O significante aqui é a sombra da árvore com sua música silenciosa quase tocando seus olhos, árvore ininteligível e silêncio amado com força suficiente para desintegrar a mistificação da linguagem poética, mas isto apenas no final, quando a sombra de um outro silêncio incancelável atravessar o espaço
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E se tudo for uma metáfora dos nossos sonhos? E se a realidade for um emaranhado de poemas e problemas tão misturados entre si que é quase impossível distinguir uns dos outros? E se o amor for no fundo a única maneira de distinguir uns dos outros?
Talvez as metáforas sejam ‘a droga do século’ mas na falta delas o amor pode se converter em mais uma droga anestésica, uma geração inteira viciada em ‘anestesia da vida interior’ não é melhor do que outra viciada em ‘fuga interior’, olhar para fora pode ser um ato revolucionário se nossa vida interior acompanhar o nosso olhar, vou reler o seu livro como se ele fosse um filme em estado puro ou seja, como se ele fosse ‘ algo vivo’ como os nossos sonhos, esse lugar onde o amor nasce ou se confirma como mais uma metáfora, a mais poderosa delas.
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Como acender uma paisagem para libertar os gritos?
Inesperadamente os sentidos mais profundos de um termo nos escapam se estamos no início de uma paixão por uma ideia vaga e errática como essa ideia do ao vivo (inexistente segundo a microfísica pois tudo é gravado) ou a ideia do encantamento como fundador do amor (impossível segundo a lógica mais abstrata e por isso mesmo uma longa sinfonia que toca muito baixa por dentro) como um pássaro que se apaga.
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Todas as tentativas de controlar, limitar ou destruir o caos formam a essência do nazismo psíquico, o caos é indestrutível e se multiplica através das galáxias, das palavras e dos silêncios.
O nazismo psíquico tem cheiro de menta.
Nós em nome do poema contínuo nos colocamos contra o nazismo psíquico neo-positivista dos livros de autoajuda e contra o nazismo psíquico pseudo-niilista e semi-hedonista da cultura das drogas.
o nazismo psíquico se alimenta da diluição da angústia em um pragmatismo ou utilitarismo disfarçado de ética-estética do vazio que por sua vez se alimenta da lógica do possível imediato da ditadura das coisas.
ora o caos já provou através da história que a vida se move dentro do impossível
e dissolve as coisas no ácido do tempo-morte. No ácido do tempo-êxtase
o caos é ambíguo como um elétron, ora é uma partícula de caos visível, ora é uma onda invisível de hipercaos.
o caos não é um teatro.
o nazismo psíquico é um cenário interior construído pela ditadura das coisas-conceito.
o hipercaos não é um poema.
nenhuma palavra jamais tocou na realidade, isso explica porque os escritores sempre fracassam quando tentam vencer o nazismo psíquico com palavras.
mas em verdade vos digo que a poesia fora das palavras é infinitamente mais poderosa do que a ditadura das coisas e ela virá como uma onda viva de dentro do hipercaos tudo o que chamamos de realidade será consumido por essa devastadora onda de sonho.
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Em O REI DAS VOZES ENTERRADAS
Manifesto Sabiá
18 de setembro de 2013 às 15:20
Conversando com um amigo sabiá, rimos muito das reclamações que fizeram de seus cantos. Ele disse que os cantos que mais incomodam são os quânticos desatrofiantes, que interiorizados oniricamente na cidade geram como primeira reação uma imediata indignação com os véus cegantes da pseudo exterioridade, e tem como consequência um acordar-revolta contra o próprio canto-reza (ele nomeou esse processo como ornitoclash anticósmico). Disse ainda que repelimos os cantos dos sabiás e dos sábios com a mesma ignorância que destruímos as abelhas humanas, atordoados e anulados pela pluriesquizofonia congelante e assassina do irreal. Tive de concordar, e rimos ainda mais. Quando lhe perguntei sobre os limites da desrazão, ele voou.
Depois me deitei no sofá e sonhei que ele não havia voado e havia começado uma convenção telepática de Pássaros do mundo inteiro e o Sabiá pousou em cima da lâmpada da sala e começou um canto-diálogo com o ‘Ele’ que é o eu dos sonhos:
Sabiá: – Nós somos o mesmo pássaro, mas de todas as formas de asa o seu olho é a mais bonita, a asa fechada no círculo, com todos estes fios finos
Ele: – Supercordas para receber as imagens do cosmos disfarçadas
Sabiá:- O canto do olho cria todos os sóis, você é um Sabiá diferente dos outros
Ele:- Eu sou um Sabiá, porque é o que todos nós dizemos quando encontramos vocês, definição é o assassinato pela nomeação
Sabiá:- Sim, vocês cantam isso com o olho-boca, mas a porta, o que vocês chamam de bico em mim, é em outro lugar na cabeça e é também um ovo que vocês quebram por dentro
Ele:- O cérebro, o nome do nosso bico é cérebro
Sabiá:- Então a flutuação dos raios é para dentro dos fios, aqui o ar é delicado e podemos conversar, mas meus eus estão chamando e tenho de voar para fora do seu dentro.
Eu acordo e não consigo mais pensar em outra coisa a não ser na origem da palavra ‘ Sábio’ e na ligação entre o canto dos Sabiás e o canto quântico dos Pré-Socráticos.
Escrito com Kleber Nigro
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Voltando para a floresta-sem-floresta que a película de Berkeley sempre confundida erroneamente com o véu de Maya continua escondendo. Nesse lençol de luz e gravidade que chamamos de VISÕES a ‘Une rose seule,c’est toutes les roses’ continua cantando :
” Ó imenso mar das formas coberto por este manto de olhares imensamente fechados…Logo mais TUDO estará flutuando como o sonho
Para acabar de uma vez por todas com o amor, basta chamá-lo de amor e esperar que a palavra dissolva A COISA… Que morre dentro do pote de vidro fechado de um nome ou passa como essas nuvens clonadas na superfície desse mar emprestado por um filme onde elas se deitam como putas ou dentes-de-leão filtrando um ex-poema dentro do pó. O amor é o esqueleto de um inseto.
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A Love Supreme
Cruz e Souza: Existe uma rutilância sublime nas auroras em contraste com o tempo que nos assombrava que tornava pálida a luz destas chamas que fomos e que hoje é musical se a este sonho for comparada.
John Coltrane: Talvez venha do Senhor todo esse resplendor, a luz invisível que era a música que hoje não podemos mais separar de nada, até da nossa carne, este pó de luz que volta a ser luz e de novo pó da luz
Cruz e Souza: Sim, entendo teu discernimento da música e dentro da arquitetura da etérea leveza das experiências, eras músico…
John Coltrane: Não, tentei não ser isto, eu tocava para o altíssimo e tudo o que eu fazia era orar e receber os sinais, Ele só desce pela escada das harmonias celestiais e a música e a oração são a mesma coisa, como degraus dessa escada
Cruz e Souza: Já que falaste em escada, vamos subir…
Marcelo Ariel é poeta, performer e dramaturgo. Nasceu em Santos, em 1968, e reside em Cubatão-SP. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados”, “Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio”, “Com o daimon no contrafluxo”, “Potestade e pássaro”, entre outros. Os textos aqui publicados integram o livro “A névoa dentro da nuvem – Prosa reunida”,recentemente publicado pela Lumme Editor.
“O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.”
(Nelson Rodrigues)
Não sei dizer quando começou a obsessão com as máscaras. Quando percebemos, todos estavam com seus rostos cobertos. Ontem mesmo, sentei no ônibus ao lado de um leopardo. No topo da cabeça, duas pequenas orelhas pontilhadas de manchas pretas sobre um fundo amarelado. Julguei que o objeto fosse de acrílico, mas era plástico. Havia dessas coisas: as classes mais baixas não dispunham de muito dinheiro para investir na confecção e acabavam improvisando. O resultado, às vezes, era desastroso.
Bela máscara, falei na primeira oportunidade, tentando chamar a atenção do leopardo. Quando ele se voltou para mim, pude ver seus olhos amarelados pelo corte no adereço. Talvez eu não tenha mencionado, mas havia máscaras para olhos também. Começou com as lentes de contato coloridas. Adiante, os rumos da criatividade. O leopardo não respondeu ao meu elogio. Ergueu uma das mãos como uma garra e fez um som gutural. Cumprimentei-o com um aceno e seguimos viagem.
Cheguei ao trabalho atrasado para variar. Pablo veio à minha mesa e reclamou dos prazos do projeto em que trabalhávamos. Usava uma máscara de abracadabra. Alternou o assunto e passou a me contar sobre suas aventuras no final de semana. Sentado sobre a bancada, falou como se as palavras tivessem prazo de validade.
ABRACADABRA
ABRACADABR
ABRACADAB
ABRACADA
ABRACAD
ABRACA
ABRC
ABR
AB
A
Alguém se aproximou sorrateiro. Colocou uma das mãos sobre o ombro de Pablo e perguntou sobre o andamento do projeto. Ele disfarçou o embaraço pelos atalhos da bajulação. Espetacular essa gaivota, chefe, disse referindo-se à máscara que nosso gerente usava. É um mandrião, ele corrigiu. Pablo tentou escapar da situação como pôde: ave magnífica, sem dúvida. Acabei por ajudá-lo. Abri uma planilha no computador e mostrei ao chefe que o projeto estava no prazo. Mantenha-o em dia, ele disse. Pigarreou, ajustou o nó da gravata e saiu. Tá sabendo que ele vai ser promovido no final do ano? Pablo perguntou assim que o gerente cruzou a porta da sala. Sei. E que diabos é um mandrião?, emendou. Virei-me para o computador e fiz a pesquisa: Mandrião — Ave da família Stercorariidae, conhecida pelo cleptoparasitismo. Cleptoparasitismo, nova pesquisa: forma de interação em que um organismo rouba recursos de outro organismo, geralmente um alimento que o outro capturou ou deixou armazenado.
Fui atendido por um chacal fêmea quando fui ao banco na hora do almoço. Tirei do bolso o boleto que precisava pagar e avisei que o código numérico não estava funcionando. Estranho, ela disse. Pegou o papel e começou a digitar a sequência no computador. Por que um chacal? O chacal uiva até a morte, ela disse. Olhou para os lados, confirmou que não era observada e segredou: é o que tenho vontade de fazer todos os dias, gritar até a morte. O chacal não é o símbolo de Anúbis? Ela fez que sim com a cabeça e a máscara acompanhou o movimento, as orelhas compridas do animal sacudindo para a frente e para trás. Os cabelos loiros também balançaram, escapando pela parte de trás do adereço. Ela se levantou, pegou um papel da impressora e me orientou a usar o novo código de pagamento.
Combinei um drinque com a mulher-chacal no fim daquele dia. Ela estava sentada em uma mesa próxima ao balcão quando cheguei. Não foi difícil identificá-la, apesar de não estar mais transfigurada no cão egípcio. Usava uma máscara peculiar.
É maia?
Não, é celta. Uma amiga trouxe de fora.
Deve ter custado uma fortuna.
Custou.
Você bebe um chope?
Não. Um Martini. Com duas azeitonas.
Pedi as bebidas ao primeiro garçom que passou. Um chope e um Martini. Com duas azeitonas. O homem-mosca anotou no bloquinho, pediu licença e se retirou para atender outra mesa. O que significa?, perguntei ao examinar a máscara que ela usava. Era toda moldada em couro, com ramificações que se entrelaçavam de uma extremidade a outra, muito parecida com a folha de uma árvore. Os olhos estavam expostos pelas duas aberturas na parte frontal e o corte para o nariz descia em uma abertura até a boca, por onde escapavam lábios pintados de azul. Tive vontade de lambê-los. Não significa nada, ela respondeu. Puxei assunto falando de trabalho, mas ela retesou a conversa. Débito, crédito, transferência eletrônica. O que quer saber? Sorri em resposta, aproveitando para experimentar a bebida que havia acabado de chegar. Ela prosseguiu: se é para falar de trabalho, vamos morrer de tédio. Recuei e disse que entendia. O que faço também não é nada interessante.
