o amor tem tudo pra dar errado e você descalça, sem sutiãs, de cabelos curtos, exorcizando a luz do sol. o amor tem tudo pra dar errado e seus olhos grandes e persecutórios sobre mim, a cidade e suas febres, seu corpo por cima do meu. o amor tem tudo pra dar errado e você levitando no vapor, sua voz praticando malabares com as proparoxítonas, os sintomas, os sinais e os arrepios da sua língua. o amor tem tudo pra dar errado e você dança no fogo desconstruindo sombras, apagando as coisas ao redor. o amor tem tudo pra dar errado e mesmo assim o salto, o passo no lugar escuro. mesmo assim sopro no seu ouvido minha palavra brutal, seguro sua mão e você sorri e entende o lance.
……
anamnese
estou envolvido com essa doença chamada amor. as corais brancas da vodca, a bola oito na caçapa do meio, bar do paraíba às cinco e meia da madrugada. baladas de simon & garfunkel, o silêncio que sai dos corpos. estou envolvido com essa doença chamada amor. a chuva contra o meu rosto, os demônios da demolição trabalhando duro dentro do peito, o medo nos olhos fixos do anjo de vidro, o tifo epidêmico na pele de gesso. estou envolvido com essa doença chamada amor. o calor da febre na ponta da língua, o torpor nas pontas dos dedos, as flores de plástico dentro do copo com água e açúcar, as pedras dentro da cabeça. estou envolvido com essa doença chamada amor. as espirais de fumaça do cigarro, os medicamentos do entorpecimento, as longas horas diante da geladeira, as paredes. estou envolvido com essa doença chamada amor e não sei se tenho cura ou se escapo dessa com vida.
……
claro enigma
o que existe em você que me entorpece? qual palavra elétrica pronunciar? seu corpo salgado e sem sombras aparece dentro de meus sonhos causando erosões. o que existe em você que me paralisa? onde extrair o veneno? você sairá das águas e me fará voar entre os prédios mais altos? irá gritar meu nome na tempestade? sentirei dor? o que existe em você que me seduz e me faz suar frio? onde encontrar o pote de ouro? ouço seu nome no fundo do mar. você irá morder meu desejo, evaporar minhas tristezas? o que existe em você que perverte os sentidos? deixa mudo meu português caótico, invade e destrói territórios e os ambientes tóxicos? serei morto pelos fabulários? morderei do fruto? serei um outro? o que existe em você que me deixa volátil e lírico? o que existe em você que me apaga o medo, me faz voar entre corvos, sorrir prus que me desprezam? o que existe em você que me acalma o incêndio, ilumina as trevas, desanuvia o domingo e me deixa assim quase feliz?
…….
das necessidades do amor
você precisa de adrenalina e eletricidade pra desobstruir o ar dos pulmões. você precisa mastigar com dentes de fogo a imagem congelada. você precisa sangrar até perder os sentidos e estabelecer paradoxos. você precisa decifrar o gelo e os signos da carnificina. precisa conhecer os homens ocos do t.s elliot. precisa deixar de ser crisálida e virar pássaro em chamas. você precisar deixar de lado os renascentistas de pedra e mergulhar de vez no atlântico. você precisa levar choque térmico nos mamilos adormecidos e acender as luzes do quarto escuro. precisa desligar o automático, entrar em curto-circuito. você precisa virar clave de sol, romper a barreira do espelho, cortar os cabelos, abrir asas e alçar vôo seja lá pra onde for, meu amor.
…….
sim!
se você esfaqueasse o orgulho numa noite fria e saísse correndo nua na tempestade, se você sorrisse na cara do carrasco, se colocasse na boca e comesse o desejo dos pássaros, se você saísse das águas com flores nos cabelos e ressuscitasse os mortos, se você incendiasse o sangue de todos os poemas, se fizesse explodir os bancos e desaparecesse na cidade em chamas, se você tivesse os olhos vazados pela luz magnífica e dançasse de braços abertos na beira do mundo, se você deixasse de lado sua vaidade de mulher má, me estendesse a mão e dissesse venha, eu juro que iria.
Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.
Em algum lugar uma coisa se esconde esperando minha mão. Um dia, o acaso me levará para um canto sombrio da casa, onde uma caixa de sapato ou a gaveta de uma antiga cômoda guarda a coisa que me espera. Vago pelas sombras da casa e minha pele eriçada me avisa da proximidade da coisa. Então me afasto até que a pele sossegue e me permita caminhar sem sobressaltos. Mas o caminho oposto também me leva a sombras e novamente sinto o arrepio. A coisa é móvel. Pisca para mim de sombra em sombra. Não sei o que quer de mim nem o que tem para me dar. Sei que me atrai e me repulsa. E é grande o medo que tenho de encontrá-la.
***
Covardia
A única vez que ele mentiu pra mim foi quando disse que não me amava. Amava, sim. Do jeito que amam os covardes. Amava a casa arrumada, a roupa limpa, bem passada, o cheiro dos lençóis. Amava a comida de todos os dias e amava mais o almoço dos domingos. Mas dizer que me amava, nunca disse. Também nunca me chamou de meu amor. Nem mesmo antes ou depois do gozo, muito menos nos meus tempos de agonia. Quem visse de fora, podia pensar que era dureza de macho. Mas eu sabia que era pura covardia. Porque se dissesse que me amava, eu podia querer mais coisas dele. Que se casasse comigo, que me desse filhos, que me pagasse as contas. Mas eu nunca dei esse gosto a ele. Sempre tive meu dinheiro. Costuro pra fora, faço bolos, vendo avon. Ele é que um dia chegou mais calado do que de costume. Tomou banho, jantou, ligou a televisão e ficou ali, um mortovivo. Quando perguntei o que se passava, disse com voz de choro: preciso de dinheiro pra pagar uma dívida de jogo. Era pouco, eu tinha, entreguei a ele dentro de um envelope. Ele pegou o dinheiro, levantou-se do sofá e disse que ia embora e não voltava mais. Eu não te amo, disse. E eu vi nos seus olhos e ouvi na sua voz que ele mentia.
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Pés
Por muito tempo, meus pés serviram para caminhar. Levar-me pra lá e pra cá, pisar na lama, torrar nas pedras quentes do meio-dia. Sempre tive muitas cócegas nos pés. Você descobriu por acaso e passou a me torturar com os dedos leves. Depois vieram os beijos e depois a língua. Aos poucos, meus pés não queriam mais caminhar. Desejavam a boca que os tinham desviado dos antigos caminhos. Hoje, meu corpo começa pelos pés.
***
O estranho que me visita
Eu sei quando ele chega. Gosta de me pegar distraída dentro de um livro, aparando as unhas ou bordando com meus bastidores. Quando me dou conta, ele já sumiu lá para os fundos do corredor. Nas primeiras vezes, tremia de medo e me distraía ligando a tv, cantando alto, telefonando para qualquer pessoa. Até que ele sumisse.
