações de claro/escuro no mundo das relações humanas. E também de interinfluências, algumas até de origem inconsciente, talvez. Um trecho aqui lembra Adélia Prado e seu poema descritivo de um rapaz que palita os dentes com ruído, esgaravatando o coração de cadela de quem o observa. Outro flagra decrepitudes fetichistas e ásperas solidões homoafetivas, com suas gruas de martirológio afunilando dificuldades existenciais. Noutros, ainda, predominam sensos parabólicos, ascéticos e um mistifório de alteridades. “Chá com Harpias contém cenas, alegorias, analogias e alusões de teatro cosmopolita.

Enquanto “Sem Notícias de Deus” — o melhor do conjunto, na modesta opinião de quem escreve estas notas — é um conto soberbo, antológico e definitivo, com a pungência sincera da realidade fotográfica e a comiseração mais nítida do narrador, numa dimensão de permanência que não se subordina à claque e avança para a perenidade do documento humanista; “Noites de Ninguém tem o pathos de Dalton Trevisan e o lógos protestatório de Glauco Mattoso ou Caio Fernando Abreu. “Fim de Caso” é drama burguês que não contemporiza, mas purga as dobras da agonia pânica, avizinhando-se da solidão da incompletude, aquela que se tem a sós ou acompanhada com a invisibilidade do outro. “A Dor no Coração da Deusa do Sexo” flagra o pungente retrato urbano dos que vivem sem felicidade no coração. Em “Brinquedo do Cão” o monólogo nunca personalizado ou exclusivo fala de todos os emparedados discursando sempre na primeira pessoa do singular. Imagens insólitas, arrimadas num lirismo oblíquo e dissimulado, constituem o perfil de “Apenas uma Mulher”.

Por vezes, a tibieza do lugar-comum ocupa as frestas do texto que cede à fala natimorta. Contos sem vínculo com Tchecov ou Maupassant florescem mechas para o psicodelismo, o delírio, até a paranoia do novo mundo concebido à sombra de florestas espessas das exclusões. Outros são os textos apaixonados por cinema, como os do argentino Manuel Puig, quase todos untados com malícia, alguns reiterativos do antes já dito. Por alguns também perpassa o melodrama a la Nelson Rodrigues. Melhor quando a linguagem advoga a primeira pessoa, mais espontânea, Antonio Nahud Júnior dissipa seu estilo com o Expressionismo e suas imagens derivárias do patético. Em “Tentativa de Controle”, o estilo é típico de “Matou a Família e foi ao Cinema”, de Júlio Bressane, incluindo o ciúme vampiresco de Otelo, o patetismo melodramático de Nelson Rodrigues e o corte incisivo do expressionismo alemão. “Da Utilidade da Poesia” poderia suscitar lembranças, ainda que vagamente, de Tchecov (“Teoria da Arte”), Tolstói (“Sonata a Kreutzer”) e do brasileiro João Antônio (“Afinação da Arte de Chutar Tampinhas”).

Algumas das peças literárias de “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano”, apesar dos temas, da fluência da linguagem, não buleversam, resguardando-se o leitor do sorriso enigmático da Mona Lisa. O tédio, o non-sense, o ar blasé, a cultura cosmopolita, o existencialismo a la Clarice Lispector, as buscas ásperas, a guarda baixa na auto-estima, a deserção, a desistência, a entrega solitária dos emparedados, tudo comove, mas nem sempre com a eficácia legitimadora da solidariedade. As palavras, o ritmo, as imagens e sensações que provoca, o texto de Antonio Nahud Júnior poderia desvendar-se no que o próprio texto determina e projeta na personagem de “Um Fluxo”: Aprofundando-se no cenário mental, entrega-se à selva de letras, obstinado, entre versos-insetos e parágrafos de flores carnívoras, vivenciando equinócios, constelações e centelhas: dialogando com árvores na trilha da montanha lírica. Sintomática a citação de Jorge de Lima do romance “O Anjo”, cujas fosforescências de idioma lírico Antonio Nahud Júnior parece também intuir, revestindo-se a palavra-emblema no primeiro texto surrealista publicado na voga do regionalismo de 30: “O Homem Nasceu para Contemplar. Só por Castigo Ele Luta e Trabalha”.

