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102ª Leva - 05/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Rodrigo Melo

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

CÉU SEM FIM

 

Eu trabalhava como soldador em uma fábrica de carrocerias de caminhão. Não é um trabalho fácil, tanto que muita gente até desiste depois de um tempo, mas era o que eu gostava de fazer. Dizem que todo homem nasce para alguma coisa. Talvez eu tivesse nascido praquilo. Trabalhei lá por quase quinze anos. Chegava bem cedo e saía às seis da tarde, entrava num ônibus apinhado de gente e seguia pra casa apenas para tomar banho, comer e dormir. No dia seguinte, antes que a fábrica abrisse, estava lá outra vez. Os patrões gostavam de mim. Nunca ninguém falou, eu apenas sentia que eles gostavam. Eu era quem menos faltava ou reclamava. Eu não negava serviço, doutor. Naquele dia, porém, uma dor de dente me fez sair mais cedo, algo que jamais havia acontecido. Foram dois os sofrimentos: pelo dente e por não soldar. Sentei no ônibus, desgarrado das coisas, preso àquela dor. Quem já teve dente ruim sabe do que falo. Encostei o ombro na janela, o rosto sobre ele, fechei os olhos. Alguém então se sentou ao meu lado. Era uma loura de uns trinta e poucos anos e a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi que ela tinha um rosto parecido com o de mamãe. Ela se sentou e ficou a me olhar com estranheza e curiosidade, em seguida perguntou se eu precisava de ajuda. Minha cara não devia estar boa, ela que na verdade nunca foi grande coisa. Respondi que não, que só estava cansado, que ser gerente numa fábrica de carrocerias de caminhão não era brincadeira, naquele instante eu ia resolver umas questões, havia a labuta com os subordinados, as preocupações matavam. Preferi não dizer que era soldador ou que não cuidava dos dentes. Talvez ela se decepcionasse. Talvez ela deixasse de ser simpática e de conversar. A sua voz era doce como a voz de um anjo. Seus olhos eram cheios de vida, o seu cheiro era bom. Conhecê-la fez com que a dor no meu dente diminuísse. Disse para eu ter paciência no trabalho. Com tranquilidade e fé tudo voltará ao normal. E esta é uma coisa que nunca tive, doutor: fé. Lembro que havia uma moça no orfanato que gostava de me contar histórias antes de dormir. Era uma boa pessoa e foi a única que me deu atenção depois que mamãe me deixou. Um dia ela se casou ou conseguiu outro emprego e nunca mais apareceu. Mas foi ela quem disse: tenha fé, sua mãe ou alguém vem te buscar… Mas eu não sabia como era ter fé e talvez por isso mamãe não tenha voltado e ninguém me adotou e tarde da noite eu ficava acordado olhando para o teto daquele lugar, e a noite marca e destrói, a noite é um libertino que fode com as nossas almas, doutor, e aquele era um teto tão alto quanto um céu sem estrelas, um céu infinito feito apenas de breu e de solidão, e eu olhava para ele tentando entender o porquê dela ter me deixado lá, lembrando do seu rosto, da lágrima que descia, de quando acenou e saiu apressada, sem olhar para trás. Por onde andará? Quem sabe ainda viva, em um outro lugar… Sinto falta do emprego na fábrica, do barulho, de chegar antes que todo mundo e de me pedirem para fazer algum serviço… De qualquer maneira, eu estava lá, no ônibus, e por um instante pensei em conversar um pouco mais com aquela mulher, pensei em perguntar seu nome, se achava que choveria mais tarde ou qualquer bobagem assim, mas não perguntei. Não demorou muito, ela se levantou, puxou a cordinha, disse boa sorte e desceu. Tudo tão rápido que só resolvi saltar quando o ônibus já ia longe. E então comecei a correr. Corri muito, corri desesperadamente, corri como se tudo dependesse daquilo, de vê-la outra vez. E eu a vi: atravessando a rua, com a calça jeans desbotada, a blusa vermelha com listras brancas, o cabelo loiro, a caminhar em direção a um prédio de tijolinhos. Era um prédio velho e pequeno, mas enxerguei charme e beleza nele. Quase um minuto se passou, a luz do apartamento do segundo andar foi acesa e ela entrou e se sentou sobre o pequeno sofá que havia na sala, tirando os sapatos e estirando as pernas. Pensei que era muito possível que ela gostasse de me ver novamente. Mas o que diria? Ela se levantou, foi até o quarto, acendeu a luz e tirou a roupa, ficando apenas de calcinha e sutiã. Passou a se olhar no espelho do guarda roupa, num instante de perfil e, no outro, segurando os seios e os levantando. Enfiou uma das mãos por dentro da calcinha. Eu não sabia o que viria a seguir. A intimidade é a nossa sentença. Segundos depois, entretanto, ela parou com aquilo e entrou no banheiro. Ficou por lá uns bons vinte minutos. Quando reapareceu, estava envolvida numa toalha. Foi nessa hora que resolvi ir até lá. Entrei no prédio, não havia ninguém na portaria, subi os degraus e bati na porta. Eu estava ansioso, sentia que era o que tinha que fazer. Mas o que aconteceu quando a porta se abriu, infelizmente, não foi nada do que imaginei. O rosto dela já não parecia doce e amável como quando conversamos no ônibus, sua tez empalideceu, seus olhos se arregalaram. E ela então me perguntou, andando para trás, com a voz assim meio tremida, o que você está fazendo aqui?! Eu mostrei a nota de cinquenta reais em minha mão. Eu disse, é sua, vi quando caiu. Falei lentamente, sorrindo, para ela se acalmar. Porque as pessoas gostam muito de deduzir e acabam pensando em coisas que não têm nada a ver. Quase sempre se exagera. E acho que foi mesmo o que aconteceu.  Ela de repente estava com os lábios crispados, com os olhos bem abertões, parecendo olho de cavalo, e tentou fechar a porta com força.  Eu coloquei o pé na frente, dizendo que só queria devolver o dinheiro, que já ia embora. Mas ela correu para dentro do apartamento e começou a gritar. Foram gritos horríveis aqueles, gritos longos, altos, que pareciam não acabar mais. Pra quê aquilo tudo? No fundo, digo ao senhor, as pessoas não são de confiança. Culpam os outros pelas próprias escolhas e, se deixarmos, podem mesmo nos arruinar. Eu pensava nisso quando dei o primeiro murro. E, depois dele, dei outro, depois outro e mais outro. A verdade, doutor, é que eu não consegui mais parar, mesmo quando ela deixou de gritar e virou uma massa de carne, sangue e cabelos loiros, mesmo quando senti que não respirava mais. Quando vocês chegaram, mais de uma hora depois, o dente tinha começado a doer outra vez e eu estava deitado ao seu lado no chão, com o braço cruzado sobre o seu peito, abraçando-a. Do mesmo jeito, doutor, que eu, quando olhava para o teto lá do orfanato, imaginava deitar com mamãe.

Rodrigo Melo é autor de “o sangue que corre nas veias” e “jogando dardos sem mirar o alvo”, livros de histórias curtas. Lançará, no final do ano, o seu primeiro romance.