Mas teve um dia em que criei coragem e fui caçá-lo pela casa. Entrei no quarto, ele deu sinal de estar no banheiro. Abri de um brusco a porta do banheiro, ele mexeu na torneira da cozinha. Acendi a luz da cozinha, ouvi o seu suspiro lá na sala.
Com o tempo, aprendi que ele não queria ser visto. Me acostumei com a sua presença pela casa. Quando ele chega, finjo que não percebo. Continuo presa no livro, na serrinha de unhas ou na agulha que passa de um lado a outro do tecido esticado nos bastidores. Faço falsas poses distraídas, sabendo que ele gosta de me ver assim, vivendo a vida, passando o tempo, pensando coisas. Gosto desse estranho que me quer assim, na mais banal intimidade. Gosto que vasculhe minha casa, que me vasculhe por fora e por dentro. Gosto que me mostre a estrangeira que eu sou dentro do meu próprio território.
Já fui do lar. Hoje faço doces para lares alheios. Faço textos, também. Mas não os envio aos lares. Prefiro que andem pelas ruas e encontrem ao acaso quem os leia. Entreguei vinte e três anos de minha vida a um homem, uma casa e uma filha. Só depois que o homem se foi e a filha se casou, pude ler o que quis, escrever o que quero. E algumas pessoas gostam do que escrevo. Por isso, sou teimosa e vou aos poucos construindo um olhar novo sobre as coisas do mundo. Às vezes dói, mas sempre me dá prazer. Tive alguns textos publicados em Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Já é um bom começo.
porque sou eu quem vai ao encontro do destino que mora – e continuará morando, esperando – no Paraíso. Mas eu fui e voltei. Eu fui ontem e seriam 23:58 nos relógios da Paulista, 23:55 no farol da Casa Branca com Peixoto Gomide, porra, deviam estar andando ao contrário, contando o tempo que perdi ou já passou e então devo estar um bocado atrasada para desmanchar esse cirquinho que já se armou antes, muito antes que os relógios da Paulista começassem a contagem regressiva apontando o sentido desse passeio noturno à tua casa, Marcos, desse desvio, porque sou eu quem vai ao encontro do que praticamente já rodou, o tal cirquinho que se armou com unhas e dentes, embora você me recebesse como se já esperasse, você também tem um faro de perdigueiro, meu chapa, I know, I know, você comendo e falando sem pausa para respirar, me deixar falar aquilo que eu vim para te dizer, que não somos nós, não há nada conosco, ok, não precisa embarcar no meu sonho, você não tem que se arrebentar junto, você não precisa sofrer, eu tentando falar e já sentindo piedade daquilo que falava ou tentava falar e também daquilo que comia e não ouvia, repetindo de orelhada o que alguém te orelhou, ora se esse não é o gancho perfeito para o teu melodrama espanhol: uma mulher ansiosa por volta da meia-noite passando nesse teu apartamento que tem um vaso com uma arvorezinha seca com uma bandeirinha vermelha plantada na terra seca escrito Benvindo a Parati e observando esse teu apartamento tão pequeno, tão 21º andar, tão bloco C, caixinha de fósforos pairando no oceano cleptomaníaco dessa Cidade que não é para quem não pode conquistá-la com unhas e dentes, de maneira que então fica aí como quem comprou uma vitrine de doces para ficar do lado de fora, o nariz contra as luzes refletidas lá embaixo e isto, Marcos, isto me deixa tão triste, benvindo, welcome, mas você sem essa de welcome contudo botando filhodaputamente uns cds com aquelas músicas tristes e úmidas e burras e relembrando (reminds) aquela noite em que você botou os mesmos CDs úmidos e burros e tão Philip Glass, percebe como a armação desse teu cirquinho é maluca? Roda, gira, sofrendo antecipadamente de saudades da mulher que você vai mandar embora eu esteja na tua frente e de touca, da mulher que você ama desesperadamente e sofrendo na minha frente, como se eu já não estivesse mais ao alcance do teu abraço, dessa mulher que precisa beber para trepar, foi o que você disse rapidamente desviando o rosto e já se sentindo como um vômito, mas eu ainda estava de touca e inocente e parada na sua, só que você já tinha dado o pira, a alma e o coração em Parati, enquanto eu tirava a roupa, deitava ao lado de você que já dormia tão distante, lá longe em Parati, virado para o canto. Como antes. Como sempre. Como toda noite até amanhecer. Daí eu levantei e me vesti e disse sim, você fez o possível, amor meu, só que eu não programei não engendrei nada disso, foram os relógios da Paulista que marcavam o tempo ao contrário, estavam andando de costas, como se não se importassem para onde iam e sim onde estiveram, então encontrei aqui o cirquinho armado para amanhã, de forma que flagrei o destino 24 horas antes: estava marcado para esta noite, eu na frente do tempo. Sim, Marcos, muitos problemas, meus e teus, individualmente, não nossos, claro, claríssimo. Mas os problemas são como velhos aquecedores: funcionam muito bem até o dia em que explodem na tua cara. Tique-taque, tique-taque, tudo ia tão bem, tique-taque, tique-taque. E ele, você não arruma nada, não tem estrutura, joga tudo pela casa, você não tem modos e eu, calada, e ele, você não tem grana, você só tem pose, e eu, enumere, vamos enumere, se não você cai, então diz, porque não diz logo na minha cara, e ele, misterioso, não antes dessa noite, e eu, mas acontece que meu coração também está marcado para esta noite. Estava, quero dizer. E ele, você não tem outra coisa na cabeça, garota? Não, não tenho saco, é isso. E fui descendo, os olhos mareados, porque eu não posso, porque eu não devo, não quero, não preciso, porque meu coração não está marcado para hora nenhuma, meu coração a ti pertence e às nove da manhã fiz sinal para o Vila Madalena, subi e então vi aquela muralha de corpos e bancos na minha frente.
Como um horizonte de marcos.
…………………………………. Ou cruzes.
A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.
Este ar irrespirável. Quente. A chuva, o vento. Pela janela, olha a agitação que vai no Mar de Java. Onde ela veio parar.
Que raio de homem, maldito anúncio, maldita a hora em que respondi. Mais temível que a aproximação da monção, mais asfixiante que a atmosfera sulfurosa do Krakatoa que ainda paira sobre a cidade, a tempestade que ele veio cravar na minha vida. Uma mulher nativa, e uma concubina – o que eu vim encontrar. Vá para o inferno – mais a posição, o exército, a carreira, e mais o dobro da minha idade. Alcoólico. Violento. O que é que eu faço? Meus dezanove anos, que mal empregados…
Mas ela não perde tempo. E esta sensualidade esculpida nos deuses e deusas que bailam nos portais e paredes dos templos hindus, o corpo é sagrado, o amor para ser completo, tem rituais a cumprir.
Gostei do templo de Krishna. Experimentar a escola do templo. Aprender as tradições, tudo o que é daqui. As danças, a música, é que me fascinam.
Regresso à Europa. Decide-se. O divórcio.