O universo das “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” é quase exclusivo do dialeto autoral, particularmente o pitoresco e exótico, bem como são particulares os códigos de escrita e os motivos temáticos. Mas o humor rebelde e insubmisso traz vestígios, por exemplo, de Drummond (aposentado consumido por uma melancolia inexplicável, “Lulu”); “Vertigem” tem a ousadia pornográfica de Henry Miller ou a parábola fugaz de um Sade, que indetermina as razões do desejo e o sem-limite das perversões. Um conto muito longo (“Imagens”, por exemplo) termina vampirizando as energias do narrador e do leitor mais concentrado, ainda que ambos possam ser expertos e expeditos, antenados na ironia de um texto, mesmo o que não provoque empatias.

Este livro de Antonio Nahud Júnior é uma espécie de almanaque visceral, revolvendo sensações em perfis caleidoscópicos, flagrando instantes de perdas e descobertas, epifanias e registros documentais das hecatombes humanas e de pessoas singulares. A maioria dos textos imprime-se de contornos intimistas, confessionais de aparência ora gozosa, ora culpada de ocultamentos. Conforme a nomenclatura, contos se apresentam com finais oscilando entre o surpreendente e o óbvio. Tematizando os povos da diáspora genérica presas da sexualidade sob o arbítrio das convenções, realizam-se ainda pela reflexão a ser reverberada no âmbito da consciência crítica.

É livro inquieto e inquietante, que convida ao debate e à inteligência não conformados ainda à inércia do pensar de calças curtas.

(Jorge de Souza Araújo é poeta, Mestre e Doutor em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-professor de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Dentre suas publicações, estão: “Os becos do homem” (poesia – Rio de Janeiro: Antares, 1982), “Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira” (Salvador – Assembleia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999), “Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado” (Rio de Janeiro – Relume Dumará, 2003), Floração de imaginários – o romance baiano no século 20 (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008))

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67ª Leva - 05/2012 Aperitivo da Palavra Destaques Outras Levas

Aperitivo da Palavra

UNIVERSO MENTAL POVOADO POR SERES MINÚSCULOS

Por Geraldo Lima

 

O que se pode esperar de uma obra literária é que ela provoque, no mínimo, o estranhamento no leitor, arrancando-o do automatismo da vida ordinária. O leitor que se aventurar na leitura de ‘Notas de Pensamentos Incomuns’, de Anderson Fonseca (Editora Multifoco, 2011), será, com certeza, tocado por esse estranhamento. O livro é composto de minicontos, sem título, e quase sempre narrados em primeira pessoa, ou fragmentos que se articulam como se fizessem parte de uma única história, mas que, ao mesmo tempo, mantêm uma independência em relação ao todo. E esse já é um dado do estranhamento que o livro provoca, pois, ao final, sabemos tratar-se de uma obra cuja tessitura só se completa com a junção de todos esses fragmentos aparentemente autônomos.

E o estranhamento se aprofunda com a presença dos seres minúsculos, bizarros, fantásticos, que povoam o universo ficcional criado por Anderson Fonseca. Tamagotchi, Delírios, Gloeb, Jhungols, Flopers, Dabie-Dabie e Móbile são alguns dos estranhos personagens com os quais o leitor irá se deparar durante a leitura de ‘Notas de pensamentos incomuns’.

Alguns desses seres minúsculos habitam a cabeça (e às vezes dela brotam) ou outras partes do corpo de um quase sempre atormentado narrador-personagem. É o caso de Apple, um “bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso” que um dia escapa da cabeça do narrador-personagem: “E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que me lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça” (pág. 51). Às vezes esse processo de coabitação é mais radical, e o ser intruso penetra o corpo do narrador-personagem ou interfere na sua capacidade de articular o pensamento. Imagine uma mosca que pousa certo dia na mão do sujeito e, depois de algum tempo, já se encontra morando embaixo da sua pele. Ou seja, ele se torna o seu hospedeiro. Noutro miniconto, uma bactéria começa a interferir nos pensamentos do narrador-personagem. Diz ele: “Faz um tempo que meus pensamentos estão sob a regência de uma bactéria” (pág.85). E para que o leitor não ache que isso seja inverossímil, improvável, o narrador-personagem cita como argumento de apoio a matéria publicada na Scientific American confirmando a existência de uma bactéria capaz de “alterar o estado cognitivo do ser humano”. Mas nem precisava usar esse argumento, pois, desde o início, o leitor terá notado que a narrativa de Anderson Fonseca, nesse ‘Notas de pensamentos incomuns’, dá-se fora dos limites do realismo. O que se vê aí é a mais viva manifestação do fantástico e do absurdo.