 

 

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101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Tadeu Sarmento

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Flores no microondas       

 

O que mais gosto é que você parece ter guardado um segredo durante todo o dia só para me contar. No fundo sei não ser verdade. O fato é que abro tuas pernas como facas uma ostra. Isso é real. Mas o real nem sempre é melhor. São os mal-entendidos que colorem o mundo. O melhor é depois conversarmos na janela do nono andar, fumando, olhando os (daqui) pequenos carros na rua. Da janela sinto o mundo recolhendo acontecimentos que nos atingiriam em eco caso estivéssemos lá embaixo. Mas, não estamos. Saio do teu corpo como um prazer satisfeito ou uma doença. Dentro você é macia pista de gelo quente. Fora, todo este teatro à disposição. A luz é a continuação de outro mundo, refletido em teus cabelos. O segredo que você tanto guardou durante o dia é sempre a mesma história, com pequenas alterações. Surpreendo teus lapsos como às vezes a vista surpreende a mão em gesto automático. Mas, sempre finjo não notar. Gosto de ouvi-la, desse hálito golpeado pela hortelã do teu cigarro mentolado. Por exemplo: a cada vez você troca o nome dos mortos que inventa. Por mim tudo bem. Nomes de mortos não são mais úteis. Só acho engraçado esse esforço de encenação. É como se eu me importasse. Finjo me importar. Bato à tua porta porque estou cansado. Entro carregando nas costas meu próprio corpo. A mim bastaria que você apagasse os incensos da sala. Eles fedem a pétalas de plástico queimado. Você se deixa entender; eu me deixo escutar. Com você o sexo sempre vem acompanhado pela máscara da compaixão. Teus pais são indianos e te prometeram em casamento a um velho de setenta anos. Por isso você fugiu de casa e está aqui, vivendo essa vida. Mas, quantos nomes diferentes teus pais têm? Eles já morreram mesmo, e de tantas formas assim? Teus lábios são lâminas líquidas mordendo pequenas peras de luz. Percebi que quando você mente esfrega o pulso com o nó dos dedos. Mas, quem não mente? A mentira é a principal função da linguagem. Só que poucos esfregam o pulso como você. Quando você se espreguiça lembra um anjo abrindo as asas. Outro dia você disse que eu era apático. É que gosto de ficar quieto, silencioso, observando você. Tenho quatrocentos adjetivos diferentes para falar das tuas costas. De qualquer modo, tomei como um elogio. Nossas vidas são tão minúsculas. Somos tão indefesos, tão pequenos, que tenho vontade de rir. Gosto das suas estórias. São segredos escritos a lápis. Por isso você os apaga e os reescreve toda vez que eu chego. E eu sempre chego, carregando meu cadáver nas costas. Retirando o peso da verdade, os corpos ficam mais gratificados, menos constrangidos. Ficam menores, mais do que já são. Vivemos a vida dentro de um sonho. Às vezes, quando estamos na janela, sinto um insuportável desejo de saltar.

***

Aeroportos de papel de carta

Conheço cidades distantes através das malas esquecidas no aeroporto. Não são muitas, nem é todo dia que as encontro. O ritual é tão estranho quanto gratuito. Geralmente sento em um dos bares próximos à pista de decolagem, para beber embalado pela tristeza do som das turbinas, admirando, sem entusiasmo, a indiscreta velocidade dos pássaros pesados, as asas de cor cinza, metálicas. Depois, atravesso a rua como se fosse viajar. Outra tarde, dividi a mesa de um desses bares com Diego M., ator, escritor brilhante, biógrafo de índios assassinos, decidido a embarcar atrás de uma harpista francesa que, segundo ele, cheirava bem na pele de madrepérola, encimada por olhos mansos (cor de rins). Fique longe do amor e dos aeroportos, aconselhei, dessa combinação explosiva que seduz a alma dos ladrões, pintores, imbecis, palhaços descalços. O amor não deve nunca embarcar. Nunca. A curva do sol refletia nos copos um sorriso de luz quando eu disse: no dia em que os turcos tomaram Constantinopla derreteram os sinos da cidade para fabricar munição. De modo que o melhor é esperar em casa, sentado, a bala turca vir ferir de vez seu coração de puta, que decidir ouvir de perto a sacra música das catedrais. As malas, Diego, procure as malas com rodinhas nos saguões. Seus donos são descuidados. Abra-as, sinta o cheiro de vitrine das roupas amassadas, o odor gordo da fumaça dos carros impregnando as gravatas, leia os tíquetes de estacionamento que falam sobre esquinas desconhecidas, descubra assim as ruas dessa cidade de origem, proteja-se. Um erro convertido em amor. Não negocie sua alma por isso. Aprecie os aeroportos de longe, as delgadas aeromoças em uniformes azuis, esses patins rosa que giram sozinhos na esteira rolante, ou o denso cheiro desse plástico que brilha como ouro falso. Da espessa vegetação dos números coloridos calculando fusos horários aprenda a gostar desse sentimento de que nada dura até o fim da curvatura dos gráficos. Pois o amor acaba porque tudo acaba um dia. O amor sai na urina, entre os cristais da cerveja que tomamos agora, um brinde. De resto, mulheres são cruéis quando é você o estrangeiro. São muros cercando o incêndio brilhante. Se Henry Miller tivesse vivido na era dos aviões não teria ido a Paris atrás de suas bonecas vazias. De navio, teve tempo suficiente para se entusiasmar e arrepender-se, longe da enjoada sensação de primavera de tudo o que se movimenta rápido. Anaïs Nin, afinal, era só uma ninfomaníaca com curso de datilografia e, segundo Artaud, tinha um péssimo gosto para calcinhas. O amor não servirá de abrigo antiaéreo caso a bomba imploda da caserna. Ele acabará um dia, na sala de embarque ou desembarque, pois esse tipo de amor se apaixona por si mesmo, bebe de suas unhas o próprio futuro que não terá. É a estrela dos cansados, farol dos cegos, cartaz de filmes castigado pela chuva. Fique longe desse tipo de amor. Se possível, de qualquer tipo de amor. Fique longe de mulheres brancas, francesas, com sotaques estranhos, traços orientais de estátua. São anjos, mas usam coturno. E usarão os coturnos, quando você menos esperar. De modo que não é possível amar uma mulher para depois amar a cidade em que ela vive. Cidades distantes costumam enforcar os invasores. Melhor manter-se em pé, atrás das janelas. Sobretudo manter distância dos lugares onde poderia ter sido feliz. Não seja feliz. Não fará diferença alguma. Em breve estaremos todos mortos.

***

Subtração

Eu sempre vou te querer. Sempre. Quando ninguém mais te quiser, eu vou. Mesmo depois de você ficar velha, curvada, lenta, bem gasta. Quando ninguém mais te desejar, eu irei: desejá-la, querê-la tanto. Mesmo se você engordar, ou emagrecer demais, ou cortar as unhas até a pele sangrar. E quando a ninguém mais for suportável tua tristeza, teu humor negro, teu pessimismo, a mim será, pois, quando ninguém mais suportar ouvi-la falar de Thomas Bernhard, eu vou querer te ouvir falar de Thomas Bernhard. E mesmo se todos se cansarem dos teus longos silêncios eu não me cansarei, até por ser durante teus longos silêncios que eu escrevo. Porque quando você fala eu prefiro o som da tua voz ao dos meus dedos no teclado. Porque escrever é sempre dizer que você não está, ou está, mas calada. Que o teu silêncio é a minha imaginação. Então quando todos cansarem de ti, dos teus dentes manchados, tortos, afiados, do teu hálito de nicotina, das tuas mãos gesticulando nervosas, eu não me cansarei nunca. Mesmo quando teus seios caírem, teu rosto enrugar, tua memória falhar, teus pulmões virarem esponja. Quando você for traída, esquecida, humilhada, trocada por uma mulher mais jovem ou mais fútil, eu vou te querer ainda mais, e para nunca te trair, te esquecer, te humilhar, te trocar. Quando você estiver sem dinheiro, sem emprego, sem cigarros, esperança. Quando pouco ou nada sobrar de você, eu ainda vou querer esse pouco, esse nada, esse tudo que se puder raspar do prato raso dos teus sonhos. Sim, mesmo quando teu gato envelhecer, e passar a dormir dezoito horas por dia, e você se sentir sozinha sem ele, eu vou estar sempre acordado para você. Até mesmo se você tiver adquirido manias, tiques, doenças, dívidas, varizes, joanetes, verrugas, manchas na coxa. Pois, quando tuas tatuagens forem se apagando aos poucos e deformando-se conforme tua pele for enrugando, ainda assim gostarei delas, quererei vê-las. Digo: depois que o sexo (gás do pânico) já não for mais tão importante, e tudo for esse imenso vazio negro do desejo saciado. Sim. E depois de ninguém mais suportar teu bruxismo, tuas bebedeiras, teu choro, tuas olheiras, tuas cólicas, eu te pegarei pelos braços e te darei banho, e limparei teu vômito, e te deitarei na cama, e velarei teu sono por toda a noite. Enquanto eu estiver aqui eu estarei sempre aqui. Porque aprendi coisas novas para te contar. Que agora sei onde as modelos de Klimt enfiavam os dedos enquanto ele as pintava. Descobri hoje. Mas isso eu não vou te contar agora. Eu sempre vou te querer. Sempre. Mesmo que o amor não signifique mais nada para mim. Eu sempre vou te querer pelo simples fato de ser impossível para mim que eu não te queira. É impossível. Pois quando estou na rua e alguém me pergunta que horas são eu sempre respondo que é a hora certa. E sempre é a hora certa. Sempre será a hora certa. Sempre. Sempre. Sempre.