Paris é e será sempre a cidade dos exílios famosos, dos grandes recursos. A cidade das artes, do livre pensamento. Lady MacLeod. Um nome exótico, bom para uma amazona de circo. Ou uma modelo de artistas. Usar o nome do ex-marido? Que é que isso importa? Funciona. Funciona muito bem. Mas não chega.
Começa a ganhar fama como bailarina exótica. Vê que pode competir com Isadora Duncan, ou Ruth St Denis. Toda a gente vai procurar inspiração à Ásia, ou ao Egipto.
Felizmente, não perdi tempo enquanto estive em Jakarta. “Princesa de estirpe sacerdotal, educada nas artes hindus desde a mais tenra idade”. Oh, como fui prevista. E como o público gosta de ser enganado!
Mata Hari, o olho do dia, ou do sol, na realidade, o sucesso das noites. A ostentação do corpo com uma mística única, a cativar o público em geral, e um mundo mais privado, restrito, cada vez mais no círculo dos poderosos, quanto mais abastados, melhor.
Quem na Europa está preocupado com as longínquas Índias Orientais Holandesas? A história que eu conto não oferece dúvidas.
*
E a tômbula da fortuna vai novamente desandar. Ninguém ignora que quando se sobe com tanta avidez, se desce com grande estrondo. Antes da guerra, era vista como uma artista livre, independente, boémia. Mas agora, à medida que a guerra se aproxima, começam a falar da artista. Libertina, devassa, promíscua. Pior, uma perigosa sedutora.
Os seus apoios começam a afastar-se. Olho-me ao espelho, e só confirmo que a idade começa a notar-se… Ai a beleza vai-se-me diluindo.
As suas deslocações através da Europa, em tempo de guerra, chamam a atenção. É a cortesã das muitas altas patentes entre os aliados. É interrogada pela espionagem britânica. Diz que trabalha como agente para a espionagem francesa. Os franceses não confirmam.
*
1917. Da janela da prisão, vê a sua vida deslizar na sua frente. Sabe que não passa da folha de Outono, muito bela, do ocre ao vermelhão, mas que cai da árvore porque está morta. Ninguém a pode suster. Sabe que alguém deixa que seja acusada para se ocultar. Foi assim com Dreyfus. É o que faz ser mulher, mulher só. E essa barriga atulhada de leis, inútil e sem alma, de que é que me serve?
41 anos. Será que vivi tudo? E a soturna da sotaina, a dançar ao vento como uma bandeira negra, não me vai salvar das armas… 41 anos… Já?! Tão depressa?
***
No Café, com Mrs Robinson
Esqueci-me de apontar na agenda que trago sempre comigo o número do seu telefone. Despachei-me cedo, mais cedo do que pensava, entrei no café para lhe telefonar, quem sabe, talvez você estivesse livre, quem sabe, poderia querer descer aqui ao Café. Poderíamos dar à língua.
Mas contrariada constato que me esqueci de apontar na agenda o número do seu telefone. Não percebo por quê.
A alta-fidelidade põe no ar canções dos velhos Beatles. Quanto mais o tempo passa, mais belas são. Mary Lane. Cantam em surdina os amplificadores do Café. Abafam-lhes o som os motores dos carros que passam na rua, as máquinas das bicas*, as conversas das mesas ao lado e as do balcão. Mrs. Robinson. Acho que vivias sozinha, Mrs. Robinson. Há coisas que doem muito, na medula dos ossos da alma é que certas coisas doem. Mrs. Robinson. Onde se meteram os filhos que criaste, o homem, ou os homens quem sabe, que tu amaste?! E agora, imagina, poderia falar com este fulano, se ele estivesse livre, claro, mora mesmo aqui por cima. E depois, o que é que ele pensaria de mim?! Chiça, é melhor estar quieta, quer dizer, é uma sorte não ter aqui o telefone dele. Oh, Mary Lane, sabes muito bem como odeio os homens. Odeio os homens. E detesto as mulheres! Mesmo assim, eles ainda conseguem ser mais sofríveis do que elas. Mary Lane, nunca confies numa amiga. Nunca confies em ninguém. Olha, Mrs. Robinson, venho das compras. Ouves? É o Paul Anka. Há quantos milénios não ouvia o Paul Anka! Interessante, não é? Crazy Love.
Crazy Love. You are my crazy love. De facto, minha querida Mrs. Robinson. É mesmo uma loucura. Porque um amor morre e uma pessoa procura logo outro. Não é a força da vida, nem o tanas. É auto-destruição. Uma pessoa, enquanto tem um pouco de esperança, consome-a. Não a utiliza em proveito próprio. Consome-a, desbarata-a. Claro, é isso mesmo, destrói-se. Depois, quando fica sem nada, vem para aqui como nós, senta-se à mesa do café e fala com as cadeiras. Sabes, Mrs. Robinson, tenho pena da Mary Lane. Ainda tem esperança. Ainda tem quem lhe dedique canções de amor. Ainda tem com que se auto-embalar. Ainda não lhe bateu à porta a hora da verdade. Sweet Caroline. Sweet Caroline. Há pouco eras Mary Lane, agora és Sweet Caroline. Mas daqui a pouco serás apenas a velha Mrs. Robinson, a pobre da vizinha a quem alguém mandará um pratinho de filhós (as que sairem quebradas ou um pouco mais fritas do que a conta) no dia de Natal, coitadinha, consola-se a velhota.
Bem. Ainda bem que não apontei na agenda da minha mala de mão o seu número de telefone. Sinceramente, gosto de falar com homens inteligentes. Sabem coisas que eu não sei, pensam em coisas que eu não penso, analisam a vida com lentes que eu não tenho nem nunca terei. Aprecio isso. As mulheres não. Mas ainda bem que não apontei nesta agenda o seu telefone. Hoje, estou triste.
O meu irmão veio visitar a nossa mãe, com a mulher e o filho. Há anos que não me telefona. Não sei que bicho lhe mordeu. Foi o bicho da vida. Já lhe disse tantas vezes o quanto isso me magoa que hoje preferi ignorá-lo. Pronto. Fui às compras. Comprei muito e gastei pouco. Até me portei muito bem. Claro. Depois não tenho aonde levar tanta roupa, não vou a nada, meto-me em casa a fazer festas aos gatos, a ver o canal 7, até fico com a sensação que tive alguém a conversar comigo sobre coisas que eu gosto. Mas tudo espremido, desliga-se o aparelho, não ficou cá nada. Os gatos são mudos, os filmes dão saltos nas partes conclusivas, passou tudo muito depressa. É só tempo perdido.
Tempo perdido.
Bem vistas as coisas, meu caro, ainda bem que não apontei o seu telefone nesta agenda, não sei porquê, cheira-me a medo.
Com efeito. Imagine que você percebia como estou triste. Imagine que você se punha a pensar que eu lhe estava a pedir apoio. Qualquer coisa como apoio.
Chiça! Mil vezes melhor é ir às compras. Gastar dinheiro que não tenho, gastar tempo que me falta, comprar coisas que não preciso.