E é nesse sentido, dessa forte presença do fantástico e do absurdo, que podemos falar das influências que permeiam essa obra de Anderson Fonseca. É visível o diálogo dessas suas narrativas curtas com a obra de Jorge Luís Borges (estão lá os espelhos que simulam outras realidades ou imagens, os corredores formando labirintos, o espírito de fábula), a de Julio Cortázar (o seres minúsculos e fabulosos lembrando cronópios, famas e esperanças), a de Kafka (a metamorfose, a sujeição do personagem a uma realidade que escapa à sua vontade) e, também, o universo mágico da obra de Escher. Esse, aliás, é citado literalmente numa das narrativas: “É embaraçoso viver numa casa desenhada por Escher, e muito mais embaraçoso saber que ela existe numa folha de papel…” (pág. 73). De tudo isso surge um texto de feições próprias, mas que mantém suas raízes fincadas na tradição que subverte o real.

Mais que qualquer outro mecanismo de forjar realidades, é a imaginação que prevalece nesses textos ficcionais de Anderson Fonseca. É da imaginação do narrador-personagem, do seu pensamento incomum, atormentado, que brotam todas essas notas e todos esses seres e universos perturbadores. E, aqui, o leitor irá se deparar com outro elemento que destoa do normal: o narrador-personagem e o autor fundem-se, aparentemente, numa só pessoa. O autor Anderson Fonseca, à maneira de Borges, se coloca na narrativa. (E os limites entre realidade e fantasia quase que se dissolvem.) Todo esse universo de perturbações e estranhamentos situa-se na sua mente. E diante da sugestão do médico para extirpá-lo (a cura mataria a capacidade criativa do autor), ele escolhe permanecer coabitando com os seres que, muitas das vezes, sugam a sua energia e a sua paz de espírito: “Vendo hoje o meu estado, tenho vontade de esmurrá-lo, lançá-lo para longe dos meus olhos; (…) me apeguei de tal modo a essa pequena criatura inocente, que sacrificá-la seria o mesmo que me destruir”, diz ele sobre Gloeb (pág. 18).  Criador e criatura estão, nesse caso, unidos de maneira indissociável. Criar é, de certa maneira, deixar-se habitar pela existência do ser criado. E o leitor que se aventurou por esses estranhos mundos criados por Anderson Fonseca não escapará ileso: os minúsculos seres que pululam na mente do autor, ou do narrador-personagem, passam a habitar também agora a sua imaginação.

 

(Geraldo Lima nasceu em Planaltina, GO, em 1959. Mora, atualmente, em Sobradinho, DF. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, escritor e dramaturgo. Já publicou seis livros, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), UM (romance, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites: O BULE, Dona Zica tá braba e Portal EntretextosColabora com o Jornal Opção, em Goiânia, o Jornal de Sobradinho e a Revista TriploV. Contato: gera.lima@brturbo.com.br) 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Ángel González

Palabra sobre palabra                                                                      

Por Jorge Elias Neto

 

Ángel González - Foto: divulgação
        Para vivir un año es necesario morirse muchas veces mucho.
Ángel Gonzalez

                                                                                           

Algunas palabras

Alguns poetas são atletas do abismo. Espreitam, com seu olhar irrequieto e sensível, o entardecer por detrás da História. Debulham o seu passado – o nosso passado – e nos ofertam um ladrilho de palavras. Esses mesmos poetas se especializam, tornam-se alpinistas do nada e penduram-se no portal do tempo. Sabem-se clandestinos, insignificantes e fadados ao esquecimento.

Angel González (1925-2008), notável poeta espanhol, faz parte desse seleto grupo.

Um dos principais poetas espanhóis da Geração dos 50, por muitos considerado o maior poeta espanhol do século XX, González é pouco conhecido em nosso meio.

Entre seus livros mais importantes figuram Áspero mundo, Sin esperanza, con convencimiento e Grado Elemental.