A conversa engrenou. Sorrimos de forma espontânea. Sorrimos quando sorrir significava apenas ser cortês e também quando era apenas o pincel da novidade falando por nós. Seu nome era Inês. Nome espanhol. Pura, casta ou cordeiro. Pesquisei o que podia sobre o nome antes do encontro, mas, na hora, não tive coragem de mencionar. Inês não me parecia nada daquilo. Faço aniversário hoje, ela falou. Sério? Não, é brincadeira. Só queria ver sua reação.
Fomos para minha casa depois do bar. Entre lençóis, ela confessou: lembra da história do aniversário? Lembro. Faço 35. Então era verdade? Era, foi um dos motivos de ter aceitado seu convite. Fui até a geladeira e peguei um bolinho recheado que estava guardado há semanas, sobras do aniversário de um sobrinho. Enfiei um palito de fósforo no doce e levei até o quarto. Risquei na lateral da caixa e acendi. Não dá para comer, mas você pode fazer um pedido. Ela fez. Depois apagou a chama com um sopro cuidadoso.
Inês examinava alguns livros em minha estante quando regressei da cozinha. Observei-a de um único ângulo, mas pude vê-la por vários outros. Os cabelos que escapavam da máscara estavam amassados e desordenados pelo tempo na cama. Vi a mulher um pouco acima do peso e as dobrinhas entre a barriga e as costelas. Pude ver os homens que antes ocuparam meu lugar; homens de prazer e dor, homens que sequer foram homens. Havia uma mulher também. Única, mas inesquecível. Vi um aborto, o medo dos filhos na hora errada. Vi seu primeiro emprego, uma loja em um shopping, horas de pé em um salto desconfortável atendendo a desejos e a mau humor. Trocou de trabalho outras nove vezes, o salário pouco, a perspectiva inexistente. A vida no banco não parecia tão ruim daquele ângulo. Vi expectativas estéreis. Casa, marido e filhos afogados em uma banheira rachada. Vi que gostava de artesanato, que decorava seu apartamento com pequenos apetrechos de materiais reciclados. Fazia maratona de comédias românticas no sábado à noite, enredos repetidos que não tinham qualquer relação com sua vida amorosa. Foi à Índia certa vez. Juntou dinheiro e foi. Classe econômica, hotel modesto. Economias que custaram uma fortuna. Conheceu um guru por lá. Deuses de mil braços e conceitos difíceis de explicar. Destruir para construir. Não era tão complicado. Queria ir para o Egito também, mas não deu. Não por enquanto.
Ah, então você também gosta do Egito!, ela comentou ao dedilhar a lombada de um livro sobre Nefertite. Por isso reconheceu a máscara do chacal. Fiz que sim com a cabeça. Ela tirou o livro do lugar e começou a passar as páginas. Ainda estava nua, apenas a máscara celta a ocultar o rosto. Comentei o que havia descoberto naquela tarde, que o chacal sequer existia no Egito. Não pude ver a expressão de curiosidade por trás do adereço, mas sabia que tinha despertado sua atenção. Prossegui: alguém confundiu o chacal com um bicho parecido, tipo um cão selvagem, e a lenda pegou. Imagina só: você é um deus, e os súditos o associam ao animal errado. Ela sorriu. Seus lábios não estavam mais azuis, as cores espalhadas por partes distintas de meu corpo.
Pablo soube de minha paixão por Inês após dois meses de encontros. Sem o menor vestígio de hesitação, me fez a pergunta mais impertinente de seu repertório: e então, como é o rosto dela? Repreendi meu amigo por sua indiscrição, mas ele foi insistente. Tirou o telefone do bolso, pressionou a tela algumas vezes e me pediu segredo. Era a foto de Cláudia, uma estagiária que trabalhava no RH da empresa. Pude reconhecer os olhos castanhos e os cabelos anelados que se escondiam por trás das máscaras que ela costumava usar. A foto trazia o rosto nu de Cláudia, que sorria e fazia uma posição atrevida para a câmera. Sardas avermelhadas polvilhavam as bochechas, a curva do rosto era angular e pequenas depressões se formavam nas extremidades dos lábios. Era uma jovem de beleza excepcional. Não diga nada a ninguém, meu amigo repetiu. Estamos saindo há apenas uma semana. É nosso segredo. Concordei com a cabeça, ainda entorpecido pela imagem que há pouco estava diante de meus olhos. Pablo, com a indolência que lhe era peculiar, voltou a perguntar: e Inês, como é? Fui evasivo mais uma vez. Afirmei que ela era uma mulher distinta, que não havia revelado seu rosto ainda.
A conversa com Pablo inquietou meus pensamentos. Transformou uma leve curiosidade em obsessão. Uma semana apenas, uma semana de envolvimento com a estagiária, e ele já estava com a foto do rosto dela em seu telefone. O desejo pelo rosto de Inês não era novidade, mas eu estava aguardando a ocasião apropriada.
Inês não pôde se encontrar comigo naquela noite. Sozinho em casa, elaborava hipóteses quanto ao formato de seu rosto. Tentei dormir, mas estava agitado. Fui até o computador e digitei um endereço. Era um site pornográfico. No menu de opções, selecionei a categoria mais requisitada pelos usuários. Um filme apareceu no monitor. A atriz, apenas de máscara, provocava o homem. Serpenteava em sua frente, enrodilhando-se em seu corpo, tocando-o onde ele precisava ser tocado, ora gentil, ora com firmeza. Copularam, treparam, satisfizeram-se. Em poucos minutos, o ápice: a atriz remove a máscara e a ejaculação é despejada em seu rosto. Maskless facial cumshot. O gozo, o pensamento em Inês.
O assunto das máscaras foi revisitado em sonho. Inês relutava ante meu pedido. Exigiu explicações ao ceder. Queria saber a razão pela qual eu estava sempre com o mesmo adereço. Não tem mistério, respondi. É só porque todos usam. Ninguém estranha que você esteja sempre com a mesma?, ela emendou. Só no começo. Depois deixa de ser relevante. Satisfeita com minha explicação, Inês levou as mãos à cabeça e revelou a face. Havia um rosto de serpente sobre o adereço. Eu podia ver as presas e a língua bifurcada. O susto me fez recuar. Inês ergueu novamente as mãos e retirou a pele escamosa, uma segunda máscara. No lugar de seu rosto, um rubi de cor púrpura, a face sólida como a pedra de sangue. Ela seguiu, desgrudando camadas e mais camadas de seu rosto. Assustado, acordei.
Sou direto em nosso encontro seguinte. Digo a Inês que desejo ver sua face. Ela é reticente na resposta e se esquiva. Digo que sei o quanto de intimidade aquilo exige de um casal. Pego em suas mãos para convencê-la de que já alcançamos aquele estágio, mas ela profetiza que não deveríamos nos apressar. Acontecerá quando houver de acontecer. Minha consciência discorda, mas aceito o argumento. Daria o tempo que Inês julgasse necessário, mesmo que a recusa gotejasse dúvidas em minha consciência.
Inês adormeceu em minha cama certa noite após esgotarmos nossas energias. Cedi à tentação diante da máscara a evocar o rosto de Circe em uma das pinturas de Waterhouse. Virou-se para o lado durante um pesadelo e balbuciou palavras incompreensíveis. A máscara prendeu no travesseiro e saiu do lugar, revelando parte de seu queixo. Levei uma das mãos até seu rosto. Com um dos dedos puxei o adereço com delicadeza, mas Inês despertou. Levantou-se da cama, preocupada em cobrir o rosto e destruiu qualquer reconciliação com olhos de fúria.
Levou algum tempo, mas consegui convencê-la a perdoar meu gesto impensado. Um caminho de desculpas e agrados até reconstruir o que possuíamos. Um pedido especial feito a um artesão a convenceu em definitivo. Presenteei-a com uma pequena estátua do reencontro de Ulisses e Penélope. Aos pés de Ulisses, a inscrição: Inês. Abaixo de Penélope, meu nome. Ela colocou o objeto sobre a estante e, emocionada, atirou-se em meus braços. Tomou então a decisão que eu tanto ansiava: pôs a mão sobre a nuca e removeu a máscara. Vi seu rosto alvo, um equilíbrio entre a simetria e um leve desalinho. Os cabelos loiros caíram em suaves cachos sobre a testa e pelos ombros. A mulher diante de mim revelava uma beleza que minha expectativa não tinha sido capaz de elaborar. Chegou então minha vez. Tomando a iniciativa, Inês colocou a mão por trás de meu pescoço e retirou a máscara. Surpreendeu-se ao ver os olhos castanhos, a boca fina e a pele marcada pela barba por fazer — a face idêntica à máscara que há anos eu usava.
Anderson Henrique nasceu no Rio de Janeiro e é formado em Letras. Possui textos publicados em coletâneas e premiados em concursos literários. Seu livro de estreia, “Anelisa sangrava flores”, foi publicado em 2014 pela editora Penalux. “Chame como quiser” é seu segundo livro.
– Talvez a cidade seja vista por mim de forma panorâmica, como se eu não estivesse dentro dela, morando nela, mas de passagem. Do meu ônibus, olho. Mesmo que eu morra e seja enterrada aqui, eu não sou deste lugar. Não tenho vínculos sentimentais com as suas ruas nem com a sua gente. Gosto muito das casas que resistiram ao tempo e permaneceram intactas no silêncio arquitetônico da Capital, maculadas pela poluição. Eu aprecio, observo e penso as pessoas e o espaço. Mas não sei a cidade. Se soubesse, eu estaria nela. Não estou. Os nomes das ruas começam a ter algum significado dentro de mim. Os sacolejos do ônibus, curvas e freadas bruscas tiram o meu pensamento do foco, e a minha atenção se desvia para alguém, um ponto, outra viagem, um cabelo, uma camisa, um cheiro. É na minha terra que meus mortos morrem. Vejo na mesma calçada, o edifício Haroldo Lima e a igreja Universal do Reino de Deus. Quantos paradoxos atravessam-me! Tenho que fazer a síntese para não sucumbir, surtar, sofrer! Sinto que sou vigiada.
Às vezes, ela, Verônica, sente certo pertencimento, sim, certa aderência à cidade. Confessar talvez fosse resgatá-la para o lugar do fracasso. A conquista dos espaços é ainda mais dura do que supunha desde sempre, e os anos passam. O que há é vida e desengano. Dentro, memórias amontoadas e irresolúveis girando como os discos de vinil que vivem dentro do quarto-e-sala no Largo 2 de Julho. Um sangramento inconfesso e umas lembranças, mais doloridas hoje que ontem, atormentam-na. Veste uma calça jeans, um mocassim vermelho, surrado pra caramba, e aquela velha blusa de malha macia, mole, com pequenas flores brancas sobre o fundo vermelho. O cabelo solto com umas flores de crochê, cachos mais definidos, fios hidratados, alguns nós embaraçados, creme. Cabelo de mulher negra: macio, mole e muito fino.
– Sinto-me seguida, guiada nas palavras que uso, nos gestos. Como se houvesse uma inteligência a conduzir – ou tentar –os meus passos. Mas isto não é da sua conta, ouviu? Não é da sua conta o que não quero revelar. Não gosto da delatora ignorada que me espia e talvez revele falsas impressões sobre mim e sobre a minha intimidade. Originalidade, minha cara, tenha originalidade! O que em mim interessa a você, diz respeito aos seus inconfessos desejos? Nada! Por que, então, me olha? Demônios! Sinto que aqueço e sangro por dentro. A boca inteira traz um gosto de sangue, e a cabeça – toda ela – parece conter a mesma sensação. Sinto-me sozinha, completamente sozinha em todas as minhas horas, sem que exista um par. Apenas a algoz que denuncia as minhas infâmias. Déspota que não olha pra si mesma e não tece seus próprios tecidos, apenas olha e é incapaz de manipular o tear; espia e manipula verdades, informações. Uma mulher! É mulher quem me delata. Habito um vestido de tecido barato, amarronzado, com manchas pretas que remetem à África, isto sim! Como acreditar no olhar que interpreta e é dono das verdades em narrativa de vida alheia? O olhar que orna o real como bem lhe apetece. Acreditar na edição desse olho, na sua montagem autoral?! Cacete!! Sinto frio e sede! Visto calafrios e enigmas. E não desisto de buscar a Poesia.