Mentir a mim própria. Imaginar que existo.
(*) Em Portugal, chamamos bica à pequena quantidade de café servida nos cafés e restaurantes.
Myriam Jubilot de Carvalho, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em várias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do período do Al-Andalus. Colaboradora no jornal “O Autarca”, de Moçambique. Publica no site brasileiro “Recanto das Letras”. Dois livros de poesia publicados.
Com os braços debaixo da cabeça, era só ouvidos. Barulhos de passos na escada de madeira, gritos agudos vazando pelas paredes, o grasnar rude da dona das chaves. Motel de terceira – única espelunca que podia pagar. A mulher roncava aquele ronco de vaca saciada de capim verde. O ar era podre, o cheiro era podre, tudo apodrecia. E eu, um porra dum fracassado. Nunca saía do meio. Sempre entre o fundo e a borda do poço. Não servia nem pra chafurdar nas trevas. Levara um par de chifres e só conseguira pegar a primeira puta pra afundar nela toda frustração que rasgava minhas entranhas. Cheguei a pensar no tiro. A bala varando o peito e explodindo no colchão. Cheguei até a ver a cama chupando, sôfrega, o sangue enquanto a pilantra ia-se de olhos arregalados sem acreditar que eu puxara o gatilho. Não suportei a cena. Covarde. Preferi bater a porta e me esconder na escuridão. Agora estava ali, de frente pra minha caída no purgatório – o berço dos canalhas sem culhões. O lugar onde passaria a vida me arrependendo do ato que não saíra da imaginação. Outro ronco alto. Cabelos escuros cobriam o rosto que eu nunca vira. Aquele corpo mexera-se debaixo do meu. Fingida. Gritara como se eu estivesse arrombando o que nem porta tinha. Cuspi nela. De nojo e de raiva. Ela devolveu a cusparada e grudou os dentes em minha boca. Bem na hora em que me livrava do sêmen podre de covardia. E o gosto de sangue invadiu meus sentidos. Lambi o lábio e a ferida se fez novamente viva na ardidura. Raiva. Da mulher, da puta, de mim mesmo. Levantei. O coração estava mordido, espicaçado pelo desprezo da mulher. A noite me olhou. Escura e vazia. As estrelas pareciam esconder-se de mentes castradas – a minha. Saí sem fechar a porta, direto pra mureta. Fiquei ali olhando o rio escuro, sentindo seu cheiro fétido se misturando aos meus pensamentos. Fiquei ali segurando o saco. E pensando, sentindo e pensando na água inundando-me os pulmões. Acordei com dor no peito e tubos no nariz. Nem pra morrer eu nasci.
***
O voo da mariposa
Ela estava se revirando internamente. Desde que fizera quarenta anos era só um rodopio frente ao espelho. Não compreendia o que lhe acontecia. Os sentidos não chegavam à razão. Sabia apenas que dentro dela algo mudava quase que a cada nascer do sol. E o sol ultimamente estava nascendo de um alaranjado quase vermelho. É que dentro dela tinha um fogo doido e doído. Fogo que adivinhava a chegada do pôrdosol.
Havia uma urgência no ar do banheiro. O espelho mostrava as pequenas rugas que ela ignorava solenemente. Nunca antes se preocupara com o corpo. Agora ele parecia crescer à sua frente. E por detrás dele a imagem do menino. Aconteceu. O menino. Foi um encontro casual, destes que poderiam acontecer a qualquer pessoa. Entrou nela como forças opostas duelando-se. E rompeu a barreira da idade. Deixou-a equilibrando-se à beira do precipício. Porque havia nele uma parte da vida dela. A parte não vivida. E porque havia naquela espécie de loucura a esperança de salvação.
Durante os dias anteriores esteve numa voragem de expectativa. O fogo dentro dela buscava a carta do menino. O gelo lembrava os vinte anos que os separavam. E era o gelo que fazia afundar-se a linha entre as sobrancelhas. Tinha uma vida dentro da vida dela. Uma vida que se escondia. Vida sem causa ou efeito, mas que parecia querer explodir na pele.
Amava tudo à sua volta. O marido, os filhos, o verde das árvores. Ainda assim, sentia-se incompleta. Sabia. Só se completaria com esta vida secreta tão recém descoberta. A vida que faria o eterno transformar-se em intensidade do momento. E esta vida já não era apenas sonho. Tinha um corpo. E boca. E uma tensão que a fazia corda afinada de instrumento musical. Ou mariposa de voo incerto e esfuziante, perseguindo o fogo mesmo sabendo do risco de queimar-se.
Ajeitou os cabelos e foi em busca da bolsa. Ela iria se queimar, sabia. Mas sabia também que precisaria experimentar. Nem que fosse uma única vez. Viver era imperiosamente preciso.
Lourença Bella é mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi só o inicio. Pisciana que é, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educação, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra até hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso escreve.
Naquela madrugada de encantamento e lenda, naquela madrugada atravessada de sombras e presságios, Rosa acordou antes de todos. Abriu os olhos ainda nas trevas absolutas do primeiro galo e, só depois de escancará-los no escuro e permanecer um instante com o coração aterrado e os ouvidos à espreita, é que escutou, muito longe, o lamento da primeira sereia. Talvez porque, ao longo dos meses que antecederam o prodígio, ela tivesse se habituado a aguçar os olhos e ouvidos e perscrutar o coração em busca de vozes e sinais. Porque, desde os primeiros tremores da natureza, foi sempre ela a única a perceber que eram avisos:
“Começou aqui em casa. Pus o leite para ferver, lembro muito bem, não tinha dormido quase aquela noite, as janelas estremecendo, sacudidas por um vento ruim, e me distraí varrendo o quarto. Quando voltei para a cozinha, corri direto ao fogão, vi da porta que o leite já ia derramando, o balão estufado e branco transbordando da panela. Mas logo percebi que não derramava, alvo que nem camélia, a pele cada vez mais fina e esticada, em vez de branco era assim quase transparente, por pouco não se desprendia em direção ao forro. E quando, num susto, arredei a leiteira da chapa, ele afundou tão depressa, as pétalas de magnólia murcha mergulharam, macias, e uma gota grande respingou no seio esquerdo, é essa marca de queimadura e aviso que tenho até hoje. Em cima do coração.
Nessa mesma semana, começaram a aparecer as formigas. Nas primeiras horas eram poucas, achei uma na minha cama, outras em cima da mesa, rondando o açucareiro. Logo eram fileiras engrossando, jorravam de todas as frestas da casa, centenas de milhares de formigas mansas. Também começou aqui, mas em seguida espalharam-se pelo povoado. Apareciam nos jardins e quintais, não tocavam em nada, em planta nem bicho, algumas subiam num voo cego e tonto, voo pesado de bicho da terra, sem vocação de asa, já reparou que formiga voa diferente de pássaro e borboleta? Morcego também, parece que ele guarda no ouvido o guincho do tempo em que foi rato. Por isso voa espantado. No terceiro dia, a doença da terra se alastrou ainda mais. E cada fresta, cada fenda, cada buraco, por toda a vila, regurgitava golfadas negras de formigas. Até que não houve pedaço de chão ou parede que não estivesse coberto delas. Tentaram veneno, tentaram querosene e fogo, só serviu para matar os ratos e cachorros da vizinhança, as formigas aumentando sempre. E então resolvemos esperar.