Vejamos o que Luis Isquierdo escreveu na introdução da última antologia publicada por González:

O dom do poeta é a denúncia do negativo que perpassa a vida: a belicosidade que não cessa, a dependência de imposições, o medo disseminado das condutas. Sem renunciar à beleza, os versos têm que tratar também de nossos erros e fracassos. A beleza resiste, e tem seus momentos. Entretanto tem-se que ter conhecimento de sua raridade.1

Não há leitura inocente para uma poética desmascaradora do que se pretende fácil e espontâneo na vida. No orbe poético de Angel González, a presença da beleza se afirma pela atenção precisa do autor a tudo o que a dificulta. E a exigência de não renunciar a ela, que é recordá-la, implica no dom de fazê-la tão viva quanto excepcional 1. O que se manifesta, em rigor, é uma consciência desenganada.

Para entendermos um pouco de sua obra, é imprescindível reconhecer a profunda influência da Guerra Civil Espanhola sobre sua infância. Observação que também se aplica aos principais poetas da Geração dos 50. Ao contrário da geração que os antecedeu, esses poetas realizaram uma poesia dita social, mais combativa, ambígua, rica em ironia, desilusão e crítica ao entorno político-social. Essa característica é bem evidente em seu livro de estreia Aspero Mundo (1956).

Posteriormente, González se distanciou da poesia social, passando inclusive a criticá-la em alguns de seus aspectos fundamentais.  De qualquer forma, reconheceu que um certo mundo perdido existente em sua poesia, era, no fundo, a Guerra Civil e a perda da causa que representava a República Espanhola 2. Como disse o autor:

Sin salir de la infancia, en muy pocos años, me convertí, de súbdito de un rey, un ciudadano de una república y, finalmente, un objeto de una tiranía.

Outro episódio que marcou a escrita de González foi ter adquirido tuberculose. O tratamento desta patologia obrigou-o a um longo retiro em Páramo Del Sil, onde teve oportunidade de se aproximar mais da poesia e iniciar, de forma mais sistemática, sua produção poética.

Suas primeiras experiências poéticas foram como autodidata. Segundo o poeta, a ditadura espanhola impossibilitava o livre acesso à literatura.

Juan Ramon Gimenez, grande poeta espanhol do começo do século XX, ganhador do prêmio Nobel de literatura, foi a primeira e fundamental referência para o jovem poeta. Também os existencialistas, sobretudo Sartre e Camus, povoavam, desde cedo, o inconsciente de González.

Mais tardiamente se interessou pela obra de Antonio Machado, considerado por ele o poeta do inefável, e pela poesia vanguardista do peruano César Vallejo. Refere-se a Vallejo como sendo o responsável por um de seus maiores deslumbramentos que ocasionaram mudanças definitivas em sua obra.

Por outro lado, Ángel González tornou-se uma referência indiscutível  para os poetas que, no final da década de oitenta, iniciaram uma polêmica e definitiva mudança na poesia espanhola denominada Poesía de la experiencia. Declarou o poeta: chega um momento que, inevitavelmente, o poema há de ser necessário para quem o escreve, se se deseja que depois seja legítimo para quem o lê. 4

Graduado em direito e jornalismo, fugiu da ditadura franquista em 1972 e passou a lecionar literatura espanhola contemporânea em várias Universidades Norte-americanas.

Sabias palabras

[…]

Falo também como escritor, já que na qualidade de tal estou aqui. Gostaria de falar como poeta, porém não poderia fazê-lo sem contradizer-me gravemente, pois sempre sustentei que os poetas não existem, salvo na leitura. Se falasse como poeta os falaria, em minha opinião, a partir do nada. O poeta Ángel González, estará nos livros como uma possibilidade, como uma proposta ao leitor que será quem, em última análise, decidirá sobre sua existência ou sua inanidade. Aqui está, tão somente, o homem que há tramado as palavras que dão vida ao poeta, palavras insuficientes em si mesmas, que não teriam sentido sem o concurso dos outros. E essa é uma das grandes lições que, em meu modo de ver, se desprendem da poesia. Porque nossa forma de ser, o que efetivamente somos, depende dos outros mais do que habitualmente pensamos. Ninguém, e isso é muito evidente no caso dos poetas, pode existir sem os demais.
Não se esqueçam nunca.