É uma quinta-feira! Início de tarde. Vejam – eu preciso cumprir o meu destino. O sol está muito forte e aquele ônibus não entra na estação da Lapa. Logo, é preciso caminhar até lá subindo o Vale do Tororó. E ela o faz, enquanto olha as vendedoras ocupadas com suas mercadorias, empurrando o pedestre para o asfalto com seus caixotes que me lembram o cenário de peças teatrais que vivem grudadas dentro de mim. Preciso acender velas. Perdão! Às vezes, caio em abstrações e penso em mim, no meu nome. Ela, Verônica, nossa personagem, vê beleza nos artefatos, nos objetos expostos, nas cores das malhas grudadas nas manequins cada vez mais próximas de um ideal de feminilidade baiana. Mas, apesar do cansaço, parece sorrir.
– Não, eu não gosto da Lapa! Eu, verdadeiramente detesto a Lapa e tudo o que a cerca! É tudo muito áspero, seco, escuro, sujo e concreto. O subsolo é uma prisão! Piso ainda nesta calçada sem olhar por onde ando e sei que preciso estar no agora para vencer o presente a cada passo: e não tropeçar! Mas como está difícil abandonar o passado. Como hoje ele me atravessa e insiste em lembranças antes apagadas! Hoje, sangro um pouco mais internamente. Os anos não me livraram de algumas imagens. Alguém para telefonar caso aconteça alguma coisa comigo? SAMU! E O Sol Também se Levanta desatinando sensações da leitura de tantos anos atrás, como se pudesse me levar de volta àquelas touradas, e às palavras que me trouxeram tanta estranheza; o cheiro das páginas do livro na memória. E o almoço? Comer sozinha. Preciso comprar um abacaxi. Falta-me oxigênio no cérebro! Gosto amargo de sangue na boca, vertigem nos olhos. Confusão de sombrinhas, pernas e poemas caídos no chão. Rostos de gente que não é a minha gente e uma perturbação nos dedos. O suor. Aquele mau cheiro de minha avó em meu corpo, os panos na pele, as pulseiras de ouro de tia Tonha no cérebro. E a febre nas pernas!
Parece tropeçar! Não consigo acompanhá-la agora. Ela, entre a multidão de trabalhadores, é apenas mais uma a levar empurrões, olhares e palavras de estupro. Como são comuns as palavras de estupro nas ruas dessa Bahia! Vence as escadarias e em algum momento se apóia em um homem, sorri uma desculpa e para. Depois prossegue sendo levada pela pressa, pelos atropelos, pelos ambulantes, pelas mercadorias, pelos dvds piratas em abundância atraindo seus olhos de fadiga.
– Estranhezas. Sensações. Impressões. Eu queria estar naquelas páginas novamente. Lembrança da alma em sincronia perfeita com os tijolos de uma cidade cujas cores não seriam as do romance lido há tanto tempo, mas cores de um amor abortado entre a baía de Todos os Santos e a baía do Pontal. O pôr-do-sol na Sapetinga, um deque, promessas inauditas. E o meu corpo suando frio enquanto resisto e observo o meu ceticismo quanto à chegada. Sempre temi encontrar em uma cidade o meu passado, a minha intimidade de outras vidas. Não perseguirei Toulouse, nem o Engenho de Santana, nem Milagres, nem Carcassone. Um chá e uns incensos talvez resolvam o meu drama, a minha tragédia. Uma caipirinha e um beijo. Eu preciso mesmo é de um beijo! Não, a boca está muito seca. Quero água! Que calor!
São quase duas horas da tarde. A fome dispara o alarme no corpo da mulher que sigo e as suas pernas doem; acho que tremem; são finas e fracas. Da distância em que estou, parece que cambaleiam um pouco. Verônica lamenta a sua peregrinação e outras mulheres em todo o mundo também o fazem, entretanto, seguem. Mas é apenas de Verônica o nosso olhar, os nossos gestos inúteis de ajuda, o nosso riso tentando entender a sua alma e inventar fingimentos para o seu caminho, construindo a trilha da sua chegada. Pensando no tempo para que a narrativa se cumpra. Como entender Verônica assim, entre a multidão que se esbarra na estação da Lapa correndo para alcançar, antes de qualquer pessoa, aquele degrau vazio da escada rolante – sempre tão cheia, insuficiente e suja – como se estivesse fugindo de algum suspeito? Suspeitando de tantos no medo moderno. Talvez outros já intuíssem a sua existência. Mas não tivessem querido alcançá-la na sua solidão sem par; talvez a temessem. Não havia para a nossa Verônica a parceria no mundo, a companhia absoluta, mesmo que invisível. Ela passava apressada pelos dramas alheios esquecidos em estações, em carteiras de identidade perdidas nos banheiros fétidos das rodoviárias, em ruas fétidas do centro de São Paulo, nos arredores das velhas catedrais, nos fétidos interregnos de Copacabana.
– Lembro daquele homem por quem me permiti ficar apaixonada por meses razoáveis. Ele me beijava em francês e queria que eu entendesse a sua língua. A língua eu entendia bem, sabia entendê-la, mas o idioma? Assim? De supetão? Não… E, ainda por cima, dissera que eu era a primeira a não entender a sua linguagem, me deixando estupidamente grilada durante uns tempos. Depois, dispersei o pensamento, mas de vez em quando me vem – não mais o homem, aquele rosto eu (quase) esqueci – mas o substantivo perca, inexistente no idioma oficial, infelizmente. As minhas perdas nunca deixarão de ser, realmente, intimamente, as minhas percas, muito mais lindo, mais forte, mais palatável, mais brasileiro, mais meu, mais de quem sabe intuir a língua e lambê-la. Exaspera-me a ociosidade da gramática. Fico feliz quando encontro percas na boca do povo. Percas são pérolas na boca do povo.
Lá vai ela! Na sua arrogância de personagem! O sol penetra seu tecido e enfraquece suas certezas. Titubeia um pouco tonta, enquanto sobe a ladeira, mas sabe que chegará. A pressão está caindo por causa do sol, da fome e do cansaço, da menstruação próxima e das frustrações políticas. Respira um pouco e para diante do vendedor de água de coco. Bebe toda a água sentindo-se revigorar imediatamente. Agradece ao moço oriental com um sorriso e segue levando consigo o seu encantamento, sua simpatia heróica, seu charme silencioso. O sol parece que está posto sobre a Praça da Piedade.
– Quase morri outro dia atropelada por um ônibus defronte ao quartel do corpo de bombeiros. Eu atravessava a rua distraída – talvez pensando no caruru da corporação suspenso por falta de verbas ou talvez pensando naquela cor para um vestido ou na intensidade da cor ou nos homens do calendário, na água, em Luma – quando ouvi um freio brusco ao meu lado. Segui, sem olhar a face metálica da morte. E agora aqui. Estamos aqui! Estou perdendo a ortografia.
Um carro buzina agora mesmo diante do seu corpo quase curvo com o peso das sensações. Sequer olha para o motorista e segue, querendo chegar em casa. A avenida Sete não percebe o episódio. Os transeuntes transitam sonâmbulos entre os ambulantes, volantes, volições, buzinas, pernas, barracas e desejos. É preciso segui-la antes que se perca ou morra. Para no mercadinho e compra um abacaxi maduro e cheiroso, além da farinha. Olha as pimentas frescas. Pensa se verá aquele rapaz suave que a deixa tonta. Ou sou eu a pensar naquele rapaz suave, doce, leve, lépido? Quem fica tonta? O repolho roxo é pequeno. Pensa na sua textura e na sua cor, no barulho da trituração. Chega ao edifício com o cansaço das operárias. O elevador está quebrado novamente e somente ela, àquela hora, sobe a escada. Quase sempre que sobe aqueles degraus, é rezando o pai nosso. Vê as plantas da vizinha sobre o muro e sente uma alegria, uma espécie de consolo, subversão da sujeira. As chaves. Abre a porta, segurando a sacola com os livros entre as pernas.
– O apartamento me resguarda. Tiro os sapatos, respiro e entro. Deixo os livros no sofá e abro a janela da sala. Beber água geladíssima! É a ordem do organismo inteiro. Embrulhos sobre a pia. Estico as pernas no sofá e tento relaxar um pouco, sacudo as pernas, pés descalços. O suor ensopou toda a roupa e o meu rosto. Com as mãos, tento amenizar o suor. É preciso me esticar antes de qualquer coisa. Penso no quanto devem ter me achado repugnante na rua, com tanto suor. Penso no caldo de cana que eu detesto porque um dia me causou enjôo. Alguns rostos me viam todos os dias saindo para a estação às cinco e meia da manhã, driblando os camelôs e toda espécie de ambulantes que organizavam suas mercadorias. As engenhocas eram papelões, lonas e ferragens que se transformavam em tendas. Olho o mofo das paredes do apartamento recém pintado, lembro das baratas que surgem à noite, e da velha casa do passado com tantos mofos e telhados pictóricos, bicicletas e poço, cisternas, tonéis e túneis. Os sonhos que me perseguem naquela casa. A profundidade escura do passado. Os gritos das mulheres violentadas, agredidas, ecoavam nas paredes do edifício. Meus gritos e meus silêncios também formavam o coro no poço do elevador.
Liga a tevê para se sentir acompanhada. Certifica-se de que não há homens na obra de um sobrado próximo. Despe-se. Antes, olha-se ao espelho e percebe uns sinais no rosto, típicos da família do seu pai. Umas pintinhas pretas. Segura os seios suados, suspende-os, aperta-os e sorri. As rugas sobre o nariz delineando o tempo. Caio chega confuso à memória. Vontade de ter morangos frescos. Perdi os tomates maduros na geladeira. O banho libertá-la-á de tudo aquilo, do cansaço, da dor nos tornozelos, nos músculos. Olha os crisântemos dentro do jarro azul e sabe que eles, mesmo murchando, a salvarão de Salvador e da sua máquina incessante de moer vidas, comer pernas e devorar os sonhos mais delicados, pelo menos durante uma semana. Pensa em O Jogo de Ifá de Sonia Coutinho. A cidade come os nossos sonhos com as impossibilidades. A cor da pele aqui também é uma conquista cotidiana, com guerras impensáveis. A cidade ilumina os sonhos da gente com os espaços ensolarados e cheios da arquitetura que não ilude mais a sua/minha expectativa. Cuidado ao partir, cuidado! Qual é o seu interior? A pergunta ressoa pelo chão frio. Umas lembranças teimam em lhe invadir hoje. A tarde começa a ficar nublada, o peso das nuvens recai sobre o seu ânimo.
– Observo o recrudescimento das cenouras na geladeira. Se ao menos eu fosse fácil, Deus! Por que me deste a visão? Alguma coisa na cidade me aprisiona. Serei eu a minha própria cela? Meus naufrágios naqueles navios noturnos serão criados pela minha própria mente? Haverá tempo de ser quem eu pretendia? O meu projeto de gente? Ou terei que atravessar eternamente o sacrifício e o desvio do túnel? Amolar a faca e imolar a garganta.
