a língua áspera estala o lodo. de meia em meia hora um novelo sobe à úvula. engulo novamente – o estômago vazio –, vai que amanhã só coma os restos das baratas. a geladeira cheia, mas até alcançá-la abate-me a aeronáutica de cismos voadores. sem contar depois de abrir a porta, o frio desarticulado arma as travas dos lábios. ah, sobreviver no errante estado para-raio. acostuma-se, sabe? não precisa de beleza: eu ponho a mesa baixa pros ratinhos, mastigo o vidro estilhaçado da visão-quebravento a favor do rasgo e enrijeço até o ponto em que estremeça os ócios. próxima, ouça, cavalga a trovoada – não tarda o horizonte romper-me-á em sobremesa.
***
Herança
Confiou-me a história pelas rachaduras em minhas mãos. Mãos de anciã que acariciam o mundo às costas como se carregasse um bebê morto rumo ao milagre extinto. É-se sempre um bom tempo para morrer e eu perdi homens em conflito consigo. Choro mais por não ter ido, corroendo a boca pelo excesso de sal e a falta de chuva. No entanto em casa a umidade não para de aumentar e não há reza que acuda os quartos vizinhos transbordando por debaixo da minha porta. Só me restaram cartas de quase-amor de despedida e ainda dizem para eu sorrir pois volta o sol às cinco e quarenta e cinco todo dia. Mas perco o fôlego na cama, deitada, a cada madrugada ao escutar o galo que canta por uma hora seguida, desfalecendo às três da manhã sem nenhuma luz antecipar-se para acudi-lo. Troco toda a esperança traíra pela tempestade que se perdeu na estrada no instante do choque de suas fendas vulcânicas. Seu corpo adormeceu por lá entre magma e faróis que passavam lentos observando o cataclismo, o qual herdei de ti – nessas horas deus devia estar em sua escotilha à prova de som, intocável pela fragilidade humana. Há tanto que só falo comigo mesma porque os monstros têm medo de mim e se escondem mantendo a lâmpada da consciência acesa. Abdico das enganosas cartas, elas que se virem em pipas, origamis, balões de seda. Este ano anuncia a maior seca no meu peito encalhando todos os barcos de papel. Mina em rebanho a areia e o amor que veio imaturo me encontra velha, arrebentada, com os olhos vazados de ampulheta. Perdi a contagem que regressa para me lançarem como âncora. O aceno desde o cerne habituado ao meu adeus.
(Larissa Amaral Teixeira usa o pseudônimo de Lara Amaral como assinatura poética. Nasceu em Brasília em 1986. Formada em Jornalismo, escreve poesia desde os 13 anos e arrisca alguns contos de vez em quando)
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Luís de Camões
Mencionou apenas que o tempo havia fechado em sua casa, depois falaria sobre isso, precisava, antes, resolver. Dias passaram e não houve qualquer retomada do assunto, em vez disso, ela sumiu simplesmente. Três dias sem notícia. Ele ficou preocupado. Escreveu perguntando se estava tudo bem por lá. Por aqui, o tempo fechou também, quis fazer troça a fim de provocar curiosidade. Mas, em seguida, esclareceu, evitando não assustá-la: fechou em termos de clima, está chovendo desde domingo. Acrescentou, de puro charme, se bem que é normal, todo ano, onde quer que estejamos, veremos chover nos dias 21 e 22 de novembro.
Isso era verdade; todavia, escrito num e-mail, soava sem sentido, um tanto excêntrico, considerou. Não pergunte por que nem pense em coincidência, continuou ele, querendo manter algum fio de mistério, a verdade é que chove, invariavelmente, no aniversário de André Gide e um dia antes, na nossa data. Depois, aproveitou pra dar vazão aos seus conhecimentos astrológicos: não sei se você se lembra, mas Gide abre Sagitário, enquanto eu e você encerramos Escorpião. Ela apreciava tanto os romancistas franceses quanto a astrologia, de modo que ele podia se soltar, sem medo, nas alusões. Ademais, raramente era incompreendido por ela, ao contrário, contava com uma interlocutora culta, capaz de lhe responder, segundos depois, com comentários perspicazes e outras tantas referências que o deixavam ainda mais disposto a desenvolver o tema.
Esqueceu-se de mencionar outros elementos relativos ao aniversário, hábitos e males que tinham em comum: as dores de coluna; o evitar comemorações; a necessidade de ficar só em casa; a mania de fugir pra aeroportos onde pudessem contemplar os aviões. Eram do mesmo signo, melhor: nasceram no mesmíssimo dia e mês — ela apenas um ano mais nova que ele. Portadores de uma natureza singular, estavam tão acostumados a causar espanto nas pessoas ao redor, que se agarravam àquelas datas, àquelas referências, ao gosto em comum, e se confessavam, nas milhares de mensagens que diariamente trocavam, a alma gêmea do outro, a cara-metade.
A forte empatia do presente havia sido outrora abalada pela tentativa fracassada de viverem juntos. No início, quando se conheceram, cometeram o equívoco de dar vazão concreta ao sentimento, e lá foi ela de escova de dentes e sandálias de tiras pra a casa dele, donde fugiu, deprimida, meses depois. O rompimento significou um período difícil de telefonemas ríspidos e farpas pelo MSN — culpa e tristeza pra ele, raiva e depressão pra ela. Foram passando, todavia, foram passando por cima das mágoas, se reencontrando naquela zona tranquila dos que nasceram, de fato, pra ser amigos, jamais amantes. Sexo complica tudo, decretou ela, certa feita, véspera de ano-novo. Mas brindo a você de corpo e alma, devolveu ele, terno. E de tanto mandar mensagens alta madrugada — só você me entende, ela desabafava, quando penso em alguém só penso em você, ele citava — viram renascer a amizade, agora com alicerce palpável, acreditavam.
Terminou de escrever o e-mail, baixou o visor do laptop,correu à cozinha atrás de algo pra beber, a garganta pra lá de seca. Achou chá gelado, água mineral e suco de maracujá na geladeira. A esposa continuava a mania de nunca comprar cerveja, apesar de terem combinado uma lista de itens básicos, fosse de quem fosse a vez de ir ao supermercado. Mas resolveu não protestar, estava mesmo a fim de ficar na sua, em paz. Até porque se quisesse interrogá-la naquele instante acerca da exclusão de sua cerveja, única exigência que ele, o pobre e desprezado provedor da casa fazia, onde encontraria a esposa àquela hora? Na casa da irmã, a cinco quadras, enchendo bolas de assopro, bordando painéis ou discutindo o recheio do bolo de aniversário do único sobrinho? Deveria, é claro, haver algum bilhete nalgum canto da casa explicando seu destino e provável horário de retorno. Um bilhete escrito rapidinho, como ela gostava de dizer o tempo todo. Rapidinho, amor, repetia a esposa antes de qualquer ação. E eram, realmente, bilhetes que aparentavam uma origem meteórica, quiçá descuidada: duas frases, beijos em letras largas, alguma indicação desnecessária do tipo tem pavê de ameixa na geladeira ou esquente o frango no micro-ondas, e não me espere, amor: vou demorar. Os bilhetes da mulher. Podia encher um baú com aquilo. No fim das contas, eram todos inúteis, pois ela sintetizava neles justamente as informações que passava 24h repetindo: quando ia sair, quando ia viajar, a que horas chegaria do shopping, a que horas iria à casa da irmã ajudar nos preparativos do aniversário de seu único e amado e idolatrado salve, salve, sobrinho. Era, portanto, dispensável lê-los, visto que as frases dela colavam-se à mente dia e noite, noite e dia.
Nada de cerveja. Ele tentou se resignar frente à geladeira aberta, abarrotada de potes de plásticos com restos de almoço, restos de jantar, bolo de laranja de dois dias, queijos, iogurtes, gelatina e até achocolatado! Ele se chateou: boa essa, não compra sua cerveja, mas compra achocolatado em caixinha. Não tinham filhos ainda, pra que diabos a esposa comprava Toddynho? Pro sobrinho? Deu de ombros, escolheu chá gelado. Encheu duas vezes o copo de 300ml, a sede jorra na alma, brincou, por isso, nada a estanca.
Tomou banho. Vestiu o pijama e deitou, verificando, antes, se havia alguma nova notícia da amada amiga na caixa de entrada. Absolutamente, nada. Cochilou, desejando, num ponto da mente, acordar e dar de cara com uma drástica mudança em sua vida, mas uma mudança tão significativa que o transformaria naquelas pessoas elegantes, incapazes de reclamações pelos cantos, incapazes de insistir nas tristes narrativas de problemas diários, uma pessoa elegante por dentro e por fora, suportando tudo com um sorriso nos lábios, botaria, inclusive, o Dalai-Lama no chinelo.
Despertou minutos depois cara a cara com o incontornável: mudanças são méritos, é preciso agir em prol delas. As pessoas elegantes e impossíveis continuariam, portanto, a povoar a mente, acenando do outro lado da pista, enquanto conformação e preguiça fossem império. O dia todo aquilo — nenhum e-mail, nenhuma notícia dela, somente a chuva e a dor de coluna ininterruptas.
Levantou, tomou um Cataflan com mais meio copo de chá gelado. Sede e desejo de algo doce na boca. Comeu um pedaço de bolo de laranja com chocolate. Não demorou meia hora, vomitou tudo. Era só o que faltava, praguejou, abrindo a porta da área de serviço a fim de pegar o pano pra limpar o estrago no piso branco da cozinha. Criara intolerância ao medicamento? Ou foi o bolo? Porcaria! Se não limpasse o chão, no outro dia a esposa decretaria a 3ª Guerra Mundial, com armas químicas e ataques terroristas ao prédio da ONU. Pegou água sanitária e derramou meia garrafa no pano. Limpava, meio enojado, por dentro, somos nojentos de tão iguais, pensou, se contendo pra não pôr o estômago pra fora outra vez.
Lavou as mãos diversas vezes, escovou os dentes, enxaguou a boca com antisséptico. Voltou ao laptop, caçou a amiga no Skype, no MSN. Mandou novo e-mail. Pedia resposta urgente. Não veio. Sabia-a notívaga, quase a viver do outro lado da tela. Criou coragem e copiou a mesma mensagem via celular. Não quis ser invasivo, justificou, mas você sumiu e estou preocupado. Combinaram, há tempos, de evitar telefonemas, em respeito ao ciúme do atual marido dela, que não conseguia acreditar naquela amizade pós-cama dos dois. Naquele momento, no entanto, ignorou o acordo e ligou. Uma, duas, três vezes. Caía direto na caixa. A pessoa desapareceu. Deveria estar com algum problema ou, quem sabe, dando um tempo. Cansada da intensidade da correspondência entre eles? Não podia ser, afinal, juraram jamais abrir mão da amizade, prometeram embalar com palavras gentis até mesmo um cisco surgido na rotina, embalar e mandar ao outro, a fim de manter contínua a linha do afeto, a imensa ternura que, um dia, quando tentaram viver juntos, quase mataram.
Dormiu e sonhou uma coisa engraçada: ela, com aquela mania de listas, propôs que cada qual elencasse três coisas importantes que mais os afastavam, bem como três coisas que mais os aproximavam. No sonho, ele não levava a sério, dava gargalhadas, mas escrevia as listas, considerando, ao final, ser um capricho, como tantos outros por ela inventados. Acordado, de novo, lembrou que dentro do sonho as três coisas que os afastavam eram:
a) ela não gosta de sexo;
b) é excessivamente desconfiada;
c) dá declarações irresponsáveis, às vezes, sobre assuntos que sequer domina.
Na lista das coisas que os aproximavam, estavam:
a) ela dá declarações irresponsáveis, às vezes, sobre assuntos que sequer domina;
b) não gosta de sexo;
c) é excessivamente desconfiada.
Achou gracioso aquilo: então, tudo que os afastava também os aproximava? Pensou em gravar uma seleção com suas músicas preferidas pra um dia de chuva e dor de coluna. Ela iria aprovar. Mas, olhando pela janela, veio uma pontada. A dor de coluna piorou. Buscou o número fixo da amiga na agenda. Ela lhe havia passado quando estava prestes a ser mãe pela primeira vez. Só ligue em casos extremos, pediu, 48 horas sem notícias minhas, por exemplo, já é uma tragédia grega, brincou. Respirou fundo, encheu-se de desculpas caso o marido ciumento atendesse, ligou. Ninguém. Ligou de novo. Mais uma. Outra. E outra vez, até completar dez tentativas. Em vão.