 

Tadeu Sarmento nasceu no Recife, safra de 1977. É autor dos livros “Breves Fraturas Portáteis” (Fina-Flor Editora, 2005) e “Paisagens com Ideias Fixas” (Bartlebee, 2012). Em 2014 foi um dos vencedores do II Prêmio Pernambuco de Literatura, com o romance “Associação Robert Walser para sósias anônimos” (Cepe Editora, 2015). Defende trincheiras indefensáveis no Visões de Ezequiel e despejou entulhos literários no Lontra Hiperbórea. As três narrativas acima integram o inédito “Sete Palmos Debaixo do Céu”.

 

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101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Diego Moraes

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

LIRISMO É O ÚNICO DEUS EM QUEM ACREDITO

 

Eu compro a trigésima lata de cerveja e saio caminhando até o delírio parar de latejar. Gosto de sentir a brisa de Manaus lambendo meu rosto. Não tenho dinheiro para luxo. Não tenho grana pra viajar. Não tenho grana pra passar uma temporada no Texas. Não posso pagar um psiquiatra. Quem não tem grana para fazer análise, vai para o bar ou liga a televisão. Gosto de ver televisão. Gosto de um canal de vendas na tevê a cabo em que aparece o George Foreman vendendo churrasqueiras e um troço de fazer sanduíche. Se eu não tivesse entrado nessa furada de querer ser escritor, certamente seria um baita pugilista. Um boxeador fracassado cuspindo sangue num balde de alumínio encostado nas cordas de um ringue da terceira divisão dos pesos pesados. Minha mãe virou evangélica. Tem pregado versículos da Bíblia na geladeira e colou um adesivo na traseira do carro: “se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Todo mundo é contra nós e a minha literatura é contra o mundo. Fico feliz por ela. Dia desses deu pra a ouvir orando de voz embargada. As paredes da minha casa são finas. “Que meu filho arrume uma mulher e seja feliz”. O lance é que não quero arrumar uma mulher. Não quero casar. Não quero filhos e conta conjunta no Itaú. Acostumei-me com a solidão. Não tenho pensando em comer ninguém. Meu pau balança mole faz alguns meses. Nunca pensei em arrumar um emprego na Volkswagen e casar com uma loirinha formada em propaganda e marketing. Tenho só pensado em poesia o dia inteiro. Tenho sonhado com literatura. Minha cabeça anda povoada de frases e parágrafos gritantes que poderiam fazer Dostoievski me rasgar de elogios. Puxo vinte reais do bolso e dou na mão do traficante. Ele diz que pareço com o Frejat só que mais gordo. A música dele (Frejat), que fala que um cara limparia os trilhos do metrô pelo amor de uma mulher, tenta atravessar a minha memória, mas não permito. Aí Cazuza tenta invadir cantando Vida Louca, mas apago. Deixo que a imagem da fotografia do Cazuza abraçado com Caio Fernando Abreu dure três segundos e pulo para o remake de Vicio Frenético filmado pelo Herzog na cena que o Nicolas Cage tá chapado de heroína e vê camaleões cantando no meio de um acidente de trânsito. Eu curto pra caralho essa cena. É uma das minhas prediletas. Também curto aquele tchau do Anthony Hopkins no desfecho de O Silêncio dos Inocentes. Hannibal Lecter vira as costas num terno azul e crianças negras seguram balões coloridos no meio da rua. Aí sobem os créditos. Sinto vontade de cheirar pó. Entro num bar que não faz bem para minha alma. De derrotado já basta eu. Saco o olhar desdenhoso de um otário que não tem a terça parte da minha vivência. Ele se escora no balcão. “você anda escrevendo muito. Quando sai o próximo livro?” falo que não quero papo. Ele abre um sorriso cínico. Digo pra ele cair fora. Que estou querendo ficar na minha escutando Belchior na máquina jukebox. Ele fala algo sobre Bukowski. Diz que o velho era só um bêbado. Antes de ele falar outra merda, meu cotovelo acerta o seu nariz. Respingos de sangue mancham a camiseta branca dele dos Beatles. Todo jornalista tem uma camiseta branca dos Beatles. Chuto a cara dele. Conhecidos gritam pra eu parar, mas já venho aturando esse cara faz tempo. Faz tempo que ele atravessa meu caminho com um sorriso idiota fazendo perguntas embaraçadoras como se eu não fosse escritor ou imitasse o velho Buk. Entro num táxi e acordo na porta da minha casa. Acendo um Derby na varanda e começo a rir. Minha gargalhada acorda os cães da vizinhança. Deito na minha rede e ligo a televisão. Edir Macedo fala que temos que dar para receber. O lirismo é o único Deus em quem acredito.

Diego Moraes (Manaus, 1982) é um escritor brasileiro. Publicou os livros “A fotografia do meu antigo amor dançando tango” (2012), “A solidão é um deus bêbado dando ré num trator” (2013), ambos pela editora Barteblee, e “Um bar fecha dentro da gente” (2015), livro de poesias publicado pela Douda Correria, de Lisboa.

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101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Fernando Marques

 

Desenho: Victor H. Azevedo

 

Amor e seus disfarces

 

1. Longevos

 

Da mesa de trás vinha a informação:

– A cana tem 18 por cento de açúcar. Já isso aqui tem 99 – o homem referia-se provavelmente ao branco açúcar sobre a pequena mesa da confeitaria.

Ao chegar, eu os tinha notado, ele bem mais velho que a mocinha. Naquele momento, o tema da conversa era a longevidade.

Um homem maduro ao lado de uma quase adolescente – ela devia ter 20 e poucos – nos dá a impressão, decerto convencional, como que automática, do Lobo prestes a devorar Chapeuzinho, coitada.

Ele sabia coisas, verdades várias, e as depositava na mesinha, perdulário. A garota o seguia e, de vez em quando, falava. Uma dessas conversas que ouvimos sem querer e das quais só escutamos bem uma das vozes; a outra, casual e tímida.

O empenho virtuoso em assegurar afeto. Assim, até eu – a ponta perfurocortante da inveja. Vaticinava:

– Ainda estarei firme daqui a 150 anos! Espero que você esteja por perto – a voz sorria, insinuando a promessa.

Levantaram-se. Ele, a bolsa a tiracolo à maneira de outras décadas; o cabelo muito preto parecia pintado. Ela, pequenina, o vestido cândido a denotar simplicidade. Desapareceram de mãos dadas.

 

2. Papéis trocados

 

Adelaide devia ter 17 anos, estávamos na década de 70, 1979, talvez. Não sei ao certo. Lembro seu rosto suave.

O corpo acima do peso a incomodava, sim, mas o que de fato a fazia infeliz eram os pais fora do esquadro. O esquadro careta, sejamos claros.

A tendência para a obesidade vinha deles, ambos gordos; não desarmoniosos, porém. Aquele era seu estado natural, baixos e volumosos. Nada demais, pois.

O que chamava a atenção residia no comportamento. O pai tinha um ar lânguido, adocicado; a mãe, ostensivamente masculina, os gestos em ângulo reto. As vozes que usavam – a dele, aguda e ciciante, a da mulher, cava e rouca – também obedeciam ao lugar-comum dos papéis trocados.

A menina sofria com a evidente estranheza diante de seus pais, que muitos sentiam e que seus amigos adolescentes não disfarçavam. Não se fizesse uma piada, ficaria magoada, talvez chorasse mais tarde. Não se ousasse um comentário, neutro que fosse, já se conseguiria perturbá-la. Amava os pais; doíam as exclamações, o sarcasmo.