A água do chuveiro hoje cairá por mais tempo. Pega a toalha e começa a se enxugar, mas não quer sair; volta para a ducha como se ainda não tivesse entrado e tenta concentrar-se novamente no banho, no agora. Esforça-se para não pensar na conta do telefone que já chegou, mas pensa. Depois disso, o de sempre: cochilo, almoço, janela, lixo na porta, correspondências, louças, lousas. Novamente tenta seguir o ritual do banho, mas veio o calafrio ainda debaixo da água. Sabia da sua força, por isso buscou a toalha com sofreguidão. Era tarde, caiu lentamente no chão e quis paralisar o corpo, conter o bater dos dentes, mas era inútil. Soergueu-se com desespero por pura consciência da solidão e por medo de morrer ali tremendo de frio. Consegue chegar até a sua cama e cobre o corpo com o edredom. Paralisa os movimentos e lentamente consegue escapar do tremor. Permanece apenas respirando, imóvel. O corpo está quente, as pernas ardem.
Veio o incêndio. A partir daquele momento, todos os velhos sobrados ruíram sobre aquela mulher. A sensação de abandono entrou pela janela com as lufadas de fumaça que se misturavam na atmosfera lá fora. Ela olhava assustada. As labaredas cresciam no interior do prédio defronte do seu edifício. Conseguiu levantar e caminhar até a janela. A imagem da desolação dos moradores, a agitação e a gritaria. Dentro de si, tantas vozes querendo falar. E o calafrio oprimido apenas pelo medo de perecer sem defesas. Desligou a televisão e deu um telefonema inútil. Não havia conforto do outro lado nem reconciliação nem socorro.
De repente, é noite. Ela ouve a música de olhos fechados e começa a dançar na sala. Fica em pé na escrivaninha e vê o mundo mais amplo e se vê maior diante do mundo e sente desejo de abraçar toda a Baía. Há mosquitos circulando o espaço, a lâmpada e uma vontade de comer chocolate e lambuzar a boca. A música de Ella penetra seus sentidos e os tecidos ficam arrepiados. Ela faz movimentos leves do balé clássico que aprendeu em aulas de dança afro com Zebra e murmura a cantiga, o refrão. O corpo sua e o vento frio penetra as prateleiras da estante. Toulouse! Verônica agora caminha sozinha nos labirintos da cidade cor-de-rosa. Olha a feira nas calçadas e os objetos vendidos ali. Garrafas, antiguidades, roupas usadas, porta-retratos, frascos de perfume. Músicos se apresentam em cada esquina e dão ao ar uma atmosfera agradável de que a arte está em todos os lugares, principalmente nas ruas. Estala os dedos e morde os lábios ao som das Timbilas, marimbas e dança. Eu também desejo dançar, Verônica! Mas ela não me ouve, apenas grita: Nunca mais na sua vida ligue para mim. Você não sabe que hoje é o meu aniversário! Ouço Billy, ouço Ella. Há sussurros em seus lamentos. Ouvimos outrora Sarah Vaughan em uma vitrola antiga, bebemos vinho. A noite ia serena e carregada de silêncios, carícias – nunca houvera carícias ali, e escuridão. Apenas as sombras que vinham do beco dos artistas traziam o movimento do mundo lá fora e as músicas que se misturavam com as nossas. As nossas sombras dançavam no apartamento; sim, agora eu também danço. Ele tremia de uma forma violenta e eu nunca soube perguntar por que os tremores, por que a impotência, por que não aprofundamos absolutamente nada, sequer as carnes. A arquitetura da cidade espezinha os que vêm do meu interior. Preciso renovar o meu armário, entende? Sair desta! Cair fora! Preciso perder a minha própria pele e emergir outra figura. Ainda quero perseguir o cometa Lulin ou qualquer outro astro que me faça sair da minha própria atmosfera doméstica, caseira. Pensei que a ideologia estivesse enterrada e morta, mas não está. O elevador quebrava sempre que eu tentava buscar água mineral do outro lado da rua, numa esquina em que uma costureira aplicava o seu comercial na janela: costura-se, conserta-se. E eu pensava: Morre-se! Na entrada do meu apartamento: Morre-se. Como em Pompeia: A Casa do Poeta Trágico, mas, aqui, apenas: Morre-se! O vento entrava pelo apartamento inteiro e sobre a minha cabeça cansada destilava um ar frio de resgate dos sentidos perdidos durante o sol sem almoço, sem água. Aquele homem proferia as promessas do passado e beijava a minha boca como sempre, engolindo tudo no tempo da eternidade. E ele já não era. Os bombeiros erguem suas escadas, gruas, repórteres, gritos, e os moradores do sobrado que chegam. Mulheres correm. Uma delas se deixa ficar na calçada com a mão na cabeça, segurando o pensamento que teima em fugir daquele lugar, o armário, as contas, as roupas dos filhos que estavam na escola, fogão, prestações do ferro novo, a narrativa e a minha vida em incêndios. Sinto o calor, padeço. O peso do seu nome nas costas e uma vontade de rezar. Chorar por aqueles a quem amara. Os amores perdidos. Enxugar as faces de cada um; perpetuá-las em seus lençóis até a eternidade. Buscando entre os astros o abraço do pai, sem que o tocasse, entendendo a comunicação das energias, onde é prescindível o toque. Assim ela o fazia: enxugava as dores dos homens a quem amara no seu véu, no seu colo abnegado, mas falível, inquieto, insatisfeito, febril e irado. Santo sudário de imagens, memórias. Expulsá-los do seu templo de várias formas, a todos, num só ímpeto! Com a ira santa das fêmeas que despertam para a indiferença eloquente do macho; a ira das viúvas afortunadas que gritam e são ouvidas na arena. A minha verônica é mulher de sanhas e louca, por isso, Santa. É mulher de êxtases quando toma o chá, quando se entrega na meditação, quando goza em machos e em preces, quando faz silêncios cíclicos. E quando dança! Agora eu ouço o Bolero de Ravel no circo com todo o grupo presente, cumprindo a determinação cênica do meu diretor, indo pra tantas viagens desconhecidas, quase sem volta. Pedra. E Ele na vidraça da janela, com palavras de um poema destinado a outra, a ameaçar as minhas/suas certezas. Ela cresce. Sinto que o seu tormento também a mim me atormenta um pouco. Terei fome, também eu? Terei também eu estas víboras dentro de mim e do meu estado inerme de existir? Eu, a narradora fria que se surpreende ao também suar? Seria da narradora também o suor? E o orgasmo? Serei eu de natureza gozável também e humana? Terei também eu um sexo e um discurso, assim como as verônicas que se mostram nas telas, nos véus? Eu beijo… E o meu nome? Estou no Beco dos Artistas e me observo diante de uma parede de bar pintada, enquanto o artista plástico tenta, bêbado, explicar o seu processo criativo, certamente bem mais interessante que a obra, caso conseguisse expressá-lo. Era Sarah cantando e você viciado, sem que eu soubesse dos rituais em cocaína. Equus no palco e você tremendo ao meu lado, acho que por puro tesão àqueles cavalos magníficos, ou a cocaína? E tantos desejos circulando no meu sangue, perpassando vertigens e já não era você o homem com quem eu tentava uma transa séria, madura: – Foi bom pra você, mas eu estou aqui, desse jeito ainda! Houve uma segunda vez? Não sei! Não sei! Os diários, as cartas e as receitas médicas soltas no chão do apartamento, expostos aos olhares dos amigos que chegavam e os amigos dos amigos desconhecidos que atropelavam minhas palavras e; também eu bêbada, atropelada pelo ônibus durante a duração daquele beijo. Eu também vivi tudo isso, em algum lugar! E você chegava de outro encontro. E aquele beijo, após licores caros e queijos fartos à mesa de um restaurante onde eras percorriam todos os cantos do muro, hermeticamente fechado, consolidando um discurso de alienação do mundo lá fora. E o pedido para que eu fosse sentar ao seu lado e o não seguido do seu corpo me beijando até hoje? Onde estou? A pista traz luzes e é noite. Luzes de estrelas na estrada. Quantas luzes! Quem guiava o voiture enquanto nos beijávamos na estrada de Montppelier a Itacaré? Enquanto nos refugiávamos nos cafés das calçadas para apreciarmos aquele céu azul, ainda sem trio elétrico, nem turistas invasores? Ele nunca soube que você era uma artista! – ele nunca ouviu o que você falava, nem o seu silêncio! Ele só via o seu umbigo e o seu pênis. Estou perdendo o desejo de continuar sendo esta mulher. Falo com paredes, mas principalmente, com barcos e homens do mar, inalcançáveis. Queria me despir de todas as tibiezas. Sou muito fraca! Muito fraca. Ele nunca soube que você falava. O beijo no átrio da igreja de Santo Antônio com a lua na boca quase a dizer que ama e o infinito sutil dentro de mim, como se fôssemos eternos naquele lugar diante do sagrado e da heresia da lua. Os sapos continuam caindo do céu, minha orquídea! Como eu entendo os sapos caindo do céu sobre nossas cabeças naquele filme. Através da garrafa de vinho ou da taça de Martini, ela viu a imagem da mulher, cuja sombra dançara com ela a noite inteira e, ao perceber que tinha sido vista, correra para a parede e fora aprisionada como musgo, pelo mofo esverdeado. A outra me olha assustada pelo flagra e parece tornar-se uma ninfa, um fauno, uma árvore, talvez um irôko, um musgo. Ou sou eu a figura esmagada no mofo cujos olhos de espanto ainda gritam dentro de mim? Suo, suo, suo e fecho os olhos para um longo beijo. Daquela mulher, eu só conseguira arrancar o nome: Berenice. Mas a vida sempre escapou-me.
Rita Santana é uma ilhoa! Em essência, cada vez mais solitária e dedicada à escrita de forma indisciplinada, talvez caótica, mas com determinação absoluta. Publiquei em 2004 o livro Tramela (prêmio Braskem/contos); em 2006 o selo Letras da Bahia selecionou e publicou o Tratado das Veias (poesia. Alforrias (poesia) é uma publicação da Editus/2012 e consta da bibliografia do Mestrado em Letras da UESC/2018. Sou atriz, o que facilita vivenciar meus dramas como se assistisse a um espetáculo, com certo distanciamento, e professora, o que me possibilita trocar aprendizagens contínuas e enlouquecer um pouco mais. Profundamente triste com o destino do País: daí a necessidade cada vez maior da Arte e do seu desnudamento.
Mercedes viu o pai, naquele dia, chegar bêbado. O rosto avermelhado, a voz travada. Quando bom, as palavras saíam com dificuldades. Poucos entendiam os significados. Lá fora o céu empalideceu. O vento varria gravetos e as árvores envergavam. As galinhas corriam no terreiro em algazarras. O céu escurecia rapidamente. Sua irmã Francisca chegou da vizinha resfolegante. “Cuida! Vamos fechar as janelas. A chuva está vindo como nunca”. O pai deitou-se no chão frio como de costume. Resmungou qualquer coisa indecifrável. Não se interessou pela chuva a vir, apesar de sempre esperar por ela. As outras irmãs fecharam-se no quarto. Helena precisou de ajuda de Isabel, a irmã mais próxima.
Mercedes ajudou as irmãs o mais rápido possível. Correu à janela para ver a chuva. Não tinha chegado, mas o cheiro estava no ar. Olhava para a estrada à distância. Olhava para o pai na sala deitado no chão, a não sonhar com a chuva. E ele não a viria tão torrente, tão forte capaz de deixá-los quase à deriva. A mãe deixou-o morto e não precisou dele para buscar formas de não se envolverem no dilúvio. Por mais que sentisse dó dele, Mercedes sabia, no íntimo, a cada dia o desprezo aumentar. Era um pai doutro mundo. Era um pai presente-ausente. Era um pai de lascar. Olhava agora para a mãe. Corpo esquálido, de ossos do peito a estufarem-se. Os olhos quase não cabiam nos côncavos. A pele presa aos ossos e aos nervos e às juntas. Pele ressequida e sugada. As pernas finas a formarem dois arcos. Os cabelos tingidos aqui e ali de branco e ruins de serem penteados. Ficava a se pensar como aquela mulher pariu cinco filhas com aquele corpo que mal se firmava em pé. Às vezes temia em a mãe se desmoronar e os ossos se espalharem pelo chão. Era uma mulher de aparência fraca, mas forte na luta, na lida, nas resoluções. Pecava pelo amor desvairado, pela inocência no pensar e no agir pelo marido longínquo. Não entendia a mãe, ou se fazia por não entender. Por que aquele amor de um só? Por que sofrer tanto por um homem? Procriação? Carne? Carne era só o que ele trazia na feira do mês, e só. O resto as mulheres da casa tratavam de conseguir às duras penas.