Repetiu o remédio, torcendo pra não vomitar. Conferiu pela milésima vez a caixa de entrada: não havia rastro dela. Paranoico, abriu a caixa de spam, enganando-se que, subitamente, o provedor poderia peneirá-la, sem razão, após tantos anos de mensagens diárias. Tinha lógica? Não, não tinha, mal digitava as primeiras letras do nome da amiga, um recurso do sistema fazia surgir o endereço eletrônico dela, magicamente a adivinhar suas intenções. Mundo competente e dinâmico era o virtual, quisera viver dentro dele, jamais precisar do real. Por que então o sistema falharia, excluindo-a sem mais nem menos? Besteira, bancava o besta, sem dúvida.
Ainda assim, subiu e desceu pela caixa de spam, observando os subjects, surpreso com tanta idiotice que lhe enviavam: assinaturas de revistas, correntes esotéricas, produtos pra emagrecer sem comprometer a massa magra, pacotes de viagem aos milhares, guia do orgasmo feminino, mandava uma tal Cíntia, ele riu: tentador, minha filha, muito tentador, quem sabe um dia?, ofertas-relâmpago de sites de compras coletivas, informes de deputados, convites pra lançamentos de autores desconhecidos, pedido de ajuda pra uma criança com câncer, convocação urgente pra ir à Receita Federal, como assim?, se assustou e ia abrindo a mensagem, mas se lembrou, antes, que a Receita não envia e-mail ao contribuinte. Oi rapaz senti sua falta, seguem as fotos, dizia um tal de Genésio, não conhecia Genésio algum, exceto o da letra de Aldir Blanc, quando ele fere, fere firme/dói que nem punhal/quando ele invoca até parece/um pega na geral. Sorriu com a memória espontânea do samba. De fato, um pega na geral não é moleza, não; os caras tinham precisão, bastava meia dúzia de palavras e se cristalizava um mundo. Houve um tempo em que a música brasileira fazia diferença, tempo morto, decerto, hoje nem rádio ouvia, entediado com o desconhecimento, a falta de talento, pior: o ouvido torto dos novos compositores. O mau gosto estava na ordem do dia; portanto, melhor evitar, ouvir tango, se refugiar na música clássica, mergulhar em acervos antigos — ultimamente andava de paixão com certas cantoras francesas dos anos 60-70, entendia um pouco de francês. Melancólicas, lindas, elas jamais o decepcionavam.
Meio anestesiado pelo Cataflan, desistiu de bancar o espião da rede e tratou de dormir. Quando a esposa chegou, barulhenta e cheia de sacolas, ele sequer percebeu.
Viajou na manhã seguinte, repetindo a si próprio que nada grave haveria de acontecer à amada amiga. O coração amiudado, querendo e não querendo prever cortes, problemas. Imaginava o marido ciumento descobrindo a senha dela, adentrando no conteúdo dos infindos e-mails, interpretando com maldade as brincadeiras, estranhando a intimidade entre eles.Abriu os primeiros botões da camisa: calor súbito e incômodo impedindo-o de respirar. Aquele imbecil que não tocasse um dedo nela. A mulher da minha vida, pensou, constrangido pelo próprio jeito de pensar assim na mulher outrora possuída, mas perdida no descompasso da rotina a dois que não conseguiram manter. Renascida das cinzas, outra vez transformada romanticamente em alma gêmea, confidente, sacralizada, nada mais poderia tirá-la dele, nada, entendeu? Esquece isso, criatura, se censurou, você é um homem feito ou um menino engatinhando?
No avião, esperou pacientemente a comissária liberar o uso de aparelhos eletrônicos pra, enfim, abrir o arquivo com o mapa astral da amiga tão amada. Concentrou-se em cada quadratura, tomou novas notas, enquanto consultava todas as tabelas, verificando os movimentos dos astros desde o dia em que ela cessou de mandar notícias. Considerou indicativos ruins, outros nem tanto, sentiu a saudade comprimindo o peito em meio à ruma de pensamentos agourentos. Uns eram taxativos: aconteceu alguma coisa grave, anta, se toque; outros ponderavam: calma, da outra vez ela sumiu por dois dias, ele se preocupou em excesso, entretanto, era somente uma pendência doméstica — o filho caçula pegara sarampo e ela se desdobrava em atenções noite e dia ao lado dele, conforme toda boa mãe há de fazer.
Resolveu parar com o pensamento obsessivo em torno dela, curtir a viagem, mesmo a trabalho. Meteu os fones nos ouvidos, concentrou-se nas divas francesas.
Em terra, foi logo localizado pelos monitores simpáticos do congresso. Deram-lhe as boas-vindas, falaram da honra em tê-lo entre eles, declararam adorar todos os livros dele, mas, sobretudo, o último. Ofereceram-lhe água, balas doces, pediram desculpas por terem de esperar outro congressista cujo voo estava programado pra chegar dali a meia hora. Não faz mal, ele disse, dispersando a angústia diante de tanto rosto abarrotando o Santos Dumont. Na Van, gostou de saber que a organização do congresso reservou-lhe um hotel três estrelas conhecido, no finalzinho de Copacabana, quase Ipanema. Pronto! O Rio de Janeiro entraria em sua alma, pelos olhos, pelo nariz, e faria com que esquecesse todas as preocupações. Aninhou-se à janela e foi curtindo a vista da orla carioca.
O resto do dia foi bastante animado, e a atenção foi ocupada pela belíssima abertura do evento, a cargo de um dos nomes mais representativos da terapia holística. Depois, o reencontrar colegas distantes e queridos, o clima festivo das refeições, a troca de ideias, o passeio pelo calçadão no fim de tarde, conversando amenidades com uma moça interessantíssima, que pesquisava a relação entre música e signos. À noite, revisou os slides da palestra preparada dias antes de embarcar, cortou informações repetidas, acrescentou dicas extraídas do último livro zen-budista lido, substituiu imagens, aumentou a lista final de agradecimentos.
A caixa de entrada continuava a não dizer nada sobre ela, mas ele tratou de não dar vazão a neuroses, impôs-se um limite, chega, também não é pra tanto, quando ela quiser, aparecerá. Ligou pra esposa, e depois de falarem sobre o básico da casa, das contas, dos familiares e amigos em comum, ficou um tempo enorme a trocar indecências com ela, recuperando o hábito de quando namoravam e se autoestimulavam a distância. Um tanto maravilhado por se saber ainda excitado com a esposa, por essa partilhar com ele a mesma disposição pro sexo, prometeu que quando regressasse trepariam cem vezes sem parar, cento e uma, ela disse, cento e duas, ele consertou, trezentas, murmuraram juntos. Despediram-se, e ele pensou em agradecer aos Céus aquela dádiva, afinal, tinha um casamento bom, por vezes morno, por vezes entediante, mas, quase sempre, bom, correto? Na mesma hora se envergonhou: e se estivesse se entregando à rotina medíocre, se estivesse se conformando à falta de coragem pra dar o salto no escuro que a vida há anos lhe pedia? Salto? Que salto? Abriria mão de tudo, voltaria a apostar na velha ilusão de um futuro ao lado da amada amiga? Ficou confuso, não sabia mais o que era percepção, o que era bobagem, então, preferiu dormir sem oração alguma.
Sua palestra foi tranquila, com as pessoas, ao final, retomando, comentando, pedindo novos esclarecimentos acerca da analogia que ele fizera entre a justiça humana e a justiça espiritual. Alguém levantou dúvidas sobre uma passagem bíblica e ele, pacientemente, explicou, recomendando a leitura do seu segundo livro, lançado há quase dez anos, cujo foco era justamente a análise da repetição de alguns carmas em decorrência da ignorância humana sobre a lei de atração e repulsa. No coffee-break, recebeu parabéns pelas palavras iluminadoras e autografou alguns livros, sentindo-se, enfim, útil.
Antes de retornar, comprou uma lingerie pra esposa, auxiliado pela vendedora que lhe assegurou ser o modelo escolhido sensualíssimo, superconfortável e sem erro. No avião, porém, sentiu-se mal ao contar sete dias de ausência total da amiga amada e prometeu investigar. De que maneira? Não sabia, mas havia de encontrar um jeito. Em casa, no entanto a esposa recebeu a lingerie e em resposta fez valer as promessas trocadas por telefone. Sugou-lhe, gulosa, toda e qualquer energia, deitada, em pé, sentada, de costas, a esposa estava imbatível, só pararam quando o cansaço dominou os dois.
No banho, ouviu o telefone chamar e a voz da mulher responder exatamente aquilo: que ele estava no banho. Temeroso de perder uma ligação da amiga sumida, gritou que tinha acabado, podia atender, e quase caiu na passagem do boxe, descuidado, a derrubar frascos de xampu e sabonetes. Mas quando chegou, enfim, à sala, a esposa já havia desligado. Quem era?, quis saber. Um homem, vai ligar daqui a dez minutos, ela disse, parecendo não notar o jeito nervoso dele. É interurbano, tornou a esposa, displicente, é a segunda vez que te procuram. De repente, riu e comentou que a pessoa do outro lado falou uma coisa estranha, deveria ser, obviamente, um trote. O quê?, ele perguntou, o coração aos pulos, podia ser o tal marido ciumento, pensou, valha-me Deus! Disse que era delegado do Tocantins, esclareceu a esposa, imagina, um delegado te ligando de Palmas, voltou a sorrir num jeito de descrença. As pessoas não têm mais o que inventar pra tirar o sossego alheio, acrescentou a mulher.
Um delegado de Palmas! Ele sentou-se na cama, de toalha enrolada na cintura. O chão ameaçava ruir, logo as criaturas do Mal acenariam, satisfeitas com a miséria dele. Palmas era justamente a cidade pra onde a melhor amiga se mudou, após se casar com um professor. Ficou a olhar o aparelho sem fio, largado pela esposa em cima da cômoda. Os fatos desfilaram qual páginas de um longo arquivo: casara-se com a melhor amiga, não deram certo, romperam, firmaram um pacto de amizade diária e eterna; ele conheceu a atual esposa, enquanto a amiga conheceu o tal professor. Não o amava, ela frisou, mas se davam bem, o que justificava tempos depois largar tudo pra acompanhá-lo ao Tocantins, quando o sujeito foi aprovado num concurso federal. Não pôde se despedir pessoalmente dela, os ciúmes do marido, ela justificou, esse sentimento tão mesquinho. Ele, mais uma vez, disse não ser problema, entendia, como não? Vieram os dois filhos dela, o desejo de que ele batizasse o mais velho, infelizmente, um desejo barrado, ela confessara no Skype: o marido era tão possessivo, tão incompreensivo, se desculpou. Não faz mal, ele a tranquilizou, fazemos de conta que sou o padrinho reserva do garoto, propôs.
Ele havia espancado-a, concluiu nervoso, só podia ser. Ou, pior, matou-a! O corpo todo formigou frente àquela possibilidade, sua melhor amiga, não, sua alma gêmea!, a verdadeira mulher de sua vida, eterna cara-metade. Deveria criar coragem e ir atrás dela. Talvez dessem certo dessa vez, por que não? Estavam mais maduros, se conheciam melhor. Olhou a esposa real, silenciosa, de vestido curto, pés descalços, a desfazer a mala dele. Sentiu remorsos. Sim, não estava certo, mas, Deus, o que poderia fazer? O desgraçado havia matado, matado a mulher de sua vida!
O telefone tocou de novo e ele foi atender, trêmulo. Quando ligara pra ela, dias antes, alta madrugada, o aparelho, com identificador de chamadas, gravou as dez tentativas do número dele, daí a curiosidade do delegado pela insistência das chamadas, três, quatro horas após o crime.
O crime! Ele se contorceu, confuso, contendo-se pra não se meter embaixo da cama, gritar pela mãe, pelo pai, pelo irmão, como quando era criança e os relâmpagos o assustavam. O miserável fizera algo ruim com ela, logo ela, sua amada imortal.
Como ela está?, ele se viu perguntando, está viva? Ela sobreviveu? Vivíssima, disse o delegado, melhor do que eu, mas… você é quem? Parente da vítima? Amigo, ele disse, somos grandes amigos, conheço-a há mais de vinte anos. Interessante, disse o delegado, e se viram recentemente? Infelizmente, não vejo minha amiga desde que se casou com aquele cidadão e se mudou pra aí. Ah!, fez o delegado, mas ontem quando liguei sua esposa disse que o senhor estava viajando, não? Ele se irritou: sim, meu amigo, eu estava no Rio de Janeiro, num congresso, tenho bilhete, comprovante de hospedagem e pilhas de testemunhas. O senhor está insinuando o quê?, questionou, nervos em frangalhos. Não insinuo nada, meu senhor, respondeu o delegado, calmamente, apenas apuro fatos, como já disse, encontrei dez ligações do seu número no identificador de chamadas, então… Tá certo, tá certo, ele interrompeu, sem paciência, pode me dizer o que aconteceu, afinal, com ela? Como assim?, estranhou o delegado. Ele respirou fundo: o que o desgraçado do marido fez a ela? Espancou-a? Manteve-a em cárcere privado? Tentou matá-la? O outro deu uma risadinha do outro lado.