Eram diplomatas, cultos, de hábitos sofisticados. Praticavam equitação, coisa de grã-finos. Imaturo, uma vez os vi e achei engraçadas as roupas de montaria, as calças largas que se afunilavam, as botas de cano longo, o chicote petulante numa das mãos… As fatiotas tornavam-se mais curiosas ao ser usadas por aquelas pessoas, que pareciam não ter braços para a tarefa que as roupas sugeriam.

Manifestei o espanto divertido. Foi o quanto bastou para atingir a minha amiga, de quem gostava. Recordo a expressão machucada no rosto de Adelaide quando cometi a brincadeira ambígua, a palavra pouco generosa.

A menina pensava que, ao menos comigo, estivesse a salvo de tais grosserias. Creio que me achasse alheio, superior a elas. Não reagiu ao perceber que o jovem de conversas etéreas era capaz de perfídias. Mas a amizade acabara.

 

3. O beijo empírico

 

Sabemos que as brigas entre namorados podem ter motivos ocultos, diferentes daqueles que os próprios envolvidos alegam; razões alheias às disputas explícitas.

Já os arranca-rabos entre ele e ela, os dois iniciados em questões literárias e filosóficas, não faziam dessas questões meras desculpas, substitutos das verdadeiras desavenças. Não. O casal era capaz de arengar em torno de temas puramente abstratos:

– Pensei que você realmente acreditasse na possibilidade de totalização do real – disse ela com um travo de desencanto. – E não partilhasse o ceticismo que abre caminho a todas as desistências… Vejo que me enganei. Como fui tola – reclamou, enfática.

Era devota dos teóricos marxistas, entre eles Lukács, o da totalização.

– Pode-se até acreditar nas possibilidades racionais de apreender o real – respondeu, persuasivo. – Mas quem sabe o empirocriticismo estivesse correto ao combater as teses materialistas…

– Lenin é que estava certo; aliás, ele venceu a polêmica – rebateu ela, que não sabia direito o que era empirocriticismo, mas tinha ouvido falar.

– As bases de nosso conhecimento são sensíveis, sensoriais – afirmou, sutilmente explicando o que fosse aquele monstrengo conceitual, com o cuidado de não melindrar a namorada. – O que podemos afiançar sobre as coisas em si mesmas, amor? Nada! Somos reféns de nossos cinco sentidos. Dos sete buracos de nossa cabeça, entende?

Ela abriu o Dicionário de filosofia, volume de 1200 páginas que lhe pesava na bolsa, ao qual recorria nos momentos agônicos. Localizou ali o verbete “Materialismo dialético” e leu desafiadora: “Há coisas que existem independentemente de nossa consciência, independentemente de nossas sensações”, recitou nervosa, mas ainda afável.

– Como refutar a evidência? – ela fez a pergunta retórica. Ao ver que o namorado silenciava, insistiu: “Não existe e não pode existir diferença alguma de princípio entre o fenômeno e a coisa em si. A única diferença efetiva é a que existe entre o que é conhecido e o que ainda não o é”.

– Lembro perfeitamente dessa passagem – ele informou com uma superioridade quase imperceptível. Lenin dizia que “o conhecimento nasce da ignorância” e…

Não terminou a frase. A namorada calou sua boca, fechando-a com um beijo demorado e ávido. Adorava aquele homem porque sentia que ele estava à sua altura.

– Não podemos esquecer, porém, que entre Lenin e Lukács houve problemas sérios. Quando o filósofo lançou História e consciência de classe em 1923… – pontificou, valendo-se de certo tom didático, paternal, que a irritava bem.

Ela esperou por um longuíssimo instante, prestes a perder a calma. Ele:

– Ora, imaginar que os acontecimentos históricos estejam prefigurados na matéria, isto é, nas relações de produção, como pretende o Lenin…

A luta recomeçou. Logo berravam, batiam com os pés no chão, pueris e autoritários. Os dois se amavam.

 

Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva.

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100ª Leva - 03/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 Natália Borges Polesso

gabrielrquintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

Clichê

 

Comprei uma caixa de morangos no supermercado. Comprei uma caixa de amoras também. E duas cervejas. Cheguei em casa, guardei as frutas na geladeira e bebi as duas cervejas. Às vezes penso se não é por vergonha que também compro as frutas.

No outro dia, depois de jejum forçado por gastrite conjugal e falta de apetite, por obrigação, peguei os morangos. Precisava comer algo saudável, algo que me alegrasse o estômago, o paladar e a alma. Puxei o invólucro de plástico da bandejinha também de plástico. Quanto plástico, pensei. Nem sei mais o gosto do morango ainda sujo de terra, de mijo de cachorro, do que fosse, só conheço o gosto das coisas plásticas. Quando terminei de abrir a bandeja, olhei os morangos ali tão vermelhos, pareciam ter asfixiado, estavam mofados. Era uma merda de um clichê intelectualoide sobre minha mesa. Um fracasso de prateleira e um sucesso de estante. Sobre a mesa, dois cotovelos encardidos, dois braços bronzeados, duas mãos ostentando dedos de unhas vermelhas apoiando uma cabeça pesada, cheia de mofo também, como os morangos. Como os morangos, soco goela abaixo, como prêmio de consolação. Penso nas coisas incompletas ou mal cuidadas. Um após o outro, os morangos. Uma após as outras, as coisas. Minhas unhas tão suculentas, bem mais vermelhas e eufóricas que aqueles morangos. Como as unhas também? Como a raiva? A audácia? A inércia? A própria pele? O próprio desagrado?

É tempo de pensar o irreal. Comprei uma caixa para caber tudo o que fosse falso. Comecei pelos desencontros e todos os diamantes que guardava no cofre. Arrastei tudo com a mão, joguei tudo para dentro. Depois foi a vez da cabeça, em repetidos movimentos, para cima e para baixo. Em seguidos consentimentos, sim, sim, sim. Tudo caía, se desprendia sem esforço. Pensei se em algum momento aquilo tudo teria feito parte de mim. Transbordava a caixa. Eu ficando vazia. Grandes lacunas entre todas as afirmações, sim   sim   sim. Pequenas ilhas de certeza boiando num vácuo oceânico de hesitações. Quando terminei, encarei os morangos. Eram angústias reais.

Lembrei de um saco onde eu guardava medalhas, cartas, mechas de cabelo, desenhos e instruções. Minha mãe jogou fora, sem o meu consentimento, há muito tempo. Pensou que aquelas coisas não tinham valor. Hoje eu não sei dizer se tinham, elas não fazem diferença. Talvez elas pudessem preencher as lacunas em mim. Mas eu não sei, nem vou saber. É melhor ocupá-las com outra coisa, como morangos ou unhas vermelhas. Ou ainda com grandes clichês. Uma estante cheia de papel saturado de palavras, grandes nomes, grandes clássicos, pequenas dores. Pequenas epifanias.

Lembrei dela, não sei se era um arremedo de ideia ou um arremedo dela? Estava tão magra e espinhenta. É inevitável, tu és a minha pequena epifania, aquilo que me faz descobrir mais em mim – não havia muito a ser descoberto – mais do que eu gosto e mais do que eu desaprovo em mim mesma. Tu és minha pele, meu conforto, meu conto favorito. As memórias soterradas pelo vazio de agora tinham um gosto distante. Pareciam novidades, descobertas, as velhas coisas que a paixão ou o engano fazem, distorcem, e faziam sentir os arrepios do primeiro beijo roubado – talvez não seja um arrepio, mas sim um mau pressentimento –, e a dor do último tapa – que não foi o último, posto que ainda houve tanta agressão/violência.

Lembrei de uma chinelada que levei da minha avó. Com cinco anos de idade eu resolvi ir embora de casa. Arrumei uma mochila com roupas velhas, viveria na rua, logo, na minha cabeça infantil, só poderia usar roupas rotas. Quando ia atravessando a quinta rua, levei um puxão de orelha e uma chinelada. Minha avó me agredia com todo aquele amor ressentido. Tapas e choro contidos e nunca mais faça isso. Gradearam a casa, dali em diante eu só brincava no pátio com portão trancado e sob o olhar magoado da minha avó. Ontem foi aniversário dela, liguei.

