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71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

AFAGO

Fábio de Souza

 

Ele ressonava, de modo que pude surpreendê-lo com o afago delicado na nuca suada. Parecia ser sempre assim: quando ansiávamos algo, vinha a tal necessidade do corpo do outro, como se daí fosse provável extrair não o calor, ou a aspereza da pele, mas um pouco da nossa própria subsistência, do afeto que nos garantiria um pouco mais de tempo, sim, essa urgência toda a nos impelir ao toque. Da janela, todas as tardes, era possível sentir o dia inflamar-se de um calor que segregava essas horas insondáveis à beira do sono, quando tudo o que tínhamos era que aguardar que esses corpos aí arrancassem um do outro um certo gozo sofrível, quase às raias da inanição. Para então desabarmos, como se ruísse a carne. Nessas horas me esquecia de quem eu era, se homem ou mulher, para experimentar daquele ranço à beira do sono. Ali mesmo. E desconfiava se de mim não se esvaia a vida, sem que eu sequer a sentisse. Beijei-lhe a fronte, então. Um gesto providencial, como se a reafirmar minha própria existência ao seu lado. E notei que ele ainda dormia. Num timbre aveludado, quase um sopro a afetar-lhe naquela iminência insuspeita, tão imerso que ia: “vamos, acorde”, eu disse…

 

 

***

 

 

ESTRANGEIRO

 

No pesadelo da noite anterior eu morria nessas paragens. Velho e só, feito agora. Uma tarde igual a essa, quente e de brisa nenhuma, o ar como que estagnado. Um mal que me acometia num desses repentes. Me levava até a última memória. E lá ficava eu, oco por dentro, minguando sob aquele deserto todo, azul e ofuscante, qual esse que já me assola o juízo. Piso o cimento, ensaio palavras numa língua que mal sinto o gosto. Tarde de domingo, acho. Caminho a passos omissos. A estação rodoviária deserta. Penso se chegaria ao fim de tudo. Esqueço o propósito de minha viagem até ali. Deixo de buscar o endereço horas depois, mais ou menos quando me perdi. Mais ou menos nesse instante, quando resolvi entregar os pontos e ceder. Sim, mais ou menos aí, quando eu já não tinha mais forças para exigir coisa alguma de minha vida àquela altura. De modo que sentei. O banco de pedra de meu pesadelo. E esperei, sobre o dorso das horas. Esperei que algo me ocorresse. Uma puta dor no peito…

 

(Fábio de Souza é escritor. Nasceu em Cuiabá, MT, em 1987. É colaborador dos coletivos literários “Dona Zica tá braba” e “Filacantos”. Reside atualmente em Brasília)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

CINCO ESTRELAS

Frederico Latrão

 

Com a disciplina de um artesão, levantou junto ao sol e preparou o café da maneira mais tradicional possível: água quente no bule, mas não fervida, e jogada diretamente nos grãos torrados e recém-moídos colocados em filtro de pano. Logo a cozinha e a casa se preencheram do mais intenso perfume. Com uma xícara fumegante em uma bandeja, voltou ao seu quarto pisando devagar, desviando dos calçados e das roupas jogadas no chão durante a madrugada. Ela, em meio aos lençóis revoltos e ainda com os pensamentos amarrotados, se senta na cama, olha para a cena e toma a xícara tímida, retirando os cabelos do rosto e segurando as lágrimas pela emoção de estar sendo tratada como nunca havia sido antes.

Ela odeia café.

***

DEMISSÃO

As coisas pessoais que guardava em seu antigo escritório estavam todas dispostas em apenas uma caixa. Não queria levar muita coisa dali. Nada de lembranças. Elas, para ele, são meras bagagens esquecidas por aqueles que passaram pela sua administração. Também nada de levar os troféus ganhos pelos bons serviços prestados. Eles ficarão dispostos nas prateleiras para que sirvam de recado para aquele que chegará em seu lugar, um aviso singelo de que terá muito trabalho pela frente. Assim, pegou sua pequena caixa e saiu. Ao abrir a porta, viu todos os antigos subalternos dispostos em um corredor, batendo palmas. Muitas palmas. Mal se escutava a sua voz dizendo obrigado. Muitos choravam de emoção. Já o ex-chefe, seguia agradecendo e sem nem ao menos mudar a expressão.

Ao sair de vez do inferno, todos os demônios se perguntavam quem ocuparia o lugar de Lúcifer. Os rumores dizem que o posto será de um demônio muito mais novo e com um currículo invejável, mas que fará o mesmo trabalho ganhando bem menos.

(Frederico Latrão é escritor, poeta, haicaísta e uma doce fraude, pois é o eu-lírico sem rosto do jornalista Gilberto Porcidonio no blog Versos Patéticos e no twitter @FredericoLatrao. A alcunha pomposa lhe veio em um sonho durante um retiro espiritual e após o uso exacerbado de substâncias com alto teor cafeínico)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

VÉRTEBRAS E CORAIS

Marcia Barbieri

 

“E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”.
(NIETZSCHE, F. Para Além do Bem e do Mal)

Os carros não passam nos becos. Vértebras partidas impedindo toda possibilidade de travessia. As ruas são escuras e a luz barata morre antes de tocar o fosco do chão. Jonas perdido dentro da baleia. Vísceras e Deus dividindo o mesmo leito. Temporal lá fora. Algumas poças devolvem um retrato cruel de mim. Doryan Gray. Marginais defecam no meu rosto magro. A barba cresce (ou seriam apenas penugens?) e sinto que posso a qualquer instante rejuvenescer. Experimento o medo de todos os meus antepassados através do meu sorriso pálido. Dou uma olhada ao redor. A lua atrás continua minguante. Retrocesso. Vejo as fases da lua no calendário. Cheia, às vezes. Quando estou com sorte. Rasgo o verbo, principio de todo infortúnio. Me recordo que Ela espera. O cais despenca dos seus cabelos molhados.

Gosto de observá-la. Calado como um animal solícito na expectativa de uma migalha. Ela afia a faca sobre a pedra furta-cor, inclina a cabeça para o lado e tira pacientemente as escamas. Corta as rodelas de tomate, de cebola, pica o pimentão. Vermelho. Ela gosta do vermelho e das cores púrpuras. As entranhas escorrem poéticas pelas suas mãos pequenas de mulher perdida. Todas elas cortesãs. Nunca amaria alguém tão frágil nas extremidades – era tão certo devorá-la! Os olhos do peixe insistem em me interrogar, em me deixar inseguro. As pálpebras mortas no mar. Os escafandristas procurando refúgio para seus suicídios diários. Submergir e emergir para esse mundo de merda. O enigma da vida perdido em alguma isca não devorada.

Toda noite sonho que moro num lugar cheio de cerejeiras. As noites são brancas e os dias se diluem entre um intervalo e outro do relógio. Um engano matemático. Somente.

Ela chama para o almoço. Já é tarde. Ela gosta de se gabar da sua maestria na cozinha. Me sento na mesma cadeira de sempre. De frente para o descaminho. Desvio o olhar. Começo a comer. Engasgo com uma espinha. Ela fica atravessada na minha garganta. Como aquele nó que se forma quando queremos chorar e o choro não vem. Estrangulando toda palavra, qualquer tentativa de discurso. Começo a entender o que significa escutar o silêncio. Me calo. O talher bate no prato. Vão. Entre uma ideia e outra. A saliva viscosa escorre feito esperma molhando a espinha. Resistente. Ela parece se deliciar com o mar formado na minha laringe. Saudades de sua origem. Os olhares se voltam pra mim. O centro do universo. O umbigo depravado do mundo. Envaideço. Aos poucos a gosma da minha garganta envolve a solidão da espinha. Ela se despedaça e desce. Solto um pequeno sorriso, dez centímetros de talho. Eles voltam a movimentar as mandíbulas e os talheres continuam a ensurdecer meus ouvidos. O zunido das pedras caindo nas águas.

Irei embora, antes acendo um cigarro. De longe, Ela imagina que a brasa entre meus dedos é um pequeno pôr-do-sol. Quase apagado.

 

(Marcia Barbieri é paulista. Possui textos publicados nas Revistas Literárias Coyote, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Tem três livros publicados: dois de contos e um romance. É colunista da Revista Literária O BULE)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

REFLEXOS

Márcia Denser

 

(para Filadélfia Jones, onde quer que você esteja)

“Marco,

Hoje abri a janela para o domingo chuvoso e inerte. Entediada, liguei o computador onde uma jovem marquesa triste molhava a pena e começava uma carta:

‘M,

Chove esta manhã. Não obstante o tempo, será impossível mandar selar Juno. Quando desci ao pequeno salão, fui informada por Artémise que Mme. Berthe mandara Lorin à Meséglise, de onde só retornará à noite. Creio não ser possível nos avistarmos no local combinado. Prevejo um serão melancólico com o senhor cura e M. de Charlus a jogar gamão e Berthe, minha carcereira, vigiando os postigos. Como sofro ao saber-te tão próximo e inatingível. Desgraçadamente, partiremos amanhã para Ostende. Estaremos separados durante todo o verão sem o derradeiro consolo de uma despedida. Nuvens carregadas me afligem com maus presságios, todavia tu não mereces que te faças sofrer. Manda a razão dizer-te que estás livre, mas meu coração é teu prisioneiro. Basta por ora, meu amigo, Berthe se aproxima…”

Marco, suponho que você saiba que a carta da marquesa é essencialmente igual a minha, embora também desta vez eu me escondesse por detrás do estilo rococó de espartilho e anquinhas, através do qual todo sentimento humano soa frívolo e melodramático. Como se a autora os ignorasse quando, no fundo, tem medo. Meus múltiplos disfarces já não te divertem mais. Aos reflexos do que não sou, você responde com suas próprias imagens deformadas.

Lembro do que disse naquele dia de fevereiro – lembro-me bem porque o sol fervia e Cortázar havia morrido – obrigando-me a ouvi-lo, a te encarar frente a frente: Cortázar que vá para o inferno! Onde está você? Está aí, e me sinto só, entende? Sei que não estou sendo objetivo, mas veja: você está em cima, embaixo, atrás, na frente, mas não ao meu lado, ao meu lado nunca. E seus punhos esmurravam as paredes quando era minha cabeça que você queria quebrar para enfiar um pouco do teu desespero lá dentro. Lá, onde se pressupõe que viva a compreensão, lá, onde mantenho aprisionada uma andorinha ferida embora ela se debata e bata e me atordoe e enlouqueça.

Não sou a marquesa encerrada em seu castelo pela governanta, o mau tempo ou um cavalariço, nada impede que eu tire o carro da garagem, recapitule o itinerário, o traçado de ruas e avenidas que em quinze minutos me fariam estacionar em frente à tua casa, debaixo da árvore de flores amarelas cujo nome não sei, buzinar até que teu belo rosto jovem apareça no terraço, rever tua expressão de resignado desgosto, te pressentir descendo as escadas com brusca lentidão a contragosto dos teus próprios passos que lentamente atravessariam o jardim, detendo-se do lado de dentro do portão com os antebraços apoiados na grade numa tentativa de sorriso que os lábios não obedeceriam. Trocaríamos cumprimentos à distância, talvez eu dissesse que passava por acaso ou talvez não dissesse nada; educadamente perguntaríamos pela família, pelo trabalho, pela saúde, pelos amigos, acrescentando comentários a respeito das próximas eleições, da catástrofe do México, do último filme e até da meteorologia, sempre tão incerta, aí talvez você arriscasse um elogio falsamente bem-humorado sobre meu corte de cabelo que eu retribuiria com um sorriso complacente (aquele que você detesta) acendendo um cigarro enquanto buscavas teu maço no bolso, retesando o frágil arco do silêncio até que presumivelmente eu o rompesse com um soluço, um palavrão ou uma súplica, cedendo ao impulso de estilhaçar este muro de vidro a que chamamos realidade e boas maneiras e tanta cordialidade, para, mais uma vez, encontrar do outro lado a máscara sem rosto da tua infinita, obstinada negação.

Levanto a cabeça e, debaixo das lágrimas, vejo a chuva, o domingo, as duas da tarde: não, não sou a marquesa, não me é permitido padecer de irrealidade. Mas continuarei tentando.

Saio e ligo o carro. A cena martela meu cérebro: teu belo rosto, o desgosto resignado, um ramo de flores amarelas, tuas pernas lentamente, a tua boca, a tua boca insuportavelmente formando palavras que você não quer dizer e eu não quero ouvir, e mais uma vez o silêncio das palavras não ditas, dos gestos desfeitos, o muro de vidro que um dia atravessarei quando abandonar a marquesa, o sorriso complacente, minhas medalhas de religião, uma cicatriz que deformou minha alma, minha inteligência, minha cultura, meu saldo bancário, meu prestígio, sobretudo meu prestígio, mas que importa tudo isso se conseguir atravessar os espelhos e passar para o outro lado, para dentro do teu abraço, finalmente libertando a andorinha.

(A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global, 1986, Ateliê, 2003, 2010, 2ª edição), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda CasabrancaeHell’s Angel – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que Hell’s Angel está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

I’m always crashing in the same car

[Diário Sentimental – Julho, 2010]

Maurício de Almeida

 

Sylvia Plath cutuca a orelha do meu pai satisfeita por saber que ele não é alemão, mas mineiro, e assim, ao redor da mesa, comemos uma macarronada pesada e bebemos um vinho barato e depois, singelamente tomados pela languidez de uma maré alcalina pós-prandial um tanto alcoólica, o cigarro caindo mal no estômago, o marasmo carregado deste apartamento suspenso no domingo, Drummond nos explica as ruas de uma cidade que provavelmente não existe (mas meu pai diz conhecer) rascunhando mapas e setas em formulários oficiais e diz

– devagar… as janelas se olham

e, de mãos dadas, Sylvia Plath e eu na sacada contemplamos sem interesse a noite despencando lenta no horizonte limitado desta cidade (que também não existe, apesar das janelas e dos formulários oficiais) e suspiro olhando longe

– eu direi as palavras mais terríveis esta noite

Drummond sorri, mas Sylvia Plath me ignora até que a noite finalmente pesada sobre nós e apenas eu e ela neste apartamento à deriva, a segunda-feira assolando em alarmes, mas, por enquanto, o domingo quente nos envolve em suor, a dimensão amorfa das nossas bocas engolindo-se envenenadas por conhaque e as mãos dela firmes segurando meus braços, espalmando meu peito para escapar num salto e negar o segredo de sua pele quente, o sutiã ainda fechado sobre os peitos, o mínimo de suas pernas abertas, pois ela sentada nesta cama cobrindo-se com o lençol como se de repente tomada por uma raiva que comove as noites mais interessantes de ócio e insônia, e percebo que de pouco resolveriam palavras terríveis, por isso sento-me também, pego o copo de conhaque perdido ao pé da cama e ofereço a ela um gole, pois talvez um tanto mais de álcool aplaque a auto-piedade subindo forte, mas ela teme (ou deseja demasiadamente, não sei) o que há de mais absurdo na embriaguez, palavras confusas, ideias impertinentes e impulsos incontroláveis, e, sem pressa, aponto meu dedo em riste e procuro o tom certo para dizer que o calor deste domingo está me atazanando a libido, mas fico quieto ao vê-la agora em pé expondo seu corpo branco e não muito esguio, ela caminhando devagar em direção a janela, olhando como se não visse o horizonte impossível desta cidade, penumbra de copas das árvores, luzes acessas, letras pairando em neon, ela caminhando para alcançar o rádio, ligá-lo

Those kilometres and the red lights

e pegar a bolsa sobre a escrivaninha com certa displicência e alguma intenção, desarmar a tampa de um tubo pequeno e distribuir um forro espesso sobre uma tira de seda para bolar um inventando origamis com a língua e sumir na fumaça

I was always looking left and right oh, but I’m always

ela ao meu lado e nós deitados e muitíssimo quietos, o som ecoando monocórdio

I’m always crashing in the same car

um arrepio me subindo as costas, a garganta seca e os ouvidos cismados em sons descontínuos

always always always

ela me alcançando o rosto, nossos lábios muito secos investigando-se sem cuidado, um tumulto de línguas, Sylvia Plath me mordendo o pescoço e estes olhos imensos e esvaziados me encarando como se não me vissem, mas eu em estado de graça por esquecer rumores e insônias e conseguir me fingir longe deste quarto à deriva de segundas-feiras

I was going round and round the hotel garage

Sylvia Plath me pesando sobre o corpo para estatelar meus olhos num gozo e dormir um sono tranquilo de criança, então me aconchego a ela, fecho os olhos e a envolvo num abraço para embalar o sono e continuar gestando este momento no meu absurdo ventre de algodão e molas, a paz desta noite plena de fugas, entretanto, ela se contrai e se debate, a janela sopra uma brisa leve que sacode copas das árvores, apaga luzes e avacalha letras pairando em neon fazendo-a acordar, cabelos desgrenhados, olhos amarrotados

– ainda é noite

eu digo e ela apenas sorri

– durma

e ela se espreguiça e se ajeita e redescubro o corpo dela que volta ao sono, meus dedos coçam as palmas suadas para evitarem tocar o pouco das pernas dela que foge ao lençol, alguns pêlos muitíssimo escuros serpenteando a virilha aos quais não resisto e dedilho em compassos lentos os suspiros dela, nossos braços se enfrentam, minhas pernas entrelaçam sem jeito às dela e ensaiamos passos tortos nesta noite que se faz confusa também por ela violentamente em pé, um abandono, um adeus, ela se levanta

– Sylvia?

conturbando as coisas deste quarto que se sobrepõem me compondo isto que entendo por vida e sei não existir saída, pois estamos aos círculos ao redor da mesa, a mesma macarronada pesada e o mesmo vinho barato, o cigarro me acertando murros no estômago para me nocautear neste colchão soterrado por uma pilha de sonhos catastróficos confundindo rostos e medos e, ainda que vasculhe (e vasculho) o que há de mais íntimo neste breu em busca de alívio ou descanso ou qualquer coisa, outra vez me atento à confusão de sons que se explica em pessoas suspirando tédio, questionando a aurora ainda distante e ela pisando leve pela casa

– Sylvia?

não me dando ouvidos

– Sylvia?

não importa o quanto eu diga, o quão alto grite, e eu grito, é claro que eu grito, pois ela abrindo a porta da sala

– Sylvia

para sair correndo por entre copas de árvores e setas neon que Drummond desenhou em papéis timbrados sem se importar com essa ânsia que me corrói em grandes mordidas por me saber dando o mesmo muro na ponta da mesma faca, não posso aceitá-la correndo longe sendo que uma espécie de conforto os dedos dela entre meus cabelos, o corpo quente que eu envolvia num sono, mas agora, às 3h da manhã desta madrugada ordinária, Rilke e Rosa jogam escravos de Jó e, derrotado nesta cama, tenho certeza absoluta de que Sylvia Plath enfiou a cabeça num fogão porque se cansou disto que me cansa.

 

 (Maurício de Almeida é autor de Beijando dentes (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007)

 

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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Foto: Viviane Rodrigues

CURTÍSSIMOS CONTOS

Gladson Dalmonech

 

(20)

Haveria poesia sem palavras? – Pensou ele, chegando à praia, de madrugada, sol quase nascendo. Depois, despojou-se da mochila com os livros, da garrafa de vinho pela metade e das roupas. Em silêncio, mergulhou naquele instante em que a onda se ajeita pra escrever poemas obscenos na areia.

(68)

Os ponteiros do relógio avançavam como cães ferozes no tempo. Ele a esperava, mas ela não veio. Nem nunca mais viria. Uma hora e meia e sete cigarros depois, só o que restara dela era aquele isqueiro vagabundo, com os dizeres “eu te amo”.

(102)

O cara o esfaqueou e correu. O outro caiu na calçada, em frente ao bar. Saí da mesa, última cerveja, fui ajudá-lo. “Você tem um cigarro?” – ele perguntou. Acendi e passei pra ele. “Nem precisa chamar a ambulância. Entendo de facas”. – e deu uma tragada funda. “Apenas fique aqui comigo. Morrer sozinho é foda”. Sentei-me ao seu lado e ficamos ali, mastigando o silêncio da espera. Lá longe, o destino assoviava uma canção no vento da madrugada.

(120)

Ele acolheu o sorriso dela numa foto. Lá se iam trinta e cinco anos daquele clique. E a guardou, em preto e branco, no meio das páginas de um livro surrado. Hoje, arrumando sua velha estante, ela voltou à tona – mesmo doce sorriso – quando a foto, num escape da cela das páginas, mergulhou no piso do escritório. A saudade lhe acenou do retrato. Iria visitá-la. O manicômio não era muito longe.

(216)

Voltou da missa, foi pro quarto, tirou a roupa, fechou os olhos, desceu os dedos. O padre novo da paróquia não era coisa de Deus.

(Convivo com Gladson Dalmonech há 47 anos. Ele, que é professor universitário de comunicação e mestre em Estudos Literários, vive às esfregas com as palavras. Sujeito estranho, ganhou o II Concurso de Contos da Playboy, em 1998, e desde garoto tem essa mania de rabiscar suas loucuras onde der. Agora mesmo escreve seus Curtíssimos Contos no Facebook. Não é fácil conviver com ele. Eu já estou preso dentro dele há tanto tempo que até me esqueço que ele tem dupla personalidade)

 

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Desenho: Rui Cavaleiro

 

DURMAM, SEUS TROMBADINHAS!

Roberta Simoni

 

Tentei colocá-los para dormir mais cedo. Vesti todos com pijamas de algodão com estampa de bolinhas. Acomodei-os em travesseiros fofinhos. Fronhas e lençóis limpinhos. Cheiro de lavanda, tecido florido. Janelas e cortinas fechadas. Luz apagada e…

Um deles levantou-se invocado e disse: não gosto de bolinhas! O outro: prefiro listras. O outro: tem uma camisola? Na outra extremidade da cama, um anunciou: vou dormir pelado! Pro cacete vocês todos. Durmam como quiserem, desde que durmam!

Por fim, eles todos: tem café?

Brigaram por espaço na cama, se acotovelaram, fizeram guerra de travesseiro, treparam feito loucos. Discutiram, duelaram e se amaram. Fumaram meu último cigarro. Quebraram minha única taça de vinho. Beberam todas as minhas garrafas d’água no gargalo. Abriram o Chandon que eu estava guardando. Esvaziaram minha dispensa. Escancararam a janela do meu quarto. Puxaram minha coberta. Deixaram meus pés de fora…

Espalharam livros pela minha cama e não me deixaram ler nenhum. Nem escrever. Falaram a noite inteira. Me desconcentraram, distraíram e dispersaram. Julgaram, ofenderam e divertiram. Riram alto. Gritaram no travesseiro. Morderam fronha. Puxaram meu cabelo. Fizeram cafuné. Não tiraram um cochilo. Viram o dia amanhecer comigo. Me esvaziaram e depois dormiram feito anjos.

Meus pensamentos ocuparam, outra vez, o lugar que é seu na minha cama.

(Roberta Simoni é jornalista e fotógrafa e foi só quando descobriu que podia unir as duas linguagens numa mesma forma de expressão (e impressão) que começou a se realizar como escritora, carreira que assumiu recentemente, quando finalmente percebeu que não tinha mais pra onde correr)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Desenho: Rui Cavaleiro

AY, ESTE AZUL

Teofilo Tostes Daniel

 Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.
(Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)

Um caos de formas, cores, luzes e gentes. Vozes chamam incessantemente para um embarque imediato. E ela, ali sentada, simplesmente aguarda. Aguarda e observa, espectadora que é. Ouve conversas, torrentes de palavras, que se desgarram de seus contextos para habitarem novos sentidos dados pela escuta flutuante daquela mulher, em contemplativa postura diante do ruidoso turbilhão.

Anita era aquele tipo de pessoa que se destaca pelo silêncio. Não exatamente pelo silêncio, mas por um consciente mutismo, opção sua desde que descobrira a vaniloquacidade de quaisquer palavras. Conhecia bem a inutilidade do verbo diante de argumentos de força. Por essa razão, era lacônica e precisa, como um haikai.

Ali, imersa em seu silêncio, a beber o mundo com os olhos, estava, quando um homem lhe chamou a atenção. A familiaridade daquele rosto, perdido no tempo, seria certamente reconhecida em meio a qualquer multidão. Aqueles olhos… Num impulso, levantou-se e foi até ele.

– Com licença. Provavelmente você não me reconheça. Aliás, eu nem sei se você é você. Quero dizer, se você é quem eu estou pensando que é. Qual o seu nome?

Disse tudo como uma tempestade, com a antiga eloquência perdida. Abdicada. As palavras quase montavam umas sobre as outras, para sair mais céleres. Eram como animais acuados que, num repentino rompante, encontram um ponto de fuga.

– Ro…

Sim, era ele. Anita jamais esqueceria aqueles olhos do mais belo azul turquesa que já tinha visto na vida. A medida de sua mudez se ligava estreitamente àqueles olhos, que ela havia conhecido quando tinha entre oito ou nove anos, na escola. Estavam às vésperas da festa junina e ela iria dançar com Rogério, o dono daquele azul.

A turma se via mergulhada nos ensaios da coreografia da quadrilha, com seus pulos, gritos e túneis, em que todos os pares seguiam os noivos. Anita chegou a ser cogitada para o papel da noiva, mas abdicou. O noivo já estava escolhido de antemão, e ela não queria dançar com aqueloutro menino antipático e metido, dono de estúpidos olhos, verdes e demais convencidos de si.

Anita era só ânsia. Queria logo vestir-se de caipira e dançar, mergulhada naquela imensidão que sequer intuía, num azul que só parecia existir na intersecção entre céu e mar. E naqueles olhos… A roupa já estava escolhida. A maquiagem, de bochechas vermelhas, sardas e dente preto-faltante, era testada quase todo dia. Arriscava acabar com o estojo inteiro de maquiagem da mãe antes de chegar o dia da festa. E como demorava para chegar esse dia!

Por mais que uma iminência demore, no entanto, ela sempre chega. Porque os únicos tempos simbólicos são o futuro e o passado. O presente não se enxerga, nem se apercebe. Ninguém coloniza o hoje. O presente simplesmente é – ligação entre a memória e o sonho. E, gozosa ou desgraçadamente, é nele que se vive. Assim, a festa, que existia como futuro, de repente chegou defronte do portal do agora, pronta para habitar o passado. E foi no agora, no instante, no presente que tudo aconteceu. Mas Anita só se apercebeu de tudo quando a festa já era passado. Pretérito imperfeito: já era.

Pouco antes da apresentação da dança, quando estavam se alinhando os pares, a diretora da escola cismou que aquilo não estava direito. Como puderam deixar uma menina tão alta ensaiar esse tempo todo com um menino tão diminuto? Teriam que rearranjar os pares. A professora chegou a esboçar alguma defesa da desordem já estabelecida, mas não teve jeito. A diretora colocou Anita para dançar com um menino comprido e desengonçado, de olhos foscos, baços. Já Rogério deveria dançar com uma menininha ruiva e sardenta, de olhos muito grandes e negros, semelhantes a uma noite sem lua.

Indignada, Anita bradou contra aquela arbitrariedade. Apesar de sua pouca idade, sabia argumentar bem. Não se intimidava diante de autoridades que não se mostravam legítimas. Questionou de todas as formas possíveis a diretora. Indagou o porquê do império métrico criado para a apresentação, quando tudo sairia melhor se cada pessoa dançasse com quem tem afinidade. Além disso, mudanças naquele instante, quase na hora da apresentação, poderiam confundir a todos. Mas a diretora era irredutível. Não era estético combinar pares tão desproporcionais, como eles.

Enquanto discutia com a diretora, Anita procurava os olhos de Rogério. O menino diminuto permanecia com o rosto inclinado para o chão, mas a olhava, vez em quando. Seu olhar, quase súplice, parecia pedir que ela desistisse daqueles questionamentos todos, pois aquilo não daria em nada. Como quem falasse “deixa, deixa para lá…” – e ela não deixava.

Somente quando a diretora afirmou, quase aos berros, que era ela quem mandava ali e seria do jeito que ela determinasse, é que Anita percebeu que todas as suas palavras foram inúteis. Contra argumentos de força, de poder, as palavras valem nada. Intuiu isso e calou. Calou as palavras, a voz e o choro. Dançou com o menino alto, desengonçado e de olhos baços. Em silêncio. Só não calou as lágrimas, que insistiam em lavar seu rosto. A maquiagem ia ficando cada vez mais borrada pelos caminhos abertos por esse choro silencioso, brotado quase à revelia da dona do pranto. Ao fim da dança, em silêncio, se retirou. Não havia mais festa. Nunca houve. Não para ela, que tanto a havia esperado.

No banheiro, lavou o rosto. Retirou toda aquela maquiagem sem sentido. Tinha vontade de trocar aquela roupa, aquele vestido florido, comprado especialmente para a festa que não houve. Com os olhos vermelhos e inchados, obstinadamente lacrimais, chegou séria perto da mãe. Disse que não queria mais estudar naquele colégio. A mãe quis saber por quê. Ao se ver defrontada com a necessidade de explicar o que houve, Anita chorou alto. Agarrou-se à mãe e pediu, por favor, que a trocasse de escola. E nunca mais pisou ali.

– …berto.

– Como?

– Roberto – repetiu, um pouco mais articulado.

Não era ele. Mas como podia ter aqueles olhos? Nunca havia visto olhos iguais, até aquele dia. Anita não sabia muito o que fazer com aquilo. Nem saberia o que fazer, caso realmente encontrasse com Rogério. Pensou que o verdadeiro dono daquele azul fosse ainda um menino, talvez. Um menino que ficou preso ao passado. Talvez fosse nela, para sempre, aquele menino que ela nunca mais vira.

– Então você não é você. Digo, não é quem eu pensava que fosse.

Anita notou o semblante daquele Roberto. Parecia abatido. E ela parecia perder a eloquência, novamente. Mas ainda tentou se agarrar a um resto de palavras que lhe vinha.

– Desculpe, Roberto. Devo estar te aborrecendo com isso. Você está indo viajar e aparece uma louca…

– Imagine, é que estou um pouco atordoado. Na verdade, estou chegando de viagem. É a primeira vez que viajo de avião. Segunda, a primeira foi a ida. E ainda trago na bagagem as cinzas do meu irmão, que eu mal cheguei a conhecer.

Acenou um adeus, mas não conseguiu dizê-lo. Não conseguiu, também, encontrar palavras para falar ao desconhecido, diante de tudo quanto ele havia dito. Mas quem consegue encontrar palavras diante da vida, do incomunicável, do desconhecido, da ausência, da morte?

O que dizer para a própria finitude?

 

 (Teofilo Tostes Daniel é um carioca, nascido em 1979, que vive em São Paulo. Formado em Produção Editorial pela UFRJ, trabalha com comunicação pública. Lançou seu primeiro livro, “Poemas para serem encenados”, em 2008. Participa da coletânea “História Íntima da Leitura” (no prelo). Seus escritos são o produto de seu silêncio perplexo ante o mundo)

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Foto: Juh Moraes

PROBLEMA DE LINGUAGEM

Regina M. A. Machado


Nada impede, responde a mãe, mas presta esclarecimento: o verde dos parques é para dar realce ao marrom. Marrom de quê? Marrom de onde? Do Tietê, de tudo. Cidade com pouco marrom não é cidade, é mata Atlântica; quer voltar aos tempos do descobrimento, poço de ignorância?

Zulmira Ribeiro Tavares, « Vinhetas com o Tio Paulista »

O telefone tocou na hora do almoço e ela atendeu na copa mesmo, foi por isso que todo o mundo entrou na conversa com a amiga francesa.

– Oi, Sandrine, que boa surpresa, você por aqui? … Quando é que vem me visitar?… Não vai ficar em São Paulo? Vai para onde?… Para o campo?!?

Os meninos começaram a rir e a caçoar.

– Pois é, você ouviu, né? O pessoal achou engraçado porque aqui ninguém diz isso. Existe a palavra, claro, mas não se usa nesse sentido. Usa o quê? Ééhhh….. acho que eu diria… para o interior?…

– Só se for para uma cidade do interior!

O papo continuou em francês e eles se desinteressaram. Quando ela desligou, um deles perguntou se a moça ia para alguma cidade.

– Não, ela não quer saber de cidade e na falta de coisa melhor, vai continuar dizendo campo mesmo.

– Campo fica com cara de tradução acadêmica.

– Como é que a gente pode dizer?

– Ela vai para alguma fazenda?

Também não era fazenda – ela tinha perguntado e a francesa disse que não estava interessada nem em plantação nem em criação de gado porque para ela isso era paisagem devastada. E o que ela mais queria era rio com mata preservada, muito passarinho, e para isso tinha que ter muita árvore, coisa que nunca tem bastante em fazenda.

– Isso também não, na fazenda do vovô tinha muito passarinho.

– É, sobretudo em gaiola…

– Menino, como você inventa! Você nem sequer conheceu a fazenda direito. Na beira do rio havia uma mata enorme, tinha até lobo-guará quando eu era pequena.

– Passarinho, então, era mato…

– Ô menino metido! Havia muito sanhaço nas mangueiras, e no pomar o tio Ademar caçava passarinho, lembra? Eu morria de pena quando via os coitadinhos, tão pequenininhos, sangrando no chão. E ninguém dizia nada, acho que era normal… nunca entendi muito bem.

– Pois eu achava bonito, ele tão elegante, com botas e roupa cáqui, de bigode e aquela espingarda reluzente…

– Caraca! As armas e os barões ornamentados com um peito varonil! Acho que prefiro os desejos bucólicos da amiga da titia… e então, qual é o programa dela?

– Bom, ela vai passear na floresta e vai se hospedar num hotel ecológico. O dono do hotel guia os hóspedes para ver, ouvir, fotografar os pássaros, descobrir plantas, essas coisas…

Além dos filhos, havia também os sobrinhos que estudavam perto e vinham almoçar na casa dela. Ela gostava de receber a família, sobretudo os mais jovens, de ouvir as histórias e dar risada com as conversas deles. A irmã também vinha às vezes, talvez para não esquecer dos almoços de domingo na casa da mãe, só que para os sobrinhos não adiantava marcar dia – eles passavam quando estavam pelo bairro ou então não vinham. Não dava mais para fazer como antes, a cidade era outra, muito maior.

– Daqui a pouco você vai dizer que ela vai passear no bosque enquanto seu lobo não vem…

– Pois é, eu também estava pensando nisso e não achei a palavra que queria. Floresta para mim lembra contos de Grimm, coisas traduzidas que a gente lia quando era criança. Ou então uma ideia-problema, como “floresta amazônica”, que fica tão longe que não é bem real.

– Para mim, bosque é que é uma palavra literária, desencarnada. Floresta é normal, aliás tem uma bem mais perto, a floresta da Tijuca…

– Mas essa é reconstituída. Depois que pelaram a montanha para plantar café, apareceu um inglês maluco que replantou tudo. Até o José de Alencar fala nisso…

– Então como é que fica? E se a gente disser que ela vai pro mato?

– Mato pra mim ficou como lugar de escravo fugido, vai bem com capitão do mato, esconderijo de bandido, não combina com a europeia em busca de natureza-pureza.

– Ninguém ainda falou em mata! Tem a mata Atlântica, as matas ciliares… e nisso se fala muito.

– Mas será que dá para dizer que alguém vai para a mata? Nunca ouvi isso.

– Achei! A gente podia dizer que ela vai para a roça!

– Combina menos ainda…

– Roça eu gosto, vai bem com caipira, biju, café com duas mãos, cambucu…

Sempre havia um ou outro dos mais velhos para ensinar alguma coisa aos seus adolescentes preguiçosos e ela bem que gostava. Se ousasse corrigir o que os filhos diziam, ou tentar trazer alguma informação nova, era revolta ou caçoada na certa. Vindo dos primos mais velhos, tudo passava macio, e, mesmo se houvesse discussão, era evidente que eles ouviam.

– Vocês sabiam que ele comprou um dicionário de caipirês?!

– Fui buscar socorro, figura! Meti a cara num mundo soterrado, nas nossas catacumbas, no nosso tesouro de piratas. Eu sou um universitário pasteurizado, só leio teoria traduzida e falo uma língua de merda, mas para ser um caniço pensante eu tenho que ter raiz. Paixão de raiz, sacomé?

– Tempo perdido, ô cientista! Essa menina não tem nem ideia do que você está querendo dizer. Ela agora quando fala parece que anda decifrando língua estrangeira, com essa mania de pronunciar tudo que está escrito. É besta mesmo!

Os outros aproveitaram para massacrar:

– Não é besta, pobrezinha. O problema é o tamanho da ignorância que é imenso, global…

– Ah-ha, ontem ouvi ela dizer que, de noite, ia estar assistindo todas as novelas…

– Quem não concorda com vocês é sempre uma besta, isso a gente já sabe. Mas com dicionário e tudo, ainda não vi o grande pesquisador dizer “nóis vai”…

– É, isso não dá. Mas para mim é uma outra maneira de falar, que não é a da minha tribo. Será que é errado? Não sei. Mas também não sei viver em floresta e moro em prédio. Verdade que tem gente que acha que essa é a única maneira civilizada de morar… E o pior é que cada vez mais gente mora assim. Assim como eu, aliás, mas nem por isso acho que é uma boa.

– É uma boa morte, isso sim… E se a gente não achou um jeito de falar do que a amiga da titia está procurando é porque floresta para nós é para ser derrubada, mata em beira de rio é desperdício, né? Pra quê, deixa só uma fitinha… não tem lugar na língua porque não tem lugar na terra.

– Caipira também é um nada, todo o mundo agora faz como a telespectadora ali, só acredita nessa linguagem desenraizada, sem nenhum caráter…

– A dela é uma espécie de melting pot raso, de feiticeira fashion victim…

– E eis que o inglês invade a linguagem da nossa kamikaze fundamentalista!…

Às vezes, esquentava. Havia os de esquerda, os da direita e os que planavam, depois vieram os apaixonados por ecologia e, por último, o sobrinho estudante de antropologia. Esse só falava em culturas ameaçadas, civilizações desaparecidas, e os outros só com a natureza; parecia um concurso para ver quem ia desaparecer primeiro, se eram as florestas e os bichos ou as danças e os sotaques… O único que gostava da tecnologia quanto-mais-melhor, era o filho do meio, bom de matemática, esperto e caladão, mas pegava na hora qualquer cochilo dos mais idealistas.

– E você aí, ô peregrino de bastão e pé no chão, esqueceu que descobriu tudo isso por causa da internet? E se quiser ir adiante nas pesquisas, vai ter que ler muita publicação em inglês…

– Cada um tem a internet que merece… e fala o inglês que pode.

– Tá bom, mas tá chato! Vamos voltar para o passeio da francesa, pelo menos estava engraçado.

– Por mim, ela pode ir cagar no mato.

– Pronto, engrossou. E eu daqui a pouco vou ter que ir. Tem café, tia?

– Tem, é claro! Já se viu faltar café nesta casa?

– … nesta herança direta dos latifundiários barões do império!…

– Mais respeito, menina, os nossos bisavós nunca foram barões, eram fazendeiros, sim, e sempre cuidaram da terra.

– Ora, mamãe, com a mão do gato, né? Que eu saiba eles nunca moraram na fazenda, trocaram os escravos pelos colonos e fizeram casarão na Paulista.

– Vocês dois, fiquem sabendo que a nossa família nunca nem chegou perto dessa fortuna que estão imaginando. E morou na fazenda sim, não trabalhava no eito, mas estava lá o tempo todo. Quem veio para a cidade, para um bairro bem mais modesto e sem casarão nem mansão, foram meus pais. E vieram para os filhos poderem estudar, seus ingratos!

– Quem pediu? Eu sonho é com uma casa de madeira, com rede na varanda, lampião de querosene e um céu com todas as constelações se atropelando de brilho…

– Ô cara, isso é sonho de citadino! Se você nunca tivesse saído de lá, ia sonhar é com a divina agitação desta megalópole.

– Coitado, nunca acampou, nunca saiu do asfalto, nunca transou debaixo da tenda…

– Coitado é filho de rato que nasce pelado no meio do mato!, gritou o primeiro, mas foi cortado por uma e logo duas vozes cantando em coro.

– “Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”…

– Assim não dá, todo o mundo berrando e cantando ao mesmo tempo vira bagunça.

– Voltemos à amiga, que é assunto neutro.

– Foi pro mato. Cadê o mato? O fogo queimou. Cadê o fogo? A água apagou…

– Cala a boca, papagaio de pirata!

– Não fale assim com seu primo! Quer sair da mesa?

– Mas ele não para de dizer besteira, ora!

– Besteira na sua boca é mato – cada coisa em seu lugar…

– Bom, tá na hora, vou puxar. Pena que vou sem saber para que raio de lugar vai a francesa. Depois você pergunta para ela?

– Não adianta, filho, ela vai me responder com um termo de lá das terras dela, que ela vai traduzir como puder. Vocês que gostam de andar no mato é que devem saber…  eu não ia nem no capinzal, para não sujar a roupa nem o sapatinho de verniz, então não dá para saber o nome de coisas que nunca fiz.

– Eu também vou indo. Mas não fique triste, minha tia, a gente gosta de você assim mesmo, bem sinhazinha de sala e de piano. E até a próxima tertúlia, bandalhos.

(Regina M. A. Machado mora no exterior há muitos anos e, para ela, o Brasil visto de longe começou a mostrar tantas e tão várias cores, sons, gentes e falares, que ela não teve outro jeito senão tentar entender para se entender)

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68ª Leva - 06/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Foto: Juh Moraes

CEMITÉRIO SÃO PAULO

Daniel Faria

Para o Marcelo Ariel

Sou uma coisa meio azulada. E não é porque não sou sua, nem de quem quer que seja (inclusive aquele que escreve), que não trago comigo uma emoção autêntica. Passo levemente minhas mãos translúcidas pelo seu rosto e você pensa que se trata do seu jeito único e pessoal de ver as mazelas ou os encantamentos do mundo. Mas tudo bem. Chamo isso de “minha generosidade”: apagar-me em benefício alheio.

Não me escondo nas sombras que vazaram dos seus olhos. Pense na sombra como um contorno que dá textura real ao Inferno leve e melancólico que te consome. É que pra conversar no inferno, fazer-se entender sobre o inferno, o cachorro e a criança se lambem, resmungam, olham-se fixamente nos olhos. Pra falar no inferno, o cascudo às vezes é a palavra necessária.

Estou aqui muito antes de você nascer, e sobreviverei às suas pálidas ilusões de “marcar presença” no mundo. Pense numa espiral azulada que se concentra num turbilhão. Pense na força, voracidade e violência de um turbilhão faminto, cheio de dentes afiados, que se desfaz aos poucos ou que desaparece inesperadamente. Um turbilhão com todos os nomes possíveis, o seu, que me lê, e também o daquele que neste momento me escreve. Trata-se, você bem vê, de uma leveza estranha: capaz de operar um deslocamento nas coisas com sua palidez azulada (a professora de história explicou um dia: as letras Ordem e Progresso são azuis, como azuis são as ruínas de um hospício abandonado). É uma leveza capaz de ferir, de conhecer seus ínfimos êxtases e de manter-se em perplexidades passageiras. Uma leveza atravessada pela multidão assombrosa de anônimos, apaixonados, caçadores e visionários. E você (te ensinaram este nome) chama o turbilhão de “meu íntimo eu”.

Agora, se você não está entendendo aonde quero chegar, pense na bandeira de uma nação qualquer, manchada com sangue de ketchup, formando uma espécie de tapete vermelho de boas vindas na entrada de um cemitério.

 

(Daniel Faria é historiador e poeta. Autor do livro O Mito Modernista, publicado pela EdUFU em 2006. Publicou Matéria-Prima, pelo projeto Dulcinéia Catadora em 2007. Acaba de ser incluído na Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel e editado pela Caiçaras. Seu Livro de Orações está no prelo, pela série Caixa Preta, da Lumme. Participa da Revista Mallamargens)