Foi o suficiente pra ele pensar estar sendo vítima de algum trote, pior: talvez estivesse a falar com o próprio marido dela! Sim, quem poderia garantir que era um delegado? Pode-se falar qualquer coisa ao telefone. O miserável, não satisfeito em machucá-la, mantê-la em cárcere privado, tentar tirar-lhe a vida, o sujeito abjeto agora ligava a fim de atormentá-lo com seu ciúme ridículo. Do que você está rindo?, rosnou, qual é a graça? A esposa, espantada com o teor da conversa e o estado nervoso dele, veio perguntar o que estava havendo. Ele balançou a cabeça negativamente, pediu-lhe pra aguardar um momento, estava tentando entender a natureza de um problema seríssimo. A mulher arqueou as sobrancelhas, todavia, discreta como sempre, se resignou, deu com os ombros e saiu do quarto.
De fato, confirmou a voz do outro lado, é bem capaz de ser esse um problema de natureza seríssima, talvez até enganosa, quem sabe?, fez num tom ambíguo. Ele ignorou tal comentário, sequer sabia se era mesmo um delegado ou o maldito marido dela, se fazendo de esperto. Voltou a ser taxativo: o que você fez a ela, imbecil? Eu?, estranhou a voz do interlocutor. Sim, você, não pense que me engana com esse papo de delegado, acha que sou idiota? Delegado vai muito perder tempo conferindo identificador de chamadas, me poupe, delegado quer saber é de sangue, do calibre das balas, de testemunhas, de razões concretas. O que você fez com minha amiga, seu doente?, rosnou outra vez. Meu senhor, se acalme, respondeu o outro, me parece que o senhor ou é maluco ou está confundindo as coisas, não fiz nada a sua amiga, ela está presa, na penitenciária feminina, aguardando a investigação. O quêêê?, ele desentendeu, do que você está falando? Ela está presa? Não acredito que você a prendeu! Que tipo de insanidade passa por sua cabeça pra mandar prender a mãe dos seus filhos?, gritou. O interlocutor, desacostumado a ser interrogado, perdeu a paciência também: abaixe a voz, antes que eu mande te prender por desacato.
Desacato? Essa era boa, um delegado no Tocantins iria prendê-lo em Minas Gerais por desacato ao telefone! Ele riu, estava uma pilha de nervos, mas riu: ah!, claro, o senhor pode mandar a ordem de prisão por e-mail, inclusive, é mais rápido, tripudiou, provavelmente está com a senha dela e já leu todas as mensagens que trocamos, imaginando, com sua mente doentia, que eu e ela tínhamos um caso mal resolvido. Não é assim que pessoas mesquinhas e pequenas como você raciocinam? Espere aí, interferiu o interlocutor, mais calmo: por qual razão o senhor odeia tanto a vítima e defende a ré?
Ele sentiu a cabeça rodar. Vítima?, qual vítima? O marido, explicou o delegado, o marido foi assassinado com vinte e uma facadas, pela esposa, enquanto dormia.
O silêncio.
O mundo ficando vagaroso e definitivamente incompreensível.
Um barulho de água invadiu os sentidos. Procurou a esposa com os olhos, mas ela, obviamente, tomava banho naquele instante.
Ei, o senhor ainda está aí?, perguntou o delegado. Vinte e uma facadas?, ele repetiu, sem perceber que repetia. Exato, confirmou o interlocutor, o marido foi morto a facadas, enquanto as crianças foram envenenadas. As crianças?, ele gritou, estupefato, ela envenenou as crianças? Não era possível, não podia acreditar. Quando deu por si, já havia desligado o telefone, a cabeça rodando, as pernas recusando-se a obedecer. Que loucura era aquela, meu Deus?, ficou a se perguntar, em qual pesadelo caíra de olhos abertos? Num impulso, tirou o telefone da tomada, caso o delegado voltasse a ligar. Por quê? Não sabia, não sabia por quê.
Jogou o nome dela no Google. Completo. Entre aspas. Veio uma nota de dois dias atrás, num jornal do Tocantins: dona de casa que matou marido a facadas teve pedido de habeas corpus negado. A dor no peito aumentava. Na página de uma rádio paulista, havia mais detalhes, de uma semana: Professor de História é morto a facadas pela própria esposa enquanto dormia. Segundo a perícia, a vítima ainda tentou se defender, mas a gravidade dos ferimentos, desferidos ainda quando o professor estava dormindo, não lhe deu qualquer chance. Os vizinhos ouviram gritos estranhos e chamaram a polícia. O crime foi motivado pelo ciúme doentio da esposa que, antes, envenenou os próprios filhos.
Sua melhor amiga? Sua alma gêmea? Não podia ser. Olhava as notícias como se fossem escritas por marcianos. Olhava a foto dela algemada, cabelos presos, expressão distante, presa em flagrante pela polícia. Não conseguia entender. Deve ser um trote, uma brincadeira de mau gosto. A eterna confidente. A cara-metade. A mulher mais culta e mais inteligente do planeta. Foram casados por dois anos. Correspondiam-se há quinze. Sempre a considerou uma pessoa digna, sensível, do Bem. Como poderia? Envenenar os próprios filhos? De jeito algum, não era crível. Pois se ela era a mulher idolatrada, a mulher amada, por quem pensara tantas vezes largar tudo e pedir, de joelhos, uma nova chance?
Releu as mensagens dos últimos três anos, buscando sentidos ocultos, pistas, insinuações. As queixas do ciúme absurdo do marido, as incontáveis situações em que ele fizera escândalo, ela confessava, obrigando-a a passar por constrangimentos às vezes em público, às vezes na frente das crianças. Chocou-se com a frase Medeia me fascina escrita por ela, um ano antes, numa das sequências em que discutiram arquétipos, mitos. Outra frase, antes despercebida, parecia antecipar tudo: três vezes sete, ela comentava, e se encerra um verdadeiro ciclo. Três vezes sete, ele repetiu, sentindo-se um tolo completo, são exatamente vinte e uma facadas. O tempo fechou aqui em casa, afirmou na última mensagem, preciso resolver. Meu Deus, e pensar que foram casados por… dois anos! De repente, essa informação doeu como se lhe abrissem a cabeça ao meio com um maçarico.
Correu ao quarto e acordou a esposa, num abraço-sufoco, um abraço de ossos querendo atravessar os ossos do outro, enquanto a consciência, enfim, se libertava. Que foi, homem?, ela perguntava, sonolenta, aconteceu algo? Sim, ele disse, aconteceu que você é a mulher da minha vida, declarou em voz alta. Uai, ela exclamou, que bonito isso, amor!, virando-se melhor a fim de corresponder ao abraço do marido. Ele, então, prometeu a si mesmo agradecer aquela dádiva. De joelhos, pensou. A dádiva real, não o delírio dela, mas sua concretude, ali, entre seus braços, morna, e, sobretudo, acolhedora.
(Állex Leilla (Alessandra Leila Borges Gomes)nasceu em Bom Jesus da Lapa (BA). Publicou seu primeiro livro, “Urbanos” (contos), resultado do prêmio para autores inéditos da BRASKEM e Fundação Casa de Jorge Amado, em 1997. Em 1999, publicou “Obscuros” (contos, Editora Oiti); Em 2010, lançou o romance “Primavera nos ossos”, premiado pelo Programa Petrobrás Cultural e editado pela Casarão do Verbo. Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professora de Literatura Portuguesa e de Tópicos da Narrativa, na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Em 2013, lançou o livro de contos Chuva Secreta (Editora Casarão do Verbo)
Essa bem que poderia ser uma história para ser contada no Natal, porque a prostituta já sente as dores do parto e é véspera de Natal, logo rebentarão os fogos e a bolsa amniótica. Também porque a prostituta na verdade se chamava Maria, apesar de ser conhecida na rua como Zula. A bem da verdade, isso não chega a ser um nome, é apenas um som para chamar uma pessoa, já que Maria parecia um nome muito sagrado e pobre para usar na vida.
Não sabia quem era o pai da criança. Tinha lá uma desconfiança ou, antes, uma preferência pelo marinheiro de olhos verdes. Um filho de olhos verdes. Teve medo de fazer um aborto, era muito medrosa. Havia uma sua colega que já fizera três abortos e, no último, quase morrera. Tinha muito medo de morrer. Não que aquela vida fosse boa… Tinha medo de tudo aliás, de ratos, baratas, de macumba, de velhas. No começo, também dos homens, mas esse medo, o tempo a fez perder.
Além do mais, tinha vontade de ter aquele filho, vontade de carregá-lo, brincar com ele. Tinha vontade mesmo era de ter uma boneca, coisa tão inexistente na infância. Desejou rever suas amiguinhas da rua para mangar da cara delas:
– Quem tem a melhor boneca agora?, diria ela.
Mas havia aquelas dores todas ali e ela não sabia o que fazer com aquilo. Não havia mais ninguém na pensão, era Natal e as moças estavam de folga, todas a festejar ao seu modo sabe-se lá o quê. Ela ficara sozinha com a barriga e a dor.
Mordia um lençol para não gritar. O suor empapava a camisola encardida. Ela estava sentada, muito encolhida no canto da cama. Olhando assim, parecia um anjo de altar. Não passava de uma criança assustada com uma barriguinha saliente, talvez tivesse 16 ou 17 anos. Chegara ali depois de passar alguns anos apanhando da vida e das patroas, trabalhando em casa de família. Não que a vida ali fosse mais fácil, mas pelo menos apanhava quase nunca. Às vezes tinha nojo, é verdade, mas todas as outras moças a tratavam como um bibelô e, quando ficou grávida, elas passaram a sustentá-la. Tinha muitas mães. Ela agora seria mãe também. Nunca tivera uma mãe, talvez tivesse tido um pai, mas não gostava de se lembrar disso. Fingia que sempre fora só.
As dores aumentavam, e ela só pensava na festa que estava perdendo, o vestido novo para a Missa do Galo estava dependurado na porta do armário. A vida pedia passagem para fazer mais um milagre. De repente, sentiu que ia parir, não saberia explicar o que era aquela sensação – o que a deixou apavorada de desconhecer –, mas sentia que um milagre estava por vir. Alguma estranha força fêmea a guiou no parto, como se o nome Zula, que era quase um balido animal, lhe tivesse convocado essa força não-humana de parir. Então, ela simplesmente pariu e segurou a criança desajeitamente junto ao corpo. Cortou o cordão com uma faquinha quase cega que estava sobre a mesinha de cabeceira. Depois, limpou-a (sim, era uma menina, o que já dificulta um pouco a viabilidade de uma história de Natal) com nojo no lençol cheio de manchas de noites passadas. Encostou o bebê no seio e ele parou de chorar. Nasceu franzino, um fiapo de vida, um milagrezinho de Natal.
Sou mãe, disse a si sem ênfase nenhuma. E havia alguma dor sublime nisso. Com a menina no colo, pensou que deveria dar-lhe um nome. Pensou que deveria dar-lhe ouro, incenso e mirra. Presentes, comida, alegria, uma vida maravilhosa, o mundo inteiro. Estava exausta e com medo. Não poderia dar nada à sua filha. Nem amor, que nunca tivera disso na sua vida. Nem leite tinha, os peitos murchos de não comer quase nada. Não poderia criá-la entre prostitutas. Não poderia fazer nada por aquele milagre.
Era um bebê feio, magro, engelhado, vermelho. Não tinha olhos verdes nem cabelos dourados. (Quem era o pai?) Colocou-a na cama e levantou-se. Vestiu o vestido de festa: rosa bem claro, sua cor preferida. Arrumou os cabelos. Como estava cansada. E como doía-lhe o sexo. Pior do que na primeira vez que se deitara com um homem. Tomou a menina nos braços e saiu. Na rua havia muito barulho, era Natal. Não havia brisa, mas a noite era mais fresca lá fora do que dentro do quarto noturno.