Lembrei dos meus irmãos que já não eram os mesmos. Uma vez brincávamos num montinho de areia, numa construção ao lado de casa. Enterrados até os joelhos na areia, ríamos sem nos dar conta do quão rápido cresceríamos e perderíamos a vontade de brincar assim. E teríamos nojo de areia em construções. Somos tão diferentes apesar da mesma cara borges-polesso.

Eu queria alargar as lacunas ainda mais, balancei a cabeça novamente. Erosão de lembranças, as distâncias mais simbólicas, as memórias menos tenazes, quase nas imediações do mito. Lembrei. Lembrei. Lembrei de algo que não era mais meu. Lembrei do gosto da tua boca depois de comer os morangos mofados.

Natalia Borges Polesso é escritora, professora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. É autora de “Coração a corda” (2015) e “Recortes para álbum de fotografia sem gente”, obra vencedora do Prêmio Açorianos (2013) na categoria contos, e também da tirinha tosca “A Escritora Incompreendida”, publicada via facebook. 

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100ª Leva - 03/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Sérgio Tavares

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

A fuga

 

Para o amigo Bernardo Kucinski

 

O menino foi antes. Fazia uma semana. Agora era a vez dos pais prepararem-se para a fuga. A mãe foi a primeira a aprontar a mala. Sentada no sofá da sala atravessada pela penumbra das cortinas cerradas, ouve os passos do marido num vaivém acelerado do escritório à cozinha. Arrasta objetos, joga-os no chão, rasga papéis. Dá vida a um descontrole que não a alcança. Ela apenas ouve.

Então o cheiro adocicado de fumaça recende pela casa. Logo o ambiente fechado é preenchido por uma massa nebulosa. A mãe se levanta e dirige-se até a soleira da cozinha. Vê o marido intranquilo, queimando, na boca do fogão, documentos, fotografias, relatórios mimeografados e páginas do manual de guerrilha e de jornais clandestinos. Em volta dele, a porção de vapor é mais densa. Como se ao incinerar o passado, incinerasse também a si.

A imagem lhe resgata a memória de uma canção antiga. Passa um tempo olhando-o, enquanto a letra flui remansosamente em sua cabeça. O marido não a percebe em momento algum. Focado em não deixar vestígios e tampouco ser flagrado na janela, embora coberta há dias. A mãe se cansa e retorna ao sofá. O corpo já não é mais o mesmo com o chumbo sobre os ombros. Toca na mala aos seus pés, abastecida com mudas de roupa, cartas do irmão, passaporte falso, livros de poesia e um álbum de retratos do filho. Sente vontade de pegá-lo, mas sabe que mexer no interior pode gerar um contratempo, e precisam partir o mais breve. Fugir e reencontrar o menino.

A cozinha ainda despeja fumaça e cacofonia. Não será agora, aparentemente. Põe-se de pé outra vez e caminha até o quarto do filho. Afasta a porta. Está do jeito que ele deixou, uma desordem encantadora. A cama desfeita, gavetas expostas. Uma passeata de brinquedos pelo tapete. O menino não pôde levar nenhum deles, imagina que deve sentir falta. Agacha-se e pega um soldadinho de plástico. Enfia no bolso de trás da calça jeans. Passa somente a observar. A ausência. Um quarto infantil sem uma criança é a reificação da saudade.

Quando volta à sala, o marido está de cócoras diante de uma mala aberta. O olhar inquieto denuncia o desgoverno sobre os gestos, quase um rompante. Vai atulhando roupas, sapatos, cintos, livros de economia e de história do Brasil, passaporte falso, um revólver automático, cartuchos e uma fita magnética de rolo. Transpira excessivamente, o linho da camisa se emplastra no tórax. Ela o observa, não trocam palavras. Ele fecha a mala. Ato contínuo, dispara até a estante e pega uma folha de papel e caneta. Debruça-se sobre a mesinha de centro e começa a manuscrever uma relação com nomes de empresários, diretores de agências de publicidade e de jornais que apoiam o regime. Patrocinadores de prisões arbitrárias, de torturas, de desaparecimentos. Produzir, com o próprio punho, a lista é seu último ato de resistência.

Termina e deixa a folha explícita sobre o tampo. Pega a mala, a esposa faz o mesmo. Caminham agora juntos até a saída dos fundos. Com cautela extrema, destranca a porta e abre uma ínfima brecha. O ar fresco os atinge. A mão na maçaneta treme. Sabe que não podem se precipitar ou irão cair. O ponto não é mais seguro. Eles estão lá fora, à espreita, os agentes disfarçados. O sujeito de ray-ban tomando café no balcão da padaria. Aquele outro de perfil, a cabeça encoberta pelo capacete do orelhão. Encostado na lateral da kombi, de mangas de camisa. Atrás da face externa do portão. Ao redor dos muros baixos da casa. Quantos eles são? Não deve perder o foco, assim versa o manual. Tem de proteger a esposa, a companheira.

Mete os dedos pela bainha da camisa e segura o cabo da arma presa ao cinto. Encosta o ombro na madeira da porta, olha para a esposa, assente e dá um tranco seco. A abertura é sucedida por uma escapada pela garagem, até a traseira do cupê Uirapuru azul-ferrete. Abre o porta-bagagem e joga as malas. Mantendo o ritmo frenético, separam-se pelas laterais e embarcam nos assentos dianteiros.

Os vidros fechados logo condenam a cabine ao gás tóxico de suas respirações. O medo, a aflição, a possibilidade de um ataque a tiros. Precisam sair dali o quanto antes, precisam da chave. O pai vasculha os bolsos com agressividade, até que encontra o pequeno estojo. Ali está, a chave para que possam finalmente fugir. Ele retira a tampa e exibe as cápsulas de cianureto. Ele pega uma, a esposa fica com a outra. Colocam delicadamente entre o vão dos molares. Entreolham-se, por alguns segundos. Em seguida abraçam-se e as mastigam.

Os corpos entram em convulsão, dirigidos pelo veneno. A boca aflora em espuma, os olhos reviram. Passam a enxergar o mundo interior, onde a mãe vê o menino e o marido. Estão na praça, jogando futebol sobre a grama. É um domingo. Eles não deviam se expor assim, mas uma criança precisa de diversão, mesmo em tempos sombrosos. Então a bola corre para além do gradil de proteção. O menino dispara atrás. A praça está à margem de uma autopista, a bola corre para lá. O menino não se detém. Os carros zunem.

A mãe berra e corre. O pai berra e corre. A bola corre. O menino não se detém. O caminhão não se detém. Porém, desta vez, o motorista consegue desviar a tempo e o menino salva a bola. O pai estanca e serena. A mãe o ultrapassa e choca-se contra o corpo frágil da criança. Segura-a, beija-a, chora. Tem contra si, para sempre, o filho que é seu. O filho, para sempre, envolto em si. A morte não é uma luta, é um abraço.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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100ª Leva - 03/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Vinícius Rodrigues

 

gabriel-rastelli
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

O sabor dos anjos

Por trás da vitrine, o olhar e o doce. O sonho brilhava encoberto em açúcar, minúsculos cristais faiscantes sob a luz da vitrine. Abel, ainda pequeno, com os olhos na altura do doce, uns olhos arregalados para o recheio de goiabada que escorria, olhos de quem adivinha um sabor nunca experimentado. Do outro lado, além do sonho, o filho do padeiro, um pouco mais alto, um pouco mais velho. Eles se viram aquela vez e, por muitos anos, não se conheceram.

*

— Oi! Me vê aquele quindim ali?
— O maior?

A resposta foi um sorriso entre as bochechas gordinhas.

— Você eu não conheço.
— Meu pai é o dono.
— Ah! É verdade. Tinha um garoto aqui quando eu era criança.
— Eu.
— E…

O outro sorriu.

— Eu morava com minha mãe.

Abel sorriu um sorriso de compreensão. Agradeceu o doce e foi saindo.

— Meu nome é Amaro.

Abel se virou da porta interrogativo e apontou para o alto. Amaro fez um gesto conformado. Padaria Santo Amaro.

A padaria ficava numa esquina e o letreiro se repetia para cada uma das ruas. Letras vermelhas sobre um fundo amarelo claro. Há muito já não tinha a imagem do santo, de quem Abel tinha uma lembrança apenas vaga.