A terra passou sete dias vomitando insetos e, então, na tardinha do último dia, fui ao quintal procurar uma abóbora e elas tinham desaparecido. E pelas mesmas fendas e frestas começou a soprar o Terral insistente que crestou o capim, levantou rodamoinhos de pó na estrada, chamuscou as árvores e deixou o mar transformado numa chapa de aço polido onde se refletia, duro, o branco das nuvens mormacentas. A lagoa, ao contrário, encrespou-se toda verde, e subia dela o bafio de enxofre do lodo revolvido.”
Quando começou a rondar o sudoeste, cheirando a tempestade salobra, Rosa correu ao quintal. E enquanto recolhia a roupa, olhou para os lados do mar. O vento soprava agora do fundo dos seus abismos gelados, levantava as ondas em verde e branco, espumando. Só no horizonte, uma faixa clara ainda iluminava uns restos de dia. Para cima, os rolos de nuvens que vinham empurrando o vento e rebocando a noite já se espalhavam numa frente que escurecia o céu. Nesse momento estalou o raio, Rosa persignou-se, chamou Santa Bárbara e sentiu no ombro direito a primeira gota de chuva. Soprou outra rajada de vento e ela ouviu ao longe a algazarra dos homens recolhendo as redes e fugindo para casa. E o último grito de pássaro rasgou os ares.
Choveu seis meses. E o mar fervilhou de peixes. Os homens não se aventuravam a sair de barco com medo de perder o rumo no meio dos aguaceiros e cortinas de névoa, ou estilhaçar os cascos de encontro às ondas de vidro. Mas iam todos os dias à beira da praia buscar as corvinas e tainhas que a maré deixava pulando na areia. Quando a coleta era pequena, andavam até a restinga e, debaixo da chuva, jogavam as redes e recolhiam à flor das águas os cardumes que entravam barra adentro.
Durante cento e oitenta dias os peixes desfilaram numa procissão serena. A lagoa chegou a ficar tão cheia que cheirava a peixe, e os meninos esbarravam nos lombos frios quando iam se banhar debaixo do temporal. Do canal, transbordavam vez por outra para as ruas e, num dia de enchente, desfilaram como num aquário em frente às vidraças das casas mais baixas. Nos meses seguintes era comum acharem-se conchas, estrelas do mar, restos de sargaços e medusas nos canteiros da praça. E um polvo foi encontrado nadando dentro da cisterna do armazém.
Choveu seis meses e todas as casas mofaram. Não houve teto, parede ou chão que não amanhecesse com desenhos de borboletas e pássaros infiltrados, castelos de bolores esverdeados, teias de filamentos lívidos, serpentes e dragões de óxidos alaranjados que avançavam mordendo os canos. Nas primeiras semanas, as mulheres se esforçaram numa guerra sem quartel, varrendo, esfregando, polindo. Mas no fim do segundo ou terceiro mês, perceberam que não adiantava lutar contra aquela flora que ameaçava invadir-lhes também os ossos e convenceram-se de que já era uma boa fortuna manterem os cabelos livres de algas, a pele lisa e os dedos enxutos. E em cada cozinha ardia um candeeiro durante todo o dia, à volta do qual costuravam e preparavam o alimento, e cuja luz orientava a volta de seus homens.
Na última noite do sexto mês de trevas, Rosa acordou com um silêncio pavoroso alastrado nos ouvidos. Acostumada ao ruído constante das águas caindo, fossem os tamborins da chuva miúda, ou os surdos tambores da chuva grossa, fosse a peneira do chuvisco ou o rolar do temporal, aquele silêncio de faca penetrava-lhe os ouvidos, abria um clarão assombrado, ofuscava como luz cegando um olho habituado à penumbra. Em seguida ouviu longe, como um navio distante, o lamento da primeira sereia. Pedro dormia ao lado, e ela empurrou as cobertas com cuidado e calçou os chinelos. Fora, o ar estava fresco e leve, levantou os olhos devagar, e devagar girou a cabeça e olhou para cima. E nunca vira tantas estrelas juntas, tantas, tantas, a Via Láctea inteira, caminho de leite no céu. Estrelas riscavam o horizonte e caíam no mar, acendendo espumas frias.
– Acorda, Pedro, olha, vem ver o céu, vem, escuta o chamado das buzinas, pode ser um navio perdido, vamos à praia, anda, as outras casas estão se acendendo, olha, todo mundo nas ruas… – Rosa, parou de chover? O que foi? – Tanta estrela, o chão está fresco e cheio de frutas, dá a mão, vamos, não precisa se vestir, olha a Deolinda de camisola, põe uma toalha nos ombros, vem Pedro, vamos pra ponta do farol olhar o mar.
E quando chegaram, já os botos vinham em bandos, gritando e pulando, e atirando-se, cegos, na praia, em busca dos homens. Não havia naufrágio no horizonte, mas as sirenes chamavam, e todo o povoado se reuniu no promontório. E Padre Salustiano benzia as águas agradecendo a provação passada, “…e não faltou peixe para estes homens, e a chuva passou e agora Deus nos mandou de novo um céu cheio de estrelas…”
Mas não se ouvia a voz do Padre, as sereias cantavam mais alto, os botos espadanavam água e espuma e as estrelas caíam em chuveiro. E quando um menino com olhos de sonâmbulo quis se atirar no mar, foi Rosa quem segurou. Logo fez-se um cordão dos homens mais fortes. E, sem que o Padre mandasse, ela se benzeu e caiu de joelhos, depois o menino, e uma a uma as mulheres e crianças, e depois os homens, todos se benzeram e ajoelharam-se rezando.
Não se sabe quantas horas ficaram assim imantados, entre o sortilégio dos ouvidos e o murmúrio das rezas, o fascínio dos botos e o cuidado de conter os encantados. Mas a força de todos segurou cada um. E os que olharam para o alto viram: um Anjo se despenhou do céu, muito branco e leve, cisne e homem de alvas asas, todo plumas. O Padre falou que foi invenção, cuidado com o sacrilégio, mas nós vimos, os botos já se aquietavam e regressavam em fila para o fundo; e as estrelas se apagavam num céu lívido de espanto. O Anjo se despenhou do alto e as águas se tingiram de vermelho. E as sirenes se calaram todas de uma vez.
E então era o Sol no horizonte.