Ela chegou, aos poucos, perpendicular vindo da estrada, subir o alto, banhar as podas das árvores, tingir as cores encardidas das casas. Mercedes viu a chuva vir de tal forma branda para depois forte. Lembrou de Paulo, amigo de Francisca e que se tornou amigo de todas. Lembrou porque ele era como a chuva, apesar de sempre tardia, passageira. Vinha sempre, saltitante, mas logo ia a deixar reverberação no ar. Mas logo esqueceu da imagem fugidia daquele que seria o ponto cego da visão. Deixou-se a ver a chuva a tamborilar nas telhas, aos poucos e logo constante. Não quis ouvir as irmãs no quarto a rirem. A mãe chegou-se perto e as duas ficaram mudas, pelo vão da janela, a ver aquela coisa rara. Cada uma ao seu modo. As irmãs no quarto, agora a rirem. Quis rir também, e assim o fez, de forma suave, a receber a chuva do caju. E nunca soube o porquê do caju. Naquelas bandas a fruta era rara, quase a não existir.
Foram assim serenas, controláveis, no princípio, que as águas de setembro molharam as lembranças de Mercedes. O pai deitado no chão da sala, bêbado. A mãe sem tantas palavras, mas nos olhos o brilho a espelhar os pingos d´água. As irmãs, no início, a rirem de qualquer coisa. Mas nem tudo foi assim. Tudo foi aos poucos, como qualquer chuva a banhar aquelas terras gris. Choveu. Choveu como nunca. Na proporção que as águas caíam, o cenário mudava. A casa edificada no alto parecia estar segura de provável inundação. Mas o que se veria nas próximas horas foi de causar medo. Os risos das meninas se foram, aos poucos.
Quando a noite chegou, e o pai ainda bêbado e jogado, a chuva veio junto. A luz dos postes era pouca para se enxergar o que acontecia lá embaixo. O caminho a dar na casa, em um dos lados, havia declive acentuado. Existia um vão convexo. Uma espécie de açude sem água. Na beira da estrada, um bar. No início da chuva, alguns bêbados celebravam em brados. Ouviam-se copos a se quebrarem e garrafas tilintarem. Mas depois apenas a chuva. Foi quando a luz se foi. Os risos das meninas também. O pai naufragado no álcool. A mãe, agora, preocupada. Todas trataram de buscar as lamparinas, as velas, algo para as iluminarem. As telhas cantavam, dançavam à chuva, explodiam em melodias agudas. Sentiam-se os respingos por entre elas, como se aspergissem água benta naquelas pecadoras. O pai não sentia, estava morto, e não era novidade morrer a cada dia. A chuva a aumentar. Os olhos das irmãs, apesar de Francisca ser a mais velha, a expressarem medo.
As casas vizinhas, distantes, Mercedes tentava ver as frouxas luzes pelos rasgos das portas. Eram luzes disformes. Os grossos pingos da chuva turvavam a visão. Não conseguia enxergar o que, pela manhã, seria o mar lá embaixo e sem condições de não ir a lugar nenhum.
Mas a noite ainda demoraria a chegar ao seu fim. A casa, com suas três portas, delimitava os dois mundos: o interior e o exterior inundado. Mercedes temeu o pior, mas segurou-se. Não tinha presenciado aguaceiro como aquele, apesar de não ver, mas sentia. Os respingos de entre telhas a banhavam como gotas de orvalhos exagerados. Banhavam a esperança de dias melhores, como estágio para que as futuras plantações vingassem. Lembrou, então, de ter deixado a escola, não porque quis, mas pela imposição do pai. Era preciso limpar os matos a engolirem o feijão. Era preciso encher os baldes de água da cisterna. Era preciso encher-se de tantas tarefas para esquecer a dor de ter deixado de estudar. Por isso cruzava com o pai no dia a dia como a um estranho nos caminhos empoeirados daquele terrível lugar.
A escola era do outro lado da estrada. Paralelo à estrada, o rio. Depois do rio a escola. Para chegar lá, muitas vezes, precisou nadar, com as roupas, a sacola com o livro e o caderno e o braço a puxar a água. Quando chegava à margem, esperava Francisca para se ajudarem a se vestir. Os meninos iam pelo outro lado, distantes. E esses meninos, apesar de próximos naquela geografia de Magdaluz, a cada dia, se tornavam mais distantes. Muito mais tarde, com a idade avançada, e as durezas da vida, não os via com os seus próprios olhos e nem os sentia com os seus restantes de sentidos.
Era bom estar sentada na cadeira da escola, apesar de péssima, mas era o que tinha. A manhã a passar a rabiscar cadernos, a juntar palavras naquele único livro, não era ruim. As duas filas das carteiras, de um lado as meninas e do outro os meninos, mostravam as divisões entre eles. A professora era rigorosa, e mesmo no intervalo não as deixavam ir longe, esconderem-se. Os óculos da professora deviam ter graus demais para enxergar tão longe. A sua amiga mais íntima, Eufrásia, de cabelos louros, pele branca como a neve, aparentava inocência, mas era uma diaba por dentro. Os quinze anos das duas emparelhavam entendimento, embora Mercedes se resguardasse nos ímpetos. Já Francisca não era bem assim. Por ter um ano a mais das duas, envolvia-se com Eufrásia em peripécias demais para a época. As trocas de bilhetes eram constantes e os assuntos, claro, eram sobre os meninos. Mercedes era quem acobertava os encontros delas com eles quando dos intervalos. Estava sempre atenta a todos os passos da professora e dos seus óculos longitudinais. Inventava sons, batia palmas sem ver para quê, cantava o que não sabia cantar, gargalhava por nada. Tudo para avisar às meninas das investidas da professora. Depois em casa, Francisca contava tudo, mas jurava de pés juntos, que tudo não passava de beijos, só beijos. Conte-nos, dizia Mercedes, os detalhes. Francisca minuciava cada ação e reação. Helena ouvia e imaginava tudo. Como as demais também. No final cada irmã guardava pra si aquele segredo como algo mais precioso do mundo.
Eufrásia não deixou a escola. Eufrásia casou, teve filhos e se separou do marido para viver com outro, e depois com outro e, hoje, não se sabe do paradeiro dela. Mercedes riu, enquanto sentia a chuva naquela escuridão de lá de fora. Dentro de casa, as luzes bruxuleantes dos candeeiros tornavam as irmãs e a mãe imagens fantasmagóricas. Quando elas se moviam, as sombras nas paredes se encontravam como a se engalfinharem.
Na mistura dos sons nos telhados, dos chinelos pela casa, deixava Mercedes entregue a devaneios e, ao mesmo tempo, atenta a tudo. Achava os movimentos da casa o seu mundo mais profundo. A chuva trazia, além dos fantasmas nas paredes, os vultos do passado. Na proporção em que a chuva se fincava na noite, a casa enchia-se dos parentescos vultos, vizinhos e figuras desfiguradas. Mercedes recebeu todos eles, entre desconfiada e deslumbrada. A tia Andaluzia gostava de falar alto, e foi logo expondo o seu ponto de vista em relação à situação da região: “a seca me dá agonia por ter que comer carne seca e farinha. Não tenho nada contra o gosto, mas minhas dentaduras não aguentam”. Tratava logo em tirar do bolso do vestido o naco de fumo e a palha de milho. Insumos para o cigarro de cheiro maldito. Não se importava para o torcer de narizes dos outros. “retirem-se os incomodados. O terreiro é o local ideal para as bestas”. E continuava a falar, sempre se referenciando à dona da casa. A cada palavra a sair da boca, enxovalhada de fumo e fumaça, o olho direito fechava. Era a forma viciosa, um tique nervoso a deixar a outra pessoa a querer lhe imitar. Pelo olho fechado a fumaça soltava-se e enuviava aquele sentido incomum. Os gestos das mãos em jogar para uma e outra o cigarro de palha mordiscado era outro gesto intranquilo. Tia Andaluzia não era normal. Espalhafatosa, apesar do corpo magro, ao chegar num ambiente tomava conta de tudo. Os outros eram os outros. Foi assim que ela entrou na casa, já por volta da madrugada, encharcada da chuva. Foi assim, também, em outros dias quando a chuva veio tão forte que não quis voltar de onde veio. “O marido se ajeita”. Ficou uma semana com a irmã de roupa única. As de baixo a irmã precisou comprar. O cunhado foi aos solavancos, no lombo do jumento, a resmungar injúrias para si, a comprar no comércio calcinhas para Tia Andaluzia. As filhas, naquele dia, não aguentaram de tanto rir. Queriam ver a encomenda, o tipo. Mas o pai sob protestos aos quatro ventos enviou a mercadoria pela vizinha. Chegou horas depois trazido pelo animal afogado na cachaça.
Outra personagem, a se livrar da chuva, foi Tio Nonato. Ao entrar trouxe na aparência, de nota, o rente cabelo à brilhantina. O cuidado com aquela indumentária era de causar comentários. Anexado pelo bigode fino, sempre penteado. Ambos os toques negros pela tinta rejuvenescedora. Trazia no bolso o pente fino, guardado como relíquia, parte do corpo, parte da vida. Juntados os irmãos sob o aguaceiro e aos olhos e mente de Mercedes, a noite arrastou-se diferente. Tio Nonato comentou sobre o cunhado caído para depois deixá-lo largado igual a todos. Os irmãos enfiaram-se na cozinha e beberam garrafas de café ao gosto das palavras e memórias elucidadas. Mercedes ficou no canto da porta a ouvir aquelas vozes misturadas do além e do presente.
Tio Nonato também ficou pós-chuva. Deixou a mulher na cidade distante, e acompanhou a Tia Andaluzia em visita à irmã. Foi num período de dois dias que Tio Nonato revelou-se doído pela paixão do passado. Em outras visitas à cidade de Magdaluz, há muito tempo, conheceu uma mulher. Trovadora, audaciosa, bonita, indecifrável por fim. Amor, paixão, atração, não se sabe. O que se sabe foi o rapto da mulher casada, notícia afora. A esposa de Tio Nonato soube e aguentou e chamou a amante de rapariga, praguejou, desejou morrer, serenou. Suportou o tempo de seis meses em que o aventureiro e apaixonado cabra desnudou-se das suas responsabilidades de marido. O filho de uma égua fugiu como o diabo foge da cruz. Fugiu como quem buscava nas carnes da outra o que não encontrava em casa. Voltou tempos depois ao largar a mundana quando abusou. Entregou de volta ao marido como objeto usado, e aquele traído a recebeu. E agora, no encharque da chuva, Tio Nonato mergulhou-se na cachaça a lembrar das aventuras e de querer saber do paradeiro da aventureira.
Foi assim a noite toda a lembrança, a memória a misturar-se com a realidade. As vozes das irmãs com a da mãe fizeram com que Mercedes confundisse o real do imaginário. Porém não deu para confundir quando as telhas dançaram. As telhas não suportaram o soprar do vento. Muitas foram arrastadas. Buracos se abriram no telhado. A chuva a continuar forte, tanto fora como dentro de casa, deixou a todas em pânico. O pai jogado e agora molhado. Era preciso sacudi-lo. Mas antes as irmãs e a mãe trataram de aparar o aguaceiro; cobrir os parcos móveis; de vassouras e rodos a puxar o excesso. O pai era um móvel-imóvel que podia inundar-se, por enquanto. Todas se molharam. O cuidado estava também em Helena. O cuidado estava nas louças e na última feira do mês. Helena se salvou, mas a feira foi de porta afora. A mistura aguou. A mãe quis ir atrás, mas foi impedida pelas filhas. Todas as roupas molhadas, grande parte dos móveis. Quando o pai foi arrastado pela leveza do álcool, a mãe atirou-se para impedi-lo. Foi então que as irmãs notaram o grande amor da mãe pelo pai. E nessa divisão de água entre os pais e as filhas, Mercedes tornou-se pioneira no estilo de vida que iria perdurar por todos os dias vindouros. Mesmo Helena com suas dificuldades, sentiu o quanto aquele episódio as marcaria para sempre.