**

— Já pensou se fosse Santo Expedito?
— Ou São Basílio.
— Santo Antão.
— Sabia que tem um São Frutuoso?
— Nossa! Ia ser muito pior.
— Eu não gosto é do José.
— Eu também tenho José.

José Amaro e Abel José. Eles riram da coincidência e se reconheceram ainda mais como amigos.

— Uma prima me chama de Belzebu.
— Por quê?
— Bel, Zé, ela foi juntando e lembrou do danado. O apelido pegou.
— E você é assim endiabrado?

Riram. Amaro estendeu um doce para o novo amigo. Abel sequer perguntou do que se tratava. Colocou o doce inteiro na boca. Um gosto de amêndoas lhe invadiu a boca.

— Beijinho de freira.
— Humm!
— Gostou?
— Acho que comi o papel junto.
— Não é papel, não. É uma hóstia.

Amaro falou para o novo amigo do desejo de colocar novos doces para vender. Pensava em recuperar o ar de padaria portuguesa que tinha no tempo do avô. Estava experimentando receitas.

— Eu gostei. Vou querer experimentar todas.
— Vou querer que você experimente.

Quem acompanhasse a conversa dos dois jovens poderia perceber que havia ali um encontro.  Eles eram tão diferentes. Amaro era alto e magro, uma pele levemente morena, uma morenice mediterrânea, coberta por longos pelos negros. Abel era mais branco, uma brancura também mestiça, sem os avermelhados dos brancos do norte. Tinha os cabelos também muito pretos, mas não tinha pelos. Era gordinho. Braços e pernas roliços escapando das camisas e das bermudas. Amaro tentava disfarçar, mas quase sempre seu olhar escorregava para aquelas partes do amigo em que a carne forçava os tecidos das roupas. Tinha sido assim desde que o tinha visto saindo da padaria com um quindim. Abel tinha as pernas grossas sustentando uma bunda volumosa. As gorduras sem exageros doentios faziam curvas sinuosas e pareciam dançar quando ele andava. Amaro quis chamá-lo, retê-lo um pouco mais, mas não sabia como. Foi assim que gritou o próprio nome para o rapaz.

Depois daquele primeiro encontro, não viu a hora de ver o rapaz de novo. No dia seguinte, mesmo sem estar previsto, fez mais quindins. Escolheu de propósito formas maiores. Abel retornou, mas não quis o quindim. Preferiu uma tortinha de limão. Depois, no outro dia, quis um brigadeiro. No fim de uma semana, já tinha experimentado todos os doces da vitrine. Um por dia. Amaro percebeu seus olhos procurando alguma novidade. Lembrou-se do sonho.

— O recheio desse é de creme de baunilha.

Abel mordeu o doce num prazer genuíno. Logo depois, entretanto, o brilho nos olhos diminuiu. Não havia mais novidade. Ele comia o doce com avidez ainda, mas uma avidez tensa, de quem apenas se deixa levar.

— Você tem tempo?
— Hum?

Amaro foi para a cozinha. Uma rápida mistura: açúcar, manteiga, farinha de trigo, baunilha. Um forno quente, um pouco de conversa. Logo, os biscoitos ficaram prontos.

— O que é isso?
— Areias de Cascais.
— Bom!
— É o que há de mais simples em doces.
— Nunca tinha experimentado.

Amaro sabia. Abel gostava da novidade, sabores novos, mesmo que fossem simples.  Foi assim que ele começou a seduzir o amigo. A cada dia fazia um doce diferente. De simples biscoitos de natas a bocas de damas. Fez os mais diversos manjares, ambrosias, madalenas, pães-de-ló. Não faltaram os pastéis de Belém e outros doces de convento. Amaro seguia as receitas de um livro antigo do avô. Abel vinha todos os dias para experimentar a novidade. A cada dia, Amaro se mostrava mais próximo. Abel já não era um mero cliente. Era convidado para a cozinha onde podia ver os doces sendo feitos. Lambia as massas cruas das panelas, provava cada etapa até o doce estar pronto. Ele se perdia num labirinto de sabores às vezes tão iguais, mas sempre apresentados de maneira diferente. E enquanto o menino guloso se lambuzava nas delícias, Amaro se deliciava de ver as bochechas gordinhas, os braços roliços que pegava com as mãos cheias para mostrar ao amigo alguma panela fervente. Ele degustava o corpo do rapaz aos poucos, em esbarrões casuais, em gestos fraternos. As coxas de Abel eram tocadas na espontaneidade de uma piada. O corpo todo do jovem se debruçava sobre Amaro numa tentativa de alcançar um doce que lhe era negado. Eles viveram essa dança por semanas. Um encontro de desejos. Encontro? Assim pensava Amaro.

— Hoje à noite vou fazer papos de anjo.
— Hum. Eu gostei desses.
— Mas vou fazer diferente: papos de anjo na hóstia…
— Quer me ver fazendo?

Abel voltou à noite quando a padaria estava fechada. Amaro lhe abriu a porta dos fundos, apenas o suficiente para o rapaz passar roçando no outro. Amaro sentiu a bunda inteira do rapaz passar por seu corpo. Chegou a estremecer.

Abel perguntou dos doces, os papos de anjo de que já tinha gostado tanto.

—Antes você vai experimentar esse bolo dos anjos.

Era um bolo de claras, muito leve. A forma estava de ponta cabeça equilibrada no alto de uma garrafa.

— O que é isso?

Abel estava maravilhado.

— É um bolo tradicional americano. Tem de deixar esfriar assim, se não murcha. Tinha de aproveitar as claras, né.
— Podia ter engomado umas roupas.
— Da próxima vez traga suas camisas.
— Prefiro experimentar esse bolo.

Amaro desenformou o bolo. Era levíssimo. Abel comeu aos bocados.

— Parece mesmo comida dos anjos.

Falava de boca cheia. O bolo era tão leve que logo já tinha comido a metade. Enquanto isso, Amaro colocava a massa dos papos de anjo em hóstias, fechava-as como um pastel, besuntava de gemas e passava em açúcar.

— Agora experimenta os papos de anjo desse jeito.

Pegou um dos doces e ofereceu a Abel diretamente na boca. O rapaz mordeu o doce no meio. A Hóstia partida deixou escorrer o creme pelo braço de Amaro. Num gesto instintivo, o rapaz lambeu o braço do amigo. Junto com o doce, os pelos longos e negros do braço foram sugados. O suor se intrometeu no meio do doce. Uma mistura alegre e inusitada.

Amaro percebeu o maravilhamento do outro. Então, espremeu mais creme no braço e ofereceu. Abel hesitou. Antes, tinha lambido por reflexo, dominado pelo desejo do doce. Agora, sentia que não devia. Lamber um homem? Nunca tinha querido isso. Não gostava. Mas aquele gosto? O sal misturado ao açúcar e às gemas?  Ficou uns instantes parado olhando para o amigo. Entre eles, o doce. Amaro rasgou outro envelope de hóstia e espalhou mais creme. O braço estava todo lambuzado de papo de anjo.

Abel não resistiu. Dessa vez, talvez porque já não era um ato impensado, talvez porque sabia do passo além que dava, lambeu o braço devagar. Assim, o gosto lhe veio mais calmo, mais definitivo. Parecia que experimentava uma revelação. Depois daquilo, sentia que não se contentaria com nada menos.

Lambia o braço peludo do amigo. Lambia meticulosamente. Lambia o creme e lambia o braço sem creme. O doce e depois o sal. Abria a boca para sentir ambos na língua. Os olhos fechados. Deleitava-se.

Amaro extasiava de sentir aquela boca suave na própria pele. Sentia-se beijado. E, vendo na bochecha do outro um pouco de creme, não resistiu. Sentia que também tinha o direito de provar o doce e provar o outro. Avançou sua boca, primeiro no creme; depois, direto nos lábios de Abel. Não lambia. Beijava.