Caminhava lentamente enquanto pensava no que poderia fazer para salvar um milagre. Mas ainda era uma criança. As ruas eram escuras, a noite era escura, ela era escura, só sua filha era rosada. Parou num beco, exausta de caminhar, exausta de pensar, exausta de parir. Encostou-se na parede. Era um beco imundo. Pôs a bebezinha numa lata de lixo e deu-lhe um beijo na testa:
– Morra logo, minha filhinha, porque essa vida é muito ruim.
Cuspiu-lhe na cara com nojo e ficou olhando-a um pouco. Talvez quisesse se sentir penalizada, mas não sentia, não sentia nada. Tudo tinha ido embora naquele parto. Se afastou devagar enquanto a menininha chorava.
Talvez, no céu, uma estrela tenha se apagado.
Não contem essa história no Natal.
(Gabriela Amorim é escritora e leitora, jornalista, fotógrafa, cozinheira, aprendiz de costureira e de feiticeira, instrutora de yoga, caminhante. Escreve crônicas às terças-feiras no Portal Infonet. Seu primeiro romance, O velho, está no prelo e, em breve, deve vir à luz)
É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sentisse-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.
***
Sinais
Douglas levantou cedo, ignorou o café da manhã e se pôs a esperar. Estava convicto: logo, logo aconteceria. Seria como estava profetizado. Assim como lera no livro sagrado. Tudo o que tinha a fazer era esperar. Crer e esperar.
Cerrou os olhos para que os ruídos mais inaudíveis pudessem penetrar-lhe os ouvidos. Era pela audição que toda a verdade lhe seria revelada. Acreditava que, anulando um dos sentidos, no caso a visão, aguçaria o outro. Não lhe vinha à cabeça a necessidade de um tempo maior para que a ausência de um sentido fizesse o outro aflorar com uma eficácia quase divina.
Os sons que lhe chegavam da rua ou mesmo do interior da casa ou ainda do seu próprio corpo eram bastante comuns. Por mais que tentasse ouvir neles notas dissonantes, carregadas de sentidos místicos ou de sinais não revelados, nada, absolutamente nada, ultrapassava o banal e o cotidiano. A vida, para seu desespero, transcorria opaca e sem mistério.
***
Ombro
Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o “Ação! gravando!” de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de “perder o rumo”, “ficar sem norte”, “andar à deriva”, fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.
(Geraldo Lima é professor, escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, dentre eles “Baque” (contos, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro, Ponteio Edições). É colunista do Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção, em Goiânia, e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)
arranha-céu da tarde sob a circunferência dos olhos do tigre, tão lindo, alto & perspicaz. informações sobre seu paradeiro afirmam que ele havia conhecido moça de humilde família, prendada & auxiliar de enfermagem. nenhum de nós foi convidado ao casório – eles não permitem circo armado em redutos de jovens senhoras envergonhadíssimas até a alma. como retaliação, nos reunimos no apartamento de klauss para gargalhadas ad infinitum enquanto disfarçávamos, intimamente, as lágrimas na hora do sim, caso estivéssemos na última fila da igreja.
2
imaginei agnus no topo do edifício topázio, mais precisamente no instante em que lia seu manifesto bibelô-satânico contra nossa cultura pop & caracterização urbanóide. uma bandeira esvoaçante de um país da europa oriental lhe tatuava os longos braços, ou quem sabe, os longos braços lhe tatuariam o rosto recentemente partido pela tentativa de suicídio no dia 8 de setembro, quinze dias após nossa primeira tragédia doméstica.
3
na mesa de bar falo sobre o projeto obsessão, terror & glória. você desvia o olhar, cruza os braços, enxerga os detalhes de lugar algum. então caminhamos sem perseverança. a falta de assunto conduz os destinos. oscilamos em lados opostos, alheios ao atravessar a avenida, passos de gato dominados pelos faróis eletrostáticos. aí fecho a porta do quarto & me escureço na contingência de festas, after parties, solidão na cabeceira. disco o número de matilde num relance de jogo gasto, buraco dentro do buraco, navio negreiro da salvação? o segredo do meu charme nos capítulos da novela? uma frase de efeito no coração da internet?
4
deyse virá no sábado para a sessão de fotos, segredos & troca de perfumes. contarei a história do meu último romance aos frangalhos no instante em que ela voltar da cozinha com duas xícaras de café, possivelmente expressando desagrado & sorriso de maledicência. tomaremos um táxi pouco antes da madrugada altamente intoxicados por nós mesmos & pelo que tentamos desesperadamente esconder.
5
chocado com a atitude levemente esquizofrênica do moço & sua síndrome de lolita defasada. um ódio-amor que não passa, não passará & que há de me inutilizar o senso de estética & o acúmulo de receitas médicas que certamente irão hipotecar o meu futuro antes que eu morra de sede & fome – por isso preciso que giancarlo me tome em seus braços & que sejamos felizes DE-SOR-DE-NA-DA-MEN-TE.
***
tigre siberiano
adolescentes reproduzem meu fio condutor numa vasta cama de plumas & acessórios eróticos onde invisto minha língua sobre a previsão das mentiras para inventar um relato sobre sexo, ejaculações, coxas nuas que sobrepõem meus orifícios mediúnicos durante o coito & suas doses cavalares de memória em quartos escuros vistos sob o espaldar da cama que não range & que não prolifera nossas ardências na noite de frio, rumba, razão mimeografada presa à estante de brinquedos fabricados nos anos 90.
como se os meus olhos fossem o dorso de um cavalo prestes a mumificar a vida num galope sombrio, relincho tropical no alto da montanha ao invés de reconhecer o grito imaculado do homem que me domina sem o meu consentimento felino, pois quem enumerou os defeitos dos corpos teme o gesto de penetrar ou ser penetrado sem que os inimigos ou amantes sucumbam perante o último orgasmo travestido no sorriso de nossas gengivas, vaginas, líquidos empalidecidos enquanto o dia amanhece & tratamos de nos recompor: livre arbítrio que abre a boca antes que a presa se torne carcaça & eu psicografe o perigo do mundo.
***
alô, hoffman?
sons de carros bufando seus gases, rumores tóxicos, notas musicais da regra animália enquanto indivíduos; & nós, os fracos, sim – transpiramos a tal vontadezinha de esplendor que nos alimenta enquanto ensaiamos um ai em prazer omisso, sempre omisso.
deixo você me morder por inteiro durante o meu breakfast da boa conduta. decoro meus lábios & cílios num tango argentino de mero desesperado – as tuas cartas de amor se extraviam & desaprendi as regras do ofício como quem se contenta com material pornográfico.
acelero os passos, encurto os corredores, lavo a louça quando é preciso & dou o meu melhor no momento “vamos guardar o arroz na geladeira”. é que ainda sinto uma tensão de fios elétricos quando ele me abandona & descobre novos ares, como se o meu grito, enfim, o organizasse perfeitamente na vida.
sucumbo pela falta de dinheiro & ascensão.
ele, o trágico amor descalço, é um filho insensato que não respeita conselhos de mãe, madrasta, meretriz. & ainda me perguntam sobre as foices do destino. as foices do destino descosturando flores enquanto caio de quatro na calçada.
katherine surgiu com olhos de lebre & desmarcou nosso encontro, pois quis favorecer outras conquistas. roí as unhas até o sabugo numa espécie de ânsia que empalidece as aventuras de uma puta fantasiada de lady. acabei forçando a barra & não permitindo que eles – oh doces inimigos – virassem de costas, amáveis diante do tal palco imaginário, pois sou um trabalhador braçal inserido na multidão de artistas & publicitários de merda.
hoffman telefonou & marcamos jantar. em duas horas estaríamos cara a cara & inundados num silêncio de cão. banquei o herói & fingi inúmeros descontroles emocionais que ele tanto gosta. ele não sabe que os solavancos da vida nos enchem de uma esperança mumificada. a minha liberdade é para ele mera obsessão pelo zodíaco & afins. não puxo assunto enquanto me entupo de um peixe à delícia meia boca. a noite se desfaz sem sucessos & me contento com mais uma cerveja geladíssima.
(Antônio LaCarne nasceu em 1983 e escreve poemas, fragmentos, contos e diários. É autor do livro de prosa poética “Elefante-Rei: Poemas B” (2009) e participou da coletânea de contos “A Polêmica Vida do Amor” (2011) pela Editora Oito e Meio. No momento finaliza seu segundo livro, “Salão Chinês”, e assina o blog O Impenetrável)
Ele tinha quase dois metros e menos de setenta quilos; longos e antigos dreadloacks em amarelo sujo caíam sobre o seu rosto e escondiam os olhos vazios de cegueira; seu aspecto era mais propriamente desgastado do que envelhecido. Uma forma mumificada de juventude. Ele tocava um grande berimbau grave comprado décadas atrás num litoral ainda mais isolado e inóspito. Talvez tenha comprado quando ainda achava que seria apenas um turista. O chapéu desbeiçado de náilon aos seus pés esperava moedas. Um hippie holandês radicado por aqui que ignorou a passagem do tempo e ganha a vida esmolando de praia em praia, me disseram, e tocando seu berimbau. Um som circular que entrou na minha cabeça e não saiu. Um verme de ouvido que ia me acompanhar até eu conseguir dormir. Essa foi, estranhamente, a primeira imagem que me ficou de Camocim.
Aproveitar o feriado prolongado. Aproveitar o tempo. De tanto os amigos insistirem eu aceitei, sabendo que ia acabar chateado. O desfile dos biquínis coloridos das suas namoradas jovens e falantes só ia me deixar triste. As conversas sobre carros novos, TV a cabo, condomínio, pensão, banda larga de internet, campeonato brasileiro e as piadas de escritório e repartição regadas a álcool só iam me chatear. Não por inveja, mas por deslocamento: permaneci professor, morei com os pais enquanto pude, me viro com uma televisão de doze polegadas em preto e branco made in China com seletor de canais a giro. O seletor quebrou faz tempo; tenho que trocar os canais com um alicate. Moro numa pequena quitinete de poucos móveis no Quintino Cunha. Uma pobreza sóbria de antigos espanhóis do Mediterrâneo, como diria o Camus num ensaio. Do ensaio eu só lembro essa frase, mas talvez me lembre bem o bastante pra tentar viver de acordo com ela.
Me disseram que trariam uma moça solteira. Uma indireta. Uma tentativa deles pra que eu não ficasse deslocado. Não nego que pensei nisso como numa possibilidade, mas sem o desespero adolescente que torna coisas tolas em questão de vida ou morte.
Aproveitar o feriado prolongado. Eu já tinha uma folga natural no dia anterior, e aproveitei pra chegar mais cedo. Aproveitar o tempo um pouco só. Aproveitar o tempo sem que o silêncio e a falta de assunto incomodassem os outros. Quando cheguei vi um homem impossível tocando um berimbau impossível. E o som circular ficou na minha mente até eu conseguir dormir.
Se desculparam, na recepção da pousada, pela falta de energia. Souberam, pelo rádio, que o apagão tinha atingido todos os estados do nordeste, como sói acontecer. Não liguei; eu precisava dormir; a viagem de ônibus é longa. Dormi sem sonhos assim que entrei no quarto; eram ainda cinco e pouco da tarde; o som do berimbau se apagou aos poucos e até embalou o começo do sono. Meio memória sonora meio música ao longe. Dormi sem sonhos como uma pedra que afunda até a parte mais escura da água, onde nenhum som aberto podia me alcançar.
Acordei cedo, livre das lembranças do sono, surpreso por não estar em Fortaleza e porque não ia precisar trabalhar. Um turista repentino. Nem sequer vi os funcionários da pousada, ocupados que deviam estar em outros quartos ou na cozinha, preparando o café da manhã que não precisei agradecer e recusar (estava sem fome). Deixei a chave na recepção e fui sentar nos bancos protegidos do coreto, diante da barra e da ilha do outro lado. O sol ameno. Ainda não havia ninguém. Mesmo os nativos devem ter aproveitado a véspera em nome da embriaguês. Eu estava sóbrio e disposto a ler alguma coisa antes que eles, os meus amigos, chegassem, e levava comigo um livro de bolso que me lembrava o passado. Era um livro dedicado. A letra era feminina e a mensagem se direcionava a mim. “Para a criança que ama mapas e gravuras, todo o universo se assemelha ao seu apetite vasto [para Cário, El Misterioso]”. Eu sei, o autor na verdade é Baudelaire e esses versos se encontram dentro do livro, mas ela escolheu os versos – comodamente do começo de um poema –, traduziu por conta própria e dedicou o livro a mim.