Anchieta Mendes, natural de Juazeiro do Norte-CE, é escritor com prêmios literários e contos publicados em várias antologias. É autor de “Valados de giz” (Romance), “Alquimia” (Romance – Multifoco) e “Bicho Metropolitano” (Contos – Penalux).
Sempre a procurei pelos livros, mas foi na biblioteca que a encontrei ao ver seus olhos estendidos sobre as mesmas órbitas de Der Zur Macht* que me revelaram milagres e epifanias de um crânio e um amor sem salvação. O ritmo de todas as caveiras prenunciava nosso diálogo com cadáveres no perímetro de sua boca sedenta e inflamada. Eu estava prestes a me desfazer como gelo afogado em whisky não bebido por seu batom, mas procurei pelo sol, procurei por um bar e, na medida que nossos passos se perdiam em busca de refúgio pelas calçadas, cresciam nossos delírios. A vi trazer o mundo na orelha como um brinco que se poderia perder em qualquer criado-mudo incapaz de nos denunciar. Eu sabia de seu desejo de violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, também sabia que meu destino não seria diferente dos demais. Um doce mormaço nos fez levitar até os tentáculos de um polvo metálico para beijarmos o púbis das cervejas em copos de pecado. Nos excessos do dia, abriria a cortina da noite. Tremores de uma alucinação feroz em giros excêntricos pelos porões e sótãos de minha cabeça arrastaram seus joelhos para onde seus pés, por prudência, não deveriam ir alimentar o resto da vida com uma hora de loucura.
Hotel de carícias. Hora premeditada em que eu podia abrir as janelas de seu vestido e os olhos para a cumplicidade da lua e aproveitar o medo das nuvens de te ver transfigurar-se na penumbra onde seu rosto poderia praticar um crime delicado. Abri a porta de seu tornozelo que é a entrada de seu desejo. Sua penugem tão próxima das asas, dos dedos, do pênis, o sorriso de sua suave anatomia, os pequenos pêlos da perna que refletiam as luzes dos candeeiros e se deixavam colorir de cobre como seus cabelos se deixavam tingir com meu sangue. Não, nunca mais sairei do uivo de seu cão ou das páginas de seu caderno de adultério. As datas incandescentes contornam fragilmente as folhas de seu calendário bordado a fogo a incinerarem nossos dias. Beijos azulados deslocam seu ponto de fuga para além dos limites habituais e retalham a silenciosa atmosfera donde o suor é amigo e consorte dos amantes de março protegidos em alcovas das estrelas despregadas e das águas que encerram o Verão. Demência apaixonada onde encerramo-nos em quartos, onde a despi de todos os corpos que cobriram seu corpo. Jogos de dados lançados em lençóis pálidos, teu sexo refletido no espelho e chamando por mim. Naufraguei no cio das coxas como dois rios que dividiam o mar tingido por menstruações que afogaram tantos semens na travessia do canal da mancha em colchas que escondem segredos e ocultam digitais. O crime é mais importante que o castigo e as paredes possibilitam inserções mágicas e fórmulas algébricas que nunca se repetem. Arranquei da sua face todas as máscaras de rostos amados. Eu soube decifrar seus jogos noturnos. Pouco a pouco os trapézios de néon avançavam através das sobrancelhas cerradas da meia-noite nos meandros de armas e rosas. O vinho nos bebe e macula a cama. Os olhos de dois morcegos famintos abandonaram sorrateiramente as feridas nos travesseiros abertas por nossos poemas. Cortina de cabelos transforma qualquer imagem em miragem. Uma roleta giratória de revólver em permanentes disparos sobre a rosa carnívora. O perfume na garganta de espuma e fúria das invasões bárbaras. Nossas bocas só depois da madrugada fazem passar os pássaros em revoada sob a pele, porque o amor é só uma palavra, porque o céu foi nossa última chance essa noite.
O lápis do sol desenhava o contorno de seu corpo e tingia as marcas em meu pescoço. Seus caninos sorriam para mim.
* Vontade de Poder
***
DO AMOR DE DEPOIS
Ele imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento de alegria e impudor. Ela boca cheirando a álcool a equilibrar a lucidez de um cigarro. Eles numa atmosfera de embriaguez a viajarem entre o essencial e o acessório a lançarem dados e calcularem probabilidades impossíveis de encantos mútuos. Ele a compor um sarau de ensaios sofísticos. Ela a utilizar toda alvenaria da sedução. Eles a testarem o dom de reinventar o tempo e o espaço a partir de experiências. Ele a descobri-la ao acaso em caravelas naufragadas em mesas e toalhas. Ela a pensar que numa era o encontraria voluntariamente nos cafés e quartos. Eles a conversarem sobre poetas malditos, livros lidos, desafetos amados e moinhos de vento. Ele a esconder seus segredos e sussurrar suas senhas. Ela a contar tudo a cada minuto sua íntima história de desejo. Eles a excitarem a fúria das paixões num esforço de fé no tempo que endurece as coisas até chegar o momento em que se pode quebrá-las entre os dedos. Ele a sensação do porvir como um sonho irreal. Ela uma mulher com quem beber e esquecer entre silêncios e risos. Eles a se amarem com todas as forças de um tempo ancestral pendurados em fios imaginários na superfície da paisagem. Ele a conjecturar o roteiro de uma viagem sem volta. Ela mãos fecundas a gerar ironia e loucura. Eles a lutarem contra bocas famintas que estilhaçam vértebras e cospem ossos no asfalto. Ele caminha ao cambaio das ruas de verão. Ela a rasgar sua face mais contratual. Eles a beberem todos os delírios e devaneios mais profundamente que qualquer demônio. Ele corpo puxado pelo avesso. Ela corpo devassado. Eles a trocarem imagens do mundo através das bocas mudas. Ele linha do equador entre os braços. Ela mapa-múndi dentre as pernas. Eles a admirarem a miragem dos eternos corpos despidos. Ele a lê nua e decifra seus enigmas. Ela a sentir em seu dorso os dedos que tocam os acordes da melodia em sol maior. Eles a esconderem o prazer de se digladiarem numa arena que revela uma verdade em que não se reconhecem. Ele alma de anjo decaído. Ela carne de vinho e saliva de cerveja e sêmen dos suicidas. Eles a criarem uma primavera de pernas entrelaçadas e se perfumarem com todas as fragrâncias que envolvem suas peles num raio de quilômetros. Ele a colher laranjas em seu ventre e morder o pêssego do peito perdido. Ela a arder sobre um lençol mordido por flores molhadas de sigilo e sal. Eles a trocarem carinhos e confidências como cúmplices de crimes perfeitos. Ele com a certeza científica de que as pérolas se formam por meio de agressões externas para serem saqueadas do sofrimento das ostras. Ela a sentir seu mundo guiado pelos cinco sentidos que criam ciclos de culpa e prazer nos temores da vida de refugiada. Eles a roubarem de seus outonos e entranhas os frutos que incendeiam o paraíso ao imaginarem que inventaram um deus. Ele a adentrar seu labirinto e arranhas suas paredes com inscrições e datas. Ela o livro que ele nunca escreveu. Eles a dobrarem esquinas opostas e trilharem seus caminhos nos quais fantasmas os aguardam inteiros. Ele a beijar seus olhos de ressaca do amor de depois. Ela?
Vinícius Canhoto é escritor, professor, doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Autor de “Livro do Esquecimento”.
Na reunião ele arrasou comigo. Pela décima vez não aceitou minha proposta. Riu dos meus argumentos. Zombou dos itens que listei. Foi sarcástico.
Esperei que ele terminasse a terceira xícara de café para pedir licença e sair. Meus colegas não olharam. Pena. Vergonha.
Desci os dois lances de escada. Na recepção dei um beijo na secretária. Na porta do prédio comprei um picolé. Na esquina dei sinal para um táxi. No taxi olhei o relógio.Três xícaras. Impossível não fazer efeito.
***
Convite
Minha ex-namorada finalmente aceitou um convite para um cinema. Desde que terminou o namoro comigo eu tentava uma chance, afinal ela ficou pouco tempo com o desgraçado com quem me traiu.
O filme era Guerra Civil. Ela era louca pelo universo Marvel. Minha camiseta a fez sorrir. Pegou no meu braço e fez carinho no meu peitoral.
Antes do filme começar nos beijamos. Vimos todo o filme abraçados. Três segundos após a cena final saí do cinema. Lamentei perder os extras.
Escolhi muito bem a camisa. Vermelha. Homem de ferro. Na rua lotada ninguém notou os respingos de sangue.
***
Órfãos
O pai do Valério morreu de câncer. O pai do Sílvio morreu de infarto. O pai da Celeste foi atropelado em Copa. O pai do Joca se jogou da ponte. O pai do Milton morreu de velhice. O pai da Maria morreu de susto – um assalto na Avenida Brasil. O pai do Guilherme foi uma bala perdida no Andaraí. O pai da Glória morreu esmagado por um caminhão na obra do Shopping Carioca. O pai do Soares morreu num acidente de carro na Dutra. O pai da Lenice morreu esfaqueado num bar em Campo Grande. O meu pai foi comprar cigarro e voltou.
***
A velha
Passou a vida sentada. O motivo era a existência da televisão. Engordou de não caber em roupa pronta. Vestia uns panos grandes, quase lençóis.
Era feia a velha. Muito feia. Mancava de uma perna. Faltava dente na boca. Os cabelos eram ralos e espetados.
Morreu ontem de tardinha. Engasgada com um pão francês lotado de manteiga. Na confusão do engasgo o canecão de café com leite entornou e coloriu o sofá.
Era feia a velha. Muito feia. Mas era uma avó legal.
Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia “14 novos autores brasileiros”, organizada pela escritora Adriana Lisboa. “Interrompidos” é seu livro de estreia.
— É melhor ser órfão de pai morto do que órfão de pai preso.
A frase veio de muito longe, lá da infância, assim que a janela se fechou. Marcelo não teve como reclamar que as janelas é que devem ser abertas quando as portas se fecham. Não pensou isso nem lembrou de Deus, mas se arrependeu de ter dito aquilo ao primo. O fato é que eles não tinham pai, não importava se um estava preso, o de Tiago, ou se estava morto, como o de Marcelo. Aquela frase, no meio das disputas normais de criança, ficou esquecida. Eles brigaram outras vezes, competiram por tudo, amigos e adversários, primos e irmãos. Agora, no meio da queda, Marcelo queria que o primo o tivesse visto correndo da polícia; primeiro pela avenida, entre os carros; depois, já dentro da favela, entre as casas, subindo muros, por cima das lajes. Era o gato, como gostava de dizer, quando criança, sempre caindo de pé e ileso fosse das árvores, fosse dos muros.
Gato. Foi esse o bicho que viu no rabisco aleatório que fez na aula de desenho. Depois, treinou várias vezes em casa escondido, ensaiou o gesto para parecer o mais espontâneo possível e fez dele sua assinatura. Primeiro nos desenhos da escola, depois nos muros da rua. Todo mundo pichava naquela época. Ele e o primo se uniam naquela vontade de marcar territórios. Iam cada vez mais longe pelo bairro. E fora dele também. Naquela aventura de ultrapassar limites, ampliar horizontes, Marcelo foi além. Dos rabiscos frenéticos, das marcas da galera, passou a se aventurar em outros desenhos. E mais que as pernas ágeis e compridas, descobriu que as mãos eram capazes de fazer quase tudo que imaginava. As imagens na sua cabeça aos poucos iam passando para os muros na tinta negra do mais barato spray. Eram apenas as formas. Vieram, a seguir, as cores, multiplicadas rapidamente. Uma explosão de cores, diria o menino, ainda desacostumado de criar imagens com palavras. Como os desenhos falavam mais, ele não insistia nas palavras. Foi assim, em silêncio, que respondeu uma tarde quando o primo o chamou para mais um desafio de pichação.
