No depósito do sr. B, uma sombra se recolhe todas as noites. Nenhum funcionário atinou com sua existência. O trabalho de estivador corre modorrento durante o dia — os homens cospem no chão — e, à noite, quando os portões são cerrados, a sombra surge dos cantos e se aninha entre os pacotes de lonas dos quais desconhece o conteúdo.
A sombra não fala a língua dos homens, mas tem dimensões dos homens e um andar elegante de cavalheiro. É tampouco fantasma. É sombra de ninguém. Este ninguém tem sentimentos e, todas as noites, antes de se aninhar nos pacotes encardidos, chora uma lágrima de poeira sem saber por quê.
A sombra é só e deita a cabeça no pacote duro. As treliças do depósito estalam, alguns morcegos gritam e a sombra soluça. Ela chora pouco até adormecer.
Quando um raio de sol entra por uma fresta do telhado e os passarinhos já estão piando em profusão, a sombra se dissolve em nódoa de parede, poeira, restos visguentos, antes que o primeiro estivador abra os portões do depósito do sr. B.
***
Alento
Expedito, está adiante. Na frente do teu nariz largo. Um Golias de gaze, um bolo de cabelo crespo amarfanhado na garganta. Engole e senta direito. A vida é assim. A vida é assim. A vida é assim. Olha lá para cima. Uma nuvem se forma. Parece que vai chover. Fechou as janelas? O prédio ainda está em construção. Invadimos os escombros como ratos. Às oito da manhã começa o teco-teco, a batucada no cucuruto. Uma hora ou outra os cavaleiros avançarão nossa sala, com suas lanças entesadas, faiscando. Nos daremos as mãos, nos curvaremos em reverência diante do engulho — coraçãozinho tremelicando de medo. A vida é assim. Senta, aceita minha mão no teu cabelo crespo. Olha para baixo, olha para trás. Para de respirar. Volta e escuta a chuva lá fora. Fecha o olho. Isso.
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Agende sua visita com Medeiros
Medeiros está a seu dispor. Carcaças dos televisores de tubo solapam a porta da frente aos montes. Medeiros está bem, com saúde, são. Joga Sudoku, funga e estala o dedo do pé. O chato é que ninguém entra ali. Uma moça passa com o cachorrinho encoleirado. Uma senhora carrega com muito esforço um saco de verduras. O jardineiro ensimesmado do prédio ao lado pita um cigarro. Medeiros funga. Passou o caminhão do gás. Passou o carro de frutas. Passou um marmanjo montado na bicicleta. Passou uma vespa barulhenta. Medeiros estala a língua no céu da boca. Aterrissou uma maritaca. Uma papoula caiu. Um prospecto de mãe de santo voou. Medeiros desenha o número oito. Lá longe um orelhão grita.
Agende sua visita com Medeiros. Ele está a seu dispor.
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Rogo
O irmão dele acampou lá por uns tempos. O apartamento ficava colado no Minhocão, e os janelões da sala exibiam o vidro trincado — tentou remediar com fita crepe. A cozinha em pedaços: o ralo do esgoto emanava um cheiro ruim. No andar de cima, no único quarto onde se via um colchão, sem lençol e puído, uma vela acesa para Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira dos enfermos.
(Natércia Pontes tem 32 anos, é cearense e mora em São Paulo. É autora de Az Mulerez (edição do autor), Copacabana dreams (Cosac Naify) e organizadora de Semana (Hedra))
Chovia forte. Eu voltava do trabalho e via a gente da rua muito agitada, os pontos de ônibus alagados e os homens disputando espaço na sarjeta. Esperei um tempo debaixo duma marquise. Uma mulher esbarrou em mim com o guarda-chuva e uma criança negociou um trocado. A chuva estiou logo. Caminhei pesado, os tênis encharcados, até a calçada e subi num ônibus velho.
O engarrafamento era longo e o cheiro nauseante. Numa parada, um menino sujo e magro pediu carona ao motorista. Dizia: estou doente, acho que tenho febre. O motorista acenou que sim, mas amarrou a cara ao vê-lo entrar. Os passageiros, que se apertavam, resmungaram: cracudo filho da puta.
Ainda estávamos no espaço de meio quilômetro em que o ônibus permaneceu por duas horas, quando o garoto vomitou um visgo amarelo. Ignoravam-no, todos. Não demorou para que ele tombasse próximo a mim. Teve convulsões. Repousei a mochila num pedaço de chão entre minhas pernas e me abaixei para segurar sua cabeça. Os espasmos chacoalharam a carne mole dos meus braços.
Os olhos grandes remelentos do garoto olhavam meus olhos como se implorassem por socorro ou perdão. Um senhor gritou que chamássemos os bombeiros. Alguém pegou o telefone, embora soubéssemos que ninguém chegaria rápido ali.
De repente, a calmaria. Os olhos grandes muito abertos. Minhas mãos coladas à cabeça do menino, afundadas em seus cabelos grossos de poeira e suor. À volta, o silêncio: o garoto estava morto.
O motorista precisou levar o corpo à delegacia. Dei alguns esclarecimentos à polícia. Depois, peguei um ônibus mais novo e um pouco mais caro. As ruas já estavam secas e o trânsito fluía bem. Em casa, joguei as roupas na máquina de lavar e o tênis na lixeira. Tomei um banho quente, fritei uns empanados e sentei à mesa, sozinha, sem tristeza nem pressa, desejando que aquela noite durasse um pouco mais. Eu estava viva.