Lucia Fonseca nasceu no Rio de Janeiro, em 1940. Começou a escrever regularmente no início da década de 70, publicando poemas em suplementos literários de alguns jornais.Dentre outros livros, são de sua autoria:“Invenções do silêncio”, pela Livraria José Olympio Editora, “Rede fluvial”, ainda pela José Olympio,“Cadernos de geografia”(Editora Mitavaí), “Confissões de penumbra” (Ed. Rosa dos Tempos/Record), “Cantares”e “O paraíso era antes” (estes dois últimos pela Editora da Palavra). Mantém o site Vestígios.
Tinha vontade de arreganhar a boca e cravar no outro os dentes. Era a chuva. O barulho dela e os relâmpagos alimentavam o desejo. Desde pequena os temia. Sentia-se acuada, as pernas trêmulas na companhia de fantasmas. Não gostava da escuridão nas noites de tempestade. Perdia o poder de imaginar vaga-lumes.
A chuva era a lembrança da mãe, — “Corra, filha, suba! Esconda-se no armário” —, dos pingos grossos no teto de zinco, da louça quebrada e da voz dele abafada pelos estampidos do gesto. Era o retrato da menina esquálida, no armário. A bexiga apertada, a respiração presa. Era a ausência. O pão dormido na casa da tia distante, os pés descalços, o frio sem cobertor.
E não importava que o telhado agora fosse de barro e que a louça estivesse intacta na cozinha: o barulho da chuva despertava-lhe os demônios. Ouvia os mesmos gritos, sentia o mesmo medo. Queria trancar-se no armário — mas lembrava-se que não tinha um em casa. Tapava os ouvidos na esperança de que o silêncio lhe devolvesse a lucidez. Queria afastar a lembrança, a ira guardada nas entranhas e ouvir apenas o ressonar do marido, que dormia inocente, sem suspeitar dos desejos da mulher. Sem saber que um dia, sem explicação, ela viraria uma cadela enfurecida, rasgaria os lençóis, lhe cortaria as carnes e encheria de sangue, a boca.
Sem imaginar que até lá, em noite de tempestades e na falta do armário, ela enroscava-se na cama. E esquecendo-se dele, cobria-se com a ponta do lençol que restava — cantando para os fantasmas a canção de ninar da mãe: “Boi, boi, boi… boi da cara preta… pega essa menina, que tem medo de careta”.
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O gato
Um gato histérico arranhou o teto. Estava pendurado pelo rabo, o imponente bichano. E sobre ele refletiam-se as últimas luzes da madrugada – as estrelas caídas de sono, a noite ardendo pela chegada da manhã: Pobre gato! Pobre moça que ficou a olhá-lo no teto, enquanto arranhava o ar procurando por sua existência.
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O colecionador de moscas
Tudo é uma questão de tempo – ou do que você faz com ele. Aprendi isso na infância, enquanto minha mãe cronometrava os minutos que eu deveria levar para sair da cama, trocar o pijama, escovar os dentes, tomar banho, vestir o uniforme, engolir a comida e entrar no ônibus que me levava à escola.
Todos os dias, a mesma rotina. As frases matinais coladas num aviso de recados imaginário e os sorrisos grudados na face gelada da mulher. Éramos sós – e não me atrevia a perguntar-lhe sobre a ausência do pai. Não que eu não tivesse curiosidade, mas porque imaginava que a interrogação lhe custaria um tempo não previsto na mesmice dos dias.
Ela trabalhava como secretária num escritório no centro da cidade e de noite fazia bicos numa lanchonete. Saía logo depois do jantar, deixando na geladeira e em cima da mesa, uma variedade razoável de doces. Não gostava deles, mas me acostumei a puxar um banco e ficar olhando as moscas que vinham pousar nos glacês e confetes.
O que teriam em comum as moscas e essa mulher?
A pergunta me veio aos 12 anos, enquanto eu assistia à lambança dos insetos no bolo de aniversário que cortamos, comemos e depois ficou no balcão da cozinha para me fazer companhia em mais uma noite de trabalho dela.
Foram anos de observação até conseguir encontrar uma resposta e quando enfim encontrei-a, era suficientemente maduro para intuir que aquele conhecimento me renderia alegrias fortuitas e nenhuma preocupação com as mulheres.
Porque ao contrário do que imaginam os galanteadores de plantão, o segredo para conquistá-las não está em conhecer os melhores vinhos, o cinema de vanguarda, ou alguns poetas e artistas plásticos aclamados pela crítica. Dinheiro? Músculos? Isso também é balela!
As mulheres gostam de abismos e foram treinadas pela genética para acreditar que possuem o dom da salvação. Aí entram as moscas. Foram elas que me ensinaram – em seus sublimes voos para a morte – que é necessário juntar ao doce, um pouco de tristeza, espécie de amargura disfarçada: podem ser lembranças da infância ou mesmo uma fraqueza.
O importante é que elas, as mulheres, sintam-se não só atraídas pela confessa (ainda que mentirosa) angústia, como irremediavelmente presas a ela. Feito isso, voam como as moscas em direção ao abismo.
E por falar em abismo, ia esquecendo o principal: aprendi que as moscas têm vida curta. É uma pena que as mulheres não saibam disso.
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Descoberta
Ela acordou e descobriu que estava sem rosto. A cabeça estava no lugar. Mas havia algo de morto na face, nos olhos e mesmo no nariz, que antes achava arrebitado. Olhava-se no espelho e não encontrava as rugas nem as mancha escuras que trazia desde a infância. A imagem provocou uma sensação nova, um desespero sem dor. E quanto mais a olhava, mais sentia a inutilidade das coisas. Por que, afinal, os seus choros? E onde estavam agora, se não os via marcados na pele fina e alva? Lembrou-se da cicatriz do último acidente e levou a mão na altura dos cílios. Estavam inteiros, negros e sem nenhum sinal que denotasse o ocorrido: o natural seria que a expressão da face se contraísse e que a boca, por instinto, se mantivesse aberta por alguns segundos. Mas nenhum músculo mexeu-se. E como também não era mais possível denotar naquele rosto o espanto, deixou-se ficar olhando o espelho como quem assiste – sem crer – a um milagre.
Vássia Silveira é inquieta, mas por hábito diz que é jornalista e escritora. Já plantou árvores e fez filhas. É autora de Febre Terçã (poesias; Selo Off Flip,2013), Indagações de Ameixas (crônicas; Multifoco,2011); e dos infantis Quem tem medo do Mapinguari? (Letras Brasileiras, 2008) e Braboletas e Ciuminsetos (Letras Brasileiras, 2007).