— Vamos?
A mão de Marcelo apontou um olho inacabado em um muro. E para a próxima pergunta, nem mesmo um gesto.
— Vai ficar de mariquinha, é?
Eles se separaram.
Marcelo queria que o primo tivesse visto seu salto entre um prédio e outro, queria que tivesse visto o gato pichado naquele lugar tão difícil, os truques pra se livrar do segurança, o portão arrombado, a tinta negra sob as unhas, aquela prova de que não era veado.
— Homem tem tinta preta na mão. Nada de verdinho, vermelhinho, amarelinho.
Marcelo tinha medo de ser visto como menos homem do que era, mesmo que até já tivesse mostrado isso algumas vezes. Pegava mulher. Não era fácil, era tímido, mas a força do corpo e suas exigências empurravam o menino para frente. E tinha Rai.
— É um peixe?
O peixe estava visivelmente voando, havia nuvens embaixo para provar. Ele se entrelaçava com um pássaro que visivelmente estava dentro d’água, havia ondas em cima para provar. Eram muito coloridos e pareciam voltear um em torno do outro, asas e barbatanas se uniam passando suas cores de uma para outra. Entre tantas, havia apenas um filamento azul que saía da cabeça do peixe, abraçava o pássaro e terminava formando a pena mais longa de sua cauda. Foi o que mais chamou a atenção da menina.
— Que azul lindo. Nunca vi um azul assim. Chega dói.
Marcelo tinha misturado vários tons até chegar àquele azul. Ele se orgulhava do que tinha conseguido.
— Eu chamo de azucrinante.
Ela riu. Para ele, azucrinante era algo incrível, legal. Ele não sabia que os dicionários pensam diferente. Ela sequer pensou. Seu olhar estava além das palavras, além da explosão de cores, além da magreza juvenil e morena dele. As meninas chegam primeiro a um entendimento do que querem e de como devem fazer para ter. Ela sorriu admirada.
— É tão bonito!
Rai era linda. De um beleza que todos sabiam. Tiago sabia.
Ela se intrometeu entre os dois como se alguém usasse uma ferramenta de metal para alargar uma pequena rachadura. No começo, sem se dar conta, mas logo percebeu, pelo jeito esquivo de Tiago, que havia ali um desejo. Ela não resistia à tentação de atiçar o rapaz e rejeitar. Tinha o gozo de, estando com um, saber que o outro de longe invejava.
Marcelo não percebia. Não via relação entre a nova namorada e o primo. Sentia apenas o afastamento, e se ressentia de Tiago não ter nenhuma admiração pelo que ele fazia. Nenhum elogio de quem quer que fosse fazia o primo sentir como uma vitória de Marcelo. A marca do gato pequena embaixo de uma paisagem colorida não significa nada.
— Melhor é quem vai mais longe, mais alto. Isso é que é coisa de homem.
A voz do primo gritava nos ouvidos de Marcelo durante a queda. A mesma voz que ouvia enquanto invadia aquele prédio. No silêncio que fazia para enganar o segurança, a voz estava lá dentro, alta. E mesmo depois, na fuga — seguranças, polícia, carros —, nada era mais alto do que ouvir o primo gritando a superioridade de quem vai mais alto, de quem coloca sua marca no lugar mais difícil. Ele correu pela ruas, pela favela, por sobre as lajes das casas. Sabia que por ali chegaria em casa facilmente. Tantas vezes os dois tinham feito aquele caminho. Da última laje viu a janela do quarto aberta. Eles moravam numa encosta, uma casa em cima de outras três casas, um prédio construído aos poucos, uma invasão para o alto, que outro lugar não havia por ali. Tanta gente. Dormiam no mesmo quarto, juntos e, agora, afastados, um afastamento que doía em Marcelo.
A janela estava aberta. Era só pular e estaria salvo. Pulou. Tiago estava lá dentro. Ele sorria. Marcelo, como um reflexo do primo, sorriu satisfeito. Eles se aproximavam, juntos de novo, Marcelo vitorioso e aceito pelo primo.
Então, Tiago, como um Deus ao contrário, sem nem mesmo abrir uma porta antes, fechou a janela.
Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014), “Arquivos de um corpo em viagem” (Poesia, Editora Mondrongo, 2015) e “A eternidade da maçã” (Contos, Ed. 7 Letras, 2016), vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016.
Antes andaram por estradas de sonhos etéreos. Colheram flores e mel. Arranharam a pele e guardaram pedaços das mesmas peles por baixo das unhas. Ficaram com cabelos entre os dentes. Sorveram com paixão a água de seus poços, das tormentas tão íntimas, sem se saciarem, nunca, sempre.
Depois veio a vida, o sol que nascia todos os dias e declinava, dando lugar à noite. As horas opressoras, os minutos sufocantes. A maternidade, a escola, a bebida, as palavras armadas, as feridas que doíam, fechavam e se abriam novamente. O tesouro, as dívidas, os anos que encolhiam. Os gritos. As janelas.
A boca é de vermelho. As unhas descascadas. A sacola da feira se arrasta. Salta as poças de lama nas ruas solitárias, lê versos que não guardam emoção, o arroz queima na panela, do chuveiro não jorra água fria. Todos gritam felizes infelizes. Os que moram à porta ao lado gritam. Os da porta à frente gritam. O de baixo está morto.
A chuva é uma suja estúpida, desonesta, serve de desculpa. Você sozinha na janela. Na televisão. No sofá. No balcão. No fogão. Limpando armário. Enxugando o chão. Veias secam. O corpo de dor, a espera que não se finda, pratas e cristais, anos e recomeços. O sangue. Um câncer. O seio.
Você rasga e escreve. Você lê e rasga. Escreve. O amante que não existe deita em seus braços. O marido volta para arrancar-lhe afetos e juramentos. Espera. A planta cresce e invade a casa. Enrama na parede, vira uma grande fenda. A casa arruinada é uma doce morada.
Por último deitada e fria na cama, de noite, de dia. Sorrindo. Urinando. Lívida. Sem dentes. Honesta no começo, mentirosa ao final. O som da cidade preenchendo entranhas. Você desfolhando-se pequena e resoluta.
***
Azul
Da janela emolduro o momento do mundo numa imagem para nunca esquecer.
Na praça, poucas pessoas andam apressadas portando máscaras cirúrgicas. Algumas portam luvas e carregam coisas como mantimentos e material de limpeza. Há um ar de melancolia e esperança, um som profundo vindo de algum lugar. A praça e os edifícios cinzas, cor de nada, se harmonizam com as árvores secas onde nascem pequenos brotos e a promessa de renovação, em meio ao caos dos primeiros dias.
Há sete dias estou encerrado num quarto de hospital, isolado do mundo, sendo visitado quatro vezes por dia por enfermeiros e médicos portando as máscaras que se tornaram indispensáveis nesses dias de medo e de insegurança. Sinto falta de um rádio, de notícias, de um jornal, de música. Sinto falta de meu cão que divide trinta e seis metros quadrados de uma quitinete comigo, a cinco quadras do hospital. Minha mãe, minha irmã e meu sobrinho de cinco anos aparecem na praça mais ou menos a cada dois dias, o menino com máscaras, às dez da manhã, acenando, um sentimento de vigilância pelo que represento em suas vidas.
Desde o primeiro recado que recebi depois que pude levantar, há quase seis dias, com muitas dores, respiração ofegante e palidez – via-me através do vidro da janela quando o sol estava baixo no início da manhã ou fim de tarde – e olho da janela esperando o tempo em que poderei caminhar na praça novamente. Se tudo ocorrer bem, no mais tardar depois de amanhã atravessarei a praça para abraçar meu cão.
Antes de chegar ao hospital, havia uma grande tensão nas pessoas e instituições: voos haviam sido suspensos, para impedir a chegada do vírus a outras áreas do país que ainda não tinham sido afetadas. Países isolaram suas fronteiras. Havia o medo do iminente, da repetição das pandemias anteriores. Comércio, escolas, áreas de lazer completamente isoladas. Existiam contadores de mortos nos jornais, nos noticiários televisivos, com seus números cintilantes. O medo paralisava o mundo de uma forma que não havia imaginado.
O silêncio era o silêncio dos mortos. Incomodava como os mais altos sons. Tão incômodo como os motores dos ônibus, as buzinas dos automóveis, as turbinas dos aviões.
Agora, as coisas parecem estar mais claras. O fato de estarmos sobrevivendo dá um sentido de esperança a tudo. A vida poderá voltar à normalidade. O medo se dissipa e deixa apenas uma sensação de fragilidade e perenidade que às vezes somos convidados a ter.
Tanto era assim que hoje acordei com a irresistível vontade de escutar música, de cantarolar, de dedilhar um violão. Na noite anterior, um médico novo veio me examinar, e por trás da máscara havia olhos e mel, que permaneceram durante o resto do tempo em minha memória.
Durante a noite caminhei para a praia. A luz irradiava entre as sombras e os objetos, refletindo na areia e nos coqueiros verdes que fechavam o horizonte. Caminhava iluminado, sem sombra, sem medos, sem doenças. O hospital havia ficado num canto remoto de minha mente. De meu íntimo, caminhou o vendedor de perfumes, que havia estudado comigo, e tinha uma namorada jovem e frívola. No meu íntimo, não havia a namorada dele. Era ele, o chão de areia, os coqueiros verdes no horizonte, o mar cor de terra no limiar de minha imaginação e de novo a luz.
Seu cabelo permanecia leve à direção do vento, seus olhos úmidos e escuros, seu porte forte, a luz em seu rosto. Havia mais que imaginação nos limites do meu corpo e o seu braço então me enlaçou na altura da cintura, na mais íntima das ações que duas pessoas que não se encontram há anos pode se permitir.
Na voz, a doce melancolia do passado, o texto repassado e o reencontro do que se perdeu na história. Aqui há o tempo que não tivemos para repassá-la, o tempo para inventar a música que não cantamos e vivermos o que não foi e nem será possível. Existe a estranheza de um espaço com um tempo ora lento, ora corrido, no qual debruçamo-nos.
Margeando o mar, vejo-o descer, antes de tudo acontecer, de um trem azul, e me avisa sem cerimônia que precisa voltar logo, antes que o trem retorne àquele ponto. Abraço o seu pescoço temeroso de que seja para logo e você me diz que sempre desejou que o fizesse. Beijo a sua boca sem muitas cerimônias e em troca recebo um sorriso de aprovação para o sol que reflete em minha cabeça.
De repente, o mar borbulha em nuvens brancas e as embarcações tornam-se minúsculas aos olhos dos que nunca as viram. O trilho do trem é o próprio mar. Ele voltará a qualquer instante, repleto da mesma estranheza que o trouxe. Tudo isso aqui é mais que habitual. Toco sua pele com a mais generosa das intimidades e por um instante desejo despi-lo de todas as vestes para penetrar mais uma camada na intimidade que nos foi permitida.
Um barco de palavras, uma casa no mar vasto sob os nossos pés, a certeza de que nenhum infortúnio será capaz de submeter-nos novamente ao cotidiano linear em que nós vivemos. Navegaremos mais para a superfície dos ossos. Toco novamente sua pele e percebo um estranho veludo, quieto veludo que aflora em minhas mãos.
Seus olhos celebram a minha presença e somos mais felizes do que podemos ser a qualquer tempo. Esta é a certeza. Você salta sereno para terra com a mesma destreza que um gato pula de um a outro lado do telhado. Você desce metros com a leveza de um gato ladrão. Diverte-se quando flutuo de uma bolha do mar a outra, e me afasto de você. Mas sorri muito mais quando, com a mesma agilidade, se aproxima de mim e vê seu rosto tão bonito, refletido em meus olhos.