A reação foi susto e rejeição. Abel o empurrou com força quando a língua já lhe entrava pela boca a dentro. Não teve sabor, não teve prazer. Ele não saberia, depois, descrever o que sentiu. Não sentiu nada. Talvez, bem mais tarde, chegasse a compreender que era simplesmente isso: não gostou, não se sentiu atraído, não desejava. Aquela ausência de querer, para alguém que era movido pelo desejo de experimentar, era assustadora. Talvez porque fosse um homem? Talvez porque nunca tivesse pensado a respeito? Talvez porque fosse além do paladar e esse era o único sentido que importava para o rapaz. Abel fugiu.

Amaro se sentiu perdido. Até aquele momento achava que vivia um perfeito encontro de desejos; o seu pelo amigo, um desejo de pele e de amor; e o do amigo, um desejo talvez mais difuso, mas ainda assim um desejo por si. Ele acreditava nesse encontro, nesse ponto de chegada de dois caminhos. Só depois de ser empurrado com força — e Abel era forte—, é que se deu conta de que os desejos apenas se cruzavam e se atravessavam. Ele via a gula de Abel como um reflexo de seus desejos. Não era isso. Descobriu não um reflexo, mas uma refração. Um desvio, um trágico desencontro. Abel fugiu e ele ficou só em meio aos doces com nomes de anjo.

***

Abel saiu da padaria assustado. Pensou que talvez tivesse culpa pelo que tinha acontecido, mas repetia pra si mesmo: eu não imaginava, eu não imaginava. Dizia e não conseguia apagar as imagens do amigo tocando em seu braço, em sua perna. E no meio das imagens, os doces; tantos sabores delicadamente diferentes e iguais, como um contínuo crescente. Amaro tinha lhe seduzido com aquele desfile sem fim. Ele se deixava levar feliz, guiado pelo desejo de mais um novo sabor; e, então, o sal no braço do amigo, o suor nos pelos. Aquela incrível descoberta. Abel seguia pela rua meio tonto. Resolveu sentar numa escadinha de tijolos de uma casa abandonada. As mãos sujas de açúcar apoiadas no degrau descarnado. O açúcar, a gordura, o barro. Abel sentiu aquela textura. Olhou aquela nova mistura nas mãos. Um comando de aventura na cabeça. Será? Pensou uma última hesitação antes de lamber as pontas dos dedos.

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010),  “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010) e “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014).  Participou de várias antologias poéticas, além de figurar no volume “Anos 2000 – Coleção Roteiro da Poesia Brasileira” (Global Editora, 2009). Mantém o blog Café Molotov.  

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99ª Leva - 02/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Dênisson Padilha Filho

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

VAI POR MIM, BABY

 

Uma rua de bares, uma massa de gente feliz à tardinha. No ar uma luz âmbar coloria os olhos.

― Veja uma longneck.

― Pra mim um Campari.

― O que vai fazer agora, que saiu de mochila?

― Sinceramente? Pensei em ir morar com você.

― Já falamos sobre isso…

― Já sei o que vai dizer: “espere ao menos completar dezoito”.

― Sempre falei isso, mas acho que você não entendeu.  Queria dizer que você deve ter dezoito pra sair de casa, não pra morar comigo.

― Ah é? E que idade eu devo ter pra morar com você?

― Paula, não dificulte; você está entendendo.  Você tem a idade da minha filha.

― Mas não sou sua filha!

― Aqui pode fumar charuto?… Pode? ― ao garçom ― O senhor tem isqueiro?

― O que você sugere então?

― Acho que você deve voltar pra casa de seus pais.

― Você deve estar brincando.

― Sério…

― É assim que você me ama?

― Não é questão de amar ou não; é bom senso. Não faça isso com seus pais.

― Você tá pensando mais neles do que em mim.

― Um pai morre de culpa com uma coisa dessa; vai por mim, baby, de culpa eu entendo. E depois…

― Sua ex!… Eu sabia!

― Ela não é apenas uma ex; é mãe da minha filha! É tão difícil entender? Tô até vendo ela me chamar de Polanski, Woody Allen… E você de Lolita.

― Quer saber?! Pra mim chega!

― Calma, termina o Campari, pelo menos…. Chega o quê?  Aonde vai, vai viver de quê?

― Não lhe interessa… vou virar puta, pronto..

― Paula, sente aqui, vamos conversar.

― Aliás, virar não; porque sempre fui sua puta; mas agora pelo menos vou saber quanto custo.

― Paula, fale baixo, venha cá.

― Fale baixo uma ova! Pra mim deu!

― Putz!

 

 

― Garçom! Traz outra? … Conhece?

― De vista; mas não acredito que vai fazer o que falou. Sei que é de boa família. O pai vem sempre aqui.

― O pai vem sempre aqui? Sério?!

― Vem. Senta sempre nas mesas de fora.

― Putz! Nunca vi aqui! Nunca coincidiu.

― O senhor conhece o pai dela?

― Conheço demais!  Amigo de mais de vinte anos.

― A menina, então, o senhor viu nascer.

― Ah vi. E digo mais, aquela ali é como se fosse minha filha! O senhor pode trocar o cinzeiro?

― Pois não, senhor.

No bar em frente, uma música feliz, a massa de gente crescendo, e a mesma luz eufórica dançava na curva de cada rosto.

 

Dênisson Padilha Filho (1971) é baiano. Escritor e roteirista de audiovisual. É mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia. Publicou “Menelau e os homens” (2012, contos e novelas), “Carmina e os vaqueiros do pequi” (2003, romance) e “Aboios celestes” (1999, contos). Em 2014, lançou “O herói está de folga”, volume de contos publicado pela Editora Kalango.

 

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99ª Leva - 02/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

 Tere Tavares

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

O colorista

 

De costas à insígnia do dever – em sua paixão havia também compaixão – eliminou o íngreme degrau. Na produção dos últimos meses colocara o prazer acima de outros princípios.

Jamais se curvaria com vergonha do que fizera. Muitos em seu lugar teriam optado pelo contemporâneo insosso e suspeito. O que é arte afinal? Repugnava-o sentir-se obrigado a admirar estilos desagradáveis. Era consciencioso – nenhum pecado até esse ponto.

Longe de representar a totalidade do que é nobre ou bom, relutando entre egoísmo e amor, por mais abjeto que lhe parecesse, seguiu somente o que sentia. O cinismo arruinado pela pouca idade também não foi impeditivo ao mais raro atributo de qualquer homem: o bom senso, a coragem de não ultrajar o que realmente é para si mesmo.

O marchand decepcionou-se. Os críticos o ignoraram. Perguntou-se como pudera ser tão inquestionável em sua agonia emocional. Ali acontecera um crime, cujo corpo desaparecera sem rastros.

Frente ao inevitável não há delírios. Voltou para casa com os pacotes pesando-lhe nos braços. Guardou tudo numa caixa e foi para o sótão.  Com a luz indecisa contrariando-o, redescobriu as brumas das imagens. Ultrapassou o triângulo.

No reverso do espelho um rosto antigo lembrava-lhe a irmã e a desordem. A Terra ainda era o planeta que lhe circundava a visão. A Lua continuava ali perfumando os lençóis.

Aprimorou a forma de confrontar o próximo inimigo. Com sua urgência fremente, continuaria a fazer justiça ao arco-íris com a fidelidade das próprias mãos – Wabi-sabi.  Sem reparos envelhecidos. Sem sustos. Sem mortes dessa vez.

 

 

***

 

 

Sub-reptício

 

Notas de um dia de outono que despertou ainda entregue ao sono porque a vida também é um filho, a mudez dos sargaços, o iphone, a mulher, o indivíduo, utopias de outrora –  o ar não pesava quando perfumava a maresia e a profundeza das fontes, nas imagens cruas entregues ao pó, sono e respiração descansadas sobre a estação,  para o que havia de desperto, a engrenagem na concha da consciência, singela vigília de avenida no botão do esplendor solar, a sério por outro lado a voz do corpo e a consciência, salut d’amour, num complexo retalhado de penumbra. Estou aqui, pormenor, não continue a evadir entre velar e adormecer abraços.

Que sim. Respondeu-lhe.

Destinos sem vocação, nossos fantoches em praias filosofais, nós, iludidos de não sermos… dilúvio de ilusões, rosas de um rumo lento e voluptuoso.