Por causa dela comecei a ler livros e a prestar atenção nas canções, a ouvir músicas instrumentais, a gostar especialmente de Thelonious Monk e a ver filmes em preto e branco falados em línguas distantes. E rapidamente ela me considerou um bom amigo e isso durou muitos anos, mas eu sempre quis outra coisa. Ela se casou com um bruto endinheirado, foi o que eu soube pela última vez, quero dizer, também ouvi falar que ela tinha se separado e há boatos de que ela se envolveu depois com um jovem casado que vivia prometendo se divorciar pra ficar com ela e por causa das crianças o divórcio nunca saía. Não sei o que é verdade e o que é mentira. Faz muito tempo que os caminhos se partiram, desde aquele dia em que ela me abraçou e foi embora sem saber que depois eu ia tomar o maior porre da vida e ia acordar na praça da igreja, quase na esquina da Pasteur, sem nada nos bolsos, com a cabeça martelando e o sol do meio-dia cozinhando as pupilas. Traduzo agora por mim mesmo o Baudelaire. Certa manhã partimos, a mente em chamas, o coração pleno de rancor e de desejos amargos. E poderia ter pensando, se fosse possível pensar, nesses versos naquela manhã da qual ela nunca teve e nunca terá notícias. Não, Zâmia nunca soube disso.
Era esse o seu nome; se chamava Zâmia. E achei que nunca mais nos veríamos.
Não pude acreditar quando, aqui em Camocim, nesse banco de coreto, as mãos dela cobriram os meus olhos na manhã de ressaca alheia e ainda sem ninguém e eu reconheci de imediato que eram as mãos dela. Zâmia, os loucos cabelos de cobre e as roupas frouxas floridas e as atitudes impensadas quando eu tinha tanto medo de tudo e pensava demais e a poesia era um divertimento masoquista do meu cérebro. As mãos estão mais ásperas e ossudas. Vinte anos não passam de graça pra ninguém. Mas eu reconheci seus dedos alongados de extraterrestre, como diria um amigo sobre uma moça que lhe pareceu meio egípcia. Era ela, depois de tanto tempo e por acaso. Tive mesmo o pensamento sem sentido de que os companheiros teriam chegado um pouco antes e que Zâmia, que eles teriam conhecido não através de mim, seria justamente a amiga solteira que eles pretendiam me apresentar.
Mas eu me lembrei do passado. Depois de tantos anos eu ia ter mais uma sessão daquela tortura a fogo brando de conviver de perto com o amor inalcançável. Ela imaginava o que eu sentia, mas não sei até que ponto. Agora ela devia imaginar que já tinha passado pra mim, e eu mesmo achei que sim, que tinha passado. O livro era apenas uma boa lembrança e, antes de tudo, uma leitura densa, das que valem a pena. Les fleurs du mal. Ela mesma me deu e me dedicou, mas ali só o que me interessava era o livro. Até que as mãos dela retornaram do passado e me proibiram a releitura dolorosa. E quando eu menos esperava foi a leitura dessas mãos que me trouxe mais dor ainda. Não passou, mas ela deve achar que sim, e eu vou fingir que passou pra que ela não se sinta mal ou constrangida. E eu desejava a tortura a fogo brando. Queria me iludir, ver nos olhos dela que eu me tornava uma possibilidade depois de tanto tempo. Há mais possibilidades quando a gente se preserva menos, e já éramos velhos demais pra nos preservarmos. Tanto pra nos preservarmos quanto pra nos expormos.
Por que eu não desenhava alguma coisa pra ela ver, como antes? Não sei se ainda sei desenhar e estou sem papel. Ela sacou um pequeno bloco de papel em branco e me arranjou um inusitado lápis F mais ou menos apontado. Ela se lembrou do meu gosto por lápis F e como eles são difíceis de encontrar. Mas ela não podia saber que ia me encontrar. Aquilo também era apenas uma coincidência, mas era quase impossível resistir à tentação de achar que tudo era um sinal, a tentação de me iludir mais uma vez.
Desenhei o balanço desgastado e quase quebrado que ficava na praça escondida perto da Theberge, vizinho a um colégio público que homenageia não me lembro quem. O balanço ficava ao lado do banco onde a gente conversava e bebia composto de uva nas noites de sábado. Bebíamos e conversávamos até tarde. Ela não se preocupava com nada e eu voltava pra casa tonto de álcool ruim e com um furacão no peito. Ela achou o balanço muito parecido não com esse do passado, mas com o que estava ao nosso lado. Eu não tinha reparado. Olhei e lá estava ele, tão velho quanto era no nosso tempo, mas numa praça de Camocim. Aquilo não podia ser. Mas era, foi o que ela disse, sem se preocupar, e se despediu de mim com um beijo casto, tão quente e doloroso quanto aqueles do passado.
Apenas isso de tanta coisa. E nada mais além da suspensão de mim mesmo. A história podia continuar na minha mente e desembocar eternamente no nada desse instante inexplicável. Apenas mais uma espera paciente pelo que não vem, como diria o cancioneiro do Montese. Ela se foi. Só queria me cumprimentar; afagar uma parte do passado divertido e seguir adiante; eu não devia valer mesmo mais que isso e ela já não tinha assuntos comigo. E nem adianta que eu mesmo continue falando sozinho. Repisando como quem precisa ouvir constantemente a mesma música. Zâmia cegou meus olhos, queimou meu rosto e partiu. Essa seria minha canção interminável pro infinito.
Ela dobrou a esquina e a vida local ainda não tinha recomeçado. Olhei pro balanço impossível e ele rangia. O vento, ou o fantasma precoce de crianças infelizes, balançava as cadeirinhas vazias.
Tomei um susto quando um dos colegas me ligou perguntando onde eu estava, que já tinha me procurado na pensão e que ninguém tinha me visto sair. Viram apenas as chaves. Estou nos bancos do coreto, ao lado de um balanço velho. O sol está ameno. Ainda não tem ninguém por aqui. Também estou aqui, ele respondeu, mas deve haver um engano: nunca senti um sol que fortalecesse tanto, as pessoas estão aqui sorrindo e vendendo tudo e comentando o apagão de ontem, e não há um balanço ao lado do coreto.
Tirei o telefone do ouvido e levantei os olhos. Na ilha do outro lado eu podia ver uma pequena mancha humana. O vulto de Zâmia com os cabelos de cobre e o vestido florido escorrendo no vento. Se desfazendo eternamente como uma duna móvel. E gradualmente o som do berimbau recomeçou atrás de mim num crescendo e tive que olhar pra trás. O homem não estava lá, apenas o muro com a pichação.
Estou tão sozinho quanto tu.
(Airton Uchoa Neto é natural de Fortaleza. Mestre em literatura comparada pela Universidade Federal do Ceará. Colaborador da extinta revista Aldeota e da mais recente antologia Arraia PajéurBR. Autor do romance Crônica da Província em Chamas (Projeto Premiado pelo III edital de Concurso Público Prêmio de Literatura, Livro e Leitura na Cidade de Fortaleza 2010)
Uma porta se fecha quase que solenemente atrás da mulher, que se despede do cômodo como quem abandona um passado. Àquela altura, o quarto atrás do seu calcanhar escapara definitivamente de alcance. Do lado de fora, na rua, caía uma chuva, indômita, gris, que frutificava as propriedades sinistras do lusco-fusco. Num rompante, atravessou de uma calçada a outra se desviando dos carros congestionados e caminhou precipitada sob as marquises.
O café, atabalhoado de gente, parecia não se incomodar com a imagem da mulher revirando sua bolsa, arrancando lá de dentro um maço de cigarros amassado e molhado. Trêmula – de frio ou por consequência da decisão tomada há poucos instantes –, com a carranca pálida, manchada de maquiagem, mal sustentava o cigarro. A boca, miúda e fina – um traço, borrada da cor que deveria ser dona, tragava e lançava lufadas mortiças. Pediu e serviu-se de café com uísque. A luz, débil, que pendia sobre sua cabeça, estampava no cenho, mais acentuada, as expressões dolentes.
A noite rompeu imperiosa em sombras e néons. A calçada, molhada e suja, refletindo os faróis, era ferida com o pisar do salto trôpego, escarlate, envernizado. Os pedestres se esbarravam inevitavelmente. A mulher passava alheia a isso, heterogênea à massa. Sua dor não vestia seu corpo e ela cambaleava rua adiante. Seu trote, pasmódico, mole, não escondia – pelo contrário, alarmava a curva desenhada em seu dorso, arquejado, inflexível. Que mulher doente! Pensaria qualquer um se a notassem.
Uma mão se estende e prontamente pára o ônibus. Sobe. Parte saculejante o transporte carregando os conflitos e alegrias dos corpos de seus usuários. Para ela, o ônibus parece se arrastar. A criança, debruçada no banco da frente, exibe um sorriso que não pode ser para mais ninguém senão ela. O ônibus desce vertiginosamente a ladeira. Ela sente um gelo na barriga e chora.
***
Insônia
Havia apenas os sons das coisas não vivas a quebrar o silêncio da noite – a reverberação de um rugido mortífero em toda a casa. O banheiro tinha um vazamento que nunca cessava – tic, tic, tic, tic. O estômago da geladeira ronquejava de uma fome insaciável. O chiado de um rádio dessintonizado estava presentemente no ar, mesmo quando desligado. A TV, que projetava as realidades e as fantasias de toda a gente de todo o mundo, estalava-se – tac, tac, tac. O chão de madeira estalava – tac! O teto berrava como se fosse desabar, embora jamais o fizesse. O microondas apitava, continuadamente, contando as horas.
Um som inusitado sobressaltou-se da permanência eterna daquele rugido e chamou a atenção de Peter Harvey. Não era exatamente um miado, mas um ronronar sardônico. Harvey esbugalhou as insones órbitas de seus olhos ao máximo que pôde e escrutinou toda a grandeza de seu kitnet até que encontrou um gato, com o rabo em riste, a encará-lo. Um gato?, ele se questionou intrigado, ainda que seguro da impossibilidade da presença de tal animal em sua casa. Balançou a cabeça em desaprovação do seu próprio pensamento ou como se tentasse ofuscar a imagem do gato ronronante da sua mente. De fato, a imagem desapareceu, mas ainda rondava naquele apartamentozinho de um só vivente o ronrom do felino.
Bip, bip, bip… o microondas anunciava as horas ecoando uma onda de som eletrônico – passara-se mais uma hora e agora já eram três horas da antemanhã. Peter Harvey reacomodou-se no sofá-cama, endireitou a coluna na tentativa de evitar pensamentos que considerava tolos. Zap, zap, zap! Zapeava, meio que por mania de insone, meio que por angústia. Em cada canal havia algum tipo de referência felina, um som, uma imagem, uma citação. Sensatamente, Harvey chegou à conclusão de que estava cansado e que não mais enganaria o próprio sono. Desenrolou o sofá em cama e deitou-se.
Peter não conseguia dormir.
Indubitavelmente estava intrigado com o gato, mas a razão pela qual não dormia era a peleja diária para adormecer.
Luzes: desligadas. Sons das coisas não vivas: ligados. Ronrom: ainda lá. Peter Harvey: acordado. Peter brigava com o sono como se uma tempestade em formação estivesse em seu rumo, lutou contra seu cobertor até conseguir cobrir-se e proteger-se. Contorceu-se e rolou tanto em agonia na cama que esta rangeu – nhenc! Seus braços se abraçaram ao travesseiro dobrado como se este fosse uma rocha, uma âncora onde ele podia se agarrar. Peter estava acordado. Tic, tic, tic, tic – a torneira pingava ritmadamente. Tac, tac, tac, tac – o chão rangia. O microondas, insistentemente – bip! – anunciava mais uma hora que se passava. Um chilrear a estuprar o silêncio das coisas não vivas e o cômodo a se invadir pelos raios do dia que já se anuncia, e também pelas milhares de formas de sons das mais vibrantes coisas que vivem. Àquela altura, Peter, exaurido, deixou se vencer pelo cansaço e finalmente caiu nos braços de Morfeu. Já era um pouco mais das seis horas e ele tinha pela frente pouco mais de três horas de sono antes de banhar-se, tomar um café, fumar um cigarro e sair para o trabalho. Peter estava petrificado e tinha-se para a cama mais como um cadáver do que como alguém que descansa.
Trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim… tocava o alarme programado para as nove horas e quinze minutos de todos os dias, excetuando-se aos domingos. O alarme tocava – trim, trim, trim, trim – mas Peter não se movia.