***
.fim
bomba-relógio, 6:00, levanta, lava a cara duas vezes, envelheceu muito esse ano. banho porco, roupa pronta, engole o café com leite e pão, e sai pela metade. sol, gente, sustos, dorme, chega. gritos, é assim. a molecada espera na fila. sala de aula, arrastam cadeiras, o giz no quadro, formiga a gengiva. cinco tempos, morre com farofa ao meio dia. almoça naquela pensãozinha xexelenta mas, tem papel no banheiro. volta, a mesa grande, cadê os óculos? médias, faltas, tá na hora. anda torto, a pasta pesa e cai, no meio do corredor. revoada, os papéis escapando das mãos. gritos, é assim. bomba-relógio, falta pouco pro fim do dia, pouco pro fim do mês ($), pouco pro fim do ano. quanto pro fim da linha?, conta nos dedos.
(Bruna Mitrano (1985) é carioca suburbana, professora da rede pública, mestranda em literatura portuguesa, leitora compulsiva, desenhista frustrada, bipolar e torcedora do Bangu. Escreve na revista Mallarmargens. Tem textos publicados no Jornal Plástico Bolha, no Fórum Virtual de Literatura e Teatro, na revista Germina e em outros espaços na Internet)
Eu apoiava a cabeça no ombro de Helena todas as vezes que ela chegava de mansinho. Seu toque era meigo e delicado. O meu toque era possuído por uma leva de palavrões e atitudes irracionais. Era como se o mundo inteiro explodisse e eu não pudesse recolher seus pedaços por causa da confusão. Quando a explosão iluminava meus olhos, eles pegavam fogo e eu cuspia morcegos cegos em voos malucos. Rasgava os próprios intestinos e não podia aguentar o meu próprio cheiro.
Alguém pode comer a própria merda e falar em nome da bondade e honestidade sem mandar merda na cara de quem está prestando atenção? Será que isso é possível?
Eu recolhia a cabeça e deitava novamente em seu ombro, enquanto ela lia e me fazia perguntas sobre aquilo e isso… minha cabeça dormia sobre o amor em forma de mulher. Cantava numa frequência pirata a música da carência, enquanto o céu vinha pra cima de mim, como os destroços de um avião desgovernado caindo em cima da minha falta de vontade, bem em cima da minha total ignorância sobre o assunto.
Eu olhava pro tênis encardido e sentia a podridão. A sujeira encarando meu olhar com reprovação. Eu não queria levantar a cabeça do seu ombro, do meu conforto, por nada desse mundo, mas nós não temos sempre o domínio da situação, por isso, eu não gostava muito quando ela se levantava de forma rápida e sem me avisar. Minha cabeça levantava como um morto retirado das ferragens retorcidas de um carro detonado. Sem muito jeito, sem muita delicadeza.
Ela partia e eu ficava hipnotizado com seus passos, sempre apressados, em direção a todos os cantos da casa. Parecia uma grande atriz atarefada, vagando pra lá e pra cá na sua pequena atmosfera ornada por enormes margaridas empalidecidas como fantasmas gigantes.
Você sabe o quê é o amor?
Eu, até aquele dia, não tinha muito conhecimento, como pensava que tinha. Eu pensava que dominava o amor, mas confundia complacência com amor, enquanto as feridas brotavam no meu coração como plantas carnívoras. Eu colocava as mãos no rosto e pensava: “mais um dia”.
Quando você está morto, você perambula por aí, sem muita preocupação, nem aí com o mundo ou com as pessoas que também perambulam por ele. No estágio da morte, seus pés são facas fazendo cortes, deixando pra trás profundos abismos de você mesmo.
Nós olhávamos pra nossa casa, e aquele era o nosso céu. Era o nosso lugar dentro do que é perfeito. Helena gostava de ficar sentada fazendo seus desenhos, fumando um cigarro que soltava uma fumaça que dançava na minha garganta como uma serpente.
A morte, às vezes, bate à sua porta mais cedo do que o esperado. O azul da casa salvava os olhos cansados, a mente perturbada, a carnificina pronta pra brotar no peito. O azul era a cor da purificação, e por alguns instantes, a cor de uma plenitude desconhecida e aceita.
“vamos pintar de amarelo, minha querida?”
“Não… o azul é o mar repetindo-se sobre nossas cabeças”.
Então ficava azul, sempre o mesmo tom de azul…
Foi numa noite de chuva que a casa azul ficou triste como um peixe fisgado pelo anzol. Tomado por uma dose de toxinas e assuntos mal resolvidos que viviam saltando na frente da minha paciência como fantoches de discórdia, peguei uma vassoura e girei o cabo sobre minha cabeça dominada por um milhão de vozes dizendo “esmague”, e desferi vários golpes contra a luz que iluminava a garagem. Ela se fez em vários pedacinhos, da mesma forma como se encontrava o coração de Helena, que chorava sozinha no quarto principal da casa azul, na periferia de Space City.
Outra vez, foi a toalha esquecida em cima da cama. O terror do colchão encharcado por um líquido extraído com o aperto dos braços delicados da inocência.
“Foi você que esqueceu ela aí, não eu”.
Não adiantava argumentar, minha “razão” cega e sem preocupação com a inocência se desmanchando em lágrimas, tampava os ouvidos e abria a boca, apenas, para emitir o rugido da barbárie.
Por isso, hoje, digo e defendo que, antes de você emitir um som ensurdecedor e se transformar num macaco violento, lembre-se… o cristal se rompe a qualquer toque sem amor.
Outra vez, foi o puro descontrole unido a uma dose sadomasoquista de cólera, que mandou o pobre do nosso gatinho fazer uma viagem ao redor do ódio. Metáfora pura. Coisa que vem em primeiro lugar na cabeça cheia de um rancor exasperado.
Às vezes você está acompanhado com o diabo e não percebe… ou será que o diabo pode ser uma alegoria que produzimos em nós mesmos para não deixar brotar uma flor de bondade, mesmo que pequenina e tímida?