Sobrava-lhe o olhar de Gioconda, chuvas confusas que prometiam sentidos inesquecíveis, caminhos talhados na estranheza das poças deslizando sobre a alma em seixos ressequidos. “Não imagines oh velha juventude onde hoje caiu-te o senso das tantas que és”.

O disparate estalou a tempestade que coube em si.

Confissão refém da certeza, além daquilo que faria derramar as águas num lugar qualquer, um frasco amargoso de mel, o sonho triunfante em menos um alvor – não o danifique, decifra bem o humor das seivas e dos líquidos – perdia-se no agravo discreto, nítido.

Que não. Retornou-lhe.

Quando coubermos úmidos entre dois instantes de respirações espumantes – entre o enlevo do encontro e a hirteza rutilante da busca por outra realidade sem pausa – somos o que aqui vagueia, só Lua e Sol.

 

Tere Tavares, escritora e artista plástica, autora de quatro livros publicados “Flor Essência” ( poesia 2004), “Meus Outros”  (poesia e prosa 2007),  “Entre as Águas” (prosas 2011) e  “A linguagem dos Pássaros” (poesia Editora Patuá, 2014). Integra a Academia Cascavelense de Letras.

 

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99ª Leva - 02/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marieli Becker

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

Este espinho que guardo na boca, você não o entende, mas finge. Eu, uma mulher amarrada pelas pernas, também finjo. O espaço sempre manso com seus odiáveis pássaros que caem e caem sempre caem como um som que abre um céu, um caminho, e também aquele barulho que não se sabe o que é e é tudo o que está no mundo, aquela coisa que os débeis chamam de vida e que eu chamo de tempo maldito que nunca cala a boca. Este espinho cuja estupidez de uma revista chama de tpm, a estupidez do psiquiatra chama de depressão, a estupidez do poeta de melancolia e toda estupidez sempre chama. Eu com essa chaga maldita a buscar no alcoolismo um reverso medicamentoso, não me enganam aquelas caixinhas com suas faixas medonhas dizendo que podem te matar ou te salvar ou qualquer coisa que te atingisse, e você ainda finge que funcionam, porque dorme, e isso deveria bastar. Por que diabos o mundo tem mil anos e ainda a verdade não é coisa que escorra dessa boca espinhenta feito sangue novo e fresco? O cheiro, sempre o cheiro, de morte, de agressão, de penetração repentina, qual é o corpo que está preparado para essa desordem do mundo? A faca cotidiana não pode fazer buracos nos meus pulsos. Alguém poderia dizer qual é a utilidade deles senão essa ponte pulsando sangue, um toque, uma junção, uma coisa sem forma-face-sentido, um caminho disfarçado até sabe-se deus onde, porque não sei por que é que tenho mãos. Não gosto da poesia. Assim como não gosto de flores plásticas com seus espinhos metafísicos patéticos.

 

 

 

***

 

 

 

O movimento do luto não é um movimento, é um avesso da ação, é um movimento em rewind, uma espiral entortando seus espinhos ao fundo, abaixo, sempre em direção à cova. Um velar desfeito do olhar do tempo, a persistente vigília desse aparelho cardíaco ligado ao coma. Seu barulho, seu batimento, uma tortura japonesa. Nenhuma janela é aberta nesse quarto, o vidro sempre embaçado encobrindo a morte, faz crer que os mortos não são privados da vida. Ninguém chega a esse tipo de doente. O silêncio é a eterna espera dessa avaliação selvagem. Médicos-monstros ao redor da cama, ou da cova, segredam uma temida desesperança que suja os dedos, as unhas, e por debaixo das unhas, um cheiro que não se lava.

 

 

 

***

 

 

 

Ando cansada de você, fantasmático, de ter você na minha mesa de jantar toda noite. Estou sem voz a gritar que saia. Já não me importo. Já te olho nos olhos de morto, a te imitar no olhar que nunca pretende, que não percebe o arredor, que não olha nem pra fora, nem pra dentro, mas cravou-se em si, como um embrião que se engole pra tentar a vida. Estou machucada de ter você por perto, já não me importo. Desisti de pedir que saia, e agora eu reparto o pão nessa mesa, essa trilha cujo pássaro reteve dentro, cruelmente faminto, esse caminho que retornou até onde não havia mais luz.

 

 

 

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Meu pé preso na cela do cavalo. Meu pé quebrado na cela do cavalo. Meu pé inchado, impedido, encaixado na cela. O animal dorme e sonha. Eu o observo, ameaçada. Meu coração espera que ele acorde e corra. Minha mente está embaixo d’água. Sob o falso silêncio da água. O horror silente aperta meus os ouvidos. Ideias morrem uma a uma, engolindo o sal. Meu peito intoxicado, um componente estranho o engrandece. O silêncio o engrandece. Meu pé quebrado embaixo da água, encaixado no silêncio do fundo do mar. Minha mente um cavalo assustado que dorme e sonha.

 

 

 

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O desmaio alcoólico, a fluidez para o lugar nenhum. Um escorrer de olhos para baixo, as pálpebras apenas. O tempo é uma macumba mal feita. O meu corpo era o tempo distorcido. Teus dedos sinais enfermos que eu engoli. Um coágulo intra-uterino deslocado. Não era sexo. Não era corpo. Não era aquilo que não é matéria. Não era aquilo que não sabemos. Um tapete manchado na tua sala. Uma história feita da fumaça do cigarro que eu não fumo. Teu corpo buscando esconder teus segredos. Eu, um depósito. Era um amor de mulher vadia, daquele tipo que te abraça.

 

 

 

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Um grito dentro de um grito, então mais outro, chupando-se, um a um e em sequência, uma ciranda maldita, e eu nunca alcançava a minha voz primeira. Aquela que tocava a goela, o sangue bem dentro. No máximo, era me dado uma imagem esfumaçada dos gritos, meio branca, meio cinza, tudo tão leve, e eu a andar a cavalo aos berros, a selvageria sem me entender, mas sem perguntar e era por isso que eu a amava. E quando eu queria pular do cavalo ele nunca parava, eu tinha que me jogar e eu sabia que não tinha chão nenhum embaixo, era apenas essa fumaça, não havia nada. Quem é que se jogaria? Mas eu escuto um grito, vindo lá debaixo. Talvez a minha goela.

 

 

 

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Eu tenho os cabelos pretos, naturalmente, quero dizer. Acima do cabelo preto natural, eu aplico uma camada de tinta. Também preta. Eu gosto de ser uma farsa, então eu aplico a máscara que é idêntica à minha cara original, e finjo que sou uma mentira. Eu gosto de entrar na água e ver escorrer a tinta preta cheirando a amoníaco. Não quero ser a única manchada. Quero que escorra. Eu gosto de escrever mentindo para poder dizer a verdade, porque é o único modo suportável. Uso a tinta no cabelo, mas aproveito pra manchar um pouco a cara, me dá um ar de mulher perdida, o que é bastante excitante e adicionado o nível certo de álcool, consigo até sentir tesão. Eu finjo que não acredito em nada porque acredito que os descrentes fodem melhor. Vou tirando minhas máscaras, então, na cama, os pelos pubianos expostos a julgamento, uma máscara original que uso para me cobrir da minha nudez identitária.

 

 

 

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Estou no corredor de um prédio, que sem pilares, flutua no escuro. Imitações de portas sem maçanetas, nas placas, a minha ausência de sonhos. Pisei num buraco, e não era um buraco, era um grito a agarrar meu calcanhar. Perdi a aberração que pariu a minha história, a matéria pulsante. Mesmo sem lugar, eu me sento, porque andar e chorar me assusta. Pego a foto do meu monstro, penduro na parede que não existe. Meu cativeiro fantasmático feito de fumaça. Estocolmo em chamas. Meu corpo carbonizado, o coração ainda batendo e sangrando. Líquido vermelho em cima da fuligem.  Título do meu livro em branco que está muito perto do fogo. E então, queima.

 

Marieli Adriani Becker (1986) nasceu e vive em Passo Fundo, RS. Atualmente está cursando Psicologia pela IMED, e tem interesse especialmente na área de psicanálise. Tem na escrita uma via de escoamento para questões internas, sendo que escreve por hobby e com uma frequência mais estável há pouco tempo.