O rugido que habita a casa com Peter está agora abafado pelos sons externos da manhã. Confortável, ele acorda, os matizes amarelo-alaranjados do dia atravessam os vidros da janela e se juntam ao aroma de café fresco que toma todo o apartamento. Ele se espreguiça sem abrir os olhos, os braços abertos, amplos em sua envergadura, estão prontos para receber um novo dia. Ele boceja e abre os olhos e lá está um gato escancarando o focinho e caminhando o preguiçoso e elegante caminhar dos gatos sobre todo o cobertor em direção ao seu colo.
Por um instante, Peter estatela-se em assombramento, o gato, mímico de seu assombro, imita-o em congelante comportamento. O gelo só é quebrado quando o gato espertamente resbuna e começa a roçar seu bigode nas mãos de Peter, que seguram o cobertor na tentativa de racionalizar a situação que se manifesta.
Amedrontrado, o homem – desacreditando no que vê – salta da cama num supetão. A pequena mesa de forma ovalada está posta para o café da manhã: pão recém-assado, bolo, muffin, biscoitos, ovos e bacon, manteiga, geleias, café fresco, chá e leite.
De um lado, está sentado o gato lendo o jornal; do outro, uma cadeira aguarda-o. Peter está emudecido.
– Bonjour, monsieur Harvey. Le petit déjeuner est servi, fala o gato num tom bem natural, asseyez vous.
Peter esbugalha os olhos o máximo que pode.
– Quel chat stupide que je suis, pourquoi suis-je en train de parler en français avec vous?
– Excusez-moi!Oh, novamente! Me desculpe. O que eu quis dizer foi: o café da manhã está servido, sente-se!
– Je… je… je vous ai entendu, gagueja. Espere,je ne parle pas français.
– Ah, agora você fala! Você é tão esparto, mon ami, o bichano dobra o jornal e se serve de uma xícara de chá.
– Você vai ficar parado aí a manhã inteira? Le petit déjeuner est superbe!
Peter Harvey, desconfiadamente, aceita o convite, não por curiosidade, mas pela incapacidade de controlar sua atitude.
– “Ma chambre a la forme d’une cage…” o gato começa a cantarolar uma canção em francês.
Peter paralisa-se na cadeira. Desesperadamente tenta gritar, mas de seu verbo só sai francês e então se cala.
Ele tenta se mover, mas seus braços estão amarrados à cadeira, seus olhos estão presos com fita adesiva e seus ouvidos parecem explodir por conta dos sons ensurdecedores do despertador.
Peter Harvey arregalou os olhos, mas não conseguiu se mover. Seu corpo desprovia-se da capacidade do movimento. Ele também não podia respirar e então se engasgou. Quando recuperou o fôlego, saltou da cama como para terminar algo que não poderia esperar e mergulhou num dia que tinha acabado de ser deflorado pelas possibilidades da noite.
(José Pedro de Carvalho Neto nasceu no sertão baiano, mas sempre viveu em cidade portuária. É, com todos os clichês da expressão, cidadão do mundo. Publicitário, estudou escrita criativa na Austrália, onde teve contos, poemas e trechos de um livro que nunca se acabou publicados, além de freelancer de todas as coisas)
Dani Dark tinha viajado. Rio de Janeiro. Um congresso em seu ramo de atividade, que não vem ao caso explicitar aqui. O certo é que, àquela hora, ela estava num hotel da Zona Sul, o mar em frente, numa verdadeira metrópole, e eu aqui, comendo no Yang Ping do Center Lapa e, nos dias em que não tinha trabalho, saindo cedo para caminhar no Dique. Era tudo. Meu trabalho, vocês sabem… Quem leu os contos do Gallo já me conhece. Eu mato. Sou pago para matar. Gente rica, e até gente pobre, me contrata com frequência. Mas também já matei para fazer cumprir a justiça. Instinto de nobreza, uma coisa assim do Zorro, que não faz de ninguém um sujeito melhor nem pior ― muito menos eu ― e que, sobretudo, não nos salva do injustificável: o fim do túnel lá adiante e o salto, afinal, no abismo.
Uma semana antes, como estivesse na cidade um escritor de São Paulo, lançando um livro, compareci ao evento, na LDM do Itaú Cultural. O cara autografou o livro para mim, e fiquei lá, zanzando entre os escritores. Dei até a minha opinião sobre um poema do Ruy Espinheira Filho, que Milena Brito, Tom Correia e o Gallo ― acima citado ― leram com reverência, a um canto da livraria. Falei: “Metáfora da ditadura militar”. Eles concordaram, e logo saí, fui me restabelecer no balcão com um cappuccino gelado. De lá, fiquei olhando a plateia. Quero dizer: as pessoas que compareceram para comprar o livro do escritor. Me perguntava quantos de fato o leriam e quantos não estavam ali apenas pela dedicatória ou pelo autógrafo, rabiscados na folha de rosto. O autor parecia dos bons, com títulos que ressoavam: Não há nada lá. Ou: Do fundo do poço se vê a lua. Um sugeria desesperança, e o outro, o inverso. Whitman aprovaria. O velho João Antônio também. E os três livros que abri e folheei, entre os quais o que o autor me autografou, começavam bem, produziam interesse. Acabei então o meu café e fui para casa, ler. Não precisei sair à francesa, pois ninguém me conhecia mesmo. Eu estava isolado, sou comumente isolado, e esta é realmente a maior das dádivas.
De manhã cedo, lá pela página 35, o autor ― Joca Reiners Terron (e tive agora de pegar o livro para achar este nome do meio, pois tenho dificuldade em memorizar nomes triplos) ― o autor continuava me seduzindo. À tardinha, idem. Tanto que eu estava quase no fim do volume e entrei na internet e adquiri outra obra do cara, A tristeza extraordinária de alguma coisa. É a vantagem de se trabalhar para si mesmo e exercer uma atividade lucrativa: pode-se ler à vontade e quando se quer. E adiar as obrigações, que jamais serão inadiáveis.
Finda a história, e não eram vinte horas ainda, pus calção, camiseta, tênis e desci para uma corrida no Dique. Passei pelo porteiro, que cumprimentei como sempre, levantando a mão, ao mesmo tempo para que abrisse o portão e se sentisse bem, por eu enxergá-lo no seu trabalho diário.
O Dique estava quase vazio. Na segunda volta, vinte minutos depois, eu passava por um jogger a cada duzentos ou trezentos metros, sempre homens, nenhuma mulher. Eu ia correndo e pensando no livro, também em telefonar para Dani, que estava no penúltimo dia do tal congresso. E foi então que cheguei ao fim e me sentei num dos bancos. Um orixá próximo, horroroso. A típica arte do típico e que não nos diz nada, a não ser para os turistas, que também são típicos. Eu estava lá, olhando a lua subir, respirando um ar frio e menos poluído, todo suado, alguns mosquitos grudados na testa, reflexos do Terron ainda na cabeça e nos olhos, quando dois caras chegaram da escuridão e se sentaram, um de cada lado do banco. Ambos negros, desnutridos e inúteis. Mantive a calma e pensei que as pessoas são livres para se sentar onde quiserem. E que o banco não me pertencia e que eu não poderia exigir que eles saíssem. Então saí eu, mas, mal havia dado dois passos, ouvi:
“Onde cê vai?”
Eu poderia dizer “Não é da sua conta” e seguir em frente, mas preferi parar e esperar.
“É, onde cê vai?” ― disse o outro, como um eco.
Me voltei. E só me ocorreu, naquele momento, arrancar de minha testa dois mosquitos que estavam me incomodando ― mortos, afogados, contra o meu suor.
“Eu tenho uma casa e é para lá que eu vou”.
“Não sem a gente”, o primeiro disse e se levantou, e tinha um revólver na mão e o ar de insolência dos poderosos da política, quando não estão em público fazendo média com o eleitor burro, burro o suficiente para acreditar em palavras repetidas à exaustão, desde o tempo em que, entre animais, o primeiro homem impôs a outro a sua força.
Vestiam bermudões, folgados, as cuecas à mostra, e camisetas de tecido sintético, com propagandas de cervejarias, restos do último carnaval. Nos pés, sandálias que antes só os verdureiros e estivadores usavam. E nas cabeças, com as palas sobre a nuca, bonés de clubes de futebol rivais. Os braços eram finos e tatuados, desenhos que mal se viam sobre a pele fubenta, que estava longe de ser uma tela branca. Exalavam tristeza. Um odor de quarto de hotel barato, das Sete Portas.
Havia um segundo livro do Terron me esperando e um terceiro a caminho, nas malhas da internet. E havia aqueles dois caras ali, que não fariam nenhuma falta ao mundo.
Abri os braços, mostrei que estava liso, que não tinha dinheiro algum, nem celular, nem qualquer outro tipo de aparelho comigo, apenas minha identidade, o cartão do plano de saúde e um papelzinho com o telefone de Dani Dark, para o caso de eu ter um treco, cair afogado também, em meu suor.
Mas eles eram insistentes, queriam que eu fosse com eles em casa, pegasse o cartão bancário, fôssemos à agência mais próxima ― falaram assim, “agência mais próxima”, como num comunicado de tevê ou um impresso de publicidade ― e lhes entregasse uma boa soma.
O que eu poderia dizer, diante da argumentação de um cano frio? Eu, que a meu modo, também matava e sabia que não é preciso motivo algum para se apertar o gatilho numa noite, mesmo de lua…
Assenti:
“Tudo bem, moro nos Barris. É só subirmos a ladeira”. Uma mentira, pois quem já leu o Gallo sabe que moro mais à frente, no Politeama.
“Pare de falar!” ― um deles disse. “Só vá andando, que a gente vai junto, do seu lado”.
E este foi o erro. Quem conhece o caminho do Dique para os Barris sabe que, depois da funerária A Decorativa, à direita, há uma curva e que os ônibus, sobretudo à noite, dobram ali chapados. Foi o que me bastou. Ia com um de cada lado do corpo e, quando ouvi o ruído do ônibus às minhas costas, empurrei o cara da esquerda para a pista ― ouvi o baque ― e, quase simultaneamente, num gesto simétrico, dei uma violenta cotovelada no outro, à minha direita. Ele caiu, e o revólver, que antes apontara para mim, estava em minhas mãos. Não hesitei. Era ele ou eu, como se diz, embora não fosse verdade.
Veio a polícia, e tive que me explicar: os caras tinham me sequestrado, queriam dinheiro, e todo o resto… Ao fim, o delegado, que sabia das minhas atividades, só faltou me abraçar por livrá-lo daqueles dois mosquitos afogados em crimes, um dos quais era suspeito de molestar mulheres e crianças, no Dique. Caras que não costumam ler livros morrem indistintos. Não sei mesmo quem disse isso, mas é um belo aforismo.
O único inconveniente foi que cheguei em casa depois das vinte e duas horas. Sacudido. Escangalhado. À minha espera, havia um e-mail de Dani, afetuoso, e dois outros, de clientes disfarçados de spam, requisitando meus trabalhos. Ia ter que dar um tempo na leitura. Do Terron e de qualquer outro escritor. Bem, pelo menos, em troca, eu ia ser remunerado. Matar sem grana, só por justiça ― e, neste sentido, eu já havia cumprido a minha cota do mês ―, não leva a nada.
Dani, que preferiria que eu fosse mecânico de automóveis ou músico de quinta categoria, não ia acreditar quando eu lhe dissesse que tinha saído para correr no Dique e, por acaso, matei dois caras. Ela ia dizer, como sempre, lembrando-se do célebre caso do cinema ― em que matei um babaca no banheiro, durante a sessão:
“Sem essa!”
(Mayrant Gallo é autor de Os encantos do sol (Escrituras, 2013), Cidade singular (Kalango, 2013) e O inédito de Kafka (Cosac Naify, 2003). Este conto foi escrito exclusivamente para a Diversos Afins e incorporado ao volume inédito O próximo herói)
Tomo coragem e me aproximo da primeira mulher, sentada no batente da escada que vai dar em uma academia de artes marciais. O sol de quase verão faz brilhar seu rosto escuro.
Não é comum abordar desconhecidos, ainda mais para perguntar o nome, mas era exatamente isso que eu queria da mulher. Cruzava com ela quase todo dia, indo e vindo, sentada em batentes ou dormindo debaixo de marquises. Fosse como fosse, parei decidida a entrar na sua órbita.
Feita a pergunta, ela me fitou com olhos avermelhados, cuspiu para o lado e depois de acompanhar o trajeto da saliva, respondeu com a cabeça voltada na direção do vento.
– Esqueci.
A resposta só aguçou minha curiosidade.
– Tenta lembrar, seu nome não é Luzia? Você tem cara de Luzia, sabia?