É o cão… sem dúvida, diz uma das vozes dentro da minha cabeça. É apenas um distúrbio de comportamento, retruca uma outra.
Com isso, posso dizer que, não deixe a estrutura do cristal ir à tona toda estilhaçada. Não deixe esse maldito ódio (digo isso lutando desesperadamente para não ser contaminado novamente) pegar você pelo dedão do pé. Recuse suas carícias em seu corpo.
Vamos dançar?
Vamos entrar no esplendor do azul?
Você despertou meu lado Cérbero… o quê realmente você quer, meu senhor?
Quer que eu saia do meu buraco, depois de alguns anos, metralhando o ódio ou o amor?
Meu coração quer ficar azul. Não tem mais a cobertura do manto vermelho. O quê estou dizendo?
Entende de vozes, meu senhor?
O sol nasce como no cinema, morno, cheio de uma luz artificial, onde, de mãos dadas, nos iludimos e voltamos a ser seres humanos novamente.
“Será que amarelo é bom mesmo? Você quer imitar o sol? Amor, você vai acabar com as mãos queimadas”.
“Vai ser a nossa obra prima, baby, vai ser a nossa passagem para a eternidade, isso eu juro pra você”.
Quando ela ia dormir, eu ficava ainda algum tempo na sala, sentado no sofá, ouvindo música clássica, sentindo minha cabeça ser comprimida pelas vozes da minha consciência. Eu tinha vontade de gritar até a garganta explodir. Queria ter uma bomba na fala… confidenciar explosões nucleares com os dentes. Sentia o negrume feito coisa podre bem no meio da minha cara, olhando a consciência dentro de uma vala comum, apodrecendo, definhando, sendo devorada por uma grande demanda de vermes asquerosos.
Na madrugada, sobressaltava dos sonhos mais mesquinhos e sentia demônios colocando seus dedos sobre o meu ombro. De joelhos, pedia a Deus o azul. Pedia o supra-sentimento para a redenção de uma alma escura e lodosa.
Eu era um monstro que um dia foi um peixe dourado.
(Nelson Alexandrenasceu em Maringá – PR. Já disseram que seus contos parecem com os de Charles Bukowski, John Fante e até mesmo uma mistura de William Burroughs e David Cronenberg, mas o autor descarta todas as possibilidades e afirma que seus escritos pertencem a ele mesmo e mais ninguém)
Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer sem pedir antes a permissão dos outros.
(O lobo da estepe, Herman Hesse)
Nós éramos fio de faca rasgando a sua garganta. [VOCÊ] acorda, deixa a cama e anda pelo apartamento. Seu próprio grito o despertara. Som inumano em carne humana. Água fria para lavar o rosto e água fria para saciar a sede, nós éramos fumaça e veneno atravessando a sua garganta. Para dentro e para fora: [VOCÊ] fuma um Marlboro vermelho na varanda da sala. Pela primeira vez em anos, é a carne distensionada. Liberada a voz abissal, nós éramos necessidade. [VOCÊ] pensa: estão todos quebrados. [VOCÊ] vê adiante, presa a um muro de pedra, uma placa com estas palavras: mata o homem que odeia, faça da rapinagem teu ofício – se tiver sucesso, teu roubo será conquista e tua vingança será a guerra. E [VOCÊ] pensa: vai ser triste, sim. Mas a carne tem necessidades… Por que diabos não há espelho nesse banheiro, pergunta-se. Nem no quarto, nem no resto da casa. [VOCÊ] lava as mãos ensaguentadas na pia do banheiro, enquanto observa a placa no muro de pedra através da janela. No quarto, a mulher estirada na cama. [VOCÊ] se pergunta a razão de não existir espelhos na casa, afinal, [VOCÊ] considera, a mulher é bonita. Uma morte ordinária. [VOCÊ] conta quantas vezes repetira aquele ritual. [VOCÊ] sabe de cor, é claro. Mesmo assim conta. E como [VOCÊ] gosta do medo delas e do cheiro!, sim, do cheiro de todas aquela mulheres – ele inebria. Medo e cheiro o alimentam. Depois vem um sentimento de ausência, uma ausência que não é morte, sempre quando [VOCÊ] lava as mãos na pia do banheiro. E isso acontece todas as vezes, e segue o mesmo ritmo, e vem na mesma ordem. Finalmente, [VOCÊ] diz: tudo terminado aqui. E não há quem escute a sua voz.
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Porra em brasa
A música não parava de tocar. A agulha da vitrola machucava a bolacha preta, e o chiado que saía da caixa de som era mais alto do que a voz agonizante do cantor de pagode do vinil. A porcaria do ventilador não funcionava como deveria. Teobaldo e Vânia suavam. A temperatura estava em torno dos cinquenta graus dentro daquela quitinete. Era verão, o asfalto derretia nas ruas da cidade. Nestas condições, uma trepada poderia levar dias para terminar. O sangue das pessoas queimava como brasa, tinha a grossa consistência do ferro em seu estado líquido. As pontas de cigarros escapavam do cinzeiro já cheio. Porra pra todo lado.