É certo que o poeta, o grande poeta lírico, mobiliza impulsos que o homem encontra no centro de sua intimidade ou de sua experiência. Porém, essas reações anímicas e sentimentais, por mais pessoais que pareçam, não podem ser únicas e intransferíveis. Se não faz vibrar por simpatia o coração dos outros, se não ressoam e se atualizam em sensibilidades alheias, o poeta haverá nascido morto.  Não para o que ele diz, mas pelo que ele realmente faz, o ato poético é, em essência, eminentemente solidário.

Fragmento do discurso de agradecimento pelo importante Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras5

 

 

Ángel González - Foto: divulgação

 

 

Palavra sobre palabras         

                                               

Para que yo me llame Ángel González

Para que yo me llame Angel González,
para que mi ser pese sobre el suelo,
fue necesario um ancho espacio
y um largo tiempo:
hombres de todo mar y toda tierra,
fértiles vientres de mujer, y cuerpos
y más cuerpos, fundiéndose incesantes
em outro cuerpo nuevo.
Solstícios y equinoccios alumbraron
com su cambiante luz, su vario cielo,
el viaje milenario de mi carne
trepando por los siglos y los huesos.
De su pasaje lento y doloroso
de su huida hasta el fin, sobreviviendo
naufrágios, aferrándose
al último suspiro de los muertos,
yo no soy más que el resultado, el fruto,
Lo que queda, podrido, entre los restos;
esto que veis aqui,
tan sólo esto:
um escombro tenaz, que se resiste
a su ruína, que lucha contra el viento,
que avanza por caminos que no llevan
a ningún sítio. El êxito
de todos los fracasos. La enloquecida
fuerza del desaliento …

 

Para que eu me chame Ángel González

Para que eu me chame Angel González,
para que meu ser pese sobre o solo,
foi necessário um amplo espaço
e um largo tempo:
homens de todo o mar e toda terra,
férteis ventres de mulheres, e corpos
e mais corpos, fundindo-se incessantes
em um novo corpo.
Solstícios e equinócios deslumbraram
com sua luz oscilante, seus múltiplos céus,
a viagem milenar de minha carne
vencendo os séculos e os ossos.
De sua passagem lenta e dolorosa
de sua fuga até o fim, sobrevivendo
naufrágios, agarrando-se
ao último suspiro dos mortos,
eu não sou mais que o resultado, o fruto,
o que tombou, podre, entre os restos;
este que vês aqui,
tão somente este:
um escombro tenaz, que resiste
a sua ruína, que luta contra o vento,
que avança por caminhos que não levam
a nenhum lugar. O êxito
de todos fracassos. A enlouquecida
força do desalento …

 

Eso no es nada

Si tuviésemos la fuerza suficiente
para apretar como es debido um trozo de madera,
sólo nos quedaria entre las manos
um poco de tierra.
Y si tuviésemos más fuerza todavía
para presionar com toda la dureza
esa tierra, sólo nos quedaría
entre lãs manos um poco de agua.
Y si fuese posible aún
oprimir el agua,
ya no nos quedaría entre las manos
nada.

 

Isso não é nada

Se tivéssemos a força suficiente
para se comprimir como se deve um tronco de madeira,
somente nos restaria entre as mãos
um pouco de terra.
E se tivéssemos ainda mais força

para pressionar com toda intensidade
essa terra, somente nos restaria
entre as mãos um pouco de água.
E se fosse possível alguém
comprimir a água,
já não nos restaria entre as mãos
nada.

 

Cumpleaños

Yo lo noto: cómo me voy volviendo
menos cierto, confuso,
disolviéndome en el aire
cotidiano, burdo
jirón de mí, deshilachado
y roto por los puños
yo comprendo: he vivido
un año más, y eso es muy duro.
¡mover el corazón todos los días
casi cien veces por minuto!

Para vivir un año es necesario
morirse muchas veces mucho.

 

Aniversários

Eu observo: como vou me tornando

incerto, confuso,
dissolvendo-me no ar
cotidiano, grosseiros
retalhos de mim, desleixado
e maltrapilho.
Eu compreendo: vivi
um ano mais e isso é muito duro.
O coração pulsa todos os dias
quase cem vezes por minuto!
Para viver um ano é necessário

morrer-se muitas vezes.