O vendedor de perfumes deixa aromas no mar e eles se misturam, emanam nas borbulhas que só fazem aumentar. Desvio-me sorrindo de um cardume de peixes alados e você segura minhas mãos pelas pontas dos dedos. Caminha sobre as águas para a areia, puxa-me pelos dedos até o chão. Despe-me com seus olhos e logo estou nu.
Beija-me a testa com a tranquilidade. Retiro a sua roupa. Você se afasta de mim e corre para o trem. Eu permaneço íntimo do frágil solo. Vejo-o entrar despido no trem. Vejo suas nádegas redondas. Olha para mim e sorri.
A noite retorna e vejo a luz alaranjada dos postes de iluminações. Percebo que a febre cedeu. Sonhei. Percebo que é mais real e factível andar num trem sobre o mar, flutuar no oceano e me desviar de peixes alados. Sinto que a máscara me sufoca na clausura do quarto. Olho para a janela e desejo sair o quanto antes.
Quando o médico retornar, de máscaras e olhos de mel, tentarei sobre os seus olhos de forma mais profunda. Tenho mais forças que antes. Tentarei ver, através de sua íris, a luz de um começo. Ou ficarei apenas com o olhar e desejo contido, enquanto puder.
Tudo ocorre no escuro do quarto, quando desperto do sonho ainda molhado da febre que cedeu, e vejo uma luz opaca adentrar a janela de vidro. Aquecem meus dedos e me fazem fechar os olhos novamente para que possa voltar a terra e o sonho.
Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia. É doutor em Estudos Étnicos (UFBA) com pesquisa sobre a formação de comunidades tradicionais quilombolas no interior do Nordeste Brasileiro. É também autor dos contos reunidos no volume “Dias” (Caramurê, 2012), vencedor do XI Prêmio Arte e Cultura (Literatura – 2012), e do livro de contos “A oração do carrasco” (Mondrongo, 2017), obra selecionada pelo edital setorial de literatura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (2016). Dois de seus contos foram traduzidos para o francês e publicados nas revistas L’Ampoule (en ligne) e L’Índex – espace d’ecrits.
Ele ficou me olhando como se quisesse pescar em mim peixes estranhos, desses que se abrigam nas profundezas do mar azul. Um amigo, que morreu de leucemia há muitos anos, me contou sobre peixes que desenvolvem antenas e moram em cavernas escuras, repletas de oxigênio, no fundo do oceano. Fiquei mudo, desejando colocar a cabeça para fora da água. Um ônibus passou, fazendo um barulho dos diabos. Puxei um cigarro e acendi. Não sei quanto tempo fiquei parado ali, sentado sozinho no banco de cimento, pensando nos peixes insanos, quase humanos, que habitam em mim.
Nunca mais deixei de sentir um gosto de água salgada na boca.
***
Que seja doce
Na escuridão aconchegante do cinema, olhou para o amigo como se o visse pela primeira vez. Estivera muito doente, longas noites em uma UTI, mas já não sentia um aperto no coração ao pousar os olhos nele. Chegava a cantarolar baixinho da mais pura, da mais simples felicidade apenas por tê-lo. O rosto do amigo, refeito, dispensava compêndios filosóficos. Era preciso colocar diariamente o passado no varal, como se faz com os lençóis molhados de suor após a febre. A febre, vespertina e monstruosa, não precisava mais ser medida, desmedidas temperaturas em um termômetro de incertezas. De repente os olhos do amigo encontraram os dela e ele riu. Quis falar alguma coisa, mas só lhe vinham na cabeça uns poemas tristes. A morte ainda os rondava, em sua dança, mas já não tinha par. “Que seja doce”, pensou, lembrando um conto de Caio Fernando Abreu, e voltou a prestar atenção ao filme.
***
Um céu de chumbo
Tudo parecia perfeito quando o telefone tocou em uma manhã remelenta de domingo. O marido ainda dormia e os filhos faziam uma algazarra dos diabos no jardim. Ela atendeu e, enquanto falava, percebeu que nuvens escuras vindas do nada estavam se adensando sobre a sua casa. Logo, logo, choveria. Pensou em chamar os meninos para dentro, mas havia esquecido momentaneamente os seus nomes. Escutou até o final, limitando-se a dizer apenas que sim e sim. Entendia a absoluta necessidade de ajudar. Iria, assim que possível. Não demoraria muito.
Quando o marido acordou, correu para contar a novidade. Uma amiga de infância estava doente. Era urgente ajudar. O homem olhou meio de banda. Conhecia todas as amigas da mulher. Qual delas? Empalideceu. Não havia como explicar. A existência da desconhecida traçava uma incômoda linha divisória. Se pudesse olhar para dentro dela, naquele momento, teria vertigem.
Com o passar dos dias e a inquietação da mulher, decidiu ceder. Ficaria uma semana, nem um dia a mais, e ele cuidaria dos meninos. Na volta, traria consigo a desconhecida convalescente, dissipando qualquer dúvida. Mas, o que havia de errado naquela história? Era a pergunta que martelava o juízo do homem, inconformado com o súbito segredo que se impusera entre eles.
Mas toda a combinação com a qual concordara era falsa. Ela jamais deixaria que a amiga entrasse em sua casa. Também não acreditava ser fácil retornar. Assim, quando beijou os filhos, ela o fez com intensidade redobrada. O mesmo se deu quando caiu nos braços do marido, na noite anterior à partida. Devia muito a ele e a gratidão costuma revestir o amor com predicados inomináveis.
***
Alzira
Alzira gosta de cachaça. Bebe logo cedo. No bairro onde mora, na periferia da cidade, num boteco perto. Os copos pequenos sorvidos às talagadas, o cotovelo apoiado na bancada, o corpo pequeno sacudido pelo gesto. A boca faz um esgar engraçado que não combina com o olhar triste. Antes de subir no ônibus passa a mão nos cabelos desgrenhados. Mostra a carteirinha ao motorista. Ajeita a magreza entre os passageiros. Não tem horário, não bate ponto.
Guarda o material de trabalho no cemitério. Com passos lentos desce a escadinha. Apanha a água sanitária, o amoníaco, a soda cáustica, a vassoura, o balde. Quando sobe, canta músicas aprendidas no templo. Deixou de ir por falta de dinheiro. Vergonha de tirar poucas moedas do bolso. Trocar pão por bênçãos. Ficaram as canções na boca, entre os poucos dentes que restam e o ritmo de quando ainda sabia tocar sanfona.
Se aparece um visitante, segue em silêncio. Diante da lápide, oferece seus préstimos: limpeza diária, mensal, anual, só um trato breve. Um real por túmulo. Em Dia de Finados, cobra mais. Ali, nunca chorou seus mortos. Se pudesse, vejam só, seria cremada. Não daria trabalho aos outros. Alzira cheira a álcool todo o tempo. Suas falas quase precisam de legenda como nos filmes mudos. Alzira não tem medo de fantasmas, só de gente viva.
***
Maresia
Por mais que viajasse, entrando e saindo de aviões, sentia sempre o mesmo perfume. O cheiro forte do mar, desde a infância. Quando fechava os olhos, o marulhar a embalava até que adormecesse. Dentro do ouvido, onde quer que fosse, levava consigo a essência dos oceanos. Podia sentir o gosto do sal na carne, sensível. Como um sabor que viajava em sua pele, a maresia parecia estar dentro da bolsa.
Respirava fundo, a 11 mil metros de altura, como se os pés estivessem fincados na areia macia, com os tornozelos mergulhados na água fria. Subia e cobria as suas coxas, envolvia o sexo, molhando os sentidos, acariciava os seios e entrava pela boca. Não tentava achar explicações. Deixava-se ficar assim com a alma encharcada.
Quando sentia dor, era somente sede. Rios secavam dentro do peito, crustáceos passeavam pelo solo em busca de abrigo, peixes morriam, sufocados pelo ar. Mas precisava, mais que mar, de algum estreito, pequena ilha, porto onde ancorar. Mal sabia que qualquer movimento é como o sacolejo de um saveiro, rasgando com sua quilha gigantescas ondas.
Vivia assim, morrendo em despedidas, içar de âncoras, presa de iscas, vítima de arpões, acenando em escadas de avião, com asas de metal rasgando o espaço. O corpo carregava os sentimentos, mala extraviada em alfândegas de países diversos. Falava pouco por ignorância, para manter-se a salvo em lugares estranhos. Não desejava maiores envolvimentos. Queria apenas um mar que a levasse, misturando sua pele branca à espuma das ondas.
Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).
Está sozinha no palco, apenas os espelhos a multiplicam. Ela e seu tutu, que a deixa quase nua. Ela e seu corpo e a dança. Ela e seu olhar, que só vê o palco, a dança, seu corpo, os espelhos.
Quando a música termina, a bailarina não agradece a ninguém. Simplesmente para no palco. Para dezenas de vezes em seus espelhos. Dezenas de vezes imóvel. Estará esperando os aplausos?
Até que as duas mãos de seu público levantam a caixa, dão corda novamente, pousam e observam.
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Certificado de garantia Maxchild
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Robinson Crusoé
Subo até o topo da duna de areia e vejo bem longe um sinal de fumaça. É vida, com certeza! Desço a duna a toda, fazendo os cálculos de como chegar até lá, e sigo a rota pensada, torcendo para não me perder mais uma vez.
Algumas horas depois subo mais uma duna e, ao chegar no topo, respiro aliviado. Desta vez não me enganei. Lá embaixo estão os motivos do sinal de fumaça. Um homem sentado em frente a uma fogueira. Desço ansioso, segurando a faca.
Ouço um ruído atrás de mim e me viro com o revólver engatilhado. Ele ainda tem tempo de saltar, mas eu atiro, acerto em seu rosto e ele cai ensanguentado e imóvel, com a faca a seu lado.
Me certifico de que está morto, pego a faca, subo até o topo da duna de areia e vejo bem longe um sinal de fumaça. É vida, com certeza!
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Os bravos soldados do fogo
Para Cibele Fernandes
Acordei com a sirene. O barulho veio aumentando e eu esperei que fosse diminuindo. Mas não. Parou à minha porta. Levantei rápido da cama e corri para abrir a porta da frente, já dando de cara com os bombeiros carregando as mangueiras, gritando ordens, cercando o quintal e procurando, procurando. Eu também não encontrava nenhum sinal de fogo. Mas não tive tempo de alertá-los, eles já acionavam os hidrantes e encharcavam a casa toda. A princípio, não entendi aquele procedimento e até me aborreci. Mas eles foram gentis e pacientes e me fizeram ver que, por mais que a gente não perceba e mesmo não encontre, há sempre um incêndio.
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Classificados 1 – Contentamento
Para Gabriela Amaral
É um bom emprego. Trabalhar com água é muito agradável, melhor do que com gente.
Primeiro tampo a pia, depois abro a torneira e deixo encher. Quando a pia está cheia, fecho a torneira, pego o conta-gotas e faço a sucção. Daí é só sair da casa, atravessar a ruazinha de terra e já estou na praia. Vou até o mar e esvazio o conta-gotas. Depois volto e repito a operação até esvaziar a pia. Então é só encher de novo e recomeçar.
Tem alguma coisa a ver com as marés, mas eu ainda não entendi muito bem. O importante é que eles estão contentes com o meu trabalho.
Cesar Cardoso é carioca e formado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2012, publicou o livro de contos “As Primeiras Pessoas”, pela editora Oito e Meio. E em 2015 lançou “coisa diacho tralha” (poesia), pela editora Texto Território. Escreveu para a revista Caros Amigos e para os jornais O Pasquim e O Planeta Diário. É roteirista, tendo escrito programas de tv como Tv Pirata, A Grande Família e Sai de Baixo. Atualmente, é roteirista do programa Zorra, que em 2016 foi indicado ao International Emmy Awards de melhor comédia. Os contos aqui selecionados fazem parte do seu mais novo livro, “Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos”, publicado recentemente pela Editora Oito e Meio.