(Rodrigo Novaes de Almeidatem textos publicados em sítios literários e jornalísticos, como Le Monde Diplomatique Brasil, Portal Cronópios, Germina Literatura e Arte, Observatório da Imprensa, Jornal Rascunho, entre outros. Publicou, pela editora Mojo Books, a ficção A saga de Lucifere (The Trinity Sessions – Cowboy Junkies, e-book, 2009), e, pela editora Multifoco, o livro de contos Rapsódias – Primeiras histórias breves (2009). Recentemente publicou o livro de contos Carnebruta (Oito e Meio/Apicuri – 2012). É cofundador do coletivo literário O Bule e Colunista do Página Cultural)
O nome não importa e não creio faça diferença a essa altura do campeonato. Nem a idade. Ou a cidade onde morava. Pequena o bastante para que todos soubessem de sua vida e a recontassem, com certo exagero, a esta que escreve por mera curiosidade. Chamemo-la, portanto, de senhorita A., já na casa dos quarenta, relativamente agradável à vista, filha única entre nove irmãos. A sexta, para ser mais exata. E a única que restou naquela casa construída com o esforço de seu pai, militar reformado. Os irmãos partiram para cidades maiores. E só os viu novamente no enterro do pai, época da partilha. Deixaram para ela a casa e as parcas rendas que recebia mensalmente a título de pensão.
Senhorita A. não gostava de televisão, mas tinha verdadeiro apego ao rádio de mogno e às notícias. E às músicas que o aparelho retransmitia dia e noite. A inversão das horas era detalhe miúdo. Noite e dia. Salsa, merengue, fuga de Bach, Vicente Celestino. Ora, quem passasse em frente à casa saberia. A resistência do aparelho era impressionante. E sua sonoridade, quase pura, também. Para o mundo, ou pequena vila, era música o tempo inteiro. Para ela, supõe-se… Ah! Suposições, afinal, sempre serão especulativas. Então, que fosse somente música para ela. Todos já haviam se habituado ao som do rádio e à ausência da senhorita A. nos eventos mundanos. Ela não saía de casa. Mas escutava rádio o tempo todo.
Um dia a música calou. Acharam estranho, mas não deram tanta importância àquele silêncio repentino. O rádio, talvez, tivesse se quebrado de tão velho. Ou ela, a senhorita A., estivesse cansada de tanta música. Não se sabe. Até que um cheiro nauseabundo tomou conta de tudo. Um cheiro estranho e aterrorizante, como se todos os segredos e pecadilhos daquela cidade, ou o que ela escondia, pairassem no ar. As pessoas começaram a evitar umas às outras. A desconfiança, agora, era sentimento comum. Um dia a música retornou, baixa a princípio. Mais alta com o passar das horas. Belas músicas encheram o ar de certa esperança. Somente, então, se deram conta dos dias de ausência da senhorita A. e da música que, enfim, estava de volta, encobrindo o cheiro ruim, a desconfiança, os pecados. Bateram à sua porta. Ninguém atendeu. Arrombaram a porta. Ela não estava, mas, em sua cama, uma criança recém-nascida mexia as mãos. Fecharam a porta, levando embora o pequeno segredo.
Da senhorita A. nunca mais se soube.
(Mariza Lourenço (Valinhos/SP) é escritora e advogada. Integra as antologias: “Saciedade dos Poetas Vivos”, Vol. VI, organizada por Leila Míccolis e Urhacy Faustino (2008); “Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas” (2009); “Coisas de Mulher”, organizada pelo Conselho Estadual da Condição Feminina (2010); “A poesia é para comer”, organizada por Ana Vidal (2011) e “Amar, Verbo Atemporal”, organizada por Celina Portocarrero (2012). É Coeditora da Germina – Revista de Literatura e Artee das Escritoras Suicidas. Contato: marizalourenco@uol.com.br )
Nesses tempos pós-modernos em que os objetos enxergam, detectam, espionam, memorizam, calculam, filmam, tocam, sentem, reproduzem e falam o que bem entendem sem limitações de lugar, distância, fuso horário ou emoções, ocorreu o seguinte diálogo:
Mochila Surrada: “Nossa, que cara feia, aconteceu alguma coisa?”
Mochila Nova: “Não aguento mais esse burro que me carrega! O animal só falta meter a casa inteira aqui dentro. Estou me estufando toda pra acomodar dois celulares, carteira cheia de documentos e pouco dinheiro, cartões de visitas que não acontecem, santinhos de amigos candidatos a isso e aquilo, maço de cigarros, fósforos, vela pro santo, minidicionário com a nova ortografia, moedas soltas, esferográfica sem carga, papel pro baseado, par de head-phones, caderno de espiral, jornal de anteontem… Arre! E quatro livros virgens que não são lidos nunca, três porta-retratos de namoradas antigas, lanterna sem pilha, talão de cheques, volantes de loteria, proposta de financeira pra financiar a moto sonhada, marmita vazia, par de tênis e boné sobressalentes, estojo com escova de dentes e tubo de pasta, fita dental, bermuda pra consertar, miniguarda-chuva mofado, cotonetes, cortador de unhas, raquete de tênis com o cabo pra fora, canivete… Ufa! Camisinhas no invólucro, calção de banho, camiseta de grife falsificada, lata de refrigerante diet a consumir, embalagem de seis iogurtes com cereais, dois halteres surrupiados da Academia, figa pra cortar mau-olhado, relógio de pulso parado, chaves de casa, saco de amendoim, comprimidos de Viagra, frasco com cristais de gengibre… Arre! Ufa! E assim essa besta vai a toda parte, não liga se estou tomando chuva ou pegando sol, vai esbarrando nas pessoas e em outras mochilas na rua, no ônibus, no metrô, e eu levando pancada, sendo empurrada, e ninguém pede desculpa… Arre! Pior é que essa besta não me dá a mínima, nem me olha, claro, estou nas suas costas… Pra mim chega! Hoje mesmo, na hora do rush do metrô, vou abrir a minha costura do fundo e deixar cair no chão toda essa porcaria que carrego dia e noite, e noite e dia…”
Mochila Surrada: “Calma! Precisas ter paciência com essa nova geração. O animal que te carrega ainda está em formação. Já passei por tudo isso que me contaste. Mas hoje, vês como estou magrinha? A besta que me carrega entendeu que o mundo dá muitas voltas e há outras prioridades na vida. Então, foi largando tudo que não servia de imediato, e agora só me deixou com essa protuberância que sobressai bem aqui no meio!”