 

El derrotado

Atrás quedaron los escombros:
humeantes pedazos de tu casa,
veranos incendiados, sangre seca
sobre la que se ceba -último buitre-
el viento.

Tú emprendes viaje hacia adelante, hacia
el tiempo bien llamado porvenir.
Porque ninguna tierra
posees,
porque ninguna patria
es ni será jamás la tuya,
porque en ningún país
puede arraigar tu corazón deshabitado.

Nunca -y es tan sencillo-
podrás abrir una cancela
y decir, nada más: «buen día,
madre».
Aunque efectivamente el día sea bueno,
haya trigo en las eras
y los árboles
extiendan hacia ti sus fatigadas
ramas, ofreciéndote
frutos o sombra para que descanses.

 

O derrotado

Atrás tombaram os escombros:
fumegantes pedaços de tua casa,
verões incendiados, sangue seco
para que engorde – o último abutre –
o vento.

Tu segues adiante na viagem, até
o tempo chamado porvir.

Porque nenhuma terra
te pertence
porque nenhuma pátria

é e nem será tua,
porque em nenhum país
Pode acolher teu coração vazio.
Nunca – e isso é tão claro –
poderás abrir uma porta
e dizer, simplesmente: « bom dia,
mãe ».
Embora efetivamente o dia seja bom,
haja trigo nos campos
e as árvores
extendam até ti suas fadigadas
ramagens, oferecendo-te
frutos e sombra para que descanses.

 

Otro tiempo vendrá distinto a éste…

Otro tiempo vendrá distinto a éste.
Y alguien dirá:
«Hablaste mal. Debiste haber contado
otras historias:
violines estirándose indolentes
en una noche densa de perfumes,
bellas palabras calificativas
para expresar amor ilimitado,
amor al fin sobre las cosas
todas.»
Pero hoy,
cuando es la luz del alba
como la espuma sucia
de un día anticipadamente inútil,
estoy aquí,
insomne, fatigado, velando
mis armas derrotadas,
y canto
todo lo que perdí: por lo que muero.

 

Outro tempo virá distinto deste …

Outro tempo virá distinto deste.
E alguém dirá:
«Falas-te mal. Devias ter contado
outras histórias:
violinos esticando-se indolentes
em uma noite densa de perfumes,
belas palavras qualificativas
para expressar o amor sem limite,
amor acima de todas
as coisas.»
Porém hoje,
quando a luz do Amanhecer
é como a espuma suja
de um dia antecipadamente inútil,
estou aqui,
insone, fadigado, velando
minhas armas derrotadas,
e canto
tudo que perdi: pelo que morro.

 

Son las gaviotas, amor

Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.
Mar de invierno. El agua gris
mancha de frío las rocas.
Tus piernas, tus dulces piernas,
enternecen a las olas.
Un cielo sucio se vuelca
sobre el mar. El viento borra
el perfil de las colinas
de arena. Las tediosas
charcas de sal y de frío
copian tu luz y tu sombra.
Algo gritan, en lo alto,
que tú no escuchas, absorta.
Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.

 

São as gaivotas, amor

São as gaivotas, amor.
As lentas, distantes gaivotas.
Mar de inverno. A água cinza
mancha de frio as rochas.
Tuas pernas, tuas doces pernas,
enternecem as ondas.
O céu sujo tomba
sobre o mar. O vento borra
o perfil das colinas
de areia. As tediosas
lagoas de sal e frio
imitam tua luz e tua sombra.
Gritos, lá do alto,
que tu não escutas, absorta.
São as gaivotas, amor.
As lentas, distantes gaivotas.

 

Referências:

 

1- González À. Antologia poética; – Madrid: Alianza Editorial, terceira reimpressão, 2008.

 

2- Entrevista ao poeta Harold Alvarado Tenóriohttp://www.arquitrave.com/entrevistas/arquientrevista_Agonzalez.html
3- Entrevista ao poeta Armando G. Tejeda: http://www.babab.com/no09/angel_gonzalez.htm

 

4- Iravedra A. Poesia de La experiência; – Madrid: Visor libros, primeira edição, 2007.

 

5- Fundación Príncipe de Astúrias: http://www.fpa.es/premios/1985/ngel-gonzalez/

 

 

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))