Para Pedro, que das baforadas de seu cachimbo tantas vezes aqueceu minha enregelada existência
Deixei-me deitar na irregular sarjeta dos muitos pés. Deleitava-me dissipar vagarosamente no delicado ar citadino. Punha-me a devanear sobre os incontáveis dedos que me pus a passar. Incontáveis delgados e cilíndricos enleados pelas mãos de tantos e tantos formatos. Tessituras, marcas e cicatrizes. Eu que estive em tantos e tão diversos lugares, a auscultar o mundo. A provar buquês de timbres tão variegados na boca impregnados. Caminhei nas mãos da jovem. Soerguia-me como troféu pueril. Empertigava-se toda. Esticava as costas. Balançava os cabelos e punha-se a desenhar arabescos no espaço tendo-me por pincel — Não sabia que você fumava, Luciana … Não? Comecei faz pouco tempo, gosto do cheiro desde criança, mas não tinha idade, e tem meus pais também, sabe como é… Em seus lábios punha-me fazendo bico. Tragava-me enojada pelo gosto. Soltava-me pelas narinas maravilhada com as formas que a parte de mim transubstanciada em seus pulmões tomava. Olhava ao redor na expectativa de me apresentar para um amigo, ou despertar a curiosidade de um andarilho qualquer. Evolava teto acima em cinzas graduados, densos e assimétricos. Ali ficava eu a pairar nas lembranças. A preencher os sulcos da face envelhecida. Companheiro inestimável nas noites de solidão. Dedos experientes a me afagar em seus secos lábios. Era-me também parte de si. Um dedo. Dedo de se fumar — Onde minha velha há de estar? Foi e me deixou aqui. Penso que deveria era ter dado um sopapo naquele padreco: até que a morte os separe o quê, deixa disso. Não está essa minha velha chata a ralhar em todos os cômodos mesmo depois de morta? Seu cheiro não está por toda parte? Ora essa, há mais dela aqui estando morta do que eu aqui, vivo estando. Pousado ficava no cinzeiro outrora de ambos. Ali acolhido crispava. Chamuscava no algodão. Dava-lhe relevo. Argamassa em tela, levemente ia passando. Marcando. Escurecendo — Não mãe, por favor, foi sem querer. Para mãe, para, por favor, para, não faz isso pelo amor de deus, dói muito. E lá ia eu vincando, marcando, abrindo caminho em braço alheio. Creio que nesses lábios não tocarei. Não hei de ser tragado, a não ser em seu corpo.
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Campinas
Beatriz: viva por uma cidade inteira
Acordou cedo sem nem bem ter dormido. Prolongava a noite no arroxeado de suas pálpebras carregadas. Lavou o rosto com a pressa de quem pouco tem a fazer e por isso adianta-se à espera do compromisso que não vem. Ouvia ele na escada os passos da novidade. Parecia poder tocá-la por detrás da porta. Não era nada. Ele só morava em Campinas. Lugar difícil. Metrópole que guarda nostalgia do interior solapado sob o acre cheiro de urina da praça da matriz. Ainda pior. Cidade rápida quanto mais parada é. Desprovida de estrelas para se observar. Campina que se suicidou em asfalto escaldante. Escapamento sufocante. Íris lacrimejante da manhã ainda a desabrochar. Lépido, jogou o casaco em seu corpo esguio. Nem bem escovara os dentes. Sabia que tinha todo tempo. Entretanto, o fluxo das ruas atulhadas de gente desprovida de gente falava-lhe o contrário. Seguiu os passos de um rapaz. Entrou inopinadamente no velório. Não conhecia o defunto. Nem aquelas pessoas iguais, todas de preto por respeito. Curioso, olhou de esguelha. Despreocupadamente, observou o produto daquela embalagem de madeira. Um velho. Acho que já passado do prazo de validade. Bigodes curtos. Acinzentados tal qual a rala cabeleira. Fios espalhados na morena cabeça. Nariz mal entalhado. Lasca de toco cortado sem cuidado. Grossas mãos inchadas da enxada soada em grama seca. Queria fugir aquele terno do peito do homem. Creio que se fosse dado como à Sansão um último fôlego ao senhor imóvel, teria ele rasgado aquela pompa ao meio. Colocado para correr aquelas lombrigas que jamais tomaram leite de vaca. Só da caixa. Todos esses parentes estranhos. Próximos distantes. Ecos de seu sangue repisado. Teria ele chamado as galinhas. Porcos. Cavalos. Vacas. Insetos variegados. Tão mais gente que essa gente. Desinteressados. Tristes por não mais compartilharem o silêncio desse matuto. Nada de herança. Fazenda. Divisão de bens enquanto o presunto ainda nem endureceu. Queimaria as rosas do caixão com seu cigarro de palha. Enchê-lo-ia de capim molhado de sereno. Sem ter o que fazer, seguiu Azazel no tédio alarmante da eternidade sem lembrança. Pensava ele: — Mataram a morte.
Caio Russo estuda História na Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – Campus de Assis. Atualmente pesquisa História da Arte e Estética, com enfoque em Nova Música do Século XX e o conceito de Feio na Teoria Estética de Theodor W. Adorno. Dedica-se à prosa, com predileção pelo conto. Escafandrista de nascença, põe-se a relatar sobre os microscópicos animais, objetos e resíduos, que decantam do fundo do lago, a pairar no vidro do capacete um instante antes de nunca mais serem vistos nas turvas águas dos dias. Escreve para não afogar-se em si mesmo.
Quer saber? Eu quero mesmo é um tigre pra me comer. Valente, potente, crescente, varando a noite da cidade com seu brilho de tigreperigoso, feroz e desabrido, mas também mavioso.
Cheguei a vê-lo sábado, no parque, pela manhã. Coincidentemente, ou nem tanto assim, nos encontramos lá, eu e o tigre. Abobalhados que ficamos, mal conversamos. Não pude decifrar com as sutilezas necessárias os seus rugidos e balbucios. Acho até fui grossa. Raiva de ele ter dado pra trás, recuado, desistido.
Por isso agora quero outro, outro tigre, mais valente, mais feroz, mais impetuoso. Mais estrondoso e mais doce. De pelo estonteante, pra me lanhar o rosto e os calcanhares. Caninos fortes, incisivos, pra me deixar marcada da posse.
De papel? Sim, pode ser um tigre de papel, não há restrições quanto a isso. O fundamental é que desempenhe bem seu papel. E que faça surgir flores e bichos onde (aqui dentro) só há ausência. Podem ser bichos peçonhentos, venenosos pra valer, não importa. Mas que sejam bichos vivos, esvoaçantes, com movimentos leves e rápidos, intrépidos. É isso que eu quero.
Um tigre que plante em mim a vida que não tenho mais. Que faça a seiva do sonho me preencher de energia nova, e que eu abandone de vez o melodioso chamado da sacada doce, a rua profunda lá embaixo me acenando, oferecida.
Um tigre que não seja um tigre de verdade. Seja só o desejo do tigre, o enigma do tigre, a imagem do tigre. Signo oco mas fecundo, pleno. Carregado por dois ou até três homens mascarados, atores, que o façam se movimentar pelas ruas e avenidas. Eu quero é isso mesmo. Atores. Que finjam com emoção pungente e suficiente para me envolver, me enlaçar, me aprisionar e assim quem sabe me libertar do feitiço do tigre primeiro, menino do parque, com sua juba que mais parece de leão e que cravou fundo em mim suas garras, rasgando-me o peito, deflorando-me a carne, deformando meus olhos, inchados e atordoados do espanto de tanto chorar.