– Luzia sabia não é meu nome não.
– Então é só Luzia?
– Só Luzia também não me chamo não.
– Me diz como você se chama.
– Não me chamo Luzia sabia nem só Luzia.
– Tudo bem, esquece.
– Esqueci, repetiu dando outra cusparada, dessa vez quase me acertando o braço.
– Você parece uma princesa.
Além do olhar, recebi de volta alguns dentes no meio da boca, sem saber se era um sorriso ou simples movimento da face. Os trapos cruzados nos ombros, nos quadris e nas pernas davam a ela um porte de princesa.
Encontrava a mulher de manhã cedo, se espreguiçando em cima de tiras de papelão, tentando ajeitar os panos, limpando os olhos com saliva. Acompanhei por duas ou três quadras sua busca por comida ou alguns goles.
Quando era só isso que conseguia, se animava por instantes, erguia a cabeça e desfilava para ela mesma. Mais adiante se encostava em qualquer canto, as pernas abertas, o olhar desfocado, a cabeça mal se sustentando no tronco. Ou então colocava os braços em volta dos joelhos, cabeça entre as pernas e assim ficava, muda e tonta. Nada por dizer, nada por fazer.
No final do dia, ela ainda arrastava o manto roto pelas calçadas, os pés grossos de tanto chão. Mas não perdia o porte, por mais bêbada que estivesse, mais faminta e suja. Havia uma luz naquela vida. Acho que foi por isso que adotei Luzia.
II
A segunda mulher me atraiu pelos berros e gritos, a disposição de viver brigando com o mundo. Estava dentro do jardim japonês na manhã em que cruzei o viaduto. A saia levantada até à cintura, lavava-se à beira do pequeno lago. A figura seminua atraiu olhares, depois risos que passaram ao deboche. Sem interromper o que fazia, a segunda mulher disparou uma rajada de palavrões, mandando todo mundo para aquele lugar e outros semelhantes. O que ela exigia a seu modo era apenas respeito, afinal, embora ali fosse um local público, estava num momento de intimidade. Não podia usar a água do laguinho? Então que tal a casa de alguém da plateia? Quem oferece? Sua voz alterada ecoou pelo viaduto, feriu ouvidos e logo espantou os curiosos. Terminado o asseio, saiu do jardim como se do banheiro da própria casa e foi postar-se na calçada. O olhar desafiador era de quem estava pronta para mais um dia de luta, ai de quem tentasse zoar com ela.
Um dos alvos mais frequentes de sua indignação são os motoristas que saem dos estacionamentos e garagens sem buzinar. Quando se assusta ao ter de parar bruscamente, não poupa ninguém, xinga até ficar rouca, corre atrás, bate nos vidros, faz questão de chocar. Vi uma vez ela despejar sua raiva contra dois manequins de gesso de uma loja, uma gueixa e um samurai. Diante da vitrine, tocava os braços, o rosto, olhava os manequins impassíveis e fazia comparações em voz alta. O que eles tinham mais que ela? Ela era gente, enquanto eles, se desse um empurrãozinho, quebrariam e virariam pó ali mesmo.
Sentada num banco da praça, cercada de senhores e senhoras de olhos puxados, a segunda mulher costumava discutir com seus fantasmas. Mexia nas sacolas e dialogava com não sei quem invisível. Não queria “ele” por perto, preferia viver só, de louca bastava ela, dizia empurrando o invisível com mãos e pés. E ria alto, abraçava as próprias costas, dava tapinhas, levantava as pernas, se estirava no banco, se encolhia toda dengosa.
Um pastor que fazia ponto na entrada do metrô resolveu aproveitar a ocasião, ali estava uma que precisava ser salva. E conclamou os que o cercavam a tentar trazer a ovelha irada para o rebanho. O idílio imaginário durou até a chegada do grupo. Quando se aproximaram, a mulher retomou seu estado de ira e mostrou as garras. Urubus e galinhas depenadas foi o que ouviram de mais suave. A criatura estava na praça curtindo a dela, por que não a deixavam em paz? Pegou o que era seu e saiu praguejando em direção à Ladeira dos Estudantes. Por instantes ainda ouvi ecos ladeira abaixo da naturalmente alterada e de quem nunca quis saber o nome ou origem.
III
A terceira mulher também perambula por ali. Cabelos ralos, olhos de quem vagueia para dentro, sempre para dentro, lembra uma moça antiga, dessas recatadas. Vive rodeada de cachorros famélicos com quem divide a comida que consegue. Dizem que já foi professora, que perdeu a memória e não sabe mais o caminho de casa, se tem pai, mãe, filhos, irmãos.
A última vez em que a vi, parara de chover e fui à padaria, onde dei com ela na calçada ao lado da porta. Com o mesmo vestido bege cobrindo os joelhos, um quase nada naquele começo de manhã. A prole tinha aumentado, segurava agora uma galinha, um fogo de penas vermelhas e azuladas debaixo do braço. Os cabelos úmidos, distribuía pedaços de pão entre seus bichos e mastigava algum, com gestos polidos.
Mergulhei nos seus olhos sem que percebesse, e veio aquele sentimento. Não de pena pelo que ela tinha sido e como vivia, nem a considerava um ser miserável. O que me atraía era sua presença, ao mesmo tempo tudo e nada na paisagem.
(Ieda Estergilda de Abreu é cearense, vive em São Paulo, já morou em Brasília. Escritora, jornalista free lancer (e bacharel em direito), tem livros de poesias publicados: Mais um Livro de Poemas; Grãos – poemas de lembrar a infância; A Véspera do Grito – um infantil : O Jogo do ABC. Colaborou em jornais, onde também publicou crônicas, e escreve para algumas revistas. Tem inéditos contos, poesias e histórias para crianças e jovens)
Quando.. bateu a porta atrás de
si,. …..rolaram….pela …escada
algumas.... lantejoulas verdes na
mesma..direção,..…como… .se .quisessem. alcançá-la.…………
Lygia Fagundes Telles
Os dedos percorreram o tecido verde jogado sobre a cômoda, numa lenta observação. A larga camisa era feita desse tecido sintético, imitando a leveza de uma seda, porém mais resistente. Os tons de verde brilhantes sobre um fundo multicor, as várias cores, tão diferentes e iguais, fazendo uma trama confusa. Como marca definida, apenas o desenho de uma pata de lagarto no ombro. Aqui, o brilho do tecido ficava inteiramente ofuscante, como se a pata fosse bordada de lantejoulas verdes. Tatisa acariciou aquele desenho com seus dedos brancos, as unhas curtas e sem vaidade, dedos de uma velha. Ela procurava o tato familiar das lantejoulas. Esperava nos dedos a confirmação daquele brilho tão conhecido. Nada. Apenas o toque suave de seda falsa. Mesmo o brilho, ela sabia, era falso. Com certeza não chegaria aos pés do brilho de uma lantejoula. Aquelas faíscas que via sair do verde do tecido eram efeitos de sua vista embaçada. Uma catarata se formava em seu olho. É preciso esperar, disse o médico de cabelos louros, tem de amadurecer primeiro. Era preciso que a cortina descesse completamente para só então descerrá-la. Descer ao fundo do poço, ela chegou a dizer. O médico sorriu seu sorriso de jovem. Mas ele é tão jovem, disse Tatisa à sua filha. Mamãe! Ela agarrou seu braço numa reprimenda discreta. Ele é o melhor nessa área, ela completou entre os dentes. Tatisa queria dizer que conheceu muitos médicos em sua vida, todos iguais. Eles olham pra gente um instante, perguntam se tomamos algum remédio, perguntam se temos alergia a alguma coisa e mandam a gente pra casa. Amadurecer? Eu já estou madura demais, doutor, caindo do pé, ela quis dizer também, mas se calou. O pudor de falar de sua velhice com aquele jovem de pele tão fresca. Calou-se na obediência que os velhos aprendem, engoliu a frase durante a consulta inteira e mesmo depois, enquanto atravessava a cidade naquele dia extraordinariamente quente, o calor exorbitava como que para confirmar a chegada do verão. Chegou à casa exausta. Tantos médicos nos últimos dias, tantos exames, as suspeitas de um mal invisível. Desabou no sofá e as palavras transbordaram. Não viveria para ver a catarata amadurecer. Ia morrer quase cega. Ora, mamãe, a senhora ainda vai enterrar todos nós. Vai ver quando os exames chegarem, a saúde de ferro. A filha falava animada, sem permitir uma palavra em contrário. Tatisa calou-se mais uma vez. Os exames.
O neto lhe tirou das mãos o tecido verde. Já era um rapagão o menino. Rodou pela sala com o pedaço de pano. Enrolou-o de qualquer jeito, como se fosse arremessar num cesto de roupas sujas e meteu no fundo da mala, enfiando a mão por entre as roupas que já estavam lá, o gesto vigoroso.
— Abadá, Vó. O nome disso é abadá. Há muito tempo que não existe mais mortalha nem fantasia. Nesse calor quem vai usar fantasia?
Ele respondia a uma pergunta lançada à neta. Cadê a fantasia de carnaval? A menina magra ficou ainda mais fina com a pergunta. Era anêmica de vontade, uma sílfide pálida. Estava ajoelhada perto de sua mala, dobrando pedacinhos de pano cor-de-rosa. Blusinhas. Arrumava a viagem como uma folha que se deixa levar pelo vento, sem querer ir, sem querer ficar, os pais já acostumados com aquela inapetência pela vida. A Avó não se conformava. Gostava de perguntar o que a neta queria, o que pensava das coisas. A resposta era quase sempre um dar de ombros. Quer dizer, de ombro, pois ela só levantava levemente o ombro direito e estendia os lábios uns poucos milímetros para frente, num muxoxo. Era nessa hora que os olhos caíam em diagonal para o ombro, como se vigiassem a execução do gesto.
A filha de Tatisa também estava às voltas com as malas. Arrumava a dela e a do marido. O genro tinha uma última reunião antes da viagem, a filha dizia a todo instante. Ele chegará a tempo, ela dizia com voz firme, afastando para longe a suspeita que nasceu junto com as novas reuniões. Tantas ultimamente. Foi com essa voz firme que ela anunciou a viagem. Vamos para a Bahia, mãe, quinze dias, praia descanso e, depois, o carnaval. O marido não teve argumentos para ser contra, tentou desculpas fracas, vagas, até ceder vencido. A neta sequer se manifestou. Só o neto ficou animado, queria ir atrás do Trio Elétrico, como naquela música: atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu …, cantarolou Tatisa, lembrando da invasão dos baianos na televisão, As roupas exuberantes, a música tão nova e vigorosa. O carnaval da Bahia devia ser assim. Foi o neto quem lhe esclareceu tudo. Os cantores eram outros. O bloco carnavalesco da moda chamava-se Camaleão — o lagarto da camisa, ou do abadá, o que quer que seja isso. Era um carnaval para jovens. Não tinha lugar para velhos. O convite da filha demorou para vir. Antes ela ouviu o neto falar da exaltação da festa, os números de trios, de blocos, de pessoas, mais de um milhão, talvez dois. Muita confusão. Não, os baianos que Tatisa conhecia não cantavam nas ruas, nem os velhos nem os novos baianos. Só os novíssimos. Todos os anos, surgiam outros mais novíssimos ainda. Apenas quando o quadro se desenhou totalmente é que veio o convite da filha. Tatisa sabia que não era uma viagem para velhos. Só iria atrapalhar. Que é isso, mamãe, a senhora nunca atrapalha, a filha lançou a gentileza. Tatisa aceitou o gesto e manteve seu papel na farsa. Continuou recusando. O genro também insistiu para que ela fosse e o gesto pareceu-lhe até sincero! Ela não soube como reagir. Ele chegava de uma reunião e de repente a companhia da sogra ganhou tanta importância!
— Deve ser nome africano, o neto continuava sua explicação sobre o tal abadá. Só não sei o que significa. É feita assim: larga. Se quiser, a gente pode cortar, diminuir.
Tatisa alisou sobre a cômoda o paninho de crochê, feito com minúsculos pontos, ponto baixíssimo. Empurrou mais para o fundo o envelope que estava embaixo do pano. Aproveitou para empurrar para o fundo as lembranças de um outro carnaval. Aquela roupa verde, tão brilhante, lhe lembrou um outro tempo. Quase podia repetir o gesto de molhar os dedos no pote de cola, enfiar nas lantejoulas e espalhá-las em sua roupa verde. A fantasia estava sendo improvisada em cima da hora. Tão mais difícil conseguir um pouco de brilho naqueles tempos. O baile seria temático. Um baile verde. Lu, a empregada, ajudava na montagem apressada. O carnaval rodeava a casa com suas músicas alegres e inocentes, tão perto. Por que, então, o baile? Pensou Tatisa. Logo lhe veio na memória o Pierrô verde. Precisava ir a seu encontro, o namorado. Ela já tinha a certeza. Era um namorico apenas, mas ela já tinha a certeza. Ela via a filha e sua força e lembrava daquele Pierrô. Tão firme no convite. Vamos ao baile verde, está decidido. Ela quis falar do pai doente, mas não teve coragem. Nem quando rodopiava no salão pôde dizer: o pai. No entanto, a frase da empregada se lhe cravara na cabeça: ele não passa dessa noite. As previsões da Lu. Ela já errara tanto! Era como um corvo voando em torno da doença do pai, sempre prevendo sua morte. Mas já errara tanto! Era um corvo equivocado. E o pai não morreria no dia do baile. Tão importante o baile, ele sabia. Não foi isso que a empregada tinha dito? Ele sabia que o baile era importante pra ela. Estava se fazendo de forte, dizia Lu em sua cabeça enquanto rodopiava nos braços de seu futuro marido. Eles iam se casar e ter essa filha decidida que cuidaria da mãe velha e viúva. A vida assim resumida. Tatisa não pensava que os anos todos de seu futuro poderiam ser resumidos assim num passado tão curto. Ela não sabia disso e, naquela hora, afastava os agouros da empregada. Hoje não papai. E ria para encobrir com a risada a imagem da porta do quarto fechado, onde o pai…
— Mamãe!
Tatisa é acordada mais uma vez de suas lembranças.
— Vamos ter de sair antes da hora.
Tatisa já ouviu pela metade. Demorou a entender o que a filha dizia. O genro estava atrasado. Iam todos direto para o aeroporto. Ele podia seguir direto. Tatisa quis aconselhar. Não seria melhor ligar pra ele, lembrar da viagem uma reunião não demora tanto assim? E essa ausência constante? Tatisa lembrava de seu próprio pai. Só adulta percebeu que, quando criança, havia umas ausências diferentes. Havia um silêncio negro no rosto da mãe. Longos períodos de silêncio. O pai oprimido por aquela voz que não era dita. A mãe engolia as palavras e junto com elas mastigava as entranhas do pai. Um doloroso silêncio para os dois. Tatisa também teve seus dias de silêncio com seu Pierrô verde. A ela parecia um ritual inevitável. Os homens aprendiam as pequenas ausências, os pequenos atrasos. Eram pequenos tremores na vida. Às mulheres cabia silenciar e esperar. O mundo se recompunha então. Tatisa tinha passado por isso. Não era possível desviar desse caminho. Nada podia ser alterado. As pequenas ausências, todas, podiam ser logicamente explicadas. Tudo se encaixava milimetricamente. Não podia ser diferente. Imaginar que algo acontecera era impossível. Por isso o silêncio. Uma palavra errada poderia desmontar aquele equilíbrio delicado. Tatisa aprendera aquele jogo. Toda a vida de uma mulher se paralisava à espera do marido. Ela se arrumava, punha um belo jantar na mesa e esperava. Sua vida ficava em suspenso até que a chave girasse na porta. Ele então entraria e acenderia a luz e tudo estaria claro.
A filha de Tatisa não parecia entender por completo essa lei. Algo do silêncio ela aprendera, mas não podia esperar. Ela seguia em frente. Carregava o que pudesse levar, os que fossem fortes para a jornada.
— Minha filha, não é melhor esperar?
— Mamãe, Mamãe. Ele sabe os horários. Saberá chegar lá.
— Não é melhor irem todos juntos?
A filha olhou séria. Não, não. Ela estava disposta a seguir com seu plano. Ir a Bahia, ao carnaval. O marido que fosse direto para o aeroporto. Se perdesse o voo, pegaria outro. Se não fosse, que comprasse roupas, pois quase nada ficara em casa. Ia ter de usar paletós todo dia. As reuniões, tantas. Aprendesse a administrar as reuniões, dizia a filha. Havia uma tensão naquela família, Tatisa sentia em sua carne. Admirava a filha por sua mão firme. Era ela quem controlava o filho cada vez mais rebelde, tão perigosamente próximo do gesto agressivo. E essa menina tão diáfana, o que fazer com ela. Tão ausente, tão anêmica, sem apetite para vontades, sem vida nas veias. A filha tinha mão firme com ambos. Com uma refreava o filho e seus impulsos, com a outra empurrava a filha adiante. Não se preocupava verdadeiramente com o que ia dentro de seus corações, apenas seguia em frente, fazendo sua família caminhar nos trilhos, como um trem, uma estação por vez, até vir o final do caminho de ferro, ou até o abismo da ponte interrompida, todo o comboio lançando-se no vazio. Era assim que ela pensava que devia conduzir sua família, todos juntos, a família inteira, ainda que cada parte fosse um amontoado de cacos de vidro. As almas se destroçavam diante daquela força aglutinadora que era a filha. Iam todos para a Bahia. O carnaval. O bloco verde. Tatisa ficaria. O último vagão, já velho demais, ia se desprendendo do comboio. Ela já fora assim, uma locomotiva seguindo em frente, os vagões desprendendo-se no caminho. O pai. A porta fechada no corredor escuro, as marchas de carnaval lá fora. Uma verdadeira locomotiva naquela noite verde. Umas poucas lantejoulas caídas no chão tentaram acompanhá-la. Mas para onde, Tatisa?
— Não chegaram os exames? Pensei ter visto um envelope no meio da correspondência. Mamãe?
Tatisa gesticulou um sei lá com os ombros, um leve muxoxo nos lábios. A neta teve uma professora, isso era certo. Só não aprendera a ter o segredo por trás do gesto evasivo. Seu gesto era só isso, uma evasão, um esvaziamento. Tatisa sabia o segredo. Esse, o seu grande aprendizado na vida.
— Mamãe!? A clínica não ficou de mandar?
— Ficou sim. Não chegou?
— Eu pensei ter visto, mas acho que me enganei.
— Procure, querida, pode estar por aí.
Tatisa fez a sugestão como uma provocação. Conhecia bem a filha.
— Meu bem, não está em cima da cômoda?
Muita coisa estava em cima da cômoda, sempre tão atulhada de objetos. E agora, naquela arrumação de viagem? A filha vasculhou com pressa os objetos e nada achou.
— Deixe que eu procuro depois, filhinha, vá fazer sua viagem, descansar.
— Mamãe, é importante, a senhora sabe.
— Minha saúde está ótima!
Os netos apenas observavam aquele impasse entre mãe e filha. Havia uma luta se desenrolando diante de seus olhos. Eles não entediam verdadeiramente, apenas sentiam o embate, como um surdo percebe as vibrações do som em seu corpo. Eles sentiam e reagiam cada um a seu modo. A menina afinou-se ainda mais, foi ficando delgada. Mais um pouco e sumiria por entre as malas. O garoto apenas murmurava palavras inaudíveis. Ele represava uma torrente de violência que poderia explodir a qualquer momento. Era quem mais precisava da Bahia. O que aconteceria com esse menino solto numa cidade como aquela? Tatisa tinha medo de imaginar. O que quer que fosse, a filha certamente teria força para segurar tudo. Ela sempre teve. Agora mesmo era capaz de vencer uma avalanche de impossibilidades contra seus planos. E fazia tudo com um simples olhar. Apenas com ele ela era capaz de afastar todos os problemas. O marido ausente em suas reuniões voltaria a tempo? Quanto tempo poderia conter o filho explosivo? E aquela menina se adelgaçando através da adolescência, ela chegaria a ser adulta? Tudo parecia desmoronar em sua volta. Ela, no entanto, inventava forças novas a cada novo problema. Viajar. O carnaval. Ela ia se divertir e seguir em frente. Nunca foi tão chegada ao carnaval. Algumas festas em criança, as farras de adolescente, apenas o que era esperado de uma moça. E, agora, aquela viagem. Ela corria como uma corsa que sente cheiro de fogo na floresta. Corria para se salvar. Não do marido que escapava de seus braços, não dos filhos que escapavam de seu útero. Tatisa sabia do que ela fugia e o quanto de força ela usava para fazer isso. Ela sabia que a filha seria capaz de vencer tudo que lhe acontecesse, todas as tragédias. Mesmo uma catástrofe natural ela venceria com os filhos nos braços. Apenas uma força poderia destruí-la. Tatisa sabia. Em meio ao embate, falou mais alto a natureza. Tatisa tocou o braço da filha e disse:
— Eu estou bem, querida. Os exames ainda devem estar chegando. Amanhã, depois. A qualquer momento eles chegarão. Não adianta você se preocupar agora.
A filha pôs uma expressão preocupada no rosto.
— Mamãe, você vai me prometer que vai me ligar assim que os exames chegarem, viu. Aliás, assim que eu me instalar no hotel eu vou ligar pra senhora.
Prometeu. Adiantou-se nas despedidas. Pra que prolongar mais aquela agonia? Já não havia dúvidas demais no ar? O genro não dera notícias. Ele iria ao aeroporto? A filha aceitou aquela gentileza da mãe. Eles começaram os abraços, todo um ritual de separação. Recomendações de ambos os lados. O afeto demonstrado como que na obediência de um protocolo de Estado. Tatisa via a filha partir em sua fuga, quase livre. E então, quando tudo parecia resolvido, a neta deixa escorrer da boca uma voz fina, quase um fiapo.
— Vovó, hoje de manhã não chegou um envelope branco com uma faixa azul e cinza? Não é esse o envelope da Clínica?
A reação da filha foi imediata. Queria ver onde estava, queria ver se eram os exames. Ela já se dispunha a trazer as malas para dentro, quando Tatisa atalhou.
— Não, minha filha, aquele é o envelope da catarata. Eu estava olhando ele esta manhã. Você sabe que eu não me conformo. A ciência tão avançada e eu tendo de esperar isso amadurecer. Não me conformo de ficar cega, mesmo que seja só por um tempo. Uma coisa tão simples. Não entendo.
— Mamãe, antes do fim do ano a senhora vai estar ótima, enxergando tudo.
A filha ria tranqüila, inteiramente compreensiva. Podia ser generosa agora, já estava em pleno voo para a liberdade. Repetiram as despedidas, um resumo rápido.
A porta se fechou e Tatisa finalmente ficou só. Foi sentar-se no sofá. O envelope ardia embaixo do paninho de crochê. Não precisava abri-lo para saber o veredicto. Lá não estaria a data final, apenas a ameaça. Por que lê-lo, então? Lembrou de como ele chegou pela manhã, a empregada empilhando todas as cartas na cômoda. Lembrou de como rondou em volta do móvel a manhã inteira, como se já beirasse a vida pelo lado de fora. O pequeno retângulo branco com uma faixa azul e cinza. Bastaria abri-lo e todos os planos da filha estariam desfeitos. No meio do dia, decidiu que ele deveria desaparecer. Precisava escondê-lo. Aproveitou um momento de distração da família e foi à cômoda. As cartas estavam mexidas. O envelope, displicentemente enfiado embaixo do paninho. Ela compreendeu a mensagem. Ele estava fechado. A filha o empurrara para baixo, como se fosse uma poeira que se deve esconder embaixo de um tapete, como uma porta que não se deve abrir. Quer dar uma espiada, Tatisa? Ela ouviu a voz de Lu ecoando do passado. Aquela porta não foi aberta naquela noite de carnaval, o baile verde esperando. Tatisa jamais abriu aquela porta. Nunca mais. Hoje, apenas, toda uma vida depois, diante do envelope fatal, é que ela teve coragem de encarar o que lhe reservara o destino naquele dia. Sentada no sofá, fechou os olhos embaçados. Ela estava de novo no topo da escada de sua antiga casa. Apenas o barulho do relógio quebrava o silêncio. A porta estava fechada. Tatisa aproximou-se com cautela. Investigou os ruídos de dentro. Não pode distinguir nada. Girou suavemente a maçaneta antiga. Um retângulo negro foi se expandindo. Os olhos de Tatisa, agora, podiam ver tudo. O mundo estava incrivelmente claro. Lá dentro cintilavam pequenas estrelas. Algumas lantejoulas pareciam convidá-la a entrar. Ela se sentiu inexplicavelmente calma. E então, depois de tanto tempo, tantos anos fugindo, ela entrou.
(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus, na Bahia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado – 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55 e, mais recentemente, “Cada dia sobre a terra” (contos) – EPP Publicações e Publicidade, 2010. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)