Mochila Nova: “Mas eu estou nas últimas… Aqui dentro não cabe nem mais um palito! Sim, vi que estás magrinha e só tens essa protuberância bem aí no meio… Afinal o que carregas agora?”
Mochila Surrada: “Na verdade, com o passar do tempo, a besta que me carrega começou a beber, largou emprego, amigos e namoradas, e então se afeiçoou a mim, dia e noite, noite e dia, morre de ciúmes e me isolou de tudo e de todos… Bem, resumindo, estou grávida de seis meses!”
***
O BESOURO E A LAGARTA
Na linguagem dos insetos, um besouro cascudo, com asas a mil por hora, equilibrou-se no ar e, provocante, disse a uma lagarta que sanfonava o corpo, devagar, quase parando, no tronco do marmeleiro:
“Oi! Lagarta! Olha pra mim! Vês como sou resistente, esperto, rápido e voo para onde quero?! E tu, pobre lagarta, és molenga, tens o corpo flácido e te arrastas lentamente. Aliás, acho que não sabes nem mesmo se vais ou vens. Quanto a mim, o zumbido das minhas asas é exaltado mundo afora por escritores, poetas, cineastas e outros artistas. Sou citado até na Bíblia! Deus quando criou o mundo me deu uma nobre missão…”
E a lagarta que sanfonava o corpo pelo tronco do marmeleiro, ao ouvir a provocação do besouro respondeu:
“É verdade o que dizes, mas só parcialmente, pois esqueces que a principal diferença entre nós dois está na natureza da nossa missão. Tu és aquilo que chamam de produto final e acabado, tuas serventias ou missões, como queiras, são eficientes, porém limitadas, enquanto eu, lagarta molenga, sou um dos bichos escolhidos pelo Criador – que valorizou ao máximo a minha lentidão, para a mais preciosa das missões…”
O besouro ouvindo aquilo se enfureceu:
“Como te atreves, lagarta pegajosa? Por acaso tens missão mais nobre que a minha? Maior nobreza do que o zumbido que produzo com a velocidade das minhas asas? Velocidade essa que também serve de inspiração para as fábricas de aeronaves e de tantos outros instrumentos? Ora, lagarta, eu não imaginava que fosses tão presunçosa! Então me diz logo o que há de precioso na tua lentidão?”
Ao que a lagarta replicou com expressão calma, mas definitiva, fazendo o besouro zumbir e fugir:
“Bem, como eu já disse antes, tu és, na Natureza, um ser final e acabado. Enquanto eu, carrego no meu corpo lento e sanfonado uma preciosidade, pois um dia serei borboleta sedosa e dourada, ou azul, ou prateada, ou estilizada, enfim, carrego a síntese perene do Universo, ou seja: trans-for-ma-ções!”
(Carlos Trigueironasceu em Manaus e foi alfabetizado pela Mãe aos 3 anos em folhas de jornal estendidas pelo chão. Viveu “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu em Manaus, Santarém e Belém, onde soube de canoas, igapós, socós, jaraquis, caboclas, pororoca, açaí, tacacá, maniçoba e do Círio de Nazaré. Viveu no Ceará dos 8 aos 12 anos, onde aprendeu de mar, dunas, falésias, jangadas, seriguela, agreste, sertão, arigós, e romarias a Canindé. Aos 13 foi pro Rio de Janeiro, onde assimilou morros, carnaval, mulatas, Copacabana, bondes, jogo do bicho, macumba, Maracanã, trens suburbanos, serviço militar, “a vida como ela é” do Nelson Rodrigues. Ainda menor, trabalhou para custear os estudos. Depois, viu outros Brasis por terra, mar e ar. Estudou na FGV e na Universidade de Roma. Trabalhou na Espanha, Itália, China e Estados Unidos. Quando crescer tentará ser escritor)
Quando Severino me apareceu pela primeira vez, nem me assustei, porque o vi de relance e queria voltar logo à sala, cioso de rever a chegada do primeiro homem à Lua. Há tempos me imagino astronauta, a saltitar no solo seco do satélite. Chovia muito, a luz dos postes bruxuleava na rua, os pneus dos carros jogavam água nas calçadas. Fui ao banheiro correndo, apenas para cuspir na pia e bochechar. Assim, nem acendi a luz. Além disso, a claridade da sala me permitia ver bem a pia e o espelho. Enquanto esfregava as mãos e cuspia, olhei para o retângulo de vidro e vi o bigode em branco e preto, leve traço de preocupação ao redor da boca e nos olhos. Muito parecido comigo, é verdade. Porém, apresentava uns traços de outro. Voltei à sala e não mais pensei nele, pelo menos durante uma hora.
Naquela noite e nos dias seguintes não falei nada disso a ninguém, muito menos a Sibila. O nome do desconhecido surgiu por acaso. Precisava de um nome. Qualquer um. E o primeiro (ou talvez o mais apropriado àquele rosto) a ancorar em meu porto – como barco perdido – se anunciou com letras redondas: Severino.
Para evitar discussões domésticas, passei a trancar a porta do banheiro, quando ia me ver. Sibila me vigiava e fazia perguntas: Por que tanto você se olha, Rafael? Está ficando vaidoso, depois de velho? Com a porta fechada, poderia passar alguns minutos a observar Severino, analisá-lo e até conversar, sem ser interrompido por Sibila. Mas não adiantou nada a minha precaução: ela continuou a me importunar. Está virando Narciso?
O segundo a aparecer se chama Mariano. Também usa bigode, como eu, mas em seu olhar há uma profundidade abissal. Não podia mais esconder de Sibila a novidade. Ela me chamou de doido. Parasse de beber. Aquilo era alucinação. Arrependi-me de lhe ter contado tudo. Ela não acreditou em mim.
Severino se mostrou mais algumas vezes, mesmo depois de Mariano e outros. Depois sumiu para sempre, ou até agora. Da segunda vez, também na moldura do espelho do banheiro, demonstrou vontade de me revelar um segredo. Não posso assegurar ter ouvido sua voz. Seria mentira. O bigode parecia mais branco do que preto, porém as rugas mais se acentuavam. Figurou-se um homem sofrido, desiludido. Falei-lhe (juro ter falado, e isso mais irritou Sibila, que riu, gargalhou e prometeu me levar à força a um hospital para doentes mentais) de meus problemas pessoais, domésticos e de relacionamento com Sibila.
Bernardo surgiu numa noite de muito calor. Passei alguns minutos a conversar com ele. Ainda não realizara a maioria dos sonhos, porém não desistia deles. Pensava em viajar à Europa, passar uns tempos longe daqui. Plano para um futuro próximo, coisa de um a dois anos. Precisava juntar mais dinheiro, parar de gastar com futilidades.
Muito me estranha em tudo isso é as pessoas só me aparecerem no espelho do banheiro. No do quarto não se apresentou ninguém. Para tirar dúvidas, comprei um espelhinho de bolso. Talvez eles quisessem se expor a qualquer momento, em qualquer lugar. Vez por outra, eu metia a mão no bolso, procurava saber se não estavam a me espionar os curiosos, fazia careta, mostrava os dentes, a querer enganá-los. Como se estivesse preocupado com limpeza. Certa feita, uma colega de trabalho cochichava aos ouvidos de outra. Riam. Tive ímpetos de lançar sobre elas o espelho ou o grampeador.
Nos últimos tempos, minha vida tem sido um martírio. Os antigos amigos se afastaram. As mulheres se aproximam, vão ao meu apartamento, dormem comigo (Sibila desistiu de mim), mas logo se afastam, ao me virem diante do espelho do banheiro, em conversas prolongadas comigo mesmo.
Ontem tudo piorou de vez: antes de me deitar, quebrei o espelho, espatifei-o todo. Fui dormir. Os cacos ainda estão no chão. Só assim poderei me livrar desses desconhecidos que me atormentam dia e noite. Mas uma força estranha me puxa para o chão, me força a juntar os fragmentos do espelho. Eles, Severino, Mariano, Bernardo e outros, parecem pedir socorro, como se quisessem voltar à vida, ao convívio comigo. Porém, não tenho força para remover do piso do banheiro os restos deles. Talvez me falte vontade.
(Nilto Maciel: Venho da serra, do verde do Ceará, mas meus pais e avós vieram do sertão seco. Do tempo do trabuco, da injustiça, da perseguição, de Antonio Conselheiro (Antonio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. Não esqueci isso. Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é a obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal. Ninguém me conhece, ninguém me lê. Sou marginal da literatura. Há muito deixei de sonhar com glórias e famas. Tudo isso é passageiro. O que é bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galardões, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances)
Dos degraus junto à calçada prorrompiam papéis e folhas varridos pelas lufadas de ar, prenunciado a torrente que se aproximava. Sob a leveza das malhas de algodão aguardava os pingos da chuva que lentamente lhe umedeciam a pele, o fôlego palpitante, apoiado por uma hachura decidida.
Caminhou ondulando as pernas, apreciando o tremular das gotas como um afago de nanquim que lhe retirava as ardências do dia.
Largou os sapatos encharcados junto ao chão luzidio da casa – a janela debatendo-se contra o vento numa cantoria estridente. As paredes lhe ampararam o cansaço. Via-se no debrum da água que a banhara como se só naquele instante realmente valesse a pena desvelar-se.
Os livros que carregava no colo amaciaram a mesa e as transparências da sala. Largou-os como quem liberta retratos de outrora, recolocando-os novamente no olhar. Quase perscrutava com exatidão pueril o chilreio das folhas semi-abertas, devorando as capas, os desenhos das capas, tateando: até onde tudo era somente o mosto de histórias, sons desertos, cores aninhadas em outras cores, águas dentro de outras águas?
Buscava rapidamente o ar mais puro e perfeito, como quem se dispõe a arrefecer o frio, a alma disposta sem repressões nos vãos da natureza. O barulho da enxurrada preenchia as fendas rudes da casa, o telhado ensurdecia-se dos pingos desfeitos na cerâmica. Viu-se no desassossego das ações mais simplórias. A louça do dia anterior ainda rescendia à canela e erva-doce. Quantas vezes tomara o chá desanuviada de afazeres para melhor prender-lhe o sabor? Não tinha dúvidas de que se filiaria algum dia, com tempo, ao movimento slow. Pensava enquanto o vapor do chá se misturava à poeira da chuva.
Lá fora para onde resolvera retornar, as flores permaneciam no seu crescimento inevitável. A legitimidade de estar conspirando para além da linguagem lhe parecia a incompreensão de assumir detalhes, a desistência decidindo por uma oposta intimidade apaixonando-se por silhuetas abstratas como se soubesse que, ao flanar sobre as coisas importantes, passassem, essas mesmas coisas a não ter mais lugar algum no mesmo e luminoso mundo que as pensara. No incomum, talvez mais oportuno e incômodo, longe de superlativos ou relativismos, a lucidez de arguir sobre o que é grandioso ou necessário nasceria invariavelmente da suspeita de não chegar a nada sem a via crucial dos sentimentos.
As pétalas palmilhavam-se de um amarelo descrente, olhava-as, em tintas musicais – colheu várias, sentiu-lhes a seda, como se pedisse desculpas por não considerar-se uma delas.
Pinças de brisa se estendiam na claridade morna, retorcendo-lhe a curiosidade. Com alívio, retornou para dentro da casa. Amaciando-se na umidade da aragem, desfazendo-se sobre lençóis e travesseiros rebordados de um cetim confuso porque de letrasbrancas que sobre o negro cansava-lhe o fundo mar dos olhos.
Pensava como se sonhasse… e escolhia retornar à beira do areal, ao menos até o verão retornar, a pele sugada por um farfalhar de asas, em movimento de abraços…bastava-se num colar de ametista, afoita, sulcada pelo que se fora, quiçá em ramas de mangues, de uma garça que vigiava – o vento ruminante torcia as gaivotas, tomava notas ao secar-lhe os olhos suspeitando que a sensibilidade das retinas desse em algo possível de prodigalizar. Adiava as ondas enquanto ganhava novos óculos escuros, as têmporas renovadas pelos filtros duros de lume, da brandura árida que não mais lhe provocava lágrimas. Como se assim pudesse evitá-las.
No lado mais despido da praia o bailado das dunas era um dueto a agigantar-lhe os cílios no rumor sonoro e miúdo do algaço. A vida era real como o vento que soprava a memória dos sais retidos de Suminha. De outro ponto os cardumes contrariavam a correnteza e as redes como se fossem seus olhos multiplicados em cepas e borbulhas, em busca de fertilização.
As mãos restavam finas produzindo fogueiras sobre o mar – repletas de matizes azuis e verdes, a rebuscar a serenidade líquida transportando-a, imensurável, para uma tela qualquer, sem importar-se se alguém diria que era um auto-retrato, um resto obscuro retirado da coloração irresistível dos corais.
Os dedos ágeis como o choro contido nas achas por arder, perfuravam o silêncio, prosseguiam nos mimos hirtos do horizonte, bebia do sargaço, do sumo esgarçado nas bordas dos barcos que mascavam a madeira carcomida pelas cordas da âncora. “Sobe um pouco mais, Suminha, preenche o ato duplo dos gestos com o teu verde pueril – há ornamentos suficientes para estilhaçares condições que por um descuido fútil do destino não mais te pertencem. O tato, Suminha”.
Retomou os despojos. Alguma coisa sobrara dos rabiscos que ousaram ferir a brancura daquele dia, das polifonias daquele vento, daquele sal, se a preenchessem de mais cor, de mais força – o que havia perdido permanecia em origamis devorados por fungos de esperança – quantos pronunciavam que a experiência não se media entre os dedos, entre o passado e o futuro, tampouco em entretantos.
Suminha do desacato chamuscava os feitiços luminosos, não suportava a ideia de submeter-se por mais tempo ao torpor. “Que cores acordam-te mais a música por dentro, Suminha? Assim, na umidade? Que rio te quer decantar esse azul-vermelho-débil-verde?”. Dá voos aos beijos azuis, lava a lama das asas, o corpo fenece, lúbrico, como se moldado pelas águas que lhe caíram do céu, na face, na secura febril dos olhos, o azul fiel lhe dá guarida.
A xícara de chá é óleo, medium, piano, tecido. Agora sentia o sabor, controlava as gotas, recriando-se, diluída do silêncio, na leveza de esvaziar-se no que lhe agradava. O peso leve da louça era igual ao da vida, da sua vontade que enfeitara feito Penélope cega, partituras dispostas num circuito infalível… a limpidez dos nadas que carregava como adornos. Dos engenhos orquestrados, das teclas, das paletas. Demais o que desconhecia, era desnecessário dispor… os azuis salpicavam-lhe os cabelos, como pincéis de outono musicando-lhe o que, independente de solicitações, concebera para o mundo – Suminha é a multiplicação assídua dos sons suspensos na memória, na umidade lídima de cada segundo que ensaia abrir-se no horizonte.
(Tere Tavares é escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: t.teretavares@gmail.com)
Riram. Era uma brincadeira antiga, da época em que se conheceram: ela, preparando a tese. Ele, o orientador que não chegou a sê-lo… A relação aconteceu e, de comum acordo, decidiram que ela procuraria outro professor. Nem por isso a pressão foi menor. Em muitos olhares, o imediatismo rotulava, sem sursis: veterano-estende-as-asas-sobre-a-novata. E poderia ter sido pior; tivesse a “vítima” alguns anos a menos e o crime estaria consumado, não se podia brincar com essas coisas.
A maré do politicamente correto extrapolou, afrontando os limites do bom senso – dizia ele. – Facilite… E até Lolita e Morte em Veneza acabarão queimados em praça pública.
– Não exagere – dizia ela.
Ele ria:
– E a lei contra os Adônis que enfeitiçam os velhinhos? Deveria existir uma, não?
Ela ria:
– E qual seria o nome desse crime… Gerofilia?
– Sim… Muito próprio. – E ele improvisava a premissa: – Não gerofile, para não ser pedofilado.
– Proponha esta na próxima reunião e estaremos condenados em duas vias, sem direito a habeas corpus.
– Falando em habeas…
– Falando em corpus…
A brincadeira se repetiu ao longo dos anos, mesmo depois de perder a graça; ela, mais que ele, chamava o riso como tábua de salvação, como refúgio das crises que também se repetiam, indefinidamente.
Passado o espanto geral, que de roldão consumira também certos encantos, as coisas começaram a se acomodar. Ninguém mais estranhava a parceria, nem a ironia que permeava o enredo natural daquele amor: ela, já não bastasse os muitos anos a menos, aparentava ser tão menina… Para entrar no cinema, só mostrando Identidade que provasse ao menos dezoito, dos vinte e três já completos. Ele, em contrapartida, já aos dezesseis se passava por “maior”, nos bailes e cinemas da cidade interiorana onde nascera. Cabelos precocemente grisalhos e o sagrado costume da cerveja completavam o quadro, adiantavam o tempo e, aos olhares alheios, alongavam mais ainda a distância entre os dois.
O tempo. O curso. Da universidade e das coisas. E a tese, que não saía nunca.
– Se você não pode ser meu orientador, então não quero mais ninguém – ela dizia. E se por algum tempo esse argumento surtiu efeito, foi também se desgastando, como tudo, como um todo.
– Não era isso – ela confessou, numa das raras noites de cerveja que conseguiram a sós, porque a universidade era um mundo que se estendia para além do campus, até o bar, até a casa, até os amigos e tantas horas compartilhadas. – A Dança seria o princípio e, a Geografia, o meio… Sabe? O meio pelo qual a Dança viria a acontecer, sem as amarras das concessões profissionais necessárias à sobrevivência. Mas tudo virou do avesso, a Geografia se espalha e não faço outra coisa a não ser projetos.
– Não há lugar para dois, com a Geografia. Ou é ela ou é ela, se é que você me entende, e eu às vezes acho que não.
– Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no tempo e no espaço? Nunca, dirá você.
– Nunca, tu o disseste.
– “Salvo quando se amam”, disse o poeta. E se essa verdade não pode harmonizar a Dança e a Geografia, então quero nascer de novo.
– Você já nasceu tantas vezes, lembra… Ou não, não mais?
Ela fechou os olhos, fazia isso quando sentia dor ou acusava o golpe, claro, quantas vezes não dissera “acho que nasci de novo”, depois do amor?
Foi naquele amanhecer que os dois se descobriram de partida, ele para o campus, de corpo e alma, porque aquela era mesmo sua vida, sua escolha, desde antes dela e, com um pouco de sorte, também depois dela – embora no momento ele não soubesse, não tivesse a menor ideia de como faria para sobreviver àquela ausência. E ela enfim para a dança, habeas corpus, habeas anima. Ele, que não acreditava em deuses, acabou maldizendo os desígnios que deram a ela uma bolsa, no ano seguinte, para um estágio fora do país.
Encontraram-se uma vez, na Europa, mas aquela não valeu: ela estava embriagada demais com a liberdade e ele embriagado demais com a alegria de revê-la.
Agora, anos depois, um novo reencontro: ele gostou de achá-la, ainda, bela. Gostou de gostar de vê-la, embora a dor.
– Você ficou bem famoso – ela brincou, recurso que sempre usava para driblar o embaraço. – Ouvi falar, por aí.
– E você?
– Como? Você não ouviu falar de mim?
Ele ficou sério, um segundo antes do riso. Ela riu, também, e tudo foi como antes, por um instante.
– Você está dançando?
– Às vezes.
– O que houve?
– O de sempre. Não sou articulada, não me relaciono com as pessoas “certas”, não me enquadro muito nas coisas. – E imitou o tom de voz que ele usava, quando queria ser categórico: – Se é que você me entende, e eu acho que não.
Ele riu, de novo, agora sem muita vontade. Ela continuou:
– Mas eu tinha que ver, não é? Eu precisava ir. E fui bem, por uns tempos… E “ir bem”, ainda que por uns tempos, deixa um gosto de “sempre”, quando se trata de Arte.
– Isso me lembra aquela sua velha máxima: “A Arte acima de tudo.”
– Não – ela responde. E ele vê nisso algo de novo. – Não existe acima, nem medida alguma, nesses casos. Só uma sensação de que as coisas têm um sentido.
– Isso você podia ter…
– Você podia. Não eu.
– Então, perdemos uma geógrafa brilhante… para uma bailarina…
– Apenas razoável?
– Eu não disse isso.
– Claro que disse. Mas não faz mal.
– Escute, ainda dá tempo.
– Tempo do que, meu amor?
– Esse “meu amor” me pegou de surpresa.
– O que prova que você continua o mesmo… Surpreendendo-se com o óbvio e olhando com cara de velho para o que é realmente novo. Agora me leve daqui para um lugar mais decente, onde se possa tomar um bom vinho.
– Você também não mudou. E isso, não sei por que, me faz bem.
– Não era o que você dizia.
– Não era o que você pedia.
Ele abre a porta do carro, ela sorri:
– A velhice dando vez à juventude?
– Não, o cansaço dando lugar a algo que não quero definir agora.
– E quem disse que é preciso definir?
– Temes definhar ao definir?
– Idiota! – Ela ri. – O fim vai chegar, para nós. Para todos nós. Mas não hoje.
– Você não vai acreditar, mas isso, para mim, já é alguma coisa.
“Acredito”, ela quis dizer, mas achou que não seria preciso.
(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)
Numa gaveta, as viagens. O véu do silêncio. A hipotética presença de uma ave no mundo das coisas pares. Pensa-me e não temas a resposta. Afianço que o primeiro beijo subiu da água.
Também os olhos são vitrais. E passam informação de milhares de anos. Um rio. A fraga enorme que sustenta o céu. O rigor das coisas caladas. Há símbolos para o nosso encontro numa concha de orvalho. Ainda sabíamos tudo sem nenhum esquecimento. E dançávamos.
O sol parte do mesmo ponto. Das rosas. E arde. É desse sangue que a manhã começa. Sem desculpas. Enormíssima coisa viva que explica o princípio comum da arte. Pareceu-me ouvir da morte. Tu não estavas.
(A poeta portuguesa Alice Fergo é formada em História pela Universidade Clássica de Lisboa. É autora de “As Mãos na Pedra” (1995), “Versos de Água” (2000) e “Quando junto às horas se ilumina um rio” (Labirinto, Fafe, 2009))