Tigre ator, ainda por cima. Por isso quero outro. Não igual, mas mais avassalador, mais ator, e que não me leve para os abismos e penhascos da alma dolorida nem da natureza ressequida, e sim projete em mim o brilho luminoso dos painéis e dos carrosséis meninos, onde eu possa sentar nos cavalinhos e girar sob o olhar de sua proteção. E vez em quando um elefante branco…
Tigre ator, ordeiro, atroz. Desestabilizador das certezas que a angústia obsessiva da parede de pedra procurava evitar fossem vistas. O sintoma: toctoctoc. Mas com você não há toc, só que também não há mais toque. Eu quis te beijar, falei: Posso? E você: Ai, parece uma criança pedindo posso, mas não, não pode não. Por quê? Não quero mais, somos amigos a partir de agora, nada mais, mas eu gosto de você, tigresa, gosto sim. Não me chame assim que é vulgar. Ué, você não gosta da música do velho moço baiano? Gosto, mas ele estava apaixonado por ela, e aqui, se pode haver um paralelo, é o inverso.
Quero, quero sim, um tigre de bocarra. Nada de doçura, nem fragilidade. Quero a posse literalmente animal, que não quer saber de mais nada a não ser do desejo dos corpos, desejo das almas-bocas que se procuram e se querem unidas, sem saber do amanhã, mas inteiras no hoje da natureza como ela é.
Cíclica.
E por isso, meu tigre, fique em paz que amanhã tudo recomeça, ou depois de amanhã. E você virá, eu irei, e nós iremos. E vez em quando um elefante branco…
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Comilança
A Marcelino Freire, que me fez olhar melhor para o título do livro de Francine Prose (Para ler como um escritor), o que acabou originando esta brincadeira, e a Francine Prose, autora desta obra deliciosa.
Para ler, como um escritor. Ou uma escritora.
Às vezes dois ou três ao mesmo tempo. Mas um de cada vez costuma ser mais saborido saboroso gostoso demais.
De lambedela em lambedela, me lambujo, cravo os dentes. Mordo pedaço por pedaço, degluto, engulo ele inteiro. Pasto e repasto.
Pelos, cabelos, axilas, umbigo e cotovelos. Mas também pés, costas, nuca, espáduas, olhos e nádegas. Nariz, coxas, batata da perna, canela.
Neurônios em movimento, remastigo cada uma de suas sinapses sentimentos, adentro suave sua mente e nela me faço hóspede por algumas horas, dias, anos. Às vezes, quando a comilança é boa pra valer, por uma vida inteira.
Contamino-me por ele, deixo que me coma também, de dentro pra fora e de fora pra dentro, como quiser, que essa inundação fertiliza minhas águas, que rebentam abençoadas, venturosas, integradas e sempre mais esperançosas de haver guardado em meu útero-flor uma sementinha, pequena que seja, dos olhos do escritor. De sua mirada para o mundo e para as palavras, seu namoro com o mundo que se faz pelas palavras, estas suas palavras que são o seu meu nosso mundo.
E saio satisfeita, plena, devassa, dormida, encontrada, recriada, desfigurada, para o próximo banquete amor.
Marina Ruivo é doutora em Letras pela USP, professora da Unimonte (Santos/SP) e colaboradora freelancer de várias editoras. Escreve ficção desde a adolescência, mas por muitos anos tentou se convencer de que deveria ficar somente no terreno da crítica. Como o desejo da escrita não morria, resolveu voltar à prática e vem participando de diversas oficinas de criação literária. Seu conto “Riozinho” fará parte do número 6 da Revista Sexus. É mãe do Pedro, um menino de 5 anos que ainda não sabe ler, mas é amante de histórias e livros.
O homem parado no quintal veste roupas sóbrias. O chapéu largo, a capa de chuva e os sapatos impermeáveis protegem-no do frio e da chuva. Ele mantém-se imobilizado durante todo o tempo. Uma vez ou outra é possível percebê-lo fazendo anotações. Escreve compenetradamente. O bloco e a caneta, escondidos sob a capa de chuva, são retirados com rapidez. E, ali, é registrada alguma informação preciosa. O semblante sério não o deixa mentir quanto a isso, embora não se possa vê-lo totalmente. Os olhos, sob a aba do chapéu, faíscam durante a noite. Vasculham-na inutilmente, em busca de não se sabe qual segredo. Frustram-se por não encontrá-lo. Não desanimam, repetem insistentemente a operação. Quando o dia amanhece, ele, o homem, está lá. De pé. Permitindo-se um alongamento discreto dos braços e das pernas. As cãibras, as malditas cãibras. A família acostumou-se à presença dele, embora, no início, se sentisse incomodada com o relatório das atividades de cada membro da casa.
Quando completava um dos blocos, encerrava-o em um envelope pardo e o remetia para um destinatário desconhecido. A família, receosa por sua segurança. A atitude quebrava o protocolo da imobilidade – o único conhecido daquele homem. E, portanto, a salvaguarda de seu caráter. O deslocamento até a agência dos correios representava alta traição. Passaram a ignorá-lo. Não lhe serviam água ou o almoço. Nenhuma gentileza a mais foi praticada. Sempre que era visto com o bloco de anotações passara a ser ridicularizado. Os membros da família saíam e conversavam todos ao mesmo tempo. Tornava-se impossível o registro do que quer que fosse. O homem parado no quintal redobrava sua concentração. Percebia-se seu esforço para a realização de seu trabalho, mas era inútil. Acentuaram a confusão ainda mais: da arrumação dos cabelos às roupas. Vestiam-se de modo extravagante ou saíam nus para as atividades fora do lar. A situação parecia sair do controle. Ele desesperava-se. Desfazia-se.
A traição do estatuto da imobilidade e da vigilância contínua atentou contra a reputação do homem parado no quintal. A instituição que o havia incumbido da tarefa, indispôs-se. Ele não tinha permissão para deixar o posto. Fariam chegar a ele todo material necessário para o cumprimento de sua tarefa. Retirariam a documentação produzida. Porém, a precipitação atentou contra a credibilidade junto à família. Ele deveria passar a impressão de que estava ali para protegê-los. E não espioná-los. E se os espionava, era por motivo de segurança. A alta cúpula admitiu despedi-lo. A cogitação de dispensa o abalara. Outro protocolo foi quebrado. O homem mais velho da família entrou em contato com a organização que colocara o homem parado em seu quintal para a resolução do impasse: sugeriu que o transferissem. E outro viria para o seu lugar. A agência não apenas negou a sugestão, mas reforçou uma decisão tomada de última hora em mantê-lo no quintal. Tudo isso foi comunicado num exíguo bilhete, que em suas linhas finais dizia: Espero que aceitem e entendam. Seguido da assinatura com as misteriosas iniciais J.K.
Mariel Reis é contista, ensaísta e editor. Publicará, pela editora Oitava Rima, no 1º semestre de 2015, o livro Bordel de Bolso